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terça-feira, 7 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27898: (De)Caras (246): Lembrando a participação do ex-Alf Mil Cav Francisco Gamelas, CMDT do PelRec 3089; do ex-1.º Cabo Bernardino Lima, Condutor/Apontador do PelRec 3083 e a minha como ex-CMDT do PelRec 2208, no Colóquio “O Regimento de Cavalaria N.º 6 na Guerra Colonial: Perspetivas Locais e Globais”, levado a efeito, no dia 23 de Novembro de 2021, na Universidade do Minho (Ernestino Caniço, ex-Alf Mil Cav)

1. Mensagem do nosso camarada Ernestino Caniço, ex-Alf Mil Cav, CMDT do Pel Rec Daimler 2208 (Mansabá e Mansoa) e Rep ACAP - Repartição de Assuntos Civis e Ação Psicológica, (Bissau) (1970/1971), com data de 5 de Abril de 2026:

Caros amigos
Votos de ótima saúde.

Face à referência de Francisco Gamelas, ocorreu-me enviar-vos fotografias aquando da nossa participação em 2021.11.23, no auditório da Universidade do Minho no Colóquio “O Regimento de Cavalaria N.º 6 na Guerra Colonial: Perspetivas Locais e Globais”.

A participação dos ex-combatentes no painel, foi precedida de entrevistas moderadas pelo Sr. Comandante do RC6 Coronel Miguel Freire e pelo Professor Francisco Mendes da Universidade do Minho.


Na fotografia 1 da esquerda para a direita:
1 - Professor Francisco Mendes da Universidade do Minho
2 - Ex-Alferes Francisco Gamelas que foi Comandante do PelRec 3089 e que esteve na Guiné entre novembro de 1971 e outubro de 1973.
3 - Ex-1.ºCabo Bernardino Lima que foi Condutor/Apontador de Daimler no PelRec 3083 que esteve na Guiné de novembro de 1971 a outubro de 1973.
4 - Ex-Alferes Ernestino Caniço que foi Comandante do PelRec 2208 e que esteve na Guiné entre janeiro de 1970 e dezembro de 1971
5 - Tenente Mário Sampaio Nunes que foi Comandante do PelRec 1166. Este pelotão esteve em Moçambique, entre fevereiro de 1967 e março de 1969, e, o então Alferes Sampaio Nunes comandou o pelotão, em rendição individual, entre dezembro de 1967 e fevereiro de 1969
6 - Comandante do RC6 Coronel Miguel Freire

Foto n.2
Foto n. 3

Páscoa feliz.

Um abraço,
Ernestino Caniço

_____________

Nota do editor

Último post da série de 24 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27853: (De)Caras (246): Memórias do meu braço direito no Pel Caç Nat 52, em Missirá e Bambadinca: O Furriel João Manuel Sousa Pires (Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52)

Guiné 61/74 - P27895: As nossas geografias emocionais: Teixeira Pinto, ao tempo do Francisco Gamelas, ex-alf mil cav, Pel Rec Daimler 3089 (1971/73)


Foto nº 1 > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto  (hoje Canchungo)> c. janeiro / fevereiro de de 1972 > Vista aérea do quartel e da vila (e depois cidade)


Foto nº 1A > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > c. janeiro / fevereiro de de 1972 > Vista aérea do quartel (lado esquerdo e direito da imagem)


Foto nº 1B > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > c. janeiro / fevereiro de de 1972 > Vista aérea do quartel (lado esquerdo) (1)


Foto nº 1C > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > c. janeiro / fevereiro de de 1972 > Vista aérea de parte do quartel  (lado direito) (2) e da  vila  (início da avenida principal) (4)


Foto nº 1D > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > c. janeiro / fevereiro de de 1972 > Vista aérea da do início da pista e do heliporto (4) e da povoação, mais peerto da bolanha (5)


Foto nº 1E > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > c. janeiro / fevereiro de de 1972 > Vista aérea da vila  (avenida principal e, ao fundo, a tabanca de Canchungo (4)

Se dividirmos a foto nº 1, em quatro ou cinco partes, teremos: 

(i) Em baixo, direita  – Aquartelamento (Foto nº 1A) (dividida em 1 e 2);.

(ii)  Aquartelamento, lado esquerdo (Foto nº 1B): oficina e por cima da oficina, ao meio, os gabinetes do comando do batalhão e secretaria, e as comunicações;  linha de edifícios sobre a direita: instalações dos sargentos, refeitório e instalações dos oficiais.

(iii) aquartelamento, lado direito  (Foto nº 9C): instalações dos soldados, refeitório dos soldados e bar dos oficiais; depois da última linha dos edifícios, por entre as árvores ainda se divisam as instalações do CAOP1 e, ao lado, as casernas dos comandos.

(iv)  final do caminho que vem da bolanha e entra pelo aquartelamento, fica a porta de armas;

(v) Em baixo,  esquerda – para baixo, o caminho que vai dar à bolanha, que termina no cais (foto nº  2) e, sobre a esquerda, vê-se o início da pista de aterragem e o heliporto.

(vi) Em cima,  direita (Foto nº 1E) – centro da vila (depois cidade), avenida principal), no final da qual ficava o aldeamento do Canchungo.

 
 Foto nº  2> Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > c. janeiro / fevereiro de de 1972 >   Cais fluvial (Rio Costa Pelundeo, afluente do rio Mansoa


Foto nº  3> Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > c. janeiro / fevereiro de de 1972 >  Quartel > Pau da bandeira (2)


Foto nº 4 > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > Janeiro / fevereiro de 72 >  Quartel (pormenor), cum uma Berliet em primeior plano, em segundo plano a antena das telecomunicações (2)

Fotos (e legendas): © Francisco Gamelas (2016). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné > Carta da Província  (1961) > Escala 1/500 mil >Posição relativa de Teixeira Pinto, na zona oeste, entre o rio Cacheu e o rio Mansoa. A nordeste fica Pelundo e a leste Bula e a sudeste Bissau.


Guiné > Carta de Teixeira Pinto (1953) > Escala 1/50 mil > Posição relativa de Teixeira Pinto / Canchungo, capital do chão manjaco (que eram densamenmte povoado antes da guerra)

Infografias: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)


1. Francisco Gamelas: nascido em Aveiro, em 1949, formou-se em engenharia eletrotécnica (ISEP, 1969), esteve na Guiné, em Teixeira Pinto, em 1971/73, como alf mil cav, a comandar o Pel Rec Daimler 3089, ao tempo do BCAÇ 3863, do CAOP1  e da 35ª CCmds.
 
Depois de reformado (foi quadro superior da PT),  tem-se dedicado à escrita, à poesia e ao ensaio histórico-sociológico.
 
Vive em Aveiro. Entrou para a Tabanca Grande em  19/5/2016. Tem cerca de 6 dezenas de referências no blogue. (*)


 2. No seu livro, "Outro olhar - Guiné 1971-1973" (AVeitro, ed. autor, 2016, 127 pp.) pode encontrar-se uma detalhada descrição da Teixeira Pinto daqueles tempos (pp. 16 e ss.) (**)


(...) "Implantada na planície, a meio da metade litoral norte da Guiné, entre os rios Cacheu, a norte, e Mansoa, a sul, mais próxima do último e dele recebendo a visita das suas águas na bolanha (...), a sua parte nobre e mais recente desenvolveu-se a partir da abertura de uma larga avenida em linha recta, com orientação aproximada norte-sul, que ligava o primitivo aldeamento do Canchungo ao quartel erguido a sul do povoado, a cerca de seiscentos metros de distância. 

"O quartel albergava as sedes de uma batalhão [o BCAÇ 3863] e de um CAOP [CAOP1]. Este com uma companhia de forças especiais - comandos [a 35ª CCmds]. 

"Na avenida, ou a ela chegados, sediavam-se os serviços disponibilizados, próximos do quartel. (...) 

"De ambos os lados erguiam-se casas de habitação de aspecto colonial, tendencialmente as melhores da cidade. Que me recorde, em nenhuma delas habitava uma família nativa". (...)

3. Em 1 de julho de 1972, havia cerca de 380/400 homens em armas na vila de  Teixeira Pinto (Zona Oeste, Setor O5)

CAOP1 - Comando + 35ª CCmds
BCAÇ 3863 - Comando Sector 05 + CCS
1 Pel / CCAÇ 3461
Pel Rec Daimler 3089

(**) Último poste da série > 28 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27779: As nossas geografias emocionais (63): Farim, ao tempo do Manuel Jordão Revelos, ex-sold at art, CART 2384 (Farim, Mansoa, Mansabá, 1968/70)

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27893: Esposas de militares no mato (7): Teixeira Pinto, ao tempo do Francico Gamelas, ex-alf mil cav, cmd Pel Rec Daimler 3089 (1971/73) - Parte III


Foto nº 1 > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto


Foto nº 2 > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto >  Maio de 1973 > Casa  de tipo colonial, situada na avenida. Em primeiro plano, a Maria Helena Gamelas, a um mês de regressar à metrópole, já grávida.


Foto nº 3 > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto >  Janeiro de 1972 > "Extremo norte da Avenida. Dentro do perímetro da estátua a Teixeira Pinto, o alf mil  Francisco Gamelas e o alf mil Joaquim Correia Pinto, meu camarada de quarto. Nesta zona situavam-se as casas de comércio de libaneses." (Pela data, janeiro de 1972, o Joaquim Correia Pinto deveria pertender à CCS/BCAC 3863 (1971/73).


Foto nº 5 > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > Janeiro de 1972 >  Extremo Sul (à saída do aquartelamento) da avenida de Teixeira Pinto (Vd. foto nº 4) . Na abertura para a direita, a 50 metros, ficavam os correios, com serviço de telefone


Foto nº 6 > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > Junho de 1972 > Saída de Teixeira Pinto para o Pelundo (a nordeste de Teixeira Pinto).



Foto nº 7A e 7 > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > Janeiro de 1972 > "Cine Canchungo, situado no início da avenida, próximo do Quartel, sobre a via ascendente (esquerda), numa praça que se abria entre o Cine  e a Casa da Assembleia do Povo, edifício paralelo a este, sobre a esquerda da fotografia. A antiga vila foi elevada a cidade pelo Ministro do Ultramar, Silva Cunha,  em 24 de julho de 1973."


Foto nº 8 > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > Janeiro de 1972 > "A 'oficina' do Pelotão Daimler,  É visível o 1º cabo mecânico David Miranda que fazia o 'milagre de manter as viaturas sempre operacionais. 

"Chegámos a ter  duas ou três Daimlers, vindas da sucata de Bissau, para  'canibalizar'. Ao trabalho do Miranda muito ficou a dever o sucesso do Pelotão". (Em segundo plano, "a casa do chefe da PIDE/DGS".) 


Foto nº 9 > Lisboa > Cais da Rocha do Conde de Óbidos > 11 de outubro de 1973 > O regresso do Pel Rec Daimler 3089 > Da esquerda para a direita,  José Eduardo Alves,  Gonçalo Garcia Pedroso, David da Silva Miranda, Lino Pereira Barradas, Manuel Lucas dos Santos, José Gabriel Caloira...


Foto nº 10 > Lisboa > Cais da Rocha do Conde de Óbidos. > 11 de outubro de 1973 > O regresso do Pel Rec Daimler 3089  > Da esquerda para a direita, Manuel Teque da Silva, Ademar Peres Marques, Luís Soares da Silva e Fernando Cândido Silva.

No regresso do Pel Rec Daimler 3089, faltam o Alberto da Conceição (que também viajou connosco mas não ficou nesta foto de grupo), o José Matos (evacuado para a metrópole na primeira metade da comissão), o Manuel Ferreira (que substituiu o José Matos, e que ficou ainda lá, a completar o tempo de serviço) e o 1º sargento Rui Baixa (que ficou na Guiné).

Fotos (e legendas): © Francisco Gamelas (2016). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. O Francisco Gamelas foi um dos nossos camaradas que casou e levou a esposa, a Maria Helena (ou Lena) (*), para o "mato", neste caso Teixeira Pinto, sede de circunscrição (equivalente a concelho, vila elevada a cidade em julho de 1973), onde já havia algum cheirinho de civilização: por exemplo, um cinema, uma escola, um posto médico,  ruas alcatroadas, algumas casas comerciais,  electridade (de gerador), lavadouro público, etc.

De seu nome completo, Francisco António da Costa Vieira Gamelas,  nasceu em Aveiro, em 1949, formou-se em engenharia eletrotécnica (ISEP, 1969), esteve na Guiné, em Teixeira Pinto, em 1971/73, como alf mil cav, a comandar o Pel Rec Daimler 3089, ao tempo do BCAÇ 3863, do CAOP1  e da 35ª CCmds.
 
Depois de reformado (foi quadro superior da PT),  tem-se dedicado à escrita, à poesia e ao ensaio histórico-sociológico: 
  • "O apelido Gamelas: um património histórico e sociológico de Aveiro" (2009); 
  • "Lavradores do Vilar ou o casamento inter-pares como estratégia de sobrevivência" (2014) (ambos publicados pela ADERAV - Associação para o Estudo e Defesa do Património Natural e Cultural da Região de Aveiro);
  •  "Outro olhar - Guiné 1971-1971" (a sua "primeira incursão nas áreas da poesia e da crónica".
Vive em Aveiro. Entrou para a Tabanca Grande em  19/5/2016. Tem cerca de 6 dezenas de referências no blogue.


Capa  do livro de Francisco Gamelas ("Outro olhar - Guiné 1971-1973. Aveiro, 2016, ed. de autor, 127 pp. + ilust.   


2. Neste seu livro, "Outro olhar - Guiné 1971-1973",  pode encontrar-se uma detalhada descrição da Teixeira Pinto daqueles tempos (pp. 16 e ss-.)

(...) "Implantada na planície, a meio da metade litoral norte da Guiné, entre os rios Cacheu, a norte, e Mansoa, a sul, mais próxima do último e dele recebendo a visita das suas águas na bolanha (...), a sua parte nobre e mais recente desenvolveu-se a partir da abertura de uma larga avenida em linha recta, com orientação aproximada norte-sul, que ligava o primitivo aldeamento do Canchungo ao quartel erguido a sul do povoado, a cerca de seiscentos metros de distância. 

"O quartel albergava as sedes de uma batalhão [o BCAÇ 3863] e de um CAOP [1]. Este com uma companhia de forças especiais - comandos [a 35ª CCmds]. 

"Na avenida, ou a ela chegados, sediavam-se os serviços disponibilizados, próximos do quartel. (...) 

"De ambos os lados erguiam-se casas de habitação de aspecto colonial, tendencialmente as melhores da cidade. Que me recorde, em nenhuma delas habitava uma família nativa". (...)


3. O Francisco ainda se lembra do nome da sua lavadeira, a Aline (**): era uma verdadeira "instituição", pertencente à "cavalaria", passava do velhinho "alfero das Daimler" para o periquito que o vinha render... 

Dedica-lhe inclusive um ternurento poema, "A minha lavadeira Aline" (p. 54), que voltamos a reproduzir  a seguir.

O autor também tem inclusive, no livro, duas fotos da sua "Aline" com a sua "Lena"... 

A Maria Helena Gamelas, quando chegou a Canchungo, também herdou muito naturalmente a Aline... E, calhar, lá em casa, a Aline também fazia o resto da lide doméstica, já que a Maria Helena era.professora de português na escola local, não era apenas a senhora do senhor alferes...

Curioso, noutros territórios como Angola ou Moçambique, havia maior tendência para recorrer aos homens para os serviços domésticos... Caso dos "mainatos", em Moçambique, que lavavam e engomavam a roupa... 

Sabemos que muitas das nossas praças, no TO da Guiné, ganhando mal, não se podiam dar ao luxo de ter uma lavadeira (poderia custar 50 a 100 pesos por mês)... Muitos lavavam a sua própria roupa, que também não era muita... Sempre poupavam patacão... para a cerveja. 

E ao fim da comissão (se durasse até ao fim da comissão), a roupa  estava feita em farrapos,de tanto uso e de tanto ser batida na pedra da margem do rio...Aliás, velhinho que se prezasse andava com o camuflado todo esfarrapado e desbotado...

Por outro lado, havia graduados, privilegiados, que tinham morança fora do quartel... Em Bissau, em Bambadinca, em Bafatá, em Teixeira Pinto, em Nova Lamego e em muito poucos mais sítios, por razões de segurança... Nalguns casos eram casados e podiam ter uma "empregada doméstica", como o caso do Francisco e da Lena...
 

A minha lavadeira Aline

por Francisco Gamelas

A Aline “herdou-me”.
(Para uma nativa, um nome estranho.
Deveria ser investigado.)
Eu estava designado
no testamento, num desenho
a propósito: um periquito. Contou-me

o alferes que fui substituir
que também tinha sido “herdado”.
A Aline era uma instituição.
Geração após geração
houve sempre o cuidado
de se lhe atribuir,

desde o seu tempo de bajuda,
o alferes das Daimlers.
Bonita tradição.
E por que não
se, entre todas as mulheres,
ganhou o posto sem ajuda?

Fui eu quem ganhou
com a “herança” da Aline.
Presença bem esmerada,
roupa sempre limpa e asseada,
é a manjaca que define
o seu sentir do que “herdou”.

Francisco Gamelas

In: "O
utro olhar - Guiné 1971-1973",
ed. de autor, Aveiro, 2016, p. 53


4. O testemunho do Francisco Gamelas (que, de resto, já era formado em engenharia pelo ISEP - Instituto Superior de Engenharia do Porto) é um retrato vivo daqueles tempos, cheio de deliciosos detalhes que só quem lá esteve se pode lembrar e descrever. 

A história da Aline, a lavadeira que se tornou quase família, é um exemplo perfeito de como, mesmo no meio da guerra, no mato, se criavam laços humanos profundos e rotinas que davam alguma normalidade à vida.  

A figura da Aline, pela foto e pelo poema,  é fascinante. Ela não era apenas uma lavadeira: era uma ponte entre dois mundos. O facto de o Francisco se lembrar do nome dela (!), quatro décadas depois, e de lhe dedicar um poema, mostra como essas relações iam além do serviço doméstico. Eram relações de confiança, dependência mútua e até afeto.

Tal como em Bambadinca e noutros sítios, as lavadeiras "passavam" de um militar para outro, como se fosse parte do posto, e de acordo com a hierarquia militar.  A lavadeira de um antigo capitão não podia " baixar de posto", passando a trabalhar para um alferes... 

O mesmo se passava em Angola, segundo o testemunho do meu amigo Jaime Silva, alferes paraquedista. Isso reflete uma realidade comum nos diferentes TO da  guerra colonial: as populações locais adaptavam-se à presença estrangeira, criando pequenos negócios ou serviços que, por sua vez, tornavam a vida dos militares e suas famílias um pouco mais suportável.

Na Guiné, ao contrário de Angola ou Moçambique, as mulheres (fulas, mandingas, manjacas...)  teriam um papel mais ativo,  assumindo sobretudo a tarefa de lavadeiras.  Eram oriundas, de resto, de sociedades patriarcais, onde o lugar da mulher estava mais codificado.  Elas eram donas da economia doméstica.

Histórias como a da Aline ou da Maria Helena (***) são fragmentos de humanidade que a guerra não conseguiu apagar. Elas mostram que, mesmo em situações extremas, as pessoas criam laços, constroem rotinas e encontram formas de existir,  resistir e sobreviver.
_______________


domingo, 5 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27890: Esposas de militares no mato (6): Teixeira Pinto, ao tempo do Francico Gamelas, ex-alf mil cav, cmd Pel Rec Daimler 3089 (1971/73) - Parte II

Foto nº 1


Foto nº 1A 

Guiné > Região do Cacheu > Rio Mansoa > João Landim > Junho de 1973 > O rio Mansoa em João Landim e a jangada que fazia a sua travessia. Primeiro entravam as viaturas, depois as pessoas. Bissau ficava a cerca de quinze quilómetros e para a "peluda", o fim da comissão, faltavam, ainda quatro longos meses. A Helena regressaria mais cedo a casa, o Francisco só chegará a Lisboa a 11/10/1973, no T/T Niassa, com os seus rapazes do Pel Rec Daimler 3089.


Foto nº 2A


Foto nº 2

Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > c. outubro  de 1973 > Na hora da despedida... Da esquerda para a direita:

(i) cap Lema (CAOP1 ?) (o CAOP 1 foi transferido para Mansoa em 1/2/1973) (e, com ele, o nosso camarada António Graça de Abreu); 

(ii) alf mil médico Mário Bravo ), cirurgião, reformado, nosso grão-tabanqueiro (vive no Porto);

 (iii) comandante do BCAÇ 4615/73,  que rendeu o BCAÇ 3863, ten cor inf Nuno Cordeiro Simões;

 (v) ten cor inf António Joaquim Correia, comandante do BCAÇ 3863 (que terminava a sua comissão);

(vi) alf mil médico Viana Pinheiro (deve ter vindo substituir o dr. Pio de Abreu);

(vii) alf mil Francisco Gamelas (comandante do Pel Rec Daimler 3089, 1971/73);

 (viii) major inf João José Pires (2º comandante do BCAÇ 3863); 

(ix) alf mil Correia Pinto ( de que batalhão?);

 e (x) Maria de Jesus, mulher do alf mil médico Albino Silva (que não aparece nesta fotografia).



Foto nº 3

Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > c. 1971/73 > Vista aérea de Teixeira Pinto (hoje, Canchungo). Em primeiro plano, as instalações militares.


Foto nº 4

Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > c. 1971/73 > Vista aérea de um reordenamento, não identificado, obtida em viagem até Bissau


Foto nº 5

Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > CCS/BCAÇ 3863  (1971/73) >  Junho de  de 1973 >  Imagens da visita do Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas Portuguesas (CEMGFA) , gen Costa Gomes, a Teixeira Pinto... Em segundo plano, o cinema local, do lado direito a "avenida principal" da vila.


Foto nº 6

Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > CCS/BCAÇ 3863  / 35ª CCmds / Pel Rec Daimler 3089  (1971/73) > Março de 1972 >  "Durante a protecção aos trabalhos de desmatagem das margens, ou da pavimentação, da estrada entre Teixeira Pinto e o Cacheu. Eu, nas costas de uma Daimler, tendo do meu lado esquerdo o então Furriel Comando Paquete e à minha direita o então Alferes Comando Alfredo Campos, comandante do Pelotão da 35ª a que ambos pertenciam.

"O  fur mil 'cmd' Paquete, da 35ª CCCmds, infelizmente já não está entre nós. Segundo informação do Ramiro de Jesus, também ele ex-fur mil comando da 35ª CCmds, natural de Aveiro (e, portanto, meu conterrâneo), o Paquete, depois do regresso à metrópole, morreu atropelado por um comboio em Vila Franca de Xira."

Fotos (e legendas): © Francisco Gamelas (2016). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. O nosso camarada Francisco Gamelas foi dos que casou e levou a esposa, a Maria Helena (ou Lena), para o "mato", neste caso Teixeira Pinto, sede de circunscrição (equivalente a concelho), onde já havia algum cheirinho de civilização: por exemplo, um cinema, uma escola, um posto médico, ruas alcatroadas, algumas casas comerciais,  electridade (de gerador)...

De seu nome completo, Francisco António da Costa Vieira Gamelas.  nasceu em Aveiro, em 1949, formou-se em engenharia eletrotécnica, em 1969, esteve na Guiné, em Teixeira Pinto, em 1971/73, como alf mil cav, a comandar o Pel Rec Daimler 3089, ao tempo do BCAÇ 3863, do CAOP1  e da 35ª CCmds.
 
Depois de reformado da PT (onde foi quadro superior), tem-se dedicado à escrita, à poesia e ao ensaio histórico-sociológico: 
  • "O apelido Gamelas: um património histórico e sociológico de Aveiro" (2009); 
  • "Lavradores do Vilar ou o casamento inter-pares como estratégia de sobrevivência" (2014) (ambos publicados pela ADERAV - Associação para o Estudo e Defesa do Património Natural e Cultural da Região de Aveiro);
  •  "Outro olhar - Guiné 1971-1971" (a sua "primeira incursão nas áreas da poesia e da crónica".
Vive em Aveiro. Entrou para a Tabanca Grande em  19/5/2016. Tem cerca de 6 dezenas de referências no blogue.

 

Capa  do livro de Francisco Gamelas ("Outro olhar - Guiné 1971-1973. Aveiro, 2016, ed. de autor, 127 pp. + ilust.  O design é da arquiteta Beatriz Ribau Pimenta. Tiragem: 150 exemplares. Impressão e acabamento: Grafigamelas, Lda, Esgueira, Aveiro.

O livro, feito de pequenas crónicas e poemas, e profusamente ilustrado com as fotos do álbum da Guiné, é dedicado "à memória de Maria Helena" e às as "nossas filhas Sara Manuel e Maria João e os nossos netos Sara, Francisco José e João Gil".

Sobre a sua primeira esposa, Maria Helena, já falecida, e sua companheira da aventura guineense, o Francisco escreveu um belíssimo poema "Amor em tempo de guerra" (pp. 99/101), de que já reproduzimos no poste anterior (*):

 As poucas mulheres que seguiram o seus maridos na Guiné foi por amor e companheirismo. "Éramos jovens. Sentíamo-nos imortais", escreveu o Francisco. A guerra criava, para a nossa geração, uma "urgência emocional", o tempo era curto, a vida podia ser breve (bastava uma mina A/C ou uma emboscada do IN ou uma morteirada de 120 em ataque ao aquartelamento)... Estar juntos, mesmo em condições adversas, valia o risco. Para algumas mulheres, pode ter sido também uma forma de escapar â tristeza do quotiano em Portugal. Para uma ou outra como a Maria Helena, professora, foi também uma forma de se sentir útil.

A escola local em Teixeira Pinto precisava de docentes, e o exército, se não incentivava, pelo menos tolerava a presença de civis, mulheres (e até filhos), para "humanizar" a vida no "mato". De resto,no àmbito da política spinolista "Por uma Guiné Melhor", as "senhoras professoras" eram bem-vindas. E a mulher portuguesa, mesmo inferiorizada no Estado Novo, podia aliar algum idealismo e aventura. Em todo o caso, foram mulheres, portuguesas, de coragem.

A Guiné, apesar dos seus riscos (guerra, paludismo, doenças infetocaontagiosas, stress, desconforto, recursos de saúde limitados, isolamento, dificuldades de tramsportes...) representava uma aventura exótica, um mundo desconhecido. O Francisco Gamelas escreve sobre isso: "aproveitando os intervalos de alguma normalidade para nos inventarmos como casal". Havia uma espécie de romantismo trágico em viver ali, como se a guerra tornasse o amor mais emociante e  intenso.

A Lena e o Francisco, apesar de tudo, tinham algum espaço de privacidade: viviam ao lado da escola, no edifício  destinado ao diretor. Provavelmente frequentavam a messe de oficiais.  De qualquer modo, o  círculo de convívio era muito restrito. O ambiente era fortemente masculinizado. As saídas da vila tinham os seus  riscos, e o contacto com a população local era limitado.  A "normalidade" a que o Francisco se refere era frágil: um jantar no messe, uma ida ao mercado local, ou uma sessão de cinema (com dois ou três anos de atraso em relação à programaçãpo de Lisboa).

Sendo comandante do Pel Rec  Daimler 3089, o Francisco tinha a sua vida operacional. E a Lenba ficou grávida da sua primeira filha,  a Sara, que não nascerá todavia em Teixeira Pinto ,mas já em Aveiro. Náo devia haver sequer obstetras na Guiné!...

Havia isoalamento. O corrreio podia demorar quinze dias (apesar do SPM ser um bom serviço). As notícias da metrópole (e do mundo)  chegavam com atraso. A solidão era quebrada pelo convívio entre as poucas mulheres europeias que havia nestas paragens mas também com as mulheres locais  (que também viviam sob alguma tensão). 

Todas pagaram algum preço. Mas cremos que o balanço final foi positivo, nesta fase das suas vidas, sendo jovens  e recém,casadas...  O poema do Francisco Gamelas responde, em parte, a esta pergunta:

"Foi aqui, no Canchungo, / e nestas condições que aceitámos, / que o nosso amor floriu". 

Para ele e para a Maria Helena, valeu a pena pelo amor, pela família que criaram, pela intensidade da vida que viveram. 

Mas não sabemos como foi, noutros casos...As mulheres que passaram pela Guiné não escreveram (ou pelo menos não publicaram). A única exceção, que nos vem à cabeça, é a da Maria Dulcineia (Ni) (***) que esteve em Bissorã até junho de 1974 e apanhou, pelo menos, dois ataques do PAIGC com "foguetões 122mm".

Estas históris são fragmentos de humanidade no meio  do caos que é sempre a guerra, em qualquer época e lugar. Elas mostram que, mesmo em tempos de violência, a vida, com os seus amores, medos e esperanças, continua.

Sobre a outra senhora, Maria de Jesus, que aparece na foto no. 2, não sabemos mais nada: 
seria esposa do alf mil médico Albino Silva...  (Não haverá aqui troca de nomes ?)

E nós continuamos em próximo poste.

(Continua)  

sábado, 4 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27887: Esposas de militares no mato (5): Teixeira Pinto, ao tempo do Francico Gamelas, ex-alf mil cav, cmd Pel Rec Daimler 3089 (1971/73) - Parte I


Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > A Maria Helena Gamelas  e a lavadeira, manjaca, Aline, que os comandantes dos Pel Rec Daimler "herdavam" (*)


Francisco Gamelas, ex-alf mil cav, cmdt do Pel Rec Daimler 3089 (Teixeira Pinto, 1971/73), adido ao BCAÇ 3863 (1971/73); é engenheiro eletrotécnico de formação, quadro superior da PT Inovação, reformado, vive em Aveiro: autor de "Outro olhar - Guiné 1971-1973" (Aveiro, 2016, ed. de autor, 127 pp, ilustrado.


Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > Março de 1973 > Habitação nativa típica, na tabanca de Cachungo. Em primeiro plano, a Lena.


Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > Janeiro de 1972 > Edifício do ciclo preparatório do ensino secundário e casa do director (à esquerda). Foi nesta casa que o casal Gamelas se instalou. A Maria Helena Gamelas foi a professora de português no ano lectivo de 1972/73. Em frente, do outro lado da rua, ficavam as camaratas dos soldados da 35.ª CCmds.


Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto >  Outubro de 1972 >  Venda livre no meio da Avenida. À esquerda a Maria Helena Gamelas.



Guiné > Região de Cacheu > Teixeira Pinto > cv. 1971/73 > Vista aérea de Teixeira Pinto

Fotos (e legendas): © Francisco Gamelas (2016). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. O nosso camarada Francisco Gamelas foi dos que casou e levou a esposa para o "mato" (**), neste caso Teixeira Pinto, sede de circunscrição (equivalente a concelho), onde já havia algum cheirinho de civilização: por exemplo, um cinema, uma escola, um posto médico, ruas alcatroadas, algumas casas comerciais, electridade (de gerador)... Estava lá o CAOP1, a CCS/BCAÇ 3863 e diversas subunidades, incluindo o Pel Rec Daimler 3089. Nesta altura também lá esteve a jovem esposa de um médio, de que falaremos na parte II.

Nota  biográfica > Francisco António da Costa Vieira Gamelas:

(i) nasceu em Aveiro, em 1949:

(ii) formou-se em eletrotecnia (Instituto Superior de Engenharia do Porto, 1969);

(iii) esteve na Guiné, em Teixeira Pinto, em 1971/73, como alf mil cav, a comandar o Pel Rec Daimler 3089, ao tempo do BCAÇ 3863 (onde foi médico o nosso camarada Mário Bravo) e do CAOP1 (a que pertenceu o nosso camarada António Graça de Abreu; em fevereiro de 1973, o CAOP 1 foi transferido para Mansoa):

(iv) fez a sua carreira profissional na PT Inovação como quadro superior de telecomunicações;

(v) está reformado;

(vi) tem-se dedicado à escrita, à poesia e ao ensaio histórico-sociológico: "O apelido Gamelas: um património histórico e sociológico de Aveiro" (2009); "Lavradores do Vilar ou o casamento inter-pares como estratégia de sobrevivência" (2014), ambos publicados pela ADERAV - Associação para o Estudo e Defesa do Património Natural e Cultural da Região de Aveiro;

(vii) em 2016 publicou "Outro olhar - Guiné 1971-1971" (a sua "primeira incursão nas áreas da poesia e da crónica";

(vii) vive em Aveiro;

(viii) entrou para a Tabanca Grande em  19/5/2016;

(ix) tem cerca de 6 dezenas de referências no blogue.

 

Capa  do livro de Francisco Gamelas ("Outro olhar - Guiné 1971-1973. Aveiro, 2016, ed. de autor, 127 pp. + ilust.  O design é da arquiteta Beatriz Ribau Pimenta. Tiragem: 150 exemplares. Impressão e acabamento: Grafigamelas, Lda, Esgueira, Aveiro.

O livro, feito de pequenas crónicas e poemas, e profusamente ilustrado com as fotos do álbum da Guiné, é dedicado "à memória de Maria Helena" e às "nossas filhas Sara Manuel e Maria João e os nossos netos Sara, Francisco José e João Gil".

Sobre a sua primeira esposa, Maria Helena, já falecida, e sua companheira da aventura guineense, o Francisco escreveu um belíssimo poema "Amor em tempo de guerra" (pp. 99/101), de que reproduzimos um excerto (***):

(...) “Mesmo assim, amor, decidimos casar
e começar a nossa vida em comum
neste reino de guerra sempre latente
aproveitando os intervalos
de alguma normalidade
para nos inventarmos
como casal.
Éramos jovens.
Sentíamo-nos imortais
apesar da evidência em contrário.(...)

(...) Foi aqui, no Canchungo,
e nestas condições que aceitámos,
que o nosso amor floriu,
que nos fomos aprendendo
na partilha permanente,
nas cumplicidades do presente
e nela germinou a semente
que foi crescendo
no teu ventre,
sangue do nosso sangue,
carne da nossa carne,
até nos acrescentar
em forma de rebento
a quem demos o nome de Sara
Então,
passámos a ser uma família”.

Este poema do Francisco Gamelas, sobre o  "amor em tempo de guerra", é um testemunho comovente e raro desse lado mais íntimo e humano da guerra colonial, e merece uma análise mais detalhada na Parte II.

Há muito que não tenho notícias dele. Mas espero que ainda nos leia. Desejamos-lhe a ele e à família uma boa e santa Páscoa.

(Continua)
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quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Guiné 61/74 - P22881: Colóquio - O Regimento de Cavalaria N.º 6 na Guerra Colonial: Perspetivas Locais e Globais - levado a efeito no passado dia 23 de Novembro de 2021, em que participaram os ex-Alf Mil Cav Ernestino Caniço, CMDT do Pel Rec Daimler 2208 e Francisco Gamelas, CMDT do Pel Rec Daimler 3089 (Ernestino Caniço)


Mensagem do nosso camarada Ernestino Caniço, ex-Alf Mil Cav, CMDT do Pel Rec Daimler 2208, Mansabá e Mansoa; Rep ACAP - Repartição de Assuntos Civis e Ação Psicológica, Bissau, Fev 1970/DEZ 1971, com data de 31 de Dezembro de 2021:

Caros amigos:
Realizou-se em 2021.11.23 no auditório da Universidade do Minho o Colóquio “O Regimento de Cavalaria N.º 6 na Guerra Colonial: Perspetivas Locais e Globais”.

No programa em anexo, constava uma sessão subordinada ao tema “Vivências e Testemunhos Cruzados do Regimento de Cavalaria N.º 6 na Guerra Colonial”, integrando uma Mesa Redonda com Antigos Combatentes mobilizados pelo Regimento de Cavalaria Nº 6.
Uma vez que o nosso contacto com o Sr. Comandante do RC 6 (Coronel Miguel Freire) partiu do Blogue, foi-me solicitado pelo Carlos Vinhal que fizesse um apanhado e considerações sobre o evento.[1]

O objetivo desta sessão é ajudar a compreender, pelo testemunho pessoal, a dimensão humana, mas também a técnico-militar, do que foi cumprir o serviço militar com uma mobilização num pelotão de reconhecimento Daimler para um dos teatros de operações.
A participação de ex-combatentes no painel, foi precedida de entrevistas moderadas pelo Sr. Comandante do RC 6 e pelo Professor Francisco Mendes da Universidade do Minho.
Compete-me realçar que na receção para as entrevistas em que participei eu e o camarada e amigo Francisco Taveira, fomos acolhidos com elevação, nomeadamente com tratamento principesco por parte do Sr. Comandante do RC 6, Coronel Miguel Freire.



Os ex-combatentes que participaram no painel foram apresentados por ordem cronológica de prestação do serviço militar pelo Sr. Comandante do RC 6:

- O antigo Tenente Mário Sampaio Nunes que foi Comandante do Pel Rec 1166. Este pelotão esteve em Moçambique, entre fevereiro de 1967 e março de 1969, e o então Alferes Sampaio Nunes comandou o pelotão, em rendição individual, entre dezembro de 1967 e fevereiro de 1969, por passagem à disponibilidade por doença do anterior comandante de pelotão. Hoje é um oficial do exército reformado, com 77 anos de idade.

- O antigo Alferes Ernestino Caniço que foi Comandante do Pel Rec 2208 e que esteve na Guiné entre janeiro de 1970 e dezembro de 1971. Hoje é um médico reformado, mas ainda a exercer, com 77 anos de idade.

- O antigo Alferes Francisco Gamelas que foi Comandante do Pel Rec 3089 e que esteve na Guiné entre novembro de 1971 e outubro de 1973. Hoje é um engenheiro reformado, com 72 anos de idade.

- O antigo 1.º Cabo Bernardino Lima que foi Condutor/Apontador de Daimler no Pel Rec 3083 que esteve na Guiné de novembro de 1971 a outubro de 1973. Hoje é um fiel de armazém reformado, com 71 anos de idade.

Podemos considerar a sessão um putativo sucesso, face ao surgimento de alguns indícios, como os comentários enaltecedores de representantes de instituições militares e civis.

Não posso deixar de enfatizar a presença maioritária (e intervenções) dos estudantes de história da Universidade do Minho, com o anfiteatro repleto, demonstrando um interesse (para mim inesperado) da juventude por esta temática.

Permito-me por fim evocar uma frase do Sr. Comandante do RC 6, Coronel Miguel Freire: "Foi para mim um imenso orgulho e engrandecimento humano ter privado com cada um de Vós, por ocasião da preparação do nosso Colóquio de 23 de novembro".

Renovo os votos de um ótimo 2022, já com algum remanso do “Cobicho”

Um abraço,
Ernestino Caniço

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Nota do editor

[1] - Vd. poste de 10 DE SETEMBRO DE 2021 > Guiné 61/74 - P22531: O nosso blogue como fonte de informação e conhecimento (88): O Regimento de Cavalaria n.º 6 de Braga, juntamente com a Universidade do Minho, está a organizar um colóquio e uma exposição (a acontecer em 18NOV21) sobre o esforço de mobilização do RC6 em PelRec Daimler para os três Teatros de Operações. Procura-se antigos CMDTs Pel Rec Daimler para possível colaboração no evento