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terça-feira, 15 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28348: Manuscrito(s) (Luís Graça) (295): Em 6 de setembro passado, a orografia que rodeia a Quinta de Candoz retirou-me cerca de uma hora e meia de insolação direta: cerca de 35 minutos de manhã e cerca de uma hora ao fim da tarde.

 

Foto nº 1 > Quinta de Candoz > Nascer do sol > 6 de setembro de 2026 > 07;16

Foto nº 2 > Quinta de Candoz > Nascer do sol > 6 de setembro de 2026 > 07:18


Foto nº 3 > Quinta de Candoz > Nascer do sol > 6 de setembro de 2026 > 07: 20


Foto nº 4 > Quinta de Candoz > Nascer do sol > 6 de setembro de 2026 > 07:22

Foto nº 5 > Quinta de Candoz > Nascer do sol > 6 de setembro de 2026 > 07:24

Foto nº 6 > Quinta de Candoz > Nascer do sol > 6 de setembro de 2026 > 07:31


Foto nº 7 > Quinta de Candoz > Nascer do sol > 6 de setembro de 2026 > 07:35


Foto nº 8 > Quinta de Candoz > Nascer do sol > 6 de setembro de 2026 > 07:35


Marco de Canavezes > Paredes de Viadores > Candoz  > 6 de setembro de 2026


Fotos (e legendas): © Luís Graça (2026). Todos os direitos reservados. [Edição:   Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Não é habitual ver o nascer do sol, só o pôr do sol. Justamente porque vivo no Oeste, na Lourinhã, junto à costa atlântica... (O Oeste é uma região da Estremadura, que vai de Torres Vedras a Alcobaça.) 

Não sei porquê,  ninguém fotografa o nascer do sol... Terá menos magia ?  (Acho que não...  O nascer do sol exige acordar cedo, enquanto o pôr do sol é mais acessível:  no fim do dia, o fotógrafo tem mais liberdade e disponibilidade; por outro lado, o pôr do sol tende a ter tons mais quentes e dramáticos (laranjas, vermelhos intensos), enquanto o nascer pode ser mais suave e frio (amarelos, brancos, cinzentos, azuis); e, adicionalmente,  há uma razão cultural: tendemos a associar o pôr do sol ao fim de algo (romântico, melancólico, trágico), que é um tema recorrente na arte ocidental; enfim, o  nascer do sol é mais difícil de capturar em palavras, ligado à ideia de começo, recomeço, trabalho, suplício de Sísifo, mas esperança, desafio,  incerteza...).

 Em Candoz, a mais de 300 km de distância, freguesia de Paredes de Viadores e Manhuncelos. concelho de Marco de Canaveses, estou rodeado de serras (Montedeiras, Aboboreira, Montemuro, Gralheira, Meadas, Marão...).

O rio Douro que vejo da minha janela ou varanda, na Quinta de Candoz, à direita (Porto Antigo, barragem do Carrapatelo e, mais à direita, Cinfães, já na serra de Montemuro),  separa os distritos do Porto e Viseu... 

Da minha janela ou da minha varanda,  virada para nascente,  vejo também em frente, a linha do Douro, a escassos 200 ou 300 metros: o comboio que vai do Porto à Régua e ao Pocinho (e até Barca de Alva, em viagens de turismo histórico) passa pelo vale que me separa do concelho de Baião, que fica a Leste e Nordeste. Em frente, as freguesias, de povoamento disperso, de Mesquinhata, Santa Leocádia, Grilo (e por detrás do 1º horizonte, Grove, Ancede, cujo fogo de artifício vejo na Páscoa)...

Eu estou aqui:  Quinta de Candoz, Coordenadas GPS:41.118254559520246, -8.1129390491463

No dia 6 de setembro de 2026, o sol nasceu em Portugal às 07.01 mas eu só o vi da varanda da nossa casa, na Quinta de Candoz, mais de meia-hora depois... Em rigor, devo tomar como referência a hora solar local, a da cidade do Marco de Canaveses, que foi às 07:03.  E o pôr-do-sol às 19:57. Houve, portanto 12 h 53 min de dia astronómico.

Mas eu estou  numa situação completamente diferente: o horizonte montanhoso é o meu “segundo horizonte”. Na varanda no VIGIA, na Praia da Areia Branca, eu vejo o sol a cair pique no Atlântico, com as Berlengas e o cabo Carvoeira à minha direita...Claro, quando não há nuvens...

Aqui, em Candoz, comecei a ver o primeiro sol direto aproximadamente às 07:37. Ou seja, preguiçosamente, o sol só "pegou ao trabalho" uns 34 minutos depois... E o seu trabalho é o de iluminar e aquecer a nossa encosta, as nossas vinhas: estamos  de 250/300  metros acima do nível do mar, nas faldas da serra de Montedeiras,  que ficou tristemente famosa pelas andanças e façanhas do Zé do Telhado, e nomeadamente o assalto à Casa do Carrapatelo, em 8 de janeiro de  1852. 

Montedeiras fica no concelho de Marco de Canaveses, e tem altitudes que variam entre os 450 e os 650 metros...

E no passado dia 6, domingo, o pôr-do-sol foi às 19:57, mas em Candoz,  eu despedi-me dele cerca de uma hora mais cedo (estimativa minha, hora não documentada)... 

Em conclusão, perdi  nesse dia cerca de  uma hora e meia de sol direto...

Como me levantei cedo nesse dia, de resto como habitualmente, deu-me na veneta de o fotografar, minuto a minuto, e até fiz um vídeo de 2 minutos... Aqui fica uma seleção desses momentos em que o sol amigo nos diz "bom dia, cheguei para te iluminar e aquecer, a ti e a todos os bichos e demais seres vivos que te rodeiam"...


2. Com a ajuda da IA (ChatGPT) fiz o cálculo da posição do sol para as minhas coordenadas (41.1183 N, 8.1129 W): às 07:37, o sol estava aproximadamente:

  • 5,6° acima do horizonte astronómico
  • azimute ≈ 86°, ou seja, praticamente Este.

Portanto, a minha serra/horizonte nascente (parte do concelho de Baião) (a 3, 5, 5 km, em linha reta,  da minha janela ou varanda)  está a ocultar aproximadamente os primeiros 5–6 graus de altura do Sol. É precisamente o que será de esperar de uma casa encaixada numa paisagem montanhosa como a da Quinta de Candoz.

A fotografia das 07:37 é, portanto, uma excelente evidência de campo: a minha observação dos 34 minutos está perfeitamente dentro do que o cálculo astronómico prevê.

Menos rigoroso, porque não tenho fotografias recentes (e disponíveis aqui), é a estimativa de perda de sol direto ao fim da tarde.

Se a minha observação de que o Sol desaparece cerca das 19:00 estiver correta, então:

19:57 − 19:00 ≈ 57 minutos. Ou seja, perco quase uma hora de Sol direto ao fim do dia.

E  momento em que o sol desaparece por trás da minha encosta (a poente) ele ainda estará aproximadamente 10° acima do horizonte astronómico.

Isto significa que a serra de Montedeiras (o conjunto de relevos que tenho  a poente) funciona como uma verdadeira parede solar. "A serra engole o sol"...

Em conclusão, no passado domingo, o sol direto começu: ~07:37; e terminou: ~19:00. Perdi c. 90 minutos de sol direto.

Mas há uma distinção importante: não estou propriamente a perder “luz do dia” durante esses 90 minutos, mas sim "sol direto".

Às 07:20, por exemplo, já há claridade em Candoz (vd. foto nº 3), apesar de a serra impedir que os raios solares atinjam diretamente a nossa a casa e as nossas vinhas. E depois das 19:00 ainda temos crepúsculo, embora já não tenhamos o disco solar.

Em rigor, devo então dizer: “Em 6 de setembro, a orografia que rodeia a Quinta de Candoz retirou-me cerca de uma hora e meia de insolação direta: cerca de 35 minutos de manhã e cerca de uma hora ao fim da tarde.”

Neste último fim-de-semana, colhemos uvas com vamos fazer o vinho verde branco DOC Nita, Escolha, 2026, com 14 graus de álcool provável.

É uma ironia bonita: a mesma montanha que nos rouba sol, é também parte da paisagem que nos ajuda a obter este vinho, que continuamos a fazer por amor...

























Marco de Canavezes > Paredes de Viadores > Candoz  > 12 e 13 de setembro de 2026 > As primeiras vindimas...


Fotos (e legendas): © Luís Graça (2026). Todos os direitos reservados. [Edição:   Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Marco de Canavezes > Paredes de Viadores > Candoz  > 18 de setembro de 2020 > A nossa querida Nita (1947-2023), a "alma mater" da nossa quinta..


Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Foto: Luís Graça (2020)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI. (2026)


terça-feira, 8 de setembro de 2026

Guiné 71/74 - P28331: Manuscrito(s) (Luís Graça) (294): Parabéns, Zé, ao km 78 da tua picada da vida, que também tem tido minas e armadilhas como a de todos nós...



José Ferreira Carneiro, n. 8/9/1948.
Candoz, Paredes de Viadores,
Marco de Canaveses


Região do Vinho Verde,  
Subregião de Amarante,
Quinta de Candoz


Começou a trabalhar cedo, 
aprendiz de ramadeiro, com o pai,
construtor de ramadas


Mobilizado para Angola, em rendição individual, em 1970/72, numa companhia, que guardava os cafezais,  em Camabatela, no norte de Angola, perto de Negage e de Quitexe (CCAÇ 313, do BCAÇ 13, sedeado em Vila Salazar)


Reformado, dedica dois dias por semana 
à Quinta de Candoz


Casada, em segundas núpcias, com a Teresa,
vive em Matosinhos, Padrão da Légua


As cubas para o vinho há muito que são de inox, 
mas ainda há velhos depósitos de cimento armado...


No outono adora apanhar cogumelos


Velha foto estilizada da família: pais (José Carneiro e Maria Ferreira, já falecidos) e irmãos, segundi a ordem de idade  (António, Rosa, Manuel; Nita, Zé e Alice)... O António esteve no Brasil, foi mobiizado para Moçambique, em 1964, onde foi gravemente ferido... A Nita, faleceu em 2023.


Sócia da Quinta de Candoz, com mais 3 irmãos (Rosa, Alice e Zé), a Nita foi em vida a alma da "casa"

A Quinta de Candoz tem  página na Net

A Alice ("Chita") sempre gostou muito deste maninho...


Na festa dos seus 70 anos, pai e filho (a mãe, a Carmen, morreu cedo)


A família também um blogue, A Nossa Quinta de Candoz



Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Luís Graça (2026)
Imagens: Arquivo dos Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné e A Nossa Quinta de Candoz
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


 
Ao Zé, no seu 78º aniversário


Nascido em Candoz, em Entre-Douro-e-Minho,
De empresa de seguros foi tesoureiro,
Mas começou por aprendiz de ramadeiro,
E agora engarrafador-produtor de vinho.

Técnico de gás, profissional liberal...
Homem dos sete ofícios, é um jeitosinho,
José Ferreira Carneiro, nosso maninho,
Também foi parar à guerra... colonial.

E esquecidas, do trabalho, as mazelas,
Setenta e oito anos já foram passados,
Nunca se queixando da perna nem das costelas.

... E tudo fazes por amor, a todos nós,
Os pais e a mana Nita sempre lembrados,
Mas  hoje, Zé, é tua a festa  em Candoz.

Quinta de Candoz,
8 de setembro de 2026, 
dia da festa de Nossa Senhora da Natividade do Castelinho,
Padroeira do concelho de Marco de Canaveses.


A família de Candoz, Porto, Matosinhos, Lourinhã e Lisboa




1. Não fala da guerra colonial. Não fala com emoção desse tempo. Passou, passou, o tempo da tropa e da guerra. Nunca se encontrou com nenhum camarada daquele tempo. Perdeu todos os contactos. Era de rendição inidvidual. Mas gostou de Camabatela e de Luanda.

Era 1º cabo de transmissões de infantaria, Andou na região do café, com a sua companhia mista de metropolitanos e angolanos (CCAÇ 313 / BCAÇ 13) a guardar as costas dos grandes fazendeiros do café. 

Nunca veio de férias. Pelo SPM, a mãe mandava-lhe os salpicões com que matava saudades de casa, a 8 mil quilómetros de distância.  

Mas não ficou na terra, Candoz, Paredes de Viadores, o apelo da cidade grande era maior. Mudou-se para o Porto. Lá podia estudar e fazer-se homem. Nunca gostou da escola. A professor estava alojada na casa dos pais. E batia-lhe à frente deles, e com a cumplicidade deles. Como é que ele haveria de gostar da escola ? Só depois da "peluda" é que fez o segundo ano da escola comercial (regime noturno).

Hoje já tem gmail, como qualquer português que se preze. Mas não faz parte da Tabanca Grande, até porque não esteve na Guiné. Por sorte, é cunhado do editor do blogue (e seu sócio... por estar casado com a Alice).

E é legalmente o produtor-engarrafador do nosso vinho "Nita".  Ele é o mais novo de seis. O caçula.

É trabalhador, é leal, é alegre, é efusivo, é generoso.  É uma "besta de trabalho". Tem às vezes azar com o "esqueleto". Já foi operado à coluna. Já partiu uma perna. E já teve uma ameaçozinho de AVC. 

Aqui vai, com todo o carinho que temos por ele,  eu, a Alice e demais família, um soneto para o nosso Zé, que só amanhã vai ter direito a festa e a rancho melhorado. Mesmo em dia de anos, há imprevistos.  E Candoz fica a 70 km do Padrão da Légua, já nio limte do distrito do Porto. 

Amanhã, é quarta feira, é dia de trabalho. É preciso preparar tudo para as vindimas, marcadas para os dois próximos fins-de-semana.  Mas vou ler-lhe, comn todo o gosto, este soneto e beber comn ele uma "champanha".

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 18 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28268: Manuscrito(s) (Luís Graça) (293): À Alice, oferta do livro "Luuanda: estórias", do José Luandino Vieira, com dedicatória, dactilografada, em francês, e datada de 17 de maio de 1975

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28268: Manuscrito(s) (Luís Graça) (293): À Alice, oferta do livro "Luuanda: estórias", do José Luandino Vieira, com dedicatória, dactilografada, em francês, e datada de 17 de maio de 1975



Lourinhã > 7 de agosto de 2026 > Luís e Alice, o professor e a aluna, cinquenta anos depois, ainda "just married"...



Capa do livro de José Luandino Vieira, "Luuanda: estórias, 4ª ed. (Lisboa: Edições 70, 1974, 172 pp.). 

O livro foi originalmente publicado em 1963, pelas Edições 70, em Lisboa. E passou despercebido. Os senhores coronéis da censura só deram conta da monumental "gaffe" quando em 1965 foi atribuído, a um "terrorista",  o 1º Prémio do Grande Prémio da Novelística, pela  Sociedade Portuguesa de Escritores, em Lisboa.  

O prémio causou furor e represálias em plena colonial, com o autor, luso- angolano (nascido em Vila Nova de Ourém, em 1935), a cumprir, na altura, no Tarrafal,  uma pena de 14 anos de prisão, por motivos políticos. O livro, de contos, é hoje considerado uma obra maior da literatura em língua portuguesa.


Dedicatória datilografada, em francês, em homenagem à Alice, nascida em 18 de agosto de 1945. Em 17 de maio de 1975, na Lourinhã, era minha aluna...de francês. 

Em 7 de agosto de 1976, quem diria ?!, casei com ela, na Quinta de Candoz, concelho do Marco de Canavez. O primeiro casamento, civil, nesse ano... 

O livrinho (e a folha da dedicatória, que lhe estava apensa, colada na folha de guarda), andou em bolandas, durante anos. Há tempos redescobri-o, no sótão, no meio de outras velharias...Tem, para mim,  valor sentimental e documental.  

Eu escrevia à máquina desde, pelo menos ,  os meus 15 anos. Comprei uma máquina de escrever, portátil, de teclado português (HCESAR), em segunda mão, já não me lembro a marca (Olivetti ?). Não sei o que lhe aconteceu. Com mudanças de casa, desgraçadamente deve ter ido parar ao caixote do lixo! Ou foi à oficina para reparar o teclado e nunca mais a levantei... Enfim, um crime de lesa-património e de lesa-memória!...

Aqui vai uma cópia da dedicatória, para oferecer, juntamenmte com o livro agora recuperado, à minha antiga aluna de francês, e hoje minha companheira de uma vida, mãe de uma filha (Joana) e de um filho (João), e  avó de duas netas (Clara e Rosa)... 

Ao km 81 da sua picada da vida, espero que ela aceite a (re)lembrança. E faço também votos para que o nosso amor, e as minhas palavras, tenham sabido resistir à usura do tempo e às circunstâncias 


17 mai 1975

Pour Alice,
ce cadeau-prétexte.

J’aimerais bien t’écrire une lettre,
une lettre-pomme, une lettre-poème,
tu la mangerais au dessert,
tous les hivers de la famine.

Mais je ne peux que t’offrir
un exercice de français,
sous le prétexte d’un livre africain,
parce que c’était encore la langue étrangère
que nous parlions en exil.

Et c’était drôle de penser
que le soleil se levait et disait bonjour
dans la langue de Rimbaud, Éluard, Aragon,
trois poètes dont tu n’avais jamais entendu parler,
et qui sont descendus à l’enfer de la folie et de la guerre.

Je m’en fous cependant
que le soleil soit un drapeau
rouge, blanc, bleu,
que la lune soit rouge et verte:
il sera toujours pénible pour nous
de franchir à pied le silence,
à cause des montagnes
qui se dressent là-haut, dans notre cœur,
le silence étant la Grande Muraille de Chine des sentiments.

Mais que dirons-nous 
de l’ambiguïté politique de la lune,
cette petite planète
où la liberté est un minéral,
verte le jour, rouge la nuit ?

Je crois quand même
au pouvoir libérateur et créateur de la parole,
ne pouvant pas subir l’angoisse du silence,
des mots écrasés par le discours quotidien.

Je te dirai encore, Alice,
que nous ne sommes pas au Pays des Merveilles,
et que le rêve deviendra bientôt un cauchemar.
Il faudra alors connaître
les murs et les couloirs de l’enfer.

Mais la vie serait une merde
si nous n’avions pas le sens 
de l’engagement révolutionnaire
et le courage de vivre et de combattre,
comme José Luandino Vieira,
prisonnier du Tarrafal, militant du MPLA.

Très amicalement,
Luís

(Revisão / fixação final de texto, 18/8/2026: LG)
 ____________

 Tradução livre (para português)


17 de maio de 1975


Para a Alice,
este presente-pretexto.

Gostaria de te escrever uma carta,
uma carta-maçã, uma carta-poema,
tu comê-la-ias à sobremesa,
em todos os invernos da fome.

Mas só te posso oferecer um exercício de francês,
com o pretexto de um livro africano,
porque era ainda a língua estrangeira
que falávamos no exílio.

E era engraçado pensar
que o sol nascia e dizia bom dia
na língua de Rimbaud, Éluard, Aragon,
três poetas de quem nunca tinhas ouvido falar,
e que desceram ao inferno da loucura e da guerra.

Mas estou-me nas tintas
que o sol seja uma bandeira 
vermelha, branca, azul,
que a lua seja vermelha e verde:
ser-nos-á sempre penoso
atravessar a pé o silêncio,
por causa das montanhas 
que se erguem lá no alto, no nosso coração,
sendo o silêncio a Grande Muralha da China dos sentimentos.

E o que diremos nós
da ambiguidade política da lua,
esse pequena planeta onde a liberdade é um mineral,
verde de dia, vermelha de noite?

Acredito, no entanto, 
no poder libertador e criador da palavra,
não podendo suportar a angústia do silêncio,
das palavras esmagadas pelo discurso quotidiano.

Dir-te-ei ainda, Alice,
que não estamos no País das Maravilhas,
e que o sonho em breve se tornará um pesadelo.
Teremos então de conhecer 
os muros e os corredores do inferno.

Mas a vida seria uma merda
se não tivéssemos o sentido 
do compromisso revolucionário
e a coragem de viver e de lutar,
como José Luandino Vieira,
prisioneiro do Tarrafal, militante do MPLA.

Com toda a amizade,
Luís

(Tradução, revisão / fixação de texto: LG)

_________________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 10 de agosto de 2026  > Guiné 61/74 - P28254: Manuscrito(s) (Luís Graça) (292): talvez um dia

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28254: Manuscrito(s) (Luís Graça) (292): talvez um dia


Lourinhã > Praia da Areia Branca - GAPAB - Grupo dos Amigos da Praia da Areia Branca > Varanda do Vigia > 9 de agosto de 2026, 20:26 > Pôr do sol. Ao fundo, do lado direito as Berlengas e o cabo Carvoeiro.

Foto (e legenda) © Luís Graça (2026). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & camaradas da Guine]


Talvez um dia

por Luís Graça


talvez um dia o sol 
volte a girar à volta da terra

talvez um dia a gente não aguente
a fé inabalável na ciência

talvez um dia tu percas a fé 
e a decência 
e o controlo dos esfíncteres 

talvez um dia Galileu Galilei jure que não 
e o Ptolomeu diga que sim, 
muito simplesmente

talvez um dia tu caias na armadilha, 
antipessoal, 
de querer viver (e)ternamente 

talvez um dia se descarte, 
afinal, 
a dúvida metódica de Descartes 

talvez um dia a gente se desidrate 
até à útima gota 
d'água 

talvez um dia o sol 
caia
a pique 
sobre
a tua
cabeça 

talvez um dia,
com mágoa, 
tu deixes de pensar
e de ter um sitio para onde  ir,

e logo desistas  de existir

praia da areia branca | vigia
7 de agosto de 2026
(no 50º aniversário de casados do Luís & Alice)

_________________

Nota do editor LG:

Último poset da série > 29 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28225: Manuscrito(s) (Luís Graça) (291): As minhas geografias emocionais: Ainda o conventinho da Arrábida... Salazar gostava de lá ir... E eu também gosto.

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28225: Manuscrito(s) (Luís Graça) (291): As minhas geografias emocionais: Ainda o conventinho da Arrábida... Salazar gostava de lá ir... E eu também gosto.




Estátua de Frei Martinho de Santa Maria
(pormenor)

O verdadeiro "guardião" do convento: a imponente, icónica, estranha  estátua do fundador do Convento, com os braços em cruz e os pés a esmagar a serpente (=demónio), assente no globo terrestre. Segundo a explicação que nos foi dada, pela guia cultural, Andreia Gomes, mester em hstória da arte pela minha universidade, a NOVA de Lisboa, segura na mão direita o archote da fé (simbolizando as boas obras) e na esquerda um cilício, instrumento de mortificação, que o frade utilizava para se penitenciar dos pecados. Nos olhos, uma venda, na boca um grosso cadeado, e no coração uma fechadura, outros tantos símbolos da vida do asceta que se fecha às coisas do mundo.













Setúbal > Parque Natural da Arrábida > Convento da Arrábida > 23 de julho de 2026 >  Gostei de lá voltar...

Fotos (e legenda): © Luís Graça (2025). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Garça & Camaradas da Guiné]


1. Às veze ponho-me a duvidar da saúde mental destes homens (não havia mulheres...), que escolheram viver em conventos completamente isolados do mundo, em sítios luxuriantes, como o da Arrábida e de Sintra.... A pão e água... Extasiados com tanta beleza, esmagados por tanto silêncio!

Eram eremitas... Escolheram o caminho mais radical, 
a do isolamento total (cortando simbolicamente,  até na estatuária, os cinco sentidos...), da pobreza absoluta, da ascese, da mortificação do corpo, da superação dos sentidos, do lento e exaltante suicídio pela fome, da meditação, da contemplação versus ação...

Que raio de "leitura da mensagem de Cristo" foi esta, pergunto-me, mais de 60 anos depois de ter aqui acampado, nas férias grandes escolares, no início dos anos 60 ?

Dizem as ciências da saúde mental (psicologia, psiquiatria, neurologia...) que o isolamento extremo pode ser patológico...  Cortar radicalmente com os outros (isolamento social prolongado) pode levar a distúrbios mentais (depressão, ansiedade, alucinações). Cortar os cinco  sentidos (como se vê na estátua do Frei Martinho de Santa Maria, inscrutada na parede da fachada da igreja) ou jejuar até à exaustão são comportamentos que, hoje, associaríamos a transtornos obsessivo-compulsivos ou até psicose.

Mas, temos que lembrar (e respeitar) a opção destes homens de meados do séc. XVI, tão
exaltante como contraditório e dilacerante  (nomeadamente para o mundo cristão, dividido em dois, com a reforma e a contrarreforma); tratava-se de uma escolha consciente, uma forma de transcender a condição humana. 

Não era "loucura", era a procura da "santidade" e do caminho solitário até ao Criador...

Diz a guia cultural, Andreia Gomes, que a Arrábida é reconhecidamente um lugar único, onde a natureza e a espiritualidade se encontram e se fundem. Os monges que ali viveram,  deixaram um legado de paz, reflexão e conexão com a terra, que ainda hoje se sente no ambiente sereno da serra (para mais, no lado  protegido do vento marítimo). Um legado que não pode deixar de tocar o coração de um simples turista que hoje visite o antigo convento (seja ele russo, francês ou espanhol, como exemplificou a guia).


2. O Convento de Nossa Senhora da Arrábida é um mosteiro franciscano localizado na Serra da Arrábida, em Portugal, hoje integrado no Parque Natural da Serra da Arrábida, um dos sítios mais deslumbrantes (e cobiçados!) da nossa costa, a par da península de Troia, ali em frente.

Fundado no século XVI, no reinado de Dom João III, é um lugar de grande importância histórica, espiritual, cultural e ecológica.

O que se sabe sobre os seus moradores ?

Para já aconselho que se veja ou reveja na RTP Play o programa:

O convento foi fundado em 1542 por Frei Martinho de Santa Maria, castelhano, franciscano, da Ordem dos Frades Menores (OFM), a quem D. João de Lencastre (1501-1571), 1º duque de Aveiro, cedeu as terras da encosta da serra. Em boa verdade, tratava-se de uma "doação", dentro do espírito cristão ainda medievo segundo o qual dar aos pobres (e aos monges mendicantes...) era emprestar a Deus...

Lê-se no sítio da Fundação Oriente, atual proprietária do Convento da Arrábida e da sua cerca de 25 hectares: 

 "Anterior à construção, existia onde é hoje o Convento Velho, a Ermida da Memória, local de grandes romarias, junto da qual, durante dois anos, viveram, em celas escavadas nas rochas, os primeiros quatro frades arrábidos: Martinho de Santa Maria, Diogo de Lisboa, Francisco Pedraita e São Pedro de Alcântara.

"D. Jorge de Lencastre, filho do 1.º duque de Aveiro, continuou as obras mandando construir uma cerca para vedar a área do convento. Mais tarde, seu primo D. Álvaro, mandou edificar a hospedaria que lhe servia de alojamento e projectou as guaritas, na crista do monte, que ligam o convento ao sopé da montanha, deixando, no entanto, três por acabar. Por sua vez, D. Ana Manique de Lara, nora de D. Álvaro, mandou construir duas capelas, enquanto o filho de D. Álvaro, D. António de Lencastre, mandou edificar, em 1650, o Santuário do Bom Jesus.

"Com a extinção das ordens religiosas em 1834, o convento, as celas e as capelas dispersas pela serrania sofreram várias pilhagens e enormes estragos causados pelo abandono.

Em 1863, a Casa de Palmela adquiriu o convento, mas as obras só começaram nas décadas de 40 e 50 do século seguinte. Quarenta anos depois, em 1990, o seu então proprietário, Manuel de Souza Holstein Beck, vendeu o convento e a área envolvente, num total de 25 hectares, à Fundação Oriente, a única instituição, que, no seu entender, dava garantias de manter os valores com que, no século XVI, os seus antepassados o haviam entregue aos arrábidos." (...)

 Os frades viveram ali durante séculos, dedicando-se à vida contemplativa, à oração e ao trabalho manual, seguindo os princípios de São Francisco de Assis.

A vida monástica na Arrábida regia-se por regras estritas: os
 frades viviam em reclusão ou clausura, dedicados à oração, meditação e estudo. Seguindo a regra franciscana, viviam com pouquíssimos bens materiais (não tinha bens próprios, os prato sem que comia, eram conchas do mar, nem sequer o convento era deles). Cultivavam a terra, produziam o seu próprio alimento e realizavam outras tarefas manuais; náo comiam carne, faziam jejum e abstinência, conforme o calendário religioso.  Em épocas de crise (fome, epidemias, etc.), tinham que recorrer à  caridade... 

Enfim, o convento foi um centro de peregrinação e retiro espiritual, atraindo fiéis e nobres em busca de reflexão.

Curiosidades:   o convento foi classificado como Monumento Nacional em 1910, mas foi só nos anos 40/50, que se procedeu ao seu restauro, por iniciativa privada (casa Palmela) e apoio do Estado Novo. Salazar gostava de visitar a Arrábida e o seu conventinho. Eu também gosto.

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