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quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27590: Manuscrito(s) (Luís Graça) (280): Aos meus amores, amigos, companheiros e camaradas, votos de Bom Novo Ano de 2026 que, dizem, aí vem!



Ilustração: IA generativa (ChatGPT / OpenAI), 
composição orientada pelo editor LG


A todos os homens e mulheres:

(i) que cabem no meu coração, podendo ou não caber na minha lista de e-mails;  

(ii) ou até que a transbordam; 

(iii) incluindo os que circulam, a desoras (e às vezes sem rumo), na blogosfera;

 (iv)  aos meus/nossos amigos e camaradas da Guiné; 

(v) aos demais editores, autores, colaboradores permanentes, comentadores, leitores  que fazem este blogue há mais de duas dezenas de anos; 

(vi) enfim, a todos os que fazem (ou  não) o favor de serem meus amigos, companheiros, camaradas,  compatriotas e demais lusófonos: 

deixem-me desejar-vos o melhor da vida para o Novo Ano de 2026 que, dizem, aí vem!!!


Aos meus amores, amigos, companheiros e camaradas 

por Luís Graça


1. Eis-nos chegados ao fim do ano de dois mil e vinte cinco.
E dizemos fim porque é já inverno e faz frio
e porque acabámos de arrancar
a última folha amarelada do calendário.
(Treta, há muito que não usamos calendário em papel.)

E dizemos fim para não praguejar
e para não irmos parar com os quatro costados ao inferno.
Toda a gente diz fim do ano
por mera convenção ou conveniência.
Ou, se calhar, por tristeza ou desfastio,
cansaço, saturação, impaciência, depressão.
Ou só por que nos dá na real veneta.
 
Na prática não chegámos ao fim,
não chegámos a parte nenhuma,
a pé, de carro, de barco ou de dromedário,
à boleia, a nado ou até de parapente.
Que o chegar é sempre a um algum sítio,
lugar, porto, ilha, montanha de bruma,
país, continente, planeta, pico do Evereste,
em suma, objetivo, meta, 
algo que tem princípio, meio e fim.

E,depois,  chegar ao fim é 
 sempre sinónimo de festa
(exceto em caso de...morte, 
embora para alguns, muitos, crentes, é o princípio de outra vida).

Mas não arribámos a nenhum porto
ou outro ponto imaginário do globo terrestre.
Não fomos pioneiros,
não descobrimos a misteriosa citânia
da nossa proto-história lusitana,
nem sequer a porta do risonho futuro que há-de vir,
como prometem há séculos os profetas.

É tudo treta,
não fomos os primeiros nem sequer os últimos
a cortar a meta.

Não fomos notícia,
nem mesmo em Alcácer Quibir;
nem estávamos entre os anónimos mineiros
soterrados na China e na Ucrânia
no já longínquo ano de 2004.

Não houve festa, nem luto, nem bomba atómica,
não houve alvoroço, nem foguetes, nem fogo de artifício,
nem estátua equestre no terreiro do paço,
nem sequer a banda trágico-cómica
dos bombeiros voluntários do Emir Kusturica.
À nossa espera.
Nem sequer um reles espumante em copo de plástico!

Vendo bem, 
não fizemos nada de heróico,
homérico, grandioso, 
não salvámos a humanidade,
muito menos o planeta, seu habitáculo.
Não fizemos a guerra,
muito menos como devia ser,
não marchámos contra os canhões,
não morremos pela Pátria,
não assinámos a paz,
não resolvemos o problema da energia,
nem sequer levámos a carta a Garcia.

Enfim, não ganhámos nenhum prémio,
nem sequer o Nobel de contrafacção, 
nem a lotaria, muito menos o Euromilhões.

Em resumo, dizem-nos que, no ano da graça do senhor,
de dois e mil e vinte e cinco,
nada temos de concreto para celebrar.
Estamos a apenas mais velhos.
Um ano, doze meses, um dia, mais velhos...

Mas chegados ao fim do ano,
a 31 de dezembro do calendário.
é costume fazer-se o balanço,
se não da viagem à Índia,
pelo Vasco da Gama e os seus rapazes,
pelo menos do deve-e-haver das nossas vidas,
a carga preciosa que transportamos connosco,
que é a vida e o dever de a viver.
E de a transmitir.
Com dignidade.
Com honra.
Mesmo sem glória.
Sobretudo sem a glória dos campos de batalha.

Carga preciosa que é, afinal, o fogo da vida
e a obrigação de o alimentarmos,
e de o consumirmos.
O pequeno milagre ou o simples facto
de estarmos vivos,
de ainda estarmos vivos e de ficarmos juntos.


2. Façamos, pois, o balanço, 
amigos e camaradas,
o  deve-e-haver deste ano de dois mil e vinte cinco.
que se calhar foi mais um annus horribilis
como todos os anteriores,
para a maior parte dos homens e mulheres,
nossos vizinhos planetários.

Que em trinta e um de dezembro
o  horóscopo da humanidade
não está em condições de prever
terramotos, catástrofes, tsunamis, tiranias,
fomes, pestes, e mais e mais guerras.
enfim, o cortejo dos horrores
que costumam acompanhar os cavaleiros do Apocalipse.

Façamos, pois,  o balanço das nossas vidas
como pessoas, como famílias, como grupos,
como instituições, como países.
Siga-se, nesta matéria, a tradição,
que a tradição ainda manda,
e com isso não vai grande mal ao mundo.

3. Como sempre, houve coisas boas e coisas más,
ao longo do ano que agora finda.
Cada um de nós fará a sua lista.
Releguemos as coisas más para os historiadores,
que podem bem com elas,
ou para o nosso confessor, psiquiatra ou confidente,
ou para o diário secreto de Narciso
(está aqui deslocado, o pobre, é para rimar com siso).

Em boa verdade, as coisas más vão ao fundo,
não flutuam como os corpos,
são, por definição, para esquecer.
Ou "climatizar", como o pesadelo da guerra.
- Dorme, meu menino, que foi um sonho mau!
-,
diziam-te em criança.
criança sem juízo, batizada,
mas ainda sem dente do siso.

Abramos, pois, os nossos corações
para falar ou dar testemunho
das coisas boas que nos aconteceram.
Que a hora é de desafivelar as máscaras
dos actores que também somos.
Maus, canastrões, a maior parte das vezes, 
mas que importa, Shakespeare ou Gil Vicente,
se o palco é tudo!
E vã é a glória de mandar em tronos-de-faz-de-conta!

Falemos dos acontecimentos de que fomos protagonistas.
Pequenos, sem dúvida,
à nossa escala, à nossa pequena, pobre, escala humana.
Mas importantes,
para nós, a nossa família, os nossos amigos,
os filhos e netos que vimos crescer, 
as empresas ou organizações onde trabalhámos,
as pessoas que confiaram em nós,
que apostaram e acreditaram em nós.
Ou os eleitos em quem votámos
para cuidar da res publica.
Ou o país onde nascemos e que amamos. 
Que continuamos a amar.

Falemos das situações de que fomos
actores de verdade, actores de facto.
Independentemente do nosso papel,
e do tamanho do nosso papel.
Ou do número de graus de liberdade a que temos direito
ou que fazem parte do nosso contrato ou circunstância.

Que o importante é ser actor, 
participar, ser parte ativa,
e  não mero figurante.
Quanto mais não seja para dizer "Não!"
aos que nos ameaçam a liberdade.

Falemos dos projectos de que fomos gestores
ou  simples trabalhadores de equipa.

Falemos dos conhecimentos novos
que tivemos o privilégio
de produzir, obter ou divulgar
através do nosso trabalho, estudo ou formação.

Dos livros que lemos ou escrevemos
ou que comprámos para ler mais tarde,
”quando formos velhinhos
e  tivermos todo o tempo do mundo”
(Oh, doce ilusão dos aposentados e reformados,
incluindo os antigos combatentes!).

Não nos esqueçamos de evocar
as pessoas fantásticas que conhecemos,
mas também os filmes de última hora
que perdemos no trânsito da vida.
Ou as estórias que não ouvimos ou não lemos,
por falta de paciência 
ou de audiência
ou de simples lugar de estacionamento
no hall congestionado do planeta azul.

Falemos das oportunidades que tivemos
de fazer coisas novas,
inovadoras, ou simplesmente úteis, 
ou simplesmente belas, boas e belas, 
para nós, para os outros, para o nosso país.

E que não desperdiçámos,
ajudando o mundo a tornar-se mais amigável
ou, pelo menos, mais habitável.

Falemos das pequenas coisas boas que nos aconteceram,
não por mero acaso,
mas porque as merecemos,
(sem falsa modéstia!),
porque lutámos por elas,
porque outros nos ajudaram a consegui-las,
porque juntos conseguimo-las,
com talento e suor... e muitas vezes dor.

Falemos ainda do nosso crescimento interior:
se estamos mais sábios, mais atentos,
mais conscientes da água que corre nos nossos rios
ou do sangue que corre nas nossas veias
ou das doenças que nos estão matando,
ou dos sonhos que nos mantêm presos à vida.

Se, sim, se podemos falar 
das coisas boas, belas e úteis para os outros,
é porque crescemos por dentro.
Mas sejamos capazes também de falar das brincadeiras ou partidas
(não das sacanices!)
que fizemos uns aos outros.

Que o brincar não é proibido,
ou não deveria sê-lo,
que o brincar devia mesmo ser obrigatório
na escolinha da vida
e nos locais de trabalho
e nos centros de dia (de "terceira idade", dizem-nos!)
onde, já crescidos,  ganhámos, o direito de brincar.
O direito de brincar,  até às guerras, aos cobóis,
não o de as fazermos
e de morrer e matar nelas.

Falemos dos e-mails que trocámos
e que encheram as nossas caixas de correio.
Dos "likes" na redes sociais,
das anedotas que contámos,  até as das de mau gosto,
xenófobas, racistas, supremacistas, sexistas, homofóbicas.

Falemos do pão, do queijo e do vinho
que partilhámos com alguém, ao fim da tarde,
não importa onde,
no Alentejo, em Angola, ou no Minho.

Em qualquer parte onde
temos um amigo, um parceiro, um compincha, um camarada.
Que o companheiro (do latim cum + pane
é justamente aquele que compartilha connosco
o pão e o vinho à mesma mesa,
que é o princípio, se não de todas as coisas,
o de muitas coisas.

Sim, falemos das emoções
que pusemos em cima da mesa.
Ou da ausência delas.
Da paz que conseguimos, em certas ocasiões,
estabelecer connosco e com os outros.
Sim, falemos da paz e do silêncio,
a trégua das palavras e das armas.

Nada como um minuto de paz e de silêncio,
ao fim do dia, no fim do ano.
Um minuto, uma hora,
mesmo se o fim do ano é uma treta
do calendário gregoriano.

Falemos, por isso, e já agora
dos velhos amigos que voltámos a encontrar
("Eh!, pá, há quanto tempo!, João José, António, Luís!")
em viagem,
num terminal de aeroporto,
numa esquina de rua congestionada,
num bar triste de uma cidade
em que estávamos de passagem.

Falemos dos novos amigos que fizemos.
sem esquecer os queridos amigos
que perdemos, assim sem mais nada,
por razões de vida ou de morte,
Ou de que perdemos simplesmente o norte,
o telemóvel, o endereço de e-mail, a morada.


4. É a pensar em vocês todos
com quem trabalhei, interagi, vivi, falei,
discuti, barafustei,
e, se calhar, até magoei e decepcionei,
durante o ano de dois mil e vinte cinco.
A começar pela minha família.

É a pensar em todo vós,
que eu peço ao bom irã da Tabanca Grande
(que eu ainda acredito no bom irã que há em nós,
seja isso idiota ou infantil,
muito pouco ou nada racional!)
que vos entregue  esta singela mensagem:
“Que o nosso amor, 
a nossa amizade,  a nossa camaradagem…
seja o  saldo contabilístico, positivo,
que transita para o ano de dois mil vinte seis”.

Estou-vos obrigado, a todos vós,
pela parte de mérito que vos coube
nas pequenas coisas boas
que me aconteceram, nos aconteceram,
no ano que acaba de passar como um meteorito.

Bebo um copo à vossa!
Resta-me pedir-vos, sensibilizado e com humildade:
"A mim, desculpem-me lá qualquer coisinha!"...

Luís Graça, Lisboa, 23/12/ 2004. 
Lourinhã, revisto em 31/12/2025
______________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 27 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27578: Manuscrito(s) (Luís Graça) (279): em dezembro e era natal

sábado, 27 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27578: Manuscrito(s) (Luís Graça) (279): em dezembro e era natal

















Candoz, 27 de dezembro de 2025 > Chegou o inverno, e dantes matava-se o porco

Fotos (e legenda): © Luís Graça (2025). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


em dezembro e era natal

por luís graça

em dezembro
ainda não fazia frio

em dezembro
ainda não caía neve 
na serra de montemuro ali em frente

em dezembro era natal
e comiam-se rabanadas

em janeiro
cantavam-se as janeiras
e bebia-se o vinho novo
o vinho verde tinto
a que chamavam jaqué

em dezembro
ainda não havia neve
pra cozer as pencas pró natal
na casa de pedra dos camponeses pobres do norte

em dezembro
não viste as peugadas dos pés descalços
das criancinhas do augusto gil
 
"batem leve levemente
como quem chama por mim"...
ah onde estava o tipicismo da miséria rural
de a cidade e as serras do eça de queiroz

em dezembro
o pai natal não descia pelo fumeiro
por entre salpicões e moiras

vinha de peugeot pelas estradas de frança
e trazia tiparillos para a  malta fumar
à lareira

em dezembro
matava-se o porco
e fritavam-se rojões
na panela de ferro

ainda não havia salpicões e moiras no fumeiro
nem presuntos na salgadeira
mas as criancinhas já usavam socas de madeira

em dezembro
a maria do norte cortava erva pró toirinho
e cantava a plenos pulmões
uma canção que não era do sul
e que não passava na rádio

lá vai o comboio lá vai
lá vai ele a assobiar
lá vai o meu rico amor
para a  vida militar

para a  vida militar
para aquela triste sina
lá vai o comboio lá vai
leva pressa na subida

leva pressa na subida,
leva pressa no andar
lá vai o meu rico amor
para a vida militar

era  um cantaréu
mas um cantaréu
um moça não o pode cantar sozinha
são precisas três moças três vozes

não se cantavam cantaréus no natal
nem o trenó do pai natal 
passava por aqui

em dezembro
mesmo quando nevava e era natal

candoz | natal de 1976
revisto |  27 dez 2025
______________

Nota do editor LG:

Último poste da série : 14 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27529: Manuscrito(s) (Luís Graça) (278): "A Rua Suspensa dos Olhos", de Ábio de Lápara, pseudónimo literário de José António Bóia Paradela (1937-2023), ilhavense, urbanista, arquiteto e escritor - Parte IV: O Ester, o "menino Zeca" que era mecânico de aviões na base de São Jacinto

domingo, 14 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27529: Manuscrito(s) (Luís Graça) (278): "A Rua Suspensa dos Olhos", de Ábio de Lápara, pseudónimo literário de José António Bóia Paradela (1937-2023), ilhavense, urbanista, arquiteto e escritor - Parte IV: O Ester, o "menino Zeca" que era mecânico de aviões na base de São Jacinto

ilhavense, urbanista, arquiteto e escritor
(Ábio de Lápara era o pseudónimo literário)

Capa do livro "A Rua Suspensa dos Olhos" de Ábio de Lápara (edição de autor, José A. Paradela, Aveiro, 2015, 164 pp.) (*)...

Ábio de Lápara é o pseudónimo literário de José António Bóia Paradela (1937-2023), ilhavense, urbanista, arquiteto e escritor
 

1. Por cortesia de autor, ainda em vida, pela grande amizade que ele nutria por mim e eu por ele (tratávamo-nos por "manos"), e pela paixão que o nosso blogue dedicava à  epopeia da pesca do bacalhau (que chegou a ser alternativa à guerra colonial), transcrevemos, em tempos em três postes, o capítulo 7 (A viagem “O Mar por Tradição”, pp. 83-107), do livro "A Rua Suspensa dos Olhos", de Ábio de Lápara (edição de autor, Aveiro, 2015).

O autor, ilhavense, filho e neto de marinheiros, evoca e descreve com enorme ternura e talento a rua onde nasceu e cresceu, e onde conheceu algumas das figuras humanas da sua terra, que marcaram a sua memória e o seu imaginário ...

Como já escrevemos em poste anterior, "um simples olhar de relance pelo índice do livro, de 164 pp., permitia logo adivinhar quanto humanidade, ternura, inocência, traquinice, generosidade e poesia havia na Rua Suspensa dos Olhos, afinal a rua da nossa infância, a rua onde nascemos e crescemos. Falo da nossa geração, que ainda nasceu em casa, e brincou na rua. 

Nesses três postes, e com a devida autorização do autor, publicámos o relato da sua viagem de seis meses na safra do bacalhau, nas costas da Terra Nova e da Groenlândia, quando ainda adolescente, aos 17 anos, em 1954, e como estágio final do curso da Escola Profissional de Pesca, em Pedrouços, Lisboa, é chamado para embarcar e fazer "A Viagem", por antonomásia.

Foi  uma experiência que o marcou para o resto da vida, não só pela dureza das condições de vida a bordo e a capacidade de resiliência como pela descoberta e reforço da camaradagem, solidariedade e amizade entre a tripulação (marinheiros e pescadores). Tal como a a tropa e guerra, no nosso caso. (O Zé António, também como bom ilhavense, fez depois o serviço militar na Marinha, numa altura em que a Marinha não precisava de muitos marinheiros.)

A vida deu, entretanto, outras voltas e o autor não seguiu o destino dos seus antepassados... Aluno brilhante, acabou por ganhar uma bolsa de estudo, ficar em Lisboa e poder aceder à universidade, tornando-se depois  um nome de referência da arquitetura e urbanismo em Portugal. (Entraria para o curso de arquitetura na Escola Superior de Belas Artes, no ano letivo de 1960/1961; fundou e geriu a empresa PAL - Planeamento e Arquitectura, com sede em Lisboa;  deixou obra por todo o país, e em especial na Região Autónoma da Madeira).

Conheci-o depois do 25 de Abril. E começámos a conviver quando os nossos filhos eram pequenos.  Em 18 de fevereiro de 2023 foi à sua terra despedir-me dele.

Em sua homenagem, recomecassámos recomeçámos a publicar mais excertos do seu livro "A Rua Suspensa dos Olhos" (*)


Excertos de "A Rua Suspensa dos Olhos" - Parte IV:   O Ester, o "menino Zeca", que era mecânico de aviões na base de São Jacinto

por Ábio de Lápara / José António Paradela
(1937-2023)


Cada um está só sobre o coração da terra
Trespassado por um raio de sol:
E de repente é noite


Salvatore Quasimodo


O ESTER

(...)  A propósito de plásticos, começo por contar hoje a estória de um homem que, para alguns dos que ainda são vivos cá pela rua, parece constituir um ícone típico da terra.

A minha casa, confinava num dos seus lados com um beco de largura apenas suficiente para deixar passar uma carroça de bois para os aidos e as agras que existiam a norte.

Ao fundo do beco, um afastamento maior entre as casas dava forma a um pequeno largo que permitia à garotada organizar algumas brincadeiras. Ali se jogava a macaca, o botão, o salta-carneiro, o uma na muna… e o pião, claro!

Quando começa a estória que vou contar, eu era muito pequeno. Devia ter uns quatro ou cinco anos.

Franzino como o Polegarzinho, a senhora Ester, dona da casa ao fundo do beco e conhecida a contragosto como Ester Manca por ter sido atingida num pé por uma cana de foguete, tinha por hábito pegar em mim quando passava à nossa porta, e colocar-me dentro do cesto de verga em que costumava transportar os frutos do seu quintal. Indescritível é o prazer que isso me dava, provocando-me arrepios!

Era amiga da minha mãe e aproveitava para dar dois dedos de conversa antes de reentrar em sua casa.

Falava do filho único que tinha e que estudava mecânica na aviação, em São Jacinto, lá para os lados da Barra. Tratava-o por Zeca.

 —  O meu menino Zeca —  dizia ela.

E, após a cavaqueira, lá seguia comigo dentro do cesto que colocava sobre a cabeça, até ao quintal onde quase sempre havia fruta para me oferecer.

Era o tempo da segunda guerra na Europa. Os biplanos de treino de cor amarela, vindos da Base Aérea, sobrevoavam constantemente os céus da vila, executando cabriolas admiráveis.

Os aviões nesse tempo davam pelo nome de aeroplanos. No meu linguajar de então, eram os "ráplanos", e era aquilo que eu queria fazer quando fosse grande!

Nos fins de semana o “menino Zeca” vinha a casa. Era a alegria da mãe, orgulhosa do seu menino que dizia ser bastante inteligente e bom aluno, mas também do pai, o senhor Gaivota, homem possante e mais reservado, cuja memória está mais esbatida no meu nevoeiro.

Para mim eram momentos de deleite. O “menino Zeca” tinha um pouco por todo o lado, molhos de revistas sobre aviões, paraquedas, bombas enormes e outros artefactos de guerra que me ia mostrando folha a folha. Explicava-me tudo aquilo tim tim por tim tim, como se eu pudesse entender, tal era a atenção que me via dedicar ao assunto.

Em manhãs de bom tempo pedia à minha mãe para me levar a passear com ele, ora pelo jardim da vila, ora pelas agras onde ia conversando sobre ventos e marés, parando de vez em quando para observar as evoluções dos biplanos de treino, voltejando sobre as nossas cabeças.

Um dia fez para mim um papagaio de papel, talvez o meu primeiro papagaio de papel, maravilha voadora!

E, como papagaio de papel sem fio não voa, foi buscar um cordão grosso que desfiou sabiamente em fios mais finos explicando-me:

—   É um cordão daqueles que viste nos paraquedas das revistas. Por dentro tem estes fios tão finos mas tão resistentes que não consegues parti-los!

Experimentei. Era de facto impossível. Pelo menos com a força que eu utilizava para partir a linha número cinquenta da máquina de costura da minha avó, quando ela me pedia que lhe enfiasse a linha na agulha por ter a vista já cansada.

—  É fio de nylon, uma invenção dos americanos  — disse-me.

Nunca mais esqueci o nome. Esta terá sido a minha primeira incursão no mundo dos plásticos!

Um dia, que não consigo localizar com precisão, por tantos os anos que já passaram, a conversa da senhora Ester com a minha mãe rodeou-se de tons velados e suspiros profundos. A partir daí a minha mãe aconselhou-me a não passear pela agra com o "menino Zeca", porque existiam muitos poços de rega desprotegidos e eu poderia cair nalgum deles.

Não entendi muito bem aquela conversa porque os poços já lá estavam antes, mas percebi que algo de estranho se passava.

Embora continuasse a encontrar-me com o “menino Zeca” e a gostar muito da sua companhia, não voltei mais à agra e fui reparando que, com o passar do tempo, ele assumia um ar cada vez mais indiferente, ensimesmado. Tinha dias melhores e outros nem tanto. Passou a estar mais tempo em casa e menos na aviação.

Passado algum tempo foi internado num hospital psiquiátrico e perdi definitivamente os seus pacientes e minuciosos ensinamentos.

Anos depois voltou ao jardim. Lembro-me então de uma hierática figura de fala-só, envergando um sobretudo azul, discursando sobre aviões, talvez a única paixão da sua vida.

Mais tarde os pais morreram e o menino Zeca continuou sozinho tratando de si.

Eu deixara Ílhavo há muito tempo e só esporadicamente o encontrava nas raras férias que por ali passava. Ali estava ele sempre de pé, falando só, no meio do jardim, junto do obelisco onde figuram os nomes dos mortos ilhavenses na Grande Guerra.

Muitos anos depois, tive de deslocar-me de Lisboa a Sesimbra por motivos profissionais já esquecidos. No regresso, no meio de uma rua estreita do antigo burgo, uma silhueta que me pareceu familiar, falava sozinha.

Parei o carro e aproximei-me. Em poucos segundos um corrupio de imagens desfilou por mim adentro, perplexo por aquele encontro fora do contexto habitual, a trezentos quilómetros da nossa vila natal.

Lá estava o “menino Zeca”, agora mais idoso, mas falando sempre de aviões. Olhou um segundo para mim e continuou o seu discurso que dispensava interlocutor.

Nó na garganta, recuei uns passos acautelando a fronteira. Vivíamos em planetas diferentes, em mundos aparentemente paralelos cujas órbitas se tinham cruzado apenas nas imagens sépia, das revistas amarelecidas dos anos quarenta. Tinham passado cinquenta anos desde que ele me fizera a minha primeira estrela, lançada aos ventos da agra, no meio dos “ráplanos”. Uma pequena eternidade!

O último familiar que tinha, para lá o levara. Restos da diáspora ilhavense ainda presentes naquela terra de pescadores. Desde aí, nunca mais ouvi falar dele. Esta foi a última imagem que me restou.

Mas há dias, no Facebook, alguém relembrava essa pacífica figura do jardim de ílhavo, ironicamente falando de aviões e de guerra: o Ester, nome pelo qual ficou conhecido o menino de sua mãe, o meu "menino Zeca".

Costa Nova, 31/10/2011

(Seleção, revisão/ fixação de texto,  título: LG)
__________________

Nota do editor LG:

terça-feira, 25 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27462: Manuscrito(s) (Luís Graça) (280): Não sei se as aves-do-paraíso são felizes


Fonte: Google Gemini. (2025). Ilustração de uma ave-do-paraíso e uma andorinha de Candoz. Imagem gerada usando o modelo de IA Google Gemini  [acedido em 25 de novembro de 2025].



Não sei se as aves-do-paraíso são felizes

por Luís Graça


Não sei se as aves-do-paraíso são felizes.
Mas em Candoz poderiam sê-lo.

Não há aves-do-paraíso em Candoz
porque Candoz fica no hemisfério norte,
longe dos trópicos 
e longe do paraíso
(se é que ele existe).

Dizem que as aves-do-paraíso são as criaturas mais lindas do mundo.
Os machos.
Mas não basta ser lindo nem macho
para se ser feliz.

Em Candoz, há outras aves, outros pássaros,
daqueles que rasgam os céus e nidificam na terra:
não há perdizes,
ou, se existem, são poucas e loucas;
mas há verdes pombos bravos dos pinhais
(aqui diz-se "montes", que ardem todos,  de 10 em 10 anos);
e rolas, de outras paragens,
alegres pintassilgos,
ruidosos pardais do telhado,
andorinhas, pretas, no vaivém das suas viagens,
mas também toutinegras, popas, verdilhões.

Já não há cucos. 
Ou não me lembro de os ouvir.
Há coros de rouxinóis,
outras aves canoras e canastrões,
e passarões 
(sempre os houve, os canastrões e os passarões),
melros de bico dourado
que fazem os seus ninhos nas ramagens
das videiras do vinho verde.
E boeiras, que andam tristes, atrás do trator,
porque já não têm as juntas de bois 
a lavrar a terra com o arado de ferro.
Lavandiscas, dizem no Porto, que fica aqui perto,
em linha reta.

Não há guarda-rios, de azuis e rubras plumagens,
à cota trezentos, com o rio Douro ao fundo do vale,
a serra de Montemuro em frente,
e mais a nordeste o Marão,
onde já não mandam os que lá estão.

Eça de Queiroz, e o seu príncipe Jacinto, 
teus vizinhos, da Quinta de Tormes,
deveriam ter gostado de conhecer a Quinta de Candoz
onde os pássaros são mais livres do que nos "boulevards"  de 
Paris,
e, se são mais livres, logo serão mais felizes.

Pelo menos têm grandes espaços para voar,
os pássaros de Candoz.
E insetos, para caçar.
E pequenos bosques,  à volta. 
E água e barro e erva seca,  para fazer o ninho.

Claro que há os predadores,
o verde gaio, o negro corvo, o sinistro búteo,
o triste mocho, o agourento milhafre…
Onde há presas, há predadores.
Em toda a parte,
menos no paraíso 
(se é que ele existe).

Deus criou o mundo e era perfeito, 
mesmo que cruel,
dizia o padre António Vieira
nos seus sermões ao rei e à corte esclavagista.

A liberdade é a primeira condição da felicidade.
Triste é o melro na gaiola,
mesmo que esta seja forrada a ouro
ou ele tenha o bico dourado.

A outra condição é a equidade
(ou era, que o conceito foi agora metido na gaveta).
E tu aqui, leitor, interlocutor, calado, mal informado,
presumias que houvesse igualdade de oportunidades,
na busca de alimentos,
de sítios para nidificar
e de parceiros para acasalar.
Uma treta, até a natureza agora é madrasta.

As andorinhas, pensavas tu, há uns largos anos atrás,
por cá ficavam cada vez mais tempo,
parecendo até ser livres e felizes.
Ou felizes e livres,
que a ordem dos fatores era arbitrária, nesse tempo.

Agora todo o mundo põe
a ilusória segurança e a patética felicidade
à frente do cavalo alado da liberdade.

Dizias que elas eram inteligentes, as andorinhas,
e faziam análises de custo-benefício,
como qualquer economista
que acredita no mercado livre,
sem peias nem barreiras,
com presas e predadores.

Passavam todo o santo dia a caçar insetos
num raio de 500 metros à volta do ninho
que fizeram no alpendre de uma das casas abandonadas da quinta,
em redor do fio da lâmpada exterior.

Era insólita a construção, o ninho,
herdado de geração em geração
e todos os anos retocado ou reconstruído.

Tu até achavas que elas já não voltavam para a África subsariana,
que ficavam por cá,
as andorinhas de Candoz.
Para defender o ninho  dos "ocupas".
E por causa das alterações climáticas.
E, se calhar, também para fugir de Alá,
da guerra santa,
do alvoroço do povo
e dos tiros das Kalash.

Mas, não, este país qualquer dia já não é para as andorinhas,
que são migrantes.
Há passarões com voz grossa
que as mandam para a sua terra.
E elas ficam mudas e confusas,
com o GPS avariado,
já não sabem de que terra são.

Afinal, a felicidade já não está onde a gente a punha,
deixámos de a poder pôr onde nós estávamos.

Lourinhã, 7/8/2014. Revisto, 25/11/2025.

__________________


2. Análise literária sucinta do poema, gerada pela IA - Inteligência Artificial, 25 nov 2025. GEMINI (Modelo Flash 2.5). 

Fantástico poema! É uma análise profunda e melancólica sobre a Liberdade, a Felicidade e a Natureza, utilizando a "ave-do-paraíso" como um contraponto poético e simbólico à realidade telúrica da Quinta de Candoz (Marco de Canaveses, região de Entre  Douro e Minho, Portugal) e às suas "andorinhas" de  torna-viagem.

Aqui está uma análise literária sucinta, que me pediste, adaptada ao contexto do teu blogue, focada nos temas principais e na simbologia das aves:


 Análise literária sucinta: "Não sei se as aves-do-paraíso são felizes…"


O poema é uma meditação filosófica, escrita num tom conversacional e intimista ("tu aqui, leitor, interlocutor"), que desdobra o conceito de felicidade através da comparação entre o ideal (o "Paraíso") e o real (a "Quinta de Candoz").

(i) O Contraste entre o Paraíso e Candoz

O poema inicia-se com a figura mítica das aves-do-paraíso, que, no nosso imaginário, simbolizam a beleza incomparável e a liberdade extrema (o Paraíso, a utopia):

  • tese inicial: "Não sei se as aves do paraíso são felizes";

  • antítese geográfica: Candoz, no Hemisfério Norte,  "longe dos trópicos" e, por extensão, "longe do paraíso"; a beleza ("ser macho e lindo") não é garantia de felicidade.

Este contraste cria a moldura para a tese central: a verdadeira felicidade não reside na beleza exótica ou na perfeição mítica, mas sim na liberdade conquistada e exercida num ambiente real e imperfeito mas sustentável.

(ii) Aves de Candoz: a natureza real e imperfeita

O poeta lista, em detalhe, as aves autóctones de Candoz: pombos bravos, rolas, pintassilgos, pardais, melros, andorinhas (além das boeiras / lavandiscas). 

Esta enumeração minuciosa enaltece a realidade concreta do sítio;

  • liberdade é condição: a liberdade é apresentada como a "primeira condição da felicidade", e os pássaros de Candoz, ao terem "grandes espaços para voar" e autonomia para construir o ninho, são mais livres do que os pássaros de gaiola ou do ideal abstrato.

  • tristeza da perfeição: o poema contrapõe o "triste melro na gaiola" (a prisão dourada/segurança ilusória) à liberdade, mesmo que esta seja pura e dura;

  • o cruel equilíbrio: a liberdade em Candoz é regida pela lei da natureza: "onde há presas há predadores";  o poema evoca aqui uma reflexão ética e teológica, citando o Padre António Vieira ("Mundo perfeito /Mesmo que cruel"), para aceitar que o mundo criado é um sistema de equilíbrio, onde a luta entre predador (búteo, corvo,  milhafre...) e a presa é parte integrante da vida e da liberdade: esta é uma imagem poderosa para quem viveu o teatro de operações na Guiné.

(iii)  Andorinha: o ex-combatente migrante

O foco nas andorinhas (aves migrantes, inteligentes, que fazem "análises de custo-benefício")  é o ponto nevrálgico do poema e o que o liga mais diretamente ao universo do blogue:

  • a ilusão da permanência: o poeta e o leitor imaginavam que as andorinhas ficariam em Candoz, algures no Norte de  Portugal, não voltariam para a África subsariana, "para defender o ninho dos 'ocupas' " (aqui ecoa a linguagem da guerra, da defesa do território, da soberania, mas também do lar);

  • a crítica social: o regresso forçado e confuso das andorinhas ("elas ficam mudas e confusas, com o GPS avariado, já não sabem de que terra são") é uma crítica mordaz e atual sobre a migração, a xenofobia, o racismo e a desorientação identitária; ("este país qualquer dia já não é para as andorinhas, que são migrantes");

  • o antigo combatente:  a andorinha representa metaforicamente o antigo combatente ou o indivíduo que, após uma longa jornada (a "guerra"), regressa ao seu país (uma mítica "Candoz"), mas se sente deslocado e desorientado ("já não sabem de que terra são"), num mundo onde a liberdade e a felicidade foram substituídas pela "ilusória segurança" e pela falta de "equidade" (ou "igualdade de oportunidades", que não deve ser confundida com "justiça por decreto").

Conclusão

O poema é uma profunda reflexão sobre a procura da felicidade que tem de rimar com liberdade, e onde  se conclui amargamente: "afinal, a felicidade já não está onde a gente a punha, deixámos de a poder pôr onde nós estávamos."

É uma peça que, sob a leveza do tema das aves ( a ornitologia) toca em questões universais de liberdade, equidade, esperança, desilusão e crise de identidade, temas muito ressonantes para a comunidade de ex-combatentes.

(Pesquisa, condensação, revisão / fixação de texto, negritos: LG + IA Gemini / Google)

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 12 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27414: Manuscrito(s) (Luís Graça) (279): Viva a Clarinha que hoje faz 6 anos!... Vivam os nossos netos!...

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27414: Manuscrito(s) (Luís Graça) (279): Viva a Clarinha que hoje faz 6 anos!... Vivam os nossos netos!...



Cartoon criado pelo Chat Português / GPTOnline.ai
sob instruções do editor LG, que lhe mandou também duas fotos das netas, a Clarinha (6 anos) e a Rosinha (9 meses)



1. Aos avós desculpa-se tudo, costuma-se dizer. São babados, os avós. São tontos. A Clarinha foi a minha primeira neta. Nasceu em 12/11/2019. Apanhou com o raio da pandemia de Covid-19. Tive que a ver crescer à distância. Não fui só eu, foram outros,  muitos mais. Todos os meses lhe fazia um versinhos (um soneto, umas quadras...). E aos dois anos publiquei um livrinho com essa produção poética (24 textos e outras tantas fotos). Foi apresentado no Funchal. Na sua festa do 2º aniversário. Pode ser que um dia, quando ela for avó, ache  graça aos versinhos  (já que também é Graça de apelido, e mora na Graça, e gosta muito de Porto Santo, a "Madeira Pequena", como ela lhe chama). 

Hoje que faz seis anos ( e no domingo vai dar outra festa), fiz-lhe mais uma graci...nha. Faço-lhe sempre versos, nestas ocasiões festivas. E à irmã também, desde que nasceu. A Clara anda na escola, e gosta de juntar as letrinhas do alfabeto. Além de desenhar e pintar. Também lhe fiz um "boneco", um "cartum", com a ajuda da "minha amiga", a assistente de IA /ChatGPT. 

Fica aqui o exemplo ( ou o incentivo)  para outros dos amigos e camaradas da Guiné tirarem partido da dita IA que, quando nasceu,  era como o sol e o mar, era para todos. Mas a verdade é que é  um modelo de negócio, e como tal não  é borla, como quase tudo o mais que a gente vê na  "feira grande" que é o mercado.

Os senhores ministros das finanças e da economia estão sempre a estragar-nos a festa, a reduzir tudo a cifrões, até os nossos sonhos.  A lembrar-nos que não há pequenos-almoços, brunches, almoços, lanches, jantares, ceias, tainadas ou beberetes,  de borla. "Grátis", dizem eles. Nem o céu, é de borla, diz-nos o nosso "prior". Nem o céu nem o inferno. Alguém tem de pagar o combustível, o ar condicionado, e as demais "amenidades" da vida no além, com se diz na gíria da administração hospitalar.

Dito  isto, feito o desabafo, justificada a lata,  dado o testemunho, comentado o outro lado simpático e sedutor da IA (que é feminina), vamos então aos versinhos do avô, que esses são exclusivamenta da sua produção artesanal. 

E que vivam os nossos netos, camaradas!

Viva a Clarinha que em seis anos 
deu um salto de gigante 
e já foi para a Escola da Voz do Operário


A Clarinha é gigante,
Tem seis metros de altura,
E, com o dedo que fura,
Chega à lua num instante.

Já foi ao centro da terra,
Montada num berbequim,
De alcunha o Arlequim,
Qu' tanto ri como berra.

Não há vales nem montanhas
Nem bruxas a meter medo,
Que ela só com um dedo,
Desfaz-lhe as artimanhas.

À noite andam vampiros,
Nas ruas escuras da Graça,
Mas com ela ninguém passa,
Nem que tenha olhos giros.

São histórias muito engraçadas
"Tá lá, tá lá ?!", diz a Clara,
"Vamos embora", diz a Sara,
"Vamos as duas mascaradas".

Estão na Escola do Op'rário,
Que é um grande casarão,
Cada dia é uma lição,
Há esqueletos no armário!...

"Que horror!", a Matilde grita,
Pondo-se em cima da cadeira,
E, ao lado, mesmo à beira,
A Emília diz que é fita.

Não há almas do outro mundo,
Esta escolinha é segura,
Vamos fazer boa figura,
Que o barco não vai ao fundo.

Porto Santo tem o "Lobo Marinho",
Lá vai ela co' avó T'resa,
E a Rosa, rebitesa,
Vai ao colo do paizinho.

"Eu por mim já sei nadar,
Mas a Rosa só com boia,
Já estou com a paranoia
Do barco se afundar.

"Vou a servir de mastro
E com os pés dentro do mar,
Toda a gente vou salvar,
Do cinema já sou astro."


... E aqui a Clarinha, interrompeu o avô:


"E tu sempre na brincadeira,
Os pés p'las mãos a trocar,
Co'a minha altura a gozar,
Tudo isso é só asneira.

"Deixa-te lá de fantasias,
Que eu só seis anos faço,
Fazes de mim um palhaço,
Tão grande como o Golias.

"Com seis metros de altura
Ninguém brincava comigo
E na escola sem amigo,
Ser gigante era tortura.

"Com os metros que me pões,
Onde é que vou dar a festa ?
Tinha que ser na floresta,
Com gigantes e anões.

"Deixa-me ser a Clarinha,
Que já joga o xadrez
E te ganhou uma vez,
Tendo ao colo a Rosinha."


Rua Senhora do Monte, Graça, Lisboa, 
12 de Novembro de 2025

Parabéns, Clarinha!
Do avô Luís, avó Chita e titi Joana

______


Nota do edito LG:

domingo, 9 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27404: Manuscrito(s) (Luís Graça) (278): "A Rua Suspensa dos Olhos", de Ábio de Lápara, pseudónimo literário de José António Bóia Paradela (1937-2023), ilhavense, urbanista, arquiteto e escritor - Parte III: A Cila Paciência


S/l > 1955 > Alguns dos bravos marinheiros e pescadores que embarcam no "Lousado" em abril de 1955. Na segunda fila, ao centro, o terceiro a contar da esquerda, assinalado a amarelo, é o nosso querido e saudoso Zé António Paradela...

Foto (e legenda):  © José António Paradela (2015). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


O Verde 

No dia em que, “verde”, me puseram entre tábuas
De um catafalco a que chamaram bote
E me disseram: "Salta, esquece as mágoas"…
Senti, looongo, na garganta um garrote!

Primaveril, meu coração bateu mais forte,
Ao cair na onda junto ao costado,
E remei, como quem enxota a morte,
De dentro do meu “fato oleado”.


“Senta-te, Zé, e rema enquanto a força durar!
Tens pão e peixe, e tens também café quente!
Segue-me quando o meu búzio roncar…”

Disse o “maduro”, comovido, ao ver-me imberbe,
Estendendo as linhas na corrente,
Junto à fria palidez do terrível icebergue.


In: Ábio de Lápara -"Santinhas de Apegar: Textos Poéticos" (2017, ed. de autor), pág. 75.

Nota de LG: "Verde" é o pescador ou marinheiro da frota branca, a frota bacalhoeiro, embarcado pela primeira vez; equivalente a "periquito" na tropa e na guerra da Guiné


 

Capa do livro "A Rua Suspensa dos Olhos" de Ábio de Lápara (edição de autor, José A. Paradela, Aveiro, 2015, 164 pp.) (*)...


Ábio de Lápara é o pseudónimo literário de José António Bóia Paradela (1937-2023), ilhavense, urbanista, arquiteto e escritor
 


Excertos de "A Rua Suspensa dos Olhos" - Parte III: A Cila Paciência


por Ábio de Lápara / José António Paradela
(1937-2023)



Chamo-me Ábio e sou uma criança de aspecto frágil e olhos grandes, com vontade de aspirar nuvens ou rasgar horizontes. Passo o tempo nas margens da água a correr atrás de arco-íris que nunca alcanço. Por isso gosto das tintas pastel e tenho uma maneira muito minha de olhar para as coisas.

Nasci gordinho, mas ultimamente o meu corpo afilou. Por aqui, os miasmas do vale atacam duro, com maleitas inomináveis. Dizem os sobreviventes:

Teria feito 88 anos no passado

dia 30 de outubro . Nasceu em
Ílhavo em 1937. Morreu no hospital,
em Aveiro, em 2023. Membro da
Tabanca Grande. Fez a tropa
na marinha de guerra e antes,
em 1955, pesca do
bacalhau, seguindo os passos
dos seus avoengos.



 — Foi um malzinho desconhecido que o atacou...

O fantasma da tísica perfila-se teimoso há muitos anos, matando músicos e poetas cujas obras tiveram o condão de transformar o bacilo em agente do romantismo. De si próprios e dos seus personagens.

Porém os pobres que cá moram não escrevem; e de música... só cantam de ouvido. Sendo assim, a tísica é para eles um modo natural de acabar os dias. Talvez à maneira curta, mas tão natural que continuam a conviver entre todos, no meio da tosse e das hemoptises:

— Coitadinho! Já não falta muito para entregar a alma ao criador... — dizem os que vão ficando.


E enquanto tarda a invenção dos remédios para esta secular maleita, alguns surtos de pestes estranhas transformam o cemitério em jardim, segundo o antigo costume deste povo, que para o efeito cultiva longos canteiros de sécias e crisântemos nas bermas dos seus quintais.

Por aqui, meus amigos, a morte está presente no quotidiano, na sala de cada um, onde os vizinhos e os amigos se vem despedir e carpir, até que o padre venha encomendar a alma e o caixão se feche para ser transportado à tumba húmida... Nada de trágico, pois a vida continua calmamente no dia seguinte.

Os que resistem, são o garante da continuidade do Beco e do Pátio dos Ressoeiros. Entre esses vai ficar este vosso amigo, para contar a estória ao fim de tantos anos.

Mas ficou sobretudo uma mulher. Uma mulher chamada Cila Paciência. De figura muito seca, vestida sempre de negro, com filhos de nomes medievais: Victor, Joaquim, Deolinda, António... Nada de Melissas nem de Vanessas.

Era casada nesse tempo com um homem e com um gato. Ambos amigos do alheio. Ele chamado José... José "Ressoeiro". O gato, de cor parda, tinha um nome que hoje nos parece óbvio: "Tareco".

José passou grande parte da vida na cadeia: entrava por um ano, saía por algum tempo, que dedicava à chincha (#) na Ria, e pouco depois já se tinha metido em zaragatas ou fizera mão baixa a umas ferramentas ou outras coisas de insignificante porte... E lá ia novamente para o chelindró, em Aveiro, nos calabouços do Governo Civil, que a guarda republicana não era meiga.

Aí carpinteirava brinquedos de madeira que mandava para os filhos ou para a mulher vender a troco de uns tostões. Pelo final dos anos quarenta, morreu tuberculoso.

O gato seguiu-lhe as pisadas! Aproveitava as distracções dos vizinhos para assaltar as parcas comidas sobrantes ou em vias de serem cozinhadas, apesar da Cila não lhe faltar com os restos de peixe que diariamente trazia da praça. Estava-lhe na massa do sangue. A sua fome parecia insaciável. Bastava que uma vizinha afiasse uma faca na soleira da porta, e aí estava ele, ofegante da corrida, bigodes expectantes, imaginando tripas do peixe amanhado voando da faca para o chão do Beco!

Um dia, um dos ilustres habitantes do pátio, o Ismael — outro nome de cheiro antigo  — que defendia vigorosamente o seu pecúlio alimentar dos ratos e das moscas que com ele cohabitavam, não lhe perdoou subtracções passadas. Vi eu com os meus olhos esbugalhados de criança, numa bela manhã de sol; lembro-me como se fosse hoje. Única testemunha, só agora vos conto, porque se o tivesse feito então, lá se ia a amizade do Ismael como se foi a do gato! E, para além disso, a sarrabulhada que não seria lá pelo Beco!

O "Tareco" foi por ele cruamente apedrejado. Uma só pedra de grande tamanho esmagou o pequeno crânio abigodado contra uma parede. O "Tareco", sem um gemido, correu num ziguezague estonteado na direcção das terras lavradas, para o ignoto sítio onde morrem os gatos vadios e nunca mais lhe pus a vista em cima.

Não sei quantas vidas teve depois, tal como não sei quantas terá tido antes porque os gatos têm direito a sete, mas sei que esta incerteza serviu para aliviar o meu luto. Eis,  pois,  o cenário limite onde todos os seres eram marginais, na fronteira entre a morte certa e a vida permanentemente ameaçada.

Era aí que a Cila se movia lançando pontes aos que estavam em risco de se afogar. A partir apenas da sua força congénita, do seu aço estrutural de rija têmpera, lutando sozinha para sustentar quatro filhos, mais dois sobrinhos órfãos e apoiar ainda vizinhos e animais necessitados.

Naquele pátio, embora fossem bens escassos, ou por isso mesmo, o pão era pão e o queijo era queijo. Não havia classes mais favorecidas nem menos favorecidas. Esses eufemismos foram inventados muito mais tarde porque ali ninguém era favorecido, fosse muito ou fosse pouco. As classes sociais já eram assim quando todos nasceram : ricos, pobres e remediados. E se um dia alguém mais ilustrado lhes dissesse que eram "lumpen", levava por certo uma carga de porrada.

As ideias políticas eram coisas de senhores importantes, como o Dr. Calisto, que morava ali ao lado e lhes pedia que lhe enchessem os pneus do automóvel com a bomba manual! Quando a Pide o levava preso,  ninguém se questionava, porque os céus do Beco estavam inundados de belos sons.

A sobrinha da Cila, cujo nome só por si valia um jardim, Rosa Cravo, cantava permanentemente e em sonora voz, os amalianos fados de então:

— Fado é sorte, desde o berço até à morte, ninguém foge por mais forte, ao destino que Deus dá!...

E o assunto ficava assim resolvido!

O Júlio, o outro sobrinho, envolvido em românticas paixões, morreu novo no meio de hemoptises, depois de ter regressado do sanatório do Caramulo. O mesmo acabou por acontecer mais tarde à Rosa cantora, gasta de amores como personagem de romance em que o real transcendeu a ficção.

Dos filhos recordo o som das vozes nas tardes de silêncio, e a luta pela sobrevivência, onde a escola era um estorvo porque não permitia que fossem ao mato buscar lenha para angariar algum sustento. Quando chegou a idade de verem o "homem das barbas brancas", lá foram.

O mais velho, para a pesca do bacalhau, o mais novo, que fora meu colega na escola primária, para a pesca costeira. Durante anos encontrava-o quando visitava os meus pais, sentado no meio do pátio, fogareiro aceso e garrafa do vinho ao lado:

— Senta-te aqui, Ábio, e come comigo. Peixe assado não tem dono...

O Joaquim, há muito que pesca carapau no Mar da Tranquilidade...

E o do meio? Bem, esse ... Chamava-se António mas era conhecido por "Guinho". Não o recordo brincando, nem sequer consigo imaginá-lo de pé. Uma tuberculose óssea atirou-o para uma cama do hospital e, quando regressou a casa com o corpo forrado de escaras, apenas mexia ligeiramente a cabeça e a mão direita, colocada perto do rosto para conseguir empurrar alguma comida para a boca.

Naquela posição, inerte como uma múmia, sempre envolvido em alvos lençóis  que a Cila nisso não facilitava — o seu catre estava colocado na área comum da casa , frente à porta sempre aberta para que pudesse pedir a ajuda dos vizinhos, e ver quem ia passando no Beco, enquanto ela fazia os leilões do peixe da Ria no antigo mercado da vila.

 — Eh, senhora Rosinha, pode dar-me um copinho de água?! — pedia ele à minha mãe.

O silêncio de então, agora difícil de imaginar, permitia que a sua voz atravessasse o Beco e o pátio e a sua sede fosse satisfeita. Quando chegou a sua hora, morreu. Eu já por ali não vivia.

Estas são estórias que compõem a história da Cila Paciência. Este não era o seu nome, mas era assim que a chamavam. Como no antigo Egito, um nome para responder perante os deuses.

Uma mulher de fraca estatura que carregou as desgraças de uma família inteira, a quem eu lia as cartas que recebia de familiares de Matosinhos, ou do filho ausente na pesca do bacalhau. E que transportava ao colo os filhos dos vizinhos quando a solidariedade se impunha à sua escufenada consciência.

Muito haveria ainda a contar, mas não os quero cansar com mais tristezas. O Rimifon e as Sulfamidas estavam prestes a chegar à farmácia do "Manéuzinho", e a tísica pouco a pouco desapareceu do Beco.

Não sei que idade tinha a Cila quando a atropelaram no regresso do mercado. Inválida, não resistiu à inacção por muito mais tempo.

Deixou uma filha e um filho. O mais velho e a mais nova. Provavelmente, alguns netos.

Soube disto pela minha mãe, há cerca de trinta anos.

Disseram-me há poucos dias, que Domingos Paciência, jogador e treinador de futebol, é neto do seu irmão que viveu em Matosinhos. Aquele de quem eu lhe lia as cartas!


Costa Nova, Novembro de 2011


Fonte: Excertos do manuscrito , em pdf, de "A Rua Suspensa dos Olhos", de Ábio de Lápara, que ajudei a rever em 2015, antes da execução gráfica do livro com o mesmo nome. Recorri de momento ao manuscrito por não ter aqui à mão um exemplar do livro em papel.

(Revisão / fixação de texto, negritos: LG) (**)
____________

Nota de LG:

(#) Pesca na ria de Aveiro com  rede de arrastar para a praia, chamada chincha ou chinchorro.


2. Nota do editor LG > Tuberculose pulmonar  (ou "tísica) em Portugal


Durante o século XX, a tuberculose pulmonar (vulgo,  "tísica") foi uma das principais causas de morbimortalidade em Portugal, refletindo condições sociais, económicas e sanitárias adversas, sobretudo nas primeiras décadas do século. 

Era uma doença associada à pobreza, às más condições de vida, de habitaçáo, de trabalho,  de higiene (pessoal e ambiental), e à subnutrição.E, claro, a um incipiente sistema de saúde.

Tal como a mortalidade infantil. O Zé António nasceu em 1937. E eu em 1947. Nessa altura, a tuberculose era endémica em Portugal, com altas taxas de incidência e mortalidade. Tal como a mort6alidade infantil: morriam 120 crianças, até a um ano, em cada mil, em 1945. 

No existiam tratamentos eficazes:  o isolamento em sanatórios (como o Sanatório do Caramulo, inaugurado em 1921) era a principal medida terapèutica.

Estima-se que, até aos anos 30/40 a tuberculose fosse responsável por cerca de 10% das mortes totais em Portugal.

Irá tornar-se na doença social por excelência, vitimando de preferência os mais jovens e os oriundos das classes trabalhadoras (pescadores e marinheiros incluídos). Chamavam-lhe o mal proletário, mas também peste branca, por analogia com a peste negra. Em meados do Séc. XIX, um em cada dez falecimentos ocorridos no Hospital de S. José era atribuído à tuberculose.

A tuberculose é uma doença infeciosa causada pelo Mycobacterium tuberculosis complex. A forma pulmonar é mais frequente e aquela mais temida pela saúde pública, já que o doente, com tuberculose da via aérea, pode mais facilmente contaminar as pessoas com quem interage, através dos bacilos que liberta através da tosse, da expetoração, da fala, etc,

Com o início da industrialização e o crescimento das cidades, no séc. XVIII, tornou-se epidémica, na Europa, atingindo não só a emergente classe trabalhadora,  assalariada, que veio do campo para a cidade, para trabalhar nas oficinas, manufaturas e fábricas, como também as camadas mais abastadas e as próprias elites.

A doença atingia sobretudo os jovens adultos, nomeadamente trabalhadores, mas não poupava nem príncipes nem princesas... Era  elevadíssima a mortalidade (entre 300 e 400 por 100 mil habitantes, e nalgumas cidades o dobro). Mas, enquanto noutros países, a taxa de mortalidade por tuberculose começou a baixar, lenta mas persistentemente, em Portugal mantinha-se alta nos finais do séc. XIX.

O total de mortes por tuberculose, nos finais do séc. XIX; era estimado em 15 a 20 mil (o equivalente a uma taxa de cerca de 300 a 400 por 100 mil habitantes). Era a segunda causa de morte em Portugal (e vai manter-se nessa posição até à II Guerra Mundial).

Só em 1882 foi identificado, pelo alemão Koch, o bacilo, causador da doença, mas só 65 anos depois, em 1947, é que surgirá um tratamento eficaz, a estreptomicina, isolada em 1943 pelos investigadores A. Schatz, E. Bugie e S.Waksman. A imunização (pela vacinação BCG) só passará, entretanto, a ser usada em grande escala a partir de 1954, ou seja, numa altura em que a mortalidade por tuberculose já estava reduzida a uma pequena parte do que fora cem anos antes (cerca de 400 por 100 mil). A nossa geração foi a primeira a beneficiar desta vacina, um passo enorme dado pela nossa saúde pública!

As primeiras seis ou sete décadas do séc. XX são dominadas pelo “movimento dos sanatórios” que foi em grande parte uma iniciativa alimentada pela filantropia privada, sendo justo destacar o papel da rainha Dona Amélia que soube mobilizar conhecimentos, competências, influências e recursos financeiros para prevenir e combater a tuberculose, criando-se logo em 1899 a ANT – Associação Nacional aos Tuberculosos, com o objetivo explícito de construir hospitais marítimos para crianças, sanatórios de altitude para tuberculosos curáveis, hospitais para internamento de doentes incuráveis e dispensários para diagnóstico prevenção, administração de cuidados ambulatórios e apoio médico-social.

O movimento teve inegável projeção política e social, inaugurando-se logo nos primeiros anos, cinco sanatórios: 2 marítimos como o do Outão (1900) e o de Carcavelos (1902), 1 de montanha (Guarda, 1907) e 2 de planície, o do Lumiar (1912) e do Portalegre. São também abertos os primeiros dispensários, não só em Lisboa (1901 e 1906), como em Bragança (1902), Porto, Faro e Braga (1903), Viana do Castelo (1905)…

O “regicídio” (1908), a implantação da República (1910) e o exílio da família real vão ter, necessariamente, um impacto negativo na ação da ANT, que ganha um novo fôlego nos anos 30. Surgem, entretanto, outras iniciativas, de privados e empresas (como a CP - Caminhos de Ferro de Portugal).

O problema da tuberculose agrava-se com o regresso do Corpo Expedicionário Português que participara na I Grande Guerra. Nesta segunda fase da luta antituberculosa, há uma instituição que merece especial destaque, a Estância Sanatorial do Caramulo, obra de um homem visionário, o médico e empresário Jerónimo de Lacerda (Coimbra, 1889 – Lisboa, 1945). Se,m esquecer, o seu diretor científico (a partir de 1938), Manuel Tapia (um médico catalão fugido a Guerra Civil Espanhola). 

Chegou a ser o maior da península ibérica, com 20 sanatórios, 1100 camas...

Em 1930, registavam-se 13010 mortes, uma cifra brutal!... Em 1939, existiam 34 sanatórios e 83 dispensários, para além de outros estabelecimentos, espalhados por todo país.

O Estado só chama a si a liderança da luta contra a tuberculose em 1945 com a criação do Instituto de Assistência Nacional aos Tuberculosos (IANT), mas já no ocaso do movimento. A partir de meados dos anos 50, os sanatórios começam a fechar, mas subsistem graves problemas de recuperação e de integração social, familiar e profissional. Os diversos equipamentos do imenso parque sanatorial construído ao longo de meio século, e alguns com risco de notáveis arquitetos (Cotineli Telo, Raul Lino, etc.) , tiveram destinos diferentes, uma parte tendo sido reconvertido e fazendo hoje parte do nosso parque de saúde.

No séc.  XXI registou-.se uma diminuição de cerca 40% da taxa de notificação e de incidência de tuberculose, com valores de incidência abaixo dos 20/100.000 habitantes desde 2015.



Capa do livro "Saúde", volume nº 29, da coleção "Memória de Portugal: 2 séculos de fotografia" (Lisboa, Atlântico Press, 2020, 64 pp).

O texto do livro "Saúde: o longo caminho do progresso",é da autoria do nosso editor Luís Graça, e foi escrito em plena pandemia, entre 15 de maio e 15 de junho do corrente, "em contrarrelógio". É ilustrado por cerca de meia centena de fotografias (também legendadas por ele).

Índice: Prefácio (de António Barros Veloso): heróis ignorados: pp. 5 | O longo caminho do progresso: pp. 6-7 | Tempo de pioneiros: o grande desafio da saúde pública; pp. 8- 25 | Nascer e morrer: epidemias e doenças da pobreza: pp. 26-43 | Direito universal: Século XX consagra a «saúde para todos»: pp. 44-67.