1. Eis-nos chegados ao fim do ano de dois mil e vinte cinco.
E dizemos fim porque é já inverno e faz frio
e porque acabámos de arrancar
a última folha amarelada do calendário.
e para não irmos parar com os quatro costados ao inferno.
Toda a gente diz fim do ano
por mera convenção ou conveniência.
Ou, se calhar, por tristeza ou desfastio,
cansaço, saturação, impaciência, depressão.
Ou só por que nos dá na real veneta.
Na prática não chegámos ao fim,
não chegámos a parte nenhuma,
a pé, de carro, de barco ou de dromedário,
à boleia, a nado ou até de parapente.
Que o chegar é sempre a um algum sítio,
lugar, porto, ilha, montanha de bruma,
país, continente, planeta, pico do Evereste,
E,depois, chegar ao fim é sempre sinónimo de festa
ou outro ponto imaginário do globo terrestre.
Não fomos pioneiros,
da nossa proto-história lusitana,
É tudo treta,
não fomos os primeiros nem sequer os últimos
a cortar a meta.
Não fomos notícia,
soterrados na China e na Ucrânia
Não houve festa, nem luto, nem bomba atómica,
não houve alvoroço, nem foguetes, nem fogo de artifício,
nem estátua equestre no terreiro do paço,
nem sequer a banda trágico-cómica
dos bombeiros voluntários do Emir Kusturica.
À nossa espera.
Vendo bem, não fizemos nada de heróico,
Não fizemos a guerra,
não marchámos contra os canhões,
não assinámos a paz,
Enfim, não ganhámos nenhum prémio,
Em resumo, dizem-nos que, no ano da graça do senhor,
de dois e mil e vinte e cinco,
Mas chegados ao fim do ano,
é costume fazer-se o balanço,
pelo menos do deve-e-haver das nossas vidas,
a carga preciosa que transportamos connosco,
que é a vida e o dever de a viver.
O pequeno milagre ou o simples facto
de estarmos vivos,
de ainda estarmos vivos e de ficarmos juntos.
2. Façamos, pois, o balanço, amigos e camaradas,
que se calhar foi mais um annus horribilis
como todos os anteriores,
para a maior parte dos homens e mulheres,
nossos vizinhos planetários.
Que em trinta e um de dezembro
o horóscopo da humanidade
não está em condições de prever
terramotos, catástrofes, tsunamis, tiranias,
enfim, o cortejo dos horrores
que costumam acompanhar os cavaleiros do Apocalipse.
Façamos, pois, o balanço das nossas vidas
como pessoas, como famílias, como grupos,
como instituições, como países.
Siga-se, nesta matéria, a tradição,
que a tradição ainda manda,
e com isso não vai grande mal ao mundo.
3. Como sempre, houve coisas boas e coisas más,
Releguemos as coisas más para os historiadores,
ou para o nosso confessor, psiquiatra ou confidente,
Em boa verdade, as coisas más vão ao fundo,
não flutuam como os corpos,
são, por definição, para esquecer.
- Dorme, meu menino, que foi um sonho mau!-,
criança sem juízo, batizada,
mas ainda sem dente do siso.
Abramos, pois, os nossos corações
para falar ou dar testemunho
das coisas boas que nos aconteceram.
Que a hora é de desafivelar as máscaras
dos actores que também somos.
Maus, canastrões, a maior parte das vezes,
Falemos dos acontecimentos de que fomos protagonistas.
Pequenos, sem dúvida,
à nossa escala, à nossa pequena, pobre, escala humana.
Mas importantes,
as empresas ou organizações onde trabalhámos,
que apostaram e acreditaram em nós.
Falemos das situações de que fomos
actores de verdade, actores de facto.
Independentemente do nosso papel,
Ou do número de graus de liberdade a que temos direito
ou que fazem parte do nosso contrato ou circunstância.
Que o importante é ser actor,
Falemos dos projectos de que fomos gestores
ou simples trabalhadores de equipa.
Falemos dos conhecimentos novos
que tivemos o privilégio
de produzir, obter ou divulgar
através do nosso trabalho, estudo ou formação.
Dos livros que lemos ou escrevemos
ou que comprámos para ler mais tarde,
”quando formos velhinhos
e tivermos todo o tempo do mundo”
(Oh, doce ilusão dos aposentados e reformados,
Não nos esqueçamos de evocar
as pessoas fantásticas que conhecemos,
mas também os filmes de última hora
que perdemos no trânsito da vida.
Ou as estórias que não ouvimos ou não lemos,
por falta de paciência
ou de simples lugar de estacionamento
no hall congestionado do planeta azul.
Falemos das oportunidades que tivemos
de fazer coisas novas,
inovadoras, ou simplesmente úteis,
para nós, para os outros, para o nosso país.
E que não desperdiçámos,
ou, pelo menos, mais habitável.
Falemos das pequenas coisas boas que nos aconteceram,
não por mero acaso,
mas porque as merecemos,
(sem falsa modéstia!),
porque lutámos por elas,
porque outros nos ajudaram a consegui-las,
porque juntos conseguimo-las,
Falemos ainda do nosso crescimento interior:
se estamos mais sábios, mais atentos,
mais conscientes da água que corre nos nossos rios
ou das doenças que nos estão matando,
Se, sim, se podemos falar
Mas sejamos capazes também de falar das brincadeiras ou partidas
(não das sacanices!)
que fizemos uns aos outros.
Que o brincar não é proibido,
ou não deveria sê-lo,
que o brincar devia mesmo ser obrigatório
e nos locais de trabalho
das anedotas que contámos, até as das de mau gosto,
xenófobas, racistas, supremacistas, sexistas, homofóbicas.
Falemos do pão, do queijo e do vinho
que partilhámos com alguém, ao fim da tarde,
não importa onde,
no Alentejo, em Angola, ou no Minho.
Em qualquer parte onde
temos um amigo, um parceiro, um compincha, um camarada.
Que o companheiro (do latim cum + pane)
é justamente aquele que compartilha connosco
o pão e o vinho à mesma mesa,
Sim, falemos das emoções
que pusemos em cima da mesa.
Ou da ausência delas.
Da paz que conseguimos, em certas ocasiões,
estabelecer connosco e com os outros.
Sim, falemos da paz e do silêncio,
ao fim do dia, no fim do ano.
Um minuto, uma hora,
mesmo se o fim do ano é uma treta
do calendário gregoriano.
Falemos, por isso, e já agora
dos velhos amigos que voltámos a encontrar
em viagem,
num terminal de aeroporto,
numa esquina de rua congestionada,
num bar triste de uma cidade
em que estávamos de passagem.
Falemos dos novos amigos que fizemos.
sem esquecer os queridos amigos
que perdemos, assim sem mais nada,
por razões de vida ou de morte,
Ou de que perdemos simplesmente o norte,
o telemóvel, o endereço de e-mail, a morada.
4. É a pensar em vocês todos
com quem trabalhei, interagi, vivi, falei,
discuti, barafustei,
durante o ano de dois mil e vinte cinco.
É a pensar em todo vós,
que eu peço ao bom irã da Tabanca Grande
(que eu ainda acredito no bom irã que há em nós,
seja isso idiota ou infantil,
muito pouco ou nada racional!)
“Que o nosso amor, a nossa amizade, a nossa camaradagem…
que transita para o ano de dois mil vinte seis”.
Estou-vos obrigado, a todos vós,
pela parte de mérito que vos coube
nas pequenas coisas boas
que me aconteceram, nos aconteceram,
no ano que acaba de passar como um meteorito.
Bebo um copo à vossa!
"A mim, desculpem-me lá qualquer coisinha!"...
Luís Graça, Lisboa, 23/12/ 2004.
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