Estátua de Frei Martinho de Santa Maria
(pormenor)
O verdadeiro "guardião" do convento: a imponente, icónica, estranha estátua do fundador do Convento, com os braços em cruz e os pés a esmagar a serpente (=demónio), assente no globo terrestre. Segundo a explicação que nos foi dada, pela guia cultural, Andreia Gomes, mester em hstória da arte pela minha universidade, a NOVA de Lisboa, segura na mão direita o archote da fé (simbolizando as boas obras) e na esquerda um cilício, instrumento de mortificação, que o frade utilizava para se penitenciar dos pecados. Nos olhos, uma venda, na boca um grosso cadeado, e no coração uma fechadura, outros tantos símbolos da vida do asceta que se fecha às coisas do mundo.
Setúbal > Parque Natural da Arrábida > Convento da Arrábida > 23 de julho de 2026 > Gostei de lá voltar...
Fotos (e legenda): © Luís Graça (2025). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Garça & Camaradas da Guiné]
Eram eremitas... Escolheram o caminho mais radical, a do isolamento total (cortando simbolicamente, até na estatuária, os cinco sentidos...), da pobreza absoluta, da ascese, da mortificação do corpo, da superação dos sentidos, do lento e exaltante suicídio pela fome, da meditação, da contemplação versus ação...
Que raio de "leitura da mensagem de Cristo" foi esta, pergunto-me, mais de 60 anos depois de ter aqui acampado, nas férias grandes escolares, no início dos anos 60 ?
Dizem as ciências da saúde mental (psicologia, psiquiatria, neurologia...) que o isolamento extremo pode ser patológico... Cortar radicalmente com os outros (isolamento social prolongado) pode levar a distúrbios mentais (depressão, ansiedade, alucinações). Cortar os cinco sentidos (como se vê na estátua do Frei Martinho de Santa Maria, inscrutada na parede da fachada da igreja) ou jejuar até à exaustão são comportamentos que, hoje, associaríamos a transtornos obsessivo-compulsivos ou até psicose.
Dizem as ciências da saúde mental (psicologia, psiquiatria, neurologia...) que o isolamento extremo pode ser patológico... Cortar radicalmente com os outros (isolamento social prolongado) pode levar a distúrbios mentais (depressão, ansiedade, alucinações). Cortar os cinco sentidos (como se vê na estátua do Frei Martinho de Santa Maria, inscrutada na parede da fachada da igreja) ou jejuar até à exaustão são comportamentos que, hoje, associaríamos a transtornos obsessivo-compulsivos ou até psicose.
Mas, temos que lembrar (e respeitar) a opção destes homens de meados do séc. XVI, tão
exaltante como contraditório e dilacerante (nomeadamente para o mundo cristão, dividido em dois, com a reforma e a contrarreforma); tratava-se de uma escolha consciente, uma forma de transcender a condição humana.
Não era "loucura", era a procura da "santidade" e do caminho solitário até ao Criador...
Diz a guia cultural, Andreia Gomes, que a Arrábida é reconhecidamente um lugar único, onde a natureza e a espiritualidade se encontram e se fundem. Os monges que ali viveram, deixaram um legado de paz, reflexão e conexão com a terra, que ainda hoje se sente no ambiente sereno da serra (para mais, no lado protegido do vento marítimo). Um legado que não pode deixar de tocar o coração de um simples turista que hoje visite o antigo convento (seja ele russo, francês ou espanhol, como exemplificou a guia).
2. O Convento de Nossa Senhora da Arrábida é um mosteiro franciscano localizado na Serra da Arrábida, em Portugal, hoje integrado no Parque Natural da Serra da Arrábida, um dos sítios mais deslumbrantes (e cobiçados!) da nossa costa, a par da península de Troia, ali em frente.
2. O Convento de Nossa Senhora da Arrábida é um mosteiro franciscano localizado na Serra da Arrábida, em Portugal, hoje integrado no Parque Natural da Serra da Arrábida, um dos sítios mais deslumbrantes (e cobiçados!) da nossa costa, a par da península de Troia, ali em frente.
Fundado no século XVI, no reinado de Dom João III, é um lugar de grande importância histórica, espiritual, cultural e ecológica.
O que se sabe sobre os seus moradores ?
Para já aconselho que se veja ou reveja na RTP Play o programa:
Lê-se no sítio da Fundação Oriente, atual proprietária do Convento da Arrábida e da sua cerca de 25 hectares:
"Anterior à construção, existia onde é hoje o Convento Velho, a Ermida da Memória, local de grandes romarias, junto da qual, durante dois anos, viveram, em celas escavadas nas rochas, os primeiros quatro frades arrábidos: Martinho de Santa Maria, Diogo de Lisboa, Francisco Pedraita e São Pedro de Alcântara.
"D. Jorge de Lencastre, filho do 1.º duque de Aveiro, continuou as obras mandando construir uma cerca para vedar a área do convento. Mais tarde, seu primo D. Álvaro, mandou edificar a hospedaria que lhe servia de alojamento e projectou as guaritas, na crista do monte, que ligam o convento ao sopé da montanha, deixando, no entanto, três por acabar. Por sua vez, D. Ana Manique de Lara, nora de D. Álvaro, mandou construir duas capelas, enquanto o filho de D. Álvaro, D. António de Lencastre, mandou edificar, em 1650, o Santuário do Bom Jesus.
"Com a extinção das ordens religiosas em 1834, o convento, as celas e as capelas dispersas pela serrania sofreram várias pilhagens e enormes estragos causados pelo abandono.
Em 1863, a Casa de Palmela adquiriu o convento, mas as obras só começaram nas décadas de 40 e 50 do século seguinte. Quarenta anos depois, em 1990, o seu então proprietário, Manuel de Souza Holstein Beck, vendeu o convento e a área envolvente, num total de 25 hectares, à Fundação Oriente, a única instituição, que, no seu entender, dava garantias de manter os valores com que, no século XVI, os seus antepassados o haviam entregue aos arrábidos." (...)
O que se sabe sobre os seus moradores ?
Para já aconselho que se veja ou reveja na RTP Play o programa:
O convento foi fundado em 1542 por Frei Martinho de Santa Maria, castelhano, franciscano, da Ordem dos Frades Menores (OFM), a quem D. João de Lencastre (1501-1571), 1º duque de Aveiro, cedeu as terras da encosta da serra. Em boa verdade, tratava-se de uma "doação", dentro do espírito cristão ainda medievo segundo o qual dar aos pobres (e aos monges mendicantes...) era emprestar a Deus...
"Anterior à construção, existia onde é hoje o Convento Velho, a Ermida da Memória, local de grandes romarias, junto da qual, durante dois anos, viveram, em celas escavadas nas rochas, os primeiros quatro frades arrábidos: Martinho de Santa Maria, Diogo de Lisboa, Francisco Pedraita e São Pedro de Alcântara.
"D. Jorge de Lencastre, filho do 1.º duque de Aveiro, continuou as obras mandando construir uma cerca para vedar a área do convento. Mais tarde, seu primo D. Álvaro, mandou edificar a hospedaria que lhe servia de alojamento e projectou as guaritas, na crista do monte, que ligam o convento ao sopé da montanha, deixando, no entanto, três por acabar. Por sua vez, D. Ana Manique de Lara, nora de D. Álvaro, mandou construir duas capelas, enquanto o filho de D. Álvaro, D. António de Lencastre, mandou edificar, em 1650, o Santuário do Bom Jesus.
"Com a extinção das ordens religiosas em 1834, o convento, as celas e as capelas dispersas pela serrania sofreram várias pilhagens e enormes estragos causados pelo abandono.
Em 1863, a Casa de Palmela adquiriu o convento, mas as obras só começaram nas décadas de 40 e 50 do século seguinte. Quarenta anos depois, em 1990, o seu então proprietário, Manuel de Souza Holstein Beck, vendeu o convento e a área envolvente, num total de 25 hectares, à Fundação Oriente, a única instituição, que, no seu entender, dava garantias de manter os valores com que, no século XVI, os seus antepassados o haviam entregue aos arrábidos." (...)
Os frades viveram ali durante séculos, dedicando-se à vida contemplativa, à oração e ao trabalho manual, seguindo os princípios de São Francisco de Assis.
A vida monástica na Arrábida regia-se por regras estritas: os frades viviam em reclusão ou clausura, dedicados à oração, meditação e estudo. Seguindo a regra franciscana, viviam com pouquíssimos bens materiais (não tinha bens próprios, os prato sem que comia, eram conchas do mar, nem sequer o convento era deles). Cultivavam a terra, produziam o seu próprio alimento e realizavam outras tarefas manuais; náo comiam carne, faziam jejum e abstinência, conforme o calendário religioso. Em épocas de crise (fome, epidemias, etc.), tinham que recorrer à caridade...
Curiosidades: o convento foi classificado como Monumento Nacional em 1910, mas foi só nos anos 40/50, que se procedeu ao seu restauro, por iniciativa privada (casa Palmela) e apoio do Estado Novo. Salazar gostava de visitar a Arrábida e o seu conventinho. Eu também gosto.
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A vida monástica na Arrábida regia-se por regras estritas: os frades viviam em reclusão ou clausura, dedicados à oração, meditação e estudo. Seguindo a regra franciscana, viviam com pouquíssimos bens materiais (não tinha bens próprios, os prato sem que comia, eram conchas do mar, nem sequer o convento era deles). Cultivavam a terra, produziam o seu próprio alimento e realizavam outras tarefas manuais; náo comiam carne, faziam jejum e abstinência, conforme o calendário religioso. Em épocas de crise (fome, epidemias, etc.), tinham que recorrer à caridade...
Enfim, o convento foi um centro de peregrinação e retiro espiritual, atraindo fiéis e nobres em busca de reflexão.
Curiosidades: o convento foi classificado como Monumento Nacional em 1910, mas foi só nos anos 40/50, que se procedeu ao seu restauro, por iniciativa privada (casa Palmela) e apoio do Estado Novo. Salazar gostava de visitar a Arrábida e o seu conventinho. Eu também gosto.
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Nota do editor LG:
Último poste da série >24 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28208: Manuscrito(s) (Luís Graça) (291): As minhas geografias emocionais: O conventinho da Arrábida
Último poste da série >24 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28208: Manuscrito(s) (Luís Graça) (291): As minhas geografias emocionais: O conventinho da Arrábida







