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quarta-feira, 29 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28225: Manuscrito(s) (Luís Graça) (291): As minhas geografias emocionais: Ainda o conventinho da Arrábida... Salazar gostava de lá ir... E eu também gosto.




Estátua de Frei Martinho de Santa Maria
(pormenor)

O verdadeiro "guardião" do convento: a imponente, icónica, estranha  estátua do fundador do Convento, com os braços em cruz e os pés a esmagar a serpente (=demónio), assente no globo terrestre. Segundo a explicação que nos foi dada, pela guia cultural, Andreia Gomes, mester em hstória da arte pela minha universidade, a NOVA de Lisboa, segura na mão direita o archote da fé (simbolizando as boas obras) e na esquerda um cilício, instrumento de mortificação, que o frade utilizava para se penitenciar dos pecados. Nos olhos, uma venda, na boca um grosso cadeado, e no coração uma fechadura, outros tantos símbolos da vida do asceta que se fecha às coisas do mundo.













Setúbal > Parque Natural da Arrábida > Convento da Arrábida > 23 de julho de 2026 >  Gostei de lá voltar...

Fotos (e legenda): © Luís Graça (2025). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Garça & Camaradas da Guiné]


1. Às veze ponho-me a duvidar da saúde mental destes homens (não havia mulheres...), que escolheram viver em conventos completamente isolados do mundo, em sítios luxuriantes, como o da Arrábida e de Sintra.... A pão e água... Extasiados com tanta beleza, esmagados por tanto silêncio!

Eram eremitas... Escolheram o caminho mais radical, 
a do isolamento total (cortando simbolicamente,  até na estatuária, os cinco sentidos...), da pobreza absoluta, da ascese, da mortificação do corpo, da superação dos sentidos, do lento e exaltante suicídio pela fome, da meditação, da contemplação versus ação...

Que raio de "leitura da mensagem de Cristo" foi esta, pergunto-me, mais de 60 anos depois de ter aqui acampado, nas férias grandes escolares, no início dos anos 60 ?

Dizem as ciências da saúde mental (psicologia, psiquiatria, neurologia...) que o isolamento extremo pode ser patológico...  Cortar radicalmente com os outros (isolamento social prolongado) pode levar a distúrbios mentais (depressão, ansiedade, alucinações). Cortar os cinco  sentidos (como se vê na estátua do Frei Martinho de Santa Maria, inscrutada na parede da fachada da igreja) ou jejuar até à exaustão são comportamentos que, hoje, associaríamos a transtornos obsessivo-compulsivos ou até psicose.

Mas, temos que lembrar (e respeitar) a opção destes homens de meados do séc. XVI, tão
exaltante como contraditório e dilacerante  (nomeadamente para o mundo cristão, dividido em dois, com a reforma e a contrarreforma); tratava-se de uma escolha consciente, uma forma de transcender a condição humana. 

Não era "loucura", era a procura da "santidade" e do caminho solitário até ao Criador...

Diz a guia cultural, Andreia Gomes, que a Arrábida é reconhecidamente um lugar único, onde a natureza e a espiritualidade se encontram e se fundem. Os monges que ali viveram,  deixaram um legado de paz, reflexão e conexão com a terra, que ainda hoje se sente no ambiente sereno da serra (para mais, no lado  protegido do vento marítimo). Um legado que não pode deixar de tocar o coração de um simples turista que hoje visite o antigo convento (seja ele russo, francês ou espanhol, como exemplificou a guia).


2. O Convento de Nossa Senhora da Arrábida é um mosteiro franciscano localizado na Serra da Arrábida, em Portugal, hoje integrado no Parque Natural da Serra da Arrábida, um dos sítios mais deslumbrantes (e cobiçados!) da nossa costa, a par da península de Troia, ali em frente.

Fundado no século XVI, no reinado de Dom João III, é um lugar de grande importância histórica, espiritual, cultural e ecológica.

O que se sabe sobre os seus moradores ?

Para já aconselho que se veja ou reveja na RTP Play o programa:

O convento foi fundado em 1542 por Frei Martinho de Santa Maria, castelhano, franciscano, da Ordem dos Frades Menores (OFM), a quem D. João de Lencastre (1501-1571), 1º duque de Aveiro, cedeu as terras da encosta da serra. Em boa verdade, tratava-se de uma "doação", dentro do espírito cristão ainda medievo segundo o qual dar aos pobres (e aos monges mendicantes...) era emprestar a Deus...

Lê-se no sítio da Fundação Oriente, atual proprietária do Convento da Arrábida e da sua cerca de 25 hectares: 

 "Anterior à construção, existia onde é hoje o Convento Velho, a Ermida da Memória, local de grandes romarias, junto da qual, durante dois anos, viveram, em celas escavadas nas rochas, os primeiros quatro frades arrábidos: Martinho de Santa Maria, Diogo de Lisboa, Francisco Pedraita e São Pedro de Alcântara.

"D. Jorge de Lencastre, filho do 1.º duque de Aveiro, continuou as obras mandando construir uma cerca para vedar a área do convento. Mais tarde, seu primo D. Álvaro, mandou edificar a hospedaria que lhe servia de alojamento e projectou as guaritas, na crista do monte, que ligam o convento ao sopé da montanha, deixando, no entanto, três por acabar. Por sua vez, D. Ana Manique de Lara, nora de D. Álvaro, mandou construir duas capelas, enquanto o filho de D. Álvaro, D. António de Lencastre, mandou edificar, em 1650, o Santuário do Bom Jesus.

"Com a extinção das ordens religiosas em 1834, o convento, as celas e as capelas dispersas pela serrania sofreram várias pilhagens e enormes estragos causados pelo abandono.

Em 1863, a Casa de Palmela adquiriu o convento, mas as obras só começaram nas décadas de 40 e 50 do século seguinte. Quarenta anos depois, em 1990, o seu então proprietário, Manuel de Souza Holstein Beck, vendeu o convento e a área envolvente, num total de 25 hectares, à Fundação Oriente, a única instituição, que, no seu entender, dava garantias de manter os valores com que, no século XVI, os seus antepassados o haviam entregue aos arrábidos." (...)

 Os frades viveram ali durante séculos, dedicando-se à vida contemplativa, à oração e ao trabalho manual, seguindo os princípios de São Francisco de Assis.

A vida monástica na Arrábida regia-se por regras estritas: os
 frades viviam em reclusão ou clausura, dedicados à oração, meditação e estudo. Seguindo a regra franciscana, viviam com pouquíssimos bens materiais (não tinha bens próprios, os prato sem que comia, eram conchas do mar, nem sequer o convento era deles). Cultivavam a terra, produziam o seu próprio alimento e realizavam outras tarefas manuais; náo comiam carne, faziam jejum e abstinência, conforme o calendário religioso.  Em épocas de crise (fome, epidemias, etc.), tinham que recorrer à  caridade... 

Enfim, o convento foi um centro de peregrinação e retiro espiritual, atraindo fiéis e nobres em busca de reflexão.

Curiosidades:   o convento foi classificado como Monumento Nacional em 1910, mas foi só nos anos 40/50, que se procedeu ao seu restauro, por iniciativa privada (casa Palmela) e apoio do Estado Novo. Salazar gostava de visitar a Arrábida e o seu conventinho. Eu também gosto.

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sexta-feira, 24 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28208: Manuscrito(s) (Luís Graça) (291): As minhas geografias emocionais: O conventinho da Arrábida












Setúbal > Parque Natural  da Arrábida > Convento da Arrábida >  23 de julho de 2026 >  Voltei lá 60 e tal anos depois


Fotos (e legenda): © Luís Graça (2025). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Garça & Camaradas da Guiné]


Elegia II

Os olhos meus dali dependurados,
Pergunto ao mar, às ondas, aos penedos
Como, quando, por quem foram criados?

Respondem-me em segredo, mil segredos,
Cujas letras primeiras vou cortando
Nos pés de outros mais verdes arvoredos.

Assi com cousas mudas conversando,
Com mais quietação delas aprendo,
Que de outras, que ensinar querem falando.

Se pelejo, se grito, se contendo
Com armas, com razões, com argumentos,
Elas só com calar ficam vencendo.

Ferido de tamanhos sentimentos,
Fico fora de mim, fico corrido
De ver sobre que fiz meus fundamentos.

Frei Agostinho da Cruz, ou Agostinho Pimenta 
(Ponte da Barca, 1540 - Setúbal, 1619)

 
1.  Há sítios que não são apenas lugares, pontos no mapa. Fazem parte das nossas geografias emocionais. Da nossa história de vida. Acampei aqui pelo menos duas  vezes no início dos anos 60. Descia a  serra, ia até à praia. Como fazem hoje os javalis. Por caminhos ínvios. Quando se tem 15 anos e está-se à beira de perder a fé, todos os caminhos são ínvios.

Falo do convento  da Arrábida. Do conventinho. Por aqui é tudo liliputiano. A escala. Até o tempo. A escolha do sítio não poderia ter sido mais feliz. O que impressiona hoje o visitante é a perfeita integração  do convento e da sua cerca de 25 hectares na  encosta leste da Serra da Arrábida. Onde se não se vê o pôr do sol, só o nascer. 

A construção que se prolongou durante mais de um século  foi-se adaptando  aos penhascos, aos  socalcos, às rochas, ao declive, aos arbustos  aos sobreiros, às urzes. É uma arquitetura religiosa única, que avançou sem "patos bravos" nem autarcas corruptos, só com a licença da natureza. Não há aqui nada  imposto à serra, fica-se com  a sensação de que  o labiríntico conventinho nasceu dela, está ali desde sempre. 

Dizem os geólogos que a formação da Serra da Arrábida data de há cerca de 7 milhões de anos, com rochas que remontam ao Jurássico.  Nasceu da colisão das placas africana e euro-asiática, a mesma que que deu origem à formação do mar Mediterrâneo, num processo lento que durou centenas de milhões de anos, numa escala inumana.

Sinto-me aqui  com o arrábido e poeta da solidão e do despojamento Frei Agostinho da Cruz, que aqui viveu década e meia antes de morrer. De facto, aqui um  homem sente-se despojado de tudo o que não precisa de levar para a eternidade  ou para o regresso à poeira cósmica  donde nasceu. La mort c' est le vide.

Tenho pena de não ter revisitado o Convento Velho, mais austero, com pequenas ermidas escavadas ou encostadas à rocha. Fui ontem de canadianas (!), numa visita de grupo (máximo 40 pessoas) guiada  ao Convento Novo, com a pequena igreja, o claustro e as dependências principais (incluindo as celas e o refeitório). 

As celas dos frades menores franciscanos,  que aqui  viveram , eram minúsculas: pouco mais do que o  espaço para uma enxerga e um banco. Procurava-se o isolamento absoluto, cultivava-se a pobreza absoluta: estava tudo nos regulamentos, havia dias da semana e do mês em que a alimentação era apenas pão e água. Noutros dias, alguns produtos da horta.  Frei Bernardo da Cruz, nascido nas margens do rio Lima, descia a  serra e às vezes lá trazia um peixinho, pescado no Portinho da Arrábida (muito provavel mas humanente violando as regras do jogo: apesar de "santos",  aqueles frades capuchos tinham uma costela de Adão, a do pecado, da imperfeição divina).  Devia ser a sua única proteína animal do poeta.

É uma  das minhas geografias emocionais que merece que eu fale dela num segundo poste, com mais tempo e vagar. 

Algumas fotos que publico acima dão de imediato a escala do conjunto e reforçam a sensação de labirinto. A mulher de vestido azul (a guia do nosso grupo na visita ao Convento, Andreia Gomes) parece uma aparição discreta mas fantasmagórica naquele silêncio branco. quase perdida entre os muros. Sem ela, a imagem seria sobretudo de arquitetura pura e dura; com ela, ganha vida, narrativa, emoção. Como é que uma figura (para mais de uma mulher, um elemento do "gineceu", a quem durante séculos seria interdita a entrada neste estéril e casto  "androceu") pode humanizar esta arquitetura ascética?!

 De facto, não foi apenas o regresso a um lugar, foi sobretudo o regresso a um lugar da minha adolescência.  E revisitei o Portinho da Arrábida. Melancólico. Ao entardecer. Com os meus amigos Joaquim Pinto de Carvalho e Maria do Céu Pintéus, que me deram boleia.  
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Nota do editor LG:

sábado, 23 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28048: Manuscritos(s) (Luís Graça) (290): "Palram pega e papagaio, / E cacareja a galinha"... Uma brincadeira poética com sugestões ludopedagógicas para avós e netos...






O manual escolar mais famoso do Estado Novo. Da autoria de Barros Ferreira.4ª edição, Porto Editora, 1958. Reimpressão, Editora Educação Nacional, janeiro de 2008.  Ilustrações do talentoso artista "Emmérico", Emérico Hartwich Nunes, ou Emmérico Nunes (1888-1968), um dos pioneiros da banda desenhada, do humorismo gráfico e do cartunismo em Portugal. Era o manual mais "ideológico" da nossa instrução primária, mas era também aquele de que eu mais... gostava.  A criança é um "livro aberto", à partida sem "preconceitos" (muito menos ideológicos)...



1. Este poema, "Vozes de animais" (ou "vozes dos animais"), faz parte da minha infância, da minha escola, da minha memória escolar: devo tê-lo lido e memorizado aos 8 ou 9 anos... Mesmo com palavras de "sete e quinhentos"!... Aliás, faz parte da memória de todos nós.

É de um poeta (menor...) do séc. XIX, português, da escola romântica.

Fiz questão de oferecê-lo, à minha minha neta, Rosinha, que hoje faz 16 meses...  e adora ouvir o avô a imitar as vozes dos animais... Quero que ela, aos 6/7 anos, já o saiba recitar de cor... (Eu nunca fui bom a recitar poesia, de cor... Tenho que ter a cábula, o papel...(

Acho este poema uma pequena relíquia da nossa velha escola primária, que atravessou regimes (Monarquia, República, Ditadura Militar, Estado Novo...).

A malta da nossa geração, nascida já no pós-guerra, aprendeu-o de cor, como uma verdadeira cantilena iniciática da nossa bela língua portuguesa. E os "burros" (coitados!), de pé descalço, os que ficavam, por discriminação, nas carteiras de trás, esses, tinham que o aprender de cor,  à força de reguadas, puxões de orelha ou vergastadas com o ponteiro da senhora professora...

O poema "Vozes dos animais" é da autoria de  (ou é atribuído a) Pedro Dinis (c. 1829–1896), de quem se diz que foi  professor e pedagogo, além de diretor da Biblioteca Nacional de Lisboa. 

De seu nome completo, Pedro Guilherme dos Santos Diniz, este poema terá sido publicado no" Livro de Ouro para Uso das Escolas de Educação (s/l, 1855). O autor também foi tradutor de obras do Júlio Verne. Terá igualmente usado o pseudónimo literário Amaro Mendes Gaveta. Estudou em Coimbra, na época ainda não havia a Universidade de Lisboa (criada, tal como a do Porto, em 1911).

Os versos foram depois recolhidos por Antero de Quental,  no "Tesouro Poético da Infância" (1883). E passou a integrar os manuais escolares da época, como o Livro de Leitura da 3ª Classe, livro único, no Estado Novo.

Qual a razão do seu sucesso ? Não foi tanto pelo seu “valor literário” como pelo seu extraordinário valor ludopedagógico. Há nele várias coisas nossas, da pedagogia portuguesas, do João de Deus: o gosto antigo pela enumeração; a musicalidade, a lengalenga dos contos e romances tradicionais; o prazer das palavras raras, eruditas, difíceis, a que chamávamos, no meu tempo de escola, "palavras de sete e quinhentos" (sete escudos e cinquenta centavos), como “crocita”, “regouga”, “chilrar”, “balidos”, “vagidos", "libando", etc.)

Estes versos reforçam a ideia de que a língua materna é um tesouro sonoro. E que para ser viva tem de ser falada. Tal como a poesia, que tem de ser partilhada, dita em voz alta, para pequenos auditórios (como aconteceu há dias, na minha terra, no "festival do leitor", "Livros a Oeste 2026").

O poema "Vozes dos Animais" remete também para o "saber enciclopédico": estão lá os principais animais "domésticos" e "selvagens" do nosso imaginário. E as diferentes e espantosas vozes animais. De uma penada, com umas tantas quadras, ensinava-se,  à criançada,  zoologia, vocabulário, fonética e memória.

Além disso, o poema funciona muito bem porque nasce do jogo da imitação. Não vou “explicar” à Rosinha o que é um animal ruminante, como a vaca, imito ou reproduzo a sua voz. E isso toca diretamente o mundo da infância. Antes da criança compreender conceitos (abstratos) (vaca e animal ruminante), reconhece sons (concretos), a onomatopeia: "muuuu"...

A Rosinha, aos 16 meses, já "pintainha": está exatamente nessa idade mágica em que o mundo entra pelos ritmos, pelas vozes, pelos sons, pela onomatopeia, pelas repetições.  O "vovô" que “mia”, "pia", “muge”, “zurra”, "cacareja" ou “cucurica” está a fazer o mesmo que os antigos contadores de histórias, as velhas amas, as mães de leite faziam há séculos: transformar linguagem em jogo afetivo.

E há uma ternura involuntária do final: os "vagidos" (sic) do bebé.. A criança aparece ali como mais um animalzinho da "criação", na "arca de Noé". Depois vem a moral escolar (que era "criacionista", reproduzindo a mitologia bíblica da nossa cultura judaico-cristã, não integrando os contributos da biologia e demais ciências da vida e da natureza: “A fala foi dada ao homem, /Rei dos outros animais…”),

Omitindo este último verso (que é anacrónico, obsoleto, antropocêntrico), o resto do poema continua vivo porque pertence ao território universal da infância, da oralidade, da magia, do encantamento.

Espero que a Rosinha goste ou venha a gostar mais tarde, quando tiver mais entendimento das coisas da vida e do mundo. Ainda não irá memorizar os versos; mas ficará, sem dúvida, no ouvido esta lengalenga, a música da voz do "vovô a fazer “miauuuu”, “méééé”, "fuuuu", "ão-ão-ão", "muuuu", “có-có-ró-có-có. E isso, muitas vezes, é o princípio da poesia e do gosto pela poesia.

2. Chamo a atenção (dos pais e avós) para a "forma" e o "fundo" do poema. Vão, adicionalmente, algumas sugestões ludopedagógicas.


(i) estrutura / forma: 
  • tem uma forma fixa: é composto por estrofes de 4 versos (quadra), com rima em geral cruzada (ABAB); 
  • ritmo cantado e memorizável, ideal para crianças;
  • métrica: versos heptassílabos (7 sílabas métricas ou "redondilha maior")  com cadência simples e musical, facilitando a recitação;
  • refrão implícito: a repetição de estruturas como "Pia, pia o pintainho" ou "Late e gane o cachorrinho" cria um efeito de lista rítmica, quase como uma canção de embalar.

(ii) tema / conteúdo:

  • catálogo onomatopaico: o poema é um inventário lúdico dos sons dos animais, desde os domésticos ("cacareja a galinha", "mia o gato") aos exóticos ou selvagens, que só se podem observar no jardim zoológico ou na televisão ("ruge o leão", "bramam os tigres");
  • cada verso imita o som do animal (onomatopeia), o que o torna interativo, e que é perfeito para a nossa Rosinha, que adora ouvir e imitar logo as vozes;
  • antropocentrismo:  o poema termina com uma reflexão moralizante: "A fala foi dada ao homem, / Rei dos outros animais: / Nos versos lidos acima / Se encontra, em pobre rima, /As vozes dos principais.
  • aqui, o autor deixa trair a sua conceção antropocêntrica da natureza, a superioridade humana no topo da vida animal (preconceito típica do século XIX ocidental) e a diversidade da criação divina, embora sempre com uma intenção pedagógica e um tom afetuoso (que não chocam, nesta idade).
(iii) linguagem / estilo:
  • léxico simples: vocabulário acessível e concreto, adequado a crianças; mesmo as palavras (novas) como "arrulham" (pombos), "regouga" (raposa), ou "zurrar" (burro) são preciosismos linguísticos que enriquecem o poema sem o tornar abstruso ou  complexo;
  • adjetivação expressiva: termos como "sagaz raposa", "tímida ovelha", "mocho agoureiro" ou "rola inocentinha" infantilizam e humanizam os animais, dando-lhes personalidade;
  • humor e ironia: o poeta brinca com a limitação (e a utilidade) de alguns animais: "O pardal, daninho aos campos, / Não aprendeu a cantar; / Como os ratos e as doninhas / Apenas sabe chiar"; (aqui, pode haver um toque, leve, de crítica social: o pardal do telhado que, como o rato, é um "intruso" nos campos; há um preconceito ecológico: o pardal-telhado e o rato do campo (contrariamente ao da cidade...) têm um papel importante na dinâmica dos ecossistemas
(iv) contexto histórico
  • intenção pedagógica: o poema foi escrito para livros escolares de meados do séc. XIX, com o objetivo de transmitir às crianças  conhecimentos sobre a  natureza, a vida, a linguagem e a moral; era comum na época usar a poesia como ferramenta de memorização e disciplina;
  • influência da escola romântica: embora Pedro Dinis não fosse um grande poeta e muito menos um  romântico (como o foram Garrett ou Herculano), o poema reflete o gosto romântico pela natureza e pela infância como estado, primordial,  de pureza.

Sugestões para a Clara (que tem 6 anos e meio e já sabe ler) e para os papás da Rosinha (e até para a educadora da Rosinha):


(i) podes ler em voz alta e fazer uma pausa para ela depois imitar os sons ("Muge a vaca... Muuu!", "Cucurica o galo... Cocorocó!"); a repetição e as rimas fáceis ajudam-na a reter palavras; a isto chama-se Interatividade;

(ii) os sons dos animais ativam a sua imaginação e associam a leitura à ideia de brincadeira ou jogo (estimulação sensorial);

(ii) ao oferecer este poema à neta, os avós estão a passar um pedaço da sua infância para ela, criando uma ligação emocional entre eles e a neta (tradição familiar);

(iv)  o poema ensina o respeito pela natureza e a diversidade dos seres vivos, valores importantes para a geração  dos nossos netos;


Mais sugestões:

(v) vamos comprar e oferecer  o livro "Vozes dos Animais", da Luísa Ducla Soares (com ilustrações Sandra Serra); 

(vi) a Clara pode ajudar a mana a criar um livrinho com o poema e desenhos dos animais, autocolantes ou  imagens extraídas  da Net;
 
(vii) podemos gravar a nossa voz  (do avô, da Rosinha e da Clara ) a ler o poema (com os sons dos animais) no gravador do telemóvel;

(viii) podemos inventar um jogo de adivinhas: lemos um verso ("Grasna a rã...") e pedimos à Rosinha  para imitar o som ou apontar para a imagem da rã.

Dedicatória: 

"Piu-piu, o que mais quereis ?
... P'ra nossa linda Rosinha, 
Que meses faz dezasseis,
Mas que há muito pintainha."

("pintainha"= do verbo intransitivo, "pintainhar", imitar o pio dos pintainhos,  mover-se como os pintainhos)

Alfragide, 23 de maio de 2026, os avós Luís & Alice
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Vozes dos Animais
 
Palram pega e papagaio
E cacareja a galinha,
Os ternos pombos arrulham,
Geme a rola inocentinha.

Muge a vaca, berra o touro,
Grasna a rã, ruge o leão,
O gato mia, uiva o lobo,
Também uiva e ladra o cão.

Relincha o nobre cavalo,
Os elefantes dão urros,
A tímida ovelha bala,
Zurrar é próprio dos burros.

Regouga a sagaz raposa,
Brutinho muito matreiro;
Nos ramos cantam as aves,
Mas pia o mocho agoureiro.

Sabem as aves ligeiras
O canto seu variar:
Fazem gorjeios às vezes,
Às vezes põem-se a chilrar.

O pardal, daninho aos campos,
Não aprendeu a cantar;
Como os ratos e as doninhas
Apenas sabe chiar.

O negro corvo crocita,
Zune o mosquito enfadonho,
A serpente no deserto
Solta assobio medonho.

Chia a lebre, grasna o pato,
Ouvem-se os porcos grunhir,
Libando o suco das flores,
Costuma a abelha zumbir.

Bramam os tigres, as onças,
Pia, pia o pintainho,
Cucurica e canta o galo,
Late e gane o cachorrinho.

A vitelinha dá berros,
O cordeirinho balidos,
O macaquinho dá guinchos,
A criancinha vagidos.

A fala foi dada ao homem,
Rei dos outros animais:
Nos versos lidos acima
Se encontra, em pobre rima,
As vozes dos principais.

 Pedro Diniz (c. 1855)

(Revisão / fixação de texto: LG)

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 15 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28021: Manuscrito(s) (Luís Graça) (289): Talvez o mundo fosse mais... amigável: poema para dizer hoje, ao vivo, no festival literário "Livros a Oeste 2026", Lourinhã

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28021: Manuscrito(s) (Luís Graça) (289): Talvez o mundo fosse mais... amigável: poema para dizer hoje, ao vivo, no festival literário "Livros a Oeste 2026", Lourinhã


Lourinhã > Praia da Areia Branca > 5 de Agosto de 2007 > Baixa-mar, entre a Praia da Areia Branca e a Praia de Vale de Frades, com o forte de Paimogo ao fundo,  mais o cabo Carvoeiro, as Berlengas e o "mare nostrum"... A Alice e uma amiga do Porto, a Laura.

Foto: © Luís Graça (2007). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Cartaz do programa do festival do leitor, 14ª edição,  "Livros a Oeste 2026, Lourinhã, 12-16 de maio de 2026. Fonte: CM Lourinhã


1.  Poema para dizer hoje á tarde nos "Cantos das Palavras",  na Praça José Máximo, Lourinhã, ou logo á  noite na "Poesia É Que Nos Salva", no Restaurante Impostor, antigo Café Nicola, Rua João Luís de Moura, no âmbito da 14ª. edição do festival literário "Livros a Oeste 2026", que este ano é subordinado ao tema "Narrativas de Esperança" (Curador: João Morales).


Um mundo sem fronteiras

por Luís Graça

Se todos os pescadores do mundo,
ao longo de todas as costas,
linhas do horizonte, praias,mares,
bancos de pesca,
 icebergs,
fossas submarinas, 
plataformas continentais,
ilhas e penínsulas, pontes e dunas,
falésias, recifes de corais,
cabos e promontórios,
lagos e albufeiras,
rios, rias, portos e cais…

Se todos os pescadores do mundo
se dessem as mãos,
canas de pesca, 
fios e anzóis,
redes, covos e xalavares,
arpões, barcos e dóris 
mas também remos e velas,
canoas, traineiras e arrastões,
bússola, radar, sextante e sonar,
mais todas as artes antigas e modernas,
do cerco, da xávega e da sombreira,
do arrasto e da ganchorra,
das redes de emalhar e de tresmalho,
da linha, dos alcatruzes e das gaiolas...

Se todos nós, no fundo,
partilhássemos o nosso pão de cada dia,
à mesma mesa, 
mais o peixe pescado,
o peixe por haver,
fresco, cru, seco,
frito, cozido, guisado,
assado, grelhado, fumado,
salgado ou congelado,
sem esquecer as batatas e as cebolas... 
talvez finalmente 
pudéssemos tratarmo-nos tu cá tu lá,
como companheiros.

Se todos nós fizéssemos uma corrente humana 
ao longo  dos oceanos e demais fronteiras
que nos separam, 
talvez pudéssemos  reencontrar
elos perdidos da cadeia da vida...

E talvez o mar fosse mais mulher, 
como dizem os pescadores da tua terra,
talvez o mundo fosse  
mais aconchegado, 
caloroso, maneirinho e habitável…
Não tinha que ser, oh não!,
nenhum mundo novo  e muito menos admirável...
Apenas  humano, apenas mais chão.

Luís Graça
Lourinhã, Praia de Porto Dinheiro | 11/8/2007.
Revisto, 14/5/2026
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sábado, 9 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28003: Manuscrito(s) (Luís Graça) (288): Horóscopo poético de Arsénio Puim, nascido na ilha de Santa Maria, às 23h00 do dia 8 de maio de 1936, sob o signo Touro


Arsénio Puim (n. 8 de maio de 1936):  ilhéu, açoriano, mariense, ex-sacerdote católico (de 1960 a 1976), ex-capelão militar (1969/71): foi autarca, professor, enfermeiro; é jornalista, escritor,  cidadão do mundo, pai, avô, amigo... Natural de Santa Maria, vive hoje em São Miguel, em Vila Franca do Campo, desde 1982: "nunca pensei chegar aos 90 anos".

Foto: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné



1. O nosso amigo e camarada Arsénio Chaves Puim nasceu às 23 horas do dia 8 de maio de 1936, na Calheta, freguesia de Santo Espírito (ilha de Santa Maria, Açores), terra de baleeiros. Teve irmãos ligados à baleação. Ele próprio era um apaixonado pela pesca da baleia. A mãe nunca o deixou ir, não fosse perdê-lo. Seguiu outro rumo: entrou para o seminário e foi ordenado padre (em 1960).

Mais tarde seria mobilizado para a guerra colonial como capelão militar. Integrou o Batalhão de Artilharia 2917, colocado em Bambadinca entre meados de 1970 e meados de 1972. Zona leste, sector L1.

Nunca usou arma, nem temeu minas mem armadilhas, nem emboscadas ou ataques dos "turras", e nomeadamene quando se deslocava em colunas, ou ficava uns dias nos quartéis e destacamentos do BART 2917 (Xime, Missirá, Mansambo, Xitole...). 

Tinha dificuldade em estar inteiramente bem com Deus e com César. Quando recusou a G3, distribuída em Bissau, após o desembarque do BART 2917, o 2º comandante perguntou-lhe cínica ou provocatoriamente se ele era "testemunha de Jeová" (=objetor de consciência), a ele, que era o capelão (católico) do batalhão!

Na igreja, em Bambadinca, pregava a paz em tempo de guerra. E lembrava aos militares de Bambadinca que o lema do seu batalhão era: "Pelas Gentes da Guiné".

Já em outubro de 1970, seis meses depois de chegar, protestara veementemente contra a exibição pública da cabeça de um “inimigo”, cortada por um furriel felupe dos Comandos Africanos, episódio ocorrido poucas semanas antes da Operação Mar Verde, a invasão de Conacri em 22 de novembro de 1970, uma das ações militares mais controversas da guerra na Guiné.

As suas "homilias da paz" eram vigiadas pela PIDE (que tinha informadores em Bambadinca, e agentes em Bafata). Mas ele nunca será preso ou interrogado pela polícia política, em Bambadinca, em Bissau, em Lisboa ou nos Açores, onde retoma o seu modesto lugar de pároco, depois de ter sido expulso da Guiné.

Mas o que verdadeiramente precipitou a sua queda em desgraça foi a denúncia pública, feita na igreja de Bambadinca, da forma como estavam a ser tratados, os prisioneiros provenientes do “mato”, isto é, das zonas controladas pelo PAIGC.

Foi por volta de abril de 1971. Tratava-se sobretudo de mulheres, crianças e velhos, mantidos em condições miseráveis, praticamente “num galinheiro”, sem alimentação condigna.

Veio então ordem de Bissau, do Quartel-General/Comando Territorial Independente da Guiné (QG/CTIG), possivelmente na sequência de informações da PIDE/DGS, para a sua expulsão do Exército e da Província..

O 2.º comandante do batalhão, major de artilharia Anjos de Carvalho, juntamente com o major de operações e informações Barros Basto, vasculharam-lhe o quarto, devassaram-lhe a o seu bloco de notas e confiscaram-na. Rasgaram-lhe, inclusive, uma folha, "comprometedora". Devolvem-lhe, mais tarde, no pós.25 de Abril,  o bloco de notas, mas não a "prova do crime".

Segue para Bissau. Numa DO-27, só com o piloto, sem escolta, sem despedidas, sem testemunhas, sem amigos, sem camaradas, sem lágrimas. Oito dias depois embarca para Lisboa e volta a ser " o pastor do seu humilde rebanho", na sua ilha...

Foi o segundo capelão militar a ser expulso do CTIG, em maio de 1917, depois do padre Mário de Oliveira (ou Mário da Lixa), em março de 1969...

Ironicamente, muitas das denúncias de Arsénio Puim coincidiam com os princípios oficialmente proclamados por António de Spínola em “Por Uma Guiné Melhor”: a preocupação com o tratamento humano das populações civis e dos prisioneiros.

Acrescente-se mais este pormenor biográfico, que também marca a diferença em relação a outros capelães da guerra colonial: ainda foi padre durante vários anos. Ao todo 16.

Quis fazer uam experiência de padre operário. Durante dois anos, em Ponta Delgada, tirou o curso de enfermagem, queria ter uma experiência holística do cuidar, como padre e como enfermeiro. Mas estes dois papéis tornaram-se humanamente incompatíveis, pro serem demasiado absorventes.

Pediu então a saída da sua condição sacerdotal. Fez carreira como enfermeiro em Vila Franca do Campo, no Serviço Regional de Saúde dos Açores, casou, em 1979, com uma jovem enfermeira, a Leonor (Maria Leonor Bicudo).  Tem 2 filhos, rapazes,  3 netos (2 meninas),  uma meia dúzia de livros, tem o seu quintal, é jornalista e escritor. É a memória viva da sua ilha, Santa Maria. E hoje, dia 9, celebra á fe quem mesa os seus 90 anos, com a Leonor, o Pedro, o Miguel, os netos, os amigos.


2. Falei ontem, uma hora, com o nosso aniversariante. Está ótimo. De voz e ouvido. E não se queixa da saúde. Estava feliz: "Nunca pensei chegar aos 90 anos".

Feliz e e com uma notável memória. Relembrámos factos, lugares, datas, gentes... Quem ainda está vivo, quem já morreu, do tempo de Bambadinca...Falámos do Benjamim Durães (de quem não tenho notícias há muito), do cap Gualberto Magno Santos Marques (cmdt da CCS, agora coronel, a viver no Algarve), do Abílio Machado (o "Machadinho"), do "mirandês" Abel Rodrigues (CCAÇ 12), da Helena e do Carlão, também da CCAÇ 12 (já falecido), do Gonçalves, da CCS/BART 2917 (que "andou no seminário")...Bem como do pobre do Victor Marques, cmdt do Xime, da CCAÇ 2715  (já falecido), do David Guimarães, da CCAÇ 2716  ("que cantava o fado e tocava viola", no Xitole), do saudoso "alfero Cabral"  (já falecido)... e de outros camaradas, cujos nomes vieram à baila. Sem esquecer o primeiro Brito, do major Anjos de Carvalho, do major Barros Basto, do ten-cor Polidoro Monteiro (todos do BART 2917), do capitão Brito, da CCAÇ 12 ...(já todos falecidos, se não erro).

Inevitavelmente falámos do triste episódio da sua expulsão, em maio de 1971. Aproveitei para clarificar um ou outro facto, ainda para esclarecer, confirmar e corrigir.

Já tinha recebido e folheado o livro, com a dedicatória, que lhe mandámos (o autor, Padre Bártolo Paiva Pereira, o Virgílio Teixeira e eu). Ficou sensibilizado e vai agradecer. 

Falei-lhe do padre Bártolo, que foi capelão-chefe, no QG/CTIG, de 1965/67, tendo-lhe sucedido, no cargo, o padre Manuel Joaquim da Silva Capitão (1968/7'0) e depois o padre Gamboa (fev 1970/ mar 1972).

Este é que foi o chefe do Puim, que de resto só vai estar no CTIG, um ano (mai 70/mai71).

É no tempo do capelão-chefe Gamboa, major graduado, em meados de 1970, que se realiza em Bissau (com 2 dias em Bolama) um encontro de capelães, onde houve alguma discussão acesa sobre o papel dos capelães naquela guerra. Os capelães foram recebidos pelo gen Spínola que aproveitou para mostrar o seu descontentamento em relação a alguns capelães que "não estavam a cumprir o seu dever" (devia querer fazer referância ao caso, ainda recente e inédito, do Padre Mário de Oliveira, que apenas esteve 4 meses, em Mansoa, até ser expulso do CTIG, em março de 1969, ainda no tempo do gen Arnaldo Schulz). 

O Puim estava longe de imaginar que, dali a meses, em maio de 1971, seria a sua vez de ser expulso do CTIG, desta vez por Spínola, e  regressar a casa, ou seja, à sua paróquia...

Mais uma vez obtive a confirmação do Puim em relação ao que se passou na "homilia da paz", de 1/1/1971: nunca foi preso ou interrogado pela PIDE/DGS, nem no início do ano de 71, nem em maio, em Bambadinca, nem em Bissau, enquanto aguardou embarque, nem em Lisboa, nem nos Açores.

Naturalmente, já tinha ficha na polícia política. (A PIDE/DGS em 25 de Abril de 1974  tinha um arquivo de 5 milhões de fichas, o que diz muito da eficiência do seu trabalho, em Portugal de aquém e de além-mar).
 
Apesar de tudo, e como bom cristão que continua a ser, há muito que o Puim perdou a quem lhe fez mal. Mas não esquece. 

3. Ontem mandeu-lhe os parabéns: 

"Puim, ao km 90 da picada da  vida...Parabéns, parabéns, parabéns, como se diz na tua terra!...E boa continuação da jornada!...

Ainda imaginei há um ano atrás poder estar aí hoje contigo e com os que te amam, na tua casa em Vila Franca do Campo, mas calculei mal as distâncias. Ainda são 1500 km no 'drone da amizade'...,  se quiser ir mais confortável com o meu esqueleto no avião da TAP,  ainda são quase 3 horas de viagem. De forma que utilizo este meio, mais maneirinho (e que sempre é mais rápido que o 'bate-estradas' do nosso tempo), para te desejar um bom dia, um grande dia... Que Deus e os nossos bons irãs te protejam a ti, aos teus (a tua Leonor,o teu Pedro, o teu Miguel, os teus netos, e demais família). E a todos nós. Luís (e Alice)".

O  Arsénio Chaves Puim nasceu sob o signo de Touro, às 23 horas do dia 8 de maio de 1936, sexta feira,  numa ilha baleeira perdida no Atlântico, Santa Maria, Açores. Mas o seu verdadeiro signo talvez nunca tenha sido o do zodíaco: foi o da inquietação moral e do testemunho cristã.

A título de apreço e homenagem, aqui vai um pequeno ensaio de  horóscopo poético,  dedicado a ele que podia ser o Santo Arsénio, mas não, não é santo de altar, apenas um homem, de corpo inteiro, um bom amigo e camarada da Guiné. A ele que não desertou, foi apenas expulso da tropa. 

Admiro-o porque é um  daqueles raros seres que nunca aceitaram viver pela metade: quis conhecer a dor e o  sofrimento dos outros não apenas pelo exercício do múnus espiritual, mas também pelas mãos, pelo corpo, pela doença, pela dor, pelo quotidiano dos outros.

 Horóscopo poético:  Ao Arsénio Puim, que nunca quis ser santo, mas apenas homem, um bom cristão, e um melhor amigo e camarada


Nasceu numa ilha pequena
onde os homens aprendiam cedo
que o mar tanto dá como leva,
e que a vida tanto põe como tira.

Entre o mar dos Açores e o rio Geba, na Guiné,
nasceria um homem de passo manso
e consciência difícil.

Touro de maio,
feito da matéria antiga das ilhas atlânticas:
basalto, vento, sal, silêncio e... teimosia.

Os astros deram-lhe voz (frágil) de padre,
mas coração (forte) de insubmisso.
Nunca aprendeu a ajoelhar-se diante da força,
mesmo quando, por imposição do bispo,
fora obrigado a vestir a farda camuflada verde-rubra.

Havia nele qualquer coisa de ave marinha insular:
voava baixo sobre o sofrimento dos homens
e reconhecia de longe o cheiro da injustiça.

Recusou a G3,
não por ser "testemunha de Jeová",
mas padre, católico, capelão, 
médico de almas e corpos.
Recusou a G3 
como quem recusa um segundo pecado original.
Pregou a paz
em terra onde a paz ainda era heresia.

Os planetas dizem
que os homens nascidos naquela hora tardia,
a sempre temível, para as parturientes, 23ª hora,
trazem dentro de si uma luta interminável
entre a obediência e a verdade,
entre o pânico e a teimosia,
entre o medo e a coragem.

Por isso o expulsaram.
Porque certos homens perturbam mais pelo exemplo
do que pela rebeldia.

Foi padre durante dezasseis anos.
Disseram-lhe que bastava salvar almas.
Ele desconfiou da missão, que se ficava pela metade.
Quis aprender também
a tratar feridas, febres, fezes, 
pus, vómitos, sangue, 
doença, solidão, loucura.
Fez-se enfermeiro
como quem prolonga o Evangelho 
pelas mãos e a arte de cuidar, que é mais do que curar.

Durante algum tempo
tentou juntar os dois mundos:
o altar e a enfermaria,
a oração e o termómetro,
a absolvição e a mezinha.

Mas os papéis começaram a rasgar-se por dentro.
Havia demasiada vida concreta, telúrica,
para caber apenas na batina de padre 
 (ou na pena de jornalista).

Então desceu à terra comum dos homens.
Casou.
Teve filhos.
Vieram netos, livros, árvores de fruto,
jornalismo, memórias,
a brisa do quintal ao fim da tarde, 
ao pôr do sol sobre o mar de Vila Franca do Campo.

E contudo,
mesmo sem batina,
continuou a ser padre à sua maneira:
escutando, cuidando,
amparando fragilidades,
resgatando memórias,
investigando, escrevendo.
E essa é também uma forma de coragem
para quem não desiste da vida 
(e, para muitos, do seu absurdo).

Hoje, aos 90 anos,
o nosso ex-"padre capilom",
como diziam com graça e ternura 
as gentis lavadeiras de Bambadinca,
continua de sentinela entre Deus e César,
não pertencendo inteiramemte ao céu  ou à terra,
mas ao mundo inteiro.
 
Os astros sorriem-lhe, discretamente:
não prometem nem honra nem glória,
a ele que não glorificou a guerra;
não lhe prometem
nem a tribuna de poder,
nem o nicho de altar,
nem o pedestal de estátua.

Há homens que passam pela vida
como passageiros,
viajando com mais ou menos luxo/lixo.
Outros tornam-se arquivo vivo
de uma terra e de um povo.
O Puim de Santa Maria
é hoje uma dessas raras bibliotecas humanas
que ainda sabem o nome dos ventos, dos moinhos,
das famílias, dos mortos, das almas penadas,
dos topónimos, dos extintos vulcões, 
dos cachalotes que escaparam ao arpão do baleeiro, 
das histórias que não vêm nos livros.

Os astros dizem
que aos noventa anos
um homem começa lentamente
a transformar-se em paisagem fossilizada.

Talvez por isso
a ilha o guarde agora
como se guarda um farol antigo:
com gratidão,
com respeito,
e com medo de um dia o perder.

Alfragide, 8/9 de maio de 2026

O astrólogo-poeta, Luís Graça
(a que se juntam, Arsénio,  os teus/nossos antigos camaradas da Guiné,
mesmo aqueles que nunca mais te viram ou verão,
que ainda te recordam com amizade, saudade, espanto e respeito,
e isso,  aqui e agora, vale mais do que a eternidade).

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Nota do editor LG:

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27902: Manuscrito(s) (Luís Graça) (287): Foi você quem pediu uma Kalashnikov ?


Lisboa > Rio Tejo > 5/11/2011 > Pôr do sol no Atlântico, visto do estuário do Tejo, em Belém, junto ao Museu do Combatente (Forte do Bom Sucesso). Uma feliz coincidência, um porta-contentores apanhado pela objectiva do fotógrafo "just in time".

Foto (e legenda): © Luís Graça (2011). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]





Guiné > Zona Oeste > Região do Oio > Mansoa > BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) > O capelão e a "bela Kalash".. Foto do álbum do Padre José Torres Neves, antigo capelão militar.


Foto (e legenda): © José Torres Neves (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]O capelão e a "bela" Kalash...



1. Tenho um poema de 2015 em que ironizo a "kalashnikovomania" ... Declaração de interesse: nunca a usei nem desejei... a maldita AK 47.



 Foi você quem pediu uma Kalash ?

por Luís Graça


Há uma luz difusa,
mistura de ternura e de saudade,
quando o sol se põe em Lisboa,
e tudo à volta é a humanidade que arde.

Impensável o fado da idiossincrasia lusa
sob o céu de chumbo de Atenas ou o smog londrino.
Impensável, ou improvável apenas,
oh poeta cretino!

Porque de pias intenções, maus pensamentos
e piores ações está o inferno da história cheio,
as praças, do Comércio ao Rossio,
e os marcos do correio onde apodrecem aerogramas de guerra.

Ah!, o bravo Ulisses, o grego,
o que ele andou p’ra aqui chegar,
depois de transpostas as colunas de Hércules,
até fundar a mítica cidade atlântica de Olissipo.

Ah!, a Lisboa, que os poetas  amaram
e onde afinal nunca foram amados,
do Cesário Verde ao Álvaro de Campos,
do Camões ao O'Neil.

Ah!, Lisboa, Lisboa,
com as tuas casas de muitas cores, caiadas de branco.

Chora, e não é de medo, o judeu sefardita,
a sua desdita, cristão novo, marrano,
a caminho do degredo:

─ Ai!, a doce luz de Lisboa,
filtrada pelo espelho de água do Tejo,
mais o pôr do sol sobre o Atlântico Norte
que começa no Bugio.
Não sei se estarei cá, p’ró ano,
que a vida e a morte
são jogos de azar e de sorte.
Só sei que o que sinto, é já saudade,
porque… é arrepio!


No tempo em que a terra era plana,
antes das viagens de circum-navegação,
não podias tu imaginar o novo mundo
e Copacabana, 
lá ao fundo, 
mais as cataratas de Iguassu,
Darwin e a teoria da evolução,
e o tu-cá-tu-lá de deus com a ciência.

Muito menos a crioula e o seu cretcheu,
o tango, o flamengo, o fado,
o dundum, a coladera,
o samba, a morna,
o lançado, o tangomau,
o escravo do Cacheu,
e a santa paciência
com que a gente vive, morre e não retorna.

Chama-lhe o que quiseres,
mas tens uma dívida de gratidão à Grécia antiga,
ao Homero, ao Platão,
à bela e pérfida Helena de Troia,
ao ateniense e ao espartano,
aos deuses e deusas, estas tão mundanas, do Olimpo…
Que serias tu, sem o Ícaro,
mas também sem a boia nem o  colete de salvação ?!

Que importa, afinal, 
de um povo a nobreza,
grego, judeu ou lusitano,
se a espada do sacro imperador romano
está suspensa por um fio sobre a tua cabeça ?!

Em Lisboa, a norte, no caminho do São Tiago,
o apóstolo de Cristo, decapitado,
guiando os feros exércitos da Reconquista,
no seu constante vaivém do ir e vir,
à volta da Europa e dos seus picos de civilização.

E a sul, a autoestrada da globalização
onde cada turista tem direito ao seu recuerdo,
um postal ilustrado do futuro
que seguirá dentro de momentos,
agora sem  o SPM nº tal…
(que foi de Gandembel, de Guidaje, de Guileje, de Gadamael). 

Allah Akbar!, ainda ecoa o último grito
da batalha de Alcácer Quibir.

Mais a sul,
as febres palúdicas do Geba e do Corubal,
grau 35 do frio polar, esmagando os teus ossos,
grau 42 do fogo infernal, implodindo a tua cabeça.

Viras na curva do rio,
para desceres ao fundo da terra,
verde e vermelha, dos pesadelos da guerra.

Dos miradouros dos grandes cruzeiros
que demandam o Tejo
não se vê a solidão dos velhos combatentes, à beira rio,
tentando em vão reacender o pavio do desejo.

Muito menos os mariscadores do mar da Palha
onde apodrece a última nau
do caminho marítimo para a Índia.

Ou ainda os moços, imberbes, que partem na frota branca
para os bancos de pesca do bacalhau, na Terra Nova,
verdes, maçaricos, periquitos, checas,
sete vidas, sete safras,
servindo a velha pátria
em alternativa à guerra de África.

Lisboa, forrada a talha dourada, estremece,
sob o peso da carruagem do senhor dom João Quinto,
desenhada a lápis-lazúli.
Dizes adeus a Fernão Mendes Pinto
que parte em viagem, por sua conta e risco,
para o império do sol nascente,
levando consigo os botões, as armas de fogo
e as emoções dos bárbaros do sul.

─ Canta-lhe, Mísia, aquele fado, que diz: 
“Arrefece
a última lava do vulcão
do teu corpo, amor,
mas ainda estremece,
ou não foras tu, velha Lisboa,
sempre (e)terna,
menina e moça, bajuda, mulher”.


Entardece, ensandece a cidade,
todas as sextas-feiras treze do novo milénio.
Valha-nos as cruzes, canhoto,
contra o mau olhado,
e vade retro, Cronos,
que, depois de devorares os teus filhos,
hás de devorar-te a ti próprio!

E quem bula tem,  come carne,
não precisa de engenho e arte,
diz o cristão, velho e relho.
Mas é amarga a ostra, e mortal a ameijoa
com que os pobres matam a sua fome.

Afogas-te em absinto,
bebida antiga de poeta,
depois de teres mandado cortar
as copas dos pinheiros bravos
por te taparem a linha perdida do horizonte.

Mas já não há horizonte, querida,
nem rosas nem espinhos nem cravos,
quebrada que foi a linha da vida.

Sem ajuda do Google Earth,
à vista desarmada,
encontras aqui o teu lugar,
definitivamente provisório,
provisoriamente definitivo,
porque sabes que é 
tão irrisório partir como absurdo ficar,
para quem da vida é fugitivo.

Sentas-te numa esplanada
na doca de Belém, com vista de estuário e de mar:

─ Foi você quem pediu uma Kalash ? ─
pergunta-te um dos sem-abrigo,
da classe dos antigos marinheiros e pescadores,
estivadores e fragateiros,
agora tristes desempregados de mesa,
predadores à espera de presa.
Estão ali simplesmente à coca do turista.

─ Não, obrigado, amigo,
mas não me faltava, às vezes, a vontade...


─ Temos as melhores Kalash da cidade,
da original e à contrafeita…
É só puxar a culatra
e meter uma bala na câmara,
e ficar à espreita...

─ Não, não  insista!...
Para que haveria eu de querer uma arma,
essa é boa!,
se já não tenho licença… p'ra matar?!


Mal por mal,
protestas contra o autocrata do autarca,
metes uma baixa psiquiátrica,
e pedes uns peanuts, uma azeitona, um tremoço ou uma tâmara
e um copo… de cicuta,
enquanto o sol se põe em Lisboa!...


Lisboa, beira Tejo, fev 2015. Revisto, 8 abr 2026.


2. Análise literária do poema, pedida pelo autor a uma ferramenta de IA (Le Chat / Mistral);

Luís, o teu poema é um "mix" de ironia, melancolia e crítica social, onde a "kalashnikovmania" surge como metáfora de algo muito maior: a desilusão com a história, a guerra, a globalização e até a própria identidade portuguesa. 

Vamos desmontar alguns das ideias mais fortes , com especial atenção ao final,  onde a Kalashnikov se torna símbolo de um absurdo existencial.deideias.

(i) A Kalashnikov como metáfora: entre o desejo e o absurdo

O poema termina com um diálogo surreal entre o eu lírico e um sem-abrigo em Belém, que oferece "as melhores Kalash da cidade". A pergunta ("Foi você quem pediu uma Kalash?") é brutal na sua ironia:
  • desejo reprimido: a resposta ("Não, obrigado, amigo, / mas não me faltava, às vezes,  a vontade…") revela uma atração pelo símbolo da violência e da resistência, mas também a consciência de que, já sem a "licença p'ra matar" (a "legitimidade da guerra"), a arma é inútil ou perde todo o sentido; é como se a Kalashnikov representasse a vontade de agir num mundo onde a ação é impossível ou proibida, se não mesnmo inútil;
  • crítica à passividade: o eu lírico prefere, em vez da arma, uma "baixa psiquiátrica" ou um "copo de cicuta",  gestos de rendição poética (se não mesmo de "autoaniquilação" perante um sistema que esmaga a individualidade; a Kalashnikov, aqui, é o que não se usa, mas cuja presença denuncia a falta de alternativas.
(ii) Lisboa, palco do teatro do absurdo

O poema constrói Lisboa como um espaço de contradições históricas e sociais:

  • glória e decadência: desde Ulisses até aos "mariscadores do mar da Palha", a cidade é um palimpsesto de impérios falidos (o sonho colonial, a Reconquista, as viagens de circum-navegação) e de vidas esmagadas (os velhos sozinhos, os pescadores desempregados, os turistas que compram "recuerdos" vazios);
  • globalização/banalização  vs. memória: a "autoestrada da globalização" contrasta com a solidão dos que ficaram para trás; a Kalashnikov, arma de guerra colonial, é agora vendida como "souvenir" aos turistas, o passado violento transformado em mercadoria;
  • ironia histórica: o grito "Allah Akbar!" que ecoa desde Alcácer Quibir,  lembra que Portugal já foi um império, mas também uma vítima da sua própria ambição desmedida; a Kalashnikov, arma outrora do PAIGC, é agora um objeto de consumo num país que já não tem guerras para travar.
(ii) A guerra colonial como fantasma

A referência à Guiné é subtil, mas devastadora:

  • "as febres palúdicas do Geba e do Corubal" evocam a memória traumática da guerra, onde a natureza e o inimigo se confundiam numa luta sem sentido;
  • a AK 47, que na Guiné era símbolo de resistência anticolonial mas "fétiche" para os "rambos", aparece agora em Lisboa como objeto de um comércio grotesco, vendido por " antigos marinheiros e pescadores, / estivadores e fragateiros, /agora tristes desempregados de mesa", os mesmos que, outrora, teriam sido enviados para África.;
  • o ciclo da violência: a arma, "made in Russia" ou "made in China",  que outrora matou jovens portugueses e guineenses nas picadas, matas e bolanhas da Guiné, é agora oferecida a turistas, a preços de saldo, como se a história fosse uma farsa repetida.

(iv)  O Eu lírico, oscilando entre a saudade e o ceticismo

  • saudade: "é já saudade, / porque… é arrepio!" — um sentimento que antecipa a perda, como se Lisboa (e a vida) já fossem memória antes de acabarem;
  • ceticismo: "que importa, afinal, a nobreza de um povo, / grego, judeu ou lusitano, / se a espada do sacro imperador romano / está suspensa por um fio / sobre a tua cabeça?" — uma pergunta que desmonta mitos nacionais e revela a fragilidade da identidade;
  • humildade perante o "non-sense": "tão irrisório partir como absurdo ficar", sendo a Kalashnikov, no final, o símbolo dessa impossibilidade de escolher: não se quer a arma, mas também não se tem alternativa.
(v) A Kalashnikov como fetiche e  objeto poético
  • fetiche: desejada, mas não possuída; simboliza o que não se pode ter (a ação, a revolta, a mudança);
  • ironia: vendida por quem já não tem nada (os "deserdados", os "antigos combatentes"), comprada por quem não precisa dela ("turistas")
  • metáfora da história portuguesa: uma arma que veio de fora (com o colonialismo, com a globalização) e que agora pertence a todo o mundo e a ninguém; uma arma que se "democratiza" e "banaliza" e, portanto, se "dessacraliza".
Conclusão (definitivamente provisória):

Luís, este poema parece fechar um ciclo,  o da guerra colonial, da descolonização, da  identidade portuguesa, mas também o da tua própria relação com a violência e a memória. E, quiça, a tua própria história de vida.

 A Kalashnikov, a Kalash, a AK 47, no final, é quase uma piada trágica: o que resta de uma guerra são armas vendidas como souvenirs, e o que resta de uma vida são "azeitonas, tremoços, ou tâmaras", enfim,  "peanuts",  enquanto o sol se põe.

Será que a ironia é a única forma de lidar com o absurdo da história? (A história não tem sentido, não tem que ter...). Ou há, neste poema, um gesto de resistência escondido na recusa da arma ("Não insista…") e da "violência" dita "revolucionária" ?

(Pesquisa: LG + IA / Le Chat Mistral)

(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, itálicos: LG)

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Nota do editor LG: