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terça-feira, 25 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28290: Agenda cultural (900): É já no sábado, dia 29, na Feira do Livro do Porto 2026, que o nosso António Carvalho apresenta, ÀS 16h00, o seu notável romance "3 x 44: Abel e Caim em Contrapé", 228 pp. de ação e emoção que se leem de um fôlego














Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Luís Graça (2026) | António Carvalho (2026)
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



1. O nosso amigo e camarada António Carvalho, o "Carvalho de Mampatá",  vai fazer a apresentação do seu romance "3 x 44:  Abel e Caim em Contrapé" (Porto: Vida Económica, 2026, 288 pp. ) na Feira do Livro do Porto 2026, evento cultural que começou em 21 de agosto e termina em 6 de setembro de 2026.

É organizado pela Câmara Municipal do Porto, nos Jardins do Palácio de Cristal. Conta com a presença de 144 stands,  entre editoras, livreiros e alfarrabistas.

O António Carvalho espera pelos seus leitores, entre eles muitos dos seus amigos e camaradas da Guiné, e muito em especial os da sua tertúlia, o Bando do Café Progresso, além dos seus conterrâneos de Medas, Gondomar. 

Tenho pena de não poder estar presente, apesar do amável convite do autor.  Mas desejo as melhoras venturas para este seu 2º livro, que é mais do que uma promessa, é a confirmação do seu talento literário e do seu fôlego como contador de histórias e criador de personagens.

Local, data e hora:

Jardins do Palácio de Cristal | Lago dos Cavalinhos | sãbado, 29 de agosto de 2026 | 16h00

Além do autor, a sessão conta com a presença de João Luís de Sousa, António Viilar, e Castro Guedes. 

Vd. aqui o mapa da feira, e a localização do Lagos dos Cavalinhos e do stand nº 110 (Vida Económica). 

 Do livro tomo a liberdade de reproduzir, para abrir o apetite do leitor, a "Introdução" (pp. 7/9)

__________________

Introdução

Propus-me, ao longo destas páginas, contar as passadas dos caminhos, ora chãos ora ínvios, por que passaram as personagens desta saga. Às reais apenas dei retoques, às verosímeis moldei-as segundo a fluência da minha imaginação. Todavia deixei que fossem elas as autoras dos seus projetos e trajetos, os quais me limitei a descrever, ao meu modo, sem conhecer ab initio os seus momentos de bonança ou turbulência, de felicidade ou desdita, nem antever até onde elas me levariam, nos seus percursos calculados ou traçados pelas circunstâncias.

O trágico perecimento da personagem principal, roubado à vida ainda vigoroso, evento de que ouvi falar em surdina, de modo impreciso, enquanto criança, e trouxe sepulto, no cerne da mente, até aos dias de hoje, foi a mola impulsionadora da decisão de escrever este romance, porque por nenhuma outra razão me atreveria a empresa tão arriscada.

Costumavam as mães, nos anos cinquenta do século passado, antes do cumprimento da norma obrigatória da missa do domingo, apressadamente, atamancar alguns padre-nossos e ave-marias, no cemitério de Emendadas, adjacente à Igreja Paroquial. Quedavam-se frente a cada campa onde morasse familiar benquisto, não se esquecendo nem dos avós nem dos bisavós, muito menos dos pais e irmãos. Detinham-se por mais tempo defronte da sepultura de algum filho pequeno que não tivesse sobrevivido a doença sem médico ou epidemia sem cura. Então, quando acontecia, por mero adrego, passarem pela campa de Caim, com alguns filhos pela mão, usavam dizer-lhes, depois de se assegurarem que não estava ninguém por perto, de modo ciciado:

-Não olheis prali, meus meninos, que está ali enterrado um home ronhe.

Era assim que, reiteradamente, manifestavam o seu repúdio pela presuntiva crueldade daquele morto, personagem secundária deste livro, inumado no canto amaldiçoado do cemitério, sem merecer o benefício da cruz, nem lhe dispensarem um pingo de água benta sobre a cova.

Mas não foi por Caim, sepultado sem missa nem padre, que me atrevi a contar as peripécias desta aventura decorrida em dois continentes. Fi-lo pela memória de Abel, supostamente sua vítima inocente, cujo corpo ali encontrara morada também, a bem poucos metros do outro.

Abel é verdadeiramente a personagem central desta minha criação, um menino de Emendadas, levado ao interior de S. Paulo e aí deixado, numa fazenda de café, ao cuidado de um tio. Os que haviam de lhe seguir o rasto, mais tarde, esperavam que desse gente e lhes abrisse caminho na lonjura de uma fazenda paulista, apesar dos seus dez anos por fazer.

Cruzar-se-ia com namoradas, por lá, quando lhe viesse a idade apropriada, mas não se agarraria, firmemente, como lapa se prende a rochedo, a nenhuma, por assim ter decidido ou por assim ter calhado, ou até por se ter deixado guiar por cabeça alheia.

Tinham-lhe ficado quinze anos, no Brasil, quando, já meio depenado, regressou, para não mais voltar, julgando que voltaria. Quem ficou lá para sempre, na região onde nascera, senhora do seu destino, foi a sua namorada da verdura da adolescência, a prelúcida Chiquinha, fiel a um projeto de vida grandioso. Por isso ela é a segunda personagem mais importante que aqui retrato, a rapariguinha espevitada dessa fazenda, que não podia ficar de fora deste romance que desenvolvo à roda de dois seres que se cruzaram e descruzaram, ainda imaturos, sem nunca mais se recruzarem, em vida.

O leitor, no percurso das páginas deste livro, perceberá melhor as razões porque jamais obliteraria a determinada e audaz Chiquinha, da passagem atribulada de Abel por este mundo. Nem tampouco, no contexto da caminhada infortunada deste português abrasileirado, a relegaria para um papel secundário. Porque, na verdade, se as vidas de ambos se descruzaram, a sombra dela sempre pairou, imperecível, no âmago de Abel. Certo que imersa por muitos anos na profundeza do seu ser, ela reemergiria como tábua salvífica, à tona dos seus pensamentos, sobretudo nos momentos mais tormentosos da sua vida.

No grande fluxo migratório para o Brasil, registado entre meados do século dezanove e o início da Segunda Guerra Mundial, muitas pessoas de Emendadas se abalançaram, primeiro em barcos à vela, assustando-se sob perigosas procelas; depois em grandes e seguros vapores, até aos portos do Norte e do Nordeste, do Rio de Janeiro, de Santos, de Paranaguá e de Porto Alegre. Alguns iam muito novos, pela mão de tutores, fossem eles familiares ou amigos confiáveis; outros afoitavam-se já maduros, sozinhos, à procura de novo rumo, deixando tudo para trás.

Abel é o nome fictício do rapazinho nascido em Emendadas, quase a findar o século dezanove, que percorreu um caminho, de cá para lá e de lá para cá. Podia ter ficado por aquelas bandas, mas deixou-se tomar de amuos injustificados, voltando ao lugar de onde tinha provindo, sítio seguro e previsível, como julgava. Mas o pior perigo é o que não é previsível, especialmente quando advém de um plano forjado pelo nosso semelhante, congeminado até no reconditório mental de quem menos esperamos, nesse território secreto onde pode ser concebido tanto o mais nobre gesto como o ato mais abjeto.

António Carvalho

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 21 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28277: Agenda cultural (899): Feira do Livro do Porto 2026: apresentação do romance do António Carvalho, "3 x 44: Abel e Caim em Contrapé" (Porto: Vida Económica, 2026, 288 pp.), sábado, dia 29 de agosto, às 16h00, nos Jardins do Palácio de Cristal, Lago dos Cavalinhos

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28277: Agenda cultural (899): Feira do Livro do Porto 2026: apresentação do romance do António Carvalho, "3 x 44: Abel e Caim em Contrapé" (Porto: Vida Económica, 2026, 288 pp.), sábado, dia 29 de agosto, às 16h00, nos Jardins do Palácio de Cristal, Lago dos Cavalinhos

 



Ilustração: © Feira do Livro do Porto 2026 (com a devida vénia...)

 
1. O nosso camarada António Carvalho vai fazer a apresentação do seu romance "3 x 44:  Abel e Caim em Contrapé" (Porto: Vida Económica, 2026, 288 pp. ) na Feira do Livro do Porto 2026, evento cultural que começa hoje, 21 de agosto e termina em 6 de setembro de 2026.

É organizado pela Câmara Municipal do Porto, nos Jardins do Palácio de Cristal. Conta com a presença de 144 stands,  entre editoras, livreiros e alfarrabistas.

O António Carvalho espera pelos seus leitores, entre eles muitos dos seus amigos e camaradas da Guiné, e muito em especial os da sua tertúlia, o Bando do Café Progresso, além dos seus conterrâneos de Medas, Gondomar.

Local, data e hora:


Além do autor, a sessão conta com a presença de João Luís de Sousa, António Viilar, e Castro Guedes. 

Vd. aqui o mapa da feira, e a localização do Lagos dos Cavalinhos e do stand nº 110 (Vida Económica).

Capa do livro, publicado pela editora Vida Económica, com apoio da Fundação Hermínia Vilar  Ribeiro. 


O António Carvalho, e a esposa, Maria de Fãtima, na sessão de lançamento do seu livro, no passado dia 11 de julho, na quinta  da Fundação Hernínia Vilar Rodrigues, em Medas, Gondomar, que teve mais de 8 dezenas de presenças. 

Foto: Página do Facebook da Vida Económica (11 de julho de 2026, 15h00) (com a devida vénia...)

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Nota do editor LG:

Último pposte da série > 21 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28276: Agenda cultural (898): "Ilha de Santa Maria: Recortes da História de um Povo", novo livro de Arsénio Puim (Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2026, 135 pp.)

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28045: Em busca de... (334): camaradas que tenham conhecido o meu amigo, do Porto, ex-alf mil Alberto Fontão, comandante de um PINT (Pelotão de Intendência), em Bissau, no período de 1967/69 (Virgílio Teixeira, ex-alf mil SAM, CCS/BCAÇ 1933, Nova Lamego e São Domingos, 1967/69)




Guiné > Bissau > Café Bento (ou 5ª Rep) > Fev 1968 > São todos do Porto. Três são do BCAV 1915, que eu fui render em setembro de 1967. 

Da esquerda para a direita: 

(i) Nelson, furriel mil amanuense; 

(ii) a seguir eu, Vt, de óculos escuros; 

(iii) depois um furriel que trabalhava com o Nelson de que não me lembro do nome;

(iv) o alf mil Alberto Fontão, comandante de um PINT [Pelotão de Intendência];

(v)  e a seguir o alf mil SAM, como eu, do CA do BCAÇ 1915, de seu nome Fragateiro, que foi para Bula (nunca nos relacionámos bem, talvez por causa da passagem de testemunho em outubro de 1967; depois da "peluda", foi delegad de propaganda médica)

Foto (e legenda): © Virgílio Teixeira (2026). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

 

1. Mensagem do Virgílio Teixeira, eex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69):


Data - domingo, 22/03/2026, 01:06
Assunto - Quem se lembra do Alferes Miliciano Alberto Fontão?


LG,  na sequência de outros apelos gostava de saber se há algum camarada que se lembre deste meu amigo de juventude, o Alberto Fontão, que esteve na Guiné no nosso tempo, 67 a 69.

Ele pertencia a uma companhia de transportes, sediada na Amura. Levava os abastecimentos em colunas, via terrestre. Lembro de ele falar em Buba, Binar, Bula,  Farim, Mansoa, Mansaba e tantas outras. Levava mantimentos e armamento vário.

Como teve problemas pessoais, viveu com a mulher e filha, Eunice, de 2 anos em Bissau.

A mulher trabalhava nos escritórios de uma farmácia que muitos podem conhecer. Ele morava perto das oficinas de automóveis, junto com o cunhado e a mulher, ambas irmãs que eu conhecia muito bem. As irmãs eram colegas da minha mulher na Escola Comercial, Filipa de Vilhena, na zona do parque do Covelo.

Quando eu ia a Bissau visitava todos, a filha quando ouvia o trabalhar da motorizada, dizia logo aos pais que vinha o Virgílio.
 
O amigo Fontão concordou com a minha ideia, mas disse que não queria falar ou escrever sobre esta aventura.

Esteve no HM241 internado na psiquiatria juntamente com o alferes Alberto Leite, da CHERET. A
mbos vieram evacuados no mesmo avião militar.
 
Não sabe sequer o número da companhia, e as viagens eram ir e vir no mínimo tempo, por isso não teve grandes relacionamentos com as companhias onde se deslocava.

Divorciou-se quando acabou o mesmo curso de economia que eu.  Foi quadro do BPA  (Banco Português do Atlântico) no Porto, até se reformar. Ambas as mulheres já faleceram.
 
A irmã da mulher foi sempre casada com o Joaquim Pinto Gomes, já formado em Economia,  e foi para Bissau, de onde nunca saiu para os arredores. Era revisor das contas dos CA (Conselhos Administrativos) dos batalhões na chefia de contabilidade (QG/CTIG). 

Tenho uma fotografia, que tirei no Bento à noite com um grupo quase familiar.

São todos do Porto. Três são do BCAV 1915, que fui render em setembro de 1967. Da esquerda para a direita (foto acima): Nelson, furriel mil amanuense; a seguir eu, Vt; depois um furriel que trabalhava com o Nelson de que não me lembro do nome; o alf mil Alberto Fontão, comandante de um PINT [Pelotão de Intendência]; e a seguir o alf SAM, como eu, do CA do BCAÇ 1915, de seu nome Fragateiro que foi para Bula.

Temos um grupo no WhatsApp que partilhamos e fazemos 6 almoços (por ano).

Para já não me lembro de mais nada. Abraço e vou dormir

Virgílio Teixeira

2. Comentário do editor LG:

Vt, num poste anterior disseste que o teu amigo, Alberto Fontão, tinha sido c0mandante de um Pelotão de Intendência (PINT)... E agora dizes que integrou uma Companhia de Transportes... Houve pelo menos 6 companhias de transportes, no CTIG, desde 1964:; a primeira a CTransp 735 (1964/66) e a última, a CTransp 9040/72 (1973/74).

É mais provavável que ele tinha estado num PINT. Era importante saber o nº desse PINT.  Havia, de facto, pouca interação da malta do mato  com os camaradas da Intendência.

Vê se descobres algo mais sobre a subunidade em que o Alberto  Fontão esteve. E, se possível, em que data desembarcou em Bissau.  

Nalguns portos fluviais, como Bissau, Mansoa, Farim, Bambadinca, Buba  e Catió, por exemplo, havia destacamentos de Intendências, guarnecidos por PINT (além do BINT -Batalhão de Intendência, com sede em Bissau, que era casa-mãe). 

O serviço de intendência era o "back office" da guerra, tal com os CA dos batalhões, a que tu pertenceste...

Julgo que o único comandante de um PINT que temos na Tabanca Grande é o João Lourenço,  ex-alf il SAM, PINT  9288 (Cufar, 1973/74), que mora na Figueira da Foz. 

Não vai ser fácil descobrir malta que tenha conhecido o teu amigo Alberto Fontão,  para mais tendo ele regressado à metrópole, sem completar o tempo de comissão. Mas aqui fica o apelo (e o convite, para ele integrar a Tabanca Grande).
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 28 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27965: Em busca de ... (333): José Serafim Gonçalves procura camaradas da CCAÇ 417 que esteve em Empada, Bissau e Cabo Verde nos anos de 1963 e 1964

segunda-feira, 23 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27849: Agenda Cultural (885): Centro Português de Fotografia (antiga Cadeia e Tribunal da Relação), Porto: Exposição temporária: "África Vista por Duas Gerações (1938-1995) | Ernst Schade e Carol Alexander Schade, de 07.03 a 28.06.2026. Entrada livre.

 
© Ernst Schade

1. Esta exposição “África Vista Por Duas Gerações (1938-1995)" propõe um diálogo entre dois olhares fotográficos ligados por laços familiares e por uma profunda relação com África.

Em 1938, Carol Alexander Schade atravessou o continente africano, registando paisagens, povos e modos de vida num momento crucial do século XX.

Décadas depois, o seu filho, Ernst Schade, desenvolve um olhar humanista e comprometido, documentando conflitos, deslocações forçadas e processos de reconstrução em países africanos no período pós-colonial. 

Colocadas em diálogo, as fotografias de pai e filho revelam continuidades e contrastes entre arquivo histórico e fotografia contemporânea, afirmando a imagem como memória, testemunho e instrumento fundamental para a compreensão do mundo.

Entrada livre.

Centro Português de Fotografia

Antiga Cadeia e Tribunal da Relação do Porto
Largo Amor de Perdição
4050-008 Porto • Portugal

(+351) 220 046 300 | mail.cpf@cpf.dglab.gov.pt



"Os rios do nosso litoral são excelentes vias de comuncação. Tabanca de Djobel"


Foto: © Ernst Schade (s/d) | www.ernstschade.com | Digitalização: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026) |


2. Informação adicional que nos foi facultada pelo nosso amigo Henk Eggens, também ele neerlandês e amigo do Ernst Schade. Ambos têm uma "relção especial" com a Guiné-Bissau, onde Henk foi médico, cooperante (Fulacunda e Bissau, 1980-1984). Ambos vivem em Portugal.

Ernst Schade (1949) cresceu no sul dos Países Baixos. Aos sete anos, recebeu do pai uma câmera Agfa
Clack, o início de uma dedicação vitalícia à fotografia. Estudou agricultura tropical, e o seu trabalho levou-o para o sul de África, onde colaborou com organizações internacionais de ajuda humanitária.

Durante a guerra civil em Moçambique, desempenhou um papel crucial no apoio a refugiados. A fotografia tornou-se uma parte essencial do seu trabalho: os clientes e doadores queriam imagens fiéis que retratassem a situação no local. 

Desde 1995, Ernst Schade vive em Lisboa. Trabalhou em vários países fricanos, mas a Guiné-Bissau tornou-se o seu principal campo de trabalho fotográfico. 

As suas obras foram exibidas em exposições na Europa e em África.

Schade constrói confiança antes de fotografar. Os seus retratos Schade constrói confiança antes de fotografar. Os seus retratos são o resultado de atenção e diálogo, com o objetivo de capturar a essência de uma pessoa ou momento - de forma honesta, direta e respeitosa.

Em 1938, Carol Alexander Schade (1909-1977), que viria a ser pai de Ernst, enviou um Ford V8 Woody Wagon para a Cidade do Cabo e, com um amigo, conduziu-o até ao Cairo em seis meses, percorrendo 27.139 km. 

Em 2024, Ernst conheceu o fotógrafo Carlos Cardoso, do Porto. Cardoso considerou a aventura do pai de Ernst e as fotografias que tirou tão especiais que o apresentou ao Centro Português de Fotografia.
Desta colaboração nasceu uma exposição com fotografias de pai e filho. 

A inauguração foi no dia 7 de março. A exposição estará patente até 28 de junho de 2026 no Centro
Português de Fotografia, no Porto.
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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27763: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte X: A desconstrução do padre, que ainda andou nos navios da marinha mercante (T/T Niassa e petroleiros)


Guiné > Legenda: "Recordação do Niassa. Lisboa - Guiné - Lisboa.... Missão Cumprida!... Lisboa, de 1 de maio de 1968 / Bissau, 3 de abril de 1970)... Transportando a CCÇ 2381, além de outras unidades. Cortesia de José Teixeira (1.º cabo aux enf, CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70), nosso colaborador permanente. O padre frei Horácio Fernandes também aqui foi capelão, depois de terminar a sua comissão de serviço como capelão militar, no CTIG, em finais de 1969.

Foto (e legenda): © José Teixeira (2006). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Estamos a reproduzir excertos da dissertação de mestrado em ciências da educação, pela Faculdade de Psicologia e Ciências das Educação da Universidade do Porto (1995), da autoria do nosso grão -tabanqueiro Horácio Fernandes, que foi nosso camarada como capelão militar no CTIG (BART 1913, Catió,  1967/69), e que faleceu, ainda recentemente, em novembro de 2025, com 90 anos completos.



Horácio Fernandes
(1935-2025)
No capº IV daquele trabalho académico, ele narra e comenta a história de vida de Francisco Caboz, seu "alter ego". Trata-se, pois, de uma autobiografia, que em 30 páginas, a duas colunas, cobre a sua infância, adolescência, juventude e idade adulta até 1972, o ano em que, prestes a fazer 37 anos, regressa ao estado laical e constitui família, passando a viver no Porto.

Nos nove  postes anteriores já publicados (*), ele fala-nos, sucintamente, de:

(i) a sua terra natal, "Arribas do Mar" [leia-se Ribamar, da Lourinhã], bem como as 3 figuras da família que o marcaram: 
o pai (José Fernandes Nazaré), a mãe (Elvira Neto) e o avô materno (nascido provavvelmemnte na década de  1880), o sacristão da freguesia, o Ti João das Velas de Santa Bárbara;

(ii) como foi criando raízes a ideia de ser padre: o avô materno, sacristão, e a professora primária acabaram por ser as pessoas que mais pesaram nessa decisão;

(iii) a entrada no Colégio Angélico (leia-se, Seráfico, na altura Montariol, em Braga, a mais de 300 km de distância da sua terra, Ribamar, Lourinhã), e os "quatro cenários" onde se vai desenrolar a sua vida de "angélico" (ou seja, até ao 5º ano, correspondente hoje ao 9º ano de escolaridade): a camarata, o refeitório, a sala de aulas, o salão de estudo, e onde vigorava o panoptismo;

(iv) os mecanismos de vigilância dos internos e os rituais de punição por parte dos prefeitos;

(v) o 6.º ano, quando passa a ser noviço (Convento do Varatojo, Torres Vedras);

(vi) segue-se o Coristado de Filosofia (em Leiria, no seminário de São Francisco / convento da Portela) e depois de Teologia (no Seminário da Luz, Carnide, Lisboa), até à ordenação sacerdotal (em agosto de 1959).

(vii) no início do 2º semestere de 1967, é chamada para fazer, na Academia Militar, o 1º curso de capelães militares;

(viii) é mobilizado para a Guiné, em rendição individual, como capelão militar, sendo colocado em Catió no BART 1913;

(ix) a sua vocação sacerdotal é abalada com a sua passagem pelo sul da Guiné.

Terminada a comissão, em finais de 1967, andou ainda na marinha mercante (transporte de tropas e navios petroleiros), como capelão, até deixar o sacerdócio em 1972, antes de completar os 37 anos.

Casou, passou a viver no Porto. Teve 3 filhos. Estava reformado da Inspeção Geral de Educação onde trabalhou 25 anos na zona norte. Em 2006, aos 70 anos, doutorou-se em ciências da educação pela Universidade de Salamanca, Espanha.

Reencontrámo-nos, por volta de 2015, na Tabanca de Porto Dinheiro, Lourinhã, ao fim de 57 anos de vidas completamente separadas.


2. É uma história de vida que merece ser conhecida dos nossos leitores. Um verdadeiro testemunho de uma época que ainda coincide, em parte, com a nossa.

É um trabalho académico, relevante não só para a história da capelania castrense como também para o conhecimento do ensino confessional ministrado em seminários diocesanos e regulares, onde se formava o clero católico ao tempo da Ditadura Militar e Estado Novo (1926-1974).

Imagem do lado direito: capa do livro do Horácio Fernandes, publicado 14 anos depois da sua dissertação de mestrado (1995): ""Francisco Caboz: a construção e a desconstrução de um padre" [Porto: Papiro Editora, 2009, 185, (7) pp. ISBN 978-989-636-446-5].(O livro está esgotado.)


História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte X:   A desconstrução do padre, que ainda andou nos navios de transporte de tropas e nos petroleiros


por Horácio Fernandes


6.  A desconstrução do habitus. O Trânsfuga.

As férias, de Capelão Militar, duas vezes por ano, eram passadas em casa de meus pais "Arribas do Mar" [leia-se, Ribamar, da Lourinhã],- 

 Celebrava na minha terra e era muito solicitado pelas famílias da redondezas, para saberem notícias dos filhos. Não tinha tempo para ir visitar a instituição [ OFM - Ordem dos Frades Menores em Portugal, também conhecida como Província Portuguesa da Ordem Franciscana].

Aliás, com o meu dinheiro, custeava as despesas dos estudos de minha irmã [mais nova, a maois velha era enfermeira],  frequentava já o Instituto Comercial e consegui, com as economias, liquidar as restantes dívidas de meu pai. 

Vivia, portanto, praticamente à margem da minha instituição. Ainda cheguei a escrever algumas cartas, mas nunca obtive resposta. 

Talvez, por isso, quando acabou a tropa, escrevi aos Superiores a dizer que não estava disposto a voltar imediatamente para o Convento. Responderam-me, acenando-me com um lugar de Superior, numa residência da instituição, recusei e sem saber para onde ir, pedi para ficar mais um ano no serviço militar.

Como me disseram que não havia lugar, fiquei bastante ofendido, pois sabia que outros conseguiram ficar. Frustrada uma ida para Angola, para dar aulas no Liceu de Nova Lisboa [,hoje, Huambo], oferecí-me ao Clube Stella Maris para ir para Capelão do Mar, a ver como as coisas evoluíam, depois achava que não era capaz de voltar para a instituição.

Tinha de tomar uma decisão, mas era muito penoso. A pressão social da minha família e das gentes que em mim tinham confiado continuava a ser um grande obstáculo, cada vez mais difícil de transpor. Preferi, pois, adiar mais algum tempo. Nascia também em mim o Tânsfuga.

O Apostolado da Mar, organização católica que fornecia capelães para os navios da Marinha Mercante, foi a solução provisória encontrada. Ganhava, assim, mais algum tempo, fora da jurisdição da instituição, podia continuar a ajudar a família e entretanto tinha tempo para ponderar melhor a sua decisão.

- 133 - 

Este adiamento nada resolveu. A decisão tinha de ser minha. O clima relacional nos navios da Marinha Mercante, fretados ao exército para transporte de tropas, era duplamente penalizador.  

Após as emoções da partida, os soldados iam, como animais para o matadouro, em camaratas improvisadas nos porões. Alguns enjoavam e outros bebiam demais e nem para as refeições se levantavam. Revoltados, vingavam-se nos colchões de espuma que, no fim da viagem, eram mandados ao mar. 

Por sua vez,  a tripulação do navio, sob a jurisdição do comando militar, vivia num contínuo stress. A tripulação era constituída na sua grande maioria por jovens oficiais, a cumprir deste modo o serviço militar. Afogavam, pois, em garrafas de uísque a sua desdita.

Nos navios petroleiros a situação não era melhor: passavam cerca de 25 dias a sonhar com o porto de Lisboa ou Leixões, mas aí chegados, passadas 48 horas, o navio zarpava novamente.

Eu percorria, durante o dia, todo o navio, quando o mar era calmo, mas só era solicitado para ouvir desabafos. Por isso, sentia-me inútil como padre,  não obstante todos me tratarem com correcção. Sentia-me como uma ave rara, com quem todos, levados pela curiosidade, queriam discutir assuntos de religião. Tirava algumas dúvidas, mas não resolvia as minhas.

Entretanto, ia-me preparando para o exame de admissão à Faculdade de Letras. Esta admissão constava da matéria de História do 5° ao 7° ano e Filosofia do 6º e 7°.

Nas últimas viagens ao Golfo Pérsico, estava mesmo disposto a mudar de profissão, pedindo a redução ao estado laical. O isolamento de cerca de 25 dias de viagens, só com 30 a 40 homens a bordo, tentando esquecer o tempo, bebendo, ou criando situações conflituais, desenraizados socialmente, trouxe-me a noção do meu próprio isolamento. Nada me faltava a bordo. Contudo, achava inútil a minha presença ali.

Na minha indecisão ía-os ouvindpo,  mas também desabafando os meus problemas. 

- 134 - 

Esta situação não lhes passou despercebido e, na hora do desembarque, ofereceram-me um saco confecionado a bordo e uma caneta, num estojo, onde se lia: «para o capelão. Prenda de casamento».

Nesta indecisão, bem dolorosa para mim e toda a minha família, novamente, uma pessoa teve grande influência: o padre da minha freguesia, um belga,  assistente da Universidade de Lovaina em Físico-Químicas, que veio, já vocação tardia, para o Patriarcado  [de Lisboa] Roger Carpentier, já falecido].

Ousadamente, tentou sacudir a religiosidade tradicional do povo da freguesia, preocupando-se, sobretudo, em reconciliar as muitas famílias desavindas, o que para ele era essencial. Deixou de celebrar missa semanal na igeja paroquial, preferindo antes as casas das pessoas. Aí reunia toda a família, e outros que quisessem participar. No meio da refeição normal, constituída por aquilo que cada um levava, lia alguns extratos do Evangelho apropriados. Consagrava, depois, o pão e o vinho e dava a comunhão que era o momento alto da reconciliação das pessoas, umas com as outras, porque, dizia, ninguém pode estar de bem com Deus, sem estar de bem com os outros.

Nos dias de semana trabalhava como camarada de um barco e recebia o seu quinhão de peixe. Disso vivia e das aulas no Instituto dos Invisuais em Lisboa, sem levar dinheiro pelos outros serviços, prestados aos fregueses. 

Toda a gente o estimava e admirava peia sua dedicação e desprendimento que contrastava com a normalidade. Foi incompreendido pelas hierarquias do Patriarcado, acabando por sair e casar com uma professora cega, com mais três irmãos cegos que continuou a amparar.

Foi ele que me orientou. Ia para sua casa e falávamos, demoradamente. Os seus conselhos e a sua corajosa atitude ajudaram a libertar-me da indecisão.

Depois de mais uma vez regressar à Guiné, com tropas [no T/T «Niassa»], ,fiz a última viagem a Cabinda . Desembarquei e fui hospedar-me, como de costume, numa residência da instituição. Pedi a redução ao estado laical e fiquei a aguardar. 

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Embora continuasse a celebrar, recebia a visita de minha irmã, então a trabalhar no Porto e de outras raparigas, entre elas a minha futura mulher.

Esta situação deve ter chegado aos ouvidos dos Superiores Maiores, que se ofereceram para me pagar determinada quantia mensal, para alugar um quarto na cidade, se eu abandonasse, de vez, a residência.

Mal abandonei a residência, esqueceram-se da promessa e fui morar com mais três colegas, num quarto alugado. Para sobreviver, dava explicações e oito horas semanais de aulas. Em contrapartida, leguei aos meus ex-confrades as alfaias litúrgicas do Apostolado do Mar e à Igreja de Arribas do Mar, os cálices que me tinham oferecido na Missa Nova.

Casei na capela românica da Cedofeita, com a assistência apenas dos padrinhos, tal como me impôs o Bispo do Porto, em 1972. Tudo em conformidade com o 'habitus' da obediência e subordinação. A paixão é que foi transferida do simbólico para o real

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Fonte: Excertos da dissertação de mestrado do Horácio Neto Fernandes, "Francisco Caboz: do angélico ao trânsfuga, uma autobiografia". Porto: Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. 1995, pp. 133-136 (A dissertação, orientada pelo Prof Doutor Stephen R. Stoer, já falecido, está aqui disponível em formato pdf).

(Continua)

(Revisão/ fixação de texto, negritos, links, parênteses retos, título: LG)
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 18 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27748: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte IX: No BART 1913 (Catió, 1967/69): E "aos costumes disse nada", porque fora educado... na conformação

Restantes postes da série:

3 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27598: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte I: Arribas do Mar (Ribamar, Lourinhã), a família (o pai, a mãe, o avô materno)

5 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27607: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte II: A escola primária e a comunhão solene

8 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 . P27617: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte III: O nº 27, do Colégio Seráfico

17 de janeiro de 2026 Guiné 61/74 - P27642: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte IV: Vigiar e punir

20 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27651: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte V: O noviço

27 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27676: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VI: Corista de filosofia e teologia e depois padre

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27663: Notas de leitura (1888): "Porto, 1934 a Grande Exposição", por Ercílio de Azevedo; edição de autor, 2003 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 28 de Julho de 2025:

Queridos amigos,
É o primeiro grande teste do Estado Novo para exibir a gesta Imperial, seguir-se-á 1937 e uma exposição que terá lugar no Parque Eduardo VII e em 1940 a Exposição do Mundo Português é o ápice da grande nação colonial, uma das maiores potências coloniais, é o que sobrou depois das guerras da Restauração e da independência do Brasil. Escolheu-se o Porto e uma área apropriada dentro dele, o Palácio de Cristal, houve obras profundas, Henrique Galvão cuidou dos primores decorativos, o êxito foi retumbante, irá ler-se no texto o número impressionante de comboios, camionetas e automóveis envolvidos, mais de um milhão e trezentos mil visitantes. A Guiné caprichou, pela majestade do régulo Mamadu Sissé, o pintor Eduardo Malta desenhou-o e pintou-o, sente-se que o personagem o deslumbrou; a Rosinha, já noiva do régulo dos Balantas, ganhou o concurso da grande beleza, o fotógrafo Domingos Alvão não lhe regateou belas fotografias; o menino Augusto era tão cativante que até fez publicidade; e o varonil e atlético Papé morreu inesperadamente, tal como o menino Augusto faleceu com tuberculose. O Tenente Henrique Galvão foi alvo de queixas das respeitáveis senhores portuenses que consideravam inaceitável andarem para ali umas meninas pretas com o peito ao léu, elas eram a grande atração dos visitantes, os grandes dignitários do regime não deram seguimento à queixa, dizendo que não tinha pés nem cabeça pôr as meninas vestidas à europeia... a civilidade viria com o tempo. E assim foi ganho o grande teste, o Estado Novo podia orgulhar-se de ter mostrado que Portugal não era um país pequeno.

Um abraço do
Mário



A Guiné e a Primeira Exposição Colonial Portuguesa, Porto, 1934

Mário Beja Santos

Porto, 1934 a Grande Exposição, por Ercílio de Azevedo, edição de autor 2003 é uma grande angular sobre o contexto sociopolítico e cultural em que decorreu a primeira exposição colonial, mostrando igualmente acontecimentos fotográficos, jornalísticos e propagandísticos desta grande realização. Era uma grande aposta do Estado Novo a impor em plena exibição pública o sonho imperial, a grandeza do Império, a missão evangelizadora, destacar as glórias da expansão ultramarina. Crescia por toda a Europa o autoritarismo e as apetências imperiais, havia uma larga tradição de feiras universais, mas eram poucas as exibições da história Imperial. O Ministro das Colónias, Armindo Monteiro, encarregou o Tenente Henrique Galvão da tarefa de organização dos stands da exposição.

O Acto Colonial fora prolongado em 1930, Portugal era a quarta potência colonial no mundo, o artigo 2.º do Acto Colonial era explícito, declarava ser da “essência orgânica da Nação Portuguesa desempenhar a função histórica de possuir e colonizar domínios ultramarinos e de civilizar as populações indígenas”. Procurava-se igualmente ultrapassar a deficiência ou a ausência de conhecimentos sobre a realidade colonial. Era grande a aposta, Salazar era Presidente do Governo desde 11 de abril de 1933, António Ferro editava no ano seguinte um luxuoso e artístico álbum que mostrava o estado florescente da nação, o que se alterara na rede viária, na instrução, nas finanças públicas, no restauro dos monumentos, no teatro e no cinema. O autor também nos desvela a vida do Porto por esse tempo.

E temos a realização passo a passo, a apresentação da iniciativa que meteu peditórios, baile e banquete no Palácio da Bolsa. Segue-se um acervo fotográfico entre a primeira pedra e a inauguração, nesse dia não faltarão o Presidente Carmona, o Ministro dos Negócios Estrangeiros, o Ministro da Guerra, o Ministro das Colónias, o Cardeal-Patriarca. Todas as colónias têm o seu pavilhão, ocupam espaço próprio, os visitantes cedo vão ficar deslumbrados com as mulheres guineenses em tronco nu, irá ouvir-se a queixa das respeitáveis senhoras do Porto, apelos uns atrás dos outros ao Tenente Henrique Galvão para que acabe com aquele desaforo, ver os indianos como encantadores de serpentes ainda vá, mas poder ver aquelas mulheres sem vergonha era inaceitável. Galvão replicou que os indígenas estavam vestidos exatamente como viviam.

Ercílio de Azevedo vai mostrando como ao longo da exposição eram apresentados os trabalhos jornalísticos, as visitas de pompa e circunstância como a do futuro Rei Eduardo VIII de Inglaterra, mostram -se imagens das grandes paradas, não falta o grande Cortejo Colonial, participam também as gentes da metrópole, não faltarão os Pauliteiros de Miranda, o carro da Casa do Douro, as Tricanas de Coimbra. A CP promoveu excursões a preços excecionais. A exposição custou 1.500 contos e rendeu 3.500, foi visitada por um milhão e trezentas mil pessoas, movimentou 1.300 comboios, 5000 camionetas, 2000 camiões e 40.000 automóveis.

Vieram muitos indígenas ao Porto, a comitiva guineense caprichava, o seu Embaixador era o Régulo Mamadu Sissé, o seu filho Abdula era um distinto fidalgo gentílico. Os jornais noticiavam:
“Mamadu, Rei dos Mandingas desde 1913, com a sua corte em Pachisse, domina os Balantas e ganha os Galões de Alferes, submete os Bijagós. Filho espiritual de Maomé, ao nascer do sol voltado para Meca começa o reinado de cada dia. Esposado de Catarina, grande mulher, filha da linhagem do Régulo de Bissau, tem ainda outra e outra. Mas no amor do homem todas três era como se fossem uma só. Malique, filho mais velho, dos treze que são, lá ficou a governar as rudimentares relações dos súbditos com a certeza indestrutível de ter obedecido. Sem fronteiras na vontade, além do Alcorão e do respeito da soberania portuguesa, majestaticamente, Mamadu, hirto nos seus 67 anos de amor a Portugal, em magoada saudade confidencia que Folupe, centro da sua casa, da sua família e da sua corte era a sua Pátria toda.”

A Rosinha merecia todo o destaque da imprensa. Vieram autoridades galegas e condecoraram Mamadu Sissé, houve grande emoção na comitiva guineense. O Régulo que chefiava a secção indígena da Guiné era Mona Sambu, Eduardo Malta fez-lhe um desenho. Entrevistado pela imprensa, Mona Sambu revelou que era Régulo dos Balantas, já o pai desempenhara funções na polícia e acompanhara o Capitão Teixeira Pinto e Mamadu Sissé nas operações de ocupação. A Rosinha iria casar com ele.

Quem ganhou também notoriedade foi o Augusto, era o ai-jesus do público, umas vezes aparecia com o capacete colonial, houve empresas que lhe tiraram fotografias para venderem produtos. Houve igualmente acontecimentos tristes na comitiva guineense. Morreu um Bijagó vigoroso de nome Papé, era apresentado como um dos pretos mais atléticos da exposição. Na aldeia lacustre em que viviam os guineenses batucou-se, em som de luto.

Este álbum termina com uma coletânea de depoimentos revelando imagens propagandísticas de grande valor.


Quadro de Eduardo Malta mostrando o rego Mamadu Sissé e Grupo da Guiné
A dimensão do evento
Fachada da exposição, entrada do Palácio das Colónias
O famoso mapa propagandístico de Henrique Galvão, irá reaparecer com a Guerra Colonial
O comboio da exposição. Fotografia de Domingos Alvão
Interior da exposição, Nave central
"O Homem do Leme na Exposição Colonial de 1934 – Nesta exposição a escultura do Homem do Leme era em barro. Só mais tarde foi fundida e colocada em frente à praia, na Avenida de Montevideu". Do blog Do Porto e não só.
Réplica do Farol da Guia em Macau
Aldeia da Guiné
A Rosinha, mulher Balanta, ganhará o prémio da grande beleza feminina da exposição
O simpático Augusto, chegou a aparecer em anúncios de promoção tabágica, não voltou à Guiné porque morreu tuberculoso. Fotografia de Domingos Alvão
"Amélia Rey Colaço (1898-1990), no Teatro Gil Vicente na Exposição Colonial do Porto, com um vestido de António Amorim tendo ao colo o miúdo guineense Augusto. Foto Domingos Alvão, Porto Museu Nacional do Teatro".
Trabalho de Almada Negreiros alusivo à exposição do Porto
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Nota do editor

Último post da série de 19 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27650: Notas de leitura (1887): "Soldadó", de Carlos Vale Ferraz; Editorial Notícias, 1997 (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27639: Notas de leitura (1886): Notas soltas sobre a renovação do nacionalismo imperial português (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 26 de Novembro de 2025:

Queridos amigos,
Muito se tem falado sobre esta I Exposição Colonial, acabou por funcionar como o ensaio geral da Exposição do Mundo Português, pelo meio ainda se fez uma exposição no Parque Eduardo VII, nova exibição de matérias-primas e de atração aos investimentos e convocação de mão-de-obra. O evento constituiu uma declaração ideológica, Portugal assumia a sua missão civilizadora , tocava a rebate para mobilizar as almas, exaltava-se o espírito missionário, a propaganda tudo fez para mostrar que "Portugal não era um país pequeno". Ponto curioso, a presença guineense mereceu primeiro destaque, faziam-se excursões para ir ver as Bijagós em tronco nu, todo aquele exotismo encantava gente de todas as idades. O régulo Mamadu Sissé mereceu todas as honras, na pintura, na fotografia de Domingos Alvão, nos desenhos de Eduardo Malta, era a dimensão da pose de um soberano, destemido e profundamente fiel à bandeira portuguesa.

Um abraço do
Mário



Notas soltas sobre a renovação do nacionalismo imperial português

Mário Beja Santos

A I Exposição Colonial, que se realizou no Porto, em 1934, põe em prática os princípios ideológicos e programáticos do Acto Colonial de 1930, promulgado ainda durante a Ditadura Nacional, e que consagrou doutrina aceite na Monarquia Constitucional e I República, isto é, alterada a nossa presença em três continentes depois da Revolução de 1640 e com a separação do Brasil, o poder político manteve uma ideia imperial e um espírito de missão. Acresce que as decisões tomadas na Conferência de Berlim implicaram o envio de tropas, a procura de subordinação das chefaturas africanas, a atração de investimentos; a I República arrepiou caminho quanto aos critérios de missionação e ensaiou a descentralização política com a criação de altos-comissários. Salazar pôs a sua assinatura no Acto Colonial, ficou claro a subordinação das colónias aos interesses da metrópole, definiu-se a nação no desempenho da função histórica de possuir e colonizar domínios ultramarinos e de civilizar as populações indígenas; apagou-se a autonomia financeira e administrativa das colónias, estabelecendo-se critérios de rigor financeiro; com as devidas cautelas, as companhias privadas, muitas delas internacionais, perderam poderes soberanos, irá sendo a sua presença gradualmente vigiada, e no caso da Guiné serão substituídas por empresas que interessavam ao Estado fornecer matérias-primas à metrópole, será assim com a Casa Gouveia (dependente da CUF) e a Sociedade Comercial Ultramarina (associada ao Banco Nacional Ultramarino).

Em termos históricos, a Exposição Colonial do Porto deixa transparecer a renovação ideológica preconizada pelo Estado Novo. Nesta obra aqui referida, há um texto altamente sugestivo assinado por Francisco Vieira Machado, então do Governo, e mais tarde a figura de proa do Banco Nacional Ultramarino. O texto que ele deixa publicado intitula-se No Rumo do III Império:
“Há através da história de Portugal uma Ideia, ou antes, um ideal, que decerto enraíza na própria essência da alma e do carácter dos portugueses, tal é o rigor que se forma e a persistência com que renasce: o ideal da formação dos Impérios.

Esboçado e vago na organização do Infante, mais preciso sob a preciosa vontade de D. João II, ganha a primeira expressão real e perfeitamente enformada com Afonso de Albuquerque. E o primeiro esforço imperial da parte portuguesa despende-se no sonho de formação de um grande Império Asiático com guardas vigilantes em Áden, Ormuz e Malaca. Desfeito com a morte do grande político e guerreiro o plano tão audaz e inteligentemente iniciado, logo outro grande português – e esse tão desconhecido, tão caluniado, tão incompreendido por mais de três séculos de História: D. João III! – nos lança para a formação do Império Sul Africano. E do novo sonho, do novo rumo que o Ideal português procura, nasce esse portentoso Brasil, descoberto, colonizado, povoado e engrandecido por gente portuguesa.

Num vale escuro da História, invadidos nas organizações políticas e nas almas, pela ideologia de 1789, alheados do sentido da nossa grandeza e da nossa missão pelo falso esplendor de novas ideias, perdemos o Brasil e o rumo imperial da nossa nação nas Colónias.
Passam-se longas dezenas de anos – quase um século.
Uma geração de escol, que em si guardava as mais ricas virtudes de Portugal, levanta de novo a ideia colonial, lança-se para África, ocupa, pacifica e refaz e fixa as novas fronteiras imperiais.
Depois deles outros seguiram o seu esforço heroico.
E novamente o sonho do Império – desta vez o Império africano – ganha forma e encontra o velho Ideal português.
Estamos novamente no caminho do Império.”


Henrique Galvão foi mais do que o organizador da I Exposição Colonial, coube-lhe a ação de sensibilização da elite portuense para tirar partido de se ter escolhido o Porto para mostrar as gentes e as riquezas do Império. Dirá no decurso da sua exposição a estas elites que “Portugal é a quarta potência colonial do mundo, com um passado cheio de tradições, de aventura, arrojo e abnegação. Detém ainda, sob a sua soberania, vastos territórios de um património colossal.” Chama a atenção que embora em redor da Exposição Colonial tenha sido feita uma campanha de propaganda intensa, ao longo de dez meses, procurando esclarecer e despertar atenções, havia muito ainda para revelar: o que se pretendia com o certame, sabendo de antemão que a maioria das pessoas que o iriam visitar, vinham acicatados pela curiosidade, impunha-se aproveitar a oportunidade para fazer conferências, mostrar as riquezas coloniais, atrair gentes para irem até às colónias.

A Agência-Geral das Colónias, por seu turno, iria produzir documentação sobre os bravos militares, episódios da história da colonização, falar da nossa presença em todas as colónias. O objetivo primordial era formar as elites do regime e tendencialmente os investidores.

A Exposição foi um êxito e, ponto curioso, mais do que marcar presença, o que se mostrou da Guiné foi o que mais se guardou na memória e na imagem.

Henrique Galvão explica à elite comercial portuense os objetivos da I Exposição Colonial
Régulo Mamadu Sissé, um dos operacionais do Capitão Teixeira Pinto, fotografia de Domingos Alvão
Indígenas Bijagós numa das suas pirogas. Fotografia de Domingos Alvão
Um áspeto da aldeia lacustre dos Bijagós, fotografia de Domingos Alvão
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Nota do editor

Último post da série de 12 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27630: Notas de leitura (1885): "Os Có Boys (Nos Trilhos da Memória)", de Luís da Cruz Ferreira, ex-1º cabo aux enf, 2ª C/BART 6521/72 (Có, 1972/74) - Parte VIII: um quartel no coração chão mancanha (Luís Graça)