sábado, 7 de março de 2020

Guiné 61/74 - P20709: Os nossos seres, saberes e lazeres (380): A Bélgica a cores que guardo no coração, e para sempre (8) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 4 de Setembro de 2019:

Queridos amigos,
Chega de vos inundar com imagens de recordações perenes de uma Bélgica que se foi conhecendo ao longo das décadas e sobrevive na memória, tal o encanto que provocou a este viandante. A despedida começa com o agradecimento a um museu icónico, os Museus Reais de Arte e História, é-se do tempo em que se podia passar um dia inteiro entre os primitivos flamengos até Francis Bacon e Alexander Calder, havia uma passagem entre o edifício neoclássico que nos levava a um subterrâneo, para o viandante o prato de resistência era a sala Magritte, hoje tudo mudou com a criação do Museu Magritte, ali ao lado.
E pula-se um pouco pela Bélgica, lembram-se joias da arte merovíngia, a última estação fica em Ypres, palco de um dos confrontos mais sangrentos da I Guerra Mundial, há para ali um arco comemorativo com centenas de milhares de nomes, percorre-se toda esta evocação aturdido pela gente inocente que aqui desapareceu num ápice, há inúmeros cemitérios à volta da cidade. E exatamente no momento em que se escrevem estas derradeiras palavras brota a vontade de regressar a uma cidade que se ama tão profundamente e onde o tédio nunca teve a categoria de ser uma má companheira.

Um abraço do
Mário


A Bélgica a cores que guardo no coração, e para sempre (8)

Beja Santos

Considera o viandante que chegou o momento para se fazer nova pausa neste entusiasmo inquebrantável que nutre pela Bélgica, pelo seu particular afeto à cidade de Bruxelas, que calcorreou sempre com a maior das satisfações, entusiasmado pela arquitetura, pintura, escultura, livrarias de obras em segunda mão, quinquilheiros, mercados de velharias, museus, jardins e florestas. Por coincidência ou não, uma boa parte das primeiras visitas de trabalho a Bruxelas metia mau tempo, o viandante procurou os mais convenientes portos de abrigo, aquilo que se tornou inesquecível, de retorno obrigatório, são os Museus Reais de Belas-Artes, ali, na sequência histórica das salas, com temporais e neve nas ruas, sentia-se aconchegado pelos primitivos flamengos, o museu é rico nos grandes mestres como Rogier van der Weyden, Hugo van der Goes, Hans Memling, a família Bruegel, Bosch. Naquele tempo, o museu avançava até à arte moderna, só muito mais tarde, com a criação do Museu Magritte, que lhe é contíguo, é que se deu a separação. De modo que, foram décadas em que o viandante começava nos primitivos flamengos e passeava-se toda a manhã até ao fim do barroco. Comida uma sopa e uma sandes acabava-se os séculos XIX e XX, contemplava-se sempre com a maior das admirações o riquíssimo acervo não só dos belgas como os franceses, tudo bem misturado: Théo van Rysselberghe, van Gogh, Fernand Khnopff, Pierre Bonnard, Paul Signac, James Ensor, Félicien Rops, Claude Monet.

Retrato de António da Borgonha, Rogier van der Weyden, cerca de 1430.

Retrato de Barbara van Vlaendenbergh, por Hans Memling, cerca de 1480.

“Carícias”, por Fernand Khnopff, 1896.

O retrato de Marguerite, por Fernand Khnopff, 1887.

O Museu de Arte Moderna fora inaugurado em 1984, entrava-se pelos Museus Reais, pela porta principal e à direita havia uma ligação para um edifício subterrâneo com oito níveis e com uma luz espantosa, dado um espaço ondulado em vidro. Exibiam-se então as coleções permanentes de esculturas, pinturas e desenhos do limiar do século XX até quase à atualidade, nesses sucessivos níveis, o visitante tinha acesso à arte conceptual e minimalista, a esculturas de diferentes épocas e de muitas proveniências, mergulhava, a outro nível, nas obras do fauvismo, cubismo, abstracionismo e expressionismo, era um nunca mais acabar de revelações: Emil Nolde, Pablo Picasso, Henri Matisse, Georges Braque, entre tantos outros. Nesse tempo havia a sala Georgette et René Magritte, um conjunto de vinte e seis telas, a visita era sempre obrigatória a este nível, sobretudo por causa do quadro “O Império das Luzes”. Tudo mudou com a criação do Museu Magritte, mudou o formato do Museu de Arte Moderna. As exposições de caráter mundial atraem multidões que extravasam os belgas.

Museu de Arte Moderna, Bruxelas, pormenor do exterior.

A Banhista, de Léon Spilliaert, 1910.

O império das luzes, por René Magritte, 1954.

Um quadro de Marc Chagall na retrospetiva que decorreu nos Museus Reais de Belas-Artes em 2015.

Saindo das recordações de Bruxelas, a memória salta para Namur, têm sido muitas as visitas, é o privilégio de ali ter uma amiga que o recebe sempre de braços abertos. Namur é a capital da Valónia e acolhe um património artístico fora de série. Os merovíngios foram fundamentais para consolidar o cristianismo na Bélgica, o viandante sempre que pode vai visitar estas peças encantadoras, verdadeiras joias da arte ocidental. A coroa relicário, como se acreditava, conteria espinhos da coroa de Cristo, foi oferecida por um regente do império bizantino a Filipe de Namur, no início do século XIII.

A coroa relicário de Filipe, O Nobre, Museu Diocesano de Namur.

Pequeno relicário merovíngio de Andenne, Museu Diocesano de Namur.

Em dado momento um grande amigo inglês pediu ao viandante se podia ir a Ypres, a certo cemitério fotografar duas lápides, ali estavam sepultados dois parentes que tombaram numa das mais sangrentas batalhas da I Guerra Mundial. O viandante deslocou-se a Ypres com um casal amigo, ficou arrepiado com o monumento comemorativo às centenas de milhares de mortos dessa carnificina, com algum trabalho atinou com as lápides e fotografou-as. Ypres é uma joia da Flandres, vê-se à vista desarmada que este mercado teve grandes retoques, mas é de uma imponência sem rival, tem a marca de água do gótico. E aqui se finalizam, até qualquer outro imprevisível retorno, as recordações da Bélgica, que acompanharão o viandante até ao fim dos seus dias.

O Mercado dos Têxteis de Ypres, reconstrução finalizada em 1967.
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Nota do editor

Último poste da série de 29 de fevereiro de 2020 > Guiné 61/74 - P20694: Os nossos seres, saberes e lazeres (379): A Bélgica a cores que guardo no coração, e para sempre (7) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P20708: (D)o outro lado do combate (58): memórias do militante do PAIGC , Inácio Soares de Carvalho, cabo-verdiano, funcionário do BNU - Banco Nacional Ultramarino, em Bissau, detido pela PIDE em 1962, em seguida deportado para o Tarrafal, donde regressa em 1965, sendo colocado na Ilha das Galinhas... Liberto em 1967, é de novo preso em 1972 e 1973... Regressa à sua terra natal, em finais de 1970, afastando-se da vida política ativa... Morreu em 1994 - Parte V (Carlos de Carvalho, Praia, Santiago, CV)


Inácio Soares de Carvalho [Naci, Nacy iu
Nassi Camará][, foto: aqruivo da família

Rafael Barbosa [Zain Lopes] [, foto de Leopoldo Amado,
Bissau, 1989]


Com a prisão de ambos, em narço de 1962, o PAI / PAIGC fica decapitado, na Zona 0 (Bissau) (*). Ao Naci Camará foi "fixada residência" bo Campo de Chão Bom, Tarrafal, Santiago, Cabo Verde.  Zain Lopes ficou em Bissau, com a "obrigação" de se apresentar todos os dias na sede da PIDE...



Carta de Amílcar Cabral para Nacy [Nassi ou Naci...] Camará, com data de 1 de abril de 1962,  reagindo com muita emoção à notícia da prisão de Rafael Barbosa [Zain Lopes] e outros dirigentes do PAI [PAIGC] da Zona 0 [Bissau]... e dando instruções aos militantes que escaparam...

O destinatário, o Inácio Soares de Carvalho,  já não chegaria a ler esta carta, uma vez que também ele caira, quinze dias antes, em 15/3/1962, nas mãos da PIDE...  Foi um duríssimo para Amílcar Cabral e par o seu partido, o PAI / PAIGC, que ficou decapitado, pelo menos na Zona 0 (Bissau) (**). Rafael Barbosa era o presidente do comité central, e figura de prestígio entre os mais jovens.

De entre as 10 ações que o secretário-geral, a partir de Conacri, preconiza, destaque para a nº 5:

"Levar o povo - todos os trabalhadores de todos os ramos -  a não fazer nada para os portugueses, a nºao trabalhar, a não pagar impostos, a desprezar os colonialistas. Começar a matar os agentes da PIDE. (sic")

Citação:
(1962), Sem Título, Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_37408 (2020-3-6) (Com a devida vénia...)


Fonte:
Portal Casa Comum
Instituição:
Fundação Mário Soares
Pasta: 04609.055.004
Assunto: Notícias sobre a prisão de Zain Lopes , Momo e Albino. 
Instruções em relação à prisão dos referidos camaradas.
Remetente: Amílcar Cabral
Destinatário: Nacy Camara
Data: Domingo, 1 de Abril de 1962
Observações: Doc. incluído no dossier intitulado Correspondência dactilografada 1962-1964.
Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral


1. Recorde-se o que escreveu aqui  Leopoldo Amado (, historiador e nosso grã-tabanqueiro: tem 86 referências no nosso blogue, )  a propósito destes acontecimentos de março de 1962, que foram um duro revés para o PAI (sigla reformulada em finais de1962, em que passou a ser PAIGC)(**):

(...) "O estabelecimento da sede do PAI em Bissalanca data de 1959, tendo funcionado até Fevereiro de 1962, altura [, na madrugada do dia 13 de março de 1962,] em que foi detectada e tomada de assalto pela PIDE com a ajuda de elementos do Exército português, tendo aí sido presos Rafael Barbosa, Momo Turé, Paulo Pereira de Jesus e outros elementos proeminentes do PAI surpreendidos em pleno sono. 

"Com a sede do PAIGC tomada de assalto pela PIDE e preso Rafael Barbosa, seu principal animador, foi desmantelada a rede clandestina do PAIGC em Bissau. 

"A alguns nacionalistas foram fixadas residência em Chão Bom, Tarrafal, excepto Rafael Barbosa que a troco de "colaboração", foi-lhe fixada a obrigatoriedade de se apresentar todos os dias na sede da PIDE em Bissau. Foi apreendido na sede do PAIGC imenso material de propaganda que incluía inúmeros panfletos, correspondências de Amílcar Cabral, para além de armas." (...)

Muitos destes factos, que hoje pertencem à Hustória dos nossos países (Portugal, Guiné-Bissau, Cabo Verde),  são, ainda desconhecidos da grande maioria dos nossos leitores.


2. Continuação da publicação de excertos do manuscrito   "Memórias da Luta Clandestina" (entretanto publicado, na Praia, capital de Cabo Verde,e lançado, no passado dia 30 de janeiro) (***). A reprodução desses excertos, no nosso blogue,  foi-nos devidamente autorizada por Carlos de Carvalho, filho de Inácio Soares de Carvalho. 



 Inácio Soares de Carvalho (1916-1994)

Nasceu na Praia em 29 de Abril de 1916. Foi em criança para a Guiné com os pais. No seu tempo haveria 1700 cabo-verdianos no território, muitos deles tendo posições de destaque na vida económica, social, cultural e político-administrativa da colónia portuguesa. Trabalhou no BNU - Banco Nacional Ultramarino, em Bissau, desde 1939, até ser detido pela PIDE em 15/3/1962. 

Envolveu-se na luta política, filiando-se em 1956 no MLG – Movimento para Libertação da Guiné, por influência do seu compadre e colega de Abílio Duarte.

 Inácio Soares de Carvalho, que nunca viveu na clandestinidade, contrariamente ao Rafael Barbosa, será preso pela primeira vez pela PIDE, na filial do  BNU em Bissau, onde trabahava há mais de duas dezenas de anos.  É então deportado,  para o Tarrafal (, a partir da Ilha das Galinhas), aonde chega no início de setembro de 1962, numa leva de 100 presos, guineenses. Três anos depois, em 16/10/1965 e transferido para colónia penal da ilha das Galinhas, no arquipélago dos Bijagós.

Em 7/2/1967, é solto, pela primeira vez. Em 1972 e 1973, volta a passar pela experiência da prisão, em Bissau, até conhecer a liberdade definitiva com o 25 de Abril de 1974.  Há uma escassa meia dúzia de documentos no Arquivo Amílcar Cabral com o seu "nome de guerra", Nassi ou Naci ou Nacy Camará. 

Pertencia à "secção de informação e controle" do PAI (sigla original do PAIGC)  em Bissau, ele e o Rafael Barbosa (c. 1926-2007), reportanto diretamente a Amílcar Cabral, que vivia em Conacri. Em outubro de 1961, Rafael Barbosa, de etnia papel (, Zain Lopes, na clandestinidade), é nomeado Presidente do Comité Central do PAIGC. 

Nos final dos anos setenta, Inácio Soares de Caravalho regressa à sua terra natal, Praia, Cabo Verde, e afasta-se praticamente da vida política activa. Vem a falecer em dezembro de 1994, sem ter visto publicadas as suas memórias políticas que comecçou a escrever, "após incessantes insistências dos filhos", e que deu por concluídas em 1992. "Nelas o autor narra factos novos, desconhecidos da maioria dos militantes, pois, infelizmente, poucos foram os combatentes da clandestinidade, sobretudo na Guiné, que deixaram escritos sobre essa vertente da luta protagonizada pelo PAIGC." (Informações biográficas fornecidas pelo filho, Carlos de Carvalho, nascido na Guiné, complementadas por LG.)

É possível haver um lançamento do livro em Lisboa. Em Cabo Verde, a edição é de autor e teve vários patrocínios.


3. Excertos do livro "Memórias da Luta Clandestina" - Parte IV (*)

(Continuação) 

A PIDE descobre a Base do Partido na Zona 0  (**)


No dia 11 de Março de 1962, um domingo, o Pedro Ramos  teve a ousadia e o descuido de nos introduzir na Base o seu colega e amigo de infância, Carlos, mais conhecido por “Cacai Boca”. Esse facto acabou por constituir nossa desgraça.

Efectivamente, após o "Cacai" ter saído da Base, a sua primeira preocupação, como um “Bom Português”, foi dirigir-se imediatamente ao nosso inimigo e denunciar-nos. Estamos todos certos de ter sido ele, pois, tendo saído da Base no Domingo, 11, logo na madrugada do dia 13, terça-feira, surpreenderam Rafael Barbosa, Pedro Ramos, Momo Turé, Paulo Pereira de Jesus e Jorge da Silva, proprietário do lugar onde tínhamos instalada a Base. Pedro Ramos conseguiu fugir, dando um forte golpe a um soldado que o tinha segurado. Os outros foram todos presos e levados para a cadeia. 

Pedro Ramos conseguiu ainda alertar o Albino Sampa que dormia numa casa que se situava um pouco mais afastada. Assim, os dois conseguiram fugir, tentando nessa mesma madrugada me contactar, o que era obviamente impossível. Quando amanheceu, logo cedo, apareceu em minha casa um jovem a dar-me a triste noticia de que prenderam o Rafael [Barbosa] e os outros colegas que dormiam com ele na Base.

No dia 13, cerca das 9 horas da noite, apareceram-me lá em casa o Albino Sampa e o Pedro Ramos. Com a porta fechada e a minha mulher de vigilância durante todo o tempo em que estivemos reunidos, contaram-me então como tudo se passou e começamos a buscar soluções para sairmos da situação difícil em que nos encontrávamos.

[...] Aproveitei para fazer um comunicado para o nosso Líder, narrando-lhe os últimos factos ocorridos; determinei também que avisassem todos os responsáveis e militantes para retirarem imediatamente para fora das fronteiras da Guiné, porque cedo ou tarde a PIDE chegaria a eles também; caso fossem apanhados, seriam barbaramente maltratados e estariam na contingência de perderem a vida. Esta minha decisão, enquanto Responsável de Segurança, era para evitar todo o mal que podia vir a acontecer. Também aproveitei para lhes dar um pouco de dinheiro para as despesas que teriam na fuga.


A terceira leva de prisão de dirigentes 


Foram presos o Menezes [Alfredo Menezes d’Alva] e o João Barbosa, primo do Rafael; poucos dias depois, levaram o Rosendo. 

Com estas prisões, tudo paralisou de novo, pois, os três companheiros presos tinham muita influência no desenrolar de nossa luta clandestina. Como devem compreender, eu estava mesmo desesperado e desanimado com a situação.

No dia seguinte às prisões, fui ter com a D. Irene [Fortes, esposa do Fernando Fortes ] e contei-lhe o sucedido, mas ela notou na minha cara que mesmo eu mostrava desânimo com o acontecido. Ela então com gesto de coragem falou comigo de forma brusca:

- O Sr. Inácio tem que ter coragem e saber enfrentar todos obstáculos que nos depararem.

Amigos, quando uma mulher diz a um homem assim, por mais fraco de espírito que fosse, teria que ter coragem e reagir. Depois de contar ao Rafael a conversa que tive com a D. Irene, ele então como homem decidido disse-me que realmente é assim mesmo que tem de ser, é preciso não desencorajar, nem desanimar; a luta é assim mesmo.

Dali então, ainda mais encorajado, me empenhei totalmente para o desenvolvimento de nosso trabalho, contando sempre com o firme apoio dessa mulher que,  mesmo tendo seu marido preso, nunca se desencorajou. Foi seguramente das primeiras firmes e corajosas mulheres que desde a primeira hora incorporou os ideais de nossa luta de libertação. Ela, por seu lado, enquanto o marido esteve preso, teve sempre o apoio e encorajamento de seu cunhado, o Alfredo Fortes [1].

Tendo encontrado o lugar seguro e dava-nos grande confiança.


A primeira prisão de Nassi Camara 


No dia 15 [de março de 1962], antes das 8 horas da manhã, apareceram dois agentes da PIDE na Gerência do Banco [, BNU]. Esses agentes foram falar com o nosso Gerente, Sr. Arruda, a explicar-lhe que foram à minha procura, mandados por um Inspector da PIDE, o Costa Pereira. 

O Gerente mandou-me chamar com o Saco Cassama, servente do Banco. Ao passar pela secção das Correspondências, ele alertou-me que estavam lá dois brancos que lhe parecia que eram agentes da PIDE. Quando me apresentei ao Gerente Arruda, ele apontou-me os dois homens,  dizendo que precisavam de mim. Estes convidaram-me para os acompanhar.

[...] Assim foi a minha primeira prisão, no dia 15 de Março de 1962, uma 5ª feira.


1ª passagem pela Ilha das Galinhas 


Na madrugada de 1 de setembro[de 1962], foram buscar-nos em Mansoa para levar à ilha das Galinhas.

Via João Landim [, no rio Mansoa,] , fomos levados no porão do barco "Formosa". Chegamos à ilha das Galinhas cerca das 16 horas. De seguida, fomos levados para o acampamento, onde já se encontravam outros presos oriundos da Zona Sul.

Na noite de 1 de setembro, dormimos todos nós presos concentrados num pavilhão grande. Naquela noite tiraram dois irmãos e foram matá-los a tiro. Só nós, que vivemos na pele as atrocidades cometidas pelos salazaristas, podemos contar o sofrimento que passamos, nessa altura da luta.


Da ilha das Galinhas para destino desconhecido


No dia 2 de setembro, de manhã cedo, tiraram-nos num total de 100 presos e encaminharam-nos para o Porto da Ilha das Galinhas, onde tínhamos desembarcado no dia anterior; meteram-nos no porão do mesmo barco "Formosa", com o rumo à Estação de Pilotos em Pontom; de seguida, meteram-nos no porão do vapor "África Ocidental! com destino desconhecido por nós. 

Só viemos a saber onde estávamos quando chegamos ao Porto do Tarrafal [, em Santiago, Cabo Verde] onde nos mandaram sair de porão como animais de carga. Passamos muito mal durante todo o caminho. 

[Revisão / fixação de texto, para efeitos de edição neste blogue: LG]

(Continua)
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Nota de Carlos de Carvalho

[1] Alfredo Fortes, natural da Ilha de S. Vicente, Cabo Verde, era na altura Chefe da Alfândega de Bissau. Na Guiné, foi também Presidente do grande clube desportivo UDIB (União Desportiva Internacional de Bissau).

Após a independência, desempenhou as funções de Embaixador de Cabo Verde na Holanda. Foi Deputado pelo MpD [Movimento para a Democracia] na II República. Morreu na sua ilha natal nos anos 90.
________________

Nota do editor:

(*) Listagem das zonas do PAIGC (cada uma com o seu responsável):  Zona 0 - Bissau; Zona 1 - S. Domingos; Zona 2 - Farim; Zona 3 - Gabú Norte; Zona 5 - Gabú Sul; Zona 6 - Bafatá Norte; Zona 7 - Bafatá Sul; Zona 8 - Fulacunda; Zona 9 - Bissorã; Zona 10 - Cantchungo; Zona 11 - Bedanda; Zona 12 - Bijagós; Zona A - A determinar (Documento manuscrito, s/d, Arquivo Amílcar Cabral / Casa  Comum / Fundação Mário Soares)

(**) Vd, poste de 25 de fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - P569: Simbologia de Pindjiguiti na óptica libertária da Guiné-Bissau (Leopoldo Amado) - II Parte

(***) Vd. postes anteriores da série >

5 de março de 2020 > Guiné 61/74 - P20705: (D)o outro lado do combate (57): memórias do militante do PAIGC , Inácio Soares de Carvalho, cabo-verdiano, funcionário do BNU - Banco Nacional Ultramarino, em Bissau, detido pela PIDE em 1962, em seguida deportado para o Tarrafal, donde regressa em 1965, sendo colocado na Ilha das Galinhas... Liberto em 1967, é de novo preso em 1972 e 1973... Regressa à sua terra natal, em finais de 1970, afastando-se da vida política ativa... Morreu em 1994 - Parte IV (Carlos de Carvalho, Praia, Santiago, CV)

3 de março de 2020 > Guiné 61/74 - P20701: (D)o outro lado do combate (56): memórias do militante do PAIGC , Inácio Soares de Carvalho, cabo-verdiano, funcionário do BNU - Banco Nacional Ultramarino, em Bissau, detido pela PIDE em 1962, em seguida deportado para o Tarrafal, donde regressa em 1965, sendo colocado na Ilha das Galinhas... Liberto em 1967, é de novo preso em 1972 e 1973... Regressa à sua terra natal, em finais de 1970, afastando-se da vida política ativa... Morreu em 1994 - Parte III (Carlos de Carvalho, Praia, Santiago, CV)

2 de março de 2020 > Guiné 61/74 - P20698: (D)o outro lado do combate (55): memórias do militante do PAIGC , Inácio Soares de Carvalho, cabo-verdiano, funcionário do BNU - Banco Nacional Ultramarino, em Bissau, detido pela PIDE em 1962, em seguida deportado para o Tarrafal, donde regressa em 1965, sendo colocado na Ilha das Galinhas... Liberto em 1967, é de novo preso em 1972 e 1973... Regressa à sua terra natal, em finais de 1970, afastando-se da vida política ativa... Morreu em 1994 - Parte II (Carlos de Carvalho, Praia, Santiago, CV)

29 de fevereiro de 2020 > Guiné 61/74 - P20695: (D)o outro lado do combate (54): memórias do militante do PAIGC , Inácio Soares de Carvalho, cabo-verdiano, funcionário do BNU - Banco Nacional Ultramarino, em Bissau, detido pela PIDE em 1962, em seguida deportado para o Tarrafal, donde regressa em 1965, sendo colocado na Ilha das Galinhas... Liberto em 1967, é de novo preso em 1972 e 1973... Regressa à sua terra natal, em finais de 1970, afastando-se da vida política ativa... Morreu em 1994 - Parte I (Carlos de Carvalho, Praia, Santiago, CV)

sexta-feira, 6 de março de 2020

Guiné 61/74 - P20707: Notas de leitura (1270): Missão cumprida… e a que vamos cumprindo, história do BCAV 490 em verso, por Santos Andrade (48) (Mário Beja Santos)



1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Outubro de 2019:

Queridos amigos,
O bardo já está em jeito de despedida, recapitula coisas que todos nós vivemos, como a chegada do correio, as obras nos destacamentos, a pulsão sexual e a chegada daqueles meninos que hoje são gente crescida e procuram o pai.
É o momento azado para pegar na "Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África" e enquadrar a estratégia militar, a atividade operacional, a ação psicossocial, a formação de tropas nativas, entre outros aspetos. Recordo-me de quando cheguei em finais de julho de 1968, vivia-se a euforia dos novos tempos, criticava-se asperamente o passado, agora é que era, íamos ter guerra a sério, os oficiais incompetentes já estavam a ser recambiados, o homem providencial visitava ao amanhecer os aquartelamentos, inteirava-se das dificuldades e exigia mudanças. Saberemos mais tarde que exarou um lote de instruções, introduzia mudanças. O homem providencial, como é de todos sabido, foi valeroso, mediático, avergou imensa esperança, isto enquanto o PAIGC era confrontado com os novos instrumentos da "Guiné melhor" e com aquela incómoda referência até aí esbatida, da existência de uma raiva surda entre guineenses e cabo-verdianos. E ao longo destas décadas tem sido possível, por múltiplos fatores, deixar no limbo, apoucar, denegrir, culpabilizar Louro de Sousa e Schulz pelo estado em que Spínola encontrou a Guiné quando aqui chegou, em maio de 1968.
Felizmente que as fontes falam, são papéis que precisam de ser lidos com equidistância. E ainda estamos no princípio de se chegar a uma outra visão prismática de como foi conduzida a guerra de 1963 a 1968. Recordo que ainda estão por consultar os arquivos do Ministério do Ultramar e do Ministério da Defesa Nacional. É bem possível que outro galo venha a cantar.

Um abraço do
Mário


Missão cumprida… e a que vamos cumprindo (48)

Beja Santos

“Para a avioneta aterrar
trabalhava-se com resignação.
Quando o correio se esperava,
às vezes não vinha avião.

Enquanto estivemos aquartelados,
nos arredores de Farim,
passou-se o bom e o ruim
mas hoje estamos descansados.
Houve o regresso de uns refugiados
e o chefe dos CTT se deixou apanhar.
Depois de muito se lutar,
Canjambari se ocupou
e uma pista se arranjou
para a avioneta aterrar.

Na piscina de Farim se ia nadar
e ia-se dançar na Morocunda e Nema
e de vez em quando se via cinema
e a Kadi se ia visitar.
Bichas se chegaram a formar
e uma teve um filho do Batalhão.
Ficou-nos de recordação
os bons e maus tempos passados
no mato contra os malvados
trabalhava-se com resignação.

O pão em Jumbembem era jogado
a qualquer hora do dia
e muitas vezes caía
fora do sítio marcado.
O correio também era lançado
e às mãos dos rapazes chegava.
Uma vez um saco se desatava
e o correio se espalhou,
e muita desilusão se passou
quando o correio se esperava.

Uma vez fomos visitados
pela RTP e Emissora Nacional,
vieram de Portugal Continental
para sermos entrevistados.
Contámos-lhes os factos passados,
durante esta missão.
Passámos muita preocupação
com coisas de diligência,
e esperando sempre correspondência,
às vezes não vinha avião.”

********************

O bardo recapitula nestes versos episódios que se tornarão recorrentes para outras unidades militares, seja qual for o teatro de operações nas três colónias em guerra: a espera ansiosa do correio, a reocupação de tabancas que irão ficar em autodefesa ou conjugadas com destacamentos; a vida sexual espúria, de que irão resultar aqueles filhos que continuam à procura do seu pai; as emissões radiofónicas e televisivas que culminavam, tantas vezes, com uma frase que ficou icónica: “adeus, até ao meu regresso”.

Impõe-se consultar a “Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África”, procurar escavar e apurar alguns dados elementares da evolução do conflito. Seria redundante, meramente repetitivo, matraquear o leitor com a caraterização do território, o surto da luta nacionalista, como se afirmou o PAIGC e foi anulando toda e qualquer forma de concorrência. Igualmente o leitor já possui um enquadramento dos efetivos e qual o dispositivo das nossas tropas até ao início de 1963. Fizeram bem os organizadores desta Resenha em referir o que se sabia e como se procurava agir a partir de Lisboa para sustar as ondas de guerrilha. Os efetivos foram crescendo até 1963, em março desse ano é estatuída a Carta de Comando para o Comandante-Chefe das Forças Armadas da Guiné, o Sul já está em polvorosa, e no terreno não se faz a menor ideia como será possível ir dispondo o dispositivo, responde-se à bolina, praticamente em cima dos acontecimentos, chegam as informações em catadupa das populações em fuga, de incêndios, de toda a sorte de destruições. O PAIGC procura instalar-se no Quitafine e no Cantanhez. Regista-se nesta atividade operacional que em fevereiro de 1963 já se patrulha entre o Poindom e Ponta Varela, houve uma batida de Enxalé ao Saltinho, população Fula acompanhou o destacamento militar. Há ocorrências ao norte de Cacheu, o aquartelamento de Bigene é atacado em maio, a região do Xime está manifestamente em pé de guerra em meados desse ano, atacam-se embarcações no Corubal.

Brigadeiro Louro de Sousa
O que os documentos revelam é que o Comandante-Chefe reage em cima dos acontecimentos, produz Directivas a partir de abril que são verdadeiramente concomitantes com os focos de sublevação, impossível que o teor destas Directivas, aliás comunicadas para o Ministro da Defesa, não correspondessem a um acompanhamento da evolução da guerra. No segundo semestre de 1963, a guerrilha está presente no Norte, em Fajonquito, mas também no Oio e no Morés, de que resta uma fotografia do Brigadeiro Louro de Sousa com o Comandante e militares do BCAV 490, no Morés, a bandeira portuguesa está hasteada. Em outubro, o Ministro da Defesa, o General Gomes de Araújo, visitou a Guiné, o mau tempo impede certas deslocações, revela-se devidamente informado e pelo menos não ficou registado ter havido quaisquer discordâncias quanto ao seguimento das atividades operacionais. No final do ano, a Diretiva N.º 7 do Comandante-Chefe não ilude o que se está a passar: o PAIGC alcançou o controlo efetivo de regiões preponderantes do Sul, criou insegurança no Centro e já mantinha o controlo das duas margens do rio Corubal; o aliciamento de uma parte da população parecia inevitável; havia críticas à condução da guerra, como ficou escrito:
“A maioria dos órgãos de Comando não faz um planeamento cuidado das operações e não lhes dão continuidade lógica. Verifica-se que a execução das operações depara sempre com dificuldades várias e que o impulso inicial se vai perdendo. (…) A missão tem que ser cumprida até ao fim e, por isso, permitir que as tropas desistam durante a acção conduz ao abandono e à desmoralização”.

A informação que seguiu também para Lisboa clamava por mais efetivos, e falando do futuro apareciam como missões fundamentais a preocupação de evitar e impedir infiltrações em todas as fronteiras, a necessidade de atuar sobre as linhas inimigas do reabastecimento, procurar isolar o inimigo da parte não subvertida da população, intensificar a vigilância dos rios, entre outras. Nesse mesmo mês de dezembro, a Defesa Nacional comunica a necessidade de efetuar uma operação de limpeza e ocupação do Como, assim nasceu a “Tridente”, que já fora prevista em agosto por Louro de Sousa. Nas vésperas de Natal, a Diretiva N.º 8 esboça detalhadamente aquela que será a maior operação conjugada dos três ramos das Forças Armadas no decurso da guerra.


Quando certos autores apoucam as medidas de política seguidas por estes comandantes que antecederam Spínola, acusando-os mesmo de não terem uma visão nítida para a ação psicossocial, seguramente que não consultaram os documentos que começaram a ser emanados a partir de setembro de 1963. São de inegável importância para se entender a lógica que se pretendia imprimir para a autodefesa das populações e quais as etnias com que se podia contar.

A Resenha dá conta da nova organização militar do PAIGC, à luz das decisões tomadas no Congresso de Cassacá. O PAIGC incrementou a sua atividade, havia cada vez mais material bélico, cresciam os eixos de infiltração. O efetivo das nossas tropas aproximava-se no início de 1964 dos dez mil militares, em meados do ano formavam-se Companhias de Milícias e iniciou-se o primeiro curso de Comandos, dele saíram os grupos de Comandos “Os Camaleões”, “Os Panteras”, e “Os Fantasmas”. No vasto elenco da atividade operacional, encontramos ações do PAIGC e operações das nossas tropas, logo a partir do início de janeiro. Rafael Barbosa que fugira com Constantino Teixeira e outros quadros do PAIGC em 9 de janeiro, foi capturado no dia 12. Nos bairros de Bissau sucedem-se as rusgas. Mas é a Operação Tridente que vai ter a fatia de leão na documentação carreada. Em fevereiro desse ano, o Ministro da Defesa Nacional envia uma Instrução Pessoal e Secreta destinada ao Comandante-Chefe, não há ilusões sobre o aumento da capacidade ofensiva do PAIGC, a tentativa de extensão da guerrilha, toma-se a sua presença na região de Xime - Ponta do Inglês como perigosa, pois facilitaria a ligação entre as guerrilhas que atuam no Sul e no Oio. Envia o Ministro as suas prioridades e adverte que a Metrópole não pode aumentar indefinidamente os efetivos e outros meios, são feitas sugestões para a remodelação do dispositivo.

E o documento termina de forma eloquente, o Ministro recorda uma reunião havida em Bissau em 14 de janeiro de 1964:
“As guerras só se ganham com a eliminação física ou moral do inimigo. Ora se essa eliminação, mesmo com um inimigo que não fuja ao contacto, só se consegue pelo seu envolvimento, fruto da manobra, com mais forte razão esta é essencial na guerra do tipo da que fazemos, em que o inimigo evita o contacto”.
Gen Arnaldo Schulz
E deixa bem claro que a informação é pedra angular da manobra. As chamadas forças de reserva deviam ser entendidas como forças permanentemente em operações, fossem caçadores ou fuzileiros especiais, não deviam permanecer em Bissau à espera dos acontecimentos. Prosseguem as Directivas e as Ordens de Operações, em maio é reconhecido o alargamento da área das atividades do PAIGC, este avançava perigosamente em direção à povoação de Geba. É decidido ocupar Sangonhá, Cacoca e Cameconde, a fim de dar continuidade à progressão para sul e estabelecer ligação com Cacine. Nesta documentação fala-se explicitamente do BCAV 490, a quem cabe assegurar a ocupação territorial e controlo da sua área de responsabilidades, apoiado na população fiel do Leste, em ligação com o BCAÇ 506, segundo os eixos Cambajú - Sitató – Cuntima e Canhamina - Canjambari - Jumbembem; e posteriormente entre a linha Farim - Cuntima e o rio Cacheu. A última Directiva de Louro de Sousa data de 9 de maio, prende-se com a proteção de Bissau, é estabelecida a manobra. Em maio, mais adiante, chega Arnaldo Schulz. A atividade operacional do primeiro semestre espelha a extensão da guerra e não ilude as dificuldades postas às forças portuguesas para coordenar os diferentes Sectores, permanentemente sacudidos por intervenções da guerrilha.

O segundo semestre decorre já sobre a égide de Schulz, elencam-se operações na região de Bissau, Bula, Mansoa, o Oio e o Morés estavam ativíssimos, não obstante as nossas tropas iam destruindo acampamentos e casas; é uma atividade operacional que se estende a Farim, a Bafatá, Buba, Catió e Tite, parece imperar um novo fogo. Surgem novos documentos para a ação psicológica, dão-se instruções para a colaboração dos nativos nas operações militares, estabelecem-se normas para a atribuição de prémios pela captura de material ou inimigo. A Resenha dá-nos em final de 1964 a relação das unidades presentes na Guiné e como se posicionam. Neste momento, a Guiné dispõe de um total estimado superior a quinze mil militares.
Veremos agora o que nos reserva 1965.

(continua)
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Notas do editor

Poste anterior de 28 de fevereiro de 2020 > Guiné 61/74 - P20691: Notas de leitura (1268): Missão cumprida… e a que vamos cumprindo, história do BCAV 490 em verso, por Santos Andrade (47) (Mário Beja Santos)

Último poste da série de 2 de março de 2020 > Guiné 61/74 - P20700: Notas de leitura (1269): “Autópsia de um Mar de Ruínas”, por João de Melo, 9.ª edição reescrita pelo autor; Publicações Dom Quixote, 2017 (2) (Mário Beja Santos)

quinta-feira, 5 de março de 2020

Guiné 61/74 - P20706: Memórias ao acaso (Miguel Rocha, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 2367/BCAÇ 2845) (4): Alcunhas

Foto n.º 1 > Soldado Ribeiro, o "Perna Facaia"

Foto n.º 2 > Soldado Toninho,  o "Senhor Doutor"

Foto n.º 3 > 1.º Cabo Bento,  o "Mal disposto"

Foto n.º 4 > Soldado Sá,  o "Capilé"

Foto n.º 5 > Soldado Dias, o "Padeiro"

Foto n.º 6 > Soldado Sousa, o "Simpático"

Guiné > Região do Oio > CCAÇ 2367/BCAÇ 2845, "Os Vampiros" (Olossato, Teixeira Pinto e Cacheu, 1968/70) > Miliares do pelotão do alf mil Miguel Rocha e respetivas alcunhas...

Fotos (e legendas): © Miguel Rocha (2020). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Mais uma crónica do nosso camarada Miguel Rocha, ex-Alf Mil Inf.ª da CCAÇ 2367/BCAÇ 2845, "Os Vampiros" (Olossato, Teixeira Pinto e Cacheu, 1968/70):


MEMÓRIAS AO ACASO

04 - ALCUNHAS

As alcunhas, fruto duma criativa espontaneidade, eram servidas sem luvas e sem bandeja aos seus forçados titulares, num misto de picardia e natural bonomia. O nível de aceitação por parte dos visados era elevado dada a reciprocidade vigente!

Umas vincavam características de personalidade, quer por excesso, quer por antítese, outras visavam a oralidade, tanto nos seus regionalismos como no grau de dificuldade de expressão.

As profissões civis, bem como as funções militares, e ainda um ou outro episódio mais burlesco ocorrido já no teatro de guerra, eram farta e garantida sementeira para elas. Colavam-se-lhes à pele de forma indelével, substituindo no nosso registo de memória o nome e apelido do visado.

Do meu pelotão, recorrendo ao meu álbum de guerra e mais uma vez às fotos do meu aniversário (13.02.69), recordo com muito carinho as seguintes:

"TATIBITILÉ" - Pela forma titubeante como se expressava.
"PERNA FACAIA"- Argumento que usava para pedir escusa de operações.
"SIMPÁTICO" - Pura antítese.
"GÉMEO" - Por ter o seu irmão gémeo na Guiné.
"CUBA" - Por bem "decilitrar".
"MAL DISPOSTO" - Pelo condizente semblante.
"PADEIRO" - Profissão civil.
"TELEGRAFISTA" - Função Militar.

"XIPANÇO", "MIASSAS", "MÃO CERTA", "BRANQUINHO" e "CAPILÉ" são outras alcunhas que o significado já me escapa.

Havia ainda a "EQUIPA DO PINCEL" - todos oriundos da construção civil.

No meu álbum fotográfico, faço-me acompanhar de alguns daqueles que viram distintivas alcunhas substituir, no dia a dia, os seus nomes próprios. [Vd. fotos caima]
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Nota do editor

Último poste da série de 20 de fevereiro de 2020 > Guiné 61/74 - P20669: Memórias ao acaso (Miguel Rocha, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 2367/BCAÇ 2845) (3): Um Presépio de cartolina

Guiné 61/74 - P20705: (D)o outro lado do combate (57): memórias do militante do PAIGC , Inácio Soares de Carvalho, cabo-verdiano, funcionário do BNU - Banco Nacional Ultramarino, em Bissau, detido pela PIDE em 1962, em seguida deportado para o Tarrafal, donde regressa em 1965, sendo colocado na Ilha das Galinhas... Liberto em 1967, é de novo preso em 1972 e 1973... Regressa à sua terra natal, em finais de 1970, afastando-se da vida política ativa... Morreu em 1994 - Parte IV (Carlos de Carvalho, Praia, Santiago, CV)

1. Continuação da publicação de excertos do livro "Memórias da Luta Clandestina" (que foi lançado, no passado dia 30 de janeiro, na Praia, capital de Cabo Verde, na Biblioteca Nacional; edição de autor) (*)

Dois meses antes, um dos filhos, do Inácio Soares de Carvalho , o Carlos de Carvalho, arqueólogo e historiador, que coordenou o projeto editorial, pediu-nos autorização para reproduzir uma foto do administrador Guerra Ribeiro, da autoria de Paulo Santiago (***). Autorizou-nos, ao mesmo tempo, a reproduzir alguns excertos da obra, em fase final de acabamento.

Inácio Soares de Carvalho (ISC) (1916-1994) trabalhou no BNU - Banco Nacional Ultramarino, em Bissau, desde 1939, até ser detido pela PIDE em 15/3/1962. Vamos continuar a publicar alguns excertos das suas memórias políticas, até há pouco inéditas, com a devida autorização do seu filho, Carlos de Carvalho.

Nasceu na Praia em 29 de Abril de 1916. Foi em criança para a Guiné com os pais. No seu tempo haveria 1700 cabo-verdianos no território, muitos deles tendo posições de destaque na vida económica, social, cultural e político-administrativa da colónia portuguesa.

Envolveu-se na luta política, filiando-se em 1956 no MLG – Movimento para Libertação da Guiné,  por influência do seu compadre e colega de Abílio Duarte.

[Parece haver aqui algumas confusões cde siglas e anacronismos: o PAI (futuro PAIGC, em finais de 1962) foi criado, em Bissau, por Amílcar Cabaral, em 19 de Setembro de 1956, com um grupo restrito de nacionalistas Aristides Pereira, Luís Cabral, Fernando Fortes, Elisée Turpin e Júlio de Almeida). O PAI - Partido Africano para a Independência logo a seguir estrutura-se em células, em Bissau, Bolama e Bafatá. Só em agosto de 1958, é que se terá fundado o MLG (Movimento de Libertação da Guiné), numa reunião em que tomara tomou parte José Francisco Gomes e Rafael Barbosa (Zain Lopes), Tomé Barbosa, César Mário Fernandes, Tomás Cabral de Almada, Alfredo Meneses d`Alva, na casa de Ladislau Justado Lopes em Varela). Mas em dezembro de 1960 há já indícios de desinteligências entre os militantes do PAI e do MLG. ] (**)
Inácio Soares de Carvalho, que nunca viveu na clandestinidade, contrariamente ao Rafael Barbosa,  será preso pela primeira vez pela PIDE em 15/3/1962, no BNU, onde trabahava há mais de duas dezenas de anos. (A PIDE havia chegado ao território em 1957). É então deportado, com outros "suspeitos", para o Tarrafal (, a partir da Ilha das Galinhas), aonde chega no início de setembro de 1962, numa leva de 100 presos, guineenses. Três anos depois, em  16/10/1965 e transferido para colónia penal da ilha das Galinhas, no arquipélago dos Bijagós.

Em 7/2/1967, é solto, pela primeira vez. Em 1972 e 1973, volta a passar pela experiência da prisão, em Bissau, até conhecer a liberdade definitiva com o "golpe de Estado do 25 de Abril de 1974 em Portugal".  Há uma escassa meia dúzia de documentos no Arquivo Amílcar Cabral com o seu "nome de guerra", Nassi ou Naci Camará. Pertencia à "secção de informação e controle" do PAI em Bissau, ele e o Rafael Barbosa (c. 1926-2007), reportanto diretamente a Amílcar Cabral, que vivia em Conacri. Em outubro de 1961, Rafael Barbosa, de etnia papel (, Zain Lopes, na clandestinidade), é nomeado Presidente do Comité Central do PAIGC.  Serão descobertos e presos em março de 1962.

Nos final dos anos setenta, Inácio Soares de Caravalho regressa à sua terra natal, Cabo Verde e afasta-se praticamente da vida política activa. Vem a falecer em  dezembro de 1994, sem ter visto publicadas as suas memórias políticas.

"Após incessantes insistências dos filhos, ISC resolve escrever suas 'Memorias', tendo-as dado por concluídas em 1992. Nelas o autor narra factos novos, desconhecidos da maioria dos militantes, pois, infelizmente, poucos foram os combatentes da clandestinidade, sobretudo na Guiné, que deixaram escritos sobre essa vertente da luta protagonizada pelo PAIGC." (Informações biográficas fornecidas pelo filho, Carlos de Carvalho, nascido na Guiné, complementadas por LG.)


2. O filho, Carlos de Carvalho, respondendo a algumas perguntas nossos, acrescentou mais o seguinte, em email de 3 do corrente:


"O Velho nasceu em 1916. Não foi reintegrado no BNU, nem voltou ao Banco da Guiné depois da independência. Confesso que não compreendo porque não quis voltar ao seu 1° posto de trabalho ou não o aceitaram. Ele foi inicialmente contínuo, cargo oficial, depois arquivista / guarda-livros e fazia também cobranças das rendas das casas de que o BNU era proprietário ou 'responsável'.

"Ele diz ter pertencido inicialmente a um Movimento que se designava MLGC. Creio que esta página ainda não esta bem esclarecida. Nunca foi operacional, sempre esteve na Frente Clandestina. Disse que Cabral não os deixou ir, para assegurarem a retaguarda, já que a um dado momento estava preparando o sobrinho para o substituir para poder sair para a luta armada.

"A família tinha uma propriedade (uma casa grande que alugava e uma grande horta donde tirávamos o sustento, vendendo frutas). A nossa mãe também  vendia doces, linguiças, fazia flores e outros pequenos trabalhos que ajudavam a sustentar a família.

"Sobre a edição [do livro] foi da família. Nos é que assumimos a edição contando com vários patrocínios.

"Ele, a semelhança dos outros presos de 62, e até ao fim da luta nunca foi julgado, por conseguinte, não condenado oficialmente, seja judicialmente.

"Creio ter respondido à suas duvidas. Até breve, espero em PT {Portugal]

"Abrasu a todos da nossa Tabanca

"Carlos
"PS: Sobre a 'estada" no ex-CCT e na Ilha darei mais detalhes depois."


Guiné > Bissau > PAI > Secção de Informações e Controlo > Diário > 25 de abril de 1961 > Assinatura de Naci Camara [Inácio Soares de Carvalho]

Citação:

(1961), "Diário sobre a prisão de militantes do PAI", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_41690 (2020-3-4)

Fonte: Casa Comum
Instituição: Fundação Mário Soares
Pasta: 07063.036.058
Título: Diário sobre a prisão de militantes do PAI
Assunto: Diário assinado por Zain Lopes  [, Rafael Barbosa,] e Naci Camará [, Inácio Soares de Carvalho}, pela Secção de Informações e Controlo, sobre a prisão de militantes do PAI.
Data: Terça, 25 de Abril de 1961
Observações: Doc. incluído no dossier intitulado Cartas de Bissau 1960-1961.~
Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral




Bissau > PAI > 25 de abril de 1961 > Mais um documento com a assinatura do Nassi [ou Naci] Camará... 

Destaque do editor LG para a parte final do comunicado: (...) "Os pandigos [, bandidos ?, colonialistas... ] já começaram a evacuar mulheres e crianças, mas saiu um Decreto [pelo qual]  nenhum homem pode seguir para a Metrópole. Estã[o] sendo distribuída[s] armas à população civil, sendo [cabendo a] cada indivíduo uma arma e cinquenta balas e duas granadas de mão" (...) [A arma seria a Mauser ? 50 munições corresponderiam a 10 carregadores, com 5 munições cada... O  Rafael Barbosa usa várias vezes a expressão "bandidos", noutros documentos, mas para referir os "bandidos de Dakar" que, por volta de finais de 1960 / princípios de 1961, comspiravam contra Amílcar Cabral e o PAI... Há erros de dactilografia e ortografia dos documentos assimcados pela "secção de informação e controlo". ]

Para se perceber a primeira parte do comunicado, em que há referência aos "milicianos", ao serviço do exército português, que correm o risco de ir serem mobilizados para a Angola, há que ter em conta a realização, em Bissau, com início em 14 de agosto de  1959, do 1º Curso de Sargentos Milicianos, aberto a europeus "e guineenses considerados civilizados ou assimilados, já com formação escolar de, pelo menos, o 2º ano do liceu, na época chamado 1º ciclo liceal":  frequentado pelo nosso camarada Mário Dias, membro da Tabanca Grande da primeira hora, este curso deu vários... comandantes ao futuro PAIGC, como foi o caso do Domingos Ramos,  do Constantino Teixeira, do Rui Demba [Djassi]...

Citação:

(1961), "Diário sobre o desenvolvimento da luta clandestina em Bissau", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_41691 (2020-3-4) (Com a devida vénia...)

Fonet: Casa Comum
Instituição:
Fundação Mário Soares
Pasta: 07063.036.059
Título: Diário sobre o desenvolvimento da luta clandestina em Bissau
Assunto: Diário assinado por Zain Lopes e Naci Camará, pela Secção de Informações e Controlo, sobre a possibilidade de enquadramento dos "Milicianos" ao serviço do exército português no PAI e o desenvolvimento da luta clandestina em Bissau.
Data: Terça, 25 de Abril de 1961
Observações: Doc. incluído no dossier intitulado Cartas de Bissau 1960-1961.
Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral


3. Excertos do livro - Parte III (*)

(Continuação)

Mussá Fati, o primeiro contacto enviado por Cabral

Felizmente, nos princípios de Abril [de 1961] chegou a Bissau o primeiro guia de ligação, Mussá Fati, mandado pela nossa Direcção em Conakry com a missão de tudo fazer, mas com muita descrição, para nos contactar. 

Efectivamente, depois de ter chegado à Bissau, não foi fácil ao Mussá entrar, de imediato, em contacto connosco. A razão é porque nós não tínhamos confiança em receber ninguém no nosso meio com receio de membros dos grupos do Senegal nos infiltrarem. Depois de estar muitos dias a tentar o contacto, acabou por encontrar o nosso jovem companheiro, Marcos Correia; como já se conheciam, o Mussá acabou por lhe pôr ao corrente do que se passava no exterior, contando-lhe o que ouviam sobre nossas actividades e o que acontecera connosco, para finalmente dizer-lhe que vinha a mando do nosso engenheiro [, Amílcar Cabral,]  para nos contactar. 

Foi assim que o Marcos sentiu coragem de ir ter comigo e eu depois fui falar como Rafael; como ele já conhecia o Mussá, disse-me que podemos entrar em contacto com ele. Autorizamos então o Marcos a levá-lo à nossa base [, na Zona 0]; eu fui ter com ele no dia seguinte e falamos todos muito da nossa situação, e como passamos do mês de Fevereiro àquela data. 

A luta pela afirmação de Amílcar Cabral como líder da luta pela Independência

Nos primeiros anos, a afirmação de Cabral como líder da luta pela Independência dos povos da Guiné e de Cabo Verde foi uma questão fulcral e sempre presente. Na verdade, foi talvez a fase mais difícil da luta. 

Se no plano interno, sentíamos que o Partido já estava bem instalado com muitos jovens de todas as tribos da Guiné a aderirem as causas da luta, no plano externo, não cessavam as propagandas de nossos inimigos contra a liderança de Amílcar Cabral, sempre utilizando o mesmo argumento de que,  sendo filho de cabo-verdianos,  não podia liderar a luta pela independência de guineenses e cabo-verdianos. 

Nessa fase, foi importante a ligação permanente, através de nossos agentes, que mantivemos com os nossos dirigentes no exterior. Por um lado, nós servíímos de retaguarda segura aos esforços para a afirmação e legitimação de nossos dirigentes, sobretudo de Cabral; por outro, dávamos continuidade à campanha para a mobilização de jovens e outros apoios para a causa de nossa independência. 


Luís Silva, mais conhecido por Luís Tchalumbé, a questão da liderança da luta pela Independência

Um dos grandes entraves na afirmação de Cabral foi o Luís Silva, mais conhecido por Luís Tchalumbé. De facto, Tchalumbé foi um feroz opositor de Cabral enquanto líder do povo da Guiné. Conseguiu mobilizar apoios junto aos grupos de guineenses que tentavam organizar-se para a luta contra o colonialismo, radicados em Conakry. Ele e seu grupo chegaram a protestar junto ao Governo de Sékou Touré,  dizendo que o Amílcar não podia libertar a Guiné-Bissau porque ele não é puro guineense porque os pais são cabo-verdianos; a atitude de Tchalumbé e seus apoiantes causou-nos grandes problemas em Conakry. 

Perante essa situação, o nosso líder , engenheiro Amílcar Cabral,  mandou-nos comunicar isso em Bissau. Quando recebemos o comunicado ficamos todos preocupados e alarmados. É que, por um lado, tínhamos o Luis Tchalumbé e, do outro, o Governo Português.

[...] Aproveitamos essa mesma missão para endereçar ao Presidente Sékou Touré uma mensagem a pedir-lhe apoio total ao nosso líder, engenheiro Amílcar Cabral; na mesma mensagem, aproveitamos ainda para desacreditar o Luis Tchalumbé, mostrando a sua incompetência para ser líder da luta para a Independência da nossa Guiné. 

Depois da ida de Companhe para Conakry, enviamos outras mensagens para os seguintes Presidentes: Senghor, do Senegal; Modibou Keita, do Mali; N’Krumah, do Ghana. As referidas mensagens destinavam-se também à pedir total apoio ao nosso líder, engenheiro Amílcar Cabral. Essas mensagens foram levadas por outro jovem, agente de ligação, o Albino Sampa; Albino foi também com a missão de aproveitar e observar, com todo o cuidado, o que se estava a passar no Senegal. 

Essas mensagens deviam ser entregues ao nosso correspondente em Dakar, Luis Cabral, a fim de mandar distribuir aos respectivos destinatários. Essas acções deram um contributo inestimável ao progresso da nossa luta de libertação nacional.


O financiamento das actividades do Partido

Todas as actividades do Partido no plano interno e externo eram feitas com grande sacrifício, sobretudo no que diz respeito à meios financeiros. Como o meu vencimento não dava para tanto trabalho, então resolvemos pedir aos companheiros de luta, militantes e simpatizantes que tinham possibilidades,  para contribuírem para suportarmos as despesas. Mesmo com tal apelo, o problema financeiro continuava. 

[...] Como havia poucas alternativas, Rafael [Barbosa], enquanto principal responsável do Partido, decidiu que a única forma que tínhamos de aliviar a situação era o Inácio fazer um empréstimo ao Banco [, BNU,]  supostamente com o objectivo de construir uma casa. 

Tendo a reunião decorrido num sábado, na segunda-feira,  decidi ir falar com o Sr. Mário Seca que era chefe dos serviços do Banco naquela altura. 

Esperei que saíssem todos os funcionários do Banco e dirigi-me ao seu gabinete e expus-lhe a minha pretensão em obter um empréstimo para construir uma residência, argumentando que onde estava morado é de três herdeiras, sendo minha mulher uma delas e não nos convinha continuar morando nela. 

Ele perguntou-me o valor do empréstimo que pretendia fazer. Respondi que queria pelo menos 25.000$00 [, cerca de 11.060,43 €, a preços de hoje]  a fim de começar a obra e a medida que for necessário eu pedia mais até acabar o trabalho. 

Ele olhou para mim e disse-me: 

- É melhor o Inácio pedir 15.000$00 , assim é mais fácil darem o Inácio do que 25.000$00. 

E disse-me então para pensar bem primeiro, porque às vezes pode-se pedir e não darem nada. Pedindo pouco à pouco é mais certo, do que muito e não receber nada. 

Dois dias depois fui à Base e contei ao Rafael a conversa tida com o Gerente. Ele disse-me logo que mesmo que fosse 10.000$00 tínhamos que tomar,  que fará 15.000$00; naquela altura, 15.000$00 era muito dinheiro, dava para muita coisa. 


Expansão da estrutura do PAIGC no território da Guiné

Nesse momento inicial da luta, com a Zona 0 [, Bissau.]  já consolidada, decidimos expandir a estruturas do Partido para todo o território nacional. Assim, fizemos todos os possíveis para ter responsáveis do Partido em vários pontos da Guiné, o que conseguimos com sucesso. 

Na região de Bolama, eram responsáveis o Domingos Gomes e Domingos Badinca; em Bafata, Quecoi Fati; em Gabu, Lassana Jaquité e Francisco Dias (Chico Pombo); em Fá Mandinga, zona de Bambadinca, Antonio Silves Ferreira.

O jovem Silves tinha pouco contacto connosco; o seu principal contacto era o Domingos Ramos {, que terá desertado do exército português, em novembro de 1960,  quando em Bolama era já 1º cabo miliciano, segundo o testemunho de Mário Dias, de quem era amigo].

Das poucas vezes que ele vinha a Bissau, falava muito com o Rafael. Em Bissorã, tínhamos Lassana Sissé e David Lopes Vaz, enfermeiro. Nas áreas de Canchungo, Cacheu, S. Domingos, Susana, em todos aqueles sítios tínhamos responsáveis do Partido, já conscientes das suas responsabilidades.


Rafael [Barbosa] é nomeado Presidente do Comité Central do PAIGC

Em Outubro [de 1961], chegaram a Zona 0, três grandes elementos do Partido, enviados pela nossa Direcção em Conakry. Estes elementos eram Luciano N’dau e Pedro Ramos, ambos responsáveis militares, e Mario Mamadu Turé (Mómó), responsável político, a fim de reforçar nossa equipa e dar mais impulso no nosso trabalho de mobilização e de preparação para a luta. Eles foram portadores da primeira Bandeira do nosso Partido, PAGC, que entrou em Bissau na difícil hora que nos encontrávamos.

Trouxeram também uma mensagem que o nosso grande líder nos endereçou. Nessa mensagem, veio a decisão do Partido em nomear o Rafael Barbosa como Presidente do Comité Central do Partido; nessa mesma mensagem, o Nassi Camara e Constantino Lopes da Costa foram louvados pelo Partido e confirmados nos lugares que vinham ocupando desde o mês de Abril, quando o jovem Mussa Fati nos contactou.

O cargo que desempenhávamos era interino, por isso o Nassi Camará foi confirmado no cargo de Secretário de Defesa e Segurança, e o Constantino, no de Secretário do Interior; ficando o lugar do Secretário de Controle que era também exercido pelo Rafael.

A mensagem fez sentir nos nossos colaboradores uma alegria profunda. De lembrar que nós os três éramos os responsáveis máximos e assinávamos todos os documentos que eram enviados à Direcção do Partido. A Direcção do Partido em Conakry fez-nos saber na mensagem que tal promoção e louvores foram devidos aos trabalhos feitos com grandes esforços e também das medidas que tomamos na altura em que se deu o caso do Luis Silva (Tchalumbé), em Conakry, e que permitiu a afirmação da liderança de Amilcar Cabral.

Caros senhores leitores, o nosso empenho e esforço nos primeiros anos da nossa luta da libertação da Guiné e Cabo Verde encontram-se seguramente nos documentos arquivados no Arquivo do PAIGC e está bem gravado na memória dos bons militantes e combatentes da primeira hora, do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde.


A chegada de três enviados de Cabral e um novo impulso à luta clandestina

[...] Como dito anteriormente, a chegada daqueles responsáveis, enviados por Cabral, deu um impulso muito grande à nossa luta dentro do território nacional, sobretudo na Zona 0. Para além da Bandeira e da mensagem, os três trouxeram ainda 7 pistolas automáticas para exercitarem os jovens e vários emblemas para distribuir aos militantes. 

Como a minha mulher, Maria Rosa, já estava engajada nas nossas actividades, contei-lhe sobre a chegada daqueles nossos irmãos e também do material de propaganda trazido; ela ficou muito contente e com desejo de ver esses materiais. Assim, quando fui à Base, contei aos companheiros do interesse dela em ver a Bandeira e emblemas enviados de Conakry. Ainda sugeri aos companheiros que poderíamos aproveitar para levar esses materiais à D. Irene  [Fortes] e à D. Iva, mae do nosso líder, e às filhas, irmãs de Cabral. Todos os presentes concordaram.


Bandeira do PAIGC. Fonte: Wikipédia (com a devida vénia...)
Foi o Albino Sampa e o Paulo de Jesus que levaram tais objectos à minha casa, em Ga-Beafada. Para levar os materiais de propaganda e a Bandeira da nossa casa à casa do Fortes e da D. Irene, no Bairro de Tchada, Maria tinha que passar na zona do Palácio do Governo, por isso teve que usar a Bandeira como sua roupa interior, por ser a maneira mais segura. Ela levou os materiais primeiro à D. Irene e de seguida à D. Iva e as filhas. À pedido da D. Iva, deixou ficar tudo por uns dias em sua posse.

A D. Iva, por sua vez, mostrou os materiais à Helmer Barbosa Fernandes que, satisfeito em ver a bandeira do PAIGC dentro de Bissau, pediu a D. Iva que a deixasse levar à fim de ir mostrar à alguns amigos de sua grande confiança, tendo ela concordado; Helmer pega da bandeira e leva à Alfândega; chamava os seus amigos de confiança e os mostrava; eles olhavam para a Bandeira e perguntavam com muito interesse e com grande admiração, como é que ele, Helmer, conseguiu uma coisa assim. Ele contou-nos depois que respondia aos amigos: «djobe cu odjobú cala boca». Depois de ter mostrado a todos os amigos, devolveu a Bandeira à D. Iva. 

Foi dessa maneira que a Bandeira do PAIGC circulou pela primeira vez nalguns lugares da cidade de Bissau, naquelas horas primeiras da luta, e alguns guineenses e cabo-verdianos tomaram conhecimento de sua existência. 

Nesse período, o sr. Constantino conseguiu mobilizar mais jovens, como John Eckert, Venâncio Furtado e muitos mais; Nicolau Cabral conseguiu mobilizar Armando Faria, Otto Schartt, Hildeberto Soares de Carvalho, Helmer Barbosa Fernandes, Ocante, capitão do motor da Casa Gouveia, entre outras para o nosso Partido. Toda esta actividade foi desenvolvida entre Novembro e Dezembro do ano de 1961.

(Continua)




Guiné > Bissau > PAI > Secção de Informação, Controlo e Defesa > s/d  [c. 1961/1962 até março] > Mais um  documento, do Arquivo Amílcar Cabral, contendo a assinatura do Naci Camará. Tem a particularidade de já usar papel timbrado do PAIGC, mas a sigla continua a ser PAI (até finais de 1962)... Este documento, não datado, tem de ser anterior a março de 1962, altura em que o Zain Lopes e o Naci Camará foram presos.

Citação:

(s.d.), "Relatório sobre o desenvolvimento da luta em Bissau e no interior", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_41686 (2020-3-4)

Fonte: Casa Comum
Instituição:Fundação Mário Soares
Pasta: 07196.157.022
Título: Relatório sobre o desenvolvimento da luta em Bissau e no interior
Assunto: Relatório assinado por Amadu Farrel (Secção de Informação), Zain Lopes, (Secção de Controlo) e Naci Camara (Secção de Defesa), dando conta da situação e das necessidades da luta em Bissau e no interior.
Data: s.d.  [c. 1961] 
Observações: Doc. incluído no dossier intitulado Manuscritos 1960-1961.
Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral
______________

Notas do editor:

(*) Vd. postes anteriores da série:

3 de março de  2020 > Guiné 61/74 - P20701: (D)o outro lado do combate (56): memórias do militante do PAIGC , Inácio Soares de Carvalho, cabo-verdiano, funcionário do BNU - Banco Nacional Ultramarino, em Bissau, detido pela PIDE em 1962, em seguida deportado para o Tarrafal, donde regressa em 1965, sendo colocado na Ilha das Galinhas... Liberto em 1967, é de novo preso em 1972 e 1973... Regressa à sua terra natal, em finais de 1970, afastando-se da vida política ativa... Morreu em 1994 - Parte III (Carlos de Carvalho, Praia, Santiago, CV)

2 de março de 2020 > Guiné 61/74 - P20698: (D)o outro lado do combate (55): memórias do militante do PAIGC , Inácio Soares de Carvalho, cabo-verdiano, funcionário do BNU - Banco Nacional Ultramarino, em Bissau, detido pela PIDE em 1962, em seguida deportado para o Tarrafal, donde regressa em 1965, sendo colocado na Ilha das Galinhas... Liberto em 1967, é de novo preso em 1972 e 1973... Regressa à sua terra natal, em finais de 1970, afastando-se da vida política ativa... Morreu em 1994 - Parte II (Carlos de Carvalho, Praia, Santiago, CV)

29 de fevereiro de 2020 > Guiné 61/74 - P20695: (D)o outro lado do combate (54): memórias do militante do PAIGC , Inácio Soares de Carvalho, cabo-verdiano, funcionário do BNU - Banco Nacional Ultramarino, em Bissau, detido pela PIDE em 1962, em seguida deportado para o Tarrafal, donde regressa em 1965, sendo colocado na Ilha das Galinhas... Liberto em 1967, é de novo preso em 1972 e 1973... Regressa à sua terra natal, em finais de 1970, afastando-se da vida política ativa... Morreu em 1994 - Parte I (Carlos de Carvalho, Praia, Santiago, CV)

(**) Vd. postes de:


25 de fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - P569: Simbologia de Pindjiguiti na óptica libertária da Guiné-Bissau (Leopoldo Amado) - II Parte

26 de fevereiro de  2006 > Guiné 63/74 - P571: Simbologia de Pindjiguiti na óptica libertária da Guiné-Bissau (Leopoldo Amado) - III (e última) Parte

Vd também o importante e esclarecedor artigo do António E. Duarte Silva- "Guiné-Bissau: a causa do nacionalismo e a fundação do PAIGC. "Cadernos de Estudos Africanos". 9/10, 2006,
pi. 142-167. [Disponível  em https://doi.org/10.4000/cea.1236].