quinta-feira, 5 de março de 2020

Guiné 61/74 - P20705: (D)o outro lado do combate (57): memórias do militante do PAIGC , Inácio Soares de Carvalho, cabo-verdiano, funcionário do BNU - Banco Nacional Ultramarino, em Bissau, detido pela PIDE em 1962, em seguida deportado para o Tarrafal, donde regressa em 1965, sendo colocado na Ilha das Galinhas... Liberto em 1967, é de novo preso em 1972 e 1973... Regressa à sua terra natal, em finais de 1970, afastando-se da vida política ativa... Morreu em 1994 - Parte IV (Carlos de Carvalho, Praia, Santiago, CV)

1. Continuação da publicação de excertos do livro "Memórias da Luta Clandestina" (que foi lançado, no passado dia 30 de janeiro, na Praia, capital de Cabo Verde, na Biblioteca Nacional; edição de autor) (*)

Dois meses antes, um dos filhos, do Inácio Soares de Carvalho , o Carlos de Carvalho, arqueólogo e historiador, que coordenou o projeto editorial, pediu-nos autorização para reproduzir uma foto do administrador Guerra Ribeiro, da autoria de Paulo Santiago (***). Autorizou-nos, ao mesmo tempo, a reproduzir alguns excertos da obra, em fase final de acabamento.

Inácio Soares de Carvalho (ISC) (1916-1994) trabalhou no BNU - Banco Nacional Ultramarino, em Bissau, desde 1939, até ser detido pela PIDE em 15/3/1962. Vamos continuar a publicar alguns excertos das suas memórias políticas, até há pouco inéditas, com a devida autorização do seu filho, Carlos de Carvalho.

Nasceu na Praia em 29 de Abril de 1916. Foi em criança para a Guiné com os pais. No seu tempo haveria 1700 cabo-verdianos no território, muitos deles tendo posições de destaque na vida económica, social, cultural e político-administrativa da colónia portuguesa.

Envolveu-se na luta política, filiando-se em 1956 no MLG – Movimento para Libertação da Guiné,  por influência do seu compadre e colega de Abílio Duarte.

[Parece haver aqui algumas confusões cde siglas e anacronismos: o PAI (futuro PAIGC, em finais de 1962) foi criado, em Bissau, por Amílcar Cabaral, em 19 de Setembro de 1956, com um grupo restrito de nacionalistas Aristides Pereira, Luís Cabral, Fernando Fortes, Elisée Turpin e Júlio de Almeida). O PAI - Partido Africano para a Independência logo a seguir estrutura-se em células, em Bissau, Bolama e Bafatá. Só em agosto de 1958, é que se terá fundado o MLG (Movimento de Libertação da Guiné), numa reunião em que tomara tomou parte José Francisco Gomes e Rafael Barbosa (Zain Lopes), Tomé Barbosa, César Mário Fernandes, Tomás Cabral de Almada, Alfredo Meneses d`Alva, na casa de Ladislau Justado Lopes em Varela). Mas em dezembro de 1960 há já indícios de desinteligências entre os militantes do PAI e do MLG. ] (**)
Inácio Soares de Carvalho, que nunca viveu na clandestinidade, contrariamente ao Rafael Barbosa,  será preso pela primeira vez pela PIDE em 15/3/1962, no BNU, onde trabahava há mais de duas dezenas de anos. (A PIDE havia chegado ao território em 1957). É então deportado, com outros "suspeitos", para o Tarrafal (, a partir da Ilha das Galinhas), aonde chega no início de setembro de 1962, numa leva de 100 presos, guineenses. Três anos depois, em  16/10/1965 e transferido para colónia penal da ilha das Galinhas, no arquipélago dos Bijagós.

Em 7/2/1967, é solto, pela primeira vez. Em 1972 e 1973, volta a passar pela experiência da prisão, em Bissau, até conhecer a liberdade definitiva com o "golpe de Estado do 25 de Abril de 1974 em Portugal".  Há uma escassa meia dúzia de documentos no Arquivo Amílcar Cabral com o seu "nome de guerra", Nassi ou Naci Camará. Pertencia à "secção de informação e controle" do PAI em Bissau, ele e o Rafael Barbosa (c. 1926-2007), reportanto diretamente a Amílcar Cabral, que vivia em Conacri. Em outubro de 1961, Rafael Barbosa, de etnia papel (, Zain Lopes, na clandestinidade), é nomeado Presidente do Comité Central do PAIGC.  Serão descobertos e presos em março de 1962.

Nos final dos anos setenta, Inácio Soares de Caravalho regressa à sua terra natal, Cabo Verde e afasta-se praticamente da vida política activa. Vem a falecer em  dezembro de 1994, sem ter visto publicadas as suas memórias políticas.

"Após incessantes insistências dos filhos, ISC resolve escrever suas 'Memorias', tendo-as dado por concluídas em 1992. Nelas o autor narra factos novos, desconhecidos da maioria dos militantes, pois, infelizmente, poucos foram os combatentes da clandestinidade, sobretudo na Guiné, que deixaram escritos sobre essa vertente da luta protagonizada pelo PAIGC." (Informações biográficas fornecidas pelo filho, Carlos de Carvalho, nascido na Guiné, complementadas por LG.)


2. O filho, Carlos de Carvalho, respondendo a algumas perguntas nossos, acrescentou mais o seguinte, em email de 3 do corrente:


"O Velho nasceu em 1916. Não foi reintegrado no BNU, nem voltou ao Banco da Guiné depois da independência. Confesso que não compreendo porque não quis voltar ao seu 1° posto de trabalho ou não o aceitaram. Ele foi inicialmente contínuo, cargo oficial, depois arquivista / guarda-livros e fazia também cobranças das rendas das casas de que o BNU era proprietário ou 'responsável'.

"Ele diz ter pertencido inicialmente a um Movimento que se designava MLGC. Creio que esta página ainda não esta bem esclarecida. Nunca foi operacional, sempre esteve na Frente Clandestina. Disse que Cabral não os deixou ir, para assegurarem a retaguarda, já que a um dado momento estava preparando o sobrinho para o substituir para poder sair para a luta armada.

"A família tinha uma propriedade (uma casa grande que alugava e uma grande horta donde tirávamos o sustento, vendendo frutas). A nossa mãe também  vendia doces, linguiças, fazia flores e outros pequenos trabalhos que ajudavam a sustentar a família.

"Sobre a edição [do livro] foi da família. Nos é que assumimos a edição contando com vários patrocínios.

"Ele, a semelhança dos outros presos de 62, e até ao fim da luta nunca foi julgado, por conseguinte, não condenado oficialmente, seja judicialmente.

"Creio ter respondido à suas duvidas. Até breve, espero em PT {Portugal]

"Abrasu a todos da nossa Tabanca

"Carlos
"PS: Sobre a 'estada" no ex-CCT e na Ilha darei mais detalhes depois."


Guiné > Bissau > PAI > Secção de Informações e Controlo > Diário > 25 de abril de 1961 > Assinatura de Naci Camara [Inácio Soares de Carvalho]

Citação:

(1961), "Diário sobre a prisão de militantes do PAI", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_41690 (2020-3-4)

Fonte: Casa Comum
Instituição: Fundação Mário Soares
Pasta: 07063.036.058
Título: Diário sobre a prisão de militantes do PAI
Assunto: Diário assinado por Zain Lopes  [, Rafael Barbosa,] e Naci Camará [, Inácio Soares de Carvalho}, pela Secção de Informações e Controlo, sobre a prisão de militantes do PAI.
Data: Terça, 25 de Abril de 1961
Observações: Doc. incluído no dossier intitulado Cartas de Bissau 1960-1961.~
Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral




Bissau > PAI > 25 de abril de 1961 > Mais um documento com a assinatura do Nassi [ou Naci] Camará... 

Destaque do editor LG para a parte final do comunicado: (...) "Os pandigos [, bandidos ?, colonialistas... ] já começaram a evacuar mulheres e crianças, mas saiu um Decreto [pelo qual]  nenhum homem pode seguir para a Metrópole. Estã[o] sendo distribuída[s] armas à população civil, sendo [cabendo a] cada indivíduo uma arma e cinquenta balas e duas granadas de mão" (...) [A arma seria a Mauser ? 50 munições corresponderiam a 10 carregadores, com 5 munições cada... O  Rafael Barbosa usa várias vezes a expressão "bandidos", noutros documentos, mas para referir os "bandidos de Dakar" que, por volta de finais de 1960 / princípios de 1961, comspiravam contra Amílcar Cabral e o PAI... Há erros de dactilografia e ortografia dos documentos assimcados pela "secção de informação e controlo". ]

Para se perceber a primeira parte do comunicado, em que há referência aos "milicianos", ao serviço do exército português, que correm o risco de ir serem mobilizados para a Angola, há que ter em conta a realização, em Bissau, com início em 14 de agosto de  1959, do 1º Curso de Sargentos Milicianos, aberto a europeus "e guineenses considerados civilizados ou assimilados, já com formação escolar de, pelo menos, o 2º ano do liceu, na época chamado 1º ciclo liceal":  frequentado pelo nosso camarada Mário Dias, membro da Tabanca Grande da primeira hora, este curso deu vários... comandantes ao futuro PAIGC, como foi o caso do Domingos Ramos,  do Constantino Teixeira, do Rui Demba [Djassi]...

Citação:

(1961), "Diário sobre o desenvolvimento da luta clandestina em Bissau", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_41691 (2020-3-4) (Com a devida vénia...)

Fonet: Casa Comum
Instituição:
Fundação Mário Soares
Pasta: 07063.036.059
Título: Diário sobre o desenvolvimento da luta clandestina em Bissau
Assunto: Diário assinado por Zain Lopes e Naci Camará, pela Secção de Informações e Controlo, sobre a possibilidade de enquadramento dos "Milicianos" ao serviço do exército português no PAI e o desenvolvimento da luta clandestina em Bissau.
Data: Terça, 25 de Abril de 1961
Observações: Doc. incluído no dossier intitulado Cartas de Bissau 1960-1961.
Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral


3. Excertos do livro - Parte III (*)

(Continuação)

Mussá Fati, o primeiro contacto enviado por Cabral

Felizmente, nos princípios de Abril [de 1961] chegou a Bissau o primeiro guia de ligação, Mussá Fati, mandado pela nossa Direcção em Conakry com a missão de tudo fazer, mas com muita descrição, para nos contactar. 

Efectivamente, depois de ter chegado à Bissau, não foi fácil ao Mussá entrar, de imediato, em contacto connosco. A razão é porque nós não tínhamos confiança em receber ninguém no nosso meio com receio de membros dos grupos do Senegal nos infiltrarem. Depois de estar muitos dias a tentar o contacto, acabou por encontrar o nosso jovem companheiro, Marcos Correia; como já se conheciam, o Mussá acabou por lhe pôr ao corrente do que se passava no exterior, contando-lhe o que ouviam sobre nossas actividades e o que acontecera connosco, para finalmente dizer-lhe que vinha a mando do nosso engenheiro [, Amílcar Cabral,]  para nos contactar. 

Foi assim que o Marcos sentiu coragem de ir ter comigo e eu depois fui falar como Rafael; como ele já conhecia o Mussá, disse-me que podemos entrar em contacto com ele. Autorizamos então o Marcos a levá-lo à nossa base [, na Zona 0]; eu fui ter com ele no dia seguinte e falamos todos muito da nossa situação, e como passamos do mês de Fevereiro àquela data. 

A luta pela afirmação de Amílcar Cabral como líder da luta pela Independência

Nos primeiros anos, a afirmação de Cabral como líder da luta pela Independência dos povos da Guiné e de Cabo Verde foi uma questão fulcral e sempre presente. Na verdade, foi talvez a fase mais difícil da luta. 

Se no plano interno, sentíamos que o Partido já estava bem instalado com muitos jovens de todas as tribos da Guiné a aderirem as causas da luta, no plano externo, não cessavam as propagandas de nossos inimigos contra a liderança de Amílcar Cabral, sempre utilizando o mesmo argumento de que,  sendo filho de cabo-verdianos,  não podia liderar a luta pela independência de guineenses e cabo-verdianos. 

Nessa fase, foi importante a ligação permanente, através de nossos agentes, que mantivemos com os nossos dirigentes no exterior. Por um lado, nós servíímos de retaguarda segura aos esforços para a afirmação e legitimação de nossos dirigentes, sobretudo de Cabral; por outro, dávamos continuidade à campanha para a mobilização de jovens e outros apoios para a causa de nossa independência. 


Luís Silva, mais conhecido por Luís Tchalumbé, a questão da liderança da luta pela Independência

Um dos grandes entraves na afirmação de Cabral foi o Luís Silva, mais conhecido por Luís Tchalumbé. De facto, Tchalumbé foi um feroz opositor de Cabral enquanto líder do povo da Guiné. Conseguiu mobilizar apoios junto aos grupos de guineenses que tentavam organizar-se para a luta contra o colonialismo, radicados em Conakry. Ele e seu grupo chegaram a protestar junto ao Governo de Sékou Touré,  dizendo que o Amílcar não podia libertar a Guiné-Bissau porque ele não é puro guineense porque os pais são cabo-verdianos; a atitude de Tchalumbé e seus apoiantes causou-nos grandes problemas em Conakry. 

Perante essa situação, o nosso líder , engenheiro Amílcar Cabral,  mandou-nos comunicar isso em Bissau. Quando recebemos o comunicado ficamos todos preocupados e alarmados. É que, por um lado, tínhamos o Luis Tchalumbé e, do outro, o Governo Português.

[...] Aproveitamos essa mesma missão para endereçar ao Presidente Sékou Touré uma mensagem a pedir-lhe apoio total ao nosso líder, engenheiro Amílcar Cabral; na mesma mensagem, aproveitamos ainda para desacreditar o Luis Tchalumbé, mostrando a sua incompetência para ser líder da luta para a Independência da nossa Guiné. 

Depois da ida de Companhe para Conakry, enviamos outras mensagens para os seguintes Presidentes: Senghor, do Senegal; Modibou Keita, do Mali; N’Krumah, do Ghana. As referidas mensagens destinavam-se também à pedir total apoio ao nosso líder, engenheiro Amílcar Cabral. Essas mensagens foram levadas por outro jovem, agente de ligação, o Albino Sampa; Albino foi também com a missão de aproveitar e observar, com todo o cuidado, o que se estava a passar no Senegal. 

Essas mensagens deviam ser entregues ao nosso correspondente em Dakar, Luis Cabral, a fim de mandar distribuir aos respectivos destinatários. Essas acções deram um contributo inestimável ao progresso da nossa luta de libertação nacional.


O financiamento das actividades do Partido

Todas as actividades do Partido no plano interno e externo eram feitas com grande sacrifício, sobretudo no que diz respeito à meios financeiros. Como o meu vencimento não dava para tanto trabalho, então resolvemos pedir aos companheiros de luta, militantes e simpatizantes que tinham possibilidades,  para contribuírem para suportarmos as despesas. Mesmo com tal apelo, o problema financeiro continuava. 

[...] Como havia poucas alternativas, Rafael [Barbosa], enquanto principal responsável do Partido, decidiu que a única forma que tínhamos de aliviar a situação era o Inácio fazer um empréstimo ao Banco [, BNU,]  supostamente com o objectivo de construir uma casa. 

Tendo a reunião decorrido num sábado, na segunda-feira,  decidi ir falar com o Sr. Mário Seca que era chefe dos serviços do Banco naquela altura. 

Esperei que saíssem todos os funcionários do Banco e dirigi-me ao seu gabinete e expus-lhe a minha pretensão em obter um empréstimo para construir uma residência, argumentando que onde estava morado é de três herdeiras, sendo minha mulher uma delas e não nos convinha continuar morando nela. 

Ele perguntou-me o valor do empréstimo que pretendia fazer. Respondi que queria pelo menos 25.000$00 [, cerca de 11.060,43 €, a preços de hoje]  a fim de começar a obra e a medida que for necessário eu pedia mais até acabar o trabalho. 

Ele olhou para mim e disse-me: 

- É melhor o Inácio pedir 15.000$00 , assim é mais fácil darem o Inácio do que 25.000$00. 

E disse-me então para pensar bem primeiro, porque às vezes pode-se pedir e não darem nada. Pedindo pouco à pouco é mais certo, do que muito e não receber nada. 

Dois dias depois fui à Base e contei ao Rafael a conversa tida com o Gerente. Ele disse-me logo que mesmo que fosse 10.000$00 tínhamos que tomar,  que fará 15.000$00; naquela altura, 15.000$00 era muito dinheiro, dava para muita coisa. 


Expansão da estrutura do PAIGC no território da Guiné

Nesse momento inicial da luta, com a Zona 0 [, Bissau.]  já consolidada, decidimos expandir a estruturas do Partido para todo o território nacional. Assim, fizemos todos os possíveis para ter responsáveis do Partido em vários pontos da Guiné, o que conseguimos com sucesso. 

Na região de Bolama, eram responsáveis o Domingos Gomes e Domingos Badinca; em Bafata, Quecoi Fati; em Gabu, Lassana Jaquité e Francisco Dias (Chico Pombo); em Fá Mandinga, zona de Bambadinca, Antonio Silves Ferreira.

O jovem Silves tinha pouco contacto connosco; o seu principal contacto era o Domingos Ramos {, que terá desertado do exército português, em novembro de 1960,  quando em Bolama era já 1º cabo miliciano, segundo o testemunho de Mário Dias, de quem era amigo].

Das poucas vezes que ele vinha a Bissau, falava muito com o Rafael. Em Bissorã, tínhamos Lassana Sissé e David Lopes Vaz, enfermeiro. Nas áreas de Canchungo, Cacheu, S. Domingos, Susana, em todos aqueles sítios tínhamos responsáveis do Partido, já conscientes das suas responsabilidades.


Rafael [Barbosa] é nomeado Presidente do Comité Central do PAIGC

Em Outubro [de 1961], chegaram a Zona 0, três grandes elementos do Partido, enviados pela nossa Direcção em Conakry. Estes elementos eram Luciano N’dau e Pedro Ramos, ambos responsáveis militares, e Mario Mamadu Turé (Mómó), responsável político, a fim de reforçar nossa equipa e dar mais impulso no nosso trabalho de mobilização e de preparação para a luta. Eles foram portadores da primeira Bandeira do nosso Partido, PAGC, que entrou em Bissau na difícil hora que nos encontrávamos.

Trouxeram também uma mensagem que o nosso grande líder nos endereçou. Nessa mensagem, veio a decisão do Partido em nomear o Rafael Barbosa como Presidente do Comité Central do Partido; nessa mesma mensagem, o Nassi Camara e Constantino Lopes da Costa foram louvados pelo Partido e confirmados nos lugares que vinham ocupando desde o mês de Abril, quando o jovem Mussa Fati nos contactou.

O cargo que desempenhávamos era interino, por isso o Nassi Camará foi confirmado no cargo de Secretário de Defesa e Segurança, e o Constantino, no de Secretário do Interior; ficando o lugar do Secretário de Controle que era também exercido pelo Rafael.

A mensagem fez sentir nos nossos colaboradores uma alegria profunda. De lembrar que nós os três éramos os responsáveis máximos e assinávamos todos os documentos que eram enviados à Direcção do Partido. A Direcção do Partido em Conakry fez-nos saber na mensagem que tal promoção e louvores foram devidos aos trabalhos feitos com grandes esforços e também das medidas que tomamos na altura em que se deu o caso do Luis Silva (Tchalumbé), em Conakry, e que permitiu a afirmação da liderança de Amilcar Cabral.

Caros senhores leitores, o nosso empenho e esforço nos primeiros anos da nossa luta da libertação da Guiné e Cabo Verde encontram-se seguramente nos documentos arquivados no Arquivo do PAIGC e está bem gravado na memória dos bons militantes e combatentes da primeira hora, do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde.


A chegada de três enviados de Cabral e um novo impulso à luta clandestina

[...] Como dito anteriormente, a chegada daqueles responsáveis, enviados por Cabral, deu um impulso muito grande à nossa luta dentro do território nacional, sobretudo na Zona 0. Para além da Bandeira e da mensagem, os três trouxeram ainda 7 pistolas automáticas para exercitarem os jovens e vários emblemas para distribuir aos militantes. 

Como a minha mulher, Maria Rosa, já estava engajada nas nossas actividades, contei-lhe sobre a chegada daqueles nossos irmãos e também do material de propaganda trazido; ela ficou muito contente e com desejo de ver esses materiais. Assim, quando fui à Base, contei aos companheiros do interesse dela em ver a Bandeira e emblemas enviados de Conakry. Ainda sugeri aos companheiros que poderíamos aproveitar para levar esses materiais à D. Irene  [Fortes] e à D. Iva, mae do nosso líder, e às filhas, irmãs de Cabral. Todos os presentes concordaram.


Bandeira do PAIGC. Fonte: Wikipédia (com a devida vénia...)
Foi o Albino Sampa e o Paulo de Jesus que levaram tais objectos à minha casa, em Ga-Beafada. Para levar os materiais de propaganda e a Bandeira da nossa casa à casa do Fortes e da D. Irene, no Bairro de Tchada, Maria tinha que passar na zona do Palácio do Governo, por isso teve que usar a Bandeira como sua roupa interior, por ser a maneira mais segura. Ela levou os materiais primeiro à D. Irene e de seguida à D. Iva e as filhas. À pedido da D. Iva, deixou ficar tudo por uns dias em sua posse.

A D. Iva, por sua vez, mostrou os materiais à Helmer Barbosa Fernandes que, satisfeito em ver a bandeira do PAIGC dentro de Bissau, pediu a D. Iva que a deixasse levar à fim de ir mostrar à alguns amigos de sua grande confiança, tendo ela concordado; Helmer pega da bandeira e leva à Alfândega; chamava os seus amigos de confiança e os mostrava; eles olhavam para a Bandeira e perguntavam com muito interesse e com grande admiração, como é que ele, Helmer, conseguiu uma coisa assim. Ele contou-nos depois que respondia aos amigos: «djobe cu odjobú cala boca». Depois de ter mostrado a todos os amigos, devolveu a Bandeira à D. Iva. 

Foi dessa maneira que a Bandeira do PAIGC circulou pela primeira vez nalguns lugares da cidade de Bissau, naquelas horas primeiras da luta, e alguns guineenses e cabo-verdianos tomaram conhecimento de sua existência. 

Nesse período, o sr. Constantino conseguiu mobilizar mais jovens, como John Eckert, Venâncio Furtado e muitos mais; Nicolau Cabral conseguiu mobilizar Armando Faria, Otto Schartt, Hildeberto Soares de Carvalho, Helmer Barbosa Fernandes, Ocante, capitão do motor da Casa Gouveia, entre outras para o nosso Partido. Toda esta actividade foi desenvolvida entre Novembro e Dezembro do ano de 1961.

(Continua)




Guiné > Bissau > PAI > Secção de Informação, Controlo e Defesa > s/d  [c. 1961/1962 até março] > Mais um  documento, do Arquivo Amílcar Cabral, contendo a assinatura do Naci Camará. Tem a particularidade de já usar papel timbrado do PAIGC, mas a sigla continua a ser PAI (até finais de 1962)... Este documento, não datado, tem de ser anterior a março de 1962, altura em que o Zain Lopes e o Naci Camará foram presos.

Citação:

(s.d.), "Relatório sobre o desenvolvimento da luta em Bissau e no interior", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_41686 (2020-3-4)

Fonte: Casa Comum
Instituição:Fundação Mário Soares
Pasta: 07196.157.022
Título: Relatório sobre o desenvolvimento da luta em Bissau e no interior
Assunto: Relatório assinado por Amadu Farrel (Secção de Informação), Zain Lopes, (Secção de Controlo) e Naci Camara (Secção de Defesa), dando conta da situação e das necessidades da luta em Bissau e no interior.
Data: s.d.  [c. 1961] 
Observações: Doc. incluído no dossier intitulado Manuscritos 1960-1961.
Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral
______________

Notas do editor:

(*) Vd. postes anteriores da série:

3 de março de  2020 > Guiné 61/74 - P20701: (D)o outro lado do combate (56): memórias do militante do PAIGC , Inácio Soares de Carvalho, cabo-verdiano, funcionário do BNU - Banco Nacional Ultramarino, em Bissau, detido pela PIDE em 1962, em seguida deportado para o Tarrafal, donde regressa em 1965, sendo colocado na Ilha das Galinhas... Liberto em 1967, é de novo preso em 1972 e 1973... Regressa à sua terra natal, em finais de 1970, afastando-se da vida política ativa... Morreu em 1994 - Parte III (Carlos de Carvalho, Praia, Santiago, CV)

2 de março de 2020 > Guiné 61/74 - P20698: (D)o outro lado do combate (55): memórias do militante do PAIGC , Inácio Soares de Carvalho, cabo-verdiano, funcionário do BNU - Banco Nacional Ultramarino, em Bissau, detido pela PIDE em 1962, em seguida deportado para o Tarrafal, donde regressa em 1965, sendo colocado na Ilha das Galinhas... Liberto em 1967, é de novo preso em 1972 e 1973... Regressa à sua terra natal, em finais de 1970, afastando-se da vida política ativa... Morreu em 1994 - Parte II (Carlos de Carvalho, Praia, Santiago, CV)

29 de fevereiro de 2020 > Guiné 61/74 - P20695: (D)o outro lado do combate (54): memórias do militante do PAIGC , Inácio Soares de Carvalho, cabo-verdiano, funcionário do BNU - Banco Nacional Ultramarino, em Bissau, detido pela PIDE em 1962, em seguida deportado para o Tarrafal, donde regressa em 1965, sendo colocado na Ilha das Galinhas... Liberto em 1967, é de novo preso em 1972 e 1973... Regressa à sua terra natal, em finais de 1970, afastando-se da vida política ativa... Morreu em 1994 - Parte I (Carlos de Carvalho, Praia, Santiago, CV)

(**) Vd. postes de:


25 de fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - P569: Simbologia de Pindjiguiti na óptica libertária da Guiné-Bissau (Leopoldo Amado) - II Parte

26 de fevereiro de  2006 > Guiné 63/74 - P571: Simbologia de Pindjiguiti na óptica libertária da Guiné-Bissau (Leopoldo Amado) - III (e última) Parte

Vd também o importante e esclarecedor artigo do António E. Duarte Silva- "Guiné-Bissau: a causa do nacionalismo e a fundação do PAIGC. "Cadernos de Estudos Africanos". 9/10, 2006,
pi. 142-167. [Disponível  em https://doi.org/10.4000/cea.1236].

8 comentários:

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Há um lapso (ou erro ortográfico) no texto do Leopoldo Amado, quando se refere ao rafael Barbosa, que ele entrevistou ainda em vida: chama-lhe "O Coxo" ou "Patrício, o oleiro da construção civil", com era conhecido naquele tempo em Bissau... O nosso amigo historiador guineense queria dizer "olheiro", apontador, capataz... Já corrigimos o poste:

https://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/2006/02/guine-6374-dlxxxvi-simbologia-de.html
________________


olheiro | s. m.

o·lhei·ro 1
(olhar + -eiro)
substantivo masculino
1. Pessoa que observa com objectivo de transmitir informações a alguém. = CAPATAZ

2. Vigilante de trabalhos. = INFORMADOR, OBSERVADOR

3. Pessoa que tem como actividade observar desportistas, especialmente no futebol, para descobrir novos talentos ou tácticas (ex.: ela foi olheira do clube durante vários anos).

4. [Brasil, Informal] Pessoa que vigia a aproximação da polícia.

5. [Brasil, Informal] Pessoa que tem como actividade vigiar automóveis estacionados ou auxiliar os automobilistas a estacionar. = ARRUMADOR, GUARDADOR


"olheiro", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2020, https://dicionario.priberam.org/olheiro [consultado em 05-03-2020].

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Contrariamente ao que pensávamos inicialmente, o Naci (ou Nassi) Camará (que os serviços da Fundação Mário Soares que fizeram o tratamento do Arquivo Amílcar Cabral nunca identificaram sendo o "nome de guerra" do Inácio Soares de Carvalho), não foi um simples "militante de base"...

Embora com um "low profile", ele teve em 1960/61 e até ser preso, em 15/3/1962 um importante papel no desenvolvimento do PAI/PAIGC, trabalhando em equipa com o Rafael Barbosa (Zain Lopes), sempre em Bissau... onde trabalhava no BNU e vivia com a família.

O seu nome nunca é citado como um dos "históricos" do PAIGC, era um homem discreto, que conseguiu iludir a vigilância da PIDE até março de 1962...

Tabanca Grande Luís Graça disse...

É muito natural que os acontecimentos do 15 de março de 1961 em Angola tenham provocado intranquilidade e medo nas populações civis nos restantes territórios sob administração portuguesa, a começar pela Guiné. Sabíamos que houve gente (famílias) que se começaram a retirar do mato, e inclusive houve mulheres e crianças que regressaram à mnetrópole...

No caso, das poucos brancos, europeus, que lá viviam em 1961... Não sei o que se terá passado com as famílias cabo-verdianas e sírio-libanesas... O que eu desconhecia era a distribuição de armas de guerra (Mausers ?) e granadas de mão pelos civis... Enfim, é uma informação a confirmar por outras fontes. LG

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Veja-se aqui o depoimemto da nossa amiga e membro da Tabanca Grande, Helena Carvalho:

6 DE ABRIL DE 2010
Guiné 63/74 - P6116: O Nosso Livro de Visitas (85): Maria Helena Carvalho, filha do Pereira do Enxalé, localidade onde nasceu há 60 anos, hoje residente nas Caldas da Rainha (Luís Graça)


(...) A Maria Helena nasceu no Enxalé em 1950, se não erro. Saiu cedo de lá, creio que com sete ou oito anos, por volta de 1958, para ir estudar em Bissau e depois na Metrópole. Mas regressava nas férias grandes. As suas memórias de infância (e os seus amigos de infância) estão indelevelmente ligados a esse tempo e a esse lugar.

Os pais acabaram por sair do Enxalé, fixando-se em Bissau, em 1962. Já havia nuvens negras que prenunciavam a chegada da borrasca da guerra. A matéria-prima (a cana de açúcar) que abastecia a destilaria começou a escassear. Os caminhos tornavam-se perigosos. O PAIGC fazia o seu trabalho de sapa. Entretanto, a mãe morreu e a Maria Helena ficou definitivamente entregue aos cuidados dos padrinhos, das Caldas da Rainha.

O património da família ainda lá está, no Enxalé, arruinado. Também tinham prédios em Bissau. Em 1989, a Maria Helena voltou aos lugares da sua infância. Ainda encontrou, no Enxalé, gente que trabalhara para o seu pai bem como amigos de infância. (...)

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Tanto quanto sei, parece que o Elisée Turpin, um dos históricos fundadores do PAI, em 19 de setembro de 1956, conseguiu sempre iludir a vigilância da PIDE (que, de facto, só chega a Bissau em 1957, mas começa logo a fazer estragos nas hostes dos "ingénuos" nacionalistas guineenses quer do MLG quer do PAI...

Temos seis referências, no nosso blogue, a esta "figura histórica".

https://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/search/label/Elis%C3%A9e%20Turpin

Nascido a 23 de Maio de 1930, viveu sempre em Bissau onde foi guarda-livros da Casa Gouveia, entre 1958 e 1964, e depois gerente da ANCAR, até 1973, nunca tendo participado directamente na luta armada.

Anónimo disse...

A Guiné, no "making of" do nacionalismo, e mesmo no tempo da guerra colonial, parece ter sido poupada ao flagelo do tribalismo. ... Isso deve-se muito ao pensamento de Amílcar Cabral... E traduziu-se na hegemonia do PAIGC. Infelizmente com a morte de Cabral vieram ao de cima os velhos ressentimenos contra a "minoria cabo-verdiana"... E Spinola exacerbou-os... Não se pode "brincar" com a "caixinha de Pandora", a vingança dos deuses. .. Luis Graça

Antº Rosinha disse...

Leu-se aqui algures que nesta altura da criação do PAIGC, havia mil e tal caboverdeanos em Bissau (menos de 2000).

Não eram muitos, se formos ver havia muitos mais em Luanda, estavam espalhados por todas as repartições públicas, e não era a nível de contínuo, desde chefes de posto, judiciária, caminhos de ferro, portos, etc., e embora Amilcar Cabral tenha colaborado com o MPLA, não constava que os caboverdeanos alinhassem com o MPLA, ou os outros.

Admiravam sim Amilcar Cabral, mas pelo sucesso e nomeada internacional do seu patricio, mas era notório que não alinhavam com as suas ideias (uma enorme maioria).

Creio para mim, que acontecia o mesmo com uma maioria dos mil e tal que residiam na Guiné.

É de recordar, o comportamento dos caboverdeanos, em Luanda, quando em Março de 61 rebenta o terrorismo da UPA no norte de Angola, houve uma formação de forças voluntárias armadas, deslocadas para a protecção da colheita do café nas fazendas do norte de Angola, e grande parte dessa força voluntária era formada por caboverdeanos.

Embora "caladinhos" os caboverdeanos, como grande parte dos portugueses ultramarinos (portugueses durante 500 anos apenas)brancos de 2ª, e mestiços, e negros escolarizados, todos se consideravam muito mais competentes do que os portugueses, caputos, matarruanos, atrazados...para governar aquilo.

Hoje e naquele tempo eu tambem concordava com eles, mas não era naquela altura, uma independência.

E também não duvido que se Salazar, ou seja nós os "tugas", se em 61 ou 63 dissessemos ao Amilcar, queres a Guiné ? toma lá!, nesse momento não eram apenas 5 tiros, o seu fim.

Assim como o fim dos caboverdeanos em Bissau não tinha sido só em 14 de Novembro de 1980.

Fernando Ribeiro disse...

Antº Rosinha, Luís Graça e "tutti quanti",

Em Angola os cabo-verdianos eram numerosos, não só em Luanda, mas também no interior. Muitos deles ocupavam postos intermédios na administração, na polícia, nos bancos, nos correios, etc., mas quase sempre abaixo dos brancos e acima dos negros. A opinião que os angolanos negros manifestavam em relação aos cabo-verdianos era péssima. Não podia ser pior. Os angolanos negros viam no cabo-verdiano um aliado das forças de repressão, um racista julgando-se superior por ter uma pele mais clara, um arruaceiro que puxava de uma faca sempre que havia rixa, um bufo da PIDE, etc. Não adiantava dizer a um angolano negro que nem todos os cabo-verdianos eram tão maus como os pintavam. Respondiam-nos que TODOS os cabo-verdianos eram assim. Não havia meio de os convencer do contrário.

O cantor angolano Rui Mingas musicou e gravou um poema de Mário António de Oliveira, que era mestiço, em que os cabo-verdianos são identificados como "os imigrados das Ilhas". A canção de Rui Mingas pode ser ouvida neste vídeo do Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=VaM2dNkDKPQ.

A força voluntária armada referida por Antº Rosinha era a OPVDCA (Organização Provincial de Voluntários para a Defesa Civil de Angola), uma força paramilitar criada com o propósito de defender as fazendas de café e outros bens de brancos, ameaçados pela UPA no norte de Angola. Embora fosse uma força armada, a OPVDCA dependia diretamente do governador-geral de Angola e escapava totalmente ao controle das Forças Armadas Portuguesas. Eu sei muito pouco sobre esta organização, apesar de ter passado muitas vezes à porta de um seu quartel existente na região dos Dembos (numa localidade chamada Quicunzo), quartel este que parecia um forte do Faroeste, só faltando os índios. Eu não sei qual era a relação entre a tropa e a OPVDCA no restante território angolano. Até admito que fosse boa. Mas nos Dembos ela era total e completamente inexistente. O brigadeiro que comandava o Setor Dembos, ou Área Militar N.º 1 (AM1), não podia vê-los nem pintados. Nós, militares, passávamos em coluna diante do quartel da OPVDCA sem sequer abrandarmos, deixando o sentinela deles mergulhado numa nuvem de poeira.


Fernando de Sousa Ribeiro, ex-alferes miliciano da C.Caç. 3535, B.Caç. 3880, Angola 1972-74