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quarta-feira, 1 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28147: Historiografia da presença portuguesa em África (533): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (1): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)




1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 15 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
Recorrendo à fantasia, aí quando eu tiver 105 anos dá-me um treco em plena Biblioteca da Sociedade de Geografia, de onde não posso desandar, há sempre uma reminiscência guineense que espera por mim. Pretendia arrumar e preparar volume com as grossas centenas de páginas da papelada do Boletim Oficial e derivar para outras leituras e escritos e, como nos contos de Sherazade, a Dra. Helena Grego lembrou-me que há muitas mais leituras a fazer em terreno ignoto, referindo-se ao apreciável volume de publicações naquela biblioteca onde de poderão catar relatos de estrangeiros sobre a Guiné. E pôs-me em cima da secretária Le Tour du Monde. Não resisti, começo hoje o relato do Capitão Brosselard, em finais de 1887 foram-lhe atribuídas as funções de comissário do lado francês para a demarcação das fronteiras. Morreu prematuramente, deixou-nos um relato digno de ser visitado e as imagens de Le Tour du Monde são por vezes de uma beleza inexcedível. Os dados estão lançados, vamos ver se me aguento no balanço.

Um abraço do
Mário


A Guiné vista por estrangeiros - I:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (1):
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

Tenho uma confissão a fazer ao leitor. Concluída a pesquisa a mais de 100 anos do Boletim Oficial da Província da Cabo Verde e Costa da Guiné até à Província da Guiné, projetei começar a sistematizar as cerca de 500 páginas de material compulsado, é certo que não passa de uma ferramenta auxiliar para estudiosos de várias procedências, e deixar as investigações sobre a Guiné em banho-maria. Conversando com a Dra. Helena Grego, uma bibliotecária devotada, que me tem dado apoio sistemático nos últimos quinze anos, e dando-lhe conta de que queria agora fazer uma investida no mundo da ficção, reagiu, nem pensar, tem ainda muito trabalho aqui para fazer, nunca se fez o levantamento dos últimos séculos de como autores estrangeiros viram a Guiné. Sugiro que comece pelo artigo assinado pelo Capitão Henri Brosselard-Faidherbe (1855-1893), que coordenou a primeira comissão de demarcação de fronteiras pelo lado francês, logo em 1888, ele foi também sócio correspondente da Sociedade de Geografia de Lisboa, à semelhança do Tenente da Armada Real Eduardo João da Costa Oliveira, que coordenava pelo lado português essa primeira comissão de demarcação de fronteiras, ele era o sócio n.º 1878 da Sociedade de Geografia de Lisboa (o relato do Tenente da Costa Oliveira fará parte do meu livro "Guiné Bilhete de Identidade, Tomo II, Da Pequena Senegâmbia à Guiné Portuguesa").

Vamos ver se tenho arcaboiço para tal expedição, desconheço as toneladas de papel que me podem estar reservadas, e sabe-se lá em que idiomas. À secretária, recebo três tomos da Revista Le Tour du Monde, de facto só o relato do Capitão Brosselard se prende especificamente com a Guiné Portuguesa, nos outros dois volumes são tratados os temas da Terra dos Bagas e do Rio Nulo e também do Futa-Djalon. Vou então lançar-me ao trabalho, peço desculpa ao leitor se a minha tradução for manhosa.

1 - No ano de 1887, as Câmaras francesa e portuguesa ratificaram uma Convenção relativa à delimitação das possessões franco-portuguesas da costa ocidental de África. Antes da assinatura da Convenção, os territórios ditos Rios do Sul do Senegal, compreendidos entre Dakar e a Serra Leoa, estavam submetidos à autoridade da França ou reconhecida a sua soberania, à exceção de Bathurst, na Gâmbia e de alguns entrepostos portugueses disseminados entre o Casamansa e o rio Grande de Bolola.

Na região dita dos Bijagós, os estabelecimentos franceses e portugueses, cuja origem remonta a um passado longínquo, achavam-se muitas vezes na orla costeira, encravados uns nos outros. Esta situação não deixava de criar dificuldades entre os comerciantes e as autoridades das duas nações.

A Convenção franco-portuguesa teve por objetivo pôr termo a estas situações, reconhecendo os direitos dos portugueses na região onde estavam agrupados os seus entrepostos de Cacheu, Farim, Bissau, Geba, Buba e Bolama. Ziguinchor, no Casamansa, foi entregue à França.

O território português denominado Guiné Portuguesa, constituía um enclave no meio do enorme território que está submetido à França ou dependente da sua soberania. O rei de Portugal fez o reconhecimento do protetorado estabelecido pela França no território do Futa-Djalon, na sequência dos tratados feitos com os almamis (líderes) em 1881.

Em finais de 1887, o Governo português exprimiu desejo de que o tratado fosse aplicado sem demora e os dois Governos concertaram-se para a constituição de uma comissão de delimitação de fronteiras. Em dezembro de 1887, o Capitão Henri Brosselard-Faidherbe, oficial às ordens do Ministro da Marinha, foi designado para as funções de comissário do Governo francês. É o relato da sua última viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa que temos o privilégio de poder oferecer aos leitores.


2 - Em dezembro de 1887, organizei a missão que me fora confiada, tendo como adjunto o Tenente de Infantaria Clerc e o Sr. Galibert, publicista, que outrora tinha procurado fazer fortuna na costa de África, veio oferecer-me os seus serviços, que eu aceitei.

Desembarcámos em Dakar a 13 de janeiro. No Senegal o Governador designou o Dr. Noury, médico da Marinha, para se juntar à comissão. De regresso a Gorée, ocupei-me a organização minuciosa da exposição. Confecionaram-se modelos específicos de tendas, camas e outros objetos destinados aos oficiais, bem como trinta caixas de forma cúbica, com 40 cm de cada lado. Dois carregamentos deviam subir o curso do rio Geba e outros dois igualmente deviam ser agrupados no curso do rio Cacheu. A comissão devia estar munida de um bote.

Em 26 de janeiro partiu-se de Dakar num aviso (um navio pequeno e rápido) com pessoal indígena, os carregamentos e bagagens. A comissão portuguesa era composta do Tenente Costa Oliveira, Tenente da Armada Real, o Sr. Cabral, antigo Secretário-Geral, e o Sr. Bacelar, Capitão de Cavalaria e especialista em topografia. Durante alguns dias visitou-se Bolama e arredores.


3 - A capital da Guiné Portuguesa situa-se na ilha do mesmo nome, a extensão é de 8 milhas de leste a oeste por 3 ou 4 milhas de norte a sul.

Tem uma rica vegetação e possui árvores comercialmente muito procuradas. O desembarque faz-se sem recurso a um pontão. Para chegar a terra, os europeus são obrigados a desembarcar às costas de um homem. Quanto às mercadorias transportadas nos navios de uma certa tonelagem, é preciso transbordá-las em pequenas embarcações que dão à costa na maré alta e o desembarque faz-se com a maré baixa.

Acima do porto, a vila espraia-se em anfiteatro, sobre uma inclinação suave que desce de uma vasta planura até às margens arenosas. O bairro europeu foi construído em pedra; a maior parte das casas tem dois andares e são revestidas de telhas.

O porto, na maré alta, acha-se a dez metros do grande estabelecimento da casa Maurel e Prom; mas na maré baixa mais de duzentos metros separam a água do cais, são duzentos metros de terreno lodoso com restos de barros e detritos.

O bairro indígena está construído na parte norte; as casas são construídas em adube, cobertas de palha que é retirada na época seca para se evitarem os incêndios. O Governador está instalado num edifício que se destaca pelo seu aspeto elegante e bem conservado. Uma capela pitoresca envolvida por um caramanchão de folhagem ergue-se numa colina da vila, bem perto um hospital de construção simples montado em pilares; na mesma colina construíram-se recentemente casernas.

A população da ilha estava estimada em 3.730 habitantes, compõe-se de europeus, mestiços e pretos; os europeus serão em número de 150, os mestiços cerca de 1.000. A guarnição é de cerca de 400 homens. Em Bolama está metade desse contingente composto em grande parte de angolanos enquadrados por europeus.

Os portugueses só tomaram posse de Bolama em 1870; o concelho de Bolama inclui a ilha das Galinhas, as duas ilhas estão separadas por um canal com cerca de 3 milhas. Nas águas das duas ilhas são abundantes as tartarugas e a pesca é bastante lucrativa.


Praia de Bolama: Porto Beaver, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia
Territórios franceses da Senegâmbia e do Sudão, com destaque para a Guiné Portuguesa
Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Carregadores e guias, desenho de E. Ronjat, segundo uma fotografia
Ataque de abelhas, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia
O rio Grande do Geba, desenho de P. Langlois, segundo uma fotografia
Interior do estabelecimento comercial Maurel e Prom em Bolama, desenho de Taylor, segundo uma fotografia
Carta do território francês do Casamansa e distrito do Cacheu, feita pelo Capitão Henri Brosselard, dá perfeitamente para ver a região do Casamansa que detinha presença portuguesa, com sede em Ziguinchor, e que nos foi surripiada pela Convenção Luso-Francesa de 12 de maio de 1886. A República do Senegal vive em permanência a rebelião do Casamansa, por razões fortemente étnicas, os povos do Casamansa, Djolas, não querem pertencer ao Senegal.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 24 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28129: Historiografia da presença portuguesa em África (532): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1974, depois do 25 de abril (91) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28115: Notas de leitura (1929): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (4): VII - A Viagem do Tangomau e VIII - As investigações sobre a Senegâmbia e algo mais (Mário Beja Santos)

CONGRESSO INTERNACIONAL
DAS GUERRAS AO PÓS-25 DE ABRIL
Os Militares em Territórios em Conflito
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
De 2 a 4 de abril de 2025


A biografia de um combatente:
O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História

Mário Beja Santos

VII - A Viagem do Tangomau

Este é o título do livro que escrevi, autobiográfico, onde conto a minha preparação militar, as unidades que percorri antes de partir para a Guiné, relato a minha vida na comissão militar com as populações de Missirá e Finete e depois na intervenção junto do batalhão de Bambadinca; no regresso dei instrução em Mafra, fiz os meus estudos académicos, tornei-me funcionário público, um técnico da política dos consumidores; por esse facto foi me pedido para fazer cooperação na Guiné, experiência por um lado aliciante por outro profundamente dececionante por se ter revelado que a administração guineense e os seus governantes eram incapazes de assumir a responsabilidade que lhes cabia no protocolo entre dois países. Isto passou-se em 1991, e como vos disse atrás, em 2006 passei a devotar-me à escrita sobre temas guineenses.

Ainda hoje sinto uma profunda comoção quando releio o que escrevi em "A Viagem do Tangomau". Desembarco em Bissau de madrugada, logo me encheu as narinas aquele cheiro específico que eu dizia no passado que era um misto de morangos apodrecidos e de terra capinada, não senhor, como me recordou o Sr. Sabino, o motorista da Embaixada de Portugal na Guiné-Bissau, neste cheiro penetrante há gafanhotos mortos e a goma das acácias floridas. Na manhã seguinte, saí da pensão e dirigi-me às ruínas do Palácio Presidencial, era um verdadeiro escombro, subi a escadaria até ao salão de festas, tudo enegrecido pelo incêndio, portas roubadas, vidros partidos; tomei uma bica no Café Império, uma boa pastelaria, com ressonância às guloseimas portuguesas; desci a Avenida Amílcar Cabral, subi à Pensão Central, fui dar um beijinho à avó Berta, que se deslocava com o seu andarilho, ficou combinado no dia seguinte que lá ia almoçar o prato guineense que mais aprecio, o pitche-patche de ostras. Apresentei-me na Embaixada, depois de ter trocado dinheiro no Bissau-Velho. Já tinha à minha espera uma série de pessoas para lhes entregar as encomendas recebidas em Lisboa, havia ainda uma ronda de telefonemas para convocar vários destinatários a quem devia entregar camisas, perfumes, volumoso correio. Conversa com o Embaixador, afabilíssimo, iremos almoçar à Pensão Central. E à tarde tenho pela frente viagens por bairros ínvios, esconsos e labirínticos: Bairro Militar, Bairro Bissaque, Bairro Missirá, Bairro Quelelé. A visita mais demorada será no Bairro Missirá à Maria Fausta, a mulher do meu querido amigo Abdu.

Jantei no Bissau-Velho com Patrício Ribeiro, o empresário que trabalhada desde há muito na Guiné, passou gente conhecida. No dia seguinte fui entregar todas as cartas da então Guiné Portuguesa, obra dos serviços geográficos do exército, conversei com alguns investigadores, deliciei-me com o pitche-patche, a avó Berta muito zangada por eu não ter ficado lá a dormir, tive que lhe dar a minha palavra de honra que no regresso da viagem aos sítios onde combatera e depois de me despedir dos meus antigos soldados, regressaria a Bissau e lá dormiria.

Não posso cansar-vos com esta narrativa da viagem, o Sr. Sabino levou-me a Bambadinca, pelo caminho não escondeu que se sentia muito intrigado, deste a independência que era motorista da Embaixada, nunca lhe tinha aparecido pela frente a missão de levar um ex-combatente a ir ver os seus antigos soldados. Como disse, fiquei em Santa Helena, num sítio chamado Bairro Joli, um ponto alto com uma vista deslumbrante sobre a outra margem do rio Geba, ali sentado o meu olhar percorria Finete a Mato de Cão. Visitei demoradamente Missirá, escuso de dizer que houve choradeira, fui até Gambiel, aí se passou uma das maiores surpresas, tinha combinado com um motociclista, de nome Alasana Sori, originário da Guiné-Conacri o serviço diário, ele condutor eu passageiro, revelou-se um condutor exímio, chegados a Gambiel, vejo alguém a avançar para mim e a dizer-me tu és o nosso alferes, eu sou o Ieró Baldé, do pelotão de milícias de Missirá, nunca te esqueci. Vamos os dois de mão dada até ao palmar de Gambiel, era no tempo da guerra um verdadeiro Éden, cometeu-se o crime de cortar o rio, abateram-se as palmeiras, desfez-se o encanto daquela natureza prodigiosa. Para não vos cansar mais, digo-vos que vi praticamente tudo o que tinha sonhado rever: Bambadinca, Xitole, Finete, Enxalé, Madina e Belel, Canturé, do Xime fui até à Ponta do Inglês, foi aqui que descobri que me faltava visitar vários acampamentos do PAIGC que se estendiam do rio Corubal até ao Xitole, nas matas de Fiofioli, Mina e Corubal. E há o inesquecível almoço com os meus bravos, pedi para que se fizesse folaré, carne com costela de vaca, muitos legumes, muita batata inglesa, muito molho, um fartote de laranjadas, pedi uma sobremesa de talhadas de papaia e bolos de amendoim, tomei a palavra para lhes agradecer a lealdade que tinham tido para comigo, toda aquela dedicação que eu guardava como um sentimento, eles ficariam na minha vida como um dos acontecimentos mais extraordinários da minha existência.

Assim decorreu a viagem do Tangomau, no final de 2010, foi como que uma catarse, a viagem da despedida tinha também outros significados, uma verdadeira reconciliação. E de 2010 até ao presente essa reconciliação traduziu-se numa torrente de escrita.



VIII - As investigações sobre a Senegâmbia e algo mais

De vez em quando, ainda em plena atividade ou já com o estatuto de reformado, nas obras de ficção também imiscuí a Guiné. Quando escrevi "Um Escafandrista nas Nuvens", a história do romancista de romances de amor para seniores entre os 60 e os 90 anos, aparecia um almoço com os bravos do pelotão, o protagonista, o escritor Gil Santiago, preparara uma bacalhauzada para todos os seus soldados residentes em Lisboa e nos arredores, festa rija, com muitas recordações e promessas de reencontro, no fundo era a minha realidade a superar a ficção, dos oito presentes já partiram sete, só me resta o Abudu, que conheci em Missirá em criança, está hoje na casa dos 60 anos; no romance a "Rua do Eclipse", a trama passa pela relação de dois cinquentões que se encontraram em Bruxelas, ele como técnico português ela como intérprete belga, toda a comissão militar dele na Guiné é descrita num livro feito de correspondência a dois.

Em cooperação, escrevi "Da Guiné Portuguesa à Guiné-Bissau: um roteiro", tomei gosto em frequentar bibliotecas e arquivos, quase que acampei na biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa, e também na biblioteca do CIDAC, esta depositária de documentação fundamental para estudar a luta da independência e a governação de Luís de Cabral, escrevi então "História(s) da Guiné Portuguesa e da Guiné-Bissau", fiquei-me por 2014, tinha tomado posse o Presidente da República que cumpriu completamente o seu mandato, José Mário Vaz; passei um ano no então Arquivo Histórico do Banco Nacional Ultramarino, os relatórios dos chefes de delegação que recebiam instruções para, em termos sigilosos, e depois de elencarem os problemas económicos e financeiros da região fazerem uma apreciação da situação política, escrevi "Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba". Num alfarrabista encontrei um livro de um poeta popular, antigo combatente da Guiné, ali fizera comissão entre 1963 e 1965, a sua lírica galvanizou-me e deu-me a ideia de escrever um livro que ia respondendo taco a taco às suas itinerâncias desde a recruta à passagem à disponibilidade, de novo aproveitei referências da imensa literatura produzida sobre aquela guerra, desde romance, conto, novela, poesia, memórias, e nesta parceria foi dado à estampa "Nunca Digas Adeus às Armas".

Para pôr termo a esta viagem sobre as minhas investigações, lancei-me num projeto ambicioso, de que estou a meio: elaborar, por seriação diacrónica, do século XV ao século XX, um género de antologia com textos uns que se podem classificar como determinantes ou incontornáveis, outros possuidores de raro vigor testemunhal, sobre a presença portuguesa desde o tempo em que os navegadores e cartógrafos portugueses denominavam a região por nomes vagos, inconclusivos e até bizarros, como Etiópia Menor, Rios da Guiné de Cabo Verde, Terra dos Negros, Grande Senegâmbia, Pequena Senegâmbia, Alta Senegâmbia – este termo Senegâmbia foi usado e abusado até ao século XIX, sobretudo para referir um vasto território da costa ocidental africana entre o Cabo Verde continental e a Serra Leoa.

Não escondo que se trata de um trabalho laborioso, neste momento já está publicado o Tomo I intitulado"A Presença Portuguesa na Senegâmbia", trabalho agora no Tomo II "Da Pequena Senegâmbia à Guiné Portuguesa". Quero relevar que muitos dos meus apontamentos sobre esta matéria ou vou publicando no blog Luís Graça e Camaradas da Guiné, sem margem para dúvida, o blog mais influente para ex-combatentes na então Guiné Portuguesa, o seu acervo fotográfico é único no país e que encerra uma miríade de testemunhos de incalculável valor.

Espero continuar a estudar e investigar, da análise que faço à multiplicidade de investigações que se fazem sobre a Guiné, detetei a existência de duas lacunas: puro desconhecimento do Boletim Oficial dos últimos cem anos da colónia; e continuar a não se saber quem e quando, ao nível de olhares estrangeiros, se pronunciou sobre a Guiné desde a época que antecedeu a convenção luso-francesa de 12 de maio de 1886 até ao período anterior às lutas pela independência.

Não me sinto capaz de me abalançar com um Tomo III de "Guiné, Bilhete de Identidade", continuam por preencher graves lacunas respeitantes às governações de Vasco Rodrigues e Arnaldo Schulz, (só deste último era mais que devida uma tese de doutoramento) e falta o enquadramento de política externa, parece saber-se tudo das relações do Estado Novo com os seus aliados e as suas tomadas de posição nas Nações Unidas, mas ninguém se interroga como e porquê usávamos armamento e munições do Estado de Israel (que teve inicialmente uma posição benevolente com o colonialismo português) e porque razões o Estado Novo manteve relações diplomáticas ao nível de Embaixada com Cuba, quando estes cediam apoio técnico e preparação militar ao PAIGC e, mais tarde tropas e armamento ao MPLA, antes e durante a guerra civil de Angola. São estudos indispensáveis para dimensionar a história militar da Guiné do lado português e a natureza de relações internacionais que eram camufladas ou puramente omitidas à opinião pública.

Muito obrigado pela vossa atenção e estou pronto para responder às vossas interpelações e comentários.

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Notas do editor:

Vd. posts anteriores de:

8 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28001: Notas de leitura (1920): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (1): I - À guisa de apresentação do ex-combatente e II - Foi assim que cheguei ao Cuor (Mário Beja Santos)

15 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28022: Notas de leitura (1923): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (2): III - O que eu sei da guerra que estou a travar e IV - O conhecimento da morte, Missirá devastada, o desafio de lhe dar nova vida (Mário Beja Santos)
e
12 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28093: Notas de leitura (1927): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (3): V - Depois do Cuor, seguiu-se a intervenção em Bambadinca e VI - O primeiro regresso à Guiné, 1990/1991, o início da escrita (Mário Beja Santos)

Último post da série de 15 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28102: Notas de leitura (1928): "Coragem, Altruísmo e Fé", por Rosalina Coelho Vaqueiro; Chiado Books, 2025 (2) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Guiné 61/74 - P27268: Notas de leitura (1843): "Vestígios Portugueses no Senegal", edição da Embaixada de Portugal em Dacar, 2008 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 5 de Novembro de 2024:

Queridos amigos,
Certamente que não passa de mera curiosidade, havendo, no entanto, de reconhecer que todas estas referências alusivas a património português se devem a presença multissecular, a ilha de Gorée foi paradoxalmente ponto de venda de escravos e lugar de retempero para navegadores; estudiosos portugueses como Teixeira da Silva Mota, Carreira, Silva Horta, Costa Dias, entre outros, estudaram a presença luso-africana neste ponto da então Senegâmbia, onde podemos incluir judeus e cristãos novos até ao início do século XVII; um historiador francês que aqui já se fez referência, Jean Boulègue também estudou esta expressão da luso-africanidade, que podemos situar entre o fim do século XVI até ao século XVII, autores de viagens como André Álvares de Almada e Francisco Lemos Coelho deram nota dessa presença; o padre jesuíta Baltasar Barreira pregou em Joal e Portudal, no século XVIII eram já só uma memória e os últimos luso-africanos na Senegâmbia viviam no século XIX em Joal. É uma curiosidade mas faz parte do nosso itinerário pelas partidas do mundo.

Um abraço do
Mário



Vestígios Portugueses no Senegal

Mário Beja Santos

Trata-se de uma edição da Embaixada de Portugal em Dacar, 2008, e merece atenção o texto com que o embaixador António Montenegro apresenta a obra:
“Olhando uma panorâmica aérea de Gorée, por exemplo, a primeira imagem desta obra, como o navegador Dinis Dias em 1444 não viu certamente, parece-nos ver uma miniatura de África, com o grande e côncavo golfo da Guiné retido na pequena enseada da ilha, onde muitos navegadores, portugueses, holandeses, ingleses, franceses, sossegaram dos perigos do mar e gozaram os prazeres da tranquilidade.
Quando os navegadores portugueses encontraram esta pequena ilha, a que chamaram ilha da Palma, estavam sôfregos do Oriente, onde queriam chegar depressa. Mas só chegaram ao Oriente mais de cinquenta anos depois, em 1498, com Vasco da Gama. Gorée, então ainda Palma, ficou sempre, nos dois séculos de presença portuguesa, como lugar de repouso, de encanto, de aguada para naus e navegadores recuperarem forças.
Poderá assim dizer-se que os portugueses anteciparam Gorée e a ‘petite côte’ mais a Sul, como lugar de turismo. Mal imaginavam os portugueses que, continuando pela costa de África, avistando e dobrando o Cabo da Boa Esperança, no extremo Sul, subindo a costa Leste, iam encontrar uma outra pequena ilha, a ilha de Moçambique, simétrica de Gorée. Ilha de Gorée e Ilha de Moçambique, ambas Património da Humanidade.
Na sua passagem pela Costa Ocidental de África que hoje é o Senegal, os portugueses deixaram marcas na designação geográfica (Pikine, Roufisque, Portudal, Cap Vert, Almadies, Casamanse, Ziguinchor, etc.), mas deixaram sobretudo uma serena imagem de gente do lado de cima do mar, se sente bem em toda a parte do mundo no meio de toda a gente.
Foram os cartógrafos portugueses quem desenhou os primeiros mapas do território que hoje constitui o Senegal.”


Selecionámos um conjunto de imagens que se prendem com a ilha de Gorée, de construções onde é patente a arquitetura portuguesa; a publicação inclui um conjunto de artigos alusivos à história da Igreja Católica no Senegal, aos luso africanos da Senegâmbia, e também um interessantíssimo artigo de António Carreira referente a aspetos da influência da cultura portuguesa na área compreendida entre o rio Senegal e o Norte de Serra Leoa. Penso que tem muito interesse referir algumas dessas designações: Pikini, de pequenino ou pequeno; Pintade, pintada, ou seja, a galinha do mato ou galinha da Índia; Portonké, é vocábulo composto de porto, abreviatura de Portugal mais o sufixo de origem ou procedência, da língua Mandiga, Nké, homem: homem do porto, ou seja, homem de Portugal; Portugalais, designação dada ao mestiço de origem ou de língua portuguesa; Almadie, do árabe al-madia: difundido pelos portugueses. Usado com o significado de canoa ou piroga; Argamasse, de argamassa, usado para significar barro amassado; Cebessaire, de cabeceira. Usado com o significado de: o que vai (ou está) à frente (o guia); Cheval marim, de cavalo-marinho ou hipopótamo; Cobra, de cobra; Conta de terra: colares que servem de adorno; Coutumes, de costumes. Utilizado com mais frequência para definir direitos de tráfego, impostos, tributos que, outrora, os régulos exigiam para consentir na passagem ou no estacionamento de negociantes europeus ou mestiços nos seus territórios.

Outro aspeto muito curioso da publicação é a indicação de nomes de origem portuguesa de famílias senegalesas que se encontraram na lista telefónica de Dacar, são exemplos: Alcântara, Alexandre, Gomis, Monteiro.


Ilha de Gorée
Mapa manuscrito de Casamansa, cerca de 1800.
Pela convenção de 12 de maio de 1886 entre Portugal e a França, Casamansa passou para a administração francesa
Comissariado de polícia, construído no local onde existiu a primeira capela e cemitério portugueses em Gorée
Casas de traça portuguesa, São Luís (antiga capital)
Saly Portudal, construção sobre fortim português
Casa da traça portuguesa, Ziguinchor, Casamansa
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Nota do editor

Último post da série de 27 de setembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27259: Notas de leitura (1842): "Os Có Boys (Nos Trilhos da Memória)", de Luís da Cruz Ferreira, ex-1º cabo aux enf, 2ª C/BART 6521/72 (Có,1972/74) - Parte I: Apresentação sumária (Luís Graça)

sexta-feira, 12 de setembro de 2025

Guiné 61/74 - P27212: Notas de leitura (1837): Para melhor entender o início da presença portuguesa na Senegâmbia (século XV) – 11 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 20 de Agosto de 2025:

Queridos amigos,
Convém recordar o móbil que acompanhou esta compilação de textos, os três volumes de Documentos da Expansão Portuguesa, organizados pelo Vitorino Magalhães Godinho. Falamos aqui no blogue sistematicamente na Senegâmbia, parecia-me, estou em crer, uma descrição das nossas navegações e explorações da costa para se percecionar o que se entende por Grande Senegâmbia. Não é por acaso que aqui se mostra uma carta de 1680, oriunda de França. Não dispúnhamos de meios para fazer comércio em todas as rias e rios, cedo começou a concorrência, e depois da Restauração o país foi confrontado com a dura realidade, ocupava-se, e tenuamente, a Pequena Senegâmbia, franceses e britânicos tinham ocupado vastos territórios que constituem hoje, grosso modo, o Senegal, a Gâmbia, a Guiné Conacri e a Serra Leoa. Foram invocados os principais documentos referentes a esta digressão, há este ou outro ponto que se tratará separadamente, é o caso dos Fulas do Senegal, artigo de Teixeira da Mota.

Abraço do
Mário



Para melhor entender o início da presença portuguesa na Senegâmbia (século XV) – 11

Mário Beja Santos

Entra-se no derradeiro capítulo do livro Documentos sobre a Expansão Portuguesa, Volume III, organizado por Vitorino Magalhães Godinho. O historiador procede aqui ao levantamento documental com referência às navegações na costa ocidental africana, antes e depois da morte do Infante D. Henrique, fica-se agora com uma imagem do que se podia considerar a Grande Senegâmbia, do século XV para o século XVI, entre o continental Cabo Verde, no norte do Senegal, até à Serra Leoa. Falando desta, diz Duarte Pacheco Pereira no Esmeraldo:
“E muitos cuidam que este nome de Serra Leoa lhe foi posto por aqui haver leões, e isto é falso, porque Pedro de Sintra, um Cavaleiro do Infante D. Henrique, que por seu mandado esta terra descobriu, por ver uma terra tão áspera e brava lhe pôs nome Leoa, e não por outra causa; e isto se não deve duvidar, porque é verdade, porque ele mo disse assim.”

Repetidamente Duarte Pacheco Pereira sublinha que em vida de D. Henrique se descobriu só até à Serra Leoa, o que João de Barros confirma, e até Rui de Pina, importa recordar o que João de Barros referiu a propósito do contrato celebrado com Fernão Gomes:
“… o arrendou por tempo de cinco anos a Fernão Gomes, um cidadão honrado de Lisboa, por duzentos mil reais cada ano. Com a condição de que em cada um destes cinco anos fosse obrigado a descobrir pela costa em diante cem léguas, de maneira que no cabo do seu arrendamento desse quinhentas léguas descobertas. O qual descobrimento havia de começar da Serra Leoa, onde acabaram Pedro de Sintra e Soeiro da Costa, que foram antes deste arrendamento os derradeiros descobridores.”
Magalhães Godinho em nota observa que o historiador Jaime Cortesão aventara a hipótese de que até 1460 não só se teria explorado o Golfo da Guiné, como ainda a Costa de África Meridional, argumentação que foi refutada por Duarte Leite.

Ganha realce o que escreveu Cadamosto na Navegação Segunda acerca do Capitão Pedro de Sintra que navegou de região de Buba até ao Cabo da Verga:
“O que tenho referido é o que eu vi, e ouvi no tempo que andei por estas patas: mas após mim foram outros, e principalmente duas caravelas armadas, que El-Rei de Portugal mandou depois da morte do Senhor Infante D. Henrique, cujo capitão era Pedro de Sintra, escudeiro do Infante, percorreu adiante por aquela costa dos negros a descobrir países novos.”
Cadamosto encontrou Pedro de Sintra em Lagos e falara-se muito sobre aquela terra dos Negros, referindo concretamente a ida até aos Bijagós e ao cabo a que puseram o nome de Cabo da Verga, daqui navegaram ao longo da costa cerca de oitenta milhas, descobriram um outro cabo, era o mais alto que nunca tinham visto, puseram-lhe o nome de Cabo de Sagres, também conhecido por Cabo de Sagres da Guiné; referiu Pedro de Sintra que os habitantes da região era idólatras, adoravam imagens de pau com forma humana, tinham alguns sinais feitos com ferro em brasa na cara e cobriam o sexo com cascas de árvore, não dispunham de armas porque não havia ferro e sustentavam-se de arroz, milho e legumes, havia também carne de vaca e cabra.

Por o mar dentro deste cabo estavam duas ilhas, os seus habitantes dispunham de almadias, muito grandes, em cada uma das quais navegam trinta a quarenta homens. “Tem esta gente as orelhas furadas com buracos por todas elas, em que trazem diversos anéis de ouro uns após os outros, todos alinhados; e também têm o nariz furado no meio em a parte inferior, e nele trazem pendurado um anel de ouro do mesmo modo que entre nós trazem os búfalos: e quando querem comer o tiram, usando dele tanto os homens como as mulheres. Dizem também que as mulheres dos reis e senhores, ou dos homens ricos deste país, todas têm nas suas partes genitais do mesmo modo que nas orelhas alguns furos, em que trazem por dignidade, e como prova de grandeza e estado anéis de ouro, os quais tiram e põe em seu arbítrio.”

Prossegue o relato, já se passou o Cabo de Sagres, avistou-se o rio chamado de São Vicente, escreve-se que a costa é montuosa, e por toda ela há bons surgidouros e bom fundo, passa-se o Cabo Ledo, e depois avista-se a Serra Leoa. “Passada toda esta costa da Serra Leoa, daí para diante é tudo terra baixa, e praia com muitos bancos de areia, que entram pelo mar dentro, e andando coisa de trinta milhas mais adiante da ponta daquela montanha, acha-se outro grande rio largo na sua foz, coisa de três milhas, ao qual puseram o nome de Rio Vermelho.”

Pedro de Sintra faz a descrição do que aqui se avista, passa-se depois além do Cabo de Santana, a seguir o Cabo do Monte, e umas boas milhas adiante há um bosque grande com muitas árvores verdíssimas, ao qual deram o nome de Mata de Santa Maria, vieram até às caravelas pequenas almadias, homens nus que traziam nas mãos paus aguçados na ponta, que pareciam uma espécie de dardos, e alguns estavam armados de uns cutelos pequenos, tendo todos duas adargas de couro com três arcos, não se entendia uma só palavra. Entraram em uma das caravelas e destes três retiveram um os portugueses, e deixaram ir os outros; e isto para cumprir com a ordem d’El-Rei, que lhes determinou, que na última terra onde chegassem, não querendo passar mais avante, se porventura os seus intérpretes não fossem entendidos da gente dela, tratassem de lhe trazer, ou por bem ou por mal, alguns dos negros daquele país, para poder fazer neles averiguações, por via dos muitos intérpretes negros que se acham que Portugal; ou mesmo pelo tempo adiante aprenderem eles a falar português.

Regressou-se a Portugal, o homem trazido falou com diversos negros, e por uma escrava de um cidadão de Lisboa houve entendimento. O que o dito negro referiu a El-Rei, por meio daquela mulher, não se entende bem, exceto que entre outras coisas acharem-se na sua terra unicórnios vivos: e assim o dito Senhor tendo retido alguns meses e feito mostrar muitas coisas do seu reino, dando-lhe algumas roupas, com grandes carícias o fez conduzir de novo por uma caravela ao seu país: e deste último lugar não tinha passado navio algum até à minha partida de Espanha, que foi no primeiro dia do mês de fevereiro de 1463. E assim termina a Navegação Segunda de Cadamosto.

Resumindo as notas de Magalhães Godinho, em 1460, ano da morte do Infante D. Henrique, Pedro de Sintra terá chegado ao Cabo Ledo, só depois é que se descobriu a Mata de Santa Maria; Pedro de Sintra explorou numa primeira viagem, talvez em 1460, o litoral da Terra dos Negros, desde o Rio Geba até à ponta ocidental da Serra Leoa (o Cabo Ledo). A viagem seguinte de Pedro de Sintra terá tido a iniciativa do Rei, Pedro de Sintra esteve mais tarde ao serviço do rico burguês lisboeta Fernão Gomes. Mais observa Magalhães Godinho que numa carta portuguesa de cerca de 1471 se faz referência ao Rio Grande (certamente do Geba), ao Rio Buba e ao Rio Tombali até ao Cabo da Verga. Noutra carta de 1486 já se fala dos Nalus, de palmares, Rio de Nuno e Cabo da Verga; e confronta estas cartas com os textos de Duarte Pacheco Pereira e de Valentim Fernandes, concluindo que a exploração da costa por Pedro de Sintra foi muito sumária.


Vitorino Magalhães Godinho, Ministro da Educação e da Cultura, imagem dos arquivos da RTP, com a devida vénia
Mapa da Serra Leoa, 1732
Mapa de 1899 mostrando territórios dos Biafadas para lá do Geba
Carta de África e das ilhas de Cabo Verde por Sanson, cerca de 1680
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Notas do editor

Vd. post de 5 de setembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27188: Notas de leitura (1835): Para melhor entender o início da presença portuguesa na Senegâmbia (século XV) – 10 (Mário Beja Santos)

Último post da série de 8 de setembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27197: Notas de leitura (1836): O uso do napalm na guerra da Guiné, na Revista de Relações Internacionais de Junho de 2009 (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 5 de setembro de 2025

Guiné 61/74 - P27188: Notas de leitura (1835): Para melhor entender o início da presença portuguesa na Senegâmbia (século XV) – 10 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 14 de Agosto de 2025:

Queridos amigos,
Continuando na companhia de Usodimare e de Cadamosto, pareceu-me útil transcrever o que eles dizem do Cabo Verde continental, isto na Primeira navegação, na Segunda irão referir a descoberta de ilhas do arquipélago, matéria que não é consensual entre os historiadores da expansão portuguesa. A navegação Segunda prende-se com a descoberta das ilhas de Cabo Verde, seguramente que nalguma delas puseram os pés em terra, como mencionam: "Mandei dez homens bem providos de armas e bestas que deviam subir à dita ilha por uma parte onde ela era multuosa e alta, para ver se achavam alguma coisa ou se avistavam outras ilhas. Quando estiveram na montanha, houveram vista de três outras ilhas grandes, das quais não nos tínhamos apercebido." Viajaram depois até ao rio Casamansa. Peço a atenção do leitor para as notas de Vitorino Magalhães Godinho. O próximo e último artigo prende-se com a navegação de Pedro de Sintra. Lembro ao leitor mais interessado que na internet, pondo "relações comerciais com a Senegâmbia nos séculos XV e XVI", encontrar-se-ão textos, alguns deles produzidos em universidades brasileiras.

Um abraço do
Mário



Para melhor entender o início da presença portuguesa na Senegâmbia (século XV) – 10

Mário Beja Santos

Para concluir a Primeira navegação de Usodimare e de Cadamosto, importa fazer referência à questão da descoberta do Cabo Verde, escrevem o seguinte, dando a possibilidade ao leitor de distinguir o Cabo Verde continental das ilhas pretensamente descobertas por eles e que gozam do nome de Cabo Verde:
“Este Cabo Verde chama-se assim, porque os primeiros que o descobriram, que foram portugueses, um ano antes que eu fosse a estas partes, o acharam todo verde pelas grandes árvores que ali se conservam viçosas por todo o ano; e por esta causa lhe foi posto o sobredito nome, assim como o de Cabo Branco àquele de que antes falámos, que foi achado todo arenoso e branco. Este Cabo é muito belo e alto de terreno e tem sobre a ponta duas lombadas, isto é, dois montículos, e mete-se bastante pelo mar dentro: sobre ele e à roda estão muitas habitações de negros, casas de palha, todas junto à costa e à vista dos que passam; e estes negros são ainda do sobredito reino do Senegal. Pegam com ele alguns bancos, que saem pelo mar, quase meia milha; e tendo-o dobrado achámos três ilhas pequenas não muito longe da terra, desabitadas, e abundantes de árvores viçosas, e grandes: pelo que tendo necessidade de água deitámos âncora em uma delas, que nos pareceu maior, e mais frutífera: para ver se ali achávamos alguma fonte; porém descidos em terra não vimos senão um lugar onde parecia nascer alguma água, que não nos pode servir.

Nesta ilha achámos muitos ninhos e ovos de diversas árvores, para nós desconhecidas: e aqui estivemos todo aquele dia pescando com redes e anzóis grandes; e apanhámos infinitos peixes, e dentro deles dentais e douradas grandíssimas do peso de doze a quinze libras cada uma. No dia seguinte partimos fazendo-nos à vela; e seguindo a nossa derrota, navegando sempre à vista de terra, notámos que além de Cabo Verde se mete um golfo para dentro; e a costa é toda terra baixa, e abundante de belíssimas e grandessíssimas árvores verdes, que não perdem a folha em todo o ano, como acontece às nossas; mas nasce primeiro a folha, antes que a outra caia: vão estas árvores até sobre a praia, a um tiro de besta, de sorte que parece que vem a beber no mar, o que é belíssimo para ver: e segundo o que eu entendo, apesar de ter navegado por muitos lugares do Levante e Poente, nunca vi terra mais bela do que esta me pareceu, e é toda banhada por muitos rios e regatos pequenos e de pouca monta, pelos quais não podiam entrar navios grandes.”


E vamos agora iniciar a navegação Segunda, a que vai levantar grande discussão entre historiadores. Dá-se a explicação do acordo estabelecido entre Cadamosto e Usodimare, para armar uma caravela, partiram de Lagos, fizeram-se às ilhas Canárias, vão por aí fora, viajaram pelos rios da Senegâmbia, depois do rio Gâmbia saíram para o mar, viram ser aquela terra muito baixa com árvores verdes e belíssimas, navegaram dois dias pela costa sempre à vista de terra, descobriram ao terceiro dia a foz do rio de razoável grandeza, mas muito menor que o rio de Gâmbia. Foram intérpretes a terra para saber notícias do país, voltaram dizendo que o rio se chamava de Casamansa, era o rio do Senhor de Casamansa que habitava rio acima coisa de trinta milhas, notou-se que do rio Gâmbia até ao de Casamansa eram coisa de vinte e cinco léguas que fazem cem das milhas portuguesas. Findamos aqui a descrição da navegação Segunda.

Passa-se para o capítulo sexto deste volume III, temos a exploração do litoral africano desde o rio Geba até à mata de Santa Maria, fica-se assim com a dimensão daquela área que durante séculos se designou Senegâmbia. O texto invocado por Vitorino Magalhães Godinho é proveniente do Esmeraldo, de Duarte Pacheco Pereira:
“E muitos cuidam que este nome de Serra Leoa lhe foi posto por haver ali leões, e isto é falso porque Pêro de Sintra, um cavaleiro do Infante D. Henrique que por seu mandado esta terra descobriu, por ver uma terra tão áspera e brava lhe pôs o nome Leoa, e não por outra causa. Esta serra tem uma ponta que há o nome Cabo Ledo; e esta serra Leoa se aparta do círculo da equinocial em ladeza oito graus, e estes mesmos graus se levanta ali o polo ártico sobre o círculo do hemisfério… e até aqui descobriu o virtuoso Infante D. Henrique.

Muitos benefícios tem feito o virtuoso Infante D. Henrique a estes reinos de Portugal, porque descobriu a ilha da Madeira em 1420 e a mandou povoar e mandou à Sicília pelas canas de açúcar, que mandou plantar na Madeira, os mestres sicilianos ensinaram a fazer aos portugueses; a qual ilha agora rende trinta mil cruzados de ouro ao mestrado de Cristo; isso mesmo mandou à ilha de Maiorca por um mestre Jácome, mestre de cartas de marear, na qual ilha primeiramente se fizeram as ditas cartas, e com muitas dádivas e mercês o houve nestes reinos, o qual as ensinou a fazer àqueles de que os que em nosso tempo vivem aprenderem; isso mesmo fez povoar as ilhas dos Açores, a que antigamente Górgonas se chamaram, tudo isso este virtuoso príncipe com outras muitas boas coisas tem feito, que escuso dizer, além de descobrir Guiné até à Serra Leoa, da qual serra pusemos aqui a pintura pelo natural por se melhor entender; e aqui faz fim o primeiro livro.”


Recorde-se que Duarte Pacheco Pereira fala das etiópias da Guiné, para o historiador Magalhães Godinho, o Esmeraldo, redigido de 1505 a 1520 (?), não ressuma já a frescura das impressões diretas e singelas, antes respira o ambiente de uma lenda henriquina já formada. Lembra também que a cana sacarina era já cultivada na Andaluzia e no Algarve nos princípios do século XV e foi introduzida no condado de Coimbra pelo Infante D. Pedro. “Não é, porém, inverosímil que D. Henrique tenha contratado mestres da Sicília, não propriamente para ensinarem o fabrico do açúcar, mas para ensinarem aos portugueses os processos mais aperfeiçoados nesse fabrico.”

Como já se referiu, as notas de Magalhães Godinho são a prova provada que mudara a escola historiográfica portuguesa. O cientista não se escusa a clarificar o seu pensamento:
“Vê-se como é tacanho o critério nacionalista, patrioteiro, de que frequentemente tem enfermado a história da expansão nos séculos XV e XVI, e isto não só da parte de Portugueses (em reação, aliás, contra o roubo das suas lídimas glórias de que por vezes tem sido objeto), mas também da parte de Italianos, etc. A história tem de estar acima das paixões locais, regionais, nacionais ou rácicas, ou de classe, porque deve tender à validez universal. Ora, o que as fontes nos mostram é que, como não podia deixar de ser, não só houve estrangeiros a participar nas navegações portuguesas, como ainda estas só foram possíveis pela utilização de um cabedal de conquistas autenticamente internacional. Assim, os barcos portugueses aproveitaram a vela triangular latina, que aparecera no fim da Alta Idade Média, o leme, invenção do século XIII, a vela redonda, que remonta pelo menos ao quarto milénio antes de Cristo, os processos de construção naval que desde o Calcolítico se foram criando e aperfeiçoando; a náutica astronómica, criação portuguesa, é a convergência de descobertas e invenções como a do astrolábio e a das tábuas solares e a do sistema cosmográfico, que ascendem à civilização helénica, passando pelos muçulmanos e judeus medievais; e a bússola, outro instrumento basilar da navegação do mar alto, não vem da longínqua China ou Tartária, não foi adotada e modificada pelos nautas mediterrâneos e destes não é que passou à Península Ibérica? A cartografia portuguesa nasce das cartas mediterrâneas, dos dois grandes centros das Baleares-Catalunha e da Itália, o que não a impediu – antes foi condição, alicerce – de lançar o seu voo próprio.”

Quanto aos seus comentários ao Esmeraldo, recorda Duarte Pacheco Pereira acentua fortemente os lucros que a Nação retirou das navegações; “mesmo que D. Henrique tivesse falecido com défice provocado pelas viagens da sua iniciativa – o que de modo algum está provado – percebe-se claramente que a sua ação podia visar, visava de facto objetivos económicos; é claro que o proveito almejado podia ser não pessoal ou da sua carta, mas o do Reino em geral ou de certos grupos em especial: porque é que se há de erradamente supor que toda a política económica visa o enriquecimento de quem a traça e executa?”

No próximo e último texto concluir-se-á este capítulo do volume III sobre a exploração do litoral africano, falando de Fernão Gomes, de Pedro de Sintra… e das notas sempre preciosas deste grande historiador.


Vitorino Magalhães Godinho, Ministro da Educação e da Cultura.
Imagem dos arquivos da RTP, com a devida vénia
Vista de Praia, Cabo Verde, no século 18. Imagem publicada na obra A Voyage to Cochin China, in the years 1792, and 1793 ... de Sir John Barrow.
(continua)
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Notas do editor

Vd. post de 29 de agosto de 2025 > Guiné 61/74 - P27165: Notas de leitura (1833): Para melhor entender o início da presença portuguesa na Senegâmbia (século XV) – 9 (Mário Beja Santos)

Último post da série de1 de setembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27173: Notas de leitura (1834): "A Corja de Batoteiros", por Rui Sérgio; 5livros.pt, 2019 (2) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Guiné 61/74 - P27165: Notas de leitura (1833): Para melhor entender o início da presença portuguesa na Senegâmbia (século XV) – 9 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 11 de Agosto de 2025:

Queridos amigos,
A despeito de confirmadas imprecisões e erros, as navegações de Cadamosto e Usodimare constituem um documento do mais alto significado: pelo quadro elogioso do Infante D. Henrique e por uma certa cronologia de acontecimentos que levam à exploração da costa ocidental africana; por revelarem designações em termos geográficos comuns na época, caso da baixa Etiópia e da Terra dos Negros; pela descrição do rio chamado Senegal, "antigamente Níger" e pela preciosa descrição que se faz do reino do Senegal, das crenças, trages e costumes, guerras e armamento destes povos. Veremos nos próximos textos o que nos dizem sobre a descoberta de três ilhas de Cabo Verde, assunto polémico, veremos em toda a extensão a navegação segunda e a exploração do litoral africano desde o rio Geba. Não hesito em dizer que se trata de documento fundamental para a história de três países: Portugal, Guiné-Bissau e Cabo Verde.

Abraço do
Mário



Para melhor entender o início da presença portuguesa na Senegâmbia (século XV) – 9

Mário Beja Santos

Este terceiro e último volume de Documentos Sobre a Expansão Portuguesa, por Vitorino Magalhães Godinho, dá um especial realce às navegações de Usodimare e de Cadamosto. Vimos no texto anterior como Cadamosto escreve o encontro com o Infante D. Henrique, segue-se a Navegação Primeira e como chega ao reino do Senegal, escrevendo o seguinte:
“O Primeiro Reino de Negros da baixa Etiópia é este que fica sobre o rio do Senegal; os povos que habitam as suas margens chamam-se Jalofos, e toda esta costa e países acima declarados, é terra baixa, até Cabo Verde, que é a terra mais alta de toda aquela costa. Segundo eu pude perceber, este reino do Senegal confina pela terra a parte de Levante com o país dito Tucurol, da parte do sul com o reino de Gâmbia, do poente com o mar oceano e do norte com o reino acima dito, que extrema os amulatados destes primeiros negros. Neste reino do Senegal não se sucede por herança; mas há diversos Senhores, os quais às vezes por ciúme que têm uns dos outros se ajuntam três ou quatro e elegem um rei a seu modo. Este rei dura o tempo que apraz aos ditos Senhores; e às vezes o depõem à força, e outras ele se torna tão poderoso que se defende deles; o seu Estado não é permanente e firme como é o do Sultão do Cairo; antes está sempre em suspeitas de ser morto, ou expulso. Este rei não é semelhante aos dos cristãos, porque o seu reino é de gente selvagem, e pobríssima, e não é nele cidade alguma murada, senão aldeias com casas de palha.

O rei não tem rendimento certo de tributos, mas os Senhores deste país em cada um ano para o terem amigo lhe fazem presente de alguns cavalos, que são muito estimados por haver falta deles; e não só tem este fornecimento, mas também outros de animais, como vacas e cabras. Mantém-se também este rei com roubos, que manda fazer de muitos escravos, tanto no seu país, como nos vizinhos, dos quais se serve por muitos modos; também vende escravos aos Azenegues e marcadores árabes, que os trocam por cavalos, e igualmente aos cristãos. É lícito a este rei ter quantas mulheres quer, e assim também a todos os Senhores, o rei tem sempre de trinta para cima
[descreve com detalhe a vida familiar e a alimentação daquele povo].

A religião destes primeiros Negros em Maometana; mas não estão bem firmes na sua crença, como os mouros brancos, e principalmente o povo miúdo. Os Magnates passam por Maometanos têm junto de si alguns dos ditos Azenegues, ou Árabes, que acaso aí chegam, e lhes dão alguma instrução, dizendo-lhes que seria grande vergonha serem eles Senhores e viverem sem nenhuma lei de Deus.

Quase toda esta gente anda continuamente nua, e todo o seu vestuário consiste em um couro de cabra posto em forma de bragas, com que se cobrem; porém os Magnates, e aqueles que podem, vestem camisas de pano de algodão, porque naqueles países nascem algodoeiros, e as suas mulheres vestiam algodão, e fazem panos da largura de um palmo, e não sabem fazê-los mais largos, por não terem pentes para tecê-los, e assim cosem quatro ou cinco daqueles panos juntos quando querem fazer algum trabalho largo.

Os homens destes países fazem muitos serviços femininos; como são fiar, lavar panos e outras coisas. Sente-se continuamente um grande calor e quanto mais se caminha para além, tanto maior é; e comparativamente em janeiro não faz tanto frio naquele reino que o não faça maior no mês de abril nestas nossas terras. Os homens, e mulheres deste país são limpos de si, porque lavam todo o corpo quatro ou cinco vezes cada dia; mas no comer são porcos, e sem nenhuma decência; nas coisas de que não têm prática são simples e pouco sagazes: mas nas coisas de que a têm são espertos como qualquer de nós. São de muitas palavras, e nunca acabam de falar, e comummente são mentirosos e enganadores em extremo; apesar disso são caritativos, porque dão de comer e beber a qualquer forasteiro que chegue a sua casa por um jantar, ou uma noite; e isto sem estipêndio algum.

Estes Senhores Negros guerreiam muitas vezes uns com os outros, e também algumas vezes com os seus vizinhos; as suas guerras são a pé, porque há pouquíssimos cavalos que lá não podem viver pelo grande calor; não trazem vestidura de armas pelas não terem, e mesmo pelo grande calor não poderiam suportá-las, somente têm escudos redondos e largos, os quais são feitos de couro de um animal chamado anta, que é duríssimo de penetrar; e para ofender têm quantidades das azagaias, que são uma espécie de dardos ligeiros, e atiram-nos com muita velocidade, porque são grandes mestres disso; têm estes dardos um palmo de ferro lavrado, com barbas miúdas, postas muito subtilmente por diversos modos; e onde entram, ao puxar para fora rasgam as carnes, com aquelas barbas, de maneira que são muito más para ofender; também trazem alguns alfanges mouriscos, à maneira de meia espada turca, isto é, voltadas como arco, e são feitas de ferro sem nenhum aço, porque no reino de Gâmbia de Negros, que jaz mais além, tiram o ferro, de que fabricam estas armas; mas não tem aço como já disse, ou verdadeiramente, se o há onde há ferro não o conhecem, ou não têm indústria para fazê-lo. Usam também de outra arma cravada em uma haste, à maneira de um espontão dos nossos, e não têm outras. As suas guerras são muito mortíferas, por estarem desarmados, e os seus golpes nunca são dados em falso, matando-se como se fossem feras; são muito atrevidos e bestiais, e em qualquer pequeno perigo deixar-se-ão antes matar que fugir, ainda podendo.

Não têm navios, nem nunca os viram, salvo depois que tiveram conhecimento dos portugueses. É verdade que aqueles que habitam sobre este rio, e alguns dos que estão junto ao mar têm umas canoas, isto é, almadias de um pau só, as maiores das quais levam três ou quatro homens quando muito; e com estas vão às vezes a pescar, e atravessam o rio, indo de um a outro lugar; e estes tais Negros são os melhores nadadores do mundo pela experiência do que vi fazer.”


A seguir, Cadamosto vai descrever ao pormenor o país de Budomel.

Passando para outra matéria, iremos nos próximos textos fazer referência às ilhas descobertas de Cabo Verde, à Navegação Segunda de Cadamosto e Usodimare, terminando com a exploração do litoral africano desde o rio Geba até à Mata de Santa Maria.


Vitorino Magalhães Godinho
Alvise Cadamosto apresentado ao Infante D. Henrique
Mapa das Ilhas de Cabo Verde e da Costa da Guiné, 1771
Mapa do Rio Gâmbia e arredores, cerca de 1732

(continua)
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Notas do editor:

Vd. post de 22 de agosto de 2025 > Guiné 61/74 - P27142: Notas de leitura (1831): Para melhor entender o início da presença portuguesa na Senegâmbia (século XV) – 8 (Mário Beja Santos)

Último post da série de 25 de agosto de 2025 > Guiné 61/74 - P27151: Notas de leitura (1832): "A Corja de Batoteiros", por Rui Sérgio; 5livros.pt, 2019 (1) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 22 de agosto de 2025

Guiné 61/74 - P27142: Notas de leitura (1831): Para melhor entender o início da presença portuguesa na Senegâmbia (século XV) – 8 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 31 de Julho de 2025:

Queridos amigos,
Para o melhor e para o pior, estes documentos de Usodimare e Cadamosto são claros reveladores não só da mentalidade e conhecimento científicos do tempo como permitem visualizar como se formou a lenda henriquina, o tal Príncipe de fervorosa cruzada religiosa, de grande sabedoria científica, casto, a viver na Escola de Sagres; e dão-nos a perceber a visão ptolomaica que geria o que se pensava ser a geografia: que aquelas navegações, depois da terra dos pardos (o que hoje se configura a Mauritânia) chegava à Baixa Etiópia, a Etiópia Alta eram as Índias asiáticas, assim pensava por exemplo Duarte Pacheco Pereira, basta ver a descrição de Cadamosto dizendo que o rio Senegal era um ramo do Gion, que nasce no Paraíso Terrestre, a quem os antigos chamavam Níger, e o outro ramo de Gion era o Nilo... podemos assim ver como estas navegações estavam a alterar em profundidade o conhecimento científico, além de interessar os homens de negócios e a inevitável concorrência de castelhanos (mais tarde espanhóis), ingleses, franceses e holandeses.

Um abraço do
Mário



Para melhor entender o início da presença portuguesa na Senegâmbia (século XV) – 8

Mário Beja Santos

Este terceiro e último volume dos Documentos da Expansão Portuguesa, de Vitorino Magalhães Godinho, Edições Cosmos, 1956, põe inicialmente ênfase numa carta de Usodimare, como se referiu no texto anterior, seguindo-se as descrições das navegações de Cadamosto, navegação primeira e navegação segunda. Vejamos o proémio dessa navegação primeira:
“Tendo eu, Luís de Cadamosto, sido o primeiro em a mui nobre cidade de Veneza que me movi a navegar o Mar Oceano fora do estreito de Gibraltar para as partes do meio-dia, nas terras dos Negros da baixa Etiópia; e tendo visto nessa minha primeira viagem muitas coisas novas, e dignas de memória; pareceu-me meritório despender com elas algum trabalho, e transcrevê-las para que aqueles após mim vierem conheçam qual foi o meu ânimo em buscá-las em diversas e novas regiões.

Deve-se saber que o primeiro inventor destas navegações em os nossos tempos, por esta parte meridional do Mar Oceano contra as terras dos Negros da baixa Etiópia, foi o muito ilustre Infante D. Henrique. Deste Senhor Infante D. Henrique, conquanto pudesse dizer muitas coisas notáveis das suas virtudes, tudo calo a só expor que foi todo dado à milícia de Nosso Senhor Jesus Cristo, guerreando os bárbaros e combatendo pela fé. Durante a sua juventude fez grandes proezas guerreando com os mouros, tanto com a sua própria pessoa como pela sua indústria, as quais são dignas de eterna memória: de tal sorte que estando El Rei D. João, seu pai, em artigos de morte, em 1432, chamou o dito D. Henrique, como quem conhecia as suas virtudes, e com afetuosas palavras lhe recomendou aquela escola de cavaleiros portugueses, rogando-o e exortando-o a continuar com o seu santo, real e louvável propósito de perseguir com todas as suas forças os inimigos da santa fé de Cristo; e depois da morte de seu pai, com a ajuda de El Rei D. Duarte, fez muitas guerras na África aos do Reino de Fez, nos quais sendo bem sucedido por muitos anos, procurando por todas as vias danificar o dito Reino; intentou mandar as suas caravelas armadas à Costa de Safim e Messa, que são do mesmo Reino de Fez; e assim as empregou anualmente, fazendo sempre muito dano aos mouros: e solicitando o dito Senhor que navegassem cada ano mais avante, as fez chegar até um promontório chamado Cabo Não.

Desta maneira navegavam até este Cabo as ditas caravelas, e não ousavam passar mais avante; e desejando o dito Senhor que o passassem, assim o determinou em o ano seguinte; porque sendo as caravelas de Portugal os melhores navios de vela que andam sobre o mar, e sendo estes bem providos de todo o necessário, julgava impossível não poderem navegar por toda a parte; fez preparar três caravelas bem aparelhadas do necessário, e guarnecidas de homens valerosos, as quais se fizeram à vela, e vingaram o dito Cabo, navegando pela costa; e tendo caminhado coisa de cem milhas mais para diante sem achar habitação nem gente alguma tornaram outra vez ao Reino; e vendo o dito Senhor que mais nada podia fazer naquele ano os tornou a mandar no seguinte com ordem de passar além mais cento e cinquenta milhas, ou ainda mais, prometendo a todos fazê-los ricos quando voltassem. Partiram, pois, porém, não achando igualmente nada senão areia, sem qualquer povoação, voltaram para trás.

Não obstante isto, o dito senhor crescendo cada vez mais a vontade de querer saber algumas coisas daquelas partes e sítios, tornou a mandar no terceiro ano. Para resumir: tornou-os a mandar por tantas vezes, durante tantos anos que acabaram por achar algumas partes habitadas por árabes que vivem naqueles desertos, e mais além outra geração de gente a que chamam Azenegues: são homens pardos. E determinadamente chegou a descobrir as terras dos primeiros Negros e em seguida, por etapas, as terras das outras gerações também de Negros, diversas coisas, línguas, costumes e crenças, como no decurso deste meu livrinho mais largamente podereis ver.”


O historiador, nas suas imprescindíveis notas, refere quem é Cadamosto, como as suas Navegações foram pela primeira vez editadas em italiano em 1507. Antes da primeira edição circulava em Portugal uma cópia manuscrita, pois Valentim Fernandes aproveita o relato do veneziano nas suas descrições elaboradas 1505 a 1507. Para os homens daquele tempo, distinguiam-se duas Etiópias: a Etiópia Baixa ou Inferior, que começa no Rio Senegal e corre até ao Cabo da Boa Esperança e daqui até ao Golfo de Meca; e a Etiópia Alta ou Superior, que abrange as Índias asiáticas – é assim que Duarte Pacheco Pereira as descreve no Esmeraldo. A Etiópia Baixa é assim uma parte de África, uma terra dos Negros africanos.

O historiador lembra também como se foi montando a lenda henriquina: a sabedoria científica do Príncipe, a ficção da Escola de Sagres, a discussão um tanto bizantina da castidade do Infante, etc. etc.

Revela-se da maior utilidade avançar alguns elementos sobre a navegação primeira, é o que faremos ainda neste texto e no próximo. Cadamosto tinha 22 anos quando saiu de Veneza e chegou ao Cabo de São Vicente, o Infante estadeava na povoação de Raposeira, conversaram e assentou-se num projeto de navegação. Encurtando dos aspetos descritivos, vejamos o que Cadamosto diz do Rio Senegal, antigamente Níger e de como foi descoberto:
“Depois que passámos o Cabo Branco, navegávamos à vista dele por nossas jornadas até ao rio chamado do Senegal, que é o primeiro rio da terra dos Negros, entrando por aquela costa; o qual estrema os Negros dos Pardos, chamados Azenegues; e parte também a terra seca e árida, que é o deserto sobredito, da terra fértil, que é o país dos Negros. Cinco anos antes que eu fizesse esta jornada, foi descoberto o Senegal por três caravelas do Sr. Infante, entraram dentro nele, e trataram amizade com estes Negros; de modo que principiaram logo a comerciar; e assim de ano em ano foram indo lá navios até o meu tempo.

Este rio é grande, e na sua foz tem de largura mais de uma milha; é de bastante fundo, e faz ainda outra boca, um pouco mais avante, com uma ilha no meio, por cujo motivo se mete no mar por duas bocas, e sobre cada uma destas fozes, forma bancos de areia e parcéis pelo mar dentro, quase uma milha: neste lugar cresce e mingua a água todas as seis horas, isto é, a maré enche e vaza no referido tempo, e sobe pelo rio mais de sessenta milhas, segundo a informação que tive dos portugueses, que estiveram com as caravelas por ele acima.

Quem quer entrar dentro dele, deve ir com a maré por causa dos bancos e de parcéis, que estão na sua embocadura; e do Cabo Branco até aqui contam-se trezentas e oitenta milhas; a costa é toda arenosa até junto à barra obra de vinte milhas, é de Azenegues ou Amulatados; e parece-me maravilhoso, que além do Senegal todos sejam negríssimos, grandes, grossos, e bem formados de corpo; e todo o país verde cheio de árvores e fértil: e da banda de cá todos sejam homens amulatados, magros, enxutos, e de pequena estatura; e o país estéril e seco. Este rio, segundo dizem homens sábios, é um ramo do Gion, que nasce no Paraíso Terrestre, o qual foi chamado pelos antigos Níger, e vem banhando toda a Etiópia, e caminhando pelo Poente par ao Mar Oceano, onde desagua, e faz outros ramos e rios além do Senegal: o outro ramo do Gion é o Nilo, o qual passa pelo Egipto, e desemboca no nosso mar Mediterrâneo; e esta é a opinião daqueles que têm viajado à roda do mundo.”


(continua)

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Notas do editor:

Vd. post de 15 de agosto de 2025 > Guiné 61/74 - P27122: Notas de leitura (1829): Para melhor entender o início da presença portuguesa na Senegâmbia (século XV) – 7 (Mário Beja Santos)