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segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28265: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (16): "o nosso querido mês de agosto" de há 50, 40, 30, 20 anos... no Portugal sacroprofano



O nosso querido mês de Agosto

Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Imagens e texto: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné | Luís Graça (2026)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. O "nosso querido mês de agosto" , em Portugal,  era o tempo das "vacanças" (sobretudo dos luso-franceses). Mas também, "voilá"!,  o mês por excelência das festas e romarias... 

Era (e ainda é?!)...

Há ainda santuários (na sua grande maioria marianos), por toda a parte, no Portugal profundo, "sacroprofano", de Norte a Sul do país, onde se pagavam promessas (sobretudo no tempo da guerra colonial, 1961/74). 

Mas ainda hoje, dizem... (Fátima, à parte, que é sobretudo um fenómeno turísticorreligioso.)

O Portugal do "nosso querido mês de agosto"  era muito interessante,  sociologicamente falando. Pelo menos, mais colorido, mais saboroso, mais "pimba", mais autêntico, quer  dizer, mais nosso, do que é  hoje, vendido a retalho aos multimilionários,  gentrificado, globalizado, igual ao resto da m*rda mundial... 

Para já,  era muito mais do  que a imagem convencional do “mês das férias”, das férias grandes escolares, das praias superlotadas,  do Algarve dos políticos e dos  famosos, das invasões turísticas, e depois também dos desvastadores incêndios à medida que o  interior do  país se despovoava e o eucalipto impunha a sua ditadura económica e ecológica... em nome da indústria do papel-de-limpar-o-cu!

O mês de agosto era, por excelência, a afirmação e a consagração do "Portugal sacroprofano". 

As  romaria portuguesas não eram apenas religião, pura e dura.  Era uma espécie de contrato anual entre a comunidade, o santo ou a santa que a protegia, os vivos do lado de cá e os mortos do lado de lá, Deus e os seus embaixadores na terra, os santos, as santinhas.

Havia fatiotas novas, missa, procissão, andores, anjinhos,  velas, ex-votos e promessas. Muitas notas, sobretudo de escudos e francos (antes do euro, ainda no tempo do escudo) e depois euros,  pregadas com molas ou alfinetes ao manto da santa.

Havia também vinho (muito, e o verdasco  bebia-se em canecas de litro, de porcelana). 

Havia bifanas, farturas,  pão com chouriço, sardinhas assadas, coiratos, frango no espeto,  algodão doce, tremoços e pevides (no Oeste),  concertinas, bailaricos, foguetes, namoros, juras eternas de amor,  reencontros familiares, emigrantes regressados, negócios, noivados, casamentos, beijos roubados.   comércio ambulante, carroséis e carrinhos de choque... E também porrada, de varapau, de criar bicho (como antigamente...). 

Havia, claro, a indispensável fotografia de família (antigamente, quando ninguém ainda tinha máquina fotográfica, muito menos telemóvel). No tempo do fotógrafo ambulante, em que as festas e romarias eram o seu "São Miguel" (isto é, a época em que faturava).

A meteorologia e a agricultura davam uma ajudinha, à festa, à romaria, à santa, ao santo...  As vindimas eram só em setembro, os cereais já estavam colhidos... O corpinho podia folgar. O "emigras" regressavam, a família dispersa reencontrava-se, a aldeia voltava a ter gente (sobretudo nova), antes de desaparecer no futuro próximo que já é presente.

A festa religiosa funcionava, portanto, também como uma espécie de assembleia geral, anual, da aldeia. O Portugal rural disperso recompunha-se por alguns dias, no nosso querido mês de agosto.

E pagavam-se promessas, camaradas!... Algumas antigas, camaradas!... Agora que a família tem carro, em segunda mão, comprado às prestações...

Se há coisa nossa, bem portuguesa, era  a promessa!... A "cunha" metida aos santos e às santas. Que a gente tinha pejo ou vergonha em ir diretamente a Deus, sem intermediários, desbarretados... (Mas, atenção, "quando Deus não quer, os santos não rogam", ou seja, não adianta meter cunhas ao céu...)

Durante a guerra colonial, a promessa ganhou uma dimensão extraordinária. Um mancebo ia às sortes, ficava apurado, "graças a Deus" (sinal de que não era nenhum aleijadinho),  para todo o serviço militar (mesmo que tivesse os pés chatos e fosse lingruinhas, meia-f*da, meia-leca!...), era chamado pela Pátria, para defender o Ultramar, embarcava para Angola, Guiné ou Moçambique... 

E  logo o mulherio (a mãe, a mulher, a namorada, a noiva, as irmãs, até as madrinhas de guerra!.) que ficavam a rezar por ele,  faziam uma promessa: 

"Se o mê Zé vier inteirinho, são e salvo, hei de ir à Senhora...do Castelinho, dos Remédios, da Agonia, do Sameiro, da Nazaré, da Graça, do Cabo Espichel, da Lapa, do Almortão..."

E depois havia que pagar a dívida. Podia ser ir descalço, de joelhos, carregar uma vela, oferecer dinheiro, levar um ex-voto (um braço ou uma perna em cera), mandar celebrar missas, etc.. 

A promessa estabelecia uma relação quase pessoal e de cumplicidade com a santa:  “Eu peço-te isto, senhora; se me concederes a graça, eu faço-te aquilo.” Era senhora e não "priga" (rapariga), que entre o céu e a terra vai alguma distância e o respeitinho é(era, antigamente) muito bonito.

Era uma religião pouco ou nada sofisticada  profundamente popular, corporal e contratual, interesseira,  descarada, franca, comercial,  baseada na contabilidade simples, de merceeiro, do "deve-e-haver" e da lista dos fiados.

E isso ajuda-nos a compreender melhor a mentalidade dos "tugas" de 1961-74 que alombaram com a guerra de África.  A guerra não se travava longe de casa, a 4 mil, 8 mil, 12 mil quilómetros de distância.  

Qual quê?!... A guerra entrava na capela da aldeia, no adro da igreja, na escola, na casa de família, na casa dos vizinhos, na taberna, na vinha, no campo, nos montes,   no terço, na promessa, na lareira, no altar de Nossa Senhora de Fátima, erguido lá em casa, alumiado dia e noite por uma lata de azeite!

O soldado estava em África; a guerra estava também em Portugal ( que era a metrópole). E a Nossa Senhora,  mais do que Deus,  estava em toda a parte, de Gadamael a Buruntuma, de Madina do Boé a Varela, do Minho a Timor...

2. O culto mariano tem raízes muito profundas em Portugal, e são inúmeros os santuários e festas dedicados a Nossa Senhora.  Por isso há que distinguir Fátima e  os demais santuários do Portugal "sacroprofano".

Fátima é uma coisa... do "outro mundo", uma coisa de outra escala: fenómeno nacional e internacional, peregrinação organizada, turismo religioso, "máquina caça-níqueis", infraestrutura, hotelaria, comércio, negócio, comunicação social, calendário e liturgia próprias...

Fátima é  uma “indústria da fé”,  sem ofensa para os crentes, e sem que isso implique negar a fé genuína de quem lá vai.

A santa  da aldeia é outra coisa, a outra escala, liliputiana. É a santinha da terrinha. 

Aquela imagem concreta que está no alto do monte , ou no cima da falésia, á  entrada do porto de abrigo, ou na capelinha; que pertence à memória da freguesia; que guia os pescadores como um farol; que viu partir os rapazes para a guerra; que recebeu as promessas das mães; que todos os anos desce ou sai em procissão (por terra ou por mar); que conhece, por assim dizer, a biografia sentimental da comunidade... Essa é que é a santa de verdade.

É aqui que o sacro e o profano se juntam, misturam, fundem...  

A primeira vez que fui à Senhora do Castelinho, em 1975, no Marco de Canaveses, é que tive esse vivência (e evidência)  das festas e romarias nortenhas (coisa que não havia verdadeiramente nas terras estremenhas, ou pelo menos, na minha vilória da Lourinhã).   

O mesmo homem que eu cumprimentei e que o meu futuro sogro me apresentou, "ramadeiro", e que fazia parte da sua equipa de construção de "ramadas",  podia: 

  • companhar a procissão de vela na mão;
  •  ajoelhar-se diante do andor; 
  • cumprir uma promessa; 
  • emborcar três canecas de verdasco  depois da missa; 
  • dançar até às três da manhã; 
  • discutir futebol (ou até política, já se discutia política acaloradamente em 1975, no verão quente de 1975, e que "a Senhora do Castelinho" nos livrasse dos homens com barba e gadelha comprida); 
  • catrapiscar uma solteira ou mandar um piropo a uma casada; 
  • comprar uma fartura; 
  • e no dia seguinte, depois de dar uma "trancada na velhota",   
  • estar fresco para pegar no trabalho, no suplício de Sísifo de todos os dias...

Não havia necessariamente contradição. Era assim que funcionava a cultura popular. O sagrado não estava num compartimento estanque. Ruy  Belo, que não era antropologo  mas poeta compreendeu isso melhor do que nongyem ...

A cultura popular misturava-se com o quotidiano. O ano era regido pelos solstícios do inverno e do verão. A vida era simples, a preto e branco. 

De resto, havia romarias em que elementos aparentemente profanos eram  tão antigos e estruturantes como os religiosos. 
 
3. E eu aí é que percebi que o Portugal tradicional era muito mais do que um simples país estatisticamente  de “católicos apostólicos romanos", praticantes. 

Qual quê!.. Era anticlerical, se fosse preciso andava á porrada com o padre da freguesia, para logo a seguir fazer o compasso no Páscoa e angariar umas coroas valentes spara o sustenho do passal, da casa e da horta do padre... 

Era tudo muito mais complexo (e fascinante) do que eu imaginacva ou tinha apreendido ingenuamente nos livros. 

Havia fé, superstição, ritual, tradição familiar, medo, Deus e o Diabo, esperança, sociabilidade, festa,  foguetes, bombos, cabeçudos  .., tudo misturado como num "cocktail". 

E os "emigrantes" (externos e internos)  trouxeram outros ingredientes (da França, da Alemanha, do Luxemburgo, da Suiça..., mas também,  do Porto e de Lisboa, sem esquecer a tropa que regressava do ultramar...). 

Mas, antes destes todos, tinha havido os brasileiros de torna-viagem.
 
Agosto era, nos anos 70, 80, 90, o  mês do regresso à terra. 

O emigrante chegava de Renault, Peugeot ou Mercedes; trazia presentes, bebidas, charutos, cigarrilhas, chocolates, dinheiro e novas maneiras de vestir, de viver, de falar, de consumir, de comprar e ate  de pensar.. E encontrava a aldeia engalanada para a festa do padroeiro ou padroeira 

Havia ali uma pequena ironia histórica,  deliciosa: o emigrante que partira pobre, pobretana ou até  miserável (cabaneiro, rendeiro, camponês sem terras, jornaleiro, ganhão, pescador, operário, marçano, sapateiro, moleiro, alfaiate, ferrador, trolha da construção civil, criada de servir, doméstica, etc.)  voltava à aldeia precisamente para participar na festa que os seus pais e avós celebravam quando ele ainda era pobre, pobretana ou até miserável.

E muitas vezes era  ele quem agora pagava a banda, o foguetório, o andor, a ornamentação ou a comissão de festas, o padre de fora que vinha fazer o sermao... Ou seja: a emigração, que despovoara o interior, também financiava uns anos depois (e mantinha viva) uma parte importante da sua cultura festiva.

O  “querido mês de agosto” português  era então, há 50, 40, 30, 20 ano atrás, dificil de definir: 

mês das férias + mês dos emigrantes + mês das festas e romarias + mês dos reencontros e casamentos + mês das promessas + mês da memória... 

Uma frase talvez pudesse resumir tudo isso:  em agosto, no nosso querido  mês de agosto, Portugal regressava temporariamente às suas aldeias, e as aldeias regressavam temporariamente a si próprias. Isso era mais evidente no Norte e Centro do país. 

Eu ainda apanhei esse Portugal "sacroprofano" (ou sacro-profano, como escrevia o Ruy Belo)... Em terras de Entre-Douro-e-Minho. Casei-me lá em agosto de 1976.

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 15 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28261: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (15): Os nossos provérbios pouco ou nada populares - Parte IV: Ainda o "Amor com amor se paga". E o ódio, camaradas?!

terça-feira, 3 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27788: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (39): A rapariga "Singer Plano Inclinado" com quem a malta gostava de dançar, nos bailes do Greco, em Coimbra (Rui Felício, 1944-2026)


Fonte: Imagens e texto: Página do Facebook do nosso saudoso camarada Rui Felício (1944-2026)  > 5 de dezembro de 2025



Ilustração de Rui Borges (com a devida vénia...), um dos antigos condiscípulos e amigos do Rui Felício, da Turma A do 6.º Ano (1960/ 61), do Liceu D. João III, Coimbra. Também ele seguiu direito e, se não erramos, é magistrado aposentado, vivendo em Lisboa (tem página no Facebook, aqui). Também ele é um antigo combatente, tendo estado em Angola, BCAÇ 1875 (1966/68). Além de poeta e ilustrador de talento (tardio?).


1. Mais um microconto nostálgico do nosso Rui Felício (1944-2026). Uma  pequena obra-prima. Título: "Nos Bailes do Greco"... 

Por uma rápida pesquisa na Net, descobri que o "Greco", em Coimbra, era uma associação ou um grupo de amigos, da geração dos "baby-boomers", que adorava dançar e tinha o culto do Elvis Presley... 

Foi lá que o nosso  Rui Felício terá conhecida a rapariga "Singer Plano Inclinado" com quem a malta gostava de dançar... Dou esse título a esta pequena história.  É uma pequena homenagem ao Rui e à sua/nossa geração que fez a guerra e a paz.


A rapariga "Singer Plano Inclinado" com quem a malta gostava de dançar,
no bailes do Greco

por Rui Felício (1944-2026)

Ela colava o corpo ao par com quem dançava mas o rosto e o pescoço encaixavam no pescoço do parceiro, desviando a cara, quase torcendo o resto do corpo para obviar tal postura.

Havia naquela altura um reclame a uma máquina de costura que inventara uma revolucionária forma de costurar e que consistia em alinhavar o tecido de forma inclinada sem necessidade de o retirar para esse efeito.

Era a famosa Singer Plano Inclinado!

A tal moça com quem a malta gostava de dançar, tomou tal “slogan” como alcunha. E a malta avisava:

 Na próxima música sou eu quem vai dançar com a “Singer Plano Inclinado”, ouviram ?!

Rui Felício


(Revisão / fixação de texto, título: LG)

2. Comentário do editor LG

Quando parte alguém da nossa Tabanca Grande, como o Rui Felício, que carregava memórias tão densas do leste da Guiné, a começar pelo desastre do Cheche de que ele foi um dos sobreviventes (mas em que perdeu mais de 1/3 dos seus homens),  deixa sempre um vazio que só as histórias conseguem, em parte, preencher.

Este "microconto" do Rui Felício não são mais do que meia dúzia de linhas,  é verdade, mas é uma pequena joia de observação social e humor de época. Quando o li, na sua página do Facebook, o que me cativou logo  foi  a capacidade  do Rui em transformar um detalhe (digamos técnico ou comercial,  da sua época da adolescência, a publicidade à máquina de costura Singer) numa metáfora comportamental.

Ele não descreve um passo de dança, reconstitui um atitude. Que delícia este contraste, que ironia (sem ser sarcasmo!), na descrição da rapariga, sem nome, que "colava o corpo" mas "desviava o rosto"... nos bailes do Greco!...  (Noutras terra, como a minha,  seria o baile dos Bombeiros.)

É o esboço do retrato dos tabus da nossa sociedade, ainda muito conservadora, a dos finais dos anos 50 / princípios dos ano 60, em que à proximidade física permitida pela dança, num baile público, se contrapunha  a reserva (o tal "plano inclinado") que ajudava a manter  o conveniente decoro e a distância emocional dos dançarinos.

O texto funciona como uma espécie de  "cápsula do tempo". O uso da alcunha "Singer Plano Inclinado" revela muito sobre o espírito daquela juventude coimbrã, nada e criada na cidade dos lentes, a querer romper as "muralhas" dos usos e costumes impostos pela moral vigente em matérias de relações homem (atrevido) - mulher (recatada).

Por um lado, é de destacar a criatividade da "malta" daquele tempo, a forma como se transformavam marcas e slogans em gíria grupal,  demonstra uma cumplicidade geracional muito forte. 

A "Singer Plano Inclinado" é, pois,  um portento de  humor pícaro: é uma observação brejeira,  malandra, mas ao mesmo tempo respeitosa e nostálgica. O Rui consegue, mais uma vez, ser visual sem ser vulgar, muito menos cruel.

E, por fim, é fascinante pensar que um homem que viveu o trauma da guerra colonial e da perda de um filho, em plena idade adulta (o Nuno Felício tinha 38 anos e trabalhava na Antena 1, em 2013, como jornalista)  tenha conseguido preservar esta leveza para contar histórias do ainda seu tempo de "menino & moço". Para o Rui foi talvez a forma, que ele encontrou,  de celebrar a vida que continuava, apesar de tudo.
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 28 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27780: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (38): O Fígaro, um dos cromos do Liceu D. João III, em Coimbra (Rui Felício, 1944-2026)

domingo, 1 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27783: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (39): O meu gato Gatafunho (José António Paradela, 1937-2023)


Teria feito 88 anos no passado
dia 30 de outubro. Nasceu em
Ílhavo em 1937. Morreu no hospital,
em Aveiro, em 21 de fevereiro
 de 2023. Membro da nossa
Tabanca Grande. Fez a tropa
na marinha de guerra 
e antes, 
aos 17 anos, 
na pesca do
 bacalhau, 
seguindo os passos
dos seus avoengos. Arquiteto, 
urbanista, escritor (pseudónimo
literário: Ábio de Lápara)

À memória de José António Paradela (1937-2023):

Meu querido, os teus escritos 
continuam a surpreender-nos.

Que ternura este poema
sobre o teu gato da infância.

E, com ele, ressuscitas
o pátio onde cresceste, 
e a tua mágica “rua suspensa dos olhos”.

As saudades destes 3 anos pesam, 
mas a (re)descoberta
 das tuas singularidades 
continua a emocionar-nos.

Matilde & família.

Costa Nova, 21 de fevereiro de 2026


EM PEQUENO 

EU TINHA UM GATO (*)


Em pequeno eu tinha um gato,
Fofo gatinho amarelo
A quem fazia carícias,
Passando a mão p’lo pelo.

Fofo gato, Gatafunho
O nome com que viveu,
Adotado à nascença,
Nos anos em que foi meu.

Com ele aprendi o R,
No ronronar satisfeito,
Quando à noitinha dormia,
Deitado sobre o meu peito.

Felis Catus, meu filósofo
Da vida como ela é,
Em se sentindo carente,
Vinha roçar no meu pé.

E quando a fome apertava,
Lá no pátio da ti Cila (**),
Esperava por ela às quatro,
No seu regresso da vila.

Senhora certa da Praça,
Mãe de filhos e de gatos,
No esmalte da sua taça
Carrega peixes baratos.

E o meu gato amarelo,
Pelas quatro horas da tarde
Boceja e lambe o pelo,
Sabe que a Cila não tarda.

Correndo então beco fora,
Entoando o seu miau,
Na taça só via agora
Prenúncios de carapau.

Três carapaus e cabozes
Que sobraram do leilão,
E que eram, tantas vezes,
A primeira refeição.

Assim cresceu o meu gato
No fim dos anos quarenta,
Tinha eu então nove anos
E tinha ele noventa.

Sábio bicho de bigode,
Rei de gatas e de muros,
Que encheu enquanto pôde
Os meus sonhos mais maduros.

Sete vidas e um império,
Sete fôlegos de aventura,
Fugaz sombra de mistério
Que inda hoje perdura.

Na clara mansão da Lua,
Em um janeiro gelado,
Uma gata lá da rua
Mudou de vez o seu fado.

E o meu gatinho amarelo,
Gato que alguém me ofereceu,
Um dia partiu de casa
E nunca mais apareceu.

José Paradela | Costa Nova | Agosto de 2005

Publicado no Ilhavense, jornal centenário, 15 de fevereiro de 2026, pág. 22
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Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 28 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27780: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (38): O Fígaro, um dos cromos do Liceu D. João III, em Coimbra (Rui Felício, 1944-2026)

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27780: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (38): O Fígaro, um dos cromos do Liceu D. João III, em Coimbra (Rui Felício, 1944-2026)


Coimbra > Antigo Liceu Dom João III, hoje Escola Secundária José Falcão. Foto: © CEIS20 / Universidade de Coimbra (2023) (com a devida vénia; reeditada pelo Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, 2026) 


1. A melhor homenagem que podemos fazer a um  amigo e camarada que acaba de partir da Terra da Alegria para a "derradeira viagem",  sem retorno, é lembrar o bem que fez aos outros, as histórias que nos deixou, as memórias partilhadas... Neste caso, falamos do Rui Felício (1944-2026) que, ao  longo da vida, e mesmo longe da sua terra natal, sempre cultivou  um genuíno espírito coimbrão. 

Sabemos pouco da sua vida, só estivemos juntos uma vez, na Ameira, Montemor-O-Novo (em 14/10/2006, por ocasião do I Encontro Nacional da Tabanca Grande, organizado pelo Paulo Raposo e pelo Carlos Marques Santos, também ele coimbrão tal como o Felício e o David). 

Acompanhávamos com irregularidade a sua página do Facebook e editámos uma boa dúzia de "Histórias de Dulombi", a sua série no nosso blogue, onde tem mais de 4 dezenas de referências. 

É também o autor do blogue Escrito e lido: episódios que são sementes de vida , que ele manteve entre 2010 e 2014 (c. de 90 postagens).

Julgamos que teve uma infância feliz no Bairro  Norton de Matos, em Coimbra (*).  Estudou na universidade da sua terra onde fez direito. E julgamos também que foi advogado toda a vida, e nomeadamente, na Ericeira, Mafra.   

Durante o serviço obrigatório, calhou-lhe na rifa a Guiné onde foi oficial miliciano, na CCAÇ 2405 (Galomaro e Dulombi, 1968/70). 

Foi um dos sobreviventes do desastre de Cheche em 6/2/1969. Aprendeu a sorrir com meia-cara, como muitos de nós, tendo passado mais de 1/3 da sua vida sob o regime do Estado Novo.

A história, pícara,  que, em sua homenagem,  aqui reproduzimos, diz-nos muito sobre o que eram os professores e os liceus daquela época.  Havia os "cromos", como o Fígaro, que hoje são objeto do nosso ridículo,  mas também havia outros professores que nos marcaram para a vida, alguns grandes figuras como portugueses, cidadãos,  pedagogos, escritores... Seria injusto referir uns e omitir outros...

O Rui Felício fazia parte da Associação dos Antigos Alunos, Professores e Funcionários do Liceu D. João III / Escola Secundária José Falcão, que tem uma página de grupo no Facebook, com mais de 880 membros, e é administrada pelo Mário Araújo Torres (antigo juiz do Tribunal Constitucional) (fez o serviço militar em Angola, 1972/74).  

Pela foto de grupo que publicamos a seguir, vemos que andaram juntos no liceu, o Rui Felício (1944-2026) e o Victor David (1944-2024), ambos alf mil at inf, CCVAÇ 2405 (1968/7'0) e nossos grão-tabanqueiros.


Coimbra > Liceu D. João III > Turma A do 6.º Ano (1960/ 61). Legenda:

1 - Albino Esteves | 2 - Júlio Maia | 3 - Tomás Porto 4 - Gil Ferreira | 5 - Rui Martins Borges | 6 - Costa Gírio | 7 - Paulo Xavier | 8 - Sá Cunha | 9 - Pinto Fortes | 10 - Rui Felício  |11 - António Cardoso Bernardino | 12 - Vasconcelos Coelho | 13 - Duarte Santos | 14 - Acácio Resende | 15 - Deniz Duarte | 16 - António Horta Pinto | 17 - Castel-Branco Sacramento | 18 - Manolo Mattos-Chaves | 19 - Cruz Almeida | 20 - Cruz Gonçalves | 21 - Veloso e Brito | 22 - Alexandre Gaspar | 23 - Vítor David | 24 - Mário Torres.




Cromos do Liceu D. João III: o Fígaro
 

O circunspecto Fígaro era um férreo disciplinador. Nas suas aulas de Ciências Naturais, tornava-se impensável um sorriso, uma distracção, um movimento mais brusco ou irrequieto.

Ao mínimo sinal de indisciplina, o Fígaro anotava no seu caderninho o nome do aluno prevaricador e era certo e sabido que na atribuição da nota final isso ia ser tido em conta.

Naquele dia, um dos alunos tinha faltado para ir ao funeral de um seu tio e o Fígaro aproveitou a circunstância para dar uma lição sobre a morte dos seres vivos e ensinar aos alunos o que é um defunto, o que é um cadáver.

Calvo, as bochechas arrocheadas, a barriga proeminente, empacotado no velho e coçado fato de tecido da Covilhã, caminhava lentamente no estrado de um lado para o outro, como que a preparar mentalmente a lição.

De pé, fixa os pequenos olhos na turma e começa:

"Quando um orgão do corpo humano deixa de funcionar, diz-se que esse órgão morre.

O corpo humano é formado por um conjunto de órgãos e quando eles cessam o seu funcionamento, a vida acaba e sobrevém a morte.

Com a morte o corpo transforma-se em cadáver e começa a decompor-se. O homem transforma-se assim em defunto.

E,  com a decomposição do corpo, geram-se infecções que podem contaminar aqueles que ainda estão vivos.

Por isso, enquanto não se fizer o enterro do cadáver, deve arejar-se o local onde se encontra e deixar as janelas abertas, para prevenir a propagação de infeções."

O Fígaro reparou que, estranhamente, sobre um tema tão mórbido, os alunos não conseguiam conter o riso e só não desatavam às gargalhadas certamente pelo medo do castigo que sofreriam pela indisciplina.

− Então, meninos? Porque se estão a rir?

E, de dedo em riste para o Teixeira da Silva, da fila da frente, vociferou:

− Explica lá tu o que se passa!

O Teixeira da Silva, chefe de turma, engasgou-se e tartamudeou:

 
− Eu penso que será por o Sr. Dr. estar a arejar algum órgão defunto, porque tem a braguilha aberta...

Rui Felicio (**)

(Revisão / fixação de texto: LG)
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Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 8 de fevereiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26473: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (34): O amola-tesouras (Rui Felício, nado e criado no Bairro Norton de Matos, em Coimbra)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27637: Manuscrito(s) (Luís Graça) (281): "A Rua Suspensa dos Olhos", de Ábio de Lápara, pseudónimo literário de José António Bóia Paradela (1937-2023), ilhavense, urbanista, arquiteto e escritor - Parte V: O Zé Pitucas, aliás, o Zé Ançã (1937-2002): "Ou dás-me a navalha, ou nunca mais te falo"...


Porto > c. 1918 > "Uma foto lindíssima do meu pai, embarcado com 12 anos com o cão ao colo por trás da boia do Pátria, o navio em que embarcou. O capitão era o pai do Mário Castrim, o cap Fonseca, de Ílhavo."

Fotos (e legendas): © José Amtónio Paradela (2015). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Capa do livro "A Rua Suspensa dos Olhos" de Ábio de Lápara (edição de autor, José A. Paradela, Aveiro, 2015, 164 pp.)...Ábio de Lápara é o pseudónimo literário de José António Bóia Paradela (1937-2023), ilhavense, urbanista, arquiteto e escritor



1. Por cortesia de autor, ainda em vida, pela grande amizade que nos ligava um ao outro (tratávamo-nos por "manos"), e pela paixão que o nosso blogue dedicava à  epopeia da pesca do bacalhau (que chegou a ser alternativa à guerra colonial), transcrevemos, em tempos em três postes, o capítulo 7 (A viagem “O Mar por Tradição”, pp. 83-107), do livro "A Rua Suspensa dos Olhos", de Ábio de Lápara (edição de autor, Aveiro, 2015).

Era também irmão do Tibério Paradela (1940-2021)  um "lobo do mar", capitão da marinha mercante.

O Zé António, ilhavense, filho e neto de marinheiros, evoca e descreve com enorme ternura e talento a rua onde nasceu e cresceu, e onde conheceu algumas das figuras humanas da sua terra, que marcaram a sua memória e o seu imaginário ...

Todos tivemos uma Rua Suspensa dos Olhos, afinal a rua da nossa infância, a rua onde nascemos e crescemos. Falo da nossa geração, que ainda nasceu em casa, de parto natural, com dor... E ainda teve o grande "privilégio" de  brincar na rua com os outros meninos e meninas.  No tempo em que não havia creches, nem infantários, nem jardins de infancia e a vida vivia-se na rua: assavam-se os carapaus no fogareiro a carvão na rua,  namorava-se á janela, não havia vida privada,  o escrutínio era público,  frequentávamos a casa uns dos outros, etc.

Nesses três postes, e com a devida autorização do autor, publicámos o relato da sua viagem de seis meses na safra do bacalhau, nas costas da Terra Nova e da Groenlândia, quando ainda adolescente, aos 17 anos, em 1954, e como estágio final do curso da Escola Profissional de Pesca, em Pedrouços, Lisboa, é chamado para embarcar e fazer "A Viagem", por antonomásia.

Foi  uma experiência que o marcou para o resto da vida, não só pela dureza das condições de vida a bordo e a capacidade de resiliência como pela aventura maritima, a descoberta e o reforço da camaradagem, a solidariedade e a amizade entre a tripulação (marinheiros e pescadores). Tal como a a tropa e guerra, no nosso caso. 

O Zé António, também como bom ilhavense, fez depois o serviço militar na Armada,  numa altura em que a Marinha não precisava de muitos marinheiros.

A vida deu, entretanto, outras voltas e o autor não seguiu o destino dos seus antepassados... Aluno brilhante, acabou por ganhar uma bolsa de estudo, ficar em Lisboa e poder aceder à universidade, tornando-se depois  um nome de referência da arquitetura e urbanismo em Portugal. 

Entraria para o curso de arquitetura na Escola Superior de Belas Artes, no ano letivo de 1960/1961; fundou e geriu a empresa PAL - Planeamento e Arquitectura, com sede em Lisboa;  deixou obra por todo o país, com destaque para a Região Autónoma da Madeira-

Conheci-o depois do 25 de Abril. E começámos a conviver quando os nossos filhos eram pequenos.  

Em 18 de fevereiro de 2023 fui a Ílhavo,  despedir-me dele e ajudá-lo a "cambar" o rio da morte, fazendo, simbolicamente, o papel do barqueiro Caronte, da mitologia grega. 

Em sua homenagem, recomeçámos a publicar mais excertos do seu livro "A Rua Suspensa dos Olhos" (*)


Excertos de "A Rua Suspensa dos Olhos" - Parte V: Zé Pitucas, aliás, o Zé Ançã...

por Ábio de Lápara / José António Paradela
(1937-2023)

Era um objecto histórico, um xaile de lã muito resistente, de contacto áspero, como os cobertores serranos.

Com cadilhos curtos e tessitura de motivos geométricos em cor de bronze sombrio, essas características tornavam-no ímpar no panorama do antigo trajar ilhavense onde predominava o preto absoluto.

Estava posto sobre os joelhos do meu pai, que tinha então cerca de noventa anos de idade.

Sentado no sofá da sala, agora de cadeiras vazias em torno da mesa redonda onde a ausência mais notória era a da minha mãe, sua companheira de cinquenta anos, ia falando com voz pausada, encadeando as suas estórias na história da sua vida.

Enquanto o ouvia relembrando um passado de retratos antigos, encadeando as doçuras e agruras de uma vida de transumante cigano do mar, que foi a que teve a partir dos doze anos, ia olhando aquele xaile e meditando no silêncio dos objectos impossibilitados de narrar as suas próprias lendas, apesar das marcas que o tempo lhes imprimiu: o seu código ontológico à espera de um olhar...

Aquele xaile da minha avó materna, cuja história é anterior às minhas recordações, já tinha embrulhado a minha mãe e depois os seus três filhos. Nos últimos anos, alguns netos, mas resistiu com bom aspecto até aos dias de hoje, oferecendo ainda algum conforto ali pousado nos seus joelhos.

A avó, nascida a uma dúzia de quilómetros do mar, onde as gaivotas já tinham cedido o canto ao piar dos mochos nos pinhais da Gândara, tinha descido à vila para casar com um marinheiro de boa figura, com farto bigode de aventureiro.

Talvez aquela distância explique a origem da beleza estranha do xaile, mas não adianta nada ao entrecho da estória daquele amor que se revelaria trágico, porque acabou marcado pelo ferrete do abandono e do esquecimento:

Uma avó, viúva de vivo, e uma filha desde aí marcada por uma profunda compreensão, quase religiosa, da falência dos sentimentos alheios...

Não conheci os meus avós maternos e a minha mãe era, como se compreende, muito avara do seu passado tão doloroso. Sobraram apenas algumas fotografias pouco sugestivas e algumas raras alusões suas a factos antigos, para suportar um fio narrativo plausível.

Pelo contrário, o meu pai, moldado por matinais aventuras de velas ao vento, falava apesar da sua idade, como um rapaz, de factos que tinham setenta ou oitenta anos mas que pareciam ter-se passado há pouco tempo. Tinha visto partir quase todos, ou todos mesmo, os amigos da sua geração, e agora sentia-se emigrado no futuro, mas aceitava isso com a consciência de que não era ele o verdadeiro culpado.

Acabada a conversa naquele dia, encaminhei-me para a porta, seguido por ele, que sempre vinha ver-me desaparecer na esquina da rua, de braço no ar dizendo adeus.

Escurecia.

Ao sair deparei-me com a silhueta de um homem que passava arrastando um pouco os pés, pelo meio daquela rua de reduzido tráfego, sem medo de ser atropelado.

Reconhecendo a minha voz enquanto me despedia do meu pai, suspendeu o seu passo hesitante.

 
— Estás por cá, Ábio? Vieste à Rua do Lá Vem Um?

Era o Pitucas na sua voz calma, inconfundível. Tinham passado muitos anos, mas pela forma da pergunta, evocando o tropo infantil da nossa rua, parecia que tínhamos estado juntos no dia anterior. 

Achei-o um pouco cansado porque procurou com o olhar um local onde se pudesse sentar. Mas a rua já não era confortável como antigamente. Os poiais à frente das casas já não estavam lá.

Apenas um minúsculo lancil separava o asfalto do pavimento, das suas paredes, apoiadas em lambris de granito e muitas vezes forradas de azulejo.

Foi a uma delas que nos encostámos.

 
— Lembras-te quando fugimos da cobra que queríamos matar, na agra da Lagoa?

Pronto! Num segundo, tínhamos recuado meio século dando de barato todos os dias intermédios.

Respondi-lhe:

 
— E tu, Zé... lembras-te porque é que estivemos estes anos todos sem nos falarmos?

Já não se lembrava muito bem. Fora uma birra de miúdos de treze anos, num daqueles momentos de viragem das vidas, em que os caminhos até aí comuns, divergem sem qualquer encontro marcado no futuro.

O Zé Pitucas morou sempre naquela rua tal como eu: a nossa Rua Suspensa dos Olhos!

Pelo menos desde que me lembro, porque nascera no Brasil e viera ainda muito pequeno com os pais para aquela casa.

Eram quatro irmãos em que os rapazes ficavam no meio e as meninas nos extremos. O Zé era da minha idade, o Ricardo um pouco mais velho.

Na casa dele, com mais algum desafogo económico, as revistas de quadradinhos eram mais abundantes que na minha.

Além disso, a casa tinha um grande quintal onde podíamos brincar livremente sem medo de partir os vidros às vizinhas com as pedras disparadas das nossas fisgas, a que chamávamos atiradeiras.

Um galinheiro enorme permitia-nos hipnotizar as galinhas deixando-as a dormir com a cabeça debaixo da asa e roubar alguns ovos para uma gemada à hora da merenda. A mãe, que passava muito tempo na loja do antigo mercado, nunca daria pela sua falta.

Muitas tardes da primária foram por ali vividas treinando a pontaria da fisga, e imitando aventuras de final feliz, decalcadas do "Mosquito", esse monumento desenhado, dos primórdios da banda desenhada.

Crescemos um pouco comendo os primeiros figos de São João, na figueira encostada ao muro. Ao fundo do quintal, um ribeiro corria para o seu destino através das vessadas até chegar à Ria, na Malhada - não sem primeiro lavar centenas de "maltas" de roupa das modestas famílias da rua de Alqueidão   
— para acabar movendo a azenha, cuja roda motora feita de madeira forrada de verde musgo, despejava as últimas gotas de água doce já dentro da água salgada da Ria.

Por essa altura, as vessadas cederam lugar à Avenida tal como já tinham cedido ao Jardim, o que permitiria construir diversos prédios. Um deles foi o Atlântico Cine Teatro, implantado sobre o terreno do quintal onde esboçávamos todas as estratégias e com isso se foi também o nosso parque de aventuras.

A alternativa seria alargar horizontes. À nossa disposição estavam as agras da Lagoa e da Coutada que passámos a percorrer mais insistentemente para nascente e, sobretudo, para poente da estrada de Aveiro, a agra da Coutada.

O Zé era um miúdo de pequena estatura, mas era dono de uma argúcia e uma habilidade
— que punha em tudo quanto fazia — que o conduziam ao sucesso de modo impressionante.

A pontaria dele com a fisga era quase infalível, e a sua intuição para descobrir os segredos dos pássaros era inigualável.

Fruto das nossas explorações, quase posso garantir que sabíamos todos os ninhos e tocas da bicharada desde a Coutada até à Balada, toda uma agra onde encontrávamos suprimentos para compridas estadias quando a fome atacava.

Este último local, a Balada, foi um nome só nosso, só dos aventureiros da nossa rua, que desapareceria da memória colectiva com a transformação ocorrida naquele local, nos anos sessenta do século vinte, após a fatal construção das casas hoje existentes.

Porque a Balada era o sítio de todos os sortilégios. Era o final da rua antes de atingirmos a Malhada, com o seu esteiro, arremedo portuário de bateiras e moliceiros, e as marinhas de sal, onde a faina tinha a dureza dos cristais ofuscantes que produzia.

Um troço de calçada empedrada com calhau rolado, que começava na chamada Fonte de Alqueidão ou dos Bastos, refrigério de marnotos que ali enchiam as suas bilhas e cântaros de fresca água, e se prolongava até à azenha do ti Moleiro, cuja farinha de milho engrossava a sopa de feijão de toda a rua.

Esse troço de calçada assentava sobre uma linha de água permanentemente alimentada pelas nascentes naturais de um e outro lado, que davam origem à Fonte e a todo um biótopo onde, nas valetas laterais da calçada, habitavam rãs e tritões entre a erva patinha, mas sobretudo enormes lesmas pretas com mais de um palmo de comprimento.

Nesse tempo, eu não sabia o que era um biótopo. Sabia apenas que os álamos e os loureiros abraçados por um silvado quase impenetrável, dispostos em ambos os lados do caminho, o transformavam num túnel verde, escuro e fresco onde todos os mistérios se revelavam a partir do sol posto, hora a que os raios luminosos deixavam de penetrar no seu interior

Sempre que isso acontecia, pela delonga da pesca ou da brincadeira na Malhada, aqueles extensos metros eram percorridos com pés de Mercúrio: tinham asas!

E ainda corriam mais, quando chegados ao topo da pequena ladeira final, os cães do Rebocho, alertados pelo arfar da corrida, se lançavam a ladrar sobre nós.

A primeira lâmpada da rua, colocada na parede do solar de Alqueidão, apesar da sua luz frouxa, dava outro alento às nossas tolhidas almas e os cães costumavam desistir aí da sua perseguição.

Os prazeres retirados das nossas aventuras tinham muito a ver com a constituição e a manutenção dos segredos, especialmente no caso do conhecimento dos ninhos, e da observação cuidadosa da sua evolução: os ovos, as crias... O vôo!

Na verdade se fôssemos indiscretos nessa observação, os progenitores abandonavam o ninho e lá se ia o nosso património.

Ninhos de melros, verdilhões, pintassilgos, trigueirinhas, carriças, e mesmo guarda-rios nas beiradas dos esteiros, eram o recheio do nosso cofre secreto que espreitávamos cautelosamente avarentos do nosso pecúlio.

Que me lembre, só uma vez destruímos um ninho. Um ninho de pardal na rama de um alto pinheiro bravo, na Coutada. Inacessível pelos meios de que dispúnhamos, o desespero levou-nos a empunhar as atiradeiras. Pouco depois caíam do alto, seis gordos pardais quase prontos para voar! Não recordo o seu fim, porque era hábito tentarmos salvar as aves incapazes de voar, do "céu dos pardais" que era, como sabíamos naquele tempo, a barriga dos gatos.

De resto, tínhamos um cemitério para os nossos animais no fundo do quintal, onde mimávamos os funerais dos humanos, com crucifixo e todos os aprestos necessários.

Já a fisga, desenvolvia outras reacções. O instinto da caça! Aí, a pontaria era crucial e a morte estava presente em cada acto. Matar à distância não era cruel, era glorioso!

Depois das colheitas, setembros cálidos, ninhos desertos de ovos e crias, vinha a caça a pitas e lavercas, pontaria apurada nas fisgas, e ratoeiras armadilhadas com lagartas vivas, extraídas dos canoilos do milho já colhido, a servir de isco cremoso e irresistível para uma ave esfomeada.

Os pruridos viriam mais tarde com as tentativas de entendimento dos valores da vida, do sagrado e da ética.

Nas brincadeiras de rua, o Zé era sempre o mais apurado. Dono de um pião especial, de coroa achatada, que manuseava de modo malabarístico, a sua pontaria era certeira novamente, beliscando o adversário a cada lançamento.

Pião jogado, pocelo marcado!

Nas "emendinhas", habilidades “futebolísticas” em que uma erva de raíz fasciculada servia de bola saltitando de um pé para outro, atingindo centenas de toques sem que a erva tocasse o chão, ele era o maior.

Mas a pergunta que o Zé me lançou naquele dia ao fim da tarde, quando me reconheceu, refere-se a uma cena em que fomos caçadores caçados!

Na agra da Lagoa, no fim de uma tarde de verão, avistamos no fundo de uma cova com cerca de um metro de profundidade, uma cobra de cor verde, bastante corpulenta.

Isso de cobras era o nosso prato favorito, porque constituíam um troféu de prestígio lá na rua! Costumávamos usar uma cana bifurcada na ponta para prender esses répteis, mas ali, no inesperado daquela situação, estávamos desequipados. Apenas as fisgas, e pedras bastantes, como amêndoas de Páscoa, sobrecarregando as algibeiras dos calções até fazer saltar os botões onde prendiam as alças.

Começámos a disparar a metralha letal acumulada nos bolsos, sobre aquele bicho, objecto de ódios ancestrais. Sentindo-se encurralada, a cobra começou a movimentar-se em círculo, com grande velocidade, chegando mesmo a elevar-se do fundo da cova, silvando de modo assustador deixando-nos perplexos com semelhante desatino.

Aí... pernas para que te quero?! 

Iniciámos uma fuga apressada e deixámos o réptil em paz, embora soubéssemos que a sua mordedura não era venenosa. Mas o respeitinho é muito bonito e o medo mamado com o leite impôs-se na circunstância!!!

Nunca contámos o fracasso a ninguém!

Um dia o meu pai ofereceu-me uma pequena navalha de duas folhas, com o cabo revestido de madrepérola. Tinha-a trazido de Lisboa e sabia quanto eu a estimaria.

Uma navalha era um instrumento de valor incalculável nas mãos de um capitão das agras. Por tudo quanto permitia executar: fisgas, atira-bagas, armadilhas de cana para apanhar pitas e lavercas... entre outras inumeráveis coisas.

Era uma manhã de sol radioso! Combináramos encontrar-nos no aterro da Avenida, para mais uma aventura pela nossa agra amada.

Encantado pela navalha, o Zé lançou-me um ultimato:

 
— Ou dás-me a navalha, ou nunca mais te falo...

Perplexo, separei-me sem dizer uma palavra. Isto, no fim de um certo outubro em que eu faria catorze anos.

Passados poucos dias iniciei uma nova fase da vida. Impossibilitado de estudar por falta de meios financeiros em casa, fui trabalhar e, logo de seguida, arranjei uma namorada para aliviar o desgosto!

Acabaram aí, definitivamente, as nossas aventuras descomprometidas. Comecei então a voar noutros céus, onde os pardais eram apenas uma saudade.

O pouco dinheiro que ganhava,  permitia-me frequentar o cinema e comprar livros de aventuras que me transportavam para outros mundos até aí vedados: desertos de secar a boca, florestas de úmidas turfeiras e rebentos espinhosos, mares de monstros insólitos e temporais desfeitos e homens de rija têmpera mas também covardes de toda a espécie! Herois de nomes inesquecíveis, espalhados em páginas e páginas onde os acompanhava atolado em emoções desmedidas!

Pouco faltava para sair de Ílhavo... definitivamente.

Quando aí voltei a pousar com mais calma, com muitos romances lidos e algumas aventuras vividas na primeira pessoa, muitos anos tinham passado e eu perdera tudo o que acontecera por ali nesse entretempo.

Algumas intervenções pontuais,  com antigos amigos em curtos períodos de férias, não chegavam para colar os cacos dos destinos outrora separados.

O nosso reencontro naquele dia foi muito reconfortante mas infelizmente tardio.

O Zé Pitucas, após toda uma vida dedicada ao desporto em Ílhavo, que elevou às maiores glórias nacionais do basquetebol, tinha sido vítima de um AVC.

Ainda estive com ele mais duas vezes, até que um dia me chegou a notícia da sua morte. Cedo de mais.

Os amigos fizeram-lhe uma grande e sentida homenagem, e editaram uma sua biografia. Ao lê-la,  tive a noção clara do que tinha perdido. Mas a ubiquidade não é um dom que me tenha bafejado.

Verifiquei contudo que lhe faltava este capítulo, talvez pouco significante no contexto da sua vida adulta, mas tenho a certeza de que ele gostaria de o ver ali...

Um tempo de vários anos de infância, em que após o pequeno almoço abalávamos campos fora, sozinhos, à cata da nossa aventura quotidiana.

Um tempo em que ele não era conhecido por Zé Ançã (**), mas por Zé Pitucas, o campeão das "emendinhas".

Fonte: Excertos de "A Rua Suspensa dos Olhos", de Ábio de Lápara (edição de autor, Jose A. Paradela, Aveiro, 2015, pp. 51-64).

(Revisão / fixação de texto, título: LG)
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Último poste desta série > 1 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27590: Manuscrito(s) (Luís Graça) (280): Aos meus amores, amigos, companheiros e camaradas, votos de Bom Novo Ano de 2026 que, dizem, aí vem!

(**) Vd .Facebook >  Ílhavo Antigo > 26 de abril de 2024 > José Eugénio Gomes Ançã:

(...) Filho de José Ançã e Maria Celestina Gomes, era conhecido por Zé Ançã. Notabilizou-se como treinador de Basquetebol do Illiabum Clube. 

Humilde e simples, tinha para com os jogadores uma forte relação, sendo muito exigente e sobretudo um excelente disciplinador. 

Começou como atleta do Clube e mais tarde como treinador, tendo conquistado os seguintes Títulos: Campeão Nacional de Infantis (1962/63), Campeão Nacional da 2ª Divisão (1963/64) e Campeão Metropolitano de Juniores (1964/65). Pelos 50 anos de associado do Clube, recebeu o Emblema de Ouro. 

Faleceu em 30-03-2002 com 65 anos.(...)

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27607: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte II: A escola primária e a comunhão solene


Francisco Caboz, "alter ego" de Horácio Fernandes
(Ribamar, Lourinhã, 1935 - Porto, 2025)


António Fernandes (Maçarico), avô paterno do Horácio. Era filho de Maria da Anunciação (Maçarico) e de Manuel Fernandes. Deve ter nascido em finais do séc. XIX e emigrado para a América nos anos 20. O Horácio nunca o chegou a conhecer. Foi o avô materno, o Ti João das Velas de Santa Bárbara, sacristão, quem marcou a sua infància, e o apoiou na sua decisão de ir para a escola primária e depois para o seminário, única forma de escapar à pobreza naquele tempo. (Ediçãp da foto e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)


Fonte: Américo Teodoro Maçarico Moreira Remédio - Vila de Ribamar e as famílias mais antigas: Família Maçarico: Árvore genealógica: 500 anos de história. Ribamar, Lourinhã: ed. autor. 2002, pag.132. 



1. Estamos a reproduzir excertos da dissertação de mestrado em ciências da educação, pela Faculdade de Psicologia e Ciências das Educação da Universidade do Porto (1995), da autoria do Horácio Fernandes.

No capº 4º, ele narra e comenta em 3 dezenas de páginas a sua história de vida.  No poste anterior,  ele apresentou-nos. sucintamente,   a sua terra, "Arribas do Mar" [leia-se Ribamar, da Lourinhã], bem como as 3 figuras da família que o marcaram: o pai (José Fernandes Nazaré), a mãe (Elvira Neto) e  o avô materno  (nascido por volta de 1875/80, o sacristão da freguesai, o Ti João das Velas de Santa Bárbara)... 

O avô paterno, Fernandes (Maçarico),  nunca o chegaria a conhecer: quando disse a Missa Nova, em 1959, ele já tinha morrido na América.

É uma história de vida, bem dura, em tempos muito difíceis, que merece ser conhecida dos nossos leitores. O Horácio nasceu em 1935. Em 1945/46,  cpmpletou a 4ª classe e seguiu para o seminário dos franciscanos (em Montariol, Braga). A maior parte de nós, que nasceu já 10 ou mais anos depois do Horácio, ainda se reconhece nesta narrativa autobiográfica  

Foi a partir deste trabalho académico que, 14 anos depois, ele publicaria o seu livro de memórias "Francisco Caboz: a construção e a desconstrução de um padre" [ Porto: Papiro Editora, 2009, 185, (7) pp. ISBN 978-989-636-446-5].

Francisco Caboz é o "alter ego" do Horácio Fermandes, entretanto falecido, recentemente, em novembro de 2025, aos 90 anos). (O livro está esgotado.)

O Horácio Fernandes  seria ordenado padre em 1959. Foi capelão  no exército e na marinha mercante. Deixou o sacerdócio em 1972. Casou, passou a viver no Porto. Teve 3 filhos. Estava reformado da Inspeção Geral de Educação onde trabalhou 25 anos na zona norte. Em 2006 doutorou-se em ciências da educação pela Universidade de Salamanca, Espanha. Reencontrei-o por volta de 2015, na Tabanca de Porto Dinheiro. Ainda somos parentes, pelo lado paterno: as nossas bisavóis. Maria Augusta e Maria da Anunciação (nascidas na década de 1860) eram irmãs, e pertenciam ao clã Maçaricos.


História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte II:  A escola primária e a comunhão solene (1942-1946)

por Horácio Fernandes


3. Quando fiz sete anos    entrei para a escola, porque, não obstante fazer falta para tomar conta de minha irmã, doente cardíaca, esse o desejo de meu avô. Alimentava a esperança de ter um neto padre e insistiu com o meu pai.

 Aliás, eu não tinha sido habituado às lides do campo nem do mar, porque, como mais velho, tinha de tomar conta dos irmãos: aos dias de semana, paira a minha mãe trabalhar no campo e ao domingo ir à missa.

Na terceira [1944/45] e quarta classe [1945/46] , as coisas mudaram. Veio uma professora oficial de Lisboa e foi morar na residência anexa à escola, construída pelo povo. Vivia sozinha com sua mãe e um cãozinho de luxo.

 Meu pai, quando matava o porco, ou trazia um peixe melhor, mandava-me levá-lo ao Senhor Prior e à professora, cuja mãe me mimoseava com um pacotinho de bolachas.

Uma vez, faltou dinheiro da Gaixa Escolar, que era para ajudar os alunos mais pobres a comprarem o material escolar, e a professora interrompeu imediatamente as aulas. 

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Como dissemos no 2° capítulo, e em síntese, o sistema educativo salazarista não tinha preocupações de qualidade. Na sua lógica de privilegiar a doutrinação sobre a qualificação pedagógica (...), arregimentou pessoas de «bons costumes», a quem não exigia habilitação escolar para além da 4ª classe, a quem deu o estatuto de «regentes». (1)

Interessado apenas na alfabetização e não na escolarização, o regime investiu nestas figuras, a quem pagava pouco, mantendo-as mais facilmente na subordinação. 

Em Arribas do Mar, numa escola construída pelo povo, em 1932, houve apenas «regentes» até 1944, que ministravam a 1ª, 2 e 3ª classe. 

Quem quisesse tirar a 4ª  classe tinha de andar todos os dias 16 quilómetros [Lourinhã, ir e vir] , sem estradas nem meios de comunicação.

(1) Decreto n° 20604, de 30 de novembro de 1931.

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Os alunos ficaram aterrados e todos se interrogavam de quem seria o culpado. Como ninguém se acusasse, a professora usou o seguinte estratagema: deu meia hora de intervalo para que o culpado fosse buscar o dinheiro e depois obrigou os alunos a desfilarem, um de cada vez, com as janelas fechadas, para que o culpado repusesse a importância subtraída na respectiva Caixa. 

No fim desta operação, felizmente para todos, a importância estava reposta. Reuniu os alunos e disse-lhes:

«O que tirou o dinheiro e o repôs, até agora só reparou metade do pecado que cometeu. Agora tem de se ir confessar ao Senhor Prior, para que Deus lhe perdoe.» 

A tarde, levou todos os alunos à confissão.

A vingança dos que abandonavam a escola, também não se fez esperar. Passado um ano, começou a ir lá aos fins de semana outro professor de Lisboa namorá-la. Como era de baixa estatura, os 'rapazes vingavam-se nele, chamando-lhe «rapazeco» e correndo atrás dele e gritando, como faziam os maiores aos mais pequenos: «capa-se ! capa-se!».

À quarta feira, tínhamos catequese na escola e, ao sábado, aulas de Mocidade Portuguesa. A professora passava revista às nossas cabeças e às mãos. Se não estivessem limpas, ela própria fazia a limpeza.

Não se importava que fôssemos descalços, ou remendados, mas tínhamos de ir limpos. Se não fôssemos, não nos deixava entrar, e não se contentava com as desculpas da mãe do aluno e obrigava o pai, ao outro dia, justificar a falta. Na terceira e quarta classe, ao fim do dia, levava-nos para casa e dava-nos aulas até ao entardecer e de Inverno pela noite dentro.

Nas revisões para os exames, dava um pacote de 5 bolachas a quem lhe fizesse 5 problemas certos e quem não desse erros, dava reguadas aos outros. Eu combinava com o meu primo, que era bom a problemas, mas fraco a ditados.Por isso, eu, que não dava tantos erros, batia-lhe com pouca força e ele dava-me bolachas.

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A  primeira e segunda classe de Francisco foram atribuladas. Estava-se em 1942. As professoras «regentes» faltavam muito e ensinavam pouco. Com o mísero vencimento que auferiam (2) tinham de prover à subsistência da sua família e dar aulas de manhã aos rapazes e de tarde às raparigas da 1ª, 2ª e 3* classe.

Quem valeu a Francisco foi a «Menina Luísa», que tinha sido governanta do Senhor Prior e levava as crianças para casa para as ensinar. Como morava perto da sua casa, ia para lá todas as tardes fazer cópias e contas, pagando o seu pai com o melhor peixe do seu quinhão.

No ano lectivo 1944/45, Arribas do Mar passou de Posto Escolar para escola oficial e foi criado um lugar do quadro para uma professora. Chamava «paraquedista» à «regente» escolar que a antecedeu e assumiu-se como o 'alter ego' do Senhor Prior (3). Autêntica «missionária», a escola com ela era a fiel reprodutora do 'construtum' salazarista.

Cada lição do compêndio era reforçada com um sermão, sobre as obrigações de cada um para com Deus e seus representantes: pais, professores, padres e autoridades. Às quartas feiras à tarde, não obstante o atraso no programa, ministrava aos alunos a catequese para a comunhão solene. A escola era complemento da catequese.


 (2) «Se os regentes escolares que recebem 250$00 mensais, exceptuando as férias grandes, recebessem todo o ano, seriam equiparados a auxiliares de limpeza e guardas das sentinas da Ex.ma Câmara do Porto e ficariam abaixo dos varredores de 3ª lasse que auferem uns 330$00» (Dr. Pires de Lima, 1942,/« SAMPAIO, 1976: 200).

(3)  Ver Pinto, "Professor da Escola do Magistério do Porto", s.d.

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Começava com muitos alunos da terceira e quarta e no meio do ano já nem estavam metade. Os outros iam-se espontaneamente embora, mas ela também não fazia nada para os reter, porque dizia: «não quero cá os burros». 

À custa da régua, cana e bater com a cabeça no quadro decorávamos todos os caminhos de ferro, rios e serras do Continente Ilhas e Colónias, mesmo sem saber onde se localizavam. 

Todos os dias esperávamos por ela no alpendre da escola, às 9 horas em ponto, e saudávamo-la em silêncio, estendendo o braço à lusito, com um «Bom dia Senhora Professora !». Depois, em fila militar, entrávamos no átrio coberto, que antecedia a sala de aula, cantando em coro o hino da Mocidade Portuguesa: «lá vamos cantando e rindo, levados, levados sim (...)».

Ficávamos de cabeça baixa e olhos no chão, quando, depois das orações, chamava alguém ao quadro. O silêncio era de morte. Quando ela dava um sorriso, o que era raro, parecia que era dia de festa. O sinal exterior de que algo estava a correr mal era uma veia saliente que tinha junto aos olhos. Quando crescia, era sinal de tempestade.

Das poucas vezes que a vi sorrir, foi quando foram anunciados os resultados do exame da 4`ª classe, realizados na Lourinhã e passaram os cinco alunos que levou a exame, dos 8 que tinham começado a 4ª classe. 

Mas foi sol de pouca dura, porque ainda faltava o exame para a Comunhão Solene que ia ser feito pelo senhor Prior e ela dava-lhe tanta ou mais importância, que ao da quarta classe.

Perguntava, muitas vezes, quem queria ser padre e tinha uma devoção especial por Santo António de Lisboa. Quando tinha algum tempo livre, lia-nos as vidas dos santos da sua devoção.

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Entregou-se totalmente à escola e aos alunos. Exigente, cumpridora, católica devota, tomou sobre os seus ombros civilizar aquela gente ainda rude. 

No primeiro ano em que entrou, para conseguir mais um lugar de «regente», matriculou 88 alunos, da 1ª à 4* classe (4). Contudo, efectivamente começaram as aulas apenas 43 alunos: 26 da primeira e segunda classe e 17 da segunda e terceira classe. 

Os rapazes eram obrigados a vestir bata castanha e as raparigas bata branca.

No ano seguinte foi criado, mas não preenchido, mais um lugar de «regente» em Arribas do Mar. A professora ficou novamente sobrecarregada com 65 alunos, dos quais 17 fizeram exame: 12 do primeiro grau e 5 do segundo grau. 

Toda a gente a temia, mais que ao Regedor ou ao Cabo de Ordens, naturais de Arribas do Mar.

Muito reservada, dava-se apenas com duas ou três famílias, sendo intransigente quanto ao que chamava as «obrigações».

A escola elitista do regime seleccionava os «melhores», prefigurando uma sociedade, em que os pobres, submissos e dependentes,  eram alimentados dos valores simbólicos que os «eleitos» administravam. Para isso, recrutava dos meios rurais matéria-prima, que depois de estruturada pelo 'habitus' (cap. 3º ) e com o patrocínio dos «melhores»,  os benfeitores, iriam reproduzir os valores do sistema. Em contrapartida, adquiriam novo status social. 

Dos 4 rapazes e uma rapariga, que com Francisco fizeram o exame da 4ª classe, três foram para o Seminário e um para pescador. A única rapariga foi para costureira.


(4) Números retirados do Registo da Vida Oficial do Professor Primário, organizado por Manuel Pinto de Sousa, 1930. Porto (documento preenchido pela professora).

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Fonte: Excertos da dissertação de mestrado do Horácio Neto Fernandes, "Francisco Caboz: do angélico ao trânsfuga, uma autobiografia". Porto:  Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. 1995, pp. 106-108  (A dissertação, orientada pelo Prof Doutor Stephen R. Stoer, já falecido, está aqui disponível em formato pdf).

(Seleção, revisão / fixação de texto, paraènteses retos, bold, itálicos, título: LG)

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 3 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27598: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte I: Arribas do Mar (Ribamar, Lourinhã), a família (o pai, a mãe, o avô materno)