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quinta-feira, 27 de março de 2025

Guiné 61/74 - P26623: No céu não há disto: Comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (47): Um prato duriense, que se comia na Quaresma, "sável frito com açorda de ovas" (e que vai bem com o "Nita", da Quinta de Candoz, um DOC verde, branco, colheita selecionada, 2023, diz a "Chef" Alice)




Alfragide > 23 de março de 2025 > Um prato duriense, "sável frito com açorda de ovos", que vai bem com o "Nita", branco, verde, da Quinta de Candoz, colheita selecionada (2023)... A sugestão é da "Chef" Alice...

Foto (e legenda): © Luís Graça (2025). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

1. Caros leitores: dou conta que desde maio do ano passado que não têm aparecido no blogue as tradicionais sugestões gastronómicas dos nossos vagomestres (*)...

 E, a propósito, por onde é que eles andam ? Há tempos pusemos um anúncio: "Vagomestres, precisam-se!"... Só apareceu um, o Aníbal José da Silva (**)...

Mas todos os dias a malta  tem de comer, mal ou bem... Nas nossas "messes" e "ranchos"... Cada vez pior, diz o povo...E ele há coisas que vão desaparecendo das nossas mesas: caça, peixe, marisco, vitela, queijo e requeijão de Serpa... Quem é que lhe chega ? 

O vagomestre, com a pandemia de Covid-19, habituou-se aos enlatados: atum com grão de bico, cavalas em óleo de girassol,  sardinha em óleo picante com pickles, etc. E aos congelados... 

Mas, feitas as contas ao quilo, até o raio das conservas de peixe estão pela hora da morte... E até os petiscos dos pobres passaram para o cardápio dos ricos, do bacalhau ao polvo, do berbigão à sapateira, do sável à lampreia...

 Será que ainda se fazem as "iscas com elas" ?  E ainda há quem faça "tomates de carneiro com ovos mexidos" ?...

O que desapareceu, do nosso tempo, foram também as tascas, com serradura no chão e pipos de tinto carrascão na parede, mesas de tampo de mármore e mochos de madeira em vez de cadeiras de plástico...

Mas estamos numa época boa para certos "petiscos" como as favas suadas, as casulas com butelo ou o sável frito com acorda de ovas... Foi o que a nossa "chef" Alice fez para celebrar os dois mesinhos da segunda neta, a Rosinha... Dizem os comensaios que foi comer e chorar por mais (o sável foi generoso, tinha dois quilos e meio e trazia as ovas...). 

Era um "prato" que se comia à mesa dos pobres, na Quaresma, por várias razões que se podem enumerar pelos dedos:

  • era a altura do sável (e da lampreia) subir o rio Douro para desovar (ainda não havia barragens); 
  • os pobres não compravam a bu(r)la ao senhor abade;
  • os "rendeiros" não podiam comer carne mas precisavam de proteína para trabalhar os socalcos do seu "senhor e amo";
  • o sável vendia-se de porta em porta, uma fiada enorme de peixe enfiado num longo varapau às costas do pescador de rio; 
  • tinha muitas espinhas, era preciso engenho, arte e paciência para o saber cortar fininho e fritá-lo em azeite...

Ele há coisas que não há no céu... E que não tèm preço. E que, por isso, não passam pelo estreito dos bilionários... E uma delas é, para além do "cebolinho do talho",  seguramente a açorda de ovas com sável frito, com um toque muito especial do alho e do coentro (que era do Sul, dos ganhões, e que por isso não ia à mesa do rei)... 

Tudo à moda da "Chef" Alice, segundo uma receita antiga da família da Quinta de Candeoz, que ainda é do tempo do extinto concelho de Bem Viver e das pesqueiras do rio Douro que tinham foral do senhor Dom Manuel , o Venturoso.

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Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 13 de maio de 2024 > Guiné 61/74 - P25517: No céu não há disto... Comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (46): Viva o po(l)vo... da Lourinhã!

(**) Vd. poste de 18 de março de 2025 > Guiné 61/74 - P26595: Vivências em Nova Sintra (Aníbal José da Silva, Fur Mil Vagomestre da CCAV 2483/BCAV 2867) (3): A Alimentação

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

Guiné 61/74 - P26495: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (35): "Até choras por andar de lambreta" (Cartune de Manuel Cruz, filho de Adão Cruz, ex-alf mil médico, CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887, Canquelifá e Bigene, 1966/68)




"Até choras por andar de lambreta"... Cartune de Manel Cruz,  músico e artista plástico, nascido em 1974,em São Jpão da Madeira, filho do  nosso camarada Adão Cruz, com a devida vénia.

Foto:  © Manuel Cruz / Adão Cruz (20256). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Há dias descobri que o nosso camarada Adão Cruz, médico cardiologista reformado, ex-alf mil médico, CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68), além de grande escritor (contista e poeta)  e pintor, e nosso grão -tabanqueiro de longa data, tem um filho  (um de 3 filhos) que também é um talentoso ilustrador e cartunista, além de músico. 

No passado 2 de fevereiro de 2025, 11:06, o Adão Cruz mandou-nos a seguinte mensagem:

Assunto: Manel

O meu Manel (Manuel Cruz), tem mais de dois mil desenhos feitos ao longo da adolescência e também alguns poemas. Já publiquei algumas centenas de desenhos, mas todos os dias encontro mais e mais cadernos e papéis cheios deles. Vou publicando, tenham paciência.

2. Por falta de tempo, não posso prestar toda a  atenção que devia, ao correio que me chega, apesar da ajuda do Carlos Vinhal. 

Mas hoje dei de caras com este "cartoon" (ou cartune, como já vem grafado nos nossos dicionários), e lembrei-me de uma expressão que se ouvia bastante na nossa adolescência: "Até choras por andar de lambreta" (sic)...  (A piada era para as meninas do nosso tempo, dos idos anos de 60,  que, de saia até meio da canela,  se começavam a aventurar nestas maquinetas, de pôr os cabelos dos rapazes em pé.)

Lembram-se da "lambreta" (origem etimológica: Lambretta®, marca registada italiana) ? Diz o dicionário: "Veículo de duas rodas, accionado por um pequeno motor, de forma análoga à motocicleta, mas provido de um assento em lugar de selim de montar, e com rodas de menor diâmetro.

Fonte: "lambreta", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2025, https://dicionario.priberam.org/lambreta.

Quem não as viu passar nas então ainda pacatas ruas das nossas vilas e cidades,  os cabelos soltos ao vento, com as pernas muito apertadinhas para travar as saias ? Livres, como o vento... 

Foi o princípio da "revolução feminista" no sul da Europa...   Os "despeitados" chamavam-lhes "marias-rapazes"...  

Hoje são avozinhas... E são as suas netas que  fazem parte da nossa paisagem urbana: usam  minissaia ou calções, a perna ao léu. E,  felizmente,  também capacete, coisa que não era obrigatória nos anos 60/70/80 (!) (só a partir de 1 de janeiro de 1991)...

Ainda por cima hoje é dia dos namorados.. Pois ai vai um cartune do Manel Cruz, sem legenda, e com a devida vénia ao artista e ao pai...(De resto, os filhos dos nossos camaradas, nossos filhos são...)

Há um página da "Lambretta", na net: para  quem quiser saber mais sobre a história deste veículo que ficou no nosso imaginário dos anos 60, clicar aqui.  No Facebook há também uma página da "Lambretta - Portugal", que merece uma visita...

Enfim, coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços... (*)

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Nota do editor:

(*) Último poste da série > 8 de fevereiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26473: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (34): O amola-tesouras (Rui Felício, nado e criado no Bairro Norton de Matos, em Coimbra)

sábado, 8 de fevereiro de 2025

Guiné 61/74 - P26473: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (34): O amola-tesouras (Rui Felício, nado e criado no Bairro Norton de Matos, em Coimbra)



1. O Rui Felício, que foi uma das vítimas do desastre do Cheche (ia na  trágica jangada, tendo perdido 11 homens do seu pelotão em 6/2/1969) (*),  é um dos históricos do nosso blogue. 

Entrou para a Tabanca Grande em 12/2/2006 (a par do Paulo Raposo). Ex-afl mil, CCAÇ 2405 (Galomaro e Dulombi, 1968/70), tem 35 referências. Advogado, é  autor do blog Escrito e Lido 2010-2014, colabora no blog Encontro de Geraçóes do Bairro Norton de Matos . É um talentoso contador de histórias: tem pelo menos umas 10 na série "Estórias de Dulombi", que gostaríamos de poder retomar.

Natural de Coimbra, vive na Ericeira.


Rui Felício > Blog Escrito e Lido > quinta-feira, 28 de março de 2013 > Amola-tesouras


A minha memória , entre várias figuras que percorriam as ruas do Bairro, guarda ainda a imagem do amola-tesouras.

Com a boca deslizando numa gaita de beiços, primeiro num sentido e depois no contrário, percorria totalmente a escala musical, dela extraindo uma melodia estridente e inconfundível.

Era desta forma que anunciava a sua própria presença, chamando as donas de casa que tivessem facas e tesouras para afiar, panelas e tachos rotos para remendar, ou mesmo pratos rachados para lhes serem colocados “gatos”.

Dizia-se que a sua vinda previa chuva iminente. A profecia muitas vezes batia certo, apenas porque era no inverno que o amola-tesouras aparecia com maior frequência. Por causa dos consertos nos guarda-chuvas, que também fazia...

O seu principal instrumento de trabalho era constituído por uma roda feita de pedra de esmeril, que fazia rodar a grande velocidade, impulsionando um pedal acoplado à roda de bicicleta que àquela estava ligada por uma correia de transmissão em cabedal.

Fascinava-me observar o trabalho de afiar as facas e as tesouras. Da pedra de esmeril em contacto com o metal, soltava-se uma miríade de faíscas que me lembravam os fogos de artifício que eu tinha visto nas festas da Rainha Santa.

E, a tantos anos de distância, dou por mim a reflectir como os tempos mudaram de maneira tão acentuada.

Hoje em dia, os hábitos de consumo que nos foram sendo incutidos, tornam quase impensável mandar consertar utensílios e ferramentas do nosso quotidiano.

Se um guarda-chuva se estraga, deitamos fora e compramos outro na loja dos chineses. Se as lâminas da faca ou da tesoura embotaram, se o prato rachou, se o tacho furou, fazemos a mesma coisa.

Displicentes, apressados, nós próprios também quase descartáveis... (**)


Rui Felício


(Reproduzido com a devia vénia...)
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Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 7 de fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5778: Efemérides (45): O desastre do Cheche, visto por quem esteve lá e perdeu 11 homens do seu grupo de combate (Rui Felício, Alf Mil, CCAÇ 2405, Galomaro, 1968/70)

(**) Último poste da série > 1 de dezembro de 2024 > Guiné 61/74 - P26220: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (32): da "pubela"... ao vidrão, sem esquecer a "cesta-secção" e a "poubellication" (Luís Graça)

terça-feira, 17 de dezembro de 2024

Guiné 61/74 - P26276: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (33): Um presépio de há 60 anos, na Lourinhã, com um Menino Jesus muito "elétrico"... (Horácio Mateus, 1950-2013)

 


 Capa do livro "Apontamentos de Etnografia", de Horácio Mateus (1950-2013). Lourinhâ: GEAL - Grupo de Etnologia e Arqueologia da Lourinhã, 2014, 56 pp.  (Foto da capa: o autor) (Com a devida vénia...)






1.  Fez este ano 40 anos o Museu da Lourinhã. `À sua criação e à sua história está indissoluvelmente ligada a figura do lourinhanse Horácio Mateus (1950-2013). Meu conterrâneo, amigo e vizinho, já não foi à guerra, fez a tropa. 

Em vida, foi etnólogo, espeleólogo, arqueólogo, paleontólogo, museólogo...Amador. Por paixão. Por muito amar a sua terra, a sua gente, o seu património cultural, material e imaterial.

C0mo  eu disse na oração fúnebre, aquando da sua despedida terrena, ele foi "um exemplo de paixão pela vida, pela terra, / pelos seres que o habitam ou habitaram, / pelas artes e ofícios dos nossos antepassados, / pelas pedras das suas casas, / pelos muros dos seus caminhos, / pelas árvores dos seus campos"... Cultivou "a paixão pela história, / pela ciência, /pela cultura, / pelo património de todos nós" (*)

"Não gostava de escrever", dizia a viúva, infelizmemnte também já desaparecida, a Isabel Mateus (1950-2021). Mas, com muito amor foi ela quem juntou e organizou  estes apontamentos de etnografia, histórias e notas que oo Horácio  foi 5registanbdo na memória e fixando no papel, associadas à riquíssima coleção etnográfica do museu, cuja recolha se deve em grande parte a ele... 

Mas mais do que as peças, em risco de se perderem para sempre (da bicleta do ourives ambulante aos rótulos e e recipientes da "fábrica de pirolitos",  ou das ferramentas dos correeiros e dos ferradores), interessavam-lhe as histórias dos seus donos, a começar pelo seu pai que  era o "pitrolino" (vendedor ambulante de petróleo, azeite, sabão, aguardente e outros produtos de uso doméstico)  e pelo sr. Garcia, taberneiro e amola-tesouras, galego de Ourennse, fugido  da guerra civil espanhola de 1936-1939...


Brasão de armas da Lourinhã

Histórias que foram as da nossa infància, como a do presépio que se montava todos os anos (e ainda hoje de monta) na Igreja Matriz da Lourinhã. Em homenagem ao meu amigo, e para enriquecer a série "Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços" (**), foi repescar esta história do presépio, que remonta à primeira metade da década de 1960, já a guerra tinha "rebentado" em Angola, e depois na Guiné e em Moçambique, e já a Lourinhã tinha alguns dos seus filhos mortos, feridos e até aprisionados (como foi o caso da Índia, em finais de 1961),

O Vigário aqui referido era o padre António Pereira Escudeiro (Tomar, 1917-Lisboa, 1994), que veio de Alcanena para a Lourinhã em 1953 (e onde permaneceu até 1983). (Fundou e dirigiu na Lourinhã,  os jornais quinzenários regionalistas "Redes e Moinhos, em 1954, e depois o "Alvorada", em  1960; fundou e dirigiu também o Externato Dom Lourenço, em 1958. Quanto ao outro protagonista da história, era o José Andrade de Carvalho, hoje veterinário.









Excerto do livro "Apontamentos de Etnografia", de Horácio Mateus (1950-2013). Lourinhã: GEAL - Grupo de Etnologia e Arqueologia da Lourinhã, 2014. pág. 31. (Com a devida vénia...)

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Notas do editor:

(*) Vd. poste de > 19 de fevereiro de 2021 > Guiné 61/74 - P21918: Manuscrito(s) (Luís Graça) (199): Elegia para Isabel Mateus (Soure, 1950 - Lourinhã, 2021)

(**) Último poste da série > 1 de dezembro de 2024 > Guiné 61/74 - P26220: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (32): da "pubela"... ao vidrão, sem esquecer a "cesta-secção" e a "poubellication" (Luís Graça)


domingo, 1 de dezembro de 2024

Guiné 61/74 - P26220: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (32): da "pubela"... ao vidrão, sem esquecer a "cesta-secção" e a "poubellication" (Luís Graça)

1. Há dias li um artigo de opinião, de um luso-luxemburguês, jornalista, Ricardo J. Rodrigues, sobre a "pubela" (galicismo, que quer dizer "caixote ou balde do lixo", do francês "poubelle").


Foi publicado no semanário digital "Contacto", de 26 de fevereiro de 2022. Lamenta o jornalista que o vocábulo ainda não esteja dicionarizado ou grafado nos dicionários da Língua Portuguesa, e em especial o Priberam, da Porto Editora.

Talvez por que, acrescento eu, os dicionaristas são (ou foram no passado...) "muito conservadores", e às vezes "púdicos demais", para não dizer "elitistas"... Eu acho que às vezes andam distraídos ou não frequentam os mesmos lugares do comum dos falantes da língua portuguesa.

O título do artigo é: "Os portugueses do Luxemburgo que dizem pubela em vez de lixo". E já, em artigo anterior, ele queixava-se que "Portugal era arrogante com os emigrantes"... O Portugal das insituições e dos "donos" da língua...

Não posso deixar de concordar em parte com o autor, e lamentar sobretudo que ainda haja uma certa arrogância das chamadas elites cultas, nomeadamente nas questões linguísticas...

A língua portuguesa, viva, é feita por quem a fala, seja em Lisboa, no Marco de Canaveses ou no Luxsermburgo, em Luanda ou na cidade da Praia.

Conheço o vocábulo "pubela" desde que comecei a ir ao Marco de Canaveses, vai fazer meio século para o ano (eu iria casar lá, em 1976). E já a tenho usado aqui no blogue, ao dizer por exemplo que as nossas memórias da Guiné não devem (nem podem) ir para à "pubela"... E, também já usava, na gíria académica o palavrão "poubellication" (termo altamente depreciativo para os académicos se referirem à literatura científica que é "lixo"...) (do francês "poubelle" + inglês "publication").

Os emigrantes (nomeadamente os "franceses") usavam (e continuam a usar) o termo "pubela" para caixote ou balde do lixo, objeto que desconheciam no campo, nas aldeias, vilas e até cidades portuguesas na sua infância. 

Eu achava (e continuo a achar) deliciosa a palavra "pubela".

Numa pesquisa na Net, acabo de saber que a "poubelle", além de francesa, é parisiense: Eugène René Poubelle (1831.1907 à Paris), jurista, diplomata e prefeito do departamento do Sena, Paris (entre 1883 e 1896),  é o "pai" da palavra"poubelle, que acabou por ser uma homenagem popular aos seus esforços para melhorar a higiene e salubridade de Paris.

Na realidade, as nossas cidades europeias, até tarde, e na sequência da industrialização e urbanização dos nossos países, eram lixeiras a céu aberto (como, infelizmente, ainda hoje encontramos em África).

Mas voltemos ao Luxemburgo, que eu conheci no início dos anos 90, e onde a "peugada lusitana" já era por demais evidente, no quotidiano (falava-se português com sotaque nortenho ou alentejano, nos restaurantes e cafés, bebia-se Sagres e Superbock, e havia fãs, com camisolas e cachecóis e tudo, dos principais clubes de futebol, Porto, Benfica e Sporting).

(...) "Em 1970, ano em que o governo luxemburguês assinou com o Estado português um contrato que permitiu a milhares de trabalhadores estabelecerem-se no Grão-Ducado, a recolha de lixo era um conceito quase inexistente em Portugal." (...)

(...) Os luxemburgueses e os franceses e suíços ensinaram-lhes que aquilo era a poubelle, e eles converteram-na em pubela. Quero lá saber se isso é português correto ou não. Quero é saber que aprenderam a usá-la, nas palavras e nos gestos." (...) (Fonte: 
Ricardo J. Rodrigues)


2. A situação, hoje, em Portugal não tem a nada a ver com os nossos tempos de infância e adoslescència, no campo ou na cidade... E damos exemplos a países como... o próprio Luzemburgo, diz o jornalista:

(...) "Eu, que sou lisboeta, dificilmente ando mais de 100 metros até encontrar um ecoponto, onde posso separar o vidro do plástico, o cartão dos restos de comida. E o que tenho para dizer é que o Luxemburgo nos pode ter apresentado a pubela, mas falha miseravelmente na hora de recolher o lixo.

Alguém que viva em Clausen, por exemplo, tem de caminhar dois quilómetros até encontrar um vidrão. (...)


E acaba com graça, humor e até irreverência o nosso luso-luxemburguês Ricardo J. Rodrigues:

(...) O Luxemburgo é um dos países com maior pegada ecológica no planeta. E está certo que houve este momento na História em que eles nos ensinaram o que era o lixo. Mas agora é capaz de ser o momento em que nós temos de ensinar-lhes como se faz reciclagem. Estou a pedir ecopontos por todo o país, para podermos separar o que consumimos. Para podermos fazer a pubela que precisamos.(...)


3. Na nossa gíria de caserna temos um equivalente para "pubela", que é "cesta secção", a dos papéis do lixo...


Mas a "pubela" da primeira geração dos nossos emigrantes remete-nos para um tempo em que, de facto, não conhecíamos, a maior parte dos portugues, o WC, a água potável distribuída ao domicílio, o saneamento básico, a recolha e separação dos lixos domésticos e urbanos, desde o vidro ao papelão...

Recordo-me, nos anos 50, quando ia a casa dos meus tios maternos, no Nadrupe ou na Quinta do Bolardo, a escassos quilómetros da Lourinhã, da importância que tinha o quinteiro, a estrumeiro ou a esterqueira, no logradouro onde se criavam os patos e as galinhas, e onde se faziam todos os desepejos domésticos... com exceção da "lavagem do porco"... Ou como se diz, no Alto Minho e em Trás-Os-Montes, "a lavagem, com a sua licença,... do porco". Felizmente, ainda não havia, nesse tempo, a praga do plástico, da esferovite, do vidro, do papelão, das pilhas, e por aí fora..., o lixo com que damos cabo do planeta.

Hoje podemos, ao menos, falar da "pubela" do nosso contentamento...

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Nota do editor:

segunda-feira, 4 de novembro de 2024

Guiné 61/74 - P26113: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (31): o terror do "exame de admissão" (à escola técnica e/ou ao liceu) (Joaquim Costa, "Crónicas de paz e guerra", 2024, excerto, pp. 207/209)


Joaquim Costa (na foto à esquerda, quando miúdo): 

(i) ex-fur mil at armas pesadas inf, CCAV 8351, "Tigres do Cumbijã" (Cumbijã, 1972/74); 

(ii) membro da Tabanca Grande desde 30/1/2021, com mais de 7 dezenas de referências no blogue;

 (iii) engenheiro técnico (ISEP - Instituto Superior de Engenharia do Porto), foi professor do ensino secundário, tendo-se reformado como diretor da escola secundária de Gondomar: 

(iv) minhoto, de Vila Nova de Famalicão, vive em Rio Tinto, Gondomar, e adora o Alentejo;

 (v) tem página no Facebook;  e, por fim, e não menos importante,  

(vi) perdeu recentemente a sua querida Isabel;

 (vii) e vai lançar o seu livro "Crónicas de paz e guerra", no próximo dia 9 do corrente, sábado, às 15:00 na Biblioteca Municipal de Gondomar (*)


1.  É o relato, sucinto mas magistral, além de bem-humorada, do que era o terror, no nosso tempo de meninos e moços (**), o dia do exame de admissão ao liceu (na capital de distrito, neste caso em Braga) ou de admissão ao ensino técnico (na sede concelho, Vila Nova de Famalicão).  

O autor, Joaquim Costa, fez os dois exames, com 11 anos, em 1961 (já a guerra colonial tinha "rebentado em Angola", sobrando para a ele, mais tarde, a da Guiné, em 1972/74).  

Acabaria por entrar no ensino técnico, no ano letivo de 1961/632. 

No excerto que selecionámos, interessa-nos a primeira parte do seu depoimento, as peripécias que viveu antes de poder entrar no curso de montadores eletricistas (na sede de concelho da sua terra natal) e depois na Escola Industrial do Infante Dom Henrique, no Porto, e finalmente no Instituto Industrial do Porto (hoje, Instituto Superior de Engenharia do Porto / Instituto Politécnico do Porto). Com a tropa, pelo meio...

Enfim, um percurso escolar muito semelhante ao que muitos de nós trilhámos: recorde-se, em todo o caso, que não havia ensino técnico em todas as sedes de concelho e o ensin0 liceal era para uma minoria relativamente privilegiada, funcionando apenas nas capitais de distrito.

E ainda foi do tempo da Mocidade Portuguesa, enquanto frequentou  a escola técnica, durante 4 anos:

 "Aos sábados de manhã, equipado de calções e camisola branca com o emblema das cinco quinas ao peito, lá ia ele, contrariado, para atividades da Mocidade Portuguesa. Marchar 'contra os canhões' e cantar o seu hino: 'Lá vamos cantando e rindo, levados, levados sim'..."  (pp-. 209/210).



O terror do "exame de admissão" (à escola técnica ou ao liceu) 

por Joaquim Costa
 

Sete anos feitos,  lá vai ele conhecer a D. Natália (a fera!), carregando a sacola de serapilheira devidamente equipada: livro da primeira classe, lousa, “riscotes”, uma tabuada e uma pequena almofada de trapo velho para limpar a lousa depois de lhe cuspir.

Tal como na cateques,  as raparigas que faziam o percurso para a escola com ele, aqui desapareciam e só as voltava a ver no regresso a casa.

Aos onze anos, da sua sala, apenas ele foi para explicações para casa de uma outra professora para fazer o exame de admissão à escola técnica.

Foi na casa desta simpática professora que viu, pela primeira vez, a beleza de um pavão abrindo as suas penas coloridas em leque.

Foi também aqui que viu em direto, na televisão, a colocação da última parte do arco da Ponte da Arrábida. Meio país dizia que a “coisa” ia acabar no rio. Foi um dia em que o povo se encheu de orgulho dos seus engenheiros.

No final,  foi convidado a fazer uma redação sobre o acontecimento já que a professora tinha uma convicção muito forte que ia ser o tema do exame.

Mais convicto que a professora,  acabou por memorizar a sua redação que esta classificou de Muito Bom.

A sua convicção era tão forte que “despejou” tudo no exame sem olhar ao que lhe era pedido: foi quase ao lado, já que o pedido era uma redação sobre os Descobrimentos. Mas a redação comparava os dois extraordinários feitos!

A professora estava toda entusiasmada. Não tinha dúvidas que, depois dos dois meses de explicações, o rapaz se ia safar.

Chegado o dia, logo pela manhãzinha, ainda o galo não tinha cantado, já sua mãe lhe vestia o fato que o pai tinha mandado fazer, por medida, ao alfaiate da terra. Tudo novo: fato, camisa, gravata e sapatos. Até o cão fadista estava espantado.

Lá vai ele apanhar a carreira para a vila, metido num colete de forças, completamente desconfortável, transpirando por todos os poros e com os pés a moerem-lhe.

Chegou à vila com tonturas e enjoado, acabando mesmo por vomitar sujando o impecável fato, pois foi a primeira vez que andou de camioneta. Da vila só conhecia a feira, percurso que sempre fez a pé com a sua mãe.

Lá o levaram até ao ginásio da Escola, com dezenas de alunos sentados, e com ar de assustados, cada um na sua mesa devidamente equipada com uma pena e um tinteiro.

Uma velha professora e mal-encarada coloca na sua frente uma folha de papel,  indicando o sítio onde devia colocar o seu nome e número do bilhete de identidade.

Já com o suor a cair-lhe na folha de papel e com as mãos a tremerem, lá tentou entender-se com a pena e o tinteiro para cumprir a tarefa que lhe foi imposta.

Vai com a pena ao tinteiro e começa a tarefa. Por muito que carregasse na pena a tinta não corria.

Começou a ficar atrapalhado já que se tinha apercebido que todos tinha acabado a tarefa e ele ainda não tinha começado.

Nova ida ao tinteiro e nada. Começa a abanar a pena para ver se a tinta corria. Correu tipo ketchup, acabando por borratar toda a folha. Logo tentou limpar pelo que, obviamente, a inutilizou .

Chamou a velha e mal-encarada professora que, ao ver todo aquele estardalhaço, ainda ficou mais velha e mais feia com a cara toda vermelha de raiva. Contudo,  lá mandou limpar a mesa, tendo-lhe entregado uma nova folha e uma nova pena que felizmente deixava a tinta correr.

A prova, depois de todos estes percalços, não podia ter corrido pior.

No final, já aliviado de toda aquela odisseia, lá contou à professora o desastre que foi a sua prova. Ele estava aliviado e feliz por tudo ter acabado, mas a sua professora estava muito triste, tendo-lhe mesmo corrido uma lágrima pelo seu lindo rosto.

A professora não se resignou e convenceu o seu pai que acompanhasse um outro aluno das explicações, com familiares em Braga, a fazer o exame de admissão aos liceus. Ele e o pai acederam mais por respeito à professora, já que estava fora de hipótese, com onze anos, ir estudar para Braga. Na altura só havia Liceus nas capitais de distrito.

Lá foi ele numa de passeio, com uma roupinha lavada e mais confortável, numa “carrimpana” do pai do seu amigo até Braga, vencendo as voltas de macada onde toda a gente vomitava.

A sua professora ficou maravilhada com o seu desempenho.

Entretanto saíram os resultados e para surpresa sua e da professora tinha entrado na escola técnica. Ainda hoje não sabe os resultado do exame de admissão ao liceu. (...)

(Seleção, revisão / fixação de texto, título: LG)

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Fonte: Excerto de: "O sistema de ensino antes do 25 de Abril de 1974: caso prático. In: Joaquim Costa - "Crónicas de paz e guerra", Rio Tinto, Lugar da Palavra Editora, 2024, pp. 207/209 (Com a devida autorização do autor...)


Também disponível, a história na íntegra, na página do Facebool > Joaquim Costa > 13 de março de 2024, 11:46 > O sistema de ensino antes do 25 de abril de 1974: caso prático

Capa do livro de Joaquim Costa - "Crónicas de paz e guerra: o Minho a Tombali (Guiné)... e o Porto Por perto". Rio Tinto: Lugar da Palavra Editora, 2024, 221 pp, il. (+ de 80 fotos)


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Notas do editor:

(*) Vd.poste de 31 de outubro de 2024 > Guiné 61/74 - P26098: Lembrete (48): Biblioteca Municipal de Gondomar, sábado, dia 9 de novembro de 2024, lançamento do livro "Crónicas de Paz e Guerra" (2014, 221 pp.; posfácio de Mário Beja Santos)

quarta-feira, 30 de outubro de 2024

Guiné 61/74 - P26096: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (30): quem é que não andou descalço na rua ?!...



Pàgina do Facebook da Càmara Municipal de Lisboa > 5 de dezembro de 2020. 17:00 > Aconteceu no dia 5 de Dezembro de 1931...

“Uma disposição acertada.

"O pé descalço nas ruas de Lisboa acabou. Começou hoje a vigorar a determinação do governo civil que não permite trânsito pelas ruas da cidade às pessoas que se apresentem descalças. Como se sabe, não era apenas por miséria, mas sim por hábito, com muitas pessoas sobretudo pertencentes a colónia ovarina que resolviam andar descalças, oferecendo à maioria da população o espectáculo impróprio de uma capital. Já em tempos o falecido comandante da Polícia senhor Ferreira do Amaral, tomou providências no sentido de acabar com o pé descalço. A breve trecho, porém esta disposição caiu em desuso, voltando o pé descalço a fazer a sua aparição nas ruas de Lisboa, sem ser incomodado pela polícia."  Fonte: "Diário de Lisboa", 5 dezembro 1931
Imagem do “Notícias Ilustrado” | Hemeroteca Municipal | Adapt. livre do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2024)




Liga Portuguesa de Prolifaxia Social (LPPS) > Porto > Maio de 1928 > Prospeto, impresso na Tipografia Empresa Guedes, usado na campanha contra o "pé descalço"... Quis-se acabar, "por decreto"(neste caso, por edital do Governador Civil do Porto) com o secular hábito de transitar na cidade de pé descalço... Tudo por mor da saúde pública, da cidadania, da civilização, da economia... Portugal estava há já dois anos a viver em regime de Ditadura Militar... Mas em meados dos anos 60 ainda a LPPS batalhava contra o "hábito tão nocivo, anti-higiénico e anti-económico" (sic) do pé descalço...


Imagem: Cortesia da página do Facebook do Arquivo Distrital do Porto Arquivo Distrital do Porto > 21 de julho de 2020


1. Afinal, a "proibição do pé descalço" não era só em Bafatá, vilória (e depois... cidadezinha) da antiga Guiné Portuguesa, ao tempo do administrador, transmontano Guerra Ribeira (intendente na parte final do consulado de Spínola, por volta de 1972/73) (*).

Também na "cabeça do império", a que chamávamos "metrópole", ainda há camaradas nossos que se lembram (ou lembravam, em 2013) de a malta andar descalça, até pelo menos ao final dos anos 50/princípios dos anos 60. Vejam-se alguns comentários ao poste P11288 (*):

(i) José Câmara:

Este caso não é assim tão inédito. Na cidade da Horta, Ilha do Faial, era proibido o pé descalço na cidade. Essa regra também dificultava a vida das pessoas campesinas que, na sua labuta diária, andava quase toda descalça.

Estou-me a referir aos meus tempos de estudante liceal.



(ii) Luís Graça:


No Norte do país também era prática corrente nos anos 50 e 60,  os camponeses irem descalços para a feira, mas à entrada das vilas enfiavam os chinelos ou as tamancas, com medo da GNR... 


(iiii)  Henrique Cerqueira:

No Porto também era proibido andar descalço na via pública. Era frequente verificar as mulheres que vendiam galinhas de porta a porta e se chamavam de "galinheiras" . Como carregavam grandes cestos com galinhas, era normal vê-las descalças e,  quando viam o polícia, calçavam de imediato as socas ou chinelos.

Era frequente haver polícias de mau carater se colocarem estrategicamente emboscados à espera dessas mulheres para as multar e então era nosso prazer de crianças estragar o esquema do policia avizando as mulheres do local onde estava o policia. Claro que esse policia não descansava enquanto não nos apanhasse a fazer alguma asneira, tal como a jogar a bola na rua e quase sempre descalços.

Isto se passava quase sempre nos jardins da Rosália, na Praça da Galiza em frente à Escola Gomes Teixeira. Quem é do Porto sabe onde é. (...)

21 de março de 2013 às 09:35

(iv) Belarmino Sardinha:
 
Para que conste, em termo de comentário, gostava de lembrar que em Évora,  minha terra natal e onde cresci e vivi até aos 18 anos, também existiam algumas regras sobre os "pé descalço", havia mesmo o Albergue Distrital de Mendicidade de Évora para onde eram levados e ali ficavam semi-aprisionados todos os que fossem apanhados descalços ou a pedirem esmola. Não eram presos em celas, mas não podiam de lá sair e tinham que trabalhar a terra de onde extraiam os produtos agrícolas...

Quanto ao trabalho posso também acrescentar que aquele que hoje é ainda um edifício actual e bem parecido onde funcionam o tribunal, registo civil etc, ao largo das Portas de Moura, que se chamava e creio manter o nome de Palácio da Justiça, foi construído, não sei se na totalidade, talvez não, mas com a mão d' obra dos presos da cadeia de Évora.

Todas estas situações eram medidas, creio que, generalizadas por todo o País, nada tendo que ver com outros aspetos de cor ou etnia...

(v) Antº Rosinha:

Havia alguns alferes milicianos, oriundos das nossas pequenas cidades, que não sabiam que muitos mancebos das grandes aldeias apenas calçavam botas diariamente quando iam para a tropa.

Muitos sabiamos como era o uso habitual de socas e tamancos no mundo rural português. Alguns sabemos o que era regar os campos "a pé".

Quem não sabe que no nosso mundo rural dos anos 50 e princípios de 60 imensos pastores e trabalhadores braçais apenas iam ao mercado comprar sapatos e ir ao alfaiate fazer um fato quando iam à inspeção militar?

Quem não sabe que havia pares de calças só ia para o lixo quando os remendos já ocupavam maior área que o tecido original?

Estranhei ver na televisão recentemente um grande escritor,  ex-oficial miliciano da guerra do ultramar, relatar como grande admiração, para um entrevistador estrangeiro: imagine que um dia um soldado me disse que a" primeira vez que calçou botas, foi quando veio para a tropa". Só um soldado?

Claro que os oficiais,  oriundos da Linha de Cascais,  não sabiam o que se passava na Linha do Vale do Tua nem na Linha do Minho.

Curioso que os angolanos, guineenses e alguns brasileiros, conheciam-nos melhor que nós próprios.

21 de março de 2013 às 12:17 

(vi) Tony Borie (EUA):


Saúdo todos, em especial o Paulo Santiago, que é oriundo de Águeda, terra onde nasci. Gostei de ler as histórias do "pé descalço"!.

Nos meus escritos, menciono algumas vezes os "Primos de Lisboa", pois ela,  a minha prima, era filha da minha tia, irmã do meu pai, oriunda dos "palheiros" das praias do lado de lá da Figueira, e que em tempos vendia peixe, com uma canastra à cabeça, pelas ruas de Lisboa, e contava a minha prima, que a minha tia, comprava um par de "chinelas" que duravam uma eternidade, pois usava a esquerda, até acabar, e depois usava a direita, também até acabar, caminhando pelas ruas de Lisboa, mancando, ora da direita, ora da esquerda, com um pé calçado, mas dentro da lei, pois andava calçada, embora só num pé!.



(vii) C. Martins:

Vai inseguro e descalço, 
caminhando sobre a calçada...
Será policia, será gente,
Gente não é certamente,
bota do policia não bate assim.

Podia-se andar descalço... 
não podia, ..mas andava-se.
Dinheiro para o calçado não havia, 
mas devia andar calçado...
devia, mas não podia..
Devia e não podia,
devia e não podia..

23 de março de 2013 às 04:20 



(com a devida vénia..:)


2. Facebook...ando, encontrei aqui um curioso prospeto da centenária Liga Portuguesa de Profilaxia Social  (LPPS) (criada no Porto em 1924),  documento esse que fez parte de uma campanha contra o "pé descalço" (Vd. prospeto acima). (**)

Reproduz-se, com a devida vénia, a seguinte postagem da página do Facebook do Arquivo Distrital do Porto, com data de maio de 1928.


Arquivo Distritakl do Porto > 21 de julho de 2020 


A PROIBIÇÃO DO PÉ DESCALÇO na cidade do Porto surgiu na sequência de uma campanha da Liga Portuguesa de Profilaxia Social contra "o indecoroso, inestético e anti-higiénico hábito do pé descalço".

Dias depois de o governador civil do Porto proibir o pé descalço na cidade, o governador de Lisboa tomou a mesma decisão para a capital.

De repente uma população com muitos pobres via-se obrigada por lei a andar calçada. Dado que se tratava de um hábito muito enraizado nos portugueses, em termos práticos, tratou-se de uma campanha longa, intensiva e rica em materiais de divulgação.

A título de exemplo, hoje partilhamos (...) a publicação da LPPS que faz referência ao edital do Governo Civil que proibirá o pé descalço no Porto, a partir do dia 20 de maio de 1928.
códigos de referência:

PT/ADPRT/ASS/LPPS/DIR/015-001/0587 (publicação LPPS)

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Notas do editor:

(*) Vd. poste de 21 de março de 2013 > Guiné 63/74 - P11288: (De) caras (13): Guerra Ribeiro, natural de Bragança: de administrador colonial no tempo do Schulz a intendente no tempo de Spínola (Paulo Santiago / Cherno Baldé / António Rosinha)



quarta-feira, 14 de agosto de 2024

Guiné 61/74 - P25839: Verão 2024: Olá, nós por cá todos bem (3): O bom padre Escudeiro (1917-1994) e a lição que aprendeu um dia, em Alcanena e na Lourinhã: "Nunca se sabe o que se passa no coração dos poetas nem muito menos na cabeça dos censores"...


Lourinhã > Igreja de Samta Maria do Castelo  (Séc. XIV). Gravura de autor desconhecido.n Fonte; Jornal "Alvorada", quinzenário regionalista, Lourinhã, 13 de setembro de 1964.



Poema à Igreja do Castelo

por Luís Graça

Em tuas pedras
Habitam os deuses assimetricamente
Ressuscitam os cavaleiros andantes
Que em ti prolongaram o Eterno.

Tuas naves albergam vagos sibilos
Símbolos escondidos
Pássaros noturnos
E recortam a harmoniosa dimensão do espaço
Em que as palavras se quebram
De encontro ao silêncio das colunas.

Adornaste os teus capitéis
Com as algas do mar
Extraíste das conchas as pérolas
Para o rendilhado das tuas rosáceas
E fabricaste
Com as linhas paralelas dos limos
A tua própria austeridade.

E do alto da tua torre
Como do mastro de um navio
Contemplas a imagem perturbante dos moinhos
E persegues as gaivotas
Até onde o mar tem fronteiras de neblina.

Luís Graça (1964)


Publicado originalmente no jornal Jornal "Alvorada", quinzenário regionalista, Lourinhã, 13 de setembro de 1964.



Lourinhã > Igreja de Santa Maria do Castelo (Séc. XIV) > Vista interior. Fotógrafo: Mário Novais, 1899-1967. Orientador científico: Mário Tavares Chicó, 1905-1966. Data aproximada da produção da fotografia original: 1954.[CFT015.236.ic].



1. Um poema meu, publicado aos 17 anos... (naquela idade em que todos julgamos ser poetas de génio). Dedicado à igreja que é o ex-libris da minha terra. E onde fui batisado em 1947. Pelo padre Tobias. 

Publicado no jornal "Alvorada". Há 60 anos. Foi aqui, no jornal "Alvorada", que comecei a publicar os meus primeiros poemas. A escrever as ,minahs primeiras peças jornalísticas (notícias, reportagens...). 

Foi aqui que tive a minha primeira atividade remunerada como jornalista, embora sem carteira profissional. Foi, aliás, esta a profissão que dei para a tropa, quando aos 20 anos fui à inspeção militar, em 1967. Também dava explicações a alunos do ensino secundário (português, francês, geografia, história...).

Comecei por estar ligado, à criação de uma secção, ou de uma página, a que chamámos "Alvorada Juvenil", com outros jovens da terra, estudantes (e outros,  já a  trabalhar), com destaque para os meus amigos e colegas de escola primária, os saudosos  Álvaro Andrade de Carvalho, mais tarde psiquiatra (Lourinhã, 1948 - Lisboa, 2017) e o Rui Tovar de Carvalho (Lourinhã, 1948-Lisboa, 2014), que haveria, depois, de fazer carreira no jornalismo desportivo. (O Álvaro faria hoje an0s, 76, se fosse vivo.)

Criámos a seguir um secção dedicada ao "correio dos soldados do ultramar", e mais uma outra onde demos voz aos nossos emigrantes (maioritariamennte em França e na Alermanha, ams também no "Novo Mundo", Brasil, EUA, Canadá).

No "Alvorada Juvenil", abrimos um inquérito aos jovens lourinhanenses e alimentámos o "cantinho dos poetas"... 

Havia da nossa parte alguma irreverência, inquietação e inconformismo, próprias da idade e das circunstâncias da época. Acabei por exercer as funções de redator-coordenador deste jornal, quinzenário regionalista, que ainda hoje se publica. E que era propriedade do Patriarcado de Lisboa. Com0o muit0s outros...

Foi fundado ao em 1960, pelo padre António Pereira Escudeiro (Tomar, 1917-Lisboa, 1994), um homem a quem a Lourinhã muito deve e que fez uma aposta forte na formação das elites locais, ou seja, na educação, para além do apostolado e do mister sacerdotal. Equipou o concelho com diversas igrejas novas, construídas de raiz: Seixal, Atalaia, Ribamar, Toxofal...

Foi o fundador e o primeiro diretor do Externato Dom Lourenço, que a partir de 1958 permitiu aos jovens do concelho da Lourinhã prosseguir os seus estudos depois do ensino obrigatório (que era apenas de 4 anos no meu tempo).

Até então e desde 1953, havia um colégio particular,  Dom Luís de Ataíde (fundado em 1953 pelo dr. Piçarra, que era do concelho vizinho do Bombarral). Funcionava num vivenda.  Umas escassas dezenas de rapazes e raparigas da Lourinhã puderam então estudar até ao 5º ano.  O 7º ano só nas capitais de distrito (Leiria, a norte, Lisboa, a sul).

O padre António Escudeiro fora igualmente fundador do jornal "Redes e Moinhos" (1954-1960) (donde fui encontrar, por exemplo, vário sonetos da Luiza Neto Jorge, 1939-1989, que em jovem vinha passar o verão à Praia da Areia Branca.)

Antes de vir para a Lourinhã como pároco, em 1953,  o padre Escudeiro estivera em Alcanena, terra ribatejana da indústria dos curtumes, onde fundara o jornal quinzenário "O Alviela". Será  entretanto suspenso pela censura por ousar publicar um artigo sob o título "A fome em Alcanena" (onde se criticava a banca pelos juros usurários que, no pós-guerra,  levavam à falência das empresas locais, ao desemprego e à fome)...

Estava-se em plena campanha eleitoral do general Norton de Matos. "O Alviela" retomaria a publicação depois de, mediante requerimento, ser expressamente autorizado a versar também "assuntos sociais" (sic).

Mas a verdade é que o padre Escudeiro ficou com ficha na PIDE.

À frente do "Alvorada", como redator-coordenador, durante mais de très anos (de 1964 a 1966), "fiz-me esquecido" e deixei de mandar o jornal à censura... A entrada de jovens fora uma pedrada do charco da pasmaceira e do conformismo em que se vivia nesta terra do oeste estremenho. A última do concelho do distrito de Lisboa. Tinha então 3 médficos, e um pequeno hospital da misericórida. Sem enfermagem, sem bloco operatório, sem banco de sangue. Mas onde se fazia já alguma cirurgia ambulatória... pro médicos que vinham de Lisboa ou Coimbra.

Estava-se em plena guerra do ultramar / guerra colonial mas já na fase de fim de ciclo da história..."Cadáver adiado", o regime do Estado Novo ainda estrebuchava e metia medo a muitos. Não admirava que o diretor do jornal tenha recebido um intimidatório ofício da direcção geral de censura a perguntar por que é que se permitia o luxo de ultrapassar a lei...

Metade do ofício, que era apenas de duas linhas, correspondia a uma assinatura em letra garrafal, símbolo máximo da arrogância  de quem se sentia dono e senhor deste país... A assinatura, ilegível, seguia-se à fórmula, obrigatória, no tempo do Estado Novo (1926-1974), "A bem da Nação, com que terminavam todos os ofícios (e todas as demais comunicações escritas, internas, incluindo discursos, requerimentos, petições, etc.)

O pobre do "senhor vigário" (como a gente o tratava), lá teve que arranjar uma desculpa esfarrapada aos senhores coronéis da censura e, a mim, puxou-me as orelhas... Doravante, tínhamos que mandar os artigos em duplicado para a tipografia, sita em Torres Novas, que por sua vez mandava uma cópia para a censura... E no entanto nunca nenhum de nós escreveu o que que fosse que pudesse pôr em causa a sagrada tríade "Deus, Pátria e Família"!...

Eu acho que os censores embirraram sobretudo com os nossos jovens poetas. Não entendiam nada da poesia moderna e receavam à brava que os jovens lourinhanenses e outros, que colaboravam connosco, escrevessem também nas "entrelinhas", mandassem em código, entre si, perigosas, subversivas e dissolventes mensagens...

Nunca se sabe o que se passa no coração dos poetas nem muito menos na cabeça dos censores...

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Nota do editor:

sábado, 10 de agosto de 2024

Guiné 61/74 - P25829: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (29): Inspeção militar: "Ir às sortes", em Brunhoso, Mogadouro, 1967 (Francisco Baptista, ex-alf mil inf, CCAÇ 2616 / BCAÇ 2892, Buba, 1970/71, e CART 2732, Mansabá, 1971/72)

Capa do livro do Francisco Baptista,  "Brunhoso, Era o Tempo das Segadas - Na Guiné, o Capim Ardia" (Edição de autor,  2019, 388 pp.)


Francisco Baptista 

(i) ex-Alf Mil Inf, CCAÇ 2616 / BCAÇ 2892 (Buba, 1970/71) e CART 2732 (Mansabá, 1971/72); 

(ii) natural de Brunhoso, concelho de Mogadouro, Nordeste Transmontano;

(iii)  é autor do livro "Brunhoso, Era o Tempo das Segadas - Na Guiné, o Capim Ardia" (Edição de autor, 2019, 388 pp.);

(iv) integra a nossa Tabanca Grande desde 19/8/2013;

(v) tem cerca de 160 referências no nosso blogue;

(v) autor das séries: 

  • Memórias da CCAÇ 2616 (Buba, 1970/71); 
  • Brunhoso há 50 anos.

1.  Diversos camaradas já abordaram aqui, ao longo dos vinte anos do blogue, o tema da ida às sortes (ou, seja, a inspeção militar) (*)... Todos passámos por essa "experiência", no ano em que perfazíamos os 20 anos. Alguns ainda guardam memórias vivas  desse "rito de passagem" que, naquele tempo, para a nossa geração, representava verdadeiramente a entrada na vida adulta... 

Deixavam de nos chamar mancebos, rapazolas, gaiatos, canalha, meninos e moços, adolescentes, imberbes, etc., e  passávamos a ser adultos, homens de barba rija (... mesmo que a maioridade, legalmente, fosse aos 21 anos... até 1977!).

E tinha outras consequências, não apenas simbólicas, mas mais práticas,  para a grande maioria de todos nós o ser considerado "apto para todo o serviço militar", num tempo em que estava em vigor o SMO (Serviço Militar Obrigatório) e o país estava em guerra a milhares de quilómetros de casa, em Angola, Guiné e Moçambique... Dali a um ano, no máximo, éramos chamados para fazer a recruta, jurar bandeira, tirar uma especialidade, ser "mobilizado para o ultramar", formar uma unidade (batalhão) ou subunidade (companhia), fazer IAO, embarcar, desembarcar, pegar na G3 e ir para o mato, matar, morrer...

Há muita gente com muito talento para  a escrita no nosso blogue. Há textos que tèm direito a ser relidos como este, do Francisco Baptista, perdido na série "Estórias avulsas" (**). Esperemos que seja mais um incentivo para outros mandaram também, por escrito, para a publicação, agora no píncaro do verão, na série "Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços"... as suas lembrança desse dia da  "ida às sortes"! 



Ir às sortes", em Brunhoso, Mogadouro, 1967 

por Franscisco Baptista


Éramos homens, tínhamos força, confiança, tínhamos sonhos, queríamos conquistar as mulheres, queríamos conquistar o mundo, queríamos ser nós a governar a nossa vida.Éramos capazes de transportar sacos de trigo de 80 quilos ou mais, de ceifar três sucos de trigo como os mais velhos, de varejar as oliveiras e cavar tanto as oliveiras como as vinhas.

Sabíamos lavrar com vacas como com bestas, sabíamos semear o trigo e o centeio, plantar as batatas, as abóboras e as hortaliças.

Estávamos confiantes e preparados para entrar na sociedade dos adultos, era o nosso dia e toda a aldeia de Brunhoso iria ter orgulho nos seus filhos que tinham atingido a maioridade.

Tínhamos 20 anos e tinha chegado o dia das sortes.

Pela manhã fomos todos, a pé, até à vila, eram só cinco quilómetros e nós estávamos habituados a calcorrear os carreiros e caminhos do termo da aldeia. No dia anterior tínhamos ido todos, como a tradição mandava, tomar banho ao ribeiro da Lagariça.

Vestimos as nossas melhores roupas porque o dia era solene e de festa. Éramos quatro nascidos em 1947, o Amílcar, o José Luís, o Ernesto e o Chico (sou eu, pronuncia-se quase tchico por lá).

Outros quatro já tinham emigrado, eram eles, o António Borges e o Adelino para o Brasil, o José Maria e o Manuel da Glória para Angola.

Os meninos mortos de 1947, pois morriam tantos nesse tempo, não eram nomeados, nem chorados, pois eram anjos que tinham ido diretamente para o céu. Importa falar dos vivos e de todos, presentes ou ausentes, porque a tradição estabelecia uma irmandade entre todos os nascidos no mesmo ano.

Os da mesma idade eram os praças.
A razão deste tratamento teria a ver com o facto de todos assentarem praça no mesmo ano. O dia das sortes significava naquelas terras o dia da passagem à idade adulta, o dia da emancipação.

A inspeção não foi muito demorada. Numas instalações que a Câmara Municipal punha à disposição das Forças Armadas, despíamo-nos e íamos passando pelos médicos militares que avaliavam a nossa masculinidade e a nossa saúde.

Ficamos os quatro aptos para o serviço militar o que era sempre motivo de contentamento para o grupo, pois ninguém gostava de ser excluído. Era sinal de saúde e de que passávamos a ser cidadãos capazes de defender a nossa terra.

Ficar excluído era um anátema terrível que marcava um homem pela vida fora.

Ainda recordo tal como ele contava, a história da inspeção do "tio João Passarinho" que ouvi várias vezes, pois ele trabalhou muitos anos à jeira na casa do meu pai e já tinha trabalhado antes na casa dos meus avós paternos.

O tio João Passarinho era um homem valente e trabalhador, que sabia fazer todos os trabalhos do campo melhor do que ninguém. Desde cortar a erva nos lameiros à gadanha para feno, a tirar a cortiça dos sobreiros, ele sabia fazer tudo com destreza. Era todavia um homem franzino e baixo, com um metro e cinquenta de altura ou pouco mais. Viveu até aos oitenta ou mais anos e trabalhou sempre enquanto pôde.

Nunca teve férias nem reforma, como a maioria dos trabalhadores do campo desse tempo. Hoje se fosse vivo já teria mais do que 110 anos pois conheço um filho dele, o Joaquim, muito parecido com ele que apesar da idade avançada continua a trabalhar, já com 85 anos.

O tio João talvez nunca conformado por ter ficado isento do serviço militar, nos anos 20 ou 30 do século passado e porque gostava de efabular, contava que quando foi visto pelo médico militar no dia da inspeção ele lhe disse:

- Aqui está um homem bem constituído, alto, forte, espadaúdo. Temos um marinheiro!

Nunca eu o contrariei quando ele fazia estas afirmações e ouvi-as várias vezes. Tinha muito respeito por ele, desde menino fui criado na companhia assídua dele, era um homem respeitável, bondoso e trabalhador.

Sempre soube que dizia uma grande mentira, bastava olhar para ele, mas ele tinha direito a ter os seus defeitos e essa mentira, como outras em que era pródigo, não prejudicava ninguém.

Comprámos quatro foguetes e muitos rebuçados e regressámos à aldeia. Quando estávamos a um quilómetro, numa colina sobranceira, lançámos o primeiro foguete, os outros foram lançados já na aldeia. 

Demos a volta a todas as ruas a distribuir os rebuçados pelas raparigas, sendo naturalmente mais saudados pelas da nossa idade. Éramos amigos, tínhamos crescido perto uns dos outros, tínhamos entrado na escola ao mesmo tempo, tínhamos sobrevivido aos desejos próprios da adolescência com estoicismo e às restrições que uma moral rígida imposta, através da mãe, do pai, do padre, da professora e do falar do povo nos era imposta.

Por elas, vá lá e pelas outras, tínhamo-nos batido, em dias de festa ou de baile, com os rapazes duma terra vizinha. Muitas vezes os escorraçámos à pedrada, porque elas eram nossas e eles não se podiam atrever a conquistá-las ou a dançar com elas se algum dos nossos não gostasse. Toda a aldeia nos saudava com agrado, éramos os heróis do ano.

Fomos todos almoçar a casa dos meus pais, pois a minha santa mãe quis convidar-nos e fez-nos um almoço melhorado, um almoço de dias de festa.

Há dois anos o José Luís falou-me nesse almoço que eu já não recordava. Dos quatro que fomos à inspeção, o Amílcar e o Ernesto foram mobilizados para Angola, eu pra Guiné, o José Luís como foi sempre um bocado despistado, deve ter perdido o barco que o levaria para algum lado e fez a tropa por cá.

Quando acabou a tropa eu emigrei para o Porto os outros três para França. Dos outros, o António Borges, que nunca mais vi desde a adolescência continua no Brasil, o Adelino continua por lá também tendo-o visto nas duas vezes que ele visitou a aldeia. O José Maria e o Manuel da Glória regressaram de Angola com a descolonização, tendo o primeiro infelizmente morrido o ano passado de doença em Lisboa onde se tinha estabelecido com um negócio de padaria-confeitaria.

Ao Manuel da Glória nunca mais o voltei a ver, disseram-me que morará na Beira Alta ou Beira Baixa.

As "raparigas" da nossa idade, que eram dez, somente uma mora na aldeia depois de ter vivido cerca de 30 anos em França.

Só uma delas foi além da quarta classe tal como eu. Pertencia a uma família numerosa, com poucos recursos, mas era uma pessoa muito inteligente e, sendo sobrinha bastarda da professora, que pertencia a uma das três casas grandes da terra, terá sido provavelmente ela que a encaminhou para um convento de freiras. Na maioridade deixou o convento, constituiu família e passou a dar aulas no ensino secundário.

Desloco-me com alguma frequência à aldeia para relaxar no contacto com a natureza e sentir o ar mais puro, quente ou frio, conforme a estação, mas sempre agradável. No inverno chego a sentir saudades do ar frio e seco da minha terra. Da varanda da casa, agora quase sempre vazia, avista-se grande parte do casario da aldeia bem como pinheiros, sobreiros e alguns freixos que fazem parte da área agrícola e florestal da terra, e ao longe a paisagem típica dos montes e vales de Trás-Os-Montes que se estende por muitos quilómetros.

Ouço o silêncio duma terra que foi morrendo, que eu por vezes procuro preencher com memórias de há quarenta ou cinquenta anos, e então ouço o barulho próprio de uma casa onde viviam nove pessoas, o palrar das vizinhas, os gritos das brincadeiras dos garotos, o chiar dos carros de bois, os sons dos diferentes animais domésticos e o pregão da minha vizinha, a tia Clementina, a anunciar a sardinha.

Um caudal de memórias como o do Rio Sabor na primavera, que corre num dos limites da área agrícola da freguesia. Recordo estes rapazes e raparigas, conterrâneos da minha idade, e as vidas duras e difíceis que tiveram na aldeia e depois nos caminhos da diáspora.

Dizer que seriam pobres seria uma ofensa para eles, pois por lá os pobres eram os miseráveis que tal como os ciganos andavam a pedir de porta em porta. Os pais deles teriam uma pequena horta, algum campo para semear trigo e talvez algumas oliveiras. O sustento para a família vinha sobretudo das jeiras diárias, em tempo de colheitas para os lavradores. Sei que muitas vezes só comiam pão, batatas e caldo, mas nunca os ouvi queixar-se a mim que pertencia a uma família que sem ser rica era mais abastada.

Mas falar sobre esse mundo antigo e quase feudal é um assunto que dá pano para mangas. (...)

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos: LG)

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Notas do editor LG:


(*) Excerto de 4 de dezembro de 2013 > Guiné 63/74 - P12388: Estórias avulsas (73): O Dia das Sortes na aldeia de Brunhoso (Francisco Baptista)