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sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27637: Manuscrito(s) (Luís Graça) (281): "A Rua Suspensa dos Olhos", de Ábio de Lápara, pseudónimo literário de José António Bóia Paradela (1937-2023), ilhavense, urbanista, arquiteto e escritor - Parte V: O Zé Pitucas, aliás, o Zé Ançã (1937-2002): "Ou dás-me a navalha, ou nunca mais te falo"...


Porto > c. 1918 > "Uma foto lindíssima do meu pai, embarcado com 12 anos com o cão ao colo por trás da boia do Pátria, o navio em que embarcou. O capitão era o pai do Mário Castrim, o cap Fonseca, de Ílhavo."

Fotos (e legendas): © José Amtónio Paradela (2015). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Capa do livro "A Rua Suspensa dos Olhos" de Ábio de Lápara (edição de autor, José A. Paradela, Aveiro, 2015, 164 pp.)...Ábio de Lápara é o pseudónimo literário de José António Bóia Paradela (1937-2023), ilhavense, urbanista, arquiteto e escritor



1. Por cortesia de autor, ainda em vida, pela grande amizade que nos ligava um ao outro (tratávamo-nos por "manos"), e pela paixão que o nosso blogue dedicava à  epopeia da pesca do bacalhau (que chegou a ser alternativa à guerra colonial), transcrevemos, em tempos em três postes, o capítulo 7 (A viagem “O Mar por Tradição”, pp. 83-107), do livro "A Rua Suspensa dos Olhos", de Ábio de Lápara (edição de autor, Aveiro, 2015).

Era também irmão do Tibério Paradela (1940-2021)  um "lobo do mar", capitão da marinha mercante.

O Zé António, ilhavense, filho e neto de marinheiros, evoca e descreve com enorme ternura e talento a rua onde nasceu e cresceu, e onde conheceu algumas das figuras humanas da sua terra, que marcaram a sua memória e o seu imaginário ...

Todos tivemos uma Rua Suspensa dos Olhos, afinal a rua da nossa infância, a rua onde nascemos e crescemos. Falo da nossa geração, que ainda nasceu em casa, de parto natural, com dor... E ainda teve o grande "privilégio" de  brincar na rua com os outros meninos e meninas.  No tempo em que não havia creches, nem infantários, nem jardins de infancia e a vida vivia-se na rua: assavam-se os carapaus no fogareiro a carvão na rua,  namorava-se á janela, não havia vida privada,  o escrutínio era público,  frequentávamos a casa uns dos outros, etc.

Nesses três postes, e com a devida autorização do autor, publicámos o relato da sua viagem de seis meses na safra do bacalhau, nas costas da Terra Nova e da Groenlândia, quando ainda adolescente, aos 17 anos, em 1954, e como estágio final do curso da Escola Profissional de Pesca, em Pedrouços, Lisboa, é chamado para embarcar e fazer "A Viagem", por antonomásia.

Foi  uma experiência que o marcou para o resto da vida, não só pela dureza das condições de vida a bordo e a capacidade de resiliência como pela aventura maritima, a descoberta e o reforço da camaradagem, a solidariedade e a amizade entre a tripulação (marinheiros e pescadores). Tal como a a tropa e guerra, no nosso caso. 

O Zé António, também como bom ilhavense, fez depois o serviço militar na Armada,  numa altura em que a Marinha não precisava de muitos marinheiros.

A vida deu, entretanto, outras voltas e o autor não seguiu o destino dos seus antepassados... Aluno brilhante, acabou por ganhar uma bolsa de estudo, ficar em Lisboa e poder aceder à universidade, tornando-se depois  um nome de referência da arquitetura e urbanismo em Portugal. 

Entraria para o curso de arquitetura na Escola Superior de Belas Artes, no ano letivo de 1960/1961; fundou e geriu a empresa PAL - Planeamento e Arquitectura, com sede em Lisboa;  deixou obra por todo o país, com destaque para a Região Autónoma da Madeira-

Conheci-o depois do 25 de Abril. E começámos a conviver quando os nossos filhos eram pequenos.  

Em 18 de fevereiro de 2023 fui a Ílhavo,  despedir-me dele e ajudá-lo a "cambar" o rio da morte, fazendo, simbolicamente, o papel do barqueiro Caronte, da mitologia grega. 

Em sua homenagem, recomeçámos a publicar mais excertos do seu livro "A Rua Suspensa dos Olhos" (*)


Excertos de "A Rua Suspensa dos Olhos" - Parte V: Zé Pitucas, aliás, o Zé Ançã...

por Ábio de Lápara / José António Paradela
(1937-2023)

Era um objecto histórico, um xaile de lã muito resistente, de contacto áspero, como os cobertores serranos.

Com cadilhos curtos e tessitura de motivos geométricos em cor de bronze sombrio, essas características tornavam-no ímpar no panorama do antigo trajar ilhavense onde predominava o preto absoluto.

Estava posto sobre os joelhos do meu pai, que tinha então cerca de noventa anos de idade.

Sentado no sofá da sala, agora de cadeiras vazias em torno da mesa redonda onde a ausência mais notória era a da minha mãe, sua companheira de cinquenta anos, ia falando com voz pausada, encadeando as suas estórias na história da sua vida.

Enquanto o ouvia relembrando um passado de retratos antigos, encadeando as doçuras e agruras de uma vida de transumante cigano do mar, que foi a que teve a partir dos doze anos, ia olhando aquele xaile e meditando no silêncio dos objectos impossibilitados de narrar as suas próprias lendas, apesar das marcas que o tempo lhes imprimiu: o seu código ontológico à espera de um olhar...

Aquele xaile da minha avó materna, cuja história é anterior às minhas recordações, já tinha embrulhado a minha mãe e depois os seus três filhos. Nos últimos anos, alguns netos, mas resistiu com bom aspecto até aos dias de hoje, oferecendo ainda algum conforto ali pousado nos seus joelhos.

A avó, nascida a uma dúzia de quilómetros do mar, onde as gaivotas já tinham cedido o canto ao piar dos mochos nos pinhais da Gândara, tinha descido à vila para casar com um marinheiro de boa figura, com farto bigode de aventureiro.

Talvez aquela distância explique a origem da beleza estranha do xaile, mas não adianta nada ao entrecho da estória daquele amor que se revelaria trágico, porque acabou marcado pelo ferrete do abandono e do esquecimento:

Uma avó, viúva de vivo, e uma filha desde aí marcada por uma profunda compreensão, quase religiosa, da falência dos sentimentos alheios...

Não conheci os meus avós maternos e a minha mãe era, como se compreende, muito avara do seu passado tão doloroso. Sobraram apenas algumas fotografias pouco sugestivas e algumas raras alusões suas a factos antigos, para suportar um fio narrativo plausível.

Pelo contrário, o meu pai, moldado por matinais aventuras de velas ao vento, falava apesar da sua idade, como um rapaz, de factos que tinham setenta ou oitenta anos mas que pareciam ter-se passado há pouco tempo. Tinha visto partir quase todos, ou todos mesmo, os amigos da sua geração, e agora sentia-se emigrado no futuro, mas aceitava isso com a consciência de que não era ele o verdadeiro culpado.

Acabada a conversa naquele dia, encaminhei-me para a porta, seguido por ele, que sempre vinha ver-me desaparecer na esquina da rua, de braço no ar dizendo adeus.

Escurecia.

Ao sair deparei-me com a silhueta de um homem que passava arrastando um pouco os pés, pelo meio daquela rua de reduzido tráfego, sem medo de ser atropelado.

Reconhecendo a minha voz enquanto me despedia do meu pai, suspendeu o seu passo hesitante.

 
— Estás por cá, Ábio? Vieste à Rua do Lá Vem Um?

Era o Pitucas na sua voz calma, inconfundível. Tinham passado muitos anos, mas pela forma da pergunta, evocando o tropo infantil da nossa rua, parecia que tínhamos estado juntos no dia anterior. 

Achei-o um pouco cansado porque procurou com o olhar um local onde se pudesse sentar. Mas a rua já não era confortável como antigamente. Os poiais à frente das casas já não estavam lá.

Apenas um minúsculo lancil separava o asfalto do pavimento, das suas paredes, apoiadas em lambris de granito e muitas vezes forradas de azulejo.

Foi a uma delas que nos encostámos.

 
— Lembras-te quando fugimos da cobra que queríamos matar, na agra da Lagoa?

Pronto! Num segundo, tínhamos recuado meio século dando de barato todos os dias intermédios.

Respondi-lhe:

 
— E tu, Zé... lembras-te porque é que estivemos estes anos todos sem nos falarmos?

Já não se lembrava muito bem. Fora uma birra de miúdos de treze anos, num daqueles momentos de viragem das vidas, em que os caminhos até aí comuns, divergem sem qualquer encontro marcado no futuro.

O Zé Pitucas morou sempre naquela rua tal como eu: a nossa Rua Suspensa dos Olhos!

Pelo menos desde que me lembro, porque nascera no Brasil e viera ainda muito pequeno com os pais para aquela casa.

Eram quatro irmãos em que os rapazes ficavam no meio e as meninas nos extremos. O Zé era da minha idade, o Ricardo um pouco mais velho.

Na casa dele, com mais algum desafogo económico, as revistas de quadradinhos eram mais abundantes que na minha.

Além disso, a casa tinha um grande quintal onde podíamos brincar livremente sem medo de partir os vidros às vizinhas com as pedras disparadas das nossas fisgas, a que chamávamos atiradeiras.

Um galinheiro enorme permitia-nos hipnotizar as galinhas deixando-as a dormir com a cabeça debaixo da asa e roubar alguns ovos para uma gemada à hora da merenda. A mãe, que passava muito tempo na loja do antigo mercado, nunca daria pela sua falta.

Muitas tardes da primária foram por ali vividas treinando a pontaria da fisga, e imitando aventuras de final feliz, decalcadas do "Mosquito", esse monumento desenhado, dos primórdios da banda desenhada.

Crescemos um pouco comendo os primeiros figos de São João, na figueira encostada ao muro. Ao fundo do quintal, um ribeiro corria para o seu destino através das vessadas até chegar à Ria, na Malhada - não sem primeiro lavar centenas de "maltas" de roupa das modestas famílias da rua de Alqueidão   
— para acabar movendo a azenha, cuja roda motora feita de madeira forrada de verde musgo, despejava as últimas gotas de água doce já dentro da água salgada da Ria.

Por essa altura, as vessadas cederam lugar à Avenida tal como já tinham cedido ao Jardim, o que permitiria construir diversos prédios. Um deles foi o Atlântico Cine Teatro, implantado sobre o terreno do quintal onde esboçávamos todas as estratégias e com isso se foi também o nosso parque de aventuras.

A alternativa seria alargar horizontes. À nossa disposição estavam as agras da Lagoa e da Coutada que passámos a percorrer mais insistentemente para nascente e, sobretudo, para poente da estrada de Aveiro, a agra da Coutada.

O Zé era um miúdo de pequena estatura, mas era dono de uma argúcia e uma habilidade
— que punha em tudo quanto fazia — que o conduziam ao sucesso de modo impressionante.

A pontaria dele com a fisga era quase infalível, e a sua intuição para descobrir os segredos dos pássaros era inigualável.

Fruto das nossas explorações, quase posso garantir que sabíamos todos os ninhos e tocas da bicharada desde a Coutada até à Balada, toda uma agra onde encontrávamos suprimentos para compridas estadias quando a fome atacava.

Este último local, a Balada, foi um nome só nosso, só dos aventureiros da nossa rua, que desapareceria da memória colectiva com a transformação ocorrida naquele local, nos anos sessenta do século vinte, após a fatal construção das casas hoje existentes.

Porque a Balada era o sítio de todos os sortilégios. Era o final da rua antes de atingirmos a Malhada, com o seu esteiro, arremedo portuário de bateiras e moliceiros, e as marinhas de sal, onde a faina tinha a dureza dos cristais ofuscantes que produzia.

Um troço de calçada empedrada com calhau rolado, que começava na chamada Fonte de Alqueidão ou dos Bastos, refrigério de marnotos que ali enchiam as suas bilhas e cântaros de fresca água, e se prolongava até à azenha do ti Moleiro, cuja farinha de milho engrossava a sopa de feijão de toda a rua.

Esse troço de calçada assentava sobre uma linha de água permanentemente alimentada pelas nascentes naturais de um e outro lado, que davam origem à Fonte e a todo um biótopo onde, nas valetas laterais da calçada, habitavam rãs e tritões entre a erva patinha, mas sobretudo enormes lesmas pretas com mais de um palmo de comprimento.

Nesse tempo, eu não sabia o que era um biótopo. Sabia apenas que os álamos e os loureiros abraçados por um silvado quase impenetrável, dispostos em ambos os lados do caminho, o transformavam num túnel verde, escuro e fresco onde todos os mistérios se revelavam a partir do sol posto, hora a que os raios luminosos deixavam de penetrar no seu interior

Sempre que isso acontecia, pela delonga da pesca ou da brincadeira na Malhada, aqueles extensos metros eram percorridos com pés de Mercúrio: tinham asas!

E ainda corriam mais, quando chegados ao topo da pequena ladeira final, os cães do Rebocho, alertados pelo arfar da corrida, se lançavam a ladrar sobre nós.

A primeira lâmpada da rua, colocada na parede do solar de Alqueidão, apesar da sua luz frouxa, dava outro alento às nossas tolhidas almas e os cães costumavam desistir aí da sua perseguição.

Os prazeres retirados das nossas aventuras tinham muito a ver com a constituição e a manutenção dos segredos, especialmente no caso do conhecimento dos ninhos, e da observação cuidadosa da sua evolução: os ovos, as crias... O vôo!

Na verdade se fôssemos indiscretos nessa observação, os progenitores abandonavam o ninho e lá se ia o nosso património.

Ninhos de melros, verdilhões, pintassilgos, trigueirinhas, carriças, e mesmo guarda-rios nas beiradas dos esteiros, eram o recheio do nosso cofre secreto que espreitávamos cautelosamente avarentos do nosso pecúlio.

Que me lembre, só uma vez destruímos um ninho. Um ninho de pardal na rama de um alto pinheiro bravo, na Coutada. Inacessível pelos meios de que dispúnhamos, o desespero levou-nos a empunhar as atiradeiras. Pouco depois caíam do alto, seis gordos pardais quase prontos para voar! Não recordo o seu fim, porque era hábito tentarmos salvar as aves incapazes de voar, do "céu dos pardais" que era, como sabíamos naquele tempo, a barriga dos gatos.

De resto, tínhamos um cemitério para os nossos animais no fundo do quintal, onde mimávamos os funerais dos humanos, com crucifixo e todos os aprestos necessários.

Já a fisga, desenvolvia outras reacções. O instinto da caça! Aí, a pontaria era crucial e a morte estava presente em cada acto. Matar à distância não era cruel, era glorioso!

Depois das colheitas, setembros cálidos, ninhos desertos de ovos e crias, vinha a caça a pitas e lavercas, pontaria apurada nas fisgas, e ratoeiras armadilhadas com lagartas vivas, extraídas dos canoilos do milho já colhido, a servir de isco cremoso e irresistível para uma ave esfomeada.

Os pruridos viriam mais tarde com as tentativas de entendimento dos valores da vida, do sagrado e da ética.

Nas brincadeiras de rua, o Zé era sempre o mais apurado. Dono de um pião especial, de coroa achatada, que manuseava de modo malabarístico, a sua pontaria era certeira novamente, beliscando o adversário a cada lançamento.

Pião jogado, pocelo marcado!

Nas "emendinhas", habilidades “futebolísticas” em que uma erva de raíz fasciculada servia de bola saltitando de um pé para outro, atingindo centenas de toques sem que a erva tocasse o chão, ele era o maior.

Mas a pergunta que o Zé me lançou naquele dia ao fim da tarde, quando me reconheceu, refere-se a uma cena em que fomos caçadores caçados!

Na agra da Lagoa, no fim de uma tarde de verão, avistamos no fundo de uma cova com cerca de um metro de profundidade, uma cobra de cor verde, bastante corpulenta.

Isso de cobras era o nosso prato favorito, porque constituíam um troféu de prestígio lá na rua! Costumávamos usar uma cana bifurcada na ponta para prender esses répteis, mas ali, no inesperado daquela situação, estávamos desequipados. Apenas as fisgas, e pedras bastantes, como amêndoas de Páscoa, sobrecarregando as algibeiras dos calções até fazer saltar os botões onde prendiam as alças.

Começámos a disparar a metralha letal acumulada nos bolsos, sobre aquele bicho, objecto de ódios ancestrais. Sentindo-se encurralada, a cobra começou a movimentar-se em círculo, com grande velocidade, chegando mesmo a elevar-se do fundo da cova, silvando de modo assustador deixando-nos perplexos com semelhante desatino.

Aí... pernas para que te quero?! 

Iniciámos uma fuga apressada e deixámos o réptil em paz, embora soubéssemos que a sua mordedura não era venenosa. Mas o respeitinho é muito bonito e o medo mamado com o leite impôs-se na circunstância!!!

Nunca contámos o fracasso a ninguém!

Um dia o meu pai ofereceu-me uma pequena navalha de duas folhas, com o cabo revestido de madrepérola. Tinha-a trazido de Lisboa e sabia quanto eu a estimaria.

Uma navalha era um instrumento de valor incalculável nas mãos de um capitão das agras. Por tudo quanto permitia executar: fisgas, atira-bagas, armadilhas de cana para apanhar pitas e lavercas... entre outras inumeráveis coisas.

Era uma manhã de sol radioso! Combináramos encontrar-nos no aterro da Avenida, para mais uma aventura pela nossa agra amada.

Encantado pela navalha, o Zé lançou-me um ultimato:

 
— Ou dás-me a navalha, ou nunca mais te falo...

Perplexo, separei-me sem dizer uma palavra. Isto, no fim de um certo outubro em que eu faria catorze anos.

Passados poucos dias iniciei uma nova fase da vida. Impossibilitado de estudar por falta de meios financeiros em casa, fui trabalhar e, logo de seguida, arranjei uma namorada para aliviar o desgosto!

Acabaram aí, definitivamente, as nossas aventuras descomprometidas. Comecei então a voar noutros céus, onde os pardais eram apenas uma saudade.

O pouco dinheiro que ganhava,  permitia-me frequentar o cinema e comprar livros de aventuras que me transportavam para outros mundos até aí vedados: desertos de secar a boca, florestas de úmidas turfeiras e rebentos espinhosos, mares de monstros insólitos e temporais desfeitos e homens de rija têmpera mas também covardes de toda a espécie! Herois de nomes inesquecíveis, espalhados em páginas e páginas onde os acompanhava atolado em emoções desmedidas!

Pouco faltava para sair de Ílhavo... definitivamente.

Quando aí voltei a pousar com mais calma, com muitos romances lidos e algumas aventuras vividas na primeira pessoa, muitos anos tinham passado e eu perdera tudo o que acontecera por ali nesse entretempo.

Algumas intervenções pontuais,  com antigos amigos em curtos períodos de férias, não chegavam para colar os cacos dos destinos outrora separados.

O nosso reencontro naquele dia foi muito reconfortante mas infelizmente tardio.

O Zé Pitucas, após toda uma vida dedicada ao desporto em Ílhavo, que elevou às maiores glórias nacionais do basquetebol, tinha sido vítima de um AVC.

Ainda estive com ele mais duas vezes, até que um dia me chegou a notícia da sua morte. Cedo de mais.

Os amigos fizeram-lhe uma grande e sentida homenagem, e editaram uma sua biografia. Ao lê-la,  tive a noção clara do que tinha perdido. Mas a ubiquidade não é um dom que me tenha bafejado.

Verifiquei contudo que lhe faltava este capítulo, talvez pouco significante no contexto da sua vida adulta, mas tenho a certeza de que ele gostaria de o ver ali...

Um tempo de vários anos de infância, em que após o pequeno almoço abalávamos campos fora, sozinhos, à cata da nossa aventura quotidiana.

Um tempo em que ele não era conhecido por Zé Ançã (**), mas por Zé Pitucas, o campeão das "emendinhas".

Fonte: Excertos de "A Rua Suspensa dos Olhos", de Ábio de Lápara (edição de autor, Jose A. Paradela, Aveiro, 2015, pp. 51-64).

(Revisão / fixação de texto, título: LG)
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Último poste desta série > 1 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27590: Manuscrito(s) (Luís Graça) (280): Aos meus amores, amigos, companheiros e camaradas, votos de Bom Novo Ano de 2026 que, dizem, aí vem!

(**) Vd .Facebook >  Ílhavo Antigo > 26 de abril de 2024 > José Eugénio Gomes Ançã:

(...) Filho de José Ançã e Maria Celestina Gomes, era conhecido por Zé Ançã. Notabilizou-se como treinador de Basquetebol do Illiabum Clube. 

Humilde e simples, tinha para com os jogadores uma forte relação, sendo muito exigente e sobretudo um excelente disciplinador. 

Começou como atleta do Clube e mais tarde como treinador, tendo conquistado os seguintes Títulos: Campeão Nacional de Infantis (1962/63), Campeão Nacional da 2ª Divisão (1963/64) e Campeão Metropolitano de Juniores (1964/65). Pelos 50 anos de associado do Clube, recebeu o Emblema de Ouro. 

Faleceu em 30-03-2002 com 65 anos.(...)

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27607: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte II: A escola primária e a comunhão solene


Francisco Caboz, "alter ego" de Horácio Fernandes
(Ribamar, Lourinhã, 1935 - Porto, 2025)


António Fernandes (Maçarico), avô paterno do Horácio. Era filho de Maria da Anunciação (Maçarico) e de Manuel Fernandes. Deve ter nascido em finais do séc. XIX e emigrado para a América nos anos 20. O Horácio nunca o chegou a conhecer. Foi o avô materno, o Ti João das Velas de Santa Bárbara, sacristão, quem marcou a sua infància, e o apoiou na sua decisão de ir para a escola primária e depois para o seminário, única forma de escapar à pobreza naquele tempo. (Ediçãp da foto e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)


Fonte: Américo Teodoro Maçarico Moreira Remédio - Vila de Ribamar e as famílias mais antigas: Família Maçarico: Árvore genealógica: 500 anos de história. Ribamar, Lourinhã: ed. autor. 2002, pag.132. 



1. Estamos a reproduzir excertos da dissertação de mestrado em ciências da educação, pela Faculdade de Psicologia e Ciências das Educação da Universidade do Porto (1995), da autoria do Horácio Fernandes.

No capº 4º, ele narra e comenta em 3 dezenas de páginas a sua história de vida.  No poste anterior,  ele apresentou-nos. sucintamente,   a sua terra, "Arribas do Mar" [leia-se Ribamar, da Lourinhã], bem como as 3 figuras da família que o marcaram: o pai (José Fernandes Nazaré), a mãe (Elvira Neto) e  o avô materno  (nascido por volta de 1875/80, o sacristão da freguesai, o Ti João das Velas de Santa Bárbara)... 

O avô paterno, Fernandes (Maçarico),  nunca o chegaria a conhecer: quando disse a Missa Nova, em 1959, ele já tinha morrido na América.

É uma história de vida, bem dura, em tempos muito difíceis, que merece ser conhecida dos nossos leitores. O Horácio nasceu em 1935. Em 1945/46,  cpmpletou a 4ª classe e seguiu para o seminário dos franciscanos (em Montariol, Braga). A maior parte de nós, que nasceu já 10 ou mais anos depois do Horácio, ainda se reconhece nesta narrativa autobiográfica  

Foi a partir deste trabalho académico que, 14 anos depois, ele publicaria o seu livro de memórias "Francisco Caboz: a construção e a desconstrução de um padre" [ Porto: Papiro Editora, 2009, 185, (7) pp. ISBN 978-989-636-446-5].

Francisco Caboz é o "alter ego" do Horácio Fermandes, entretanto falecido, recentemente, em novembro de 2025, aos 90 anos). (O livro está esgotado.)

O Horácio Fernandes  seria ordenado padre em 1959. Foi capelão  no exército e na marinha mercante. Deixou o sacerdócio em 1972. Casou, passou a viver no Porto. Teve 3 filhos. Estava reformado da Inspeção Geral de Educação onde trabalhou 25 anos na zona norte. Em 2006 doutorou-se em ciências da educação pela Universidade de Salamanca, Espanha. Reencontrei-o por volta de 2015, na Tabanca de Porto Dinheiro. Ainda somos parentes, pelo lado paterno: as nossas bisavóis. Maria Augusta e Maria da Anunciação (nascidas na década de 1860) eram irmãs, e pertenciam ao clã Maçaricos.


História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte II:  A escola primária e a comunhão solene (1942-1946)

por Horácio Fernandes


3. Quando fiz sete anos    entrei para a escola, porque, não obstante fazer falta para tomar conta de minha irmã, doente cardíaca, esse o desejo de meu avô. Alimentava a esperança de ter um neto padre e insistiu com o meu pai.

 Aliás, eu não tinha sido habituado às lides do campo nem do mar, porque, como mais velho, tinha de tomar conta dos irmãos: aos dias de semana, paira a minha mãe trabalhar no campo e ao domingo ir à missa.

Na terceira [1944/45] e quarta classe [1945/46] , as coisas mudaram. Veio uma professora oficial de Lisboa e foi morar na residência anexa à escola, construída pelo povo. Vivia sozinha com sua mãe e um cãozinho de luxo.

 Meu pai, quando matava o porco, ou trazia um peixe melhor, mandava-me levá-lo ao Senhor Prior e à professora, cuja mãe me mimoseava com um pacotinho de bolachas.

Uma vez, faltou dinheiro da Gaixa Escolar, que era para ajudar os alunos mais pobres a comprarem o material escolar, e a professora interrompeu imediatamente as aulas. 

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Como dissemos no 2° capítulo, e em síntese, o sistema educativo salazarista não tinha preocupações de qualidade. Na sua lógica de privilegiar a doutrinação sobre a qualificação pedagógica (...), arregimentou pessoas de «bons costumes», a quem não exigia habilitação escolar para além da 4ª classe, a quem deu o estatuto de «regentes». (1)

Interessado apenas na alfabetização e não na escolarização, o regime investiu nestas figuras, a quem pagava pouco, mantendo-as mais facilmente na subordinação. 

Em Arribas do Mar, numa escola construída pelo povo, em 1932, houve apenas «regentes» até 1944, que ministravam a 1ª, 2 e 3ª classe. 

Quem quisesse tirar a 4ª  classe tinha de andar todos os dias 16 quilómetros [Lourinhã, ir e vir] , sem estradas nem meios de comunicação.

(1) Decreto n° 20604, de 30 de novembro de 1931.

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- 106 - 


Os alunos ficaram aterrados e todos se interrogavam de quem seria o culpado. Como ninguém se acusasse, a professora usou o seguinte estratagema: deu meia hora de intervalo para que o culpado fosse buscar o dinheiro e depois obrigou os alunos a desfilarem, um de cada vez, com as janelas fechadas, para que o culpado repusesse a importância subtraída na respectiva Caixa. 

No fim desta operação, felizmente para todos, a importância estava reposta. Reuniu os alunos e disse-lhes:

«O que tirou o dinheiro e o repôs, até agora só reparou metade do pecado que cometeu. Agora tem de se ir confessar ao Senhor Prior, para que Deus lhe perdoe.» 

A tarde, levou todos os alunos à confissão.

A vingança dos que abandonavam a escola, também não se fez esperar. Passado um ano, começou a ir lá aos fins de semana outro professor de Lisboa namorá-la. Como era de baixa estatura, os 'rapazes vingavam-se nele, chamando-lhe «rapazeco» e correndo atrás dele e gritando, como faziam os maiores aos mais pequenos: «capa-se ! capa-se!».

À quarta feira, tínhamos catequese na escola e, ao sábado, aulas de Mocidade Portuguesa. A professora passava revista às nossas cabeças e às mãos. Se não estivessem limpas, ela própria fazia a limpeza.

Não se importava que fôssemos descalços, ou remendados, mas tínhamos de ir limpos. Se não fôssemos, não nos deixava entrar, e não se contentava com as desculpas da mãe do aluno e obrigava o pai, ao outro dia, justificar a falta. Na terceira e quarta classe, ao fim do dia, levava-nos para casa e dava-nos aulas até ao entardecer e de Inverno pela noite dentro.

Nas revisões para os exames, dava um pacote de 5 bolachas a quem lhe fizesse 5 problemas certos e quem não desse erros, dava reguadas aos outros. Eu combinava com o meu primo, que era bom a problemas, mas fraco a ditados.Por isso, eu, que não dava tantos erros, batia-lhe com pouca força e ele dava-me bolachas.

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A  primeira e segunda classe de Francisco foram atribuladas. Estava-se em 1942. As professoras «regentes» faltavam muito e ensinavam pouco. Com o mísero vencimento que auferiam (2) tinham de prover à subsistência da sua família e dar aulas de manhã aos rapazes e de tarde às raparigas da 1ª, 2ª e 3* classe.

Quem valeu a Francisco foi a «Menina Luísa», que tinha sido governanta do Senhor Prior e levava as crianças para casa para as ensinar. Como morava perto da sua casa, ia para lá todas as tardes fazer cópias e contas, pagando o seu pai com o melhor peixe do seu quinhão.

No ano lectivo 1944/45, Arribas do Mar passou de Posto Escolar para escola oficial e foi criado um lugar do quadro para uma professora. Chamava «paraquedista» à «regente» escolar que a antecedeu e assumiu-se como o 'alter ego' do Senhor Prior (3). Autêntica «missionária», a escola com ela era a fiel reprodutora do 'construtum' salazarista.

Cada lição do compêndio era reforçada com um sermão, sobre as obrigações de cada um para com Deus e seus representantes: pais, professores, padres e autoridades. Às quartas feiras à tarde, não obstante o atraso no programa, ministrava aos alunos a catequese para a comunhão solene. A escola era complemento da catequese.


 (2) «Se os regentes escolares que recebem 250$00 mensais, exceptuando as férias grandes, recebessem todo o ano, seriam equiparados a auxiliares de limpeza e guardas das sentinas da Ex.ma Câmara do Porto e ficariam abaixo dos varredores de 3ª lasse que auferem uns 330$00» (Dr. Pires de Lima, 1942,/« SAMPAIO, 1976: 200).

(3)  Ver Pinto, "Professor da Escola do Magistério do Porto", s.d.

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Começava com muitos alunos da terceira e quarta e no meio do ano já nem estavam metade. Os outros iam-se espontaneamente embora, mas ela também não fazia nada para os reter, porque dizia: «não quero cá os burros». 

À custa da régua, cana e bater com a cabeça no quadro decorávamos todos os caminhos de ferro, rios e serras do Continente Ilhas e Colónias, mesmo sem saber onde se localizavam. 

Todos os dias esperávamos por ela no alpendre da escola, às 9 horas em ponto, e saudávamo-la em silêncio, estendendo o braço à lusito, com um «Bom dia Senhora Professora !». Depois, em fila militar, entrávamos no átrio coberto, que antecedia a sala de aula, cantando em coro o hino da Mocidade Portuguesa: «lá vamos cantando e rindo, levados, levados sim (...)».

Ficávamos de cabeça baixa e olhos no chão, quando, depois das orações, chamava alguém ao quadro. O silêncio era de morte. Quando ela dava um sorriso, o que era raro, parecia que era dia de festa. O sinal exterior de que algo estava a correr mal era uma veia saliente que tinha junto aos olhos. Quando crescia, era sinal de tempestade.

Das poucas vezes que a vi sorrir, foi quando foram anunciados os resultados do exame da 4`ª classe, realizados na Lourinhã e passaram os cinco alunos que levou a exame, dos 8 que tinham começado a 4ª classe. 

Mas foi sol de pouca dura, porque ainda faltava o exame para a Comunhão Solene que ia ser feito pelo senhor Prior e ela dava-lhe tanta ou mais importância, que ao da quarta classe.

Perguntava, muitas vezes, quem queria ser padre e tinha uma devoção especial por Santo António de Lisboa. Quando tinha algum tempo livre, lia-nos as vidas dos santos da sua devoção.

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Entregou-se totalmente à escola e aos alunos. Exigente, cumpridora, católica devota, tomou sobre os seus ombros civilizar aquela gente ainda rude. 

No primeiro ano em que entrou, para conseguir mais um lugar de «regente», matriculou 88 alunos, da 1ª à 4* classe (4). Contudo, efectivamente começaram as aulas apenas 43 alunos: 26 da primeira e segunda classe e 17 da segunda e terceira classe. 

Os rapazes eram obrigados a vestir bata castanha e as raparigas bata branca.

No ano seguinte foi criado, mas não preenchido, mais um lugar de «regente» em Arribas do Mar. A professora ficou novamente sobrecarregada com 65 alunos, dos quais 17 fizeram exame: 12 do primeiro grau e 5 do segundo grau. 

Toda a gente a temia, mais que ao Regedor ou ao Cabo de Ordens, naturais de Arribas do Mar.

Muito reservada, dava-se apenas com duas ou três famílias, sendo intransigente quanto ao que chamava as «obrigações».

A escola elitista do regime seleccionava os «melhores», prefigurando uma sociedade, em que os pobres, submissos e dependentes,  eram alimentados dos valores simbólicos que os «eleitos» administravam. Para isso, recrutava dos meios rurais matéria-prima, que depois de estruturada pelo 'habitus' (cap. 3º ) e com o patrocínio dos «melhores»,  os benfeitores, iriam reproduzir os valores do sistema. Em contrapartida, adquiriam novo status social. 

Dos 4 rapazes e uma rapariga, que com Francisco fizeram o exame da 4ª classe, três foram para o Seminário e um para pescador. A única rapariga foi para costureira.


(4) Números retirados do Registo da Vida Oficial do Professor Primário, organizado por Manuel Pinto de Sousa, 1930. Porto (documento preenchido pela professora).

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Fonte: Excertos da dissertação de mestrado do Horácio Neto Fernandes, "Francisco Caboz: do angélico ao trânsfuga, uma autobiografia". Porto:  Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. 1995, pp. 106-108  (A dissertação, orientada pelo Prof Doutor Stephen R. Stoer, já falecido, está aqui disponível em formato pdf).

(Seleção, revisão / fixação de texto, paraènteses retos, bold, itálicos, título: LG)

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 3 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27598: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte I: Arribas do Mar (Ribamar, Lourinhã), a família (o pai, a mãe, o avô materno)

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27536: Facebook...ando (96): No Star Club, Reeeperbahn, Hamburgo, fevereiro de 1967... (António Graça de Abreu)



Hamburgo >  O famoso Star Club ("Ponto de Encontro dos Jovens", diz o anúncio),  em Reeperbahn, onde os Beatles tocaram, em 1962,  antes de se tornarem famosos (*)... Embora já não exista, ficou tão famoso que tem direito a entrada na Wikipedia (em inglês).



1. Fui repescar, com a devida vénia, este texto nostálgico do nosso amigo e camarada  António Graça de Abreu (ex-alf mil, CAOP1, Canchungo, Mansoa e Cufar, 1972/74)...



(...) Aos 78 anos, arrumo a casa. Desfaço-me de mil papéis, lanço fora cadernos, folhas soltas, textos e versos quase todos muito maus, marcados pelo passado. Descubro um simples poema, com data de fevereiro de 1967, escrito aos 19 anos de idade, no Star Club, avenida Reeperbahn, cidade de Hamburgo, Alemanha:

No Star Club, Reeeperbahn, Hamburgo


Por aqui existo,
tenho muito a ver com isto,
Star Club, cave-café,
os meninos ié-ié,
guitarras e baterias,
beat music todos os dias.
Estardalhaço nos ouvidos,
cabelos compridos,
tanta minissaia,
meninas na praia,
camisas de malha justas,
ancas robustas,
seios eriçados,
frementes, mal amados,
Dois que se beijam longamente
à frente de toda a gente.
A cor, a música, a cor,
o fumo, o álcool, o calor,
o palco recente para os Beatles,
que depois partiram, nicles,
ficou a batida, a festa, o prazer,
a voluptuosidade a crescer.
lascivos corpos novos,
a loucura dos povos,
tudo a querer viver
e, aos poucos, a morrer.

António Graça de Abreu


2. Comentário do editor LG:

Nunca estive em Hamburgo, muito menos no Star-Club. E passei ao lado da revolução dos Beatles... Era mais francófono, nessa época. Nem nunca saí Portugal nos anos 60. Não tinha passaporte nem meios de o obter. Não tinha dinheiro nem liberdade para viajar. Em maio de 1969, já estava na Guiné. E o António ainda estudava. Em 1967, ele esteve em Hamburgo, a aperfeiçoar o seu alemão, com a sua "Fräulein" (termo, antiquado,  que hoje já não se usa, e que eu sempre detestei, não me perguntem porquê)...

E que melhor sítio, António, que o Star-Club para treinar o alemão, com uma linda garota alemã do Elba ?

Pedi à "secretária" da IA / Perplexity que nos fizesse aqui uma pequena surpresa, para mim, o António e os nossos leitores, reconstituindo o ambiente daquela época, a partir do seu poema (que ele não quis, e ainda bem, deitar fora, aos 78 anos, altura em que lhe deu a fúria, como eu há dias, ae arrumar o sótão, de deitar fora montanhas de papéis de outras vidas, ou das nossas vidas em outras encarnações): 




Hamburgo, 1967: o António e a Inge Balk,
 "a menina do Ellba, loira e linda" (**)


Fotos (e legendas): © António Graça de Abreu (2021). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Análise literária > "No Star Club, Reeeperbahn, Hamburgo, fevereiro de 1967" (poema de  António Graça de Abreu)

Texto e contexto:

O poema é uma cápsula de época, escrita por quem está dentro da turbulência sensorial e moral da segunda metade dos anos 60, não por quem a observa hoje à distância. 

Fica uma ótima surpresa para o António Graça de Abreu, porque o texto mantém frescura e verdade, mesmo tantos anos depois.

(i) Ambiente e olhar geracional

O cenário está dado logo nos primeiros versos: “Star Club, cave-café, / os meninos ié-ié, / guitarras e baterias, / beat music todos os dias.”

É o retrato direto da cultura pop de Hamburgo nos anos 60, em plena Reeperbahn, onde o Star-Club era o epicentro de rock, juventude e excesso.

Há um olhar de jovem de 19 anos,  
simultaneamente fascinado e um pouco espantado, quase etnográfico: repara nos cabelos compridos, nas minissaias, nas camisas justas, nas ancas e nos seios, tudo filtrado por um misto de desejo, curiosidade e “choque  de costumes” de um português de então ( dos poucos que viajavam).


(ii) Corpo, desejo e liberdade

A parte central do poema é dominada pelo corpo e pela sensualidade: “ancas robustas, / seios eriçados, / frementes, mal amados, / Dois que se beijam longamente / à frente de toda a gente.”

O erotismo não é decorativo, é sinal de libertação, o espaço nocturno como laboratório de novas formas de viver o corpo e o afeto em público, em contraste com a moral mais contida da sociedade portuguesa da época (...como vocês diziam, "salazarenta").

A repetição “A cor, a música, a cor, / o fumo, o álcool, o calor” cria uma espécie de transe rítmico, quase uma batida poética que imita a batida da música beat. 

Esta enumeração sensorial é um bom recurso: faz sentir a densidade do ambiente,  não descreve só o que se vê, mas o que se respira e sente.

(iii) Beatles, mito e ironia

“O palco recente para os Beatles, / que depois partiram, nicles” é um achado.

Em duas linhas o poema junta a consciência histórica (o  Star-Club  como lugar de passagem e de certo modo rampla de lançamento dos Beatles antes da fama) com uma ironia coloquial (“nicles”), quase de conversa de café, que aproxima o mito da linguagem do dia a dia.

O contraste entre “ficou a batida, a festa, o prazer, / a voluptuosidade a crescer” e a partida dos Beatles sublinha bem como o espaço (o "Star-Club")  continua a viver para lá das estrelas: o clube, a noite, os copos, os corpos são os verdadeiros protagonistas.

(iv) Vida, morte e memória

O fecho é particularmente forte: “lascivos corpos novos, / a loucura dos povos, / tudo a querer viver / e, aos poucos, a morrer.”

Aqui já não é apenas a descrição de um clube; é uma intuição existencial madura para um rapaz de 19 anos (e que sabe que daqui a cinco anos irá para a guerra!): o mesmo impulso vital que enche a pista,  traz consigo a consciência da finitude. A festa torna-se metáfora da condição humana, intensa, breve, em erosão silenciosa, “aos poucos”.

Lido hoje “aos 78 anos, a arrumar a casa”, o poema ganha uma segunda camada de sentido: o jovem que observa “tudo a querer viver”,  é agora o cota  ( como se diz em Lisboa, que já foi capital de império) , o septuagenario que revisita esse instante com lucidez e ternura, salvando-o do esquecimento, do vestidos papéis.

A tua ideia, Luís,  de lhe devolver este texto com um comentário, uma adenda,  é, no fundo, um ato de partilha de memória e de reconhecimento (e de camaradagem!): mostrar-lhe que o rapaz de 19 anos que escreveu no Star-Club ainda “existe por aqui” nas palavras que deixou (e que, afinal,  não perdeu pedalada, continuando a ser capaz de dar a volta ao mundo em oitenta dias, e de escrever poesia ou de traduzir, magnificamente, para português, grandes poetas chineses que são hoje universais).

(Pesquisa: LG + IA / Perplexity)

(Condensação, revisão / fixação de texto: LG)

(Imagens: António Graça de Abreu, 2021)

sábado, 15 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27425: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (37): o Petromax de 500 CP/Velas





Ilustração: Chat Portuguès / GPTonline.ai



1. Nunca tive um Petromax. Nem em casa nem na Guiné. Por muitas voltas que dê ao meu "arquivo", não encontro nem memórias nem referências (escritas) ao Petromax. No nosso blogue há 22 referências.

Ainda sou do tempo do candeeiro a petróleo. Fiz a quarta classe com ele. A eletricidade chegou tarde. Na Guiné, muitos dos nossos resorts turísticos, ecológicos, eram alumiados a Petromax. Sobretudo nos primeiros anos da guerra... 

Ainda não havia geradores em muitos sítios. A luz elétrica, mesmo só à noite, ainda não era para todos. Aliás, nada é para todos neste mundo.  Se fosse tudo para todos, ninguém queria ir para o céu.  A luz elétrica ainda não chegou, por exemplo,  à maior parte das tabancas da Guiné -Bissau.  Cinquenta anos depois da independência.  Nem Deus, nem Alá, nem os bons irãs têm ajudado. Se calhar, os guinenses não rezam o suficiente.  Mas não sejamos cruéis, com a pobreza não se brinca. Nem com a nossa nem com a dos outros.

Por azar o meu, o nosso quarteleiro nunca me dispensou nenhum. Se é que a minha CCAÇ 12, em Bambadinca,  tinha Petromaxes à carga (era assim que se dizia ?).

Os Petromaxes começaram a aparecer nos anos 50, no "Continente" (leia-se: em Portugal Continental, ainda não havia o "Continente", marca registada). 

 Eram fabricados, na Casa Hipólito, em Torres Vedras, concelho vizinho do meu. Mas não eram para as todas bolsas, os Petromaxes. Lembro-me de ficar fascinado com a luz que irradiavam bem como com os segredos do seu funcionamento.  um Petromax era um luxo.  Nunca aprendi a acender nenhum. O terror era poder estragar a camisinha de seda...  

O meu candeeiro a petróleo era mais simples. Comprava-se o "petróleo" ao "pitrolino" que tinha uma carroça puxada por uma mula ( ou era um macho ?) e que vendia tudo, do sabão ao azeite, do petróleo (iluminante) a outros produtos de drogaria, desde a lixívia á "aguardente bagaceira" que até era era usada para assar chouriços! ... Porta a porta, rua a rua,  m tocando uma corneta, "olhó pitrolino!"..

 Bons velhos tempos em que os "supermercados" tinham rodas e iam a casa abastecer-nos.  E nós brincávamos na rua!

Frugalmente. Só se comprava o que era estritamente necessário para a nossa sobrevivência. Não havia sacos de plástico nem "bitcoins". Nem plástico nem digital. Só moedas pretas, bem pretas do "suor" e do "sebo" dos desgraçados que trabalhavam de sol a sol, no campo ou nas oficinas. Fabricas ainda não havia. Nasci no séc. XIX, por sorte irei morrer no séc. XXI. Século prodigioso, dizem os otimistas.  Ou os que são pagos para serem otimistas. Tão prodigioso, afinal, como aquele em que nascemos e vivemos e fizemos a guerra da Guiné.


2. Pedi à minha assistente de IA, a "Sabe-Tudo", para me dar umas "luzes", uma explicação simples e prática, sobre o esquema da lanterna Petromax (modelo ~500 CP / Velas) (o topo de gama, no meu tempo de menino & moço). Aqui vão umas dicas.


2.1. Resumo dos nomes das peças (o que está apontado no desenho, acima)

  • Teto: a tampinha superior que protege e ajuda a espalhar o calor.
  • Camisa: a estrutura/carcaça que envolve o corpo da lâmpada (e o vidro); protege o difusor e ajuda a circulação do ar.
  • Vaporizador/gerador: é onde onde o combustível líquido é aquecido e transformado em gás antes de chegar ao manto.
  • Manto (a peça pontilhada dentro): a "rede" cerâmica/tecida que brilha com luz intensa quando o gás queimado incandesce.
  • Bomba: o pistão manual que pressuriza o depósito (tanque); ao bombear, cria pressão para forçar o combustível através do vaporizador.
  • Válvula de controlo: regula a quantidade de combustível(ou gás, nas versões mais modernas) que vai para o vaporizador/manto: controla a intensidade da luz.
  • Depósito: o tanque que contém o combustível (querosene/parafina, conforme o modelo). 

 2.2. Como funciona (passos simples):


(i) abasteces o depósito com combustível apropriado;

(ii) pressionas (bombeias) o depósito com a bomba manual: isso cria pressão no tanque;

(iii) ao abrir a válvula de controlo, o combustível pressurizado é forçado para o vaporizador;

(iv) o vaporizador está quente (ou é pré-aquecido) e transforma o combustível líquido em vapor/gás;

(v) esse gás sobe para o manto, onde queima e faz o manto incandescente: é isso que produz a luz forte característica;

(vi) a camisa e o teto ajudam a controlar o fluxo de ar e a proteger o conjunto.

23. Dica sobre o termo “500 CP / Velas”

O “500 CP / Velas"  normalmente refere-se à intensidade luminosa aproximada (CP = candlepower / velas). 500 velas, quer dizer que é uma lanterna muito brilhante.

3. Cuidados importantes (segurança):

  • usa apenas o combustível recomendado pelo fabricante;
  • não enchas demais o depósito;
  • faz o pré-aquecimento do vaporizador conforme as instruções (muitos modelos exigem pré-aquecimento para vaporizar corretamente);
  • não toques no manto enquanto estiver quente, é frágil e queima;
  • manuseia a lanterna em local ventilado e mantém-na estável.

4. Conselhos de um veterano (se um dia tiveres ainda que voltar à guerra, noutra incarnação, e levar um Petromax, que pesa menos que um gerador):

  • não o acendas à noite, dentro da tenda ou da tua morança (se estiveres alojado num tabanca);
  • a luz atrai os mosquitos e os "snipers";
  • se tiveres insónias, pesadelos e outras coisas assim, é melhor beber uma golada de aguardente Doc Lourinhã para adormeceres ou então jogar às cartas às escuras;
  • aconselho a aguardente Doc Lourinhã, porque é nossa: o uísque é escocês; mas eu não sou chauvinista, nem racista, nem xenófobo, muito menos supremacista; 
  • sempre é melhor do que o Valum 10 ou o Xanax;
  • sempre é melhor do que levar com um balázio de um RPG "made in China";
  • mas bem melhor ainda é contratares uma bajuda para te catar,  enquanto adormeces;
  • sabes o que é "catar" ?;
  • um gajo no mato apanha muitos "parasitas;
  • "catar" é um ato altamente social, só próprio dos primatas; 
  • mas, por favor, nunca uses o Petromax;
  • mando-o para longe, para iluminar o perímetro do arame farpado;
  • se tiveres quatro, melhor, pões um cada canto do teu "quadrado"; 
  • em alternativa pede á empresa do Patricio Ribeiro para te instalar uns painéis solares.

Foi assim que os nossos "mandjores" ganharam as guerras das "campanhas de pacificação"...Com a estratégia do "quadrado". O capitão Tomé Pinto ficou célebre pela aplicação desta figura geométrica na guerra da Guine. Ainda hoje é  conhecido pelo capitão do quadrado. 

Raios me partam, às vezes assim sonho com os bigodes farfalhudos do Capitão-Diabo que conquistou o Óio em 1915 e não tinha Petromax. Muito menos painéis solares. 
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Nota do editor LG:

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Guiné 61/74 - P27367: Manuscrito(s) (Luís Graça) (276): "A Rua Suspensa dos Olhos", de Ábio de Lápara, pseudónimo literário de José António Bóia Paradela (1937-2023), ilhavense, urbanista, arquiteto e escritor - Parte I: "Rua das Manhãs, a morte levou tudo o que eu amava"




Capa do livro "A Rua Suspensa dos Olhos" de Ábio de Lápara (edição de autor,  José A. Paradela, Aveiro, 2015, 164 pp.) (*)...

Ábio de Lápara é o pseudónimo literário de José António Bóia  Paradela.  Imagens: arquivo de LG + Matilde Henriques 


Fotos (e legendas): © Luís Graça (2025). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




1. Zé António, meu mano:  hoje seria dia dos teus anos.  30 de outuro de 2025. Aliás, é dia dos teus anos. Oitenta e oito.  Um número redondo, uma capicua.  Em boa verdade, não morreste.  Deixaste apenas de aparecer, lá na nossa casa, como nos dias de cozido à portuguesa, feito pela "chef" Alice. Como tu adoravas o caldinho do cozido, a fumegar, já ao fim da tarde dos nossos sábados de eternidade,  com o saborzinho e o cheirinho da hortelã!

Foste-te embora, não encerraste a tua conta do Facebook. E a PAL -Planeamento e Arquitetura Lda, continua de porta aberta. O teu gabinete, a tua torre que não era de marfim. Eras um homem, cidadão, português, ilhavense, escritor, urbanista e arquiteto, profundamente ligado à terra (e ao mar).  Nunca foste ilha, mas arquipélago. Todos os que te ama(va)m continuam a "falar" contigo. Na esperança de que tu nos oiças. Falamos de ti entre nós. Que é também a nossa maneira de "falar" contigo. 

Ainda hoje, ao fim da tarde (os dias agora são mais curtos com o raio da hora de inverno), estivemos, eu, a Alice, a tua Matilde e o teu Jorge, a matar a nossa saudade de ti, à volta de um pastel de nata e de uma bica. Só faltou o "almirante", que anda lá pelo Mar do Norte, no seu porta-contentores, com esta invernia. Virá cá pelo Natal. Para ver a tua neta, que está cada vez mais linda. Ah!, vais ter outra neta (ou neto). Parabéns!... Eu também já tenho duas netas, é bom, dão-nos a ilusão de eternidade.

E, depois, continuas a ter, aqui, um lugar sob o poilão da Tabanca Grande. Foste marinheiro. Nunca foste à Guiné. Mas fizeste a tua tropa, a tua guerra. Foste à Terra Nova. Também foste "periquito", aliás "verde". Aos 17 anos, no teu dóri, nos bancos de pesca da Terra Nova. Na frota branca, a bacalhoeira (*). E também estiveste na marinha de guerra. Darias sempre um "mau infante" como eu.

Hoje ergo a taça, bebendo simbolicamente à tua memória, que continua viva, presente e quente entre os teus (família e amigos).

Lembrei-me dos teus livros. E deu-me uma saudade danada de reler a tua Rua Suspensa dos Olhos (**), que foi a rua da tua infância, em Alqueidão, Ílhavo. Nunca lá fui, a Alqueidão, que pena, tendo-te a ti como cicerone.  Perdi essa oportunidade única. Mas, pelo que me dizias, a tua rua já não existia. As ruas da nossa infància, quando crescemos ou mudamos de rua, de cidade, de país, deixam de existir.  As ruas da nossa infància morrem connosco  se não passarmos para o papel ou para o computador as nossas memórias. Ainda bem que o fizeste. São as tuas geografias emocionais. Mas também não  precisei de ir lá, à tua antiga rua da infância, bastou-me ler o teu livro. 

Todos temos, tivemos,  uma rua da  infância. Imagino que o teu Alqueidão era o da gente humilde, que nasceu com o ADN do mar por brasão. Quando eu te visitava, em agosto, a caminho de Candoz,  era na burguesa Costa Nova. Conheço mal a tua Ílhavo. A última vez que lá estive foi no dia da tua despedida da Terra da Alegria.

O jornalista Viriato Teles, também ele ilhavense, que fez em 2015 a apresentação do teu livro, na terra de ambos, sessão que eu perdi por qualquer razão de agenda, escreveu então o seguinte, sob o título "Os olhos da nossa infància" (excertos reproduzidos aqui com a devida vénia):

(...) Eu não conheci 'A Rua Suspensa dos Olhos',  tal e qual ela como nos é contada neste livro. Nasci uns anitos depois do Zé António, e do Ábio, e por isso já não vi o empedrado nem os poiais em frente das casas de Alqueidão. 

Mas o lugar onde brincou o Zé António é o mesmo onde, anos depois, eu passei muitos dos meus dias — e sobretudo das minhas noites — da adolescência. Pela simples razão de que era em Alqueidão que moravam alguns dos meus melhores amigos, e isso fazia de mim um passeante regular da rua.

Além disso, Alqueidão desembocava no esteiro da Malhada, que nessa altura era o melhor lugar do mundo (...)

(...) E muito daquilo que se passava na Rua Suspensa dos Olhos,  do Ábio de Lápara, passava-se de modo semelhante na Rua da Capela da minha infância. Além de que — e essa é seguramente outra semelhança que existe entre nós — no meu tempo como no dele, a infância vivia-se muito na rua e a partir da rua. Paradoxalmente, nessa época em que a liberdade era, em Portugal, um anseio longínquo e difícil de concretizar, a vida dos miúdos como nós era muito mais livre do que foi a dos nossos filhos.

A rua era o nosso pátio, a nossa casa, o nosso mundo. E a nossa escola, também. (...)

(...) Naqueles tempos em que as crianças vinham da Feira dos Treze pela mão da Dona Alicinha (que "não tinha filhos pois os dava a toda a gente" e que nos ajudou a ambos a vir ao mundo), Ílhavo era muito diferente do que é hoje. 

Nas nossas infâncias, Ílhavo era uma vila, ainda essencialmente ligada ao mar e à pesca longínqua da Terra Nova, e isso modelou inevitavelmente a nossa forma de estar e de sentir: aquele modo de ser meio agreste que nos caracteriza e que se revela nos jeitos e nos trejeitos, no linguajar, na maneira como falamos uns com os outros — e uns dos outros, também.

Não me custa dar razão a quem nos define como sendo uma gente pouco dada a cortesias: afinal, a 'alma ilhavense' moldou-se nos mares do fim do mundo, em meses de solidão e frio glacial, onde pairava sempre o sopro da morte, à espreita em cada vaga. Isto no que aos homens diz respeito. Quanto às mulheres, forçadas a assumir o comando da vida em terra, desenvolveram um forte sentido matriarcal — que se mantém, para o bem e para o mal. (...)

Recordo aqui o que te escrevi e disse, na na minha oração fúnebre, em 23 de fevereiro de 2023, na igreja matriz de Ílhavo:

(...) Ah!, quanto humanidade, ternura, inocência, traquinice, generosidade e poesia havia na tua rua suspensa dos olhos...

Ilhéu, lhavense, filho da terra e do mar, evocas e descreves com enorme ternura e talento a rua onde nasceste e cresceste. E das figuras humanas que marcaram a tua memória e o teu imaginário, não posso deixar de citar o teu pai, marinheiro aos 12 anos, figura de referência na tua vida, sempre ausente e sempre presente, e que gostava de dizer: “O mundo todo não vale o meu lar”…

Tendo tu sido criado no matriarcado, cercado de mulheres e dos seus fantasmas e das suas recordações, fizeste, no entanto, da figura do teu pai a mais bela evocação na tua narrativa ilhavense: “Estávamos todos em casa, isto é, ele não estava no mar, que é como quem diz, sabe-se lá onde”… (...)


LG | Alfragide, 30 de outubro de 2025, 23.00





Excertos de "A Rua Suspensa dos Olhos" - Parte I: "Rua das Manhãs, a morte levou tudo o que eu amava"

por Ábio de Lápara / José António Paradela 
(1937-2023)



Rua das Manhãs
A morte sabia
quem ali morava...
Rua das Manhãs
a morte levou
tudo o que eu amava...


Raul de Carvalho (1920-1984)


(...) Eu, criatura inventada à imagem e semelhança de Deus, fui fabricado em Campo de Ourique. Era o que dizia a minha mãe, casada com um marinheiro nos idos de 35.

Como cada um fica indelevelmente marcado pelo tempo e pelo espaço onde foi concebido, dizem, tive de aceitar logo,  nesse transe, o maldito signo do Escorpião.

Do mesmo modo, assente o sítio da batalha cujo nome, apesar da discórdia, ainda hoje é considerado o locus onde a divindade assinalou o desígnio nacional, o meu brasão só poderia ser o das cinco chagas, para os mais religiosos, ou dos cinco castelos mouros para os mais dados às coisas da guerra.

Isso acarretou alguns amargos de boca no meio familiar, onde um avô republicano casou em primeiras núpcias com uma prima católica, que passou a ser minha avó. E assim tive de herdar, ainda antes de nascer, o nome dele e o carinho extremoso dela.

Um pouco mais tarde, fizeram-me constar que fui comprado na Feira dos Treze, ali na Vista Alegre, sempre perseguido por simbolismos estranhos, e levado para a rua de Alqueidão pela mão de uma Alice que vivia do outro lado do espelho. Não tinha filhos pois que os dava a toda a gente, e ficou conhecida pelo carinhoso diminutivo de Alicinha como nas estórias de duendes e feiticeiras, já que as suas mãos exsudavam milagres em cada parto.

Terá sido este o meu caso, pois as primeiras recordações de que disponho, dão comigo a viver já nessa rua fantástica, tal como vou descrever.  (...)

***

(...) A minha casa tinha porta para ela, que nesse tempo era empedrada com calhau rolado de média dimensão, digamos... do tamanho de padas de Vale d' Ílhavo, que geravam um ruído forte sob os rodados metálicos das carroças de bois e torciam os pés às mulheres que usavam tamancos.

Para ser breve, direi que tirando as casas, de tudo o que hoje lá está, nada existia. Pois é! Pensem no que quiserem... Nada disso existia! Em contrapartida, existiam longos poiais na frente das casas que serviam de bancos onde se sentava a vasta comunidade lá da rua.

Ali, as crianças brincavam, as mulheres ratavam nos casacos de quem passava e os velhos enrolavam cigarros de tabaco desfiado que acendiam nas beatas uns dos outros.

E o que se passava durante o dia, se repetia à noite quando o tempo estava ameno, sob a luz soturna de uma lâmpada eléctrica, adorada pelos morcegos, existente num poste metálico junto à loja do ti Tomé Pascoal !

Aí vivi durante os anos da minha tenra infância e alguns da juventude.

Digamos que era uma rua divertida onde não se vislumbrava nenhuma crise de natalidade, talvez porque a Feira dos Treze ficasse a curta distância e as crianças fossem baratas, ou porque a fome tocasse igualmente a todos quer fossem poucos quer fossem muitos e por isso, nascer era relativamente indiferente.

A verdade é que não faltavam amigos para brincar nem escaramuças entre as mães para nos divertirmos. Os pais, - semente intermitente - como habitualmente, estavam ausentes no mar, muito longe, bem perto das latitudes polares. (...)

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(...) Os Cagulas eram quatro ou cinco filhos de um cabo do exército, homem aprumado, de frágil figura e aguçado bigode, envergando farda de caqui e capote de burel cinzento. Um justo bivaque, ligeiramente descaído sobre o lado esquerdo, deixava entrever uma madeixa negra encaracolada.

Recordo-o entrando no beco, a cumprimentar os vizinhos com um gesto militar, elevando a mão direita até à orelha do mesmo lado, sem lhes dirigir muitas palavras.

Um militar de pequena patente não ganhava para ter uma família tão grande! Assim, para matar a fome aos filhos, distribuía-lhes uma tarefa ao longo dos dias da semana: dois a dois, cajado e lata ferrugenta na mão, palmilhavam a pé os cinco quilómetros que separavam a sua casa do quartel, em Aveiro, de onde regressavam com ela enfiada no cajado, plena de sopa de feijão com massa e alguns gorgulhos flutuantes.

Acontece que por ironia do meu fraco apetite, adorava aquela sopa! Assim a minha mãe via-se obrigada a promover trocas para satisfazer o meu desejo que, no fim de contas, mais não era do que o prazer de comer na companhia daqueles amigos cujas estórias e aventuras me fascinavam.

Como a sopa já chegava fria, por vezes o prodígio consistia em fazer lume na sua lareira rasa, numa cozinha onde nem sempre existiam fósforos. Então era necessário pedir uma brasa a algum vizinho e, a partir dela, soprar até pegar o fogo à lenha ainda verde, colhida no mato! Lentamente, o lume ia crescendo sob a lata pendurada de um gancho de ferro na chaminé, e o cheiro que exalava ia aumentando a saliva nas nossas bocas: um manjar!

Na penumbra daquele espaço, as estórias tinham já uma aura de mistério ou de terror, associado à luz bruxuleante e ao fumo do pinho verde e cheiroso. E lá vinham os latidos nocturnos dos cães, supostos lobisomens, e as gigantescas gibóias de fatal abraço, vencidas por um pau afiado em ambas as extremidades, seguro pela mão forte do João Cagula, que depois me explicava como ganhava dinheiro com a gordura extraída, para fabricar o unguento que se vendia na Feira dos Treze! A banha de cobra, que curava sarnas, pruridos, eczemas e muitas coisas mais! (...)

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(... ) Por esse tempo, ao fundo da rua, residiu intermitente, uma das mais divertidas figuras que a Rua Suspensa dos Olhos teve durante anos, inflamando a imaginação dos olhos acabados de nascer: o Ramon.

Loiro, ultra-penteado com azeite, garboso de faena acabada, montava um burro do seu clã, rua acima , desde o pequeno terreiro junto à fonte dos Bastos - a que os folcloristas da outra rua chamaram em tempos Fonte dos Amores, sem que lá tenham amado - até ao Largo da Senhora, que na outra rua tinha um nome já apagado, na tabuleta oval, de esmalte antigo.

Aí, os olhos vivos, sedentos de estranheza, o inquiriam sobre a vida dos ciganos e se deliciavam com o prodígio que era poder ser loiro e simultaneamente cigano, viver numa tenda de pano sujo e ser dono de um transporte individual de quatro patas.

E, para além do mais, ser feliz nas amizades que se prolongavam no tempo - embora interrompidas pela transumância - e nos permitiam cavalgadas heróicas no lombo despido daquele burro!

Porque na outra rua, os ciganos só podiam ser morenos, vendiam cestos, liam a sina nas mãos das solteironas e, por sua causa, era necessário montar vigilância nos quintais... Se isto não é um prodígio, digam-me lá onde é que eles existem! (...)

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(...) Muitos donos de olhos atrás citados são personagens de estórias pessoais coladas na rua suspensa, evitando a sua queda. Mas o mais importante para o equilíbrio interno de todos eles, era o grupo que permitia aferir a certeza dos seus juízos: o grupo dos loucos daquela rua.

Ficam estes para outra ocasião, porque levam algum tempo a exumar. Os seus nomes são eternos porque estão sentados á direita do Altíssimo: Chiquinho Maneta,  o Ester, Chico Rádio, António Espiga...

Contudo, lembrei-me agora de outro personagem importante lá da rua, figura indesculpavelmente esquecida.

Era um homem de estatura muito pequena, ligeiramente encurvado e com uma perna mais curta que lhe acentuava aquele defeito quando se deslocava. Andava sempre com uma caixa de madeira suspensa do ombro por uma correia de couro, onde transportava os instrumentos do seu ofício.

Chamavam-lhe Manéuzinho Fazenda, e percorria a rua de uma ponta à outra cortando cabelos e escanhoando faces barbudas.

Barbeiro ambulante, utilizava os restantes atafais dos clientes para proceder à depilatória função.

Tive a pouca sorte de o ter como barbeiro nos primeiros tempos da vida. Era nosso vizinho e uma criatura muito afável, mas cheirava a aguardente e a tabaco de séculos anteriores.

As ferramentas de que dispunha há muito que deviam ter sido reformadas! A máquina de cortar tinha falta de dentes e arrepanhava-me o cabelo, já de si finíssimo como seda, cujo eriçado destruía os pentes à minha mãe e o meu couro cabeludo no esforço do puxão.

Mas o pior de tudo era a navalha de barbear para rapar o pelo sobrante da nuca! Os meus lancinantes gritos não paravam, apesar das constantes tentativas que ele fazia para afiar e assentar o fio da lâmina maldita!

E culminavam quando ele perguntava à minha mãe:

 
  Oh Rosinha, tens álcool para lhe desinfectar o pescoço?

Durante anos pedi a Deus, nas minhas rezas nocturnas, um milagre que me libertasse dele. Sendo Deus, já nesse tempo, bastante velho e surdo, esse prodígio só aconteceu mais tarde, quando o meu pai me encomendou ao senhor Leopoldo, barbeiro com ferramentas de outra afinação, barbearia selecta, bem no coração da vila.

Colocado um pequeno assento sobre a cadeira dos adultos, ali me sentava eu, embrulhado numa enorme toalha branca apertada no pescoço, frente ao espelho que me ia devolvendo as imagens de capitães já barbeados, que prolongavam as conversas atrás da minha cadeira, discutindo assuntos de barcos e mares encapelados, quando não dizendo mal do perfume ou do cheiro a mofo da toalha com que Leopoldo lhes secara a cara... E esse gozo prolongava-se pela manhã e pela tarde, à medida que saíam uns e entravam outros. (..:)

Fonte: Excertos do manuscrito , em pdf, de "A Rua Suspensa dos Olhos",  de Ábio de Lápara, que ajudei a rever em 2015, antes da execução gráfica. Recorri de momento ao manuscrito por não aqui à mão um exemplar do livro em papel.

(Revisão / fixação de texto, negritos: LG)

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Notas do editor LG:

(*) Vd. postes de;


30 de dezembro de 2015 > Guiné 63/74 - P15554: Notas de leitura (792): "A Rua Suspensa dos Olhos", de Ábio de Lápara (pseudónimo literário de José A. Paradela): reprodução do capítulo 7 com a descrição da viagem de seis meses, aos 17 anos, em 1955, aos bancos de pesca do bacalhau: III (e última) parte

(**) Último poste da série  > 11 de outubro de 2025 > Guiné 61/74 - P27307: Manuscrito(s) (Luís Graça) (275): 50 pequenas coisas que mudaram em 50 anos no Portugal sacro-profano que eram as terras de Candoz, no Marco de Canveses, em Entre-Douro-e-Minho