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quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28390: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (41): a "vinha de enforcado" ou "uveira"





Foto nº 1, 1A, 1B

Foto original, a preto e branco. In: Aguiar, P. M. Vieira de - Descrição Histórica, Corográfica e Folclórica de Marco de Canaveses. Porto: Esc Tip Oficina de S. José. 1947, pág. 375  (Com a devida vénia).

Restauro, melhoria técnica e colorização digital: Blogue Luis Graça & Camaradas da Guiné +  AI (Gemini / Google), 2026.



1. Já não é do meu tem
po a "vinha de enforcado", na Quinta de Candoz, Paredes de Viadores, Marco de Canaveses, onde comecei a ir a partir de 1975. E onde casei em 1976. Mas recordo-me, antes da modernização da nossa vinha (meados da década de 1980), já só existiam videiras nas bordaduras ("ramadas") e que o essencial da produção era o milho, algum centeio e erva para o gado, mais a policultura tradicional (produtos hortofrutícolas). 

Mas havia vizinhos que tinham "vinha de enforcado" e muitos pés de "produtores diretos", com o famigerado jaquê, uma casta de uvas da espécie híbrida de origem norte-americana (proibida em França e em Portugal, em 1935).

Alguns dos nossos leitores, e nomeadamente camaradas do nosso tempo, oriundos do Minho e de Entre-Douro-e-Minho, ainda se lembram, por certo, destas "uveiras"  e do cabo dos trabalhos que era a vindima nesse tempo...com recurso a escadas. que podiam "ter dezasseis degraus com cerca de doze metros de comprimento" (Aguiar, 1947, pág. 374).

Além disso, a realidade das décadas de 1940 a 1950, em que nascemos, no Portugal rural era de extrema pobreza e subsistência. E a vida era muito marcada pela dureza do trabalho agrícola, nomeadamente da região do Vinho Verde.  

O vestuário de trabalho masculino no campo, incluindo nas vindimas,  consistia em calças de panos grosseiros, riscados simples ou cotim já muito gastos, frequentemente repletos de remendos sobrepostos para prolongar a vida útil da única roupa que possuíam (Foto nº  1A). 

Não se trata de miserabilismo neorrealista, era a realidade pura e dura, para mais num concelho como o Marco de Canaveses. Muitos andavam descalços ou usavam socos. (**)

De acordo com os dados históricos e análises da estrutura fundiária da época (associados ao Inquérito Agrícola de 1952 e às estatísticas agrícolas publicadas ao longo da década de 1950), o concelho de Marco de Canaveses tinha mais de metade (50%) dos seus agricultores numa situação de rendeiros.

A região de Entre-Douro-e-Minho, onde o concelho se insere, caracterizava-se tradicionalmente pelo minifúndio e por uma elevadíssima taxa de exploração da terra sob regimes de arrendamento e parceria (agrícola e pecuária,  formas pré-capitalistas de produção). 

 Esta era uma das brutais realidades socioeconómicas dominantes neste concelho, antes da grande vaga de emigração das décadas seguintes. Terra, de resto, de gente ilustre, como a cantora Carmen Miranda (1909-1955),  o general Carlos de Azeredo (1930-2021) ou o empresário Belmiro de Azevedo (1938-2017).
 E olhando estas fotos antigas (agora restauradas...), pergunto-me: quanto pesavam estes cestos de vime, carregados de uvas ? 
Nas décadas de 1930, 1940 e 1950, estes cestos tradicionais de vime (frequentemente chamados de canastras ou gigas) carregados de uvas pesavam, em média, entre 40 kg e 60 kg quando totalmente cheios. O peso final variava consoante alguns fatores na época: 

(i)  estes cestos tinham habitualmente uma capacidade que variava entre os 40 e os 50 litros; como 1 litro de uvas compactadas equivale a pouco mais de 1 kg, o peso das uvas rondava essa mesma fasquia; (ii) feitos de vime denso ou ripas de castanheiro, os cestos vazios já eram pesados por si só, pesando entre 3 kg e 5 kg; se estivessem húmidos ou impregnados com o mosto de utilizações anteriores, ficavam ainda mais pesados: (iii)  importante notar que existiam cestos maiores, os chamados "cestos vindimos" (típicos de regiões como o Douro): eram carregados às costas maioritariamente por homens e podiam atingir uns impressionantes 70 kg a 100 kg.; para conseguir equilibrar e suportar estas cargas monumentais diretamente no topo da cabeça sem sofrer lesões imediatas, as mulheres utilizavam a "sogra" ou "rodilha"  (uma proteção de pano ou palha enrolada visível sob o cesto da camponesa à direita) (Foto nº 1B).



por Augusto Pinto Soares (Gusto) (2005)


(...) Era o tempo em que a data da vindima era marcada de acordo com as disponibilidades dos outros lavradores do lugar ou das proximidades, para que, os pais e os filhos (normalmente mais de seis por família) pudessem distribuir-se na ajuda a prestar uns aos outros. Era o sistema comunitário, a "serviçada", a funcionar.

Então era ver, manhã cedo, homens e rapazes com escadas de madeira (até 12 passos) às costas, com a cesta de vime com o cambito pendurado ao ombro, em romaria às várias propriedades onde a vindima se ia realizar.

Iniciado o corte das uvas, após um frugal mata-bicho – bagaço com açúcar e um naco de broa de milho e centeio –, as conversas, os ditos, as interjeições iam-se sucedendo entre os homens e as mulheres, procurando assim animar os espíritos e dar algum intervalo às dores de costas dos homens, que para além de constantemente terem de mudar as escadas pesadas entre as uveiras altas – as vides como que serpenteavam os choupos que serviam de armação: a tradicional vinha de "enforcado" – ainda tinham, quantas vezes, de se encarrapitar para fora da escada de forma a chegar a um cacho de uvas que teimava em ficar a amadurecer por mais algum tempo.

As mulheres, essas, no seu corrupio entre as leiras e a adega com os cestos de vime pesados à cabeça e com o sumo das uvas, de tão calcadas, a escorrer-lhes pela cara e costas abaixo,  chegavam afogueadas e com o suor adocicado.

Até as crianças e moçoilas, ainda sem idade para acartar cestos, tinham o seu quinhão na azáfama da vindima. Como diz o ditado, “o trabalho do menino só não o quer quem não tiver tino “, e então era vê-las, cada qual com o seu açafate, empenhadas na sua válida tarefa de apanhar todo e qualquer bago que caísse ao chão, pois desperdiçar era proibido e muitos bagos (envolvidos em terra ou sem ela) sempre davam mais uns quantos litros de vinho.

Aqui e ali ouviam-se os "cantaréus", ao despique, efectuados por 3 ou 4 moças que se juntavam junto às bordas, no intervalo de mais um carreto de cestos e que, ecoando vale abaixo, indicavam aos vizinhos que ali se vindimava e qual o seu estado de alma. (...)



2. A "vinha de enforcado" (também conhecida tradicionalmente como "uveira") é um sistema ancestral de condução da vinha típico do Minho e da região do Vinho Verde.

A ideia básica é simples e "economicista": em vez de postes de madeira, pedra, metal ou betão, a videira (até quatro) é plantada junto de uma árvore e conduzida pelo tronco até à copa. utiliza-se um tutor vivo. Em geral, árvores como choupos, ulmeiros, plátanos, carvalhos, nogueiras, etc.

A própria planta ajuda. A Vitis vinifera é uma trepadeira: as suas gavinhas permitem-lhe prender-se a suportes enquanto os lançamentos procuram espaço e luz. O agricultor aproveitou essa capacidade natural e transformou-a num sistema de produção racional: ganhava superfície útil para outras culturasA videira crescia até grande altura — muitas vezes entre os 3 e os 6 metros (ou mais) — e a folhagem e os cachos de uva ficavam pendurados nos ramos das árvores, daí a designação "enforcado".

Origem, ao que parece romana, da "vinha de enforcado":


(i) numa região de minifúndio (propriedades agrícolas pequenas e muito divididas, e muitas em terrenos em socaldo, roubados à floresta de castanheiro e de caravalho) e de economia de subsistência, a "vinha de enforcado" permitia rentabilizar a terra ao máximo: o solo por baixo das árvores ficava livre para as culturas de regadio do ciclo de verão (milho, feijão, hortaliças, cebolas, pasto para o gado, etc.;

(ii) o elevar as uvas bem acima do solo, protegiam-se os cachos da humidade excessiva do chão e de doenças fúngicas (como o míldio), além de permitir uma melhor exposição solar no topo das copas;

(iii) trata-se de uma técnica milenar de origem romana (arbustum), muito difundida no Noroeste Peninsular ao longo dos séculos, e nomeadamente a partir da Idade Média;

(iv) em cntrapartida, a colheita nestas vinhas era uma tarefa exigente e perigosa; os vindimadores subiam a altas escadas de madeira afuniladas no topo (as chamadas escadas de moinho ou "escadas de ponta") para colher os cachos pendurados na copa das árvores, transportando as uvas em pesados cestos de verga;

(v) a partir do anos 60/70, com a emigração, a modernização da viticultura, a lenta entrada de maquinaria, a reorganização da Região Demarcada do Vinho Verde, as exigênciasdo mercado, as preocupações com a segurança alimentar e o controlo de qualidade, etc.,  a "vinha de enforcado" foi sendo progressivamente substituída por sistemas de condução modernos, como o cordão simples, o cruzeta ou a ramada/pérgola.

Apesar de ser hoje rara e considerada um património etnográfico e de biodiversidade em risco de extinção, ainda é possível encontrar uveiras em algumas explorações tradicionais do Minho e de Entre-Douro-e-Minho, em concelhos como Lousada, Guimarães e  
Cabeceiras de Basto.



Legenda: "10- Vinha de enforcado Fotografia da vinha de enforcado. Este sistema consiste em guiar a vinha por árvores altas e deixar os terrenos agrícolas para outras culturas. Aqui vê-se homens empoleirados em altas escadas de madeira a tratar da vinha. Duas pessoas seguram numa das escadas e as outras duas limpam o terreno".

Foto (e legenda): Biblioteca Digital do Cávado // Câmara Municipal de Vila Verde (Com a devida vénia).
 

(Pesquisa: LG + Blogue A Nossa Quinta de Candoz + Guia Rural + IA)

(Condensação, revisão/ fixação de texto: LG)

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Notas do editor LG:

(**) Último poste da série > 14 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28345: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (40): A Venda de Medas, aliás, de "Emendadas" (segundo o António Carvalho, autor do romance "3 x 44: Abel e Caim em Contrapé", Porto, ed. Vida Económica, 2026, pp. 33/37)

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28345: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (40): A Venda de Medas, aliás, de "Emendadas" (segundo o António Carvalho, autor do romance "3 x 44: Abel e Caim em Contrapé", Porto, ed. Vida Económica, 2026, pp. 33/37)












Reconstituição da Venda de Medas, Gondomar, 1944

Prompt original e orientação editorial: Luís Graça.

Texto: António Carvalho (2026) 

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Amigos e camaradas, é um pedaço de prosa que vale ouro. É uma autêntica pepita de ouro, esta descrição de duas páginas e meio do nosso escritor António Carvalho, o "Carvalho de Mampatá" (ex-fur mil enf, CART 6250, 1970/72, "3 x 44: Abel e Caim em Contrapé" (Porto: Vida Económica, 2026, 288 pp. )




Capa do livro, publicado pela editora Vida Económica, com apoio da Fundação Hermínia Vilar  Ribeiro. Preço de capa (em papel): 16,20 euros (promoção até final do ano).




A "Venda" (misto de taberna, mercearia, pensão, loja, local de encontro e convívio...) teve o seu papel na economia, geografia e história de Portugal. Havia uma Venda em todas as aldeias. E ao longo dos eixos rodoviários. E às vezes em pontos isolados. Deu inclusive nome a diversas povoações: Venda das Raparigas, Venda da Gaita, Venda do Pinheiro, Venda da Porca, Vendas Novas...  

A "Venda" faz parte das nossas geografias emocionais. Remete para um tempo que nasceram e cresceram os nossos pais... E ainda muitos de nós.  É, sem dúvida,  uma das instituições mais fascinantes do património socioantropológico e da geografia humana de Portugal. Antes do aparecimento das redes de distribuição modernas, dos supermercados e dos postos de abastecimento, a venda era o verdadeiro «nó de rede» do mundo rural e do eixos viários de um país, como o nosso,  acidentado (sobretudo a Norte), entrecortado por rios, com uma economia até à II Guerra Mundial, de base agrícola e em grande parte de autosubsistência. 

A "Venda" era uma espaço multifuncional:  operava como entreposto comercial ponto de apoio para o viajante e sobretudo como espaço de sociabilidade,  sobretudo dos homens. Era à "Venda" em muitas terras, de Norte a Sul do país, que chegavam as notícias (o jornal, a rádio), mas também o correio, os boatos, as anedotas...

Na série "Coisas & loisas do nosso tempo de meninos", merece o devido destaque este excerto do livro do António Carvalho, a quem bem podíamos chamar o "etnógrafo de Medas" ("Emendadas", no romance, e que é a história, verídica, de um "brasileiro de torna-viagem", que em pela II Guerra Mundial, depois de 15 anos de vida numa fazendo de café no Estado de São Paulo, regressa à terra, Medas/Emendadas, e torna-se  um bem-sucedido negociante de madeira, carqueja e carvão de choça;  de nome Abel, é assassinado em 1944, a caminho de Avintes, sendo o móbil do crime não apenas os 20 contos que trazia consigo, mas a inveja, a vingança, enfim, um crime em que está envolvido, Caim, outro nome de ressonância bíblica; em 1942, Abel está viúvo, a arranja um vizinha, Micas, mulher de mineiro, como ama de leite dos seus  dois filhos pequenos)... 

Nesta reconstitituição da "Venda da igreja" (e que o autor nos autoriza a reproduzir), o que  nos fascinou, numa primeira leitura, foi   ela aparecer como uma verdadeira instituição social da aldeia.

 Faremos depois uma analíse mais detalhada, na série "Nomadizações de um marginal-secante", deste excerto o livro que andamos agora a reler, em Candoz, em plena época das vindimas. Em homenagem ao autor, nosso querido amigo e e camarada António Carvalho, elaborámos , com a ajuda da IA, a ilustração acima publicada.

Uma nota explicativa rápida: em 1944, ainda não tinha chegado a iluminação pública a Medas. Mas havia a gente a trabalhar, como toupeiras, nas minas do Pejão, cuho início de exploraçáo remomnta a 1884 (do outro do rio Douro: a distância de Medas era de c. 4 quilómetros, que os mineiros da aldeia faziam em geral a pé; quando recebiam o salário, vinham no tejadilho da camioneta, e gastavam mais alguns tostões na "Venda"; era dura e perigosa a vida destes homens, alguns terão morrido de acidentes e de silicose).

A Venda de Medas, aliás, de "Emendadas"

por António Carvalho 

(...) Micas não gostava nada que o seu homem, antes de chegar da mina do Pejão, se deixasse ficar na venda da igreja, a dar à língua e a beberricar por copo ou caneca, como se não tivesse pressa de entrar em casa. 

Não é que ele lhe batesse ou resmungasse sequer, quando chegava meio avermelhado, mas gastava sempre algum tempo e alguns tostões que lhes fariam falta para outras precisões.

Por esses anos austeros, as vendas eram os estabelecimentos onde os que não tinham terra se obrigavam a mercar quase tudo e os que a tinham compravam apenas o que ela lhes não dava. 

Mas eram também locais de encontro, por onde passavam, no fim da jornada, mineiros e gente de outros ofícios, juntando-se, em inférteis tagarelices, a velhos gastos e tossegosos, antes da última etapa que os levava a casa, a direito ou aos esses. 

Distinguiam-se os mineiros dos outros fregueses da venda cuja porta ficava a meia dúzia de metros das cancelinhas da igreja, pela roupa enegrecida de farruscas, que envergavam dentro e fora da mina. 

Alguns não cuidavam sequer de lavar a cara, depois da jornada de trabalho, como se se sentissem orgulhosos das marcas do seu penoso e insalubre labor, debaixo do chão, sempre sujeitos a perder a vida numa imprevisível derrocada ou explosão de grisu. 

Algumas vezes, quando a hora de saída do turno lhes permitia alcançar a carreira que partia de Rio Bom e passava por Emendadas, lá vinham eles empoleirados, como passageiros de segunda categoria, na cobertura da ronceira camionete pintada de azul e amarelo, bem agarrados ao gradeamento que bordejava todo o tejadilho, de pernas penduradas sobre as vidraças das janelas. 

Assim empoeirados de carvão, não lhes era permitido sujar os assentos lustrosos do autocarro, pelo que se sujeitavam a viajar naquelas condições desconfortáveis e pouco seguras, não obstante pagarem, por inteiro, o bilhete. 

Quando chegavam à paragem da tal venda de Emendadas, desciam aqueles dez ou mais enfarruscados, pela
mesma escada por onde tinham subido, apensa à traseira da camionete. 

Alguns deles apressavam-se a caminho de casa, onde os esperavam tarefas que a força das mulheres não tinha sido capaz de realizar, ou que fosse mesmo,como então se dizia, trabalho de homem. Mas outros faziam da venda uma paragem intermédia, de retempero de energia e animação da alma, antes de se encaminharem para os sítios onde moravam. 

Nesse estabelecimento, onde se vendia de tudo, havia um balcão separando o espaço dos fregueses da área onde se arrumavam, em prateleiras, gavetas e gavetões, os diferentes produtos alimentícios, tecidos, ferramentas e outras coisas precisas. 

Neste espaço do interior do balcão, de uso reservado ao vendeiro, havia ainda uma pipa de vinho verde tinto, por vezes emparelhada com outra de verde branco, de onde ele enchia, com indisfarçada satisfação, por uma chiante torneira de madeira, canecas de vinho, ao ritmo da sede e do vício dos clientes. 

Pendentes sob o teto, um perfeito expositor, havia, pendurados em pregos, toda a sorte de ferramentas, vasilhas de alumínio ou de folha zincada e todos os
apetrechos de utilidade doméstica
, alguns já enferrujados pelo tempo. 

Era sobre esse balcão, onde a pequenada se pendurava furtivamente para ver o que estava para além dele, que o vendeiro, avezado aos gostos e aos bolsos dos
fregueses, dispunha, sobre uma folha de papel mata borrão, um pedaço de broa, uma talhada de toucinho salgado, um punhado de azeitonas, um chouriço que os clientes cortavam com um canivete que traziam no bolso, ou até um cibo de bacalhau seco. 

Essas lambarices vinham sempre acompanhadas de uma caneca de verde onde todos pousavam os beiços, não se podendo assim contar a quantidade que cada um bebia. Era por isso que, algumas vezes, chegavam a casa, cambaleantes. 

Havia sempre três ou quatro homens que se constituíam clientes mais assíduos e ficavam por lá horas seguidas, em poiso certo, numa lambança pegada, fazendo daquele sítio movimentado o centro de dia dos tempos atuais. Eram quase sempre idosos de pouco poderem fazer, padecentes de silicose ou de qualquer outro mal sem cura, que ali se acoitavam. 

Afeitos àquele recanto de convívio, sentavam-se sobre o tampo de uma grande caixa de milho, defronte do balcão que fazia de mesa, levantando-se intermitentemente, cada um, para mais um gole de verde tinto da caneca de cerâmica, até a escorripichar consolado deixando-a repousar sobre a boca, de fundo para o ar. 

Noutras ocasiões, em perfeita comunhão, beberricavam, um a um, por um enorme copo de vidro de meia canada, no qual misturavam vinho, gasosa e açúcar, num gesto que se repetiria em sucessivas rodadas entremeadas por palavrório emaranhado que se ouvia cada vez mais longe. As mãos serviam de guardanapo que passavam pela boca e logo limpavam nas calças de cor já pouco decifrável.

As mulheres também ali entravam, mas pelo tempo estrito de se proverem da despesa para uma semana, que havia de caber numa pequena giga tecida de tiras de madeira de salgueiro que mãos habilidosas de um gigueiro do lugar teciam. 

Cabisbaixas, encostavam-se ao balcão, mas no extremo oposto ao dos homens, fazendo de conta não os ouvirem, pedindo artigo por artigo, baixinho, como se quisessem evitar que se soubesse o que levavam, mesmo que quase todas comprassem o mesmo. 

A vendeira, enquanto o marido aturava mais os homens, ia enchendo, em cartuchos de papel mata-borrão, um quilo de açúcar, um quarto de café de mistura, um quarto de azeitonas e dois ou três quilos de arroz… acomodados numa saca feita de diferentes pedaços de tecido que as mulheres emendavam pacientemente nas suas horas de sesta. 

Havia ainda que encher uma garrafa de azeite para alegrar as batatas cozidas com couves galegas e bacalhau, e outra de petróleo para as candeias, que a freguesa trazia vazias, de casa. 

Não podia faltar, naquele artístico cesto de duas asas, um bacalhau, um quilo de carboneto para o gasómetro e uma barra de sabão para lavar a roupa e ensaboar, sobretudo ao domingo, antes da missa, senão o corpo, pelo menos as partes dele que andassem à mostra. 

Algumas mulheres tinham que levar, também, tabaco e palhetes para o marido, que chegassem para o mês todo. Essas podiam até discordar do vício dispendioso dos seus homes, mas acediam a comprar-lhes os cigarros, porque eles sempre eram homens ou, pior, porque temiam desobedecer-lhes.

Esporadicamente compravam também, na venda onde havia de tudo, um par de socos, dois metros de ganga e uma foucinha de segar erva. 

Só pagavam no fim do mês, quando o marido arrecebia do patrão, confirmando então se os valores parcelares anotados no livro mestre da venda correspondiam aos apontados no seu pequenino livro de capa preta que traziam sempre no bolso de asseado avental escolhido para aquela ocasião. (...)

O pão que [Micas] cozia todas as semanasm era todo do milho que o marido  levantava na cantina damina do Pejãom com as senhas de racionamento a que tinha direito. Sob rava-lhe assim, para vender, a bom preço, o milho que semeava, num campo lenteiro, perto da porta, regado com água da mina. (...) (pp. 33/37)


Fonte: Adapt. de António Carvalho "3 x 44: Abel e Caim em Contrapé" (Porto: Vida Económica, 2026), pp. 33/37. (Com a devida vénia...)

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)
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segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28265: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (16): "o nosso querido mês de agosto" de há 50, 40, 30, 20 anos... no Portugal sacroprofano



O nosso querido mês de Agosto

Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Imagens e texto: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné | Luís Graça (2026)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. O "nosso querido mês de agosto" , em Portugal,  era o tempo das "vacanças" (sobretudo dos luso-franceses). Mas também, "voilá"!,  o mês por excelência das festas e romarias... 

Era (e ainda é?!)...

Há ainda santuários (na sua grande maioria marianos), por toda a parte, no Portugal profundo, "sacroprofano", de Norte a Sul do país, onde se pagavam promessas (sobretudo no tempo da guerra colonial, 1961/74). 

Mas ainda hoje, dizem... (Fátima, à parte, que é sobretudo um fenómeno turísticorreligioso.)

O Portugal do "nosso querido mês de agosto"  era muito interessante,  sociologicamente falando. Pelo menos, mais colorido, mais saboroso, mais "pimba", mais autêntico, quer  dizer, mais nosso, do que é  hoje, vendido a retalho aos multimilionários,  gentrificado, globalizado, igual ao resto da m*rda mundial... 

Para já,  era muito mais do  que a imagem convencional do “mês das férias”, das férias grandes escolares, das praias superlotadas,  do Algarve dos políticos e dos  famosos, das invasões turísticas, e depois também dos desvastadores incêndios à medida que o  interior do  país se despovoava e o eucalipto impunha a sua ditadura económica e ecológica... em nome da indústria do papel-de-limpar-o-cu!

O mês de agosto era, por excelência, a afirmação e a consagração do "Portugal sacroprofano". 

As  romaria portuguesas não eram apenas religião, pura e dura.  Era uma espécie de contrato anual entre a comunidade, o santo ou a santa que a protegia, os vivos do lado de cá e os mortos do lado de lá, Deus e os seus embaixadores na terra, os santos, as santinhas.

Havia fatiotas novas, missa, procissão, andores, anjinhos,  velas, ex-votos e promessas. Muitas notas, sobretudo de escudos e francos (antes do euro, ainda no tempo do escudo) e depois euros,  pregadas com molas ou alfinetes ao manto da santa.

Havia também vinho (muito, e o verdasco  bebia-se em canecas de litro, de porcelana). 

Havia bifanas, farturas,  pão com chouriço, sardinhas assadas, coiratos, frango no espeto,  algodão doce, tremoços e pevides (no Oeste),  concertinas, bailaricos, foguetes, namoros, juras eternas de amor,  reencontros familiares, emigrantes regressados, negócios, noivados, casamentos, beijos roubados.   comércio ambulante, carroséis e carrinhos de choque... E também porrada, de varapau, de criar bicho (como antigamente...). 

Havia, claro, a indispensável fotografia de família (antigamente, quando ninguém ainda tinha máquina fotográfica, muito menos telemóvel). No tempo do fotógrafo ambulante, em que as festas e romarias eram o seu "São Miguel" (isto é, a época em que faturava).

A meteorologia e a agricultura davam uma ajudinha, à festa, à romaria, à santa, ao santo...  As vindimas eram só em setembro, os cereais já estavam colhidos... O corpinho podia folgar. O "emigras" regressavam, a família dispersa reencontrava-se, a aldeia voltava a ter gente (sobretudo nova), antes de desaparecer no futuro próximo que já é presente.

A festa religiosa funcionava, portanto, também como uma espécie de assembleia geral, anual, da aldeia. O Portugal rural disperso recompunha-se por alguns dias, no nosso querido mês de agosto.

E pagavam-se promessas, camaradas!... Algumas antigas, camaradas!... Agora que a família tem carro, em segunda mão, comprado às prestações...

Se há coisa nossa, bem portuguesa, era  a promessa!... A "cunha" metida aos santos e às santas. Que a gente tinha pejo ou vergonha em ir diretamente a Deus, sem intermediários, desbarretados... (Mas, atenção, "quando Deus não quer, os santos não rogam", ou seja, não adianta meter cunhas ao céu...)

Durante a guerra colonial, a promessa ganhou uma dimensão extraordinária. Um mancebo ia às sortes, ficava apurado, "graças a Deus" (sinal de que não era nenhum aleijadinho),  para todo o serviço militar (mesmo que tivesse os pés chatos e fosse lingruinhas, meia-f*da, meia-leca!...), era chamado pela Pátria, para defender o Ultramar, embarcava para Angola, Guiné ou Moçambique... 

E  logo o mulherio (a mãe, a mulher, a namorada, a noiva, as irmãs, até as madrinhas de guerra!.) que ficavam a rezar por ele,  faziam uma promessa: 

"Se o mê Zé vier inteirinho, são e salvo, hei de ir à Senhora...do Castelinho, dos Remédios, da Agonia, do Sameiro, da Nazaré, da Graça, do Cabo Espichel, da Lapa, do Almortão..."

E depois havia que pagar a dívida. Podia ser ir descalço, de joelhos, carregar uma vela, oferecer dinheiro, levar um ex-voto (um braço ou uma perna em cera), mandar celebrar missas, etc.. 

A promessa estabelecia uma relação quase pessoal e de cumplicidade com a santa:  “Eu peço-te isto, senhora; se me concederes a graça, eu faço-te aquilo.” Era senhora e não "priga" (rapariga), que entre o céu e a terra vai alguma distância e o respeitinho é(era, antigamente) muito bonito.

Era uma religião pouco ou nada sofisticada  profundamente popular, corporal e contratual, interesseira,  descarada, franca, comercial,  baseada na contabilidade simples, de merceeiro, do "deve-e-haver" e da lista dos fiados.

E isso ajuda-nos a compreender melhor a mentalidade dos "tugas" de 1961-74 que alombaram com a guerra de África.  A guerra não se travava longe de casa, a 4 mil, 8 mil, 12 mil quilómetros de distância.  

Qual quê?!... A guerra entrava na capela da aldeia, no adro da igreja, na escola, na casa de família, na casa dos vizinhos, na taberna, na vinha, no campo, nos montes,   no terço, na promessa, na lareira, no altar de Nossa Senhora de Fátima, erguido lá em casa, alumiado dia e noite por uma lata de azeite!

O soldado estava em África; a guerra estava também em Portugal ( que era a metrópole). E a Nossa Senhora,  mais do que Deus,  estava em toda a parte, de Gadamael a Buruntuma, de Madina do Boé a Varela, do Minho a Timor...

2. O culto mariano tem raízes muito profundas em Portugal, e são inúmeros os santuários e festas dedicados a Nossa Senhora.  Por isso há que distinguir Fátima e  os demais santuários do Portugal "sacroprofano".

Fátima é uma coisa... do "outro mundo", uma coisa de outra escala: fenómeno nacional e internacional, peregrinação organizada, turismo religioso, "máquina caça-níqueis", infraestrutura, hotelaria, comércio, negócio, comunicação social, calendário e liturgia próprias...

Fátima é  uma “indústria da fé”,  sem ofensa para os crentes, e sem que isso implique negar a fé genuína de quem lá vai.

A santa  da aldeia é outra coisa, a outra escala, liliputiana. É a santinha da terrinha. 

Aquela imagem concreta que está no alto do monte , ou no cima da falésia, á  entrada do porto de abrigo, ou na capelinha; que pertence à memória da freguesia; que guia os pescadores como um farol; que viu partir os rapazes para a guerra; que recebeu as promessas das mães; que todos os anos desce ou sai em procissão (por terra ou por mar); que conhece, por assim dizer, a biografia sentimental da comunidade... Essa é que é a santa de verdade.

É aqui que o sacro e o profano se juntam, misturam, fundem...  

A primeira vez que fui à Senhora do Castelinho, em 1975, no Marco de Canaveses, é que tive esse vivência (e evidência)  das festas e romarias nortenhas (coisa que não havia verdadeiramente nas terras estremenhas, ou pelo menos, na minha vilória da Lourinhã).   

O mesmo homem que eu cumprimentei e que o meu futuro sogro me apresentou, "ramadeiro", e que fazia parte da sua equipa de construção de "ramadas",  podia: 

  • companhar a procissão de vela na mão;
  •  ajoelhar-se diante do andor; 
  • cumprir uma promessa; 
  • emborcar três canecas de verdasco  depois da missa; 
  • dançar até às três da manhã; 
  • discutir futebol (ou até política, já se discutia política acaloradamente em 1975, no verão quente de 1975, e que "a Senhora do Castelinho" nos livrasse dos homens com barba e gadelha comprida); 
  • catrapiscar uma solteira ou mandar um piropo a uma casada; 
  • comprar uma fartura; 
  • e no dia seguinte, depois de dar uma "trancada na velhota",   
  • estar fresco para pegar no trabalho, no suplício de Sísifo de todos os dias...

Não havia necessariamente contradição. Era assim que funcionava a cultura popular. O sagrado não estava num compartimento estanque. Ruy  Belo, que não era antropologo  mas poeta compreendeu isso melhor do que nongyem ...

A cultura popular misturava-se com o quotidiano. O ano era regido pelos solstícios do inverno e do verão. A vida era simples, a preto e branco. 

De resto, havia romarias em que elementos aparentemente profanos eram  tão antigos e estruturantes como os religiosos. 
 
3. E eu aí é que percebi que o Portugal tradicional era muito mais do que um simples país estatisticamente  de “católicos apostólicos romanos", praticantes. 

Qual quê!.. Era anticlerical, se fosse preciso andava á porrada com o padre da freguesia, para logo a seguir fazer o compasso no Páscoa e angariar umas coroas valentes spara o sustenho do passal, da casa e da horta do padre... 

Era tudo muito mais complexo (e fascinante) do que eu imaginacva ou tinha apreendido ingenuamente nos livros. 

Havia fé, superstição, ritual, tradição familiar, medo, Deus e o Diabo, esperança, sociabilidade, festa,  foguetes, bombos, cabeçudos  .., tudo misturado como num "cocktail". 

E os "emigrantes" (externos e internos)  trouxeram outros ingredientes (da França, da Alemanha, do Luxemburgo, da Suiça..., mas também,  do Porto e de Lisboa, sem esquecer a tropa que regressava do ultramar...). 

Mas, antes destes todos, tinha havido os brasileiros de torna-viagem.
 
Agosto era, nos anos 70, 80, 90, o  mês do regresso à terra. 

O emigrante chegava de Renault, Peugeot ou Mercedes; trazia presentes, bebidas, charutos, cigarrilhas, chocolates, dinheiro e novas maneiras de vestir, de viver, de falar, de consumir, de comprar e ate  de pensar.. E encontrava a aldeia engalanada para a festa do padroeiro ou padroeira 

Havia ali uma pequena ironia histórica,  deliciosa: o emigrante que partira pobre, pobretana ou até  miserável (cabaneiro, rendeiro, camponês sem terras, jornaleiro, ganhão, pescador, operário, marçano, sapateiro, moleiro, alfaiate, ferrador, trolha da construção civil, criada de servir, doméstica, etc.)  voltava à aldeia precisamente para participar na festa que os seus pais e avós celebravam quando ele ainda era pobre, pobretana ou até miserável.

E muitas vezes era  ele quem agora pagava a banda, o foguetório, o andor, a ornamentação ou a comissão de festas, o padre de fora que vinha fazer o sermao... Ou seja: a emigração, que despovoara o interior, também financiava uns anos depois (e mantinha viva) uma parte importante da sua cultura festiva.

O  “querido mês de agosto” português  era então, há 50, 40, 30, 20 ano atrás, dificil de definir: 

mês das férias + mês dos emigrantes + mês das festas e romarias + mês dos reencontros e casamentos + mês das promessas + mês da memória... 

Uma frase talvez pudesse resumir tudo isso:  em agosto, no nosso querido  mês de agosto, Portugal regressava temporariamente às suas aldeias, e as aldeias regressavam temporariamente a si próprias. Isso era mais evidente no Norte e Centro do país. 

Eu ainda apanhei esse Portugal "sacroprofano" (ou sacro-profano, como escrevia o Ruy Belo)... Em terras de Entre-Douro-e-Minho. Casei-me lá em agosto de 1976.

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 15 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28261: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (15): Os nossos provérbios pouco ou nada populares - Parte IV: Ainda o "Amor com amor se paga". E o ódio, camaradas?!

terça-feira, 3 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27788: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (39): A rapariga "Singer Plano Inclinado" com quem a malta gostava de dançar, nos bailes do Greco, em Coimbra (Rui Felício, 1944-2026)


Fonte: Imagens e texto: Página do Facebook do nosso saudoso camarada Rui Felício (1944-2026)  > 5 de dezembro de 2025



Ilustração de Rui Borges (com a devida vénia...), um dos antigos condiscípulos e amigos do Rui Felício, da Turma A do 6.º Ano (1960/ 61), do Liceu D. João III, Coimbra. Também ele seguiu direito e, se não erramos, é magistrado aposentado, vivendo em Lisboa (tem página no Facebook, aqui). Também ele é um antigo combatente, tendo estado em Angola, BCAÇ 1875 (1966/68). Além de poeta e ilustrador de talento (tardio?).


1. Mais um microconto nostálgico do nosso Rui Felício (1944-2026). Uma  pequena obra-prima. Título: "Nos Bailes do Greco"... 

Por uma rápida pesquisa na Net, descobri que o "Greco", em Coimbra, era uma associação ou um grupo de amigos, da geração dos "baby-boomers", que adorava dançar e tinha o culto do Elvis Presley... 

Foi lá que o nosso  Rui Felício terá conhecida a rapariga "Singer Plano Inclinado" com quem a malta gostava de dançar... Dou esse título a esta pequena história.  É uma pequena homenagem ao Rui e à sua/nossa geração que fez a guerra e a paz.


A rapariga "Singer Plano Inclinado" com quem a malta gostava de dançar,
no bailes do Greco

por Rui Felício (1944-2026)

Ela colava o corpo ao par com quem dançava mas o rosto e o pescoço encaixavam no pescoço do parceiro, desviando a cara, quase torcendo o resto do corpo para obviar tal postura.

Havia naquela altura um reclame a uma máquina de costura que inventara uma revolucionária forma de costurar e que consistia em alinhavar o tecido de forma inclinada sem necessidade de o retirar para esse efeito.

Era a famosa Singer Plano Inclinado!

A tal moça com quem a malta gostava de dançar, tomou tal “slogan” como alcunha. E a malta avisava:

− Na próxima música sou eu quem vai dançar com a “Singer Plano Inclinado”, ouviram ?!

Rui Felício


(Revisão / fixação de texto, título: LG)

2. Comentário do editor LG

Quando parte alguém da nossa Tabanca Grande, como o Rui Felício, que carregava memórias tão densas do leste da Guiné, a começar pelo desastre do Cheche de que ele foi um dos sobreviventes (mas em que perdeu mais de 1/3 dos seus homens),  deixa sempre um vazio que só as histórias conseguem, em parte, preencher.

Este "microconto" do Rui Felício não são mais do que meia dúzia de linhas,  é verdade, mas é uma pequena joia de observação social e humor de época. Quando o li, na sua página do Facebook, o que me cativou logo  foi  a capacidade  do Rui em transformar um detalhe (digamos técnico ou comercial,  da sua época da adolescência, a publicidade à máquina de costura Singer) numa metáfora comportamental.

Ele não descreve um passo de dança, reconstitui um atitude. Que delícia este contraste, que ironia (sem ser sarcasmo!), na descrição da rapariga, sem nome, que "colava o corpo" mas "desviava o rosto"... nos bailes do Greco!...  (Noutras terra, como a minha,  seria o baile dos Bombeiros.)

É o esboço do retrato dos tabus da nossa sociedade, ainda muito conservadora, a dos finais dos anos 50 / princípios dos ano 60, em que à proximidade física permitida pela dança, num baile público, se contrapunha  a reserva (o tal "plano inclinado") que ajudava a manter  o conveniente decoro e a distância emocional dos dançarinos.

O texto funciona como uma espécie de  "cápsula do tempo". O uso da alcunha "Singer Plano Inclinado" revela muito sobre o espírito daquela juventude coimbrã, nada e criada na cidade dos lentes, a querer romper as "muralhas" dos usos e costumes impostos pela moral vigente em matérias de relações homem (atrevido) - mulher (recatada).

Por um lado, é de destacar a criatividade da "malta" daquele tempo, a forma como se transformavam marcas e slogans em gíria grupal,  demonstra uma cumplicidade geracional muito forte. 

A "Singer Plano Inclinado" é, pois,  um portento de  humor pícaro: é uma observação brejeira,  malandra, mas ao mesmo tempo respeitosa e nostálgica. O Rui consegue, mais uma vez, ser visual sem ser vulgar, muito menos cruel.

E, por fim, é fascinante pensar que um homem que viveu o trauma da guerra colonial e da perda de um filho, em plena idade adulta (o Nuno Felício tinha 38 anos e trabalhava na Antena 1, em 2013, como jornalista)  tenha conseguido preservar esta leveza para contar histórias do ainda seu tempo de "menino & moço". Para o Rui foi talvez a forma, que ele encontrou,  de celebrar a vida que continuava, apesar de tudo.
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 28 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27780: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (38): O Fígaro, um dos cromos do Liceu D. João III, em Coimbra (Rui Felício, 1944-2026)

domingo, 1 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27783: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (39): O meu gato Gatafunho (José António Paradela, 1937-2023)


Teria feito 88 anos no passado
dia 30 de outubro. Nasceu em
Ílhavo em 1937. Morreu no hospital,
em Aveiro, em 21 de fevereiro
 de 2023. Membro da nossa
Tabanca Grande. Fez a tropa
na marinha de guerra 
e antes, 
aos 17 anos, 
na pesca do
 bacalhau, 
seguindo os passos
dos seus avoengos. Arquiteto, 
urbanista, escritor (pseudónimo
literário: Ábio de Lápara)

À memória de José António Paradela (1937-2023):

Meu querido, os teus escritos 
continuam a surpreender-nos.

Que ternura este poema
sobre o teu gato da infância.

E, com ele, ressuscitas
o pátio onde cresceste, 
e a tua mágica “rua suspensa dos olhos”.

As saudades destes 3 anos pesam, 
mas a (re)descoberta
 das tuas singularidades 
continua a emocionar-nos.

Matilde & família.

Costa Nova, 21 de fevereiro de 2026


EM PEQUENO 

EU TINHA UM GATO (*)


Em pequeno eu tinha um gato,
Fofo gatinho amarelo
A quem fazia carícias,
Passando a mão p’lo pelo.

Fofo gato, Gatafunho
O nome com que viveu,
Adotado à nascença,
Nos anos em que foi meu.

Com ele aprendi o R,
No ronronar satisfeito,
Quando à noitinha dormia,
Deitado sobre o meu peito.

Felis Catus, meu filósofo
Da vida como ela é,
Em se sentindo carente,
Vinha roçar no meu pé.

E quando a fome apertava,
Lá no pátio da ti Cila (**),
Esperava por ela às quatro,
No seu regresso da vila.

Senhora certa da Praça,
Mãe de filhos e de gatos,
No esmalte da sua taça
Carrega peixes baratos.

E o meu gato amarelo,
Pelas quatro horas da tarde
Boceja e lambe o pelo,
Sabe que a Cila não tarda.

Correndo então beco fora,
Entoando o seu miau,
Na taça só via agora
Prenúncios de carapau.

Três carapaus e cabozes
Que sobraram do leilão,
E que eram, tantas vezes,
A primeira refeição.

Assim cresceu o meu gato
No fim dos anos quarenta,
Tinha eu então nove anos
E tinha ele noventa.

Sábio bicho de bigode,
Rei de gatas e de muros,
Que encheu enquanto pôde
Os meus sonhos mais maduros.

Sete vidas e um império,
Sete fôlegos de aventura,
Fugaz sombra de mistério
Que inda hoje perdura.

Na clara mansão da Lua,
Em um janeiro gelado,
Uma gata lá da rua
Mudou de vez o seu fado.

E o meu gatinho amarelo,
Gato que alguém me ofereceu,
Um dia partiu de casa
E nunca mais apareceu.

José Paradela | Costa Nova | Agosto de 2005

Publicado no Ilhavense, jornal centenário, 15 de fevereiro de 2026, pág. 22
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Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 28 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27780: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (38): O Fígaro, um dos cromos do Liceu D. João III, em Coimbra (Rui Felício, 1944-2026)

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27780: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (38): O Fígaro, um dos cromos do Liceu D. João III, em Coimbra (Rui Felício, 1944-2026)


Coimbra > Antigo Liceu Dom João III, hoje Escola Secundária José Falcão. Foto: © CEIS20 / Universidade de Coimbra (2023) (com a devida vénia; reeditada pelo Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, 2026) 


1. A melhor homenagem que podemos fazer a um  amigo e camarada que acaba de partir da Terra da Alegria para a "derradeira viagem",  sem retorno, é lembrar o bem que fez aos outros, as histórias que nos deixou, as memórias partilhadas... Neste caso, falamos do Rui Felício (1944-2026) que, ao  longo da vida, e mesmo longe da sua terra natal, sempre cultivou  um genuíno espírito coimbrão. 

Sabemos pouco da sua vida, só estivemos juntos uma vez, na Ameira, Montemor-O-Novo (em 14/10/2006, por ocasião do I Encontro Nacional da Tabanca Grande, organizado pelo Paulo Raposo e pelo Carlos Marques Santos, também ele coimbrão tal como o Felício e o David). 

Acompanhávamos com irregularidade a sua página do Facebook e editámos uma boa dúzia de "Histórias de Dulombi", a sua série no nosso blogue, onde tem mais de 4 dezenas de referências. 

É também o autor do blogue Escrito e lido: episódios que são sementes de vida , que ele manteve entre 2010 e 2014 (c. de 90 postagens).

Julgamos que teve uma infância feliz no Bairro  Norton de Matos, em Coimbra (*).  Estudou na universidade da sua terra onde fez direito. E julgamos também que foi advogado toda a vida, e nomeadamente, na Ericeira, Mafra.   

Durante o serviço obrigatório, calhou-lhe na rifa a Guiné onde foi oficial miliciano, na CCAÇ 2405 (Galomaro e Dulombi, 1968/70). 

Foi um dos sobreviventes do desastre de Cheche em 6/2/1969. Aprendeu a sorrir com meia-cara, como muitos de nós, tendo passado mais de 1/3 da sua vida sob o regime do Estado Novo.

A história, pícara,  que, em sua homenagem,  aqui reproduzimos, diz-nos muito sobre o que eram os professores e os liceus daquela época.  Havia os "cromos", como o Fígaro, que hoje são objeto do nosso ridículo,  mas também havia outros professores que nos marcaram para a vida, alguns grandes figuras como portugueses, cidadãos,  pedagogos, escritores... Seria injusto referir uns e omitir outros...

O Rui Felício fazia parte da Associação dos Antigos Alunos, Professores e Funcionários do Liceu D. João III / Escola Secundária José Falcão, que tem uma página de grupo no Facebook, com mais de 880 membros, e é administrada pelo Mário Araújo Torres (antigo juiz do Tribunal Constitucional) (fez o serviço militar em Angola, 1972/74).  

Pela foto de grupo que publicamos a seguir, vemos que andaram juntos no liceu, o Rui Felício (1944-2026) e o Victor David (1944-2024), ambos alf mil at inf, CCVAÇ 2405 (1968/7'0) e nossos grão-tabanqueiros.


Coimbra > Liceu D. João III > Turma A do 6.º Ano (1960/ 61). Legenda:

1 - Albino Esteves | 2 - Júlio Maia | 3 - Tomás Porto 4 - Gil Ferreira | 5 - Rui Martins Borges | 6 - Costa Gírio | 7 - Paulo Xavier | 8 - Sá Cunha | 9 - Pinto Fortes | 10 - Rui Felício  |11 - António Cardoso Bernardino | 12 - Vasconcelos Coelho | 13 - Duarte Santos | 14 - Acácio Resende | 15 - Deniz Duarte | 16 - António Horta Pinto | 17 - Castel-Branco Sacramento | 18 - Manolo Mattos-Chaves | 19 - Cruz Almeida | 20 - Cruz Gonçalves | 21 - Veloso e Brito | 22 - Alexandre Gaspar | 23 - Vítor David | 24 - Mário Torres.




Cromos do Liceu D. João III: o Fígaro
 

O circunspecto Fígaro era um férreo disciplinador. Nas suas aulas de Ciências Naturais, tornava-se impensável um sorriso, uma distracção, um movimento mais brusco ou irrequieto.

Ao mínimo sinal de indisciplina, o Fígaro anotava no seu caderninho o nome do aluno prevaricador e era certo e sabido que na atribuição da nota final isso ia ser tido em conta.

Naquele dia, um dos alunos tinha faltado para ir ao funeral de um seu tio e o Fígaro aproveitou a circunstância para dar uma lição sobre a morte dos seres vivos e ensinar aos alunos o que é um defunto, o que é um cadáver.

Calvo, as bochechas arrocheadas, a barriga proeminente, empacotado no velho e coçado fato de tecido da Covilhã, caminhava lentamente no estrado de um lado para o outro, como que a preparar mentalmente a lição.

De pé, fixa os pequenos olhos na turma e começa:

"Quando um orgão do corpo humano deixa de funcionar, diz-se que esse órgão morre.

O corpo humano é formado por um conjunto de órgãos e quando eles cessam o seu funcionamento, a vida acaba e sobrevém a morte.

Com a morte o corpo transforma-se em cadáver e começa a decompor-se. O homem transforma-se assim em defunto.

E,  com a decomposição do corpo, geram-se infecções que podem contaminar aqueles que ainda estão vivos.

Por isso, enquanto não se fizer o enterro do cadáver, deve arejar-se o local onde se encontra e deixar as janelas abertas, para prevenir a propagação de infeções."

O Fígaro reparou que, estranhamente, sobre um tema tão mórbido, os alunos não conseguiam conter o riso e só não desatavam às gargalhadas certamente pelo medo do castigo que sofreriam pela indisciplina.

− Então, meninos? Porque se estão a rir?

E, de dedo em riste para o Teixeira da Silva, da fila da frente, vociferou:

− Explica lá tu o que se passa!

O Teixeira da Silva, chefe de turma, engasgou-se e tartamudeou:

 
− Eu penso que será por o Sr. Dr. estar a arejar algum órgão defunto, porque tem a braguilha aberta...

Rui Felicio (**)

(Revisão / fixação de texto: LG)
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Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 8 de fevereiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26473: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (34): O amola-tesouras (Rui Felício, nado e criado no Bairro Norton de Matos, em Coimbra)