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quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28350: Verso & reverso (5): (i) PIB do território na época da guerra colonial; (ii) "armazéns do povo"; (iii) peso da economia informal; (iv) realidade e propaganda



Fonte: PAIGC - História da Guiné e Ilhas de Cabo Verde. Porto: Edições Afrontamento. 1974

O PAIGC promovou a criação dos Armazéns do Povo por decisão tomada no 1º Congresso de 1964. O objectivo  era garantir o fornecimento de artigos de primeira necessidade à população sob o seu controlo ("áreas libertadas"), por meio de troca, receber produtos agrícolas que deveriam em seguida escoar-se para o exterior, criando-se e desenvolvendo-se assim, progressivamente, a base de um comércio externo. O número de Depósitos dos Armazéns do Povo terá passado  de 6, em 1964, para 16, em 1969.








O elogio dos "Armazéns do Povo"... Fonte: Excerto do relatório da Missão Especial da ONU na Guiné, Abril de 1972, pág. 8 (*)



1. Perguntámos à IA (ChatGP / Open AI) : (i) qual era o PIB (Produto Interno Bruto) da Guiné (hoje Bissau), no tempo da guerra colonial e da luta pela independência; e (ii) qual o peso da economia informal ?


Transmitimos a nossa impressão de que nas "áreas libertadas" do PAIGG havia os "Armazéns do Povo", mas era um mito, mais propaganda do que realidade económica...

No nosso tempo, e no decurso de operações militares, as NT podiam destruir algumas dezenas de toneladas de arroz, além de gado bovino e criação doméstica (estimativas, nalguns casos exageradas, mas que ficavama bem nos relatórios militares, como durante a Op Lança Afiada, Sector Leste, L1, 8-19 de março de 1969).

A verdade é que os famosos "Armazéns do Povo" colapsaram no tempo da economia planificada imposta pelo regime de Luís Cabral... Podiam ter funcionado pontualmente fora das fronteiras, no Senegal e na Guiné-Conacri, nas "bases recuadas" do PAIGC (com o Boké, Kandiafara, Conacri...) mas dificilmente nas "áreas libertadas" (cuja superfície, de resto, nunca foi sequer estimada, a não ser grosseiramente, e para efeitos de propaganda).

Na realidade, o PAIGC desde cedo, e ainda com o Amílcar Cabral vivo, reivindicou o controlo político-militar de 2/3 do território...Criou-se até o mito de que a Guiné, no fim do mandato do gen Arnaldo Schulz, estaria à beira do colapso militar...

O exército português, pelo menos no tempo do gen Spínola, como governador e comandante-chefe (maio de 1968 - agosto de 1973) entrava em todo o lado, incluindo o Cantanhez, na zona sul, e o Óio, na zona oeste, e em todo o lado na zona leste.

2. Não deixa de ser muito interessante, a resposta de várias ferramentas de IA que consultámos e pusemos em confronto, e de que reproduzimos o essencial neste poste e eventualmente noutros, da série "Verso & reverso" (**). Comecemos pelo ChatGPT.

"Camarada, aqui entramos num terreno muito escorregadio, porque a então Guiné Portuguesa praticamente não tinha estatísticas económicas fiáveis durante a guerra (1963-1974), e muito menos contas nacionais completas comparáveis às de hoje"

O conceito moderno de PIB (Produto Interno Bruto) era ainda rudimentar na colónia, e a esmagadora maioria da atividade económica escapava à contabilidade oficial. Recorde-se que o PIB é a medida monetária do valor de mercado total de todos os bens finais e serviços produzidos e prestados durante um período específico (normalmente um ano) por um país ou região; os principais componentes do PIB são: o consumo, os gastos do governo, as exportações líquidas (exportações menos importações) e o investimento; a alteração de qualquer um desses fatores pode aumentar o tamanho da economia.

Façamos então uma aproximação à realidade histórica.

(i) O que era a economia da Guiné nos anos da guerra ?

Assentava em cinco pilares:
  • agricultura de subsistência (arroz, milho, mandioca, coconte, óleo de palma);
  • exportações primárias: amendoim ("mancarra"), coconote (semente donde se extrai o óleo de palma ou dendê), algum pescado;
  • comércio africano informal (“djilas”, “bideiras”);
  • despesa militar portuguesa;
  • administração colonial.
A guerra acabou por distorcer tudo. A partir de meados dos anos 60, o principal “motor económico” passou a ser, paradoxalmente, a presença militar portuguesa: salários, construção de quartéis e outras infraestruturas, reordenamentos, transportes, abastecimentos, importações, contratos locais, serviços (lavadeiras, caçadores, guias, picadores, etc.). A Guiné deixou de ser autossuficiente em arroz, e passou a importar arroz, por exemplo. Muitas populações estavam dependentes do fornecimento de arroz pela tropa e pela administração do território.

(ii) Um PIB modestíssimo: entre 2,5 a 4 milhões de contos

As estimativas variam muito conforme as fontes (portuguesas, francesas, Banco Mundial retrospetivo e estudos da ONU posteriores à independência).

Em valores correntes da época, o PIB anual da Guiné Portuguesa no final dos anos 60/início dos 70 terá andado grosso modo entre 80 a 150 milhões de dólares da época (ou cerca de 2,5 a 4 mil milhões de escudos portugueses antigos, ou seja 2,5 a 4 milhões de contos). (Durante o sistema de Bretton Woods, ou seja, até 1971/1973, a taxa de câmbio oficial do escudo português manteve-se fixa em aproximadamente 28,75 escudos por 1 dólar USA).

O PIB "per capita" da Guiné Portuguesa na viragem da década de 1960 para 1970 (e ent~´ao com uma população estimada enter 530 e 580 mil habitantes, 
excluindo parte substancial do contingente militar metropolitano ali fixado), situava-se entre os 150 e os 300 dólares por ano (aproximadamente 4,3 a 8,6 contos), dependendo do ano específico e das estimativas populacionais utilizadas"

Per capita", era uma das economias mais pobres do império português, seguramente abaixo de Angola , Moçambique, Cabo Verde, São Tomé. Só Timor talvez estivesse em situação semelhante.

(iii) Comparação do PIB "per capita" no  contexto do Império e da Região (c. 1970)

  • Portugal Metropolitano: ~930 USD per capita (~26,7 contos).

  • Angola e Moçambique: Angola situava-se claramente acima (impulsionada pelo petróleo, café e diamantes, ultrapassando os 300–400 USD per capita), enquanto Moçambique oscilava numa gama intermédia superior devido aos serviços portuários e agricultura de rendimento.

  • Cabo Verde e São Tomé: apresentavam rendimentos médios superiores aos da Guiné, fruto de maiores taxas de urbanização e economias de plantation/serviços.

  • Timor Português: era o único território imperial que rivalizava diretamente com a Guiné nos patamares mais baixos de rendimento per capita (frequentemente abaixo dos 100–150 USD).

 Na Guiné Portuguesa do final dos anos 60, este valor médio dissimulava duas realidades profundamente distintas:

  • economia monetarizada / urbana (Bissau, Bafatá, Bolama): concentrada no comércio colonial, na administração pública e no forte consumo gerado pela presença das Forças Armadas Portuguesas, que sustentava artificialmente o setor de serviços e importações.

  • economia de subsistência rural: a grande maioria da população autóctone vivia da agricultura de subsistência (arroz, mancarra/amendoim), cujos circuitos escapavam em larga escala à contabilidade nacional oficial; adicionalmente, o estado de guerra a partir de 1963 desarticulou a produção agrícola tradicional em vastas zonas do interior, acentuando a dependência de subsídios e transferências da Metrópole.


Depois da independência (1974/75), a economia formal praticamente entrou em colapso parcial por múltiplas razões: "cofres do Estado vazios"; saída de quadros portugueses e inexistência ou insuficiência de quadros técnicos locais (apesar do esforço de formação de cabo-verdianos e guineenses que foram para a URSS, China, Cuba, Suécia);  rutura logística; queda brutal do comércio externo; nacionalizações (a começar pelo pequeno comércio, substituído pelos Armazéns do Povo); hostilização dos pequenos comerciantes (portugueses, libaneses e cabo-verdiano), dos poucos que ficaram; administração central praticamente inexistente; seca e desorganização produtiva. 

A Guiné-Bissau passou a viver da "caridade internacional" (doações)... Meio século depois o PIB da Guiné-Bissau será da ordem dos  2,5 mil milhões de dólares, o que dá um o PIB "per capita" nominal de cerca de 800 a 1.000 dólares por ano (dados do Banco Mundial e FMI).

Em termos estritamente nominais, o valor atual é cerca de 3 a 5 vezes superior. No entanto, esta comparação direta é enganadora devido ao efeito da inflação do dólar ao longo de mais de meio século (100 dólares de 1970 equivalem a mais de 800 dólares atuais).

(iii) O peso da economia informal e de subsistência

A economia “real” era sobretudo informal, rural e não monetarizada. Os estudos retrospetivos sugerem que:

  • mais de 70% da população vivia quase totalmente da agricultura familiar;
  • grande parte das trocas fazia-se fora do mercado formal;
  • o autoconsumo tinha peso enorme;
  • o comércio fronteiriço “paralelo” com Senegal e Guiné-Conacri era decisivo.

Se usássemos critérios atuais, talvez apenas 20% a 35% da atividade económica passasse pelo “Estado” ou por circuitos contabilizados. O resto pertenceria à economia informal, tradicional ou clandestina.

Ou seja: o “PIB oficial” provavelmente captava menos de metade da riqueza realmente produzida e consumida.

(iv) As “áreas libertadas” e os "armazéns do povo":  realidade e propaganda

Sobre isto, a tua leitura aproxima-se bastante da de muitos historiadores atuais. O PAIGC construiu uma narrativa político-militar muito eficaz: escolas; hospitais; tribunais populares; produção agrícola organizada; "armazéns lojas do povo”; administração paralela; construção do "homem novo"...

Parte disso existiu mesmo. Não foi pura invenção. Mas a escala foi frequentemente exagerada... A estabilidade territorial era muito variável, muitas “zonas libertadas” eram permeáveis. Enfim, o controlo militar português continuava intermitente em vastas áreas.

Tens razão ao lembrar que as tropas portuguesas penetravam regularmente em zonas consideradas “libertadas”: Cantanhez, Óio, Sara, Morés, Choquemone, Cubucaré, Fiofioli, etc., nunca foram espaços estanques. O domínio do PAIGC era mais político e noturno do que administrativo e diurno, permanente, em muitos sítios.

A própria expressão “áreas libertadas” era também um instrumento diplomático, que servia para convencer a ONU e a OUA, legitimar reconhecimento internacional, justificar a generosa ajuda soviética, chinesa e escandinava (e nomeadamente sueca).

 Os “Armazéns do Povo” existiram, mas tiveram, muito provavelmente, mais importância política, ideológica e simbólica do que peso económico estrutural.

Funcionavam sobretudo como pontos de redistribuição; ontrolo político; abastecimento de guerrilheiros e populações sob o seu controlo; tentativa de demonstração de “Estado em construção”.

O problema era estrutural: não havia estradas; o PAIGC só tinham viaturas de transporte, de origem soviética, na Guiné-Conacri e no Senegal; economia não monetirazada; escassez de produção excedentária; dependência externa; guerra constante.

Como tu sugeres, o sistema podia funcionar nas bases recuadas do Senegal e da Guiné-Conacri e junto dos corredores logísticos externos... mas dificilmente no "mato", no interior da Guiné onde o PAIGC não tinha (nem nunca teve) estruturas físicas edificadas (quartéis, armazéns, escolas, hospitais, etc.)

Depois da independência, o modelo de economia centralizada de Luís Cabral colapsou rapidamente por falta de quadros, incompetêncai, incapacidade administrativa, corrupção, nepotismo, contrabando, mercados paralelos, desincentivo à produção, fufa dos campos para Bissau...

Os “Armazéns do Povo” estavam, muitas vezes, de prateleiras vazias... A organização e o funcionamento eram burocráticos, enfim, foram rapidamente ultrapassados pela comércio informal. Até por que a população precisava de comer e sobreviver.

E a ironia ha História: a economia informal que o PAIGC pretendia disciplinar acabou por sobreviver ao próprio modelo estatal revolucionário.

(v) O que sobreviveu realmente ?

Em termos reais (volume de bens e serviços por habitante), o PIB "per capita" atual da Guiné-Bissau é praticamente equivalente ou até inferior ao do período colonial tardio. Ou seja, cinquenta anos depois da "libertação do colonialismo", o nível médio de vida da população (e sobretudo rural) não melhorou.

Vários fatores explicam este estagnação e perda de rendimento real ao longo de cinco décadas:
  • explosão demográfica: a população cresceu de cerca de 550 mil habitantes em 1970 para mais de 2,1 milhões atualmente; o crescimento do produto nacional bruto não conseguiu acompanhar proporcionalmente o ritmo de crescimento populacional;
  • impacto da guerra e instabilidade: a destruição das infraestruturas agrícolas durante a guerra colonial (1961–1974), seguida por sucessivos golpes de Estado, pela guerra civil de 1998/1999 e pela instabilidade política crónica, paralisaram o investimento produtivo a longo prazo;
  • fim do "Efeito de Enclave Militar": no final dos anos 60, o PIB colonial estava fortemente "inchado" de forma artificial pelo enorme consumo e despesa do contingente militar português e da máquina administrativa metropolitana, criando um setor de serviços urbano que colapsou após a independência;
  • monocultura do caju: a economia desindustrializou-se e perdeu diversidade agrária (como a produção de arroz, na qual o país era autossuficiente antes da guerra), tornando-se quase totalmente dependente da exportação da castanha de caju bruta e do setor das pescas.
O que resistiu, antes e depois da independência, foi a importância do "chão", da tabanca, da bolanha, o pequeno comércio africano, as redes familiares e comunitárias, o mercado paralelo, o comércio transfronteiriço, as “bideiras”, os "gilas", etc.

Ou seja: a sociedade guineense profunda mostrou-se, e ainda bem,  muito mais resiliente do que o aparelho colonial português, ou o socialismo de Estado do pós-independência.


Pesquisa: LG + Blogue + IA (ChatGPT / Open AI | Gemini / Google AII)
(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)

3. Recorde-se, aqui, o oportuno e contundente  comentário de Cherno Baldé, nosso colaborador permanente (vive em Bissau), ao poste P23609 (***):


(...) Como em tudo que diz respeito ao PAIGC e a sua "gloriosa luta de libertação", os Armazéns do Povo não passou de mais um mito para Sueco ver.

A rede que, aparentemente, funcionou durante a luta nas chamadas zonas libertadas, eram postos ou depósitos móveis para a distribuição das ajudas dos países Nórdicos, com especial destaque para a Suécia, que contribuía com ajuda humanitária.

Estou em crer que, embora a propaganda do partido fale do povo e da comercialização através da permuta, a realidade dos factos diz-nos que os principais destinatários seriam os guerrilheiros das barracas do interior que, como se sabe, tinham muitas dificuldades de abastecimento.

Caso os famosos Armazéns tivessem funcionado bem no mato em plena guerra, era suposto o sucesso ser maior nas condições do pós-guerra, mas na verdade, os vícios do consumo gratuito e da gestão danosa e irresponsável não permitiram o florescimento desta rede de comércio nacional que estava destinada para substituir o comércio das lojas das casas Gouveia e Ultramarina em toda a extensão do território.

Quando ocorreu o golpe de 14 de Novembro de 1980, embora os Suecos ainda continuassem a fornecer auxilio "humanitário" já com algumas contrapartidas, na verdade, já não restava nada destes Armazéns para além de prateleiras vazias e, de tal maneira que o regime que surgiu do golpe de 'Nino' Vieira foi obrigado, para além de solicitar a ajuda do FMI, uma instituição do capitalismo outrora abominado, a proclamar a abertura ao comércio privado para que o país não morresse de fome.

De salientar que o Consulado do gen Spinola na Guiné tinha criado alguns hábitos de consumo, mormente, no meio da população urbana e não só, que os dirigentes do PAIGC queriam extirpar de raiz, o que criou uma situação de fome e um ambiente explosivo de mal-estar que acabou por desembocar na mudança do regime de Luís Cabral. (...) 



(Revisão / fixação de texto, itálicos, negritos: LG)


quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28336 Foi há... (12): Oitenta e um anos, o fim da II Guerra Mundial... Como foi vivido na Metrópole e no Ultarmar - Parte I: O mundo não seria mais como dantes...



Capa da "Vida Mundial Ilustrada, Lisboa, ano IV, nº 209, 17 de maio de 1945, preço avulso, 1$80...A imagem da capa não era das multidões a festejar o fim da guerra e a vitória dos Aiados ("Nações Unidas"), mas a visita... de Salazar ao embaixador de Inglaterra:

"O sr. Presidente do Conselho, como Ministro dos Negócios Estrangeiros, esteve na Embaixada da Inglaterra, para exprimir ao sr. Embaixador, 'Sir' Campbell, o quanto satisfazia ao seu Governo e aos portugueses a vitória das Nações Unidas"...



1. Salazar e a censura tinham horror às multidões... Jornais do "reviralho" (oposição) como o "Diário de Lisboa" ou a "República" não puderam publicar fotos como estas a seguir, que aparecem no interior da "Vida Mundial Ilustrada" ou do "Mundo Gráfico", com a população de Lisboa a vitoriar os Aliados... Por razões técnicas, mas também devido à censura. 

Os diários tinham 8 páginas, os semanários ilustrados, 24. E o momento político era a visita de Salazar ao embaixador de Inglaterra bem como o seu discurso na Asembleia Nacional (veja-se aqui a primeira página da 3ª edição do "Diário de Lisboa" desse dia histórico).


O 8 de maio de 1945 marca o Dia da Vitória na Europa (V-E Day), data oficial da rendição incondicional da Alemanha Nazi e o fim da Segunda Guerra Mundial no continente europeu. (Alguns de nós estávamos a nascer, e outros já mamavam ou até gatinhavam.)

No Pacífico, o conflito só terminaria formalmente a 2 de setembro de 1945, após a rendição do Japão na sequência do trágico lançamento da bomba atómica sobre Hiroshima (6 de agosto) e depois Nagasaki (9 de agosto). 

A partir daqui o mundo não seria mais como dantes.

Entretanto, só a 15 de setembro seria restaurada a soberania portuguesa sobre Timor-Leste, ocupada pelos japoneses desde 19 de fevereiro de 1942.



Lisboa > Na  Conde Redondo...


Lisboa > Na Av da Liberdade, junto ao Monumento aos Mortos da Grande Guerra... (pág, 15)



Lisboa > s/d > Foto tirada na Conde Beirão ...Excerto da legenda:

(...) "Portugal vibrou de entusiasmo, Lisboa marchou à frente dos mais entusiastas para exprimiro seu júbilo pela vitória dos Aliados na Europa. Por toda a parte a multidão, disciplinada, gritoua  sua alegria. No Conde Redomndo, por exemplo, a certa altura,  o entusiasmo atingiu oi auge que a foto presente revela. Diante das embaixadas, diante das legações, pelas ruas da Baixa, a cidade de todas as condições sociais espalhava-se e comprimia-se porque todas as ruas pareciam pequenas para exprimir o seu entusiasmo" (Fonte: "Vida Mundial Ilustrada", Lisboa, ano IV, nº 209, 17 de maio de 1945, pág. 24). 

 (Com a devida vénia...)


Cauteloso, anónimo,  e com "pinças", o jornalista da "Vida Mundial Ilustrada" remetia o júbilo do povo para uma página interior (pág. 15) que só podia ler quem tivesse comprado o semanário por 1$80 (com a carestia do papel, tinha aumentado 80% desde a data do seu lançamento em meados de 1941) (*)...

Escrevia-se assim naquela época, em estilo gongórico e cheio de subentendidos:

"Acabou a guerra! Todo o mundo aguardava ansioamente esta notícia que devia chegar de um momento para o outro.

"E porque era assim esperada e era certo o fim da guerra, ninguém sonhava que chegasse tão longe a ordeira alegria do povo português, dia-a-dia vivendo a dureza de um conflito que, nem por estar longe, podia ficar estranho à nossa consciência de homens e de europeus.

"Pode-se dizer que não houve ninguém que não empunhasse uma bandeira, que não gritasse a sua alegria, e não dissese como Salazar no seu discurso: 'Ainda bem que acabou a guerra! Ainda bem que sairam vitoriosas as Nações Unidas' " (pág. 15)...


E se tivessem ganho as "potências do Eixo" ? Parte da elite portuguesa da época, política, militar, e até económica e financeira, era germanófila, apesar da "neutralidade" do país... Spínola, com 35 anos, e ainda capitão, era germanófilo, como toda a arma de cavalaria... 

Salazar, por seu turno,  era um político pragmático, mais próximo política e ideologicamente do fascismo de Mussolini do que do nazismo do Hitler... Destestava os americanos e o regime capitalista e demoliberal, leia-se, parlamentar...

2. O fim da Segunda Guerra Mundial (1945) foi vivido de forma muito distinta em Portugal continental, nas ilhas adjacentes (Madeira e Açores) e nas colónias de África e Ásia, refletindo as tensões da neutralidade portuguesa, o impacto estratégico dos territórios ultramarinos e as consequências humanitárias e económicas da guerra. Aqui está uma síntese detalhada por região, baseada em fontes históricas e documentos da época:

Portugal, sob o regime do Estado Novo e a liderança de António de Oliveira Salazar, manteve uma neutralidade oficial durante a guerra, mas com uma postura pragmática que beneficiou economicamente o país.

Salazar justificou a neutralidade como uma defesa do "interesse nacional", afastando-se de alinhamentos ideológicos com o Eixo ou os Aliados ( incluindo a velha aliada Grã-Bretanha).

No entanto, o país vendeu volfrâmio (tungsténio, um mineral estratégico para a indústria bélica) a ambos os lados), gerando lucros recordes no comércio externo, apesar da pobreza (e em muitos casos,  miséria)  da população (mais de metade da população ativa vivia no setor primário).

Um dos mitos que a propaganda do Estado Novo criou foi o da "criação de riqueza", apesar da guerra... Veja o que se diz aqui, sobre esse período, de acordo peritos da Fundaão Manuel dos Santos

1939-1945 Guerra, volfrâmio, más colheitas e duas recessões

(...) "Em 1939 o mundo mergulhava num dos mais amplos e dramáticos conflitos da história da Humanidade. Com as operações militares sobretudo centradas no solo europeu e nos mares do Pacífico, a Segunda Guerra Mundial teve um impacto económico global.

Portugal manteve, desde o início, a neutralidade militar, o que contribuiu para um aparente paradoxo: o país cresceu fortemente durante a Segunda Guerra, com uma expansão do PIB real entre 19% e 30% entre 1940 e 1944, em parte impulsionada pelas exportações de volfrâmio para as potências beligerantes de ambos os lados. A venda deste metal ao exterior permitiu um excedente comercial histórico em 1942.

Mais tarde, em 1944, esta fonte de crescimento económico viria a esgotar-se com o fim das exportações deste minério, imposto ao país por uma forte pressão internacional.

 Este facto coincidiu com a mais longa seca de que há registo em Portugal continental, entre 1943 e 1946. 

É essencialmente do efeito conjugado destes dois choques que nasce a recessão de 1944-45.

O país continuava com uma matriz setorial de forte peso agrícola, sendo as colheitas determinantes para o ciclo económico. (...)


A 8 de maio de 1945, o fim da guerra na Europa foi assinalado na Assembleia Nacional (arremedo de parlamento) e nas ruas. Salazar proferiu um discurso histórico na sessão extraordinária, transmitido por alto-falantes para a multidão em frente ao edifício de São Bento.

O fim da guerra acelerou a contestação ao regime em Portugal. Muitos portugueses interpretaram a vitória aliada como um sinal de que era chegada a hora de acabar com os regimes autoritários na Europa. Surgiram movimentos de oposição como o  Movimento de Unidade Democrática (MUD), formado em outubro de 1945 por republicanos, socialistas e democratas para concorrer às eleições legislativas. 

No entanto, o MUD desistiu de participar nas eleições (novembro de 1945) devido à repressão e à falta de garantias de liberdade, e o regime manteve-se de pé..

3. As celebrações pelo fim da guerra em Portugal e no Ultramar foram ambivalentes. Houve manifestações espontâneas em várias regiões (Algarve, Trás-os-Montes, Lisboa) que misturaram alegria pela paz com protestos contra o regime.

A censura e a polícia política (que vai mudar de nome em 1945)  tentaram reprimir as manifestações. Houve detenções, mas muitos protestos escaparam ao controlo das autoridades.

Há, todavia,  uma distinção importante em relação ao que se passou em Portugal continental e nas colónias. O fim da guerra foi vivido no Ultramar português como uma mistura de alívio, festa, esperança e, sobretudo, expectativas políticas muito diferentes consoante a colónia e os grupos sociais.

Para a Metrópole,  era a vitória dos Aliados e o fim da ameaça militar; para sectores africanos politizados, a derrota do nazismo e do fascismo podia significar outra coisa: a promessa de um novo mundo em que o princípio da autodeterminação também deveria aplicar-se aos povos colonizados.

E há uma ironia histórica extraordinária: Portugal saiu da guerra formalmente neutro e com o império intacto (apesar da tragédia de Timor), mas o mundo que nascia em 1945 era precisamente o mundo que começava a pôr em causa os impérios coloniais. Recorde-se alguns dos primeiros territórios a tornar-se independentes, no pós-guerra (1945-1948):

  • Líbano (22 de novembro de 1943):
  • Indonésia (17 de agosto de 1945);
  • Vietname (2 de setembro de 1945);
  • Síria (17 de abril de 1946);
  • Jordânia (25 de maio de 1946);
  • Filipinas (4 de julho de 1946);
  • Índia e Paquistão (14-15de agosto de 1947);
  • Birmãnia (hoje, Mianmar) (4 de janeiro de 1948);
  • Ceilão (atual Shri Lanka) (4 de fevereiro de 1948).


Há, de facto, uma diferença essencial: o 8 de maio não significava exactamente o mesmo em todo o Ultramar. Nas colónias africanas portuguesas (com exceção de Timor), a guerra tinha sido sobretudo uma guerra à distância: não eram teatros de grandes operações militares, mas sofreram mobilização, restrições económicas, falta de bens, inflação, perturbações comerciais e a presença de tropas expedicionárias. 

Cabo Verde, pela sua posição estratégica, teve ainda uma experiência muito particular, a par dos Açores.

Pesquisa: LG

(Continua)

__________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 4 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28319: Foi há... (11): Sessenta anos que Artur Augusto Silva (Ilha da Brava, 1912 - Bissau, 1983) escreveu, na prisão política de Caxias, essa pequena obra-prima do conto guineense, que é "O Cativeiro dos Bichos"

sábado, 6 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28075: Guiné-Bissau, hoje: factos e números (9): caju, a nova "semente do diabo" ? - Parte III


1. Na sua página do Facebook, Tita Pipoka (ativista e empreendedora social,a viver em Bissau,  e que tem mais de 200 mil seguidores!), esvreveu em 24 de março de 2026, 16:15:

Eu sou Tita Pipoka… filha da terra. Cresci numa família de agricultores, onde o som da campanha de caju não é apenas trabalho, é sobrevivência.

A castanha de caju representa cerca de 90% das exportações do país. Um saco de caju… por um saco de arroz. E assim passa mais um ano.

Mas será justo? Como é que um país que exporta quase toda a sua riqueza agrícola… continua dependente para se alimentar? Como é que quem produz tanto… vive com tão pouco?

A verdade é dura: o agricultor é a base de tudo… mas é quem menos ganha.

2. Recordemos aqui alguns dados económicos e fianneeiros respeotantes ao caju (ou castanha de caju) na Guiné-Bissau

É, reconhecidamente, e de há muito (há 30/40 anos) a principal riqueza da Guiné-Bissau E ttem um forte potencial de desenvolvimento. Com esceção do arquipélago dos Bijagós e demais ilhas,  o caju é produzido em todas as regiões do país, e muito em esepcial presente em todas as terras secas. 

  • Podução: c. 300 mil toneladas (2021) de castanha "in natura";
  • Área: c. 513,5 mil hectares;
  • Nº de produtores: mais de 650 mil (2,5% dos quais são mulheres);
  • Produtividade (baixa): entre 500 e 600 kg/ha. 
  • A grande maioria dos agricultores da Guiné-Bissau está envolvida e vive na produção de caju;
  • O país exportou um volume de 231 2 mil toneladas em 2021 e 235 mil  toneladas em 2022;
  • 14 unidades de processamento estão registadas em 2022, das quais 12 unidades estão operacionais para uma média de 20.000 toneladas de castanhas "in natura"  processadas, ou menos de 10% da produção;
  • constitui a maior fonte de receitas fiscais do Estado;
  • funciona como  principal motor da balança comercial e da entrada de divisas.
De acordo com dados da Agência Nacional do Caju da Guiné-Bissau, citados pelo Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa (Macau),  a produção (=200 mil toneladas, em 2022) repartiu-se assim pelas zonas do país:

  • Zona Norte (regiões de Biombo, Cacheu e Oio) > 54,6%
  • Zona Leste (regiões de Bafatá e Gabu) > 28,5%
  • Zona Sul (regiões de Quínara, Bolama e Tombali) > 16,9 %
Total= 100,0%

A Guiné-Bissau exporta praticamente toda a produção de caju em casca, por que não tem capacidade para o processar. O ano de 2022 foi favorável. O preço médio pago aos produtores  variou entre 450 e 600 Francos CFA por kg (1 EUR ≈ 655 FCFA em 2022; isso equivale a aproximadamente 0,69 a 0,92 EUR/kg).


(1) Impacto económico e financeiro: o caju representa:
  • 18% do PIB;
  • 90% das receitas de exportação;
  •  33% do rendimento familiar;
  • a  taxa de utilização das unidades instaladas no país gira em torno de 25%;
  • o preço ao produtor das nozes cruas está entre 375 e 500 farncos CFA/kg em 2022;
  •  o valor dos impostos de exportação é de 15 FCFA/kg para nozes cruas e 8 FCFA/kg para amêndoas.


(2)  
Já ouvimos  chamar ao caju, ou melhor, à castanha de caju, o "petróleo" ou
o "ouro branco" da Guiné-Bissau. É uma metáfora, que tem diferentes leituras. 

Toda a economia (cabeça, tronco e membros) depende um único corpo, que é produção e a comercialização deste produto. 

Poucos países do mundo dependem tanto de um único produto agrícola, que ainda por cima não fazia  propriamente parte da dieta tradicional dos guineenses.

Será o caju uma nova "semente do diabo", tal como a "mancarra", deixada pelos "tugas" antes de se irem embora ? Uma nova "maldição" ?


(3) Em termos sociais, estima-se que:

  • mais de 80% da população ativa rural esteja ligada direta ou indiretamente à fileira do caju;
  • e que cerca de  40% a 50%  das pessoas dependam dele para sobreviver, num país com pouco mais de dois milhões de habitantes.

(4) A campanha do caju é, na prática, “a estação económica” do país. 

Quando a campanha corre bem:
  • há mais circulação de dinheiro nos tabancas e mercados;
  • aumenta o comércio informal;
  • sobem as importações de arroz e bens de consumo;
  • o Estado respira melhor financeiramente.

Quando a campanha corre mal (c0mo vai acontecer provavelmente este ano): 
  • toda a economia guineense abana;
  • sendo isso devido sobretudo a factores exógenos,  portanto fora do contro dos produtores (como o caso das secas, chuvas fora de tempo, pragas, crise política ou queda do preço internacional) 

Há muito que o próprio Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial insistem na necessidade urgente de diversificação económica, precisamente por causa desta btrutal dependência extrema.

Há ainda um problema estrutural importante: a Guiné-Bissau exporta sobretudo castanha em bruto, praticamemnte sem qualquer transformação industrial local. 

Quem ganha com o negócio0mais dinheiro são os países que a processam (a Índia e o Vietname)   transformando-a em amêndoa de caju para exportação mundial. E, claro, os intermediários locais.

Ou seja: o camponês guineense produz a matéria-prima; mas o maior valor acrescentado, emprego industrial e lucro ficam fora do país.

É um velho problema de economia colonial ou neoextrativa: exportar produto bruto e importar quase tudo o resto.

(5) Apesar disso, o cajueiro tem uma importância "quase civilizacional"  na Guiné-Bissau contemporânea:

  • fixa populações no interior;
  • gera rendimento monetário onde há pouco emprego no sector formal;
  • permite pagar escola, arroz, roupa, medicamentos, telecomunicações;
  • e sustenta grande parte da economia informal das “bideras”, comerciantes e pequenos transportadores.

Curiosamente, o “falso fruto” do caju (a maçã de caju) continua subaproveitado. Há produção artesanal de vinho, sumos e aguardente (“cana de caju”), mas em escala reduzida. O "ouro" económico continua a ser a castanha com casca!

E há, de facto,  um paradoxo desconcertante, como diz a Tita Pipoka, troca-se caju por arroz... Até quando ? A 
Guiné-Bissau é um dos maiores produtores mundiais de castanha de caju "per capita"… mas continua entre os países mais pobres do mundo. E pior: depende dos outros para se alimnentar...

Isso mostra bem como produzir uma mercadoria  agrícola não basta para criar desenvolvimento sólido sem:
  • transformação industrial;
  • infraestruturas (incluindo rede rodoviária);
  • crédito;
  • apoio técnico;
  • estabilidade política;
  • e capacidade do Estado.

(Pesquisa: LG +   Fórum Macau +  ChaGPT / Open AI + Vibe / Mistral AI)
(Condensação, revisão/ fixação de texto, negritos, links, título: LG)

___________________

Nota do editor LG:

Último poste da série >  3 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28067: Guine-Bissau, hoje: factos e números (8): caju, a nova "semente do diabo" ? - Parte II

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28068: S(C)em comentários (89): O "ouro branco" do caju e a "Suiça Africana (Cherno Baldé / António Rosinha)





Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Textos: Cherno Baldé / António Rosinha
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Comentários ao poste P28066 (*):


1.1. Cherno Baldé:


O autor e editor do texto (LG) fala da produção do caju pós-colonial como se tratasse de uma visão e orientação económica bem construída e aplicada no terreno.  Não há nada mais errado.

A ideia apareceu na época colonial, provavelmente nos anos 40/50, a década da visão abrangente de longo prazo e de todas as obras de infraestruturas no território iniciadas com o consulado do Sarmento Rodrigues. 

A política da promoção do caju continuou ainda nos anos 60/70, sem conseguir, todavia, uma aceitação geral no seio da população, sobretudo no Leste do território, mas já dominava em largos espaços no litoral Oeste (Biombo), Norte (Bissorã) e algumas partes do Sul (Tite e Fulacunda).

O que aconteceu no pós-25A74 é uma completa desordem na economia. O PAIGC não tinha uma política económica definida, o regime do Luís Cabral, um grande sonhador e voluntarista, quis transformar um país recém-independente, agrário, desprovido de quadros técnicos e de especialistas e sem infraestruturas,  num país industrializado, com fábricas e numa aventura de substituição de importações.

Os camponeses,  que eram o pilar da economia colonial, foram completamente ignorados, o sistema produtivo, de fomento e captação vs distribuição através da rede de lojas e armazéns no mato em que se apoiavam, foi desmantelado na tentativa forçada de criação de uma nova rede controlada pelo Estado (Armazéns do Povo), o que desincentivou a produção do amendoim em larga escala. 

As famílias camponesas, desorientadas e sem apoio moral nem material, pegaram naquilo que podiam e/ou tinham em mão e, foi assim que, rapidamente, sem qualquer decisão superior, aconteceu a corrida ao caju como meio de salvação e substituto dos anteriores produtos de renda,  combinando-se com um período de forte procura desse produto no mercado internacional.

Como uma desgraça nunca vem só, então a facilidade da sua produção, aliada ao volume das receitas, acabou por conquistar a totalidade do território e familias,  e com isso levar ao abandono das outras culturas, inclusive alimentícias como os campos de arroz e milho. 


1.2. António Rosinha:


"Os camponeses, que eram o pilar da economia colonial, foram completamente ignorados", diz o Cherno.

Claro que para o PAIGC de Luís Cabral, bem como para todos os "portugueses" do Ultramar que formaram os movimentos nacionalistas nas diversas colónias, foram anos e anos a sonhar nas riquezas que "tínhamos debaixo dos pés".

A lavoura salazarista do azeitinho, da corticinha,  da sardinhinha... termos que atiravam à cara dos transmontanos, beirões, minhotos, algarvios e madeirenses,  não era para eles.

Isso do óleo de palma, amendoim, caju...isso não era para eles.

O Luís Cabral e seus irmãos das outras colónias sonhavam mais alto. Luís Cabral queria industrializar, mesmo depois dele ainda ficou aquela de que a Guiné ia ser a "Suíça africana",

Só mesmo os barcos da Sogeral (CUF) com tripulação cabo-verdiana, gastava gasóleo para se desviar da rota de Luanda e subir o Geba até Bissau para levar uns tantos barris de vinho e aproveitava e carregava uns tantos tambores de chabéu para as suas fábricas de sabão do Barreiro.

Sem CUF e sem cabo-verdeanos não havia ânimo para uma segunda Guiné. (**).

quarta-feira, 3 de junho de 2026 às 00:14:00 WEST

(Revisão / fixação de texto, título: LG)
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terça-feira, 2 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28066: Guiné-Bissau, hoje: factos e números (7): caju, a nova "semente do diabo" ? - Parte I

Castanha de caju:  a nova "semente do diabo" ?

Fonte: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné



1. O cunhado do nosso camarada Beja Santos, o professor Dragomir Knapic (1925-2006), especialista em geografia económica,  terá sido um dos primeiros a antever,  em 1964, a  importância da fileira do caju no desenvolvimento agroindustrial da então Guiné Portuguesa (Guiné-Bissau, a partir de 1974, quando Portuga reconheceu a independência).

É um pequeno trecho, premonitório, de uma "sebenta" sobre a geografia económica da Guiné. Merece ser lido e comentado (*):



Fonte: Excerto, pág. 28, de Dragomir Knapic (1925 - 2006) - "Geografia económica de Portugal : Guiné". (Lisboa : Instituto Comercial de Lisboa, 1966, 44 pp., brochura policopiada). (Sublinhados a vermelho, nossos).


2. Em 1964 haveria penas umas escassas centenas hectares de cajueiros plantados na antiga colónia portuguesa da Guiné, segundo o citado autor. A castanha de caju não era exportada nem tinha interesse industrial na época.  (E muito menos os subprodutos do cajueiro.) Era ainda uma cultura marginal.

O grande ciclo económico colonial assentava sobretudo no amendoim ("mancarra" ou a "semente dio diabo", como lhe chamavamos fulas) (**), no coconote (copra), no óleo de palma, em alguma madeira e em produtos alimentares para consumo interno  (arroz, milho, fundo, jeijão, mandioca, batata doce, inhame,  banana e outros frutos tropicais).

Entre 1960 e 1965, exportou-se em média (segundo os números recolhidos por Dragomir Knapic):
  • Amendoim > 31,4 mil toneladas | 107,8 mil contos  | 3,4 contos por tonelada
  • Coconote > 11,9 mil toneladas | 31,2 mil contos |  2,6 contos por tonelada
  • Óleo de palma > 87,7 toneladas  (1960/63) | 381  contos | 4,3 contos por tonelada
Em contrapartida, a Guiné, que era autossuficiente em arroz, antes da guerra,  exportou em média, de 1956 a 1969, 1,4 mil toneladas, ao preço de 3 contos por tonelada. Com a guerra, passou a importar arroz: 8,9 mil t em 1962: 11,8 mil em 1963; 29,9 em 1964. (Não sabemos a que preço.).

Observ. - Em 1965, um conto (=1000 escudos) seria equivalente a menos de 500 euros a  pre 

3.  O caju existia, mas quase como árvore dispersa, de quintal ("ponta") ou de sombra (na "tabanca"). Tal como a papaia, a banana, o abacaxi, o coco, a manga, a cola, a laranja...  

Qual seria então a produção de caju ? Quantos hectares, quantas toneladas ? E hoje ? Quem teve responsabilidade política na decisão de fazer caju para exportação ? É uma perigosa monocultura... não acautela a segurança alimentar da população guineense.

Não se encontrou um recenseamento agrícola colonial suficientemente rigoroso para dizer quantos hectares havia exatamente em 1964. Mas há alguns indicadores.

Segundo séries estatísticas da FAO, a produção de castanha de caju na Guiné-Bissau rondava apenas as 2  mil toneladas em 1961.

Um estudo histórico refere que as primeiras exportações documentadas ocorreram em 1966, e que nesse período o caju ocupava apenas o quarto lugar entre os produtos exportados, muito atrás do amendoim e do coconote. Em 1970 as exportações eram ainda da ordem das 1,2 mil  toneladas.

Portanto, para 1964, a ordem de grandeza plausível será:

  • poucos milhares de hectares (talvez 2 mil  a 5 mil  ha, mas esta estimativa deve ser tomada com muita prudência);
  • produção anual na casa das 2 a 3 mil  toneladas de castanha;
  • praticamente nenhuma indústria local;
  • peso económico insignificante quando comparado com o amendoim.

Hoje estamos noutra galáxia. A produção recente oscila entre 120 mil  e 200 mil  toneladas anuais, conforme os anos e as campanhas. Em 2024, por exemplo, foram reportadas cerca de 178 mil  toneladas, das quais 163 mil  toneladas exportadas.


A área plantada é frequentemente estimada entre 200 mil  e 250 mil  hectares, embora os números variem conforme as fontes e os critérios utilizados. O país tornou-se um dos maiores produtores africanos e o caju representa cerca de 90% das exportações



"Mancarra"

Fonte: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné


Comparen-se estes números com os da "mancarra" (em 1964):

  • era o principal produto de exportação da Guiné;
  • representava 76% do total (em 1965, um pouco menos: 61%);
  • área cultivada: 100 mil hectares (=25% do total);
  • produção: c. 65 mil toneladas;
  • rendimento médio: 0,65 toneladas por hectare;
  • regiões de maior produção:  Farim, Bafatá e Gabu.

3. Quem tomou a decisão política?

A questão é interessante porque não houve propriamente uma decisão única nem há um "pai do caju".

A expansão começou ainda no final do período colonial, quando a quebra da produção moçambicana abriu espaço no mercado internacional.

Mas a verdadeira transformação ocorreu após a independência.

Os governos do PAIGC, desde a década de 1970, favoreceram a plantação do cajueiro porque:

  • era uma cultura resistente;
  • exigia pouco investimento;
  • dava rendimento monetário rápido às famílias rurais;
  • permitia obter divisas num país com escassas exportações.

Durante os anos 1980 e sobretudo 1990, com os programas de ajustamento estrutural apoiados pelo FMI e Banco Mundial, o modelo consolidou-se: a Guiné-Bissau passou a exportar castanha em bruto, principalmente para a Índia e mais tarde para o Vietname.

Ou seja, a responsabilidade política é repartida entre:

  • os últimos anos da administração colonial, que reintroduziram o produto nos circuitos comerciais;
  • os governos do PAIGC pós-independência;
  • as instituições financeiras internacionais (Banco Mundial,  FMI) que incentivaram culturas de exportação.

4. Pergunta o leitor: foi um erro?

Não há um resposta  simples. O caju trouxe benefícios reais:

  • rendimento monetário para centenas de milhares de famílias;
  • entrada de divisas;
  • integração de regiões rurais na economia de mercado.

Mas os custos também são evidentes (ambientais, sociais, económicos, alimentares, etc.). Diversos estudos alertam para o avanço dos cajueiros sobre antigas áreas agrícolas e florestais e para a dependência excessiva de uma única cultura de exportação.

O problema maior não  seria tanto o cajueiro em si, mas  o facto de ele ter passado a dominar o sistema agrícola.

Quando o agricultor troca arroz, milho, sorgo, mandioca ou hortas por cajueiros, fica dependente de vender castanha para depois comprar alimentos. 

Se o preço internacional cai ou se a campanha corre mal, a segurança alimentar deteriora-se rapidamente.

A Guiné-Bissau vive hoje uma espécie de paradoxo:

  • exporta quase duas centenas de milhares de toneladas de castanha;
  • mas continua a importar arroz em grandes quantidades.

Há algo de estruturalmente frágil nisto: o país passou de uma dependência colonial do amendoim ("mancarra")  para uma dependência pós-colonial do caju. Mudou o produto, mas não desapareceu a lógica de especialização excessiva.

O desafio seria transformar o caju numa componente importante da economia, sem deixar que ele substitua as culturas alimentares tradicionais nem destrua os sistemas agroflorestais que durante séculos garantiram a subsistência das tabancas. 

Essa é hoje uma das grandes questões económicas e ecológicas da Guiné-Bissau.

(Pesquisa: LG + Knapic (1964) + IA (ChatGPT / Open AI)
(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos: LG)

(Continua)

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Notas do editor LG:

(**) Vd. poste de 7 de abril de 2019 > Guine 61/74 - P19654: (Ex)citações (352): O amendoim ('mancarra'), a semente do Diabo ('Iblissa', em fula) (Luís Graça / Cherno Baldé)

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27587: Documentos (49): Brochura "Missão na Guiné", da autoria do Estado Maior do Exército. 3ª ed. (Lisboa, SPEME, 1971, 78 pp.) - Parte VI: Aspeto humano (cont): saúde e instrução pública; religiões: imprensa e rádio... Aspeto económico: agricultura e florestas; pecuária e pescas; recursos de origem mineral: energia: vias de comunicação... Mais de 300 km de estradas alfaltadas (pp. 51-65)


No princípio da década de 1970, já havia mais de 3 centenas de estradas asfaltadas, sendo o maior  troço o de Bafatá - Nova Lamego,  com mais de 50 km. Até ao fim da guerra, ainda se farão mais 200 e tal quilómetros, e nomeadamente no sul. Destaque para o papel da Engenharia Militar e da empresa TECNIL (a que mais tarde, já depoois da independência, ficará ligado o nosso camarada António Rosinha).

Era assim a "Spínolândia"   Fizeram -se mais quilómetros de estrada alcatroada em meia dúzia de anos do que nos últimos  500 anos de presença histórica portuguesa por aquelas paragens. Aplicando a estatística, foi um quilómetro por ano... em média.

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Capa do livro: Portugal. Estado Maior do Exército - "Missão na Guiné". 

Lisboa: SPEME, 1971, 77, [5] p., fotos.


1. Qual o valor ("sentimental"  mas também "documental")  desta brochura do Estado Maior do Exército, que nos era distribuída já a bordo do navio que nos transportava para a Guiné (ou do avião dos TAM, a partir de finais de 1972) ?

Estamos a reproduzir a brochura da 3ª edição,  de 1971. A primeira remonta a 1967 E A 2ª edição  é de  1969. Presume-se que desta publicação, editada pelo SPEME (Serviço de Publicações do Estado Maior do Exército) tenham tido sido impressas dezenas e dezenas de milhares de exemplares. 

Tem 77 páginas (mais 5 inumeradas) e é ilustrada com  9 fotos.  Tudo a preto e branco. Baratinho. A edição é do SPEME (Serviço do Publicações do Estado Maior do Exército). 

 Em 1967 (de 1958 a 1969) era Chefe do Estado Maior  (CEME) o gen Luís Câmara Pina (1904-1980), considerado um dos homens fortes do regime do Estado Novo. Era oriundo a arma de engenharia .

É constituída, esta brochura, por três partes:  (i) Missão no Ultramar;  (ii) Monografia da Guiné: aspeto físico, humano e económico;  (iii) Informações úteis. 

Vamos continuar a reproduzir, sem comentários,   a parte da monografia respeitante agora ao aspeto económico (pp. 51-65).

Esperamos que os nossos leitores possam fazer a sua apreciação (crítica) do documento. Tal como o PAIGC tinha os seus documentos de doutrinação e propaganda, também as NT tinham os seus.

 "Missão na Guiné" não era um texto apenas técnico e informativo. Tinha uma componente político - ideológica, como acontece em todas as guerras.




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(Continua)


Fonte: excertos de Portugal. Estado Maior do Exército: "Missão na Guiné". 
 Lisboa: SPEME, 1971, pp. 51-65.