Pesquisar neste blogue

Mostrar mensagens com a etiqueta ilustrações. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta ilustrações. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28206: Humor de caserna (282): Todos com eles no sítio, todos aptos para o serviço militar (Jorge Cabral, 1943-2021)

 

Prompt e orientação  editorial: Luís Graça
Texto: Jorge Cabral (2009)
Geração gráfica assistida por IA:
Google (2026). Gemini (versão de 22 de julho de 2026) 
[Grande modelo de linguagem].



1. É uma expressão idiomática, muito portuguesa. Diz-se de um homem "com eles no sítio", que é viril, corajoso. ("Cabra-macho" era a expressão equivalente em crioulo, usada pelos guerrilheiros do PAIGC)...

O  Jorge Cabral (1943-2021), o impagável "alfero Cabral", é autor deste microconto. Faz parte das suas "estórias cabralianas" de que ainda publicou em vida  um livro, volume I.  

Filho de militar, tendo passado  (por pouco tempo) pelo Colégio Militar, era o menos "militar" dos "militares" que eu conheci na Guiné... Em 1969/71, enquanto comandante do Pel Caç Nat 63 (que esteve em Fá Mandinga e em Missirá, no sector L1, Bambadinca),  podia ser considerado o contraponto da "Spinolândia"... 

Spínola, dizia-se, como elogio, que era um general "com eles no sítio"... 

O tema dá "pano para mangas", e será glosado em próximo poste da série "Nomadizações de um marginal-secante". Para já, voltamos a reproduzir a já há muito esquecida estória cabraliana nº 46 (*).


Estórias cabralianas > Todos com eles no sítio...Apurados para todo o serviço militar

por Jorge Cabral

Pois, também eu naquela manhã de Junho me dirigi à Avenida de Berna, ao Quartel do Trem Auto, onde hoje funciona a [Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da] Universidade Nova [de Lisboa].

Éramos mais de cem, altos e baixos, loiros e morenos, alguns mancos, pitosgas muitos, um quase corcunda, três gagos e dois tontos.

Mandaram-nos despir e pôr em fila, numa literal e verdadeira bicha-de-pirilau.

Na mesa, um coronel, um major e um tenente médico, constituíam a Junta Inspectora. Um a um, fomos chamados diante do médico a fim de declarar se sofríamos de alguma maleita.

Após rápido e sumário exame, mesmo para aqueles que se disseram doentes, continuámos todos nus e encostados à parede, esperando o veredicto... que chegou num discurso patriótico do coronel. Falou de Aljubarrota, das picadas africanas, de heróis e da necessidade de homens valentes com “eles no sítio” e, por fim, concluiu:

– Todos aptos para o Serviço Militar.

Claro, pensei na altura, ainda nu e olhando os demais, todos tinham os dois no sítio. Juro que não vi nenhum com eles no pescoço, ou debaixo do braço
.

(Revisão / fixação de texto, negritos, parênteses retos, título: LG)


2. Comentário do editor LG:

O microconto do Jorge Cabral é um retrato irónico e vivo da inspeção militar, onde a expressão "com eles no sítio" ganha um duplo sentido: (i) o literal (todos os mancebos ali presentes tinham, de facto, "eles no sítio", os ditos cujos; e por esse facto passavam a ser "homens"); e (ii) o figurado (a virilidade, a bravura e a coragem que o discurso patriótico do coronel que presidia à junta, tentava evocar, era uma questão de anatomia e testosterona, desde que "certificadas" pelo médico).

É uma crítica subtil, mas acerada, à burocracia e ao ritual vazio da "ida às sortes", por trás daquilo que, em teoria, deveria ser um momento solene e dibno de seleção de homens "valentes", aptos, física, psicológica e socialmente, para a guerra. (**)

É lamentável que na altura, em 2009, esta estória tenha passado despercebida: ou talvez não, teve cerca de 500 visualizações, mas nenhum comentário (*)
___________________


(**) Último poste da série > 22 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28204: Humor de caserna (281): "Exame para ir à guerra", por Alberto Branquinho (excerto do novo livro, "Inventarium Vitae", 2026)

terça-feira, 21 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28200: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (12): Pagadores de promessas... por conta de outrém











Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



1. Já aqui em tempos fizemos um pequeno inquérito "on line" sobre a "ida a Fátima", ou melhor, ao santuário de N. Sra. de Fátima, um dos maiores santuários marianos do mundo (Vd. poste de 1/5/2017, P17375.)

A pergunta ("Fui combatente, nunca fui a Fátima"), era de resposta múltipla. O nº de respostas foi pequeno (n=84). Os resultados não deixam, contudo , de ser interessantes, toda a gente já tinha ido pelo menos uma vez a Fátima na vida:

(i) uns ainda antes da tropa ou da mobilização para o CTIG (n=44) (52%);

(ii) outros depois de virem do ultramar, logo a seguir (n=15) ou passados uns anos (n=17) (38%);

(iii) um em cada cinco como verdadeiros peregrinos ou crentes (n=20) (17%);

(iv) mais de metade apenas como simples turistas (n=47) (55%).


2. Sobre o pagamento de promessas (... por conta de outrém), temos um pequeno depoimento, delicioso e didático, do Jaime Bonifácio Marques da Silva, que foi alferes miliciano paraquedista, 1ª CCP / BCP 21 (Angola, 1970/72). 

É uma "short story", um microconto, que tem muito que se lhe diga sobre as nossas mentalidades e práticas religiosas de há mais de meio século atrás:


Quando chego de Angola, em março de 1974 (vivi lá dois anos, depois de acabar a minha comissão como paraquedista, de fevereiro de 1970 a julho de 1972), a minha mãe diz-me, de uma forma convicta:

– Tens de ir comigo a pé à Senhora dos Remédios pagar a promessa que eu fiz.

Eu, ainda meio cacimbado da cabeça (e, tolo, claro!), disparei:

– Então vá a mãe. Eu não prometi nada!

Devo ter lançado pela boca fora, ainda, mais alguns disparates alusivos à circunstância, a tal ponto que a minha irmã, mais nova, Esmeralda, perante a minha blasfémia, de pronto diz:

– Não faz mal, mãe, eu pago a promessa por ele e vou a pé consigo!

Mas, eu, perante a generosidade de minha irmã, Esmeralda, disponibilizei-me logo para as acompanhar e disse:

– Eu também vou..., de carro e atrás de vocês, e levo o farnel para a viagem.

E assim foi!

Mas, duas décadas depois, a minha irmã diz-me:

– Jaime, lembras-te da promessa que eu paguei por ti à Senhora dos Remédios? Eu tenho um problema: fiz uma promessa e tenho que ir a pé ao Senhor Jesus do Carvalhal. Não encontro ninguém para ir comigo e, para não ir sozinha, podias, agora, ir comigo?!

– Claro, mana, já estou no ir!

3. Porque é que considero este episódio delicioso e didático ? Tem humor, verdade e, ao mesmo tempo, diz muito sobre toda uma geração, que foi a nossa.


O que mais sobressai neste "microconto", não é a "piada" final (nem a lição moral que eventualmenmte se possa tirar); é, sim a evolução da personagem, o narrador, que acabava de chegar a casa, vindo da guerra de Angola, "são e salvo" (mas "cacimbado")...

Há aqui um pequeno arco narrativo, feito de quatro momentos:

(i) Num primeiro momento, em março de 1974,  vemos o Jaime, antigo  alferes paraquedista, que acaba de regressar de Angola (onde, já na vida civil, era professor de educação física.

(No seu CV militar, entre fevereiro de 1970 e julho de 1972, colecionava uma série de  "roncos": o seu grupo de combate fora o que, dentro da companhia, mais armas apanhara ao IN); ainda está "meio cacimbado da cabeça", ou "apanhado do clima", como nós dizíamos na Guiné;  reage com irreflexão, com irreverência e até com alguma grosseria e agressividade ao convite da sua mãe para ir pagar uma promessa ao santuário de N. Sra. dos Remédios, no Cabo Carvoeiro, Peniche, a menos de 15 quilómetros de casa, pela EN 247; recusa, "compreensivelmente", pagar uma promessa que não fora feita por ele.)

(ii) Num segundo momento, surge a Esmeralda, a sua mana mais nova, com os seus 19 aninhos

(Não censura o irmão; resolve o conflito com um gesto de amor fraterno: "Eu pago a promessa por ele"; acaba por ser ela a verdadeira heroína, discreta, "low profile", desta história.)

(iii) No terceiro momento, o coração do Jaime amolece, ao ver a mãe e a irmã, solidárias, a aprontarem-se para irem à santa dos Remédios, a pé, para pagar uma promessa de que ele era, afinal, o principal beneficiário.

(Afinal, tinha "chegado são e salvo", graças a Deus e a Nossa Senhora, segundo a crença da mãe; mas ainda não aceita a lógica, para ele perversa, da promessa; mas já aceita acompanhá -las, às duas mullheres, a mãe e a irmã; "vou de carro... atrás de vocês com o farnel": é uma solução muito portuguesa, a das "meias tintas", mas reveladora de que o coração já estava a vencer a razão.)

(iv) Quarto (e último) momento, o "happy end": vinte anos depois...

(A vida dá uma volta completa; a irmã pede-lhe agora um favor semelhante; e ele responde-lhe sem discutir: "Claro, mana, já estou no ir!"... Seguramente, já com outra maturidade. )

É uma belíssima forma de mostrar que a maturidade humana também consiste em perceber que, por vezes, o importante não é o que se prometeu (a promessa), mas quem a fez (o pagador da promessa e o que vai na sua alma).

5. Não falamos, aqui, no nosso blogue de religião (nem de política nem de futebol). Este texto também não fala de religião, fala de gratidão, de amor materno e filial.

A mãe acreditava que o filho regressara vivo graças à proteção da Senhora dos Remédios. O Jaime, acabado de sair de Angola, de um cenário de guerra, o corpo dorido e o coração emdurecido, não estava disposto a ouvir sermões nem a cumprir rituais que ele acharia "folclóricos" e que remetiam para uma infância e adolescência obscuras e de há muito ultrapassadas.

A Esmeralda percebeu imediatamente que o essencial não era discutir questões de fé, mas proteger a mãe da desilusão (de uma filho que vem da guerra, vivo mas "descrente", logo "estranho", "mudado").

Vinte anos depois, o Jaime devolve esse gesto. É, digamos, o pagamento de uma espécie de "dívida de afeto", dívida que fica finalmente saldada. E a história acaba com uma expressão muito popular, muito portuguesa, fechando a narrativa com um sorriso bonito.
— Claro, mana... já estou no ir!

4. Este episódio vale como documento, de interesse socioantropológico.

É mais do que um microconto. Não prova nada, muito menos prova que a maioria dos ex-combatentes da guerra do ultramar / guerra colonial foi a Fátima, aos Remédios, ao Senhor Bom Jesus do Caravalhal ou a muitos outros santuários pagar promessas por terem regressado "sãos e salvos".

Mas ilustra um fenómeno muito frequente na época: eram muitas vezes as mulheres que que cá ficaram, que não foram à guerra (as mães, as esposas, as noivas, as irmãs, as namoradas, até as "madrinhas de guerra") que faziam as promessas; os combatentes, regressados da guerra, nem sempre partilhavam a mesma devoção; contudo, por respeito, por amor, por afeto, acabavam muitas vezes por participar no seu cumprimento.

É precisamente este tipo de testemunho que os historiadores valorizam: não fornece estatísticas, dados empíricos, mas revela mentalidades, relações familiares e a cultura religiosa popular  do Portugal dos anos 60/70 do século passado.

E há uma frase que nos fica a ecoar, porque resume tudo sem o dizer explicitamente: "Eu tenho um problema... podias, agora, ir comigo?"

Aí percebe-se que a promessa já não era apenas uma questão de fé. Era uma questão de companhia, de fraternidade e de memória. O Jaime teve a inteligência emocional de perceber isso. Já tinha 40 e tal anos. Já era autarca em Fafe, na área da cultura e do desporto. Já era casado e pai. Já era professor... Já tinha feito (ou começado a fazer) o luto da guerra.

E foi, com a mana ao Senhor Bom Jesus do Carvalhal. É um final simples, terno, tocante, profundamente humano.

Em boa verdade, as promessas pertencem ao domínio da fé, são de quem as faz... Mas o seu cumprimento, muitas vezes, pertence mais ao amor de quem acompanha o pagador de promessas...




Peniche > Santuário de Nossa Sra dos Remédios > Terreiro > 13 de julho de 2021 >  O  Jaime Silva e a mana Esmeralda Silva Costa, dois "pagadores de promessas"...

Fotos (e legenda): © Luís Graça (2021). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


______________

Nota do editor LG:

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28197: No céu não há disto: comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (53): o caldo de chabéu e o funge (receitas tradicionais)

´

















Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: LG + ChatGPT
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


Guiné-Bissau> Bijagós > Bubaque > Bijana > Chabéu. Foto: Patrício Ribeiro (2026)


1. O caldo de chabéu (também conhecido como
tchebem, em crioulo) é um prato tradicional da Guiné-Bissau, feito com a fruta da palmeira dendém.

Leva cerca de 1 hora e 30 minutos a preparar, à moda tradicional. Aqui fica uma sugestão de receita(s) para os nossos "vagomestres" (*).

Ingredientes

  • 500 g de chabéu (fruta do dendém)
  • 1 kg de carne (vaca), peixe fresco ou galinha
  • Raízes e vegetais a gosto (mandioca, sukulbebem, repolho/couve)
  • Temperos: cebola, tomate, alho, malagueta/gindungo e sal

Modo de Preparação 

(i) Cozer a fruta: coze o chabéu em água até que os caroços se comecem a soltar; escorre a água, guardando-a num recipiente à parte.

(ii) Esmagar: esmaga o chabéu num pilão até a pele e o caroço se separarem da polpa.

(iii) Extrair o caldo: passe a massa por água fria e coa num passador fino, espremendo bem. Volta a pilar e coar se necessário, até obter um caldo grosso e vermelho.

(iv) Preparar a carne/peixe: Num outro tacho, refoga a cebola, o tomate e o alho; junta a carne (ou peixe/galinha), tempera com sal e gindungo, e deixa estufar.

(v) Juntar tudo: adiciona os vegetais cortados e o caldo de chabéu ao tacho da carne. Deixa ferver em lume brando até que a carne e a mandioca estejam tenras. Serve quente. 

2. Não tendo nós, aqui em Portugal, o chabéu propriamente dito, temos de recorrer ao supermeracado...e comprar um garrafa de óleo de dendém.


Aqui vai então a receita refinada e exata utilizando o óleo de dendém de garrafa. Esta versão reduz o tempo de preparação para cerca de 45 minutos.

Ingredientes
(Versão prática)
  • Óleo de dendém: 150 ml (aproximadamente 2/3 de chávena)
  • Água quente: 1 litro
  • Proteína: 1 kg de carne de vaca (em cubos), galinha ou peixe firme
  • Vegetais: 1 mandioca média (em pedaços), 1/2 repolho e quiabos a gosto
  • Base: 1 cebola grande picada, 2 dentes de alho picados e 2 tomates maduros picados
  • Tempero: 1 malagueta (gindungo), sal e 1 cubo de caldo de carne (opcional)
Modo de preparação:

(i) Selar a carne: num tacho grande, deite 2 colheres de sopa do óleo de dendém; refogas a cebola, o alho e o tomate até murcharem; juntas a carne e deixas dourar por 5 minutos. 

(ii) Criar o caldo: temperas com sal, gindungo e o cubo de caldo;  vertes o restante óleo de dendém e adicionas imediatamente 1 litro de água quente; mexes bem para emulsionar.

(iii) Cozer os vegetais: juntas a mandioca e o repolho ao tacho; tapas e deixas ferver em lume médio-baixo durante 20 a 25 minutos (até a carne e a mandioca estarem quase tenras).

(iv) Apurar: adicionas os quiabos nos últimos 10 minutos; deixe o caldo destapado em lume brando para reduzir e engrossar ligeiramente.

O caldo deve ficar aveludado, com uma cor alaranjada escura e os sabores bem concentrados.
Podes acompanhar este caldo com arroz branco solto... ou acompanhar comn funge (vd. receita a seguir)

PS - Atenção: o óleo de palma (ou dendê ou dendém) é o óleo vegetal mais consumido do mundo. Embora seja extremamente eficiente (produzindo até 6 vezes mais óleo por hectare que outras culturas), a sua expansão descontrolada tem causado forte desflorestação em regiões tropicais como o Sudeste Asiático, ameaçando habitats de espécies como os orangotangos do Bornéu. Portanto, há questões sociais e ambientais a ponderar quando se compra o óleo (ou azeite) de dendém ou produtos feitos com recurso a este fruto, como cosméticos, etc. 

Por outro lado, há problemas de saúde a considerar. O uso do azeite de dendém deve ser moderado, tendo benefícios e malefícios.


Guiné-Bisssau > Região de Tombali > Sector de Bedanda > Cananima > Simpósio Internacional de Guileje (Bissua, 1-7 de março de 2008  > 2 de Março de 2008 >  O famoso óleo de palma do Cantanhez. A sua cor vermelha intensa deve-se às características da variedade do chabéu (termo científico, Elaeis guineenses), que é rico em caroteno.


Guiné-Bisssau > Região de Tombali > Sector de Bedanda > Cananima > Simpósio Internacional de Guileje (Bissua, 1-7 de março de 2008  > 2 de Março de 2008 >

A saudosa Cadidjatu Candé, da comissão organizadora do Simpósio Internacional de Guileje e colaborada da ONG AD - Acção para o Desenvolvimento, servindo um fabuloso "caldo de chabéu" (arroz com filetes de peixe do rio Cacine e óleo de palma local, que tem fama de ser o mais saboroso do país, devido à qualidade da matéria-prima e às técnicas e condições de produção, artesanal. (**)

Na imagem, um diplomata português, o nº 2 da Embaixada Portuguesa, que integrava a nossa caravana (e cujo nome, por lapso, não registei, lapso de que peço desculpa).

Um dos pratos que foi servido no almoço de domingo, aos participantes do Simpósio Internacional de Guileje, foi peixe de chabéu, do Rio Cacine, do melhor que comi em África... Durante a guerra colonial, na zona leste, em Bambadinca, só conheci  o desgraçado peixe da bolanha que sabia  a lodo.... "Chabéu de frango" comi algmnas vezes, delicioso, na casa do comerciante de Bambadinca, o Rodrigo Rendeiro.  O "frango de chabéu" da dona Auá Seidi, mulher do Fernando Rendeiro, ficpou-me no goto. O funge só comi em Angola...

Fotos (e legendas): © Luís Graça (2008). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís  Graça & Camaradas da Guiné] 


3. O funge (ou fufu) tradicional que acompanha o caldo de chabéu é feito à base de farinha de mandioca (ou de milho) e água. O segredo está na força do braço para bater a massa e evitar grumos

Mas atenção: como nos esclarece e bem, o nosso Cherno Baldé, o funge é angolano, não é guineense. (Temos aqui uma "calinada" da IA que é americana e, como tal, não sabe degeografia; ,etemos os dois a pata na poça, ao fazer a ilustração a quatro mãos; vou fazer um outro poste, a corrigir: não quero arranjar nenhum problema diplomático entre os meus amigos angolanos e os guineenses.)

Funge e fufu...Origem dos termos: (i) funge: é o termo utilizado na culinária de Angola e de São Tomé e Príncipe para designar a papa feita de farinha de milho ou de mandioca;  (ii) fufu: tem origem na África Ocidental (Gana e Nigéria) e refere-se à massa elástica feita a partir de inhame, banana-da-terra ou mandioca cozidos e pilados

Esta receita (de funge)  rende 4 porções e fica pronta em apenas 20 minutos.

Ingredientes

  • Farinha de mandioca torrada ou fina: 250 gramas
  • Água: 1 litro
  • Sal: 1 colher de café (opcional, já que o caldo é bem temperado)
Modo de preparação:

(i) Aquecer a água: coloca 800 ml de água numa panela alta com o sal e leve ao lume até ferver.

(ii) Dissolver a farinha: numa tigela à parte, mistura os 250 g de farinha de mandioca com os restantes 200 ml de água fria; mexe bem até formar uma papa lisa e sem caroços.

(iii) Misturar: assim que a água da panela estiver a ferver, verte a papa de farinha lentamente, mexendo sempre e vigorosamente com uma colher de pau (ou um bastão de funge).

(iv) Bater o funge: baixa o lume para o mínimo; usa a colher de pau para esmagar a massa contra as paredes da panela; faz  movimentos circulares rápidos e fortes (isto garante que a massa fique elástica e homogénea).

(v) Cozimento final: deixa cozer em lume muito brando por mais 5 a 8 minutos, mexendo de vez em quando. O funge está pronto quando estiver brilhante, translúcido e a soltar-se do fundo da panela.

Como servir:

(i) molha uma tigela pequena em água fria;
(ii)  coloca uma porção de funge quente lá dentro;:
(iii) abana a tigela em círculos para moldar uma bola perfeita;
(iv) coloca no prato e verte o caldo de chabéu bem quente por cima.

Pesquisa: LG +  Fundação Slow Food para a Biodiversidade +  IA (ChatGPT / Open AI)
Condensação, revisão de texto, negritos: LG
____________________

Notas do editor LG:´
´
(*) Último poste da série > 9 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28086: No céu não há disto: comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (52): Favas com peixe frito à moda de Monchique (comidas numa tasca de Portimão, em 26/5/2026)

(**) Vd. postes de:

domingo, 19 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28195: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (11): Os nossos provérbios pouco ou nada populares - Parte II: "O peixe e o hóspede ao fim de três dias fedem"


Prompting e orientação editorial: Luís Graça
Texto: Luís Graça
Geração gráfica assistida por IA:
Google (2026). Gemini (versão de 19 de julho de 2026) [Grande modelo de linguagem].


1. Continuando a nossa viagem (exploratória e crítica) pelo mundo dos  provérbios populares da Língua Portuguesa, alguns dos quais são pouco ou nada populares, mas fazem parte do nosso "manual de sobrevivência" (*)...

 "O peixe e o hóspede ao fim de três dias fedem"  (**)... 

A hospitalidade tem limites: é isso que quer dizer o provérbio. Ou por outras palavras: "Deus manda ser bom, mas não manda ser parvo".

O provérbio compara o hóspede e o peixe: este  sem refrigeração,  estraga-se ao fim de 3 dias...Fede, cheira mal. O  mesmo se passa com o hóspede que abusa da tua hospitalidade: se ficar mais de 3 dias na tua casa, começa a ser um incómodo, um tropeço, um fardo.

Há aqui duas metáforas, a  da sobrecarga e a  do mau cheiro: em casas pobres, receber um hóspede era um fardo económico. A comida era escassa, as bocas eram muitas, um boca extra tornava-se um problema-

Por outro lado,  na proto-história da saúde pública, esta máxima pode ser tomado como um conselho higiénico: o peixe a feder, a cheirar mal,  era também uma referência à falta de condições sanitárias. 

No passado, antes da eletricidade e do frigorífico,   não havia forma de conservar a comida por mais de 2-3 dias. Daí o recurso a técnicas de conservação dos alimentos: o fumo, o sal, o sol... O peixe salgava-se e ia para a salgadeira como a carne de  porco. Ou então secava-se ao sol, como o bacalhau. (Também se  defumava: veja-se nosso famoso fumeiro...) 
. E comia-se no inverno com batatas e cebola, cozido, o peixe seco ( que agora é produto gourmet, a começar pelo bacalhau, cada vez mais arredio da mesa dos portugueses...).

É bom lembrar o contexto histórico: de facto, na nossa terra, em Portugal, até meados do século XX, a conservação dos alimentos era um desafio. O peixe seco (bacalhau, raia, safio, cação, carapau, etc. ) ou em salmoura (o atum de barrica, a sardinha, etc.) era a exceção; o peixe fresco apodrecia rapidamente, nomeadamente no verão. 

A hospitalidade era um dever cristão, uma obrigação moral, mas também um risco económico. Em tempos de fome ou carestia, alimentar um hóspede poderia significar menos comida para a família, incluindo os mais fracos, as crianças e os velhos. 

Ainda há gente da nossa geração que se lembra da "sardinha para três"... Não, não é miserabilismo. Vendiam-se os ovos (!) para se comprar sardinhas que já chegavam moídas, sem graça, às aldeias do interior, em carroças de burro!

Está implícita uma crítica social neste provérbio: o dilema é caridade ou  egoísmo ? Solidariedade ou sobrevivência?

 O provérbio defende  o "struggle for life", o salve-se quem puder...O provérbio parece cruel, mas é na realidade um retrato da escassez. Não é falta de generosidade, solidariedade ou até caridade, é o medo animal, fisiológica, ancestral,  da fome.

Aqui o "fedor" é também uma metáfora: o fedor não é só físico, mas também social. O hóspede que se demora, que abusa da tua hospitalidade,  passa a ser um peso, e a sua presença contamina o ambiente familiar.

Fedor vem do verbo feder, palavra que, por sua vez,  vem do latim foeteo, -ere, ter cheiro fétido, cheirar mal, repugnar, ser insuportável. (Fonte: "feder", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2026, https://dicionario.priberam.org/feder)

2. Curiosamente, hospital, hospício, hóspede, hotel... são palavras que estão próximas pela etimologia...

Etimologicamente, hospital (e hotel, do francês hôtel, e este por sua vez do francês antigo hostel) é um termo que vem do baixo latim hospitale (lugar onde se recebem pessoas que necessitam de cuidados, alojamento, hospedaria), do latim hospitalis (relativo a hospites ou hospes, hóspedes ou convidados) (**). 

A Europa medieval foi  profundamente marcada pela terrível fragilidade da condição humana,  pobreza absoluta e escatologia cristã. Ora, esses hóspedes eram originariamente não só os doentes pobres mas qualquer pessoa necessitada de qualquer outro tipo de cuidados (alojamento, alimentação, abrigo, protecção, ajuda, conforto, assistência, etc.): não só os enfermos, os incapacitados, os deficientes, os velhos, os pobres, os vagabundos como também os peregrinos e os viajantes.

Na Alta Idade Média (do séc. V ao séc.  XI), o hospital confundia-se com a albergaria ou o hospício (do latim hospitiu, alojamento, hospitalidade, também derivado de hospes). Em geral, ficava junto às catedrais ou aos mosteiros, em conformidade com as instruções dos concílios ecuménicos de Niceia (325) e de Cartago (398).

Tratar dos doentes (hóspedes) eram um dever de caridade, uma obra de misericórdia.

Ora este ditado (velho... e "os ditados velhos são evangelhos"!) vinha lembrar que, apesar do dever de caridade e de hospitalidade, "o hóspede e o peixe aos três dias fedem", isto é, cheiram mal, estão a mais, tornam-se um fardo. Em casa, na albergaria do convento, no hospicio ou no hospital.

Não haverá porventura nada de mais cruel, na literatura da administração hospitalar, do que esta insinuação de que, sendo o doente um "hóspede", ele é sempre um encargo e, em última análise, é indesejável. 

E também não há discurso sobre a humanização do hospital que possa resistir ao efeito corrosivo e perverso desta ideia da doença como punição e expiação ("Se Deus o marcou, algum mal lhe achou").

Para a generalidade dos doentes, a hospitalização é(era) sentida com um misto de culpa e de obrigação: culpa, por um lado, de estar doente, representando um encargo para os outros (a família, a comunidade, a empresa, a sociedade, o Estado, os médicos e os outros profissionais de saúde, o serviço nacional de saúde, etc.); obrigação, por outro, de se curar o mais rapidamente possível, de ser um doente colaborante, complacente, bem comportado, etc.

Estes dois sentimentos variam também em função da classe social e do sistema de saúde: quando o doente se sente, se reconhece e se assume como um utente, consumidor ou cliente,  naturalmente que ele está em melhores condições para negociar, numa base mais equitativa , ou seja, na base de uma relação menos assimétrica de poder e negociação. Mas há sempre um "terceiro pagador" no sistema de saúde: o seguro,  a segurança social,  o Estado (através dos impostos)...

De qualquer modo, o poder dos profissionais assenta(va), histórica e culturalmente, sobretudo neste duplo sentimento de obrigação e de dependência.

Outros provérbios podem aproximar-se desta ideia de hospitalidade e hospitalização (**):

  • "A mandar nunca ninguém foi ao hospital";
  • "Doente que inspirra, fora do hospital";
  • "Mal por mal, antes na cadeia do que no hospital";
  • "Mal por mal antes cadeia que hospital e antes justiça que misericórdia";
  • "Na cadeia e no hospital só os amigos verás";
  • "Na cadeia e no hospital todos temos um lugar";
  • "Na cadeia, no jogo e na doença se conhecem os amigos";
  • "Na prisão e no hospital vês quem te quer bem e quem te quer mal";
  • "Os hóspedes duas alegrias dão: quando chegam e quando se vão";
  • "Peregrinos, muitas pousadas, poucos amigos";
  • "Quando pobre come frango, um dos dois está doente";
  •  "Quem quiser comer arroz sem sal vá para o hospital".
 

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28189: E as nossas palmas vão para... (36): O Jaime Bonifácio Marques da Silva, natural do Seixal da Lourinhã e filho adotivo de Fafe, ex-alf mil pqdt, BCP 21 (Angola, 1970/72), que celebra hoje o seu 80º aniversário









A promessa da mãe, se o filho viesse são e salvo





Lourinhã, Seixal, 17 de julho de 2017, na festa dos 71 anos do Jaime. Aldina Silva (Fafe, 1946-Lourinhã, 2022). Foto: LG





Hoje, no 80º aniversário, a família e os amigos da Lourinhã, Peniche e Bombarral (Luís Graça, Joaquim Pinto de Carvalho, Rogério Ferreira, Laurentino Marteleira, João Pereira, Paulo,  Xico Manel, João Miguel, João Batista, entre outros, além do Fernando Castro, antigo dirugente da AVECO), vão-lhe fazer uma pequena homenagem, no jantar (reservado) a realizar na Associação Cultural, Recreativa e Desportiva do Lugar das Matas, servido pelo "chef" Inocêncio (ex-Café Nicola,Lourinhã).


Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné | Portal UTW  - Dos Veteranos da Guerra do Ultramar
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.
______________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 13 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27731: E as nossas palmas vão para... (35): O régulo Manuel Resende que conseguiu juntar 73 convivas na festa do 16.º aniversário da Magnífica Tabanca da Linha, em Algés, no passado dia 14 - Fotogaleria - Parte VII