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sábado, 4 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28157: Os nossos seres, saberes e lazeres (739): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (260): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 5 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 29 de Maio de 2026:

Queridos amigos,
Amanhã a partida é em direção a Gjirokastër, embora as expectativas sejam enormes quanto ao que esta cidade museu oferece, não deixamos Përmet absolutamente nada desapontados, logo a viagem de furgão a partir de Korçë pelos meandros montanhosos, por vezes os desfiladeiros, vistos da estrada, parecem ser fendas de abismo até que, inopinadamente, surge aquele rio de caudal instável, o Vjosa, quem vai dentro do furgão faz comentários sobre o que vai fazer, há ali gente que veio para fazer rafting, há escaladores, ciclistas, gente mais madura que veio a sonhar com bacias de água quente, perto de Përmet. Deu-me para fazer passeios a pé a saborear o Vjosa e quando me meti para o interior atinei com uma igreja ortodoxa, cheia de espiritualidade, rodeada de um belo jardim. Por ali andei tempo suficiente até fazer horas para jantar, depois de dar o último passeio a pé e procurar adormecer acreditando que Gjirokastër é única no mundo... e afinal é.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (260):
Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 5


Mário Beja Santos


Mostrar-vos a miniatura do mapa da Albânia não é um puro acaso, nasce da preocupação de vos dar conhecimento quanto ao itinerário seguido; houve partida em furgão de Tirana até Pogradec, para admirar o Lago Ohrid, seguiu-se depois para Korçë, há quem lhe chame uma pequena Paris, é, no mínimo, bonita e cosmopolita; mais adiante, nova viagem em furgão até Përmet, esperava uma maravilhosa igreja ortodoxa, vão ver; e daqui rumou-se para a espantosa Gjirokastër, um justificado Património da Humanidade, temos depois a última viagem até ao sul, já no mar Jónico, em Sarandë, visita ao Lago Butrint e o sítio arqueológico respetivo, também e justificadamente Património da Humanidade. Saiu-se de Korçë, num furgão cheio de gente com ar desportivo, só quando começarmos a flanquear o rio Vjosa, que nos acompanhará até Përmet, é um rio associado a um parque natural entre a Grécia e a Albânia, e então vemos a que se destinam as tais atividades desportivas, desde rafting a passeios pedestres, procura de águas termais, ciclismo, etc. De Korçë a Përmet são escassas dezenas de quilómetros, vamos sempre com os olhos em cima das majestades montanhas, dos desfiladeiros, do estranhíssimo caudal do Vjosa, umas vezes tumultuoso, outras vezes quase reduzido a um fio de água.
Importa recordar que 70% da Albânia são montanhas e florestas, o espetáculo cénico preenche a nossa atenção, com estes desencontros cumeadas com neve, zonas umas vezes densamente arborizadas, outras vezes calvadas, superfícies que devem tentar escaladores, com os abismos ao fundo.
Os famosos banhos termais de Përmet, estou um pouco fora da cidade, é uma das suas atrações turísticas, lembra as caldeiras das ilhas açorianas, imagem retirada do site Adventure Albania
A lindíssima ponte Kadiut nos arredores de Përmet
Rafting no rio Vjosa, um rio que acompanhou quase toda a viagem de Korçë até Përmet
Chega-se a Përmet, ainda não se perguntou onde fica o nosso alojamento e somos confrontados com o libertador de Përmet, fala-se em 24 de maio de 1944. Como nunca se conseguem obter informações no turismo, procura-se meter conversa com os passantes, alguém cheio de orgulho disse que esta escultura é original, há réplicas espalhadas por outras cidades, mas sim, esta é única.
Confesso que a grande atração que senti em Përmet foi uma igreja ortodoxa onde encontrei duas legendas, igreja do Santo Parashqevi, é uma basílica coberta de arcos e cúpulas esféricas, data de 1776 está classificada como monumento cultural de primeira categoria. 22 metros de comprimento, 16 de largura e 8 de altura, três naves com cúpulas, estão ligados o santuário, o nártex e o altar; igreja construída com pedra pomes e argamassa de cal. O telhado está coberto com pedras brancas e o interior decorado com frescos. O iconóstase (parede coberta de ícones que separa o santuário da igreja propriamente dita) é esculpido em madeira, os frescos são cenas das escrituras, o autor é um pintor vindo de Korçë.
Encontrei esta imagem antiga, data do tempo em que não estava cercada por belos jardins, como agora. Curiosamente, encontrei uma transcrição que descreve exatamente a igreja, mas que lhe chama igreja da Sexta-Feira Santa.
Frescos antigos, a aguardar limpeza, conservação e restauro
Púlpito de requintada beleza
Outra perspetiva da área de culto
Um aspeto da cúpula, também a pedir intervenção
Iconóstase
Sala com ícones
Porventura a imagem da Virgem Maria, mas não excluo a possibilidade de ser uma santa da igreja ortodoxa albanesa
Imagem tirada da entrada tendo por fundo o iconóstase
Mesmo com iluminação deficiente é possível verificar que por cima das colunas temos pintura à volta da cúpula, com frescos ao fundo.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 27 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28136: Os nossos seres, saberes e lazeres (738): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (259): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 4 (Mário Beja Santos)

sábado, 27 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28136: Os nossos seres, saberes e lazeres (738): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (259): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 4 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 27 de Maio de 2026:

Queridos amigos,
Os dias passam e ganha mais entusiasmo ir descobrindo tão diversificado património da história deste povo, seguramente com raízes indo-europeias e uma língua autónoma, por aqui andaram gregos, tribos ilírias que Alexandre o Grande desbaratou, o Império Romano, os bizantinos do Império Romano, o rei Carlos de Anjou, turcos otomanos (e por muitos séculos) a poderosa Veneza, e depois a Albânia independente em 1912, o rei Zog I em 1928, a conquista italiana, a presença germânica do III Reich, depois da ditadura de Enver Hoxha até 1991, a partir daí um país que aderiu à NATO, que anseiam fazer parte da União Europeia, que se moderniza, com três religiões dominantes (o Islão, os ortodoxos e os católicos) vive numa atmosfera de franca tolerância; apercebemo-nos que as manifestações de modernidade são mais evidentes na arquitetura; a Albânia tem lagos magníficos, como Ohrid, onde desfrutamos o panorama das montanhas da Macedónia do Norte; e não deixa de surpreender a omnipresença escultórica do realismo socialista.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (259):
Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 4


Mário Beja Santos


Mostrar-vos a miniatura do mapa da Albânia não é um puro acaso, nasce da preocupação de vos dar conhecimento quanto ao itinerário seguido; houve partida em furgão de Tirana até Pogradec, para admirar o Lago Ohrid, seguiu-se depois para Korçë, há quem lhe chame uma pequena Paris, é, no mínimo, bonita e cosmopolita; mais adiante, nova viagem em furgão até Përmet, esperava uma maravilhosa igreja ortodoxa, vão ver; e daqui rumou-se para a espantosa Gjirokastër, um justificado Património da Humanidade, temos depois a última viagem até ao sul, já no mar Jónico, em Sarandë, visita ao Lago Butrint e o sítio arqueológico respetivo, também e justificadamente Património da Humanidade. Vamos por partes, desembarquei em Pogradec, vou caminhar até ao Lago Ohrid.
A libertação da Albânia deu-se em finais de 1944, os guerrilheiros, que fizeram frente aos italianos e aos alemães, em um compósito ideológico, os comunistas prevaleceram, era, aliás, uma estratégia montada em Moscovo, anos depois a Península Balcânica torcerá pelo comunismo, com exceção da Grécia, será confrontada com uma sangrenta guerra civil, o comunismo neutralizado. Em todas as localidades visitadas guarda-se memória dessas lutas de libertação, o traço escultórico dominante é o do realismo socialista, sobressai a tipologia do herói, individual ou coletivo, encontrarei manifestações artísticas semelhantes desde a RDA à Bulgária. O sistema democrático saído das eleições de 1992 preservou todo este património que está associado à identidade albanesa.
Não posso esconder que este panorama provoca êxtase, há para ali uma ilusão ótica dada pela linha do horizonte, na cumeada da cordilheira permanecem as neves, é território da Macedónia do norte, o lago Ohrid é transfronteiriço, tem uma política ambiental por isso transnacional. Saí do furgão e caminhei pelas ruas de Pogradec, lugar nitidamente pouco desenvolvido, muita gente entre a modéstia e a pobreza, equipamentos muito antigos e grande parte do parque habitacional envelhecido ou descurado. A região é manifestamente aprazível, dou como certo e seguro de que dentro em breve o turismo fará aqui das suas.
Para chegar ao Lago Ohrid houve que passar por um bonito parque, inevitavelmente com esculturas, temos aqui mais um herói da libertação e uma mulher em costume tradicional albanês, no fundo o lago Ohrid, e não faltam neves na cumeada.
De Pogradec seguimos para Korçë, das obras consultadas vinha a recomendação de visitar com tempo a área do antigo Baza, um conjunto de ruas cheias de comércio, era o 1.º de maio, apanhei tudo praticamente fechado, temos aqui um equipamento urbano manifestamente singular, verei no dia seguinte que há as inevitáveis lojas chinesas e indianas, todas as reminiscências turcas e a comida internacional, dando-se primazia à cozinha italiana.
Passeando pelas ruas de Korçë deparei-me com esta belíssima cerejeira ornamental, houve logo uma pronta associação com as cerejeiras ornamentais da Avenue du Geai, num bairro de Bruxelas onde passei férias, houve saborosa lembrança, pois recordei amigos que já partiram.
Impressionou-me a linha arquitetónica, é um nítido hibridismo de património ocidental e oriental, por razões por demais compreensíveis.
Quem havia de dizer? No jardim do Consulado da Grécia em Korçë temos o busto de Jorgos Seferis (1900-1971), foi o Prémio Nobel da Literatura em 1963, cônsul em Korçë de 1936 a 1937.
Já aqui se referiu que o regime liderado por Enver Hoxha decretou que a Albânia era um país ateu, isto em 1967, os templos religiosos foram destruídos ou reciclados, encontrei uma mesquita que se transformou em ginásio e uma igreja ortodoxa que albergou grupos de artes performativas. Esta é a igreja ortodoxa de Korçë, obra recente, a meio da avenida há a memória do local onde existiu a primitiva igreja mandada destruir para naquele espaço dar lugar a uma biblioteca.
Não resisti a fotografar este teatro, uma bela e sugestiva fachada, naquela noite, segundo o cartaz à esquerda havia um recital de canto e piano, ainda estive tentado, mas o corpinho pedia cama, amanhã temos novo furgão e novo destino.
Ocorreu-me falar das controversas campanhas de Oliviero Toscani para a Benetton, deram brado por mostrar seres humanos a morrer com SIDA, trânsfugas das guerras do norte de África, a relação que tenha o homem qualquer cor, o coração tem sempre a mesma composição, e naquele ano de 1992 mostraram-se albaneses em fuga, fugiam da operação, era a liberdade de procurar futuro noutras paragens, era como se a Benetton aprovasse a solidariedade do acolhimento.

(continua)

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Nota do editor

Últio post da série de 20 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28117: Os nossos seres, saberes e lazeres (737): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (258): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 3 (Mário Beja Santos)

sábado, 20 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28117: Os nossos seres, saberes e lazeres (737): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (258): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 3 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 21 de Maio de 2026:

Queridos amigos,
Não se pode ficar insensível e até estupefacto perante a diversidade que este país, de menor dimensão que a Bélgica ou a Guiné-Bissau, revela: praias deslumbrantes, rincões históricos que a UNESCO consagrou Património da Humanidade, a majestade dos Alpes albaneses, bordejando sobretudo a Macedónia do Norte, lagos paradisíacos, uma gastronomia que é a sua encruzilhada histórica, onde prepondera o legado dos turcos otomanos, a vibração de Tirana, com os seus arranha céus de novíssima geração, a Grande Mesquita e a esplendorosa igreja ortodoxa; as suas ruínas, caso de Butrint, estão ali vestígios do mundo greco-romano, helenistico, bizantino, veneziano e otomano; belas igrejas, e até o imprevisto de vermos um busto de alguém que foi cônsul grego numa cidade albanesa e que recebeu o Prémio Nobel da Literatura. É o que pretendo partilhar nestes dez dias em que viajei em transportes coletivos a admirar montanhas e a visitar um inesquecível património edificável, sem esquecer que os albaneses, que têm em todos os seus edifícios oficiais ao lado da sua bandeira nacional o pavilhão da União Europeia, mostram o que foi uma história de horrores, cerca de 150 anos de polícia política.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (258):
Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 3


Mário Beja Santos

Era um projeto antigo, visitar a Albânia, desconheço praticamente a península balcânica, por razões da minha profissão estivera três dias em Sófia, guardo a recordação da ida ao Museu Nacional, deslumbrei-me com o ouro da Trácia; é verdade que nas redondezas andei pela Grécia, na mira dos seus vestígios esplendorosos como berço das civilizações europeias; também andei pelo Montenegro e Croácia, passeio começou por Belgrado, muito me impressionou os primeiros 14Km de Belgrado em direção ao sul, parecia que tinha havido uma explosão nuclear, eram composições ferroviárias umas atrás das outras, deveria ser o rescaldo da desagregação da Jugoslávia, ficaram sem préstimo todos aqueles comboios.

A curiosidade da Albânia era aquele exótico regime montado em 1944, ali se consolidara um partido marxista-leninista-estalinista, com um permanente quadro obsessivo da invasão jugoslava, da extrema amizade à União Soviética chegara-se ao corte de relações, a Albânia mantinha-se estalinista, a seguir chegaram os chineses, bem-vindos ao princípio também mandados embora quando chegou a Revolução Cultural. E esta Albânia instituiu a psicose da invasão e o terror da guerra nuclear, assim se construíram 175 mil bunkers, bem disseminados por todo o país.


E chegou-me esta revista às mãos, uma reportagem com toda a sua carga de sedução: uma Albânia que fazia parte da Ilíria, que viu chegar gregos, romanos, conviveu com o período helenístico, por ali andaram venezianos, mais de quatro séculos da presença de turcos otomanos, quando este império se desagregou a Albânia constituiu-se como república, teve depois uma efémera monarquia (o rei Zog I), sofreu a invasão italiana, quando a Itália capitulou entraram os alemães, nessa altura já havia um forte movimento de resistência que tinha como parceiro principal os comunistas capitaneados por Enver Hoxha, começou aí a ditadura depois da libertação em finais de 1944 que durou até 1991, quando se esbarrondou o projeto totalitário.

O que este número da revista Geo tinha de atrativo era a referência a estes deslumbrantes vestígios antigos, os seus povoados incrustados nas montanhas (quase 70% da Albânia é montanha e floresta, tem mesmo uma região alpina), as suas águas transparentes do mar Jónico, o êxtase dos seus cânticos polifónicos que perpetuam a tradição musical do sul, uma capital efervescente em permanente mutação, o seu Património Mundial em lugares como Gjirokastër e Butrint, a presença de residências em estilo otomano, igrejas ortodoxas, católicas e muçulmanas, as três religiões convivem em tolerância na Albânia. E há o mistério da Ilíria, os ancestrais da Albânia. Um grande enigma: não há nenhum documento escrito da presença deste povo, seriam indo-europeus repartidos a partir do século III a. C. do Danúbio ao Epiro, passando pela atual Croácia. Os albaneses atribuem a sua língua aos ilírios, é uma língua singularíssima, não encaixa nos grandes grupos etnolinguísticos europeus. Com tal História e tais enigmas, como resistir a fazer-lhes uma visita?

Este manual ajudou-me imenso, deu-me dicas para organizar uma incursão de dez dias, conhecer os seus rudimentos históricos, a forma económica de viajar, o que ver e até o que comer.
Por uso e costume, regresso com brochuras, bilhetes de entrada em monumentos, enfim a tralha do turista. Todos os anos abro uns sacos de plástico, revejo o conteúdo referente àquela viagem, encho-me de coragem e deito para o balde, no cubículo dos papéis e cartões. Agora vou guardar o que trouxe da Albânia por mais uns tempos, nem que seja só para recordar aqui no blog os dias felizes e intensos que vivi.
Convém que o leitor olhe para este pequeno território mais pequeno que a Bélgica e a Guiné-Bissau, para acompanhar a minha incursão que começa em Tirana, apanhei depois uma candonga para visitar de raspão Pogradec, isto para admirar o lago Ohrid, um feitiço da natureza, tendo montanhas da Macedónia do Norte como pano de fundo; ao fim da tarde nova viagem de candonga até Korçë, pasmou-me a vida cosmopolita; daqui segui para Përmet, esperavam-me boas surpresas, aqui falhou o programa de ir visitar as águas borbulhantes como temos na região das Furnas, na ilha de São Miguel; a etapa seguinte foi Gjirokastër, que me assombrou; nova candonga até Sarandë, ali à beira do mar Jónico, a escassos quilómetros da ilha de Corfu, belas praias e um inesquecível Património da Humanidade em Butrint; chegara a hora de regressar, longa viagem de candonga até Tirana, mais visitas dentro e fora, e depois o regresso. Tudo contado e multiplicado, andei exclusivamente entre a capital e a região sul, o resto fica para a próxima viagem.
Cheguei a Tirana já passava da meia-noite, viagem de autocarro até ao centro, arrastei o trólei a olhar o Google Maps, já passava das duas e meia da manhã quando ferrei no sono. Refeito e alimentado, cambiei para o centro desta cidade que tem mais de meio milhão de habitantes. Foi uma pequena povoação até ao século XVII, depois ganhou um novo estatuto e após as guerras balcânicas em 1912-1913, proclamada a República, o novo regime decretou Tirana como capital permanente. Com o triunfo do regime comunista, assistiu-se à demolição de muitos edifícios históricos, bazares e igrejas. Depois das primeiras eleições que tiveram lugar em 1992, Tirana tem vindo a assistir a um boom na construção e turismo. Comecei o passeio pela sua praça histórica, fui mirar a estátua de Skanderbeg, o herói fundacional albanês que lutou contra os turcos otomanos e conseguiu congregar os clãs albaneses. Na outra imagem temos um pormenor da praça mostrando arquitetura arrojada e vemos hasteada a bandeira nacional, tecido vermelho com a águia bicéfala.
Esta é a entrada de um dos monumentos de visita obrigatória na capital, o BUNK’ART II, um bunker imenso, fazia parte do Ministério do Interior, servia hipoteticamente para proteger o Ministro e o seu círculo do caso de haver uma invasão ou explosão nuclear. Com advento da democracia, aproveitaram-se estes corredores subterrâneos para mostrar um pouco da história dos serviços de segurança albaneses desde a independência, e mostrar os horrores praticados por esta polícia secreta, a SIGURIMI. Temos aqui uma exposição permanente em que ao longo destes túneis vemos conhecendo a repressão e os horrores praticados pela polícia política, antes e com o regime comunista. O que vemos nesta imagem é uma listagem de políticos e líderes religiosos mandados executar o regime. Importa não esquecer que Enver Hoxha decretou em 1967 a Albânia como um país ateu, podemos pensar nas perseguições e campos de concentração para punir as dissidências.
Imagens alusivas à repressão em tempos de monarquia, na segunda imagem podemos ver o rei Zog I, que começou por ser republicano.
Um dos muitos corredores do BUNK’ART II, agora é um museu de diferentes tiranias
Mapa que mostra a localização do sistema prisional albanês em Enver Hoxha
Instalação alusiva ao delírio totalitário e persecutório do regime Enver Hoxha
Este era o quarto destinado ao Ministro do Interior, tinha as instalações ultrablindadas
Não deixa de nos emocionar esta história da solidariedade albanesa com gente perseguida, nomeadamente com os judeus gregos que fugiram às detenções dos nazis. Temos aqui a fotografia de reconhecimento de alguém como Justo entre as Nações, por ter albergado judeus dos alemães, arriscando a vida.
Imagem do que seria uma camarata prisional dos tempos do comunismo

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 13 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28096: Os nossos seres, saberes e lazeres (736): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (257): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 2 (Mário Beja Santos)