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quarta-feira, 22 de maio de 2013

Guiné 63/74 - P11608: Os nossos médicos (46): Dá-me os meus olhos! Homenagem ao Oftalmologista, Dr. José Luís Bettencourt Botelho de Melo (Mário Beja Santos)

Ponta Delgada, 11 de Maio de 2013 - Mário Beja Santos com o Oftalmologista José Luís Bettencourt Botelho de Melo

Dá-me os meus olhos!

Beja Santos

Em 16 de Outubro de 1969, passava das seis horas da tarde, uma mina anticarro despedaçou o Unimog em que vínhamos de Finete, carregado de bidons de gasóleo e petróleo, sacas de arroz, algum material de construção civil, cartuchame e granadas de mão.

A total responsabilidade daquele desastre coube-me, era impróprio viajar ao fim do dia, baixei as guardas, perdi o condutor, Manuel Guerreiro Jorge, da CCS/BCAÇ 2852, e tivemos sete feridos, alguns com gravidade, caso de Cherno Suane (duplo traumatismo craniano) e o comandante da milícia de Missirá, Albino Mamadu Baldé, com ambas as pernas fraturadas. Este infausto evento aparece descrito a páginas 278 em diante em "A Viagem do Tangomau".

Com a cara queimada, os óculos volatizados com a explosão que me atirou ao ar, com a visão perturbada pela carga dos ácidos, segui para Bissau, urgia ser visto por um oftalmologista. Começou aí uma grande amizade, como o Tangomau relatou: "Na manhã seguinte, lá vai para a primeira consulta, os olhos têm prioridade, não são as queimaduras que o preocupam, é o ardor permanente no olho direito. Já tinha passado a hora do almoço quando foi chamado para a consulta, foi recebido por um calmeirão aí de 40 anos, tonitruante, procede ao exame, tece um diagnóstico tranquilizador, prescreve uma receita com a graduação das lentes, recomenda o oculista. Tem um acento irrecusável de São Miguel, começam os dois a falar da ilha, nunca mais se calam, o outro militar ali presente, servente de bata branca, chama a atenção para a fila que há para atender, o açoriano não se cala, já descobriram imensos amigos comuns, faz-lhe uma proposta para uma janta conjunta, prontamente o Tangomau acedeu".

Jantaram no Grande Hotel, em 20 de Outubro, tinha nascido uma amizade inquebrantável, sempre que se visitam os Açores, previamente se telefona para o consultório do José Luís Bettencourt Botelho de Melo, a caminho dos 85 anos, ninguém o tira do trabalho. E combina-se encontro, pois claro, para as recordações da Guiné não falha a disponibilidade, arredam-se compromissos, a camaradagem tem sempre precedência.

Fui até às Flores, acordou-se que passaria por Ponta Delgada no sábado, 11 de Maio. O José Luís lá estava, acompanhado pela filha. E fomos comer filetes de peixe porco e de abrótea, com arroz e açorda, num restaurante aprazível na praia do Pópulo, nos arredores de Ponta Delgada. No final, houve fotografia, de braço dado e uma alegria sem igual. E fica-nos sempre aquela sensação de que a guerra muda tudo, engendra mecanismos silenciosos da relação fraterna que escapam à erosão do tempo.

Enquanto almoçava, não me saia da cabeça como este oftalmologista, o único da Guiné, salvou olhos, fez prodígios, evitou dramas para todo o sempre. Recordava mesmo um dos nossos últimos jantares em que ele praticamente dormia em pé, houvera durante o dia a chegada de gente em estado calamitoso, ao que me recordo explosões de fornilhos que atingiram muita gente, estivera mais de 12 horas seguida no bloco operatório.

Destes heróis não se fala, tudo aquilo era trabalho de bastidores, inclusive ele saia do HM 241, comia umas coisas e entrava no hospital de Bissau, os civis também contavam. O José Luís sente-se confortado pelo dever cumprido. Ofereci-lhe "A Viagem do Tangomau", com profunda gratidão e estima. Há profissionais de saúde que nos restituem a saúde mental, o andar ou a alegria na visão plena. Depois a vida prossegue, mas aqueles atos nobres, obscuros, inenarráveis, perduram. No nosso caso, para todo o sempre. E já estou ansioso por voltar aos Açores. Temos tanta coisa para conversar!
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Nota do editor

Último poste da série de 14 DE DEZEMBRO DE 2012 > Guiné 63/74 - P10801: Os nossos médicos (45): O dr. Soares Oliveira na Tabanca de Matosinhos com o João Rebola (Armando Pires)

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Guiné 63/74 - P10431: Notas de leitura (410): "A Viagem de Tangomau", de Mário Beja Santos, ou um livro de afectos e de plena reconciliação (Armor Pires Mota)

1. Mensagem de Armor Pires Mota enviada a Mário Beja Santos, a propósito de "A Viagem do Tangomau", livro de autoria deste nosso camarada:

Meu caro Tangomau, perdão, Mário Beja Santos:
Acabei de ler o seu monumental livro cuja temperatura foi subindo à medida que caminhava para a visita aos lugares míticos e neles entrava com lágrimas suas e de toda a gente. Gostei imenso. É uma memória muito completa e minuciosa. Nada lhe escapou. Felizmente. O que penso do livro vai no texto abaixo, que se divide em duas partes e assim elaborado para que, se quiser dele dispor, publicando-o no Luis Graça, já esteja pronto, embora possa ser corrigido, aqui e ali, se alguma coisa não estiver correcta. Tem toda a liberdade.
Apresento-lhe os parabéns e rejubilo pela obra.

Um abraço
Armor


“A Viagem do Tangomau – Memórias da guerra colonial que não se apagam”
Ou um livro de afectos e de plena reconciliação

Este livro é uma viagem ao passado guerreiro de Mário Beja Santos, na pele de Tangomau, difíceis e atribulados dias, que lhe continuam presentes no coração e na carne das palavras. Uma guerra que se trave deixa sempre uma ferida, sempre dói. É o remate feliz dos anteriores testemunhos, inscritos em dois Diários de Guerra - “Na Terra dos Soncó” (1968-1969) e “O Tigre Vadio” (1969-1970), na medida em que faz o pleno: é o livro da reconciliação sem reticências, total, entre homens que, há quarenta anos, se guerrearam e bateram na mata, cada qual com os seus objectivos e armas.

Pode dizer-se mesmo que é, sobretudo, um livro de afectos – e mais do que isso, é a sua confissão plena e exultante – de um alferes miliciano para com os seus subordinados, valorosos soldados nativos, exemplos de audácia, e para com as populações para quem quis e fez sempre o melhor, dentro dos condicionalismos reinantes. E vice-versa. Mas não só. Reflecte uma serena e descomplexada paixão por aquelas terras, com as suas paisagens deslumbrantes, manhãs de púrpura quente e muito luminosa e ocasos fantásticos, com o sol transformado em bola de fogo, tombando “lesto-lesto” no horizonte, é a mostra de uma ternura especial e universal por aquelas gentes, nutridas de uma enorme afabilidade. Neste patamar, os afectos, com laços fortes, marcados a fogo, no lume daquele tempo, chegam a atingir a sublimação, quando considera irmãos de coração alguns deles. Por sua vez, os seus soldados, com o beneplácito contente das populações, consideravam o combatente e destemido operacional Mário Beja Santos não apenas “o branco de Missirá”, mas N´Baké”, o que significa a maior prova de amizade e consideração para com outro… O mar verde e temível da mata de galeria e as ondas contínuas das dificuldades geraram relações indestrutíveis entre todos.

Pode dizer-se, sem sofismas, que se trata igualmente de um libelo contra a má preparação das tropas, (a lembrar um pouco António de Cértima, na sua Epopeia Maldita, a propósito das forças portuguesas em Moçambique, durante a I Grande Guerra) o seu quase total desconhecimento sobre a Guiné no tocante a história, usos e costumes, lealdades e insurreições, terrenos e actuação do IN. Um libelo contra o vergonhoso abandono de milhares de milícias locais que combateram ao lado das tropas portuguesas. Um libelo contra certos pormenores da descolonização. Apressada da parte dos negociadores portugueses quando “os negociadores guineenses pediram às autoridades portuguesas para ficarem transitoriamente na Guiné, podiam estar deslumbrados pela independência, mas não tinham ilusões de que não dispunham de estruturas administrativas capazes” (p.510).

Livro escrito com paixão, lágrimas, sangue e saudade, não podia deixar de ser um livro comovente em muitas das suas páginas, nos diálogos travados, nos gestos naturais, sem encenações, e pungente noutras situações. Quem andou pela Guiné lê-o com prazer e encanto. Em cada página perpassam cores em delírio, em todos os tons, os incontornáveis odores, as falas calorosas e os mistérios infindáveis das matas, cujos rumores fixa em belas imagens e plasma numa linguagem perfeita, adequada, assumindo, aqui e ali, o tom poético. Nas suas páginas nada há de romanesco, é tudo de conhecimento próprio. O autor dá-se ao trabalho de voltar a Mafra, às casernas e corredores húmidos, aos locais de instrução, às marchas forçadas e esforçadas. Volta à difícil recruta. Mas não só, vai também aos Arrifes, Açores, onde dera duas recrutas antes da mobilização. E regressa, em 2010, carregado de memórias no baú da saudade, mais uma vez à Guiné, onde estivera, em 1990 e 1991. Este chão ficou-lhe na alma. Para sempre, como de resto reconhece. Não será o único caso, mas é aquele que, apesar de tudo, faz uma declaração, em voz alta, de amizade, amor e reconciliação.

Mário Beja Santos queria visitar especialmente os lugares onde combatera entre 1968-1970 (Missirá, Finete, Mato de Cão e Canturé). Tendo transmitido esse desejo a alguns dos seus audazes soldados em Lisboa, logo estes o desencorajaram, dizendo que não fosse. Temiam o choque pela destruição e pela pobreza que iria encontrar. Não desistiu. Precisava de ir para um último adeus, visitar gentes e amigos do Cuor, um território que o fascinou desde sempre. É um amor “pessoal e intransmissível”, confessa (p.470). Houve um tempo de guerra; cristão, chegara o tempo da definitiva reconciliação, a descoberta e contacto com os que um dia lhe montaram emboscadas. Pretendia fazer a memória destes lugares. E em nenhum deles houve azedume algum, “era só um dever de memória”, escreve Beja Santos (p. 4678). Os antigos guerrilheiros “guardavam a serenidade das contas feitas, nada de fantasmas nem de rancores” (p.469).

Visita lugares míticos, encontra-se com o antigo comandante de Madina, Mamadu Jaquité, hoje coronel, que deixava bilhetinhos em Canturé, provocando-o e ameaçando-o de morte, mas de quem na visita recebeu só provas de afabilidade. O que também sucedia em muitas tabancas onde eram organizadas grandes recepções, como se de familiar se tratasse. Braços estendiam-se francos e sucediam-se abraços fortes e sentidos. Umas vezes, brotavam lágrimas de fogo, outras, conseguia retê-las. Havia mensagens de boas-vindas, discursos de congratulação e louvor, que o deixavam ainda mais fraternal e comovido. Os terreiros enchiam-se para ver e cumprimentar “o branco de Missirá”. Vai recebendo também notícias da morte de alguns subordinados. São murros no estômago do comandante de Missirá e Finete. Em algumas aldeias vai com o povo â mesquita agradecer a Deus os dias da peregrinação, orar pelos mortos e pelo melhor futuro de todos. É inegável que é um livro cheio de humanidade e ternura. Depois, enchem-lhe as mãos das maiores diversas solicitações: dinheiro, vistos para Portugal, emprego, bolsas de estudo, livros, tantas coisas, as mais inverosímeis, como se fosse um príncipe rico e tivesse poder em Lisboa. E isso fazia-o sofrer porque, sabedor da sua impossibilidade, não tinha a varinha do condão nem o poder de multiplicar os indispensáveis benefícios. Os ex-milícias chegam a pedir-lhe pensões de guerra...

Sofre choques brutais. Quando percorre Bambadinca, cujo quartel encontra destruído, bebe o maior “cálice de fel”. A bela rampa de acesso ao antigo quartel sobe-a e desce-a várias vezes. O coração parece querer rebentar-lhe contra o muro do peito. Vê outros destroços da antiga Bambadinca que se lhe apresenta agónica, “tudo lhe parece uma povoação fantasma”. Nem o porto escapou ao abandono. E chora mais uma vez. Tangomau “não compreende esta fúria destruidora”. De visita ao quartel, na companhia do comandante, tenente-coronel, Seco Mané, alcançam o sítio da messe e é aqui que “apanha um grande safanão”, “ali se quebrou o ânimo, o Tangomau soluça alto e bom som, desabam-se emoções nem ele próprio supusera tal transformação (p.452). O anfitrião pede-lhe para não chorar, nos olhos dos seus soldados há comiseração, “percorre os espaços com o olhar enlouquecido, ocorrem-lhe imagens, sente cheiros, pressente vultos, vai resfolegando e só acalma à saída”. E recupera, quando, a caminho do mercado, teve uma surpresa: “Sadjo avança para ele em majestade, os olhos estampados de alegria”, abraçam-se, Sadjo mostra-lhe os ferimentos que sofreu na operação “Tigre Vadio”. E Beja Santos, reportando-se a este momento e a outros de idêntico calor humano e de boa lembrança, declara que já valera a pena ter regressado ao chão do Cuor, ao chão guinéu. Teve, ao longo da viagem, horas inesquecíveis que apagaram desilusões, dificuldades (deslocou-se nos transportes habituais, toca-toca, candonga e motoreta, cada qual o pior, vive peripécias, é tocado pelo cansaço e come banana-maçã com bolacha pelas tabernas e aí dormita), mas o que viveu de positivo no campo da amizade e dos afectos bastou para encher-lhe o coração de uma indescritível satisfação.

Esta peregrinação (capítulos “Lesto Lesto” e “Gandaressa”) a locais concretos está plasmada de emoções que pingam forte sobre o avivar da memória e acontecimentos que ocorreram, nos dois anos que permaneceu na zona, e que ele revive, na serenidade dos dias, no grande capítulo Xaianga. Onde fala dos dias difíceis, do sangue derramado, das operações conseguidas e das operações falhadas; do dia a dia na construção de Missirá e das embocadas montadas e sofridas. Mas também do amor, quando recorda o seu casamento na catedral de Bissau, com a presença inesperada e discreta da mãe e de uma das irmãs de Amílcar Cabral, que, muito solícitas, ajudaram a noiva a aconchegar um ramo de orquídeas no altar de Nossa Senhora. Por Bissau, cidade que já achou descaracterizada em 1990 e 1991 e cuja degradação se acentua, deambula, aproveitando as viagens ao QG, descrevendo paisagens, gentes, sonhos, cores, cheiros, locais, movimento, que também é o lúdico e lúcido recheio deste livro que, no seu todo, mostra na pequenez da sua quadrícula, a dimensão perigosa e mortífera da guerra nesta ex-colónia. Constitui-se assim um inegável contributo e muita valia para a sua cabal história.

Só uma mágoa lhe restou desta notável e arrojada viagem-peregrinação aos locais da guerra, (matas e bolanhas) onde nem sequer falta o registo de aspectos de cariz etnográfico: o tempo não chegou para visitar todos os lugares que gostaria de rever e os amigos recusam-se a acreditar que seja o derradeiro adeus, que Beja Santos fez querer que fosse. A despedida, trocando as voltas ao autor, uma partida dos ex-milícias, foi em local mítico, Mato de Cão, para onde corriam constantemente, de modo a permitirem a navegação no rio Geba…Houve rios de comoções e emoções, quentes lágrimas e fortes abraços.

Um livro que se lê de fio a pavio, de alma em ânsias, um testemunho que comove e empolga, páginas que desnudam também a alma lusitana, na universalidade das emoções e do esquecimento de factos que lhe foram adversos, um apelo muito profundo a todos quantos, um dia, andaram de armas na mão, para uma reconciliação consigo próprios e com os outros que lutaram em trincheiras opostas. Afinal, uma grande e ousada prova de amor que a história jamais esquecerá.
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Notas de CV:

(*)  Armor Pires Mota foi Alf Mil na CCAV 488, Mansabá, ilha do Como, Bissorã e Jumbembem, nos anos de 1963 a 1965, autor de inúmeros livros entre os quais: Guiné, Sol e Sangue, Tarrafo, Bagabaga, Cabo Donato Pastor de Raparigas, A Cubana que Dançava Flamenco, Estranha Noiva de Guerra.

Vd. último poste da série de 24 de Setembro de 2012 > Guiné 63/74 - P10428: Notas de leitura (409): "Comandante Hussi", de Jorge Araújo (Mário Beja Santos)

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Guiné 63/74 - P10374: Notas de leitura (401): "A Viagem de Tangomau" de Mário Beja Santos - Entre o Relatório e a Ficção (2) (José Brás)

1. Segunda e última parte da apreciação do livro "À Viagem de Tangomau", a última obra do nosso camarada Mário Beja Santos, feita pelo outro nosso camarada José Brás, ele próprio um autor muito importante na bibliografia da Guerra do Ultramar (ou Colonial). 


ENTRE O RELATÓRIO E A FICÇÃO  (2)

"A VIAGEM DO TANGOMAU" - uma obra prima

Por José Brás

Deixando para trás comentários velhos e por provado que o pormenor levado a tal extremo, não é exagero mas virtude em Tangomau, volto à minha confirmando que tal Tangomau podia ser ou podia não ser eu, de facto, malgrado outra coisa ter dito no início desta conversa que aqui vim ter convosco sobre o livro do Mário, lembram-se, - a minha grande perplexidade perante este livro e perante as suas personagens, o sobretudo o Tangomau, vem da descoberta de um homem que, com alguns pontos de toque comigo próprio, visto assim, é um ser diametralmente diferente de mim, este leitor que agora escreve sobre o que leu e que, obviamente, vivendo por esta via o que viveu por outras e reais, o autor, se modifica também um pouco e ganha opinião, provavelmente diferente da que teria antes da leitura -.
Tangomau, aquele que morre ausente ou desterrado da pátria, não podia ser eu tal como fui na Guiné, não um Alferes atirador e Comandante de um Pelotão de Caçadores Nativos e de um outro de Milícias, numa zona de tudo desprovida menos de acção de combate, de sangue e de dor, sofridos ou infligidos, mas um Furriel de Transmissões de uma Companhia de Caçadores num outro lugar também vazio de referências e de conforto e também agitado pelo combate, pelas mortes e pela dor. Não podia porque foi diferente a abordagem que fiz à guerra, daquela que fez Tangomau.

Na obrigação de comandar muita gente e de cumprir a missão junto ao Geba, salvando o que fosse possível dos sinais de civilização que transportava e das vidas dos seus comandados sem faltar nem um dia ao cumprimento das obrigações que lhe atribuíram, Tangomau tem que mergulhar até ao fundo naquela transformação humana que detectamos na leitura do livro, tornando-se num homem diferente do que fora e até do que imaginara ser, tornando-se num N’Bakê, disponível para matar e morrer e também para abraçar os seus homens e com eles chorar o choro balanta, mandinga ou fula, regressando a Lisboa, aparentemente o mesmo que partira, mas na realidade outro.

Eu, aceitando a guerra porque recusava a fuga, embarquei como civil e tanto quanto pude vivi na Guiné como civil, rejeitando a vida local, sem farda por fora nem por dentro da pele que me cobria, e um claro sentimento de admiração pelos que lutavam, alegadamente pela liberdade do seu povo.
Com isto terei voltado o mesmo que partiu? Creio bem que não e ninguém poderia ter voltado o mesmo que partira para tal missão. Voltei outro, seguramente, porque combati, porque disparei, porque fiz emboscadas e embosquei a gente que admirava, vi os seus mortos e estropiados, as suas culturas e casas destruídas, e, pior, vi os meus próprios mortos e neles morri também um pouco para continuar vivo mas outro inevitável, diferente do que partira e também diferente do Tangomau na volta.
E sei que, mesmo eu, se tivesse tido uma experiência diferente na Guiné, seria ainda outro no regresso, igualmente diferente do que partira, mas diferente também do que regressou de facto.

Por exemplo!
Na recruta nas Caldas eu era sem dúvida o melhor instruendo dos sessenta do meu duplo pelotão, tanto no aspecto físico, como nos testes escritos. Toda a gente o sabia e toda a gente pensava que eu iria ser enviado para Mafra para graduação em Aspirante. Vinha de muito exercício físico, quer da vida de aldeia nas vinhas de Alenquer, quer no remo de competição no Tejo de Vila Franca, na corrida, na prática do boxe, na actividade taurina de forcado a quem “calhavam” sempre os toiros duros e grandes.
Fizera o Liceu a pulso, os dois primeiros ciclos, cada um num ano, e frequentava a alínea F do 3.º ciclo quando me enfiaram no quartel. Vinha com provas e o Comandante do Pelotão sempre me transmitiu a ideia de grande consideração. Porém, próximo do fim da recruta, o Cabo Miliciano que secundava o Alferes na condução da instrução, confidenciou-me que este hesitava muito porque tinha dois outros instruendos, professores da escola primária como os pais do Alferes que ele tinha de proteger.
Resultado! Não fui para Mafra onde seria atirador e fui para Transmissões. No dia em que o Alferes, excelente pessoa, digo, juntou o pelotão para comentar o futuro de cada um dos seus instruendos, desabafou que a única surpresa dele era eu que ia para Transmissões, podendo dar um grande Comando.
Disso recebeu o troco de um enorme grupo de instruendos que lhe fizeram notar que a culpa era dele, Alferes por não me ter enviado para Mafra.
Na altura fiquei chocado com a repetição na tropa dos mesmos tiques sociais do civil e porque o pré seria bem mais baixo, o que fazia toda a diferença para quem vivia apertado. Mais tarde pensei que afinal o homem me havia feito um favor pela diferença dos riscos, coisa que em Aldeia Formosa e em Medjo não se notava, uma vez que fazia todas as colunas a Buba e a Gadamael Porto e ainda ia algumas vezes às operações voluntariamente e apenas pela sede de adrenalina, pela curiosidade sobre as situações de combate, por solidariedade com amigos estoirados e mesmo por uma ou outra loucura.

Este trecho que aqui vem, aparentemente a despropósito, não tem apenas o objectivo de teorizar sobre as diferenças entre cada qual e comprovar o que disse atrás, mas mesmo de navegar na busca de diferenças que podem ocorrer mesmo com um só cidadão na possibilidade de pressupostos e vivências diferentes.
Que poderia ter-me acontecido, se em vez de Furriel de Transmissões me tivesse calhado ser Alferes atirador, muito provavelmente tropa especial, atirado para um sítio qualquer a comandar pelotões de Caçadores Nativos e intervindo em combate com as responsabilidades das missões e das vidas dos subordinados?
Hoje resta-me a lástima de reconhecer que me entreguei pouco àquela gente, a conhecer os seus costumes e culturas, a entender-lhes as aspirações e objectivos, as suas verdades e mentiras, a todos e cada um deles, e de não ter sido seu um amigo engajado. Trajando à civil a maior parte do tempo, recusando convívio com tropa profissional, perdido no afã da recusa, vivi apenas na ânsia de voltar à terra de onde saíra e de esquecer que aquele tempo tinha existido, coisa que, como se vê, não aconteceu a Tangomau.
O relatório...


Agora, a ficção!

A ficção que não pode desligar-se do clima que o relatório definiu, em lugares, em tempos e em modos. Em modos das gentes, já se vê, porque as gentes, e neste caso, principalmente o Tangomau, são o único e verdadeiro motivo de qualquer escrito, seja ele relatório, seja ele romance, partes, aliás, diferentes mas intrinsecamente ligadas à realidade real, num caso relato directo e sem arredondamentos psicológicos ou condicionantes possíveis mas não efectivas, e o outro, especulando, desenhando hipóteses outras e caracteres morais e intelectuais que podem explicar a realidade. E não se tenha o Relatório que atrás vem referido por mim na relação do que li, como peça menor na armadura do que aqui se pretende dizer da Ficção. Nenhum personagem de ficção, muito ou pouco realista, mesmo que muito romântica, terá grandes hipóteses de amar ou de odiar, de escrever ou de guerrear, de cavar terra de vinha ou de sonhar, se respirar outro ar que não seja nesta mistura de setenta e um por cento de ozono, vinte e um por cento de oxigénio e de um por cento de gases raros.
O Tangomau vai despejado de um ambiente citadino, só por acaso muito culto, dessa cultura que se tem como imagem, construída no S. Carlos, no Teatro Nacional, nos museus e galerias, nas tertúlias, nas grandes leituras, na missa da Sé ou da Basílica da Estrela, também com um fino pó de progresso que estas vidas podem ter, com podem ter o seu preciso contrário, e cai na floresta sub-tropical da Guiné a comandar soldados negros que haviam ficado de um lado da contenda como poderiam ter ficado na outra, obrigado, portanto, a instruí-los no combate contra os seus irmãos de sangue ou de vizinhança; obrigado a defender-lhes a vida; obrigado a sofrer-lhes as dores e sofrimentos e a partilhar o nada que tinham para viver ao tempo, nesses simulacros de acampamento, a calcorrear quilómetros de lama e de trilhos, a sofrer os mesmos mosquitos e a mesma febre palúdica; aprendendo com eles a raiva do combate, a ansiedade da espera, o regresso exausto da operação na felicidade dissimulada sob a pele, na certeza que se volta vivo e inteiro, por fora, ao menos. Dois anos desta partilha maltesa, desta quase certeza de uma bala perdida, um fornilho armado, uma noite sem jantar, uma fé que vacila.

E que faz um branco, militar, oficial subalterno nesta tropa fandanga, neste simulacro de vida, neste patriotismo de dúvida e com inimigo que se odeia e que se ama como só ama quem odeia e só odeia quem ama, sobretudo se Pátria aqui é uma abstracção diluída no calor abafado e no capim apodrecido de uma bolanha de mais sangue que arroz?
Transforma-se em ficção. Busca-se nos outros que tem em si e que não conhecia, nem em Lisboa nem em Mafra, nem em Ponta Delgada.
Tenta encontrar-se nos Sancó e nos Fodé, apurar os sentidos no cheiro de enxofre que lhes sobra das partes dos corpos com sua carne em falta.
Ficciona-se obrigatoriamente nesse tempo de transição de branco quase doutor nas calçadas de Lisboa, para esse M’Baké, soldado negro combatendo no lado errado da terra de ninguém na lalas do Cuor, e de novo branco no regresso do Uíge, aos baldões de uma vida nova para refazer no puto, sentindo a falta desses eus que deixou nas matas e nas mãos de seus soldados, tendo que reinventar-se, não a partir do que havia deixado mas do que restou do combate, sempre com um pé cá e outro lá, no eco das balas disparadas, das alegrias e das tristezas que lá deixou como bagagem a mais que sempre nos pesa nas mãos e na alma na ilusão de se possa recuperar.

E é dessa ilusão de recuperação que o herói (todo o herói) vive nas esquinas circunstanciais do tempo e do modo. Uma ilusão que dói e que une todos os que daqui partiram jovens e regressaram velhos, julgando-se todos os dias na possibilidade de regressar aos cheiros, aos trilhos, aos medos e à camaradagem.
O Tangomau regressa ao passado, antevendo a festa do reencontro e a euforia dos lugares e das memórias.
Mas nem os lugares são os mesmos nem as árvores escondem já inimigos.
As vidas mudaram, ainda que não para melhor ou para maior esperança. Tangomau espreme o limão do convívio e da festa até ao âmago, na generosidade e na imagem dessa gente acossada. Dentro de si o abraço vai até ao último fôlego, até às pontas dos dedos que resistem teimosos ao despegar, sentindo já a melancolia da separação que ainda não se deu, a saudade que lhe irá doer nos dias, nas semanas e nos meses seguintes, como se aquela terra e aquela gente lhe corresse nas artérias entre a boca e as células e se escoasse pelas veia abertas na hora da partida.
Só agora, na última viagem, se completa o herói, acabando o filme e o espectador saindo da sala na imaginação ainda do mistério depois do “the end”.

Aparentemente, as vidas que viveu entre Teilhard de Chardin e conversas com Ruy Cinatti, as viagens de lambreta de Mafra e Lisboa, o romance e “a primeira vez” com a prostituta Maria Luísa em S. Miguel, as patrulhas, as emboscadas, os golpes de mão, as flagelações, um casamento de malucos em Bissau entre duas operações de guerra, a psiquiatria simulada, estão fechadas.
Vendo bem, nem existiram nunca. Nem Finete nem Mato de Cão, nem Missirá nem Bambadinca, nem floresta de galeria, nem bolanhas de arroz, nem colónia, nem mandigas, nem balantas, nem guerra colonial.
Portanto, é falso o Alferes Lopes Ferreira, em Mafra dando instrução de ordem unida, de armamento, de batidas em linha ou em coluna, de guerra subversiva, de tática; São criação pura o Furriel Saiegh, o cozinheiro doutor Quebá Sissé, Infali Soncó avô de Malan, Mamadú Balde passeando na Feira Popular de braço decepado, a conversa com o padre Lâncana Sancó acompanhada de fatias de pão quente, talhadas de marmelada e chá de erva cidreira.
O Tangomau não podia ter passado dois anos da sua existência dormindo em tarimbas improvisadas em moranças de colmo, e quartéis/tabanca, entre dois ou três furriéis brancos, soldados negros e suas mulheres/criança, criançada da barriga empinada, armas prontas para o fogo, galinhas e porcos e cabras, porque o Tangomau nunca existiu, nem o PAIGC, nem a guerra, nem o regime que a forçou. Ninguém iria lembrar-se de se por a ler Simenon, Sartre, Steinbeck, Florbela, J. D. Salinger, Mickey Spillane, Camus, nos breves intervalos da instrução sobre granadas, sobre metralhadoras, sobe a eliminação de sentinelas a faca de mato, em Mafra. Ninguém se poria a ouvir Montverdi, ou Bach, ou Mahaler, ou Shostackovich, entre duas patrulhas nas margens do Geba.

Só uma imaginação muito livre poderá entender que balas tracejantes em ataque do PAIGC destrua parte de Missirá, morança a morança ardendo em labaredas altas, alimentos, livros, roupas civis de militares e fardas militares de civis em andanças de guerra, discos de música clássica, tudo ardendo inexoravelmente pelo meio dos tiros de lá e de cá, rebentamentos de morteirada, gritos de gente, deixando cada qual com a roupa do corpo, apenas, alguns em cueca velha e sem mais nada que os cubra além da santidade da situação, até que socorro de fora se arrime no fim do fogachal e reponha trastes, paparoca e algum ânimo.
Tangomau é uma abstracção.
“Tamgomau é um ser que quando chega a adulto passa a viver entre a civilização dos brancos e os mistérios mais profundos das culturas nativas, numa avenida ou rua qualquer da tal civilização dos brancos, sente cheiros tropicais, deslumbra-se com o arvoredo da floresta de galeria, não teme a cobra verde nem a surucucu, é capaz de ficar pasmado diante do poilão sagrado, está sempre a pedir papaia e água fresca da fonte…”

Tangomau é um tempo limite entre dois espaços geográficos e culturais separados por milhares de quilómetros de água de mar, por séculos de ocupação e de resistências, de muitos sinais do sangue que homens feitos inimigos colheram uns nos outros, deixando como marcas nos seus corações até que o oxigénio dos tempos purificou e tornando possível o abraço.

Tangomau, há quem chame a Beja Santos, hoje e aqui deste lado ainda vivo de uma guerra apodrecendo, como haviam chamado antes, outros e no outro lado da mesma guerra, N’Baké, alfero, irmão.

A partir deste livro, as cartas dos jogos que ainda se batem no pano incolor da memória imperial, ganham novas qualidades e enchem-se de trunfos em todos os naipes.

Espantoso Relatório sobre a praxis de uma guerra cheia de contradições que se iniciava nos quartéis do rectângulo entre coronéis de proeminentes barrigas mentais e jovens licenciados saídos da Universidade e da vida já com luzes mais evidentes sobre o homem e sobre o mundo; entre os velhos Manuais de Instrução Militar e uma realidade histórica que os negava; entre eucaliptais e caminhos velhos de um País esgotado onde se disparavam Mausers e se aprendia a escolher a zona de morte, e a floresta de galeria da Guiné.

Ficção habilmente montada sobre uma realidade que a ultrapassaria, não fora a mão cuidadosa do autor que a constrói num jogo de faz de conta que foi o que realmente foi, e nos retrata, a cada um que palmilhou matas e tarrafos; que contou todos os dias até ao seu regresso; que se julgou inteiro na volta e só depois se apercebeu das costelas que ficaram a faltar-lhe porque, não sabe porquê nem como, as deixou nas cartas militares do seu turismo de fogo na Guiné, e naquele gente negra que com ele ou contra ele se bateram de armas na mão em nome de um travão da história.

José Brás
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Notas de CV:

José Brás foi Fur Mil na CCAÇ 1622, Aldeia Formosa e Mejo (Guiné) entre 1966 e 1968

Mário Beja Santos foi Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca (Guiné) entre 1968 e 1970

 A não perder, a leitura da primeira parte deste texto no poste de 12 de Setembro de 2012 > Guiné 63/74 - P10369: Notas de leitura (400): "A Viagem de Tangomau" de Mário Beja Santos - Entre o Relatório e a Ficção (José Brás)

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Guiné 63/74 - P10369: Notas de leitura (400): "A Viagem de Tangomau" de Mário Beja Santos - Entre o Relatório e a Ficção (José Brás)

1. Integrada na série Notas de leitura, vamos publicar, em dois postes, uma apreciação "À Viagem de Tangomau", a última obra do nosso camarada Mário Beja Santos, feita pelo outro nosso camarada José Brás, ele próprio um autor muito importante na bibliografia da Guerra do Ultramar (ou Colonial). Porque, sem dúvida, estamos mais uma vez perante uma excelente prosa do camarada José Brás, infelizmente para nós, às vezes um pouco arredado do Blogue, chamamos a especial atenção aos nossos leitores para esta forma diferente de abordagem a um livro.


ENTRE O RELATÓRIO E A FICÇÃO 
"A VIAGEM DO TANGOMAU" - uma obra prima

Por José Brás

Título danado, este que aqui ponho. Raios me partam!
De onde me virá esta desgraçada tendência para a secura e para a dureza, algumas vezes mais parecendo mesmo uma busca qualquer de desamor, ou pelo menos de incompreensões e animosidades variadas, quando entro na discussão do homem, da sua história conhecida, dos seus anseios, dos trambolhões que dá em cada dia do seu calvário, e também das suas supostas alegrias e vitórias, que a mim sempre me parecem pequenas, comparadas com o que deveriam ser no seu projecto de Deus?
Digo isto, indo nós ainda no princípio desta arenga, desta conversa de mesa de cabeceira, pode dizer-se porque o principal da leitura que fiz ao livro do Mário, a fiz na cama, noite fora varando o silêncio da mata de sobro que enreda o Monte Moinho do Meio.
Andando eu, ainda, às voltas com o título que lhe quero pôr, mais ou menos decidido que possa estar no que, encimando, se pode ler, e já aqui tenho o anúncio desta cagança velha, quase tão velha como eu, na aparência de patada inesperada.
É que as palavras têm peso, cada uma por si se estiver só mas variando quando se juntam a outras. Variando no significado, no sentido, na intenção de quem as junta, na música interior dos sentimentos de quem as lê, sobretudo se quem as lê ou ouve, as sente para si escritas ou para amigos próximos, queridos amigos ou apenas conhecidos de estórias bem ou mal contadas.

E até, diria mais, mesmo que não me abalance a profundidades teóricas, digo que as mesmas palavras postas no conjunto em posições diversas, podem verter-se em gritos de raiva ou em lamúrias, em casos fora deste, evidentemente, como uma equipa de futebol em que troquem as posições, os defesas, os médios e os avançados.
Experimentemos com as que constam do título e do subtítulo presentes, peguemos nelas, mudemos-lhe a posição no conjunto e avaliemos se o que se dizem é o mesmo! Então, por exemplo…


A VIAGEM DO TANGOMAU
- uma obra prima entre o relatório e a ficção

Podemos começar já a comparação desta hipótese com a da primeira escolha, e, de mão sobre o coração e cabeça limpa, neste fórum em que cada um vai ter que se defrontar consigo próprio, ponhamos prós e contras a ver se os eus que temos e nos têm, se se entendem nas variáveis do jogo proposto.
Por exemplo! A mim, ou a um dos de mim, me parece que estas duas propostas se encontram em extremos opostos na possível objectividade de uma interpretação asseada. Na primeira, até parece que, quem escreve, suponhamos que nem sou eu, quererá marcar desde logo uma cor de negativo na apreciação do que vier a produzir-se como opinião.

ENTRE O RELATÓRIO E A FICÇÃO, assim, sem mais nem menos, como marca inicial, sabendo como sabemos que a primeira imagem é quase sempre a que perdura na cabeça de quem vê, de quem sente, de quem guarda o que vê e o que sente, e que, por um lado, relatório traz consigo o ferrete de coisa menor como escrita, formal e sem ponta de liberdade criativa na forma, no estilo e no conteúdo, e que ficção é quase sempre coisa tida como fruto de imaginações fora do quadro de um real que nos cerca e esmaga à maioria, largas vezes resultado de um outro lado de uma extremada liberdade criativa.
Só depois aparece, em itálico e maiúsculas menores, o título da obra, A VIAGEM DO TANGOMAU a que se acrescenta a qualidade de obra prima, na verdade, qualidade já emparedada no espaço imaterial que fica entre um relato objectivo e uma ficção sem ferramentas de medida.
Mas experimentemos outras hipóteses, ainda que isto possa parecer um exercício meio-maluco de quem instalou na cabeça uma certeza a que agora quer sujeitar as variantes possíveis de forma a fazer a verdade única da coisa.


A VIAGEM DO TANGOMAU
Entre o relatório e a ficção - uma obra prima

E que dizer desta outra tentativa de busca de uma solução clara, rigorosa e justa, como imagem primeira, A VIAGEM DO TANGOMAU, de quem quer dar opinião honesta sobre o que leu; sobre as emoções que viveu, lendo; sobre a minúcia do relato do acontecimento objectivo, dos transes circunstanciais de situações extremas, dos personagens reais-quase-imaginação, dos sentimentos, das aflições, das carências absolutas, da paisagem avassaladora, da solidariedade, da fraternidade, da consciência de um humano profundo em cada homem-quase-deus?
E que dizer também da qualidade da escrita, do respeito pelas regras da construção literária no meio de tamanha exaltação de almas, do talento em que evolui a minúcia longa do descritivo, seja do armamento; seja da fisionomia dos homens e das suas qualidades intrínsecas ou aparentes; seja da paisagem espantosa; seja do risco e da iminência do perigo radical; seja da violência com que se enfrenta e elimina o inimigo a quem não se odeia?
Entre o relatório e a ficção, aparece, assim, atenuado pelo que tem atrás, o principal do bolo, e seguido da cereja definitiva que contrapõe e dilui os exageros de (pré)conceitos que carregam, em cada um que lê, de seu modo, relatório e ficção.


Uma obra prima - entre o relatório e a ficção A VIAGEM DO TANGOMAU

Aqui, já nem parece aconselhável continuar o jogo, tão evidente me aparece a possibilidade de diferenças nas minhas próprias leituras, e, mais ainda, nas leituras de cada qual, receptor do que aqui ler e, melhor, se comprou o livro e lhe deu a volta.
Pior ainda, é, querendo eu emendar a mão, arredondar, adoçar o título, fazer a experiência de tirar palavras que carreguem negativamente o que devo dizer, e ver-me na dificuldade de não ser capaz de o fazer.
Por exemplo, o título do livro, A VIAGEM DO TANGOMAU, tem, obrigatoriamente, de permanecer e ninguém discordará disso, aposto singelo contra dobrado.
Uma obra prima, dê lá por onde der e seja lá qual for a vossa opinião, não a tiraria daqui nem a tiro, porque é mesmo isto que penso do livro que acabo de ler, ainda que possa desconfiar da minha insipiência crítica, seja por falta de ferramentas teóricas de análise; seja por falta de distanciamento que a emoção da leitura roubou; seja, até, por alguma espécie de insanidade intelectual que me possa ocorrer nesta etapa da vida.
Entre o relatório e a ficção… se pudesse, seria talvez a parte que aceitaria apagar se a isso fosse obrigado em exigência incontornável.
Mas não tiro!

Primeiro, porque ninguém me obriga, e, segundeiro (sic), porque quando leio este livro de viagens, sinto-me um pouco, desculpem os que me julgarem exagerado, sinto-me um pouco como ao ler Fernão Mendes (ou Mentes?) Pinto na sua sublime “Peregrinação”. Quero eu dizer com isto que nunca sei se a quantidade, o rigor e minúcia das peripécias dramáticas das mil viagens e dos personagens delas, são realidades que ultrapassam a ficção ou se são ficção que, na ânsia da busca do mais fundo do humano, recua até se emaranhar na própria realidade, misturando o profano e o sagrado porque caminhando para Deus, ainda que Deus se unifique no ideal dos muitos deuses que conduzem as ânsias e os gestos dos humanos que se cruzam na paisagem, nas dores e nas alegrias e se prolongam e confundem uns nos outros.

E a minha grande perplexidade perante este grande livro e perante as suas personagens, o Tangomau, sobretudo, vem da descoberta de um homem que, com alguns pontos de toque comigo próprio - a preocupação com o mundo, a procura desse fio que haveria de ligar todos os seres sobre a Terra porque todos buscando a felicidade e o caminho para o Infinito; a sede de justiça social; a aflição pelos horrores do crime colectivo se não erguessem eles próprios os muros que os separam irremediavelmente -, e de um homem que ao mesmo tempo e em aparente independência de razões e de razão, se assume herói numa guerra cruenta e distante do seu passado individual, se adapta à ideia da morte e da aniquilação de um inimigo de quem desconhece quase tudo, e da aniquilação de si próprio, na consciência de que, quem mata, se mata a si também, um pouco em cada bala, um pouco em cada emboscada, um pouco em cada noite de espera pelo inimigo que é seu mister eliminar, ainda que possa renascer também um pouco de cada vez e sair da experiência um outro, se não no talhe da figura, pelo menos no olhar e na alma que o comanda.

E esse homem, visto assim, é um ser diametralmente diferente de mim, este leitor que agora escreve sobre o que leu e que, obviamente, vivendo por esta via o que viveu por outras e reais o autor, se modifica também um pouco e ganha opinião, provavelmente diferente da que teria antes da leitura.
Mas para entender tal diferença entre os dois, é necessário que deixe para trás a preocupação com o título do que aqui se escreve, e passar à releitura do livro, tentando conhecer um Tangomau que ainda o não é, distraído no quotidiano da urbe grande com suas representações de vida e de morte, nas letras, na música, nas artes em geral, na aquisição de algum saber científico, na preocupação do sustento, nas relações e nas convenções sociais que o ligam à família e aos amigos, em círculos que sempre se fecham mais facilmente do que abrem…

E passar à ideia da entrada no serviço militar, nessa altura já e o mesmo que a entrada na guerra em África, pela quase certeza de ter que a viver num futuro muito breve, e ter de a assumir no quotidiano de um mundo novo e também desconhecido até aí, nos tempos, nos lugares, nos modos; nas regras sociais internas, regulamentos, valores, práticas, aprendizagens intensivas que haviam de contrariar as do civil, cidadão e urbano culto que crescera homem exaltando a vida e o amor entre as gentes.
Há que acompanhar a sua transformação no seio de uma sociedade hierarquizada, potenciadora da submissão aquiescente e da prepotência dos poderes, que grassava nos quartéis de Lisboa e arredores, e nos quartéis do mundo inteiro, acho eu, geradora de uma cadeia de comando em que o de cima esmaga o de baixo e o de baixo se submete ao de cima em nome do RDM e dos altos desígnios pátrios das Forças Armadas como um dogma total e irrecusável.

E embarcar com ele para o calor da Guiné, sentir-lhe o espanto no mergulho vertiginoso da comodidade de Lisboa ou da pacatez de Ponta Delgada e da travessia marítima em primeira classe, para um Bissau ainda assim-assim, até ao aparente vazio do Cuor, no calor sufocante de uma viagem fluvial pela estranha e longa nomenclatura dos lugares que ladeiam o Geba, adentrando a mata e o risco, até Bambadinca, até à bolanha de Finete, avançando sempre como se às arrecuas nos sinais de civilização, de olhar espantado, a custo tomando nota, descobrindo o anúncio daquela guerra tonta, de milícias, de armamento tosco, de palavrear novo, de cumprimento gentílico, de desconforto absoluto, de andança permanente na lala, na floresta de galeria, na embosca, na armadilha, no combate inevitável e na inevitabilidade da raiva, da dor, do amor, do ânsia de aniquilar um inimigo escorregadio, na sua rápida progressão de branco em negro, na proximidade do caos e na consciência absoluta de o combater e de se salvar, ao mesmo tempo mandinga, balanta, fula, alferes e milícia, um negro de Missirá, de Finete, da aldeia do Cuor, de Mato de Cão, dos lugares onde matou, morreu e renasceu outro, e um branco das salas da cultura de Lisboa onde se salvou, de novo renascendo, não o mesmo que partira dois anos antes, nem o que renascera dos corpos decepados de seus soldados negros, mas um novo, na justificação plena de que Tangomau não é “aquele que morre ausente ou desterrado da pátria”, mas um outro que tendo-se da Pátria desterrado, a manteve sempre em si na provação, e a devolveu aos seus mais clara e justa.

Porquê, então, o RELATÓRIO do título desta abordagem?

Lembro-me de ter lido de um camarada do blogue, Henriques da Silva, um magnífico texto de abordagem ao livro do Mário que, entre muitas palavras de agrado e de positiva opinião sobre a leitura, tocava na questão da minúcia e do pormenor, considerando - Detecta-se uma certa "overdose" no que concerne as descrições exaustivas das armas e mecanismos das mesmas…” Mauser, G3, Dreise, Breda, Vigneron, bazooka, lança-granadas-foguete, morteiros, granadas ofensivas e defensivas, suas peças desmontadas e remontadas, limpeza, utilidades, performances, peso. As ferramentas de um suposto combatente, pás, machadas-picareta, artefactos antigos ou modernos de uma guerra que se teria de assumir por inteiro.
Lembro-me também de, em comentário, ter eu concordado com Henriques da Silva nessa abordagem, excepto na afirmação da “overdose” das descrições, comentando, então, “Partilho inteiramente a opinião de Henriques da Silva, quanto à qualidade da obra literária em apreço, seja qual for o ângulo porque a queiramos analisar, mesmo estando apenas acerca de metade da sua leitura.
Discordo da apreciação que faz a um alegado exagero de pormenor na descrição do armamento e de outros dados, episódios, paisagens e pessoas. Penso mesmo que tal "exagero", abordando numa riquíssima e dinâmica escrita, quase nos pondo nas mãos, nos olhos e na alma as coisas a que dá vida, é mesmo um achado imprescindível que eleva o livro a um nível muitíssimo elevado.”

E eu acrescento aqui e agora os exercícios e as manobras, a prática de patrulhar, de emboscar, de reagir ao fogo, de atacar em golpe de mão ou …
E acrescento ainda a paisagem, o envolvimento, o Convento, a Tapada, os itinerários de vinhas ou de mar-à-vista na Região Oeste, de tabancas de gente pobre da Guiné, de arrozal, de floresta quase virgem, de rios que serpenteiam paralelos ou se cruzam, se continuam, de tarrafo, de bolanhas.

E ponho mais ainda os teatros de Lisboa, as peças e os actores, os filmes, a música de Pucini e seus cantores, as bibliotecas, as tertúlias literárias. Ou Ponta Delgada com sua praxis, sua cultura às claras ou na sombra dos dias, a arquitetura da cidade e, de novo as salas de música, os museus, as famílias. E Bissau com seus edifícios, suas avenidas, Pidjiguiti, alguns museus e bibliotecas e restaurantes e hospital e hotel e QG, no Cuor os palmeirais, o poilão, as laranjeiras, a extensa lista de nomes de lugares como o Chicri, Sansão, os Nhajões, Malandim, Gambana, Amedalai, Xime, Madina Colhido, Colicumbel, Taibatá, Canturé, Buruntoni… trilhos e picadas, operações, as cenas de combate, a violência do fogo, as gentes do inimigo abatidas, moranças ardendo, armas apreendidas, e as minas anti-carro no efeito das suas explosões sob GMC’s e Unimogues, sob o corpo de gente nossa, e as fomes e sedes, os medos, o cansaço, o esgotamento físico e psicológico, o antagonismo tribal e religioso, os usos e os costumes, tudo entremeado por citações, pequenas e extensas passagens de obras filosóficas, de romances, de poesia, de evocações de obras de outras guerras, comparações, lembranças de ditos e sentenças, chamados a propósito e em consonância com o que se escreve sobre a vida, seja um chá no Chiado, uma leitura de poesia, uma emboscada em Samba Silate, uma flagelação em Finete.

Pode parecer exagerado o pormenor de tão abundante descrição dos gestos, das coisas, das urbes grandes e pequenas, dos actos, dos exemplos, dos pensamentos, dos sonhos, das raivas, das dores, das mãos que se dão ou se retiram, da busca de razões e das verdades, das descobertas, das confirmações, de Deus e de deuses, do mínimo, das partes e do todo, do outro e de si próprio, uno, múltiplo e repartível.
Pode parecer, sim um exagero.
A mim, contudo, o que parece é que sem isso, sem os pormenores e as minúcias, sem os odores e os sons, sem as texturas, as formas e os volumes, sem os tempos e os lugares exactos de cada peça, de cada arma, de cada casa, de cada livro lido, de cada concerto, de cada terreno que se pisa, de cada emboscada sofrida ou montada, de cada noite na humidade da mata, de cada patrulha, de cada choro, de cada praga, sem estas coisas descritas ao pormenor da realidade real, como um gigantesco e plural relatório sobre coisas, gente e animais, como, repito, se poderia, depois, garantir a sua recriação extrema em que o real se aproxima tanto da ficção, que se torna ficção o que é real e real parece ficção.

Como se poderia entender esse homem que de Lisboa parte para Mafra e para Ponta Delgada e para Bissau, cristão, humanista, homem pleno dessa cultura que se constrói pelo belo segundo padrões urbanos, e nessas viagens se vai transformando gradualmente no guerreiro que se completa comandando tropas negras e brancas, mais negras que brancas, diga-se, de tropas negras combatendo outras tropas negras e dela recebe combate total, a bem dizer, irmão contra irmão, em o ódio, em raivas, em juras de morte recíprocas, e também na certeza de que nenhum soldado pode evitar o jogo extremo da vida e da morte, mesmo que sem o amparo de grandes filosofias, de pátrias seguras ou de história longa e assumida?
Como poderia tal branco de Lisboa se tornar guerreiro negro do Cuor, N’Baké, sábio e corajoso irmão do negro com quem jogava a vida de mão dada?
Como, finalmente, se poderia aceitar que se colocasse no título disto a palavra ficção, ainda por cima envolta na afirmação da ideia de obra prima, sem se imaginar que cada leitor se vá envolver profundamente com o viver deste homem e destes homens, brancos e negros, por dentro e por fora brancos negros e negros brancos, com eles respirando os odores do capim apodrecido, sofrendo as picadas de mosquitos, delirando nas febres do mesmo paludismo, na pista do mais profundo que pode ter ser humano, tentando, cada um à sua medida, encontrar-lhe os resquícios dessa mesma humanidade que os pode levar a dizer – este podia ser eu.

Por isso, ainda muito cedo na leitura da obra, enviei ao Mário a peça seguinte que foi posteriormente editada no blogue: - “Acabei de participar na visita que o senhor General te fez em Missirá (1).
E se digo participar em vez de assistir, é apenas porque também lá estava quando descobriste os dois pontinhos que haviam de resolver-se na figura de helis, cavalos de Tróia que haveriam de abrir-se para despejar o homem e essa gente/sombra do do monóculo decorativo.
Aliás, cortava "cibo" convosco porque os cibos que vos davam jeito no reforço dos abrigos de Missirá, eram os mesmos cibos que eu cortava a Sul de Medjo, muito perto de Quebo, uma Tabanca abandonada junto a um dos braços em que o Rio Cacine capricha a Norte, ainda antes de caprichar a Gadamael Porto, mesmíssimos cibos que também nos faltavam em Medjo para os mesmos fins.

Saindo um pouco da tua lavra, meto aqui enxada para de dizer do caricato que foi, nessa tarefa, ter eu atravessado uma água não muito funda e dessa água ter saído cravadinho de sanguessugas, perdendo algum tempo de cigarro aceso numa mão e pauzinho fino na outra, para me livrar das bichas, uma a uma.
Voltando a Missirá (adiantando que outra Missirá tínhamos na estrada Aldeia Formosa (outro Quebo-Buba), Missirá, esta, abandonada também e lugar pouco abençoado para tropa branca, voltando a Missirá, digo, ao teu e não ao do Sul, também eu me espantei com os maus modos do homem, retrato exacto nas perguntas e nas questões que te colocou, desse militar antigo, feito na Academia deles, cheio de empáfia e de mando, mestres duma infalibilidade alejada do real da guerra em que andávamos e que por mais comissões feitas não entenderiam nunca, provando-se dito não sei de quem que eu li um dia "a guerra é coisa demasiado complexa para ser dirigida por militares".

Acabara há pouco de viver a tua revolta contra as parvoíces dessas operações volumosas em que te meteram para atacar Madina, porque também em Medjo se meteram um dia duas Companhias a dormir pelo chão para atacarem Salancaur.
Salancaur ficava a tão curta distância de Medjo que quase os ouvíamos falar na bolanha de arroz que cultivavam com esmero. Por isso, Bissau imaginou que saindo de madrugada, atacaríamos ao nascer do Sol e quase almoçaríamos de novo em Medjo. Afinal, três dias não deram para vencer aquela mata densa, aberta à faca para se poder avançar fora da picada. A fome e a sede começaram a fazer efeito e as evacuações por esgotamento, fome e sede. Acabaram com o plano de Bissau.
Sei que estranharás que afirme lá estar contigo mas confirmo isso a pés juntos, porque a ler-te, sinto o cheiro do capim podre e aquele bafo que dele sai a cada passo; sinto as picadas dos mosquitos que nos atacam nos olhos, no nariz, nos ouvidos e na boca; sinto a majestade daquela mata sub-tropical que nos esmaga e desorienta o passo e a vontade; sinto o sabor do sangue dos amigos estraçalhados pelas minas e basucadas.
E se sinto tudo isso, e muito mais que a insipiência da minha palavra não explica e esta mensagem curta não justifica explicação, apenas porque o dizes tão bem que me repões de pés e de alma no Sul da Guiné e num tempo que talvez fosse melhor esquecer.
Continuarei a caminhar nos meus trilhos de Guileje pela palavra que me falta ainda ler-te, e nem sei se hei-de agradecer-te, se lamentar o tempo e o modo que reviverei recuperando-me aqui como se fosse lá.
Obrigado, Mário”.

(Continua)
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Notas de CV:

José Brás foi Fur Mil na CCAÇ 1622, Aldeia Formosa e Mejo (Guiné) entre 1966 e 1968

Mário Beja Santos foi Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca (Guiné) entre 1968 e 1970

Vd. último poste da série de 10 de Setembro de 2012 > Guiné 63/74 - P10358: Notas de leitura (399): Guiné-Bissau - O Estado da Nação (2) (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Guiné 63/74 - P10335: Notas de leitura (397): A Viagem do Tangomau - Memórias da Guerra Colonial Que Não Se Apagam, de Mário Beja Santos (1) (Carlos Vinhal)

Apresentação do livro "A Viagem do Tangomau", de Mário Beja Santos, no dia 19 de Junho de 2012, no Auditório da Associação Nacional das Farmácias


A VIAGEM DO TANGOMAU – 1

Carlos Vinhal

A Viagem do Tangomau - Memórias da Guerra Colonial Que Não Se Apagam (Temas e Debates/Círculo de Leitores, Junho de 2012) é o último livro de Mário Beja Santos que relata a sua viagem iniciada em Abril de 1967, quando é incorporado, como Cadete de Infantaria, na EPI de Mafra, culminando com a recente visita de saudade à Guiné-Bissau, em Novembro de 2010, com o propósito de revisitar locais, jamais esquecidos, e rever camaradas e irmãos de armas.

O livro começa com os preparativos para a entrada no Serviço Militar, acontecimento que vem alterar profundamente a vida de um jovem funcionário público. Ficamos a saber como foi o seu último dia como civil, as despedidas dos amigos mais próximos, as últimas recomendações das senhoras da família e o arrumo das malas onde não podiam faltar os livros. Chegado o grande dia, foi a viagem de comboio até Malveira e depois de camioneta até Mafra. Somos depois impressionados pela descrição pormenorizada do Convento de Mafra, onde está instalada a EPI, dos seus corredores e salas, respectivos nomes, cores e até cheiros. A recepção aos Cadetes na Escola, a adaptação sempre difícil à nova situação de militar, os camaradas que se conhecem e os amigos que se criam para sempre. A nova vida começa ali mesmo quando se experimentam as peças de fardamento que durante alguns anos irão fazer parte da indumentária. Ouvem-se os primeiro mimos: - A menina vem com uns caracóis muito grandes…, ou: - Vá já ali ao barbeiro, à tosquia.

O início da instrução, a confusão das formaturas, das palavras de ordem, dos toques de clarim para tudo e mais alguma coisa, a ginástica, a aplicação militar, os crosses, a instrução nocturna, a táctica e o armamento. A alegria das idas para o fim de semana, a ocupação dos tempos livres na indispensável leitura e a exploração da Vila da Mafra.

O tempo passa e a Recruta acaba. Começa então a Especialidade de Atirador de Infantaria para este Cadete que entretanto tinha adquirido, apesar de alguns desalentos momentâneos, um traquejo que lhe permitia ver de outro modo o seu futuro como Oficial Miliciano. Sabia que iria comandar um grupo de homens em situação de guerra, pela vida dos quais se sentia já responsável. Com a semana de campo chega ao fim a Instrução, é promovido a Aspirante a Oficial Miliciano, dão-lhe uma Guia de Marcha e uma passagem para o navio Carvalho Araújo que o levará até Ponta Delgada, Açores. Tinha sido colocado no BII 18.

O Tangomau relata-nos com pormenor a chegada, o desembarque e as primeiras impressões que teve da bonita capital da Ilha de S. Miguel. Na apresentação é incumbido pelo Segundo Comandante de gerir a Messe dos Oficiais: - Nosso aspirante, chamo-lhe a atenção que o seu antecessor foi severamente punido, continua devedor de centenas de contos, desmandou-se na contabilidade, dava bifes e boa carne assada praticamente todos os dias, é um bom ensinamento para si, acautele-se, estude as ementas, aprenda a fazer as contas, faça frente ao sargento vagomestre, perca o tempo que for preciso para não ter amargos de boca. O certo é que em pouco tempo acabará “despedido” face à má qualidade das ementas.

Ficaremos a conhecer as deambulações do viajante, o seu modo de disfarçar as saudades da família, onde pontua a senhora sua mãe sempre preocupada com a saúde do filho, os locais de cultura e os livros que devora. A vida no quartel corre sem sobressaltos, marcando-o especialmente o acto da distribuição das sobras do Rancho pelos miúdos que afloravam a Porta de Armas do BII 18 e o fervor religioso daquele povo. Chegado o Natal de 1967, aos recrutas de Santa Maria impossibilitados de irem a suas casas, é-lhes dedicada, por iniciativa do Tangomau, a feitura de um presépio no quartel, o fornecimento das iguarias próprias da Ceia e até distribuição de prendas, dando assim algum alento àqueles homens que passavam o seu primeiro Natal longe da família.

A determinada altura da sua estadia nos Açores, Tangomau é convidado a substituir um conferencista do Continente que não iria comparecer no Ateneu Comercial local para dissertar sobre literatura. Quase irresponsavelmente aceitou, não por não se sentir à vontade a falar sobre o tema, mas por dispor de pouco tempo para se preparar, uma vez que andava em marchas finais das recrutas. Era acima de tudo, no momento, um militar.

O tempo decorre, acaba mais uma recruta, e em Março de 1968, embarcando, outra vez, no Cais de Ponta Delgada no velhinho Carvalho Araújo, regressa ao Continente. O então RI 1 da Amadora espera-o. Será na carpintaria daquele quartel que o Soldado Macieira fará dois caixotes de tamanho generoso para albergar os livros, os discos e a respectiva aparelhagem de som, material este levado para a Guiné pelo Tangomau, que irá ser destruído por um incêndio aquando do ataque a Missirá em 19 de Março de 1969, como adiante no livro será lembrado.

Mais recrutas e semanas de campo, desentendimentos com superiores hierárquicos, inquéritos, ameaças de punição e entram em cena personagens que virão a ter papel activo na vida política portuguesa do pós 25 de Abril de 1974. É também nesta altura (1968) que o Tangomau conhece a Besuga que virá a ser sua esposa e, que após casamento por procuração, irá para Bissau ao encontro do marido onde casarão pela Igreja em Abril de 1970.

Entretanto o dia 24 de Julho de 1968 aproximava-se,  e o navio Uíge esperava o Tangomau para a sua primeira viagem a caminho da Guiné.

(Continua)
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 3 de Setembro de 2012 > Guiné 63/74 - P10319: Notas de leitura (396): "Guiné-Bissau, 3 Anos de Independência" (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Guiné 63/74 - P10194: Notas de leitura (384): "A Viagem do Tangomau, Memórias da Guerra Colonial que não se apagam" (José Brás)

1. Nota de leitura do nosso camarada José Brás (ex-Fur Mil, CCAÇ 1622, Aldeia Formosa e Mejo, 1966/68) a propósito do último livro de Mário Beja Santos, "A Viagem do Tangomau, Memórias da Guerra Colonial que não se apagam":


Acabei de participar na visita que o senhor General te fez em Missirá(1).

E se digo participar em vez de assistir, é apenas porque também lá estava quando descobriste os dois pontinhos que haviam de resolver-se na figura de helis, cavalos de Tróia que haveriam de abrir-se para despejar o homem e essa gente/sombra do do monóculo decorativo.

Aliás, cortava "cibo" convosco porque os cibos que vos davam jeito no reforço dos abrigos de Missirá, eram os mesmos cibos que eu cortava a Sul de Medjo, muito perto de Quebo, uma Tabanca abandonada junto a um dos braços em que o Rio Cacine capricha a Norte, ainda antes de caprichar a Gadamael Porto, mesmíssimos cibos que também nos faltavam em Medjo para os mesmos fins.

Saindo um pouco da tua lavra, meto aqui enxada para de dizer do caricato que foi, nessa tarefa, ter eu atravessado uma água não muito funda e dessa água ter saído cravadinho de sanguessugas, perdendo algum tempo de cigarro aceso numa mão e pauzinho fino na outra, para me livrar das bichas, uma a uma.

Voltando a Missirá (adiantando que outra Missirá tínhamos na estrada Aldeia Formosa (outro Quebo-Buba), Missirá, esta, abandonada também e lugar pouco abençoado para tropa branca, voltando a Missirá, digo, ao teu e não ao do Sul, também eu me espantei com os maus modos do homem, retrato exacto nas perguntas e nas questões que te colocou, desse militar antigo, feito na Academia deles, cheio de empáfia e de mando, mestres duma infalibilidade alejada do real da guerra em que andávamos e que por mais comissões feitas não entenderiam nunca, provando-se dito não sei de quem que eu li um dia "a guerra é coisa demasiado complexa para ser dirigida por militares".

Acabara há pouco de viver a tua revolta contra as parvoíces dessas operações volumosas em que te meteram para atacar Madina, porque também em Medjo se meteram um dia duas Companhias a dormir pelo chão para atacarem Salancaur.

Salancaur ficava a tão curta distância de Medjo que quase os ouvíamos falar na bolanha de arroz que cultivavam com esmero. Por isso, Bissau imaginou que saindo de madrugada, atacaríamos ao nascer do Sol e quase almoçaríamos de novo em Medjo. Afinal, três dias não deram para vencer aquela mata densa, aberta à faca para se poder avançar fora da picada. A fome e a sede começaram a fazer efeito e as evacuações por esgotamento, fome e sede. Acabaram com o plano de Bissau.

Sei que estranharás que afirme lá estar contigo mas confirmo isso a pés juntos, porque a ler-te, sinto o cheiro do capim podre e aquele bafo que dele sai a cada passo; sinto as picadas dos mosquitos que nos atacam nos olhos, no nariz, nos ouvidos e na boca; sinto a magestade daquela mata sub-tropical que nos esmaga e desorienta o passo e a vontade; sinto o sabor do sangue dos amigos estraçalhados pelas minas e basucadas.

E se sinto tudo isso, e muito mais que a insipiência da minha palavra não explica e esta mensagem curta não justifica explicação, apenas porque o dizes tão bem que me repões de pés e de alma no Sul da Guiné e num tempo que talvez fosse melhor esquecer.

Continuarei a caminhar nos meus trilhos de Guileje pela palavra que me falta ainda ler-te, e nem sei se hei-de agradecer-te, se lamentar o tempo e o modo que reviverei recuperando-me aqui como se fosse lá.

Obrigado, Mário
José Brás


2. Nota do editor:

(1) - Da página 228 de "A Viagem do Tangomau":

[...] Pois bem, é no âmbito de todo este processo de crescimento, de inclusão no meio, que num princípio de tarde, estava o Tangomau nos palmares de Cancumba a acompanhar os derrubes de duas palmeiras para extrair rachas de cibe para reforço de dois abrigos, apareceram uns pontos a crescer no céu, ouviu-se o crescente zunir das pás dos helicópteros (eram dois), depois fizeram dança na pista improvisada em frente à porta de armas, lá se foi, prestes, ao encontro dos ilustres visitantes, era o comandante-chefe e versátil comitiva, incluía o comandante de Bafatá. [...]

Título: "A Viagem do Tangomau, Memórias da Guerra Colonial que não se apagam"
Autor: Mário Beja Santos
Edição: Temas e Debates/Círculo de Leitores
Páginas: 518
Imagem da capa: "Recordações de África", aguarela de José Antunes, 2010
1.ª edição: Junho de 2012
ISBN (temas e Debates): 978-989-644-198-2
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Notas de CV:

(*) Vd. poste de 11 de Fevereiro de 2012 > Guiné 63/74 - P9471: Blogoterapia (198): À Tabanca Grande, em primeiro lugar e a todos os que se lembraram de mim e também aos outros que todos os dias se abraçam no blogue (José Brás)

Vd. último poste da série de 23 de Julho de 2012 > Guiné 63/74 - P10184: Notas de leitura (383): "No Percurso das Guerras Coloniais 1961-1969", de Mário Moutinho de Pádua (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Guiné 63/74 - P10142: Notas de leitura (379): "A Viagem do Tangomau - Memórias da Guerra Colonial que não se apagam", de Mário Beja Santos (Francisco Henriques da Silva)

1. Mensagem do nosso camarada Francisco Henriques da Silva (ex-Alf Mil da CCAÇ 2402, , Mansabá e Olossato, 1968/70), ex-embaixador na Guiné-Bissau nos anos de 1997 a 1999, com data de 10 de Julho de 2012:

Meus amigos,
Acabei de ler há já umas semanas, a "Viagem do "Tangomau" do Mário Beja Santos.
A meu ver, é um livro de arromba, com muita força, muito vigor e, sobretudo, muito sentimento, na medida em que, sendo como é, uma obra autobiográfica, percebe-se que está ali o grande acontecimento da sua vida, o que, aliás, também o foi para quase todos nós, saídos da pacatez do Portugal dos anos 60 e atirados, sem saber como nem porquê, para uma África desconhecida, que tínhamos dificuldade em localizar no mapa-mundi, mas que alegadamente era nossa. Por outro lado, para quem conheça minimamente o Tangomau, não é novidade para ninguém que os dois anos de comissão na Guiné-Bissau foram um dos eventos mais marcantes da sua vida. Com efeito, ele ali está, de corpo e alma, da primeira à última página. A sua perspectiva própria sobre a Guiné e os guineenses é uma visão muito humana, empenhada e, porque não dizê-lo, romântica, nalguns aspectos, até, de certo modo, mitificada.

O percurso do Tangomau é o do alferes-menino, trabalhador-estudante, urbano e culto que sai de Lisboa para, depois de várias etapas em Mafra, Ponta Delgada e Amadora, enfrentar em lugares ignotos da África Ocidental, uma realidade completamente desconhecida, em contacto com outras gentes, outros povos, outras culturas e, sobretudo, confrontar-se com a duríssima realidade da guerra, transformando-se num homem, na verdadeira acepção da palavra. É uma metamorfose que se processa ao longo de 3 anos de tropa dos quais dois de Guiné. Depois, já sexagenário, são as recordações do passado e a inevitável peregrinação aos locais de outrora e ao contacto com as gentes de então, que sobreviveram à passagem do tempo.

Porquê voltar? É o tal bichinho que de vez em quando nos morde e que não controlamos. A metamorfose completa-se: de menino a homem, de homem maduro a sénior e neste processo temos um mecanismo interveniente, despoletador e omnipresente - a Guiné e as suas gentes. Acresce que o livro está muito bem escrito. O discurso final de despedida é uma peça notável de oratória que merece ser lida e relida, uma pequena jóia, todavia não é crível que tenha sido proferido dessa forma, pois seria incompreensível para o auditório a que se destinava.

Em suma, é uma leitura que seduz e prende continuamente a atenção do leitor - para mais para quem, como nós - a "geração sacrificada" e já esquecida da grande maioria dos lusitanos -, vivemos situações semelhantes. As descrições de N'banké/Tangomau da Bissau actual e do próprio país pecam, a meu ver, por defeito, porquanto a realidade ultrapassa em pinceladas mais negras qualquer descrição possível. O país na prática não existe. É virtual. E a verdade tem de ser dita doa a quem doer, mas tal tarefa pode talvez ser confiada a outros que se debrucem sobre a Guiné-Bissau actual e sobre o gigantesco embuste que representaram 38 anos de violência contínua e de consequente subdesenvolvimento.

Alguns pontos merecem ser analisados e criticados. Detecta-se uma certa "overdose" no que concerne as descrições exaustivas das armas e mecanismos das mesmas, quando da recruta e especialidade do Tangomau em Mafra. Eu sei, de conhecimento directo, que o Tangomau passou alguns fins de semana no Convento, por não conseguir dominar completamente essas matérias esotéricas, mas, com a devida vénia e sem qualquer demérito para o resultado final que é excelente, há talvez algum excesso descritivo. A profusão de nomes de pessoas e de lugares é de tal ordem que confunde um pouco o leitor (já o dr. Leopoldo Amado o tinha referenciado, de forma simpática, note-se bem, quando da apresentação da obra). O autor podia, por um lado, reduzir a identificação das pessoas e, por outro, apresentar um mapa - ou vários - para que possamos orientar-nos no meio daquele emaranhado de aldeias e povoações, rios e bolanhas, florestas e savanas do Leste da Guiné. Eu que conheci o país, antes e depois da guerra, andei um bocado à deriva com certos lugares que não conseguia de todo em todo identificar.

Como nota final, as fotografias, em extra-texto, mesmo a preto e branco, ajudariam a situar melhor os eventos e as pessoas descritas. Eu fui um dos que disse "não vás," conhecendo como conheço, a Guiné-Bissau actual e as feridas não cicatrizadas do passado, mas o Tangomau foi.

O meu juízo final é, pois, muito, mas muito, positivo. É um livro indispensável em qualquer biblioteca sobre a guerra do Ultramar, colonial ou de libertação nacional - as designações ficam ao critério das opções político-ideológicas de cada um - e eu iria, mesmo, mais longe: a obra é relevante para uma estante de destaque sobre o Portugal contemporâneo, que a memória, não pode por forma alguma, apagar.

Com os meus cumprimentos cordiais e amigos
Francisco Henriques da Silva
(ex-alf. mil., de infantaria CCAÇ 2402)
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 6 de Julho de 2012 > Guiné 63/74 - P10125: Notas de leitura (377): Massacres em África, de Felícia Cabrita (Mário Beja Santos)

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Guiné 63/74 - P9971: Agenda cultural (205): Convite para o lançamento do livro "A Viagem do Tangomau", de Mário Beja Santos, dia 19 de Junho de 2012 no Auditório da Associação Nacional das Farmácias em Lisboa

CONVITE

Lançamento do livro "A Viagem do Tangomau", de autoria de Mário Beja Santos, dia 19 de Junho de 2012, pelas 18h30, no Auditório da Associação Nacional das Farmácias (Museu da Farmácia) Rua Marechal Saldanha, 1 em Lisboa.
Serão apresentadores, o escritor Carlos Vale Ferraz e o investigador Leopoldo Amado.


OBS: - Os interessados na visita guiada ao Museu da Farmácia a levar a efeito pelas 17h30 devem confirmar a sua presença através deste endereço: aferreira@circuloleitores.pt



1. Mensagem de Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70) com data de 28 de Maio de 2012:

Meus queridos amigos,
É com muita satisfação que venho convidar todos aqueles que se possam deslocar no dia 19 de Junho, pelas 18h30, ao Museu da Farmácia, a estarem presentes ao lançamento deste livro que, no essencial, nasceu no blogue.
É um livro de 42 anos de memórias, como numa sinfonia tem quatro andamentos: os preparativos para a guerra, os dois anos no rio Xaianga, a retoma da vida civil e persistente presença de sinais guineenses, a eclosão de todas as memórias e o regresso à Guiné.
É um livro que pertence a dois países, tal a natureza do testemunho. E mais não digo. Apelo à vossa companhia, toda a viagem do Tangomau apareceu redigida em primeira mão no nosso blogue, houve momentos em que me senti numa missão coletiva.
Considero o filão esgotado. O que tenho pela frente é uma empreitada valente, de parceria com Francisco Henriques da Silva, aquele nosso camarada que cobriu de glória a diplomacia portuguesa durante o conflito político-militar de 1998-1999, todos os outros ilustres embaixadores saltaram do barril de pólvora, ele ficou a pé firme, correndo todos os riscos numa Bissau em chamas. Pretendemos elaborar um levantamento documental intitulado “Da Guiné Portuguesa à Guiné-Bissau: Um roteiro”. Uma investigação pacífica, nada de sobressaltos para o coração.

Agradeço antecipadamente o bom acolhimento que possam dar ao meu convite.

Um abraço do
Mário
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 26 de Maio de 2012 > Guiné 63/74 - P9948: Agenda cultural (204): Convite ISCTE-IUL, para o Lançamento do livro digital sobre "Militares e sociedade, marinha e política

terça-feira, 1 de junho de 2010

Guiné 63/74 - P6512: A viagem de Tangomau, o meu próximo romance (II) (Mário Beja Santos)

1. Segunda parte da apresentação do próximo romance de Mário Beja Santos (ex-Alf Mil At Inf, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), A Viagem de Tangomau:


A recepção no convento: passei a ser soldado recruta

O edifício, para se equilibrar, tem portas descomunais, aliás tudo emerge em desmesura, de qualquer ângulo que se aviste, tal o peso dos votos do rei magnânimo. Como se tivéssemos a inteligência das formigas, progredimos em fila para uma porta referenciada, mesmo à direita da escadaria que conduz ao templo. Havia a recordação, muito mais de 40 anos depois, que aquela porta abria para outra porta, também pintada de vermelho escuro, onde os esperava a praxe do comité de recepção. Aliás, tanto quanto ele se recordava, havia um claustro e até uma fonte cristalina, também mesmo ali perto funcionavam serviços públicos, a Câmara Municipal, as conservatórias, coisas assim. Essa recordação parecia-lhe tão decisiva que mais tarde, para deter com alguma precisão o particular e o geral, voltara ao convento, fizera-se convidado da Escola Prática de Infantaria, alegando razões de verosimilhança com tudo o que os cinco sentidos tinham captado. Na visita, o que estava difuso naturalmente ficou mais iluminado, até a lembrança dos sons pelos corredores com nomes alusivos à I Guerra Mundial, o cheiro dos materiais de limpeza nas arrecadações, as portas ao fundo, a ligar com a parada, para o ritual do princípio da instrução, em cada manhã da semana útil.

Quando lá esteve de visita, em Fevereiro de 2010, ainda trazia bem viva a lembrança daquele entardecer em que um senhor que lhe gritou: “Trate-me por nosso cabo!” e lhe disse com a malícia mal contida: “A menina vem com os caracóis muito grandes, isto aqui é uma casa de homens, aqui aprende-se a ser militar, ser militar é ter o cabelo aparado, a barba bem-feita, a farda irrepreensivelmente arranjada, a bota a brilhar. Vá já ali ao barbeiro, à tosquia. O recém-chegado aguentou o embate, resignou-se e foi cortar o resto do cabelo que lhe restava. E depois seguiu para a arrecadação, para receber o fardamento, mais outra peças, como uma arma. Uma voz dominadora, quando sairam todos da arrecadação com um capacete, um capote, uma Mauser com baioneta, fardas, botas e umas coisas que alguém chamou “arreios”, bradou: “Não perca tempo, não questionem, sigam por aquele corredor à direita!”. O Tangomau olhou à direita e à esquerda, era um corredor enorme, nunca mais o esquecerá, aqui vai desenvolver-se o umbigo da sua guerra: é o corredor La Couture.


Ainda hoje me sinto impressionado com esta extensão, a natureza do lajedo, a quase autonomia que as instalações davam a cada uma das companhias de instruendos. Ao fundo, a porta para a parada. Quando aqui voltei, em Fevereiro deste ano, contive a custo a emoção mas não cedi à curiosidade, queria ir às arrecadações, ao refeitório, em ambas as direcções havia o insólito das militares nos baterem a pala... era impensável imaginar-se mulheres naquele convento, dos anos 60.

Esmagado pela carga, segue docilmente outros que procuram a caserna que dá pelo nome de “a capela”. A subida não é fácil, são vários lanços de escadas, caem sacos, capacetes, desprendem-se capotes. Ouve-se o murmúrio da água, escorre em bica, alguém diz que é uma cisterna. Uma voz à frente exclama: “Olha, isto deve ter sido mesmo uma capela, tem altar e tudo!”. É neste instante que se ouve um carrilhão, parece uma saudação de boas vindas para tanta gente deslumbrada, surpresa. Cada um experimenta as fardas, as botas, faz as camas, assenhoreia-se do espaço, ouvem-se brados, pragas, interjeições de vária ordem: “Porra, que grandes cagadeiras, tudo de porta aberta!”, “Pedi botas 43, estas não me servem”, “Olha, as calças são enormes, é para levar a uma costureira, o que é que se deve fazer, será melhor trocar? Fazem-se camas, há gritaria pelos beliches, soam estrondos de armários a abrir e a fechar, estalos de loquetes, há quem suba e desça a pretexto de substituições, volta-se àquela arrecadação que alguém disse que corresponde à companhia (já explicaram que uma companhia tem quatro pelotões e cada pelotão cerca de trinta cadetes).

Um ingénuo perguntou se havia um plano do convento, um outro cabo quarteleiro olhou furioso, respondeu pedagógico e até sereno: “Isto não é turismo, estes lugares metem-se na cabeça, terá tempo de saber onde é o jardim do Cerco, a porta de armas, o salão Nuno Álvares, o jardim do Buxo, a capela dos Sete Altares, para já fixe o nome La Couture, olhe para o chão, são estas lajes brancas e pretas, a saída é sempre para a parada, é ali que começa e acaba o dia da instrução, com tempo habitua-se a tudo, a saber onde está o bar, os refeitórios, a sala Elíptica, depois descobre as correspondências entre o primeiro, o segundo, o terceiro e o quarto pisos, quando se perder grita ou olha para as paredes, veja os nomes La Lys, Bussaco, Marracuene, Coollela, Chaimite, mais acima Ferme de Bois, Fauquissart, Neuve Chapelle, para já assine o recibo como vai receber um pré de um escudo e noventa centavos, que lhe entregaram lençóis, fronha e duas mantas, despache-se, a sua companhia daqui a um bocado vai formar, dali seguem para o jantar, hoje jantam naquele refeitório lá ao fundo, amanhã têm tempo de aprender mais, vão conhecer as divisas, a saber o nome do nosso comandante da unidade, em que pelotão vai ficar, esteja atento a tudo, se cometer faltas apanha logo detenção, tiram-lhe o fim-de-semana ou as saídas ao fim da tarde”.

O Tangomau capta cheiros que conservou até hoje: a humidade, manifesta nas bolhas e nas chagas do salitre, no negrume das paredes, no cheiro da eternidade de tanta água infiltrada; as massas lubrificantes na arrecadação, odores insubstituíveis, indubitáveis, que vão ficar ligados aos panos de lona, à limpeza da Mauser com um escovilhão e uns óleos estranhos, matéria ensebada; os do corpo, ao levantar e ao deitar, a camarata é enorme, mais enorme será quando, pela madrugada entrar um corneteiro a anunciar uma saída inusitada, a voz de um alferes em grande clamor exigindo “A pé, têm dez minutos para formar no corredor!”, são os odores de quem se levanta e vai aos sanitários a correr; a graxa, aquela película viscosa que ilustra a bota, lhe dá um tom envernizado, de azeviche esmaltado, sempre de curta duração, a bota engraxa-se ao fim do dia de instrução e para o início de fim-de-semana, obrigatoriamente, tão imperativamente quanto o corte de cabelo, a barba feita mesmo com lenhos ensanguentados, mesmo a dormir em pé, a remoer palavrões; o pesadelo dos refeitórios, são os odores indirectos das cozinhas onde se prepara o rancho, as mesas onde seguramente comeram frades, em tempos joaninos, a mistura de café, as fatias de pão e a marmelada, os odores do amanhecer, um pouco antes do início da instrução; o pó da História, circula ou prende-se às janelas, às lamparinas e lampiões, aos tectos monumentais, são odores que dão que pensar, dizem que há subterrâneos, com a Primavera rescende o jardim do Buxo, há plátanos por toda a parte, isto ainda não é nada, quando os soldados cadetes se familiarizarem com o jardim da Alameda, com a abertura do portão Norte, seguirem para o Pinhal da Vela, passarem pela agro-pecuária e chegarem ao Forte Juncal, de onde se desfruta uma vista soberba, seguindo daqui para uma carreira de tiro, ou até ao portão da Murgeira, ou mesmo ao Vale Escuro, teremos os cheiros da natureza, estes cheiros parecem convergir para aquele Jardim do Cerco, quando se está a preencher o teste, decisivo para obter um fim-de-semana.

Estamos a ir depressa demais, estes cheiros são uma camada cultural, sedimentada numa recruta e numa especialidade, fazem parte da floração dos cinco sentidos, impregnados, sem remissão, o que importa agora, e o Tangomau não esquece, é que o refeitório onde jantou pela primeira vez no convento é um espaço amplo, um género de arrecadação exterior, muito próximo de garagens de viaturas, dar-lhe-ão uma sopa de manga de capote olorosa e altamente comestível, a seguir apareceram umas sardas a nadar em banhos de fritura como se trouxessem restos de carvão, e batatas cozidas, apetecíveis, por sinal. Por razões do pudor, aceitou não trazer nada da caserna para comer à mesa. A sopa soube-lhe bem, o casqueiro era saboroso, recusou a sarda, esmagou as batatas, souberam-lhe bem logo à primeira garfada. Só que nada era singelo, linear, naquela refeição de estreia conventual. Como em todas as refeições há sempre um vigilante, pois teme-se pela indisciplina ou pelo motim, que nestas coisas da tropa dá pelo nome de levantamento de rancho, uma suprema blasfémia. É nisto, comia o Tangomau placidamente as batatas esmagadas, sonhando já com um pedacinho de proteína lá no armário, de fumeiro ou em lata de conserva, quando se aproximou o oficial vigilante: “O nosso cadete não tirou sarda, tem de comer, isto não é casa para gente caprichosa, aqui a gente da tropa come de tudo e não refila. Ó nosso soldado, traga cá a bandeja, ponha dois pedaços de sarda no prato do nosso cadete, regue as batatas com óleo!” O nosso cadete ainda olhou súplice para o nosso soldado em funções de criado de mesa, este dispunha do seu poder soberano que era ver o nosso cadete massacrado, de antemão agoniado, espetou-lhe com duas metades de sarda no prato, ambas com a cabeça calcinada, e ter-lhe-á dito ao ouvido: “O nosso cadete coma tudo, só deixe as espinhas, o nosso tenente se ficar zangado participa de si, adeus ao fim-de-semana!”. E comeu tudo, com o estômago revoltado, até foi ao bar dos cadetes emborcar um bagaço (aguardente 1920), coisa rara, hábito perdido de quem tinha andado dois anos a tratar de uma úlcera gastroduodenal, seguiram-se deambulações vadias com gente lá da caserna, tudo inquieto com a novidade, os tais odores, o feitiço da disciplina, da ordem unida, o mundo novo de um convento com gente exclusivamente fardada, toques de cornetim a mandar recolher, a vozearia impenitente das ordens, o ressoar das botas pelos corredores, tudo parecia uma agitação de almas penadas.


Um dos nossos refeitórios. Ninguém se sentava sem autorização superior, o mesmo para sair, depois das refeições. Comia-se melhor no convento que na Tapada ou nas marchas. Aqui, do que guardo mais saudade é das sopas. O meu ódio de estimação era a comida na carreira de tiro, nunca mais voltei a ver um arroz nauseabundo com patas de e as cabeças com as cristas, bicos e olhos. Julguei então que a instituição militar tinha atingido o grau zero da depravação gastronómica.


Nem o Tangomau sonha como todo este barroco medonho se irá tornar natural no seu quotidiano. Décadas mais tarde, é muito fácil rememorar e até sonhar que a gente se ajeita a tudo, nesta vida. Alguns farrapos desses locais aparecem como em fotografia. O jardim da Alameda, por onde começa o fim-de-semana, por aqui também se entra quando se regressa ao domingo à noite, ou depois do passeio à tarde. Tem plátanos lindíssimos, desconformes com a paisagem militar que se vive lá dentro. O jardim da Alameda situa-se na ala Sul, é o mundo de Nuno Álvares, o patrono da Infantaria: ali fala-se em Valverde, Atoleiros e Aljubarrota, imprevistamente menciona-se Ceuta. Não haverá soldado cadete que ignore ser aqui o território do oficial de dia e do sargento da guarda. É uma entrada carregada de símbolos, placas comemorativas, quem não tem orgulho em ser infante aqui o descobre, estão aqui referentes para esse novo estado de alma. Mais adiante temos o salão Nuno Álvares, a escada La Lys, majestosa para quem gosta do classicismo, feito da imponência de alturas. A estátua de D. Nuno Álvares Pereira vigia quem por ali passa. Não foi por aqui, repete-se, que entrou o Tangomau, este entardecer; foi pela fachada principal, hoje tudo mudou, até lá instalaram um museu, um posto de turismo. As mudanças são muitas, passados estes anos todos. Aquela arrecadação que era o centro nervoso da logística, desde o fuzil alemão ao pano de tenda, transformou-se numa arrecadação de transmissões, por toda a parte há mulheres fardadas a fazer continência, quando o Tangomau se lembra do caminho para a capela, o seu acompanhante, em 2010, logo previne que lá para cima, no espaço das casernas, o visitante sentirá um choque, logo a seguir ao que era a enfermaria dos feridos graves, depois de se passar pela sala de ensaios da banda de música. É neste tropel de recordações que se corre o risco de perder o fio à meada. Retornemos onde se estava, depois do bagaço para esquecer duas sardas de vómito. Para se saber da boa saúde do Tangomau, certifica-se que se despiu numa caserna aos berros, entre arrotos e peidos. Com uma toalha no braço, levou pasta e escova de dentes até uma inacreditável casa de banho, depois das abluções e demais higiene se deitou, confiou-se a Deus e teve um sono de pedra. A manhã sim, essa foi inacreditável, todo aquele maralhal aos palavrões, seguiu-se o frenesim das lavagens matinais, a correria para o pequeno-almoço, alguém gritou: “Sentido, firme, podem sentar!”, o pão era apetecível, tudo limpo mesmo com os odores intensos a vacaria, oriundos da cozinha. Subiram-se a correr as escadas, alguém avisou que aquele primeiro dia era muito administrativo, apaziguado. Aliás, este maralhal já sabia da sua sina quando formados no refeitório, no corredor La Couture: pertenciam à 5ª companhia.

Os recrutas ou cadetes formaram à ordem de alguém a quem se ouviu chamar “o nosso furriel” que por sua vez apresentou aquele grupo vestido de um verde intenso, a cheirar a novo imaculado, a alguém a que chamaram “meu capitão” (e pediram licença, ao apresentar a formatura), secundado por outros que, veio-se a saber, eram dois tenentes e dois alferes, a imporem-se pelo olhar de quem sabe que vai mandar sem ser contestado. E em marcha semi-ordeira, o contingente partiu para a parada, saiu pelo portão Norte, assentou no tal jardim tão importante para as suas vidas, quem fazia os testes nas manhãs de sábado e tinha positiva partia para fim-de-semana. Alguém informou: “Ali é o portão do CMEFD, faz-se ali equitação, iremos fazer instrução por aquela porta à direita, já me disse um meu irmão que temos uma linha de plátanos e castanheiros, ali é o nosso caminho para muita ginástica e dar tiros”.

Aqui a memória é difusa, falava-se de horários, de semanas de instrução, de responsabilidades na manutenção do equipamento, esvoaçavam recomendações sobre a muita prudência no relacionamento com os instrutores e a exaltação dos primores da disciplina; exibiram-se quadros para se saber diferenciar, mesmo nesse dia, o que difere, em cima dos ombros, entre ser soldado, cabo, furriel, segundo e primeiro-sargento, depois aspirante, alferes, capitão até chegar a coronel, quem comandava aquela escola era alguém naquele posto, indispensável será conhecê-lo desde este preciso instante. Falou-se pois de horários, de alguma substância da instrução, suavemente se chegou aos porquês da guerra em que, com muita probabilidade, quase todos os cadetes iriam ser envolvidos. Tal como estava noticiado, grupos terroristas, gente a soldo de interesses vermelhos, tinham invadido parcelas de Portugal, trucidado gente, aniquilado bens, dificultando as comunicações e os transportes., em diferentes locais remotos, para lá do oceano. Os cadetes iriam ser instruídos para agirem como contra-guerrilheiros, repor a ordem, reordenar as populações, fazer desfraldar a bandeira das quinas. Havia muito a saber, e convinha desde já pôr a conversa em dia sobre o jogo diabólico que nos estava reservado, na Guiné, em Angola ou em Moçambique: emboscadas, minas, flagelações. Devíamos sair dali preparados para combater em clima tórrido um inimigo por vezes muito bem equipado, intoxicado com ideias do demónio, mente sã em corpo são, era uma frase muito antiga com aplicação contemporânea ao que o futuro reservava a todo aquele que recebesse a bênção de ser infante, artilheiro, cavaleiro, mesmo fuzileiro, pára-quedista, comando ou pouco menos, das minas e armadilhas até amanuense. Instrução para o corpo: ginástica apurada para os patrulhamentos e operações; caminhadas de imitação às realidades da guerra para se perceber que é muito pior dentro da floresta galeria ou a atravessar os pântanos; endurecimento e conhecimento, montar e desmontar armas, não ter medo das alturas, caminhar de dia e de noite, com sol abrasador ou chuva, instrução não faltaria; aprender pois a táctica e ganhar aos poucos noções sobre a realidade da guerra, o papel das forças armadas, a diferença entre um regimento e um batalhão, etc., havia até um livro chamado “Manuel do Oficial Miliciano” que seria divulgado para se aprenderem coisas importantes. Por exemplo, a infantaria é a arma mais poderosa das forças terrestres, é essencialmente a arma do combate próximo, todas as outras armas deverão actuar em seu proveito; a artilharia é a arma que actua principalmente pelo fogo, havendo a considerar a artilharia de campanha, a artilharia anti-aérea e a artilharia de costa, certamente os cadetes iriam ouvir falar em obuses e morteiros, armas prendadas para afugentar terroristas; a cavalaria é a arma da rapidez, usa pelotões de reconhecimento, carros de combate e até canhões anti-carro; a engenharia é essencialmente a arma do trabalho especializado, tem sapadores, peritos em comunicações e até reabastecimentos; no extremo, os serviços, gente dos transportes, dos serviços gerais ou de manutenção, serviços tão diversos como o correio, a justiça militar, a cartografia, a contabilidade e pagadoria, até a assistência religiosa. Acima de toda esta gente, os comandos, é sempre necessário que haja alguém que superiormente conceba, prepare e conduza a acção. Que todos se habituassem a saber que quem comanda tem uma equipa auxiliar, o Estado Maior.

Pelo meio de toda esta longa e acutilante peroração, os nossos cadetes almoçaram num refeitório vasto, de tecto abobadado, muito lá no alto, comeram em mesas de mármore, tiveram direito a uma sopa adubada com feijão e macarronete, com olhinhos de gordura, uns bifinhos espalmados com arroz de cenoura e depois uma fruta da época, havia jarros de água e até um vinho de mesa, lotado corrente, relativamente tragável, dava um copinho para cada um. Repasto excessivo, havia gente a dormitar, encostada ao cano da arma, alheia a informações tão importantes e à notícia que muitas outras se seguiriam, sobretudo sobre táctica, não se pode ser oficial sem se saber o que é a ofensiva e a defensiva, o princípio de manobra, como se usam as transmissões, como se marcha para o contacto, o que é a manobra para o ataque, até a retirada. Porque a táctica é uma das chaves mestras da guerra, como é evidente não se iria combater numa guerra convencional, em África era tudo diferente, dada a natureza do inimigo, acantonado no mato como bichos, a natureza do relevo, toda essa história da guerrilha, que devia pôr os cadetes a reflectir sobre colunas, nomadizações, vida dentro dos quartéis no ventre da floresta.

É a única fotografia que possuo de ambiente de caserna. Lamento ter esquecido os nomes dos dois camaradas à esquerda e à direita. Foi tirada no beliche de cima da nossa caserna conhecida por “a capela”. Uns preparavam-se para sair, alguém mostra a meia rota, eu e o Paulo estamos em farda de trabalho, havia que estudar as matérias da táctica, que eu odiava, tanto como desmanchar a arma e limpar a Mauser.

Não parece mas esta fotografia tirada pelo Ruy Cinatti mostra uma paisagem perto da Ericeira. Logo a seguir, fomos tomar uma banhoca, penso que foi na Praia dos Pescadores, era uma tarde magnífica de Junho, em 1967. Tudo acabou com peixinho frito na vila da Ericeira. A seguir, fomos depositados no convento, a instrução prosseguia, implacavelmente.

O instrutor, um homem de estatura meã, de olhos azuis metalizados, ergueu o dedo indicador da mão direita e apontou: “Contem com muita preparação, contem com o meu entusiasmo, logo de manhã, e muitas vezes ao anoitecer, porque nos serão reservadas marchas nocturnas, sairemos aqui pelo portão Norte, não se esqueçam que esta é a casa da infantaria, aqui a nossa divisa é “saber fazer”, estamos cercados do que há de melhor da história de Portugal, os vossos corpos serão preparados nos crosses que faremos até à Ericeira, nos exercícios no Alto da Vela, ao pé do pinhal do mesmo nome, ireis aprender a técnica individual de combate, a tapada é o vosso espaço de instrução, teremos aqui carreiras de tiro, o Vale Escuro, há um campo de lançamento de granadas, ireis receber aulas de táctica lá para os 4 Caminhos, aprendereis a bivacar; saireis daqui atléticos e com saudades da Aldeia dos Macacos, da Lagoa do Meio, do Muro das Osgas e do Pórtico. Hoje aprenderam muito. Amanhã ganhareis confiança nas vossas capacidades, no brio, na disciplina, sereis dóceis à voz do comando. Vamos regressar, engraxar as botas, mudar de farda, conhecer Mafra.”

Um dia combinei com o Ruy Cinatti que ele viria com a minha mãe para jantarmos na Ericeira. Ele trouxe-me os “Sete Septetos”, escreveu “Exemplar nº 2”, milagrosamente não foi para a Guiné. Veio munido da sua Hasselblad, era uma máquina espantosa, tenho tirado com esta máquina uma fotografia do régulo de Baucau, que vou quase todos os dias espreitar. A minha mãe era muito brincalhona e estava muito feliz. Fizemos um número para a câmara de dois VIP que queríamos passar incógnitos. O Paulo, padrinho de baptismo da Joana, também foi connosco. Que tarde inesquecível!
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Nota de CV:

Vd. poste anterior de 31 de Maio de 2010 > Guiné 63/74 - P6504: A viagem de Tangomau, o meu próximo romance (I) (Mário Beja Santos)