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segunda-feira, 20 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27934: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte I: semana de 31/1 a 9/2: santa paciência e ajudas...divinas



Lourinhã > Praia da Areia Branca > 2 de dezembro de 2017 > Almoço de um grupo de amigos de Timor-Leste, no restaurante Foz: em primeiro plano, Rui Chamusco e Gaspar Sobral, cofundadores e líderes da ASTIL 

O Rui Chamusco começou por ser membro da Tabanca de Porto Dinheiro: natural de Malcata, Sabugal, vive na Lourinhã há 3 décadas, sendo  professor reformado de Educação Musical no ensino oficial,   e de Português, Filosofia e Latim no ensino Particular. 

Desde há mais de uma década, que ele passou a ser um grande amigo do povo Timor-Leste, liderando um projeto  (luso-timorense),  já concretizado, em 2017, de construção de uma escola, privada, nas montanhas de Timor Lorosae, e de apadrinhamento de crianças em idade escolar.

A partir de  10 de maio de 2024, tornou-se novo membro da Tabanca Grande ( nº 886). Foi-me apresentado pelo nosso saudoso Eduardo Jorge Ferreira. Eu, por minha vez, apresentei o João Crisóstomo ao Eduardo, que era o régulo da Tabanca de Porto Dinheiro. E o Eduardo apresentou o Rui ao João, que passpu a ser logo o um apoiante entusiasta do projeto da ASTIL.


Foto (e legenda): © Luís Graça (2017). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Timor Leste > Liquiçá > Manati > Boebau > 2024 > Escola de 
São Francisco de Assis (ESFA) , que celebrou o  seu 6º aniversário (e o ace4sso, desde Díli também já melhorou)... Mas erguer paredes é sempre o mais fácil... É preciso agora assegurar o seu futuro... e essa tem sido a preocupação maior do Rui Chamusco e dos demais membros da ASTIL que apoiam e financiam o projeto (incluindo o pagamento do pessoal docente e auxiliar)
 


Foto (e legenda): © Rui Chamusco (2024). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

1. Foi há dias, com a Alice, visitar o Rui Chamusco ao Hospital Curry Cabral, onde esteve internado no serviço de cirurgia, depois de submetido a uma delicada intervenção.

A operação correu bem, o prognóstico parece ser favorável e a recuperação está a correr bem. Teve alta este fim de semana.  De resto,  no passado dia 12 do corrente, dominmgo, achámo-lo com "boa cara", bem disposto. Falamos com o João  Crisóstomo, que  está em Nova Iorque com a sua Vilma. (É na casa do Rui, na Lourinhã, que o casal costuma passar parte do tempo quando vem a Portugal.)

 Para já não se põe a hipótese de tão cedo o Rui voltar a Timor Leste. Mas com a fibra dele, à  sua beira, nunca ninguém diga "nunca... mais". (Nem muito menos de se estrear, aos 80 anos,  na Capeia Arraiana, a pegar o forcão, na próxima festa de agosto, lá na terra, o Sabugal.)

Desde 2016,  o Rui já foi, pago do seu bolso, seis vezes a Timor-Leste, onde geralmente fica o tempo que lhe é legalmnte autorizado, enquanto "malae" (estrangeiro), e que são três meses. Dessas viagens e estadias há crónicas que ele escreve a  pensar nos sócios da ASTIL e demais amigos da Escola de São Francisco. Já publicámos excertos das crónicas  da I vaigem (2016), II (2018) e VI (e última) (2025). Começamos a publicar as da III viagem (2019). Depois mete-se a pandemia, e  só voltou  a Timor Leste em 2023 (IV  viagem) , 2024 (V viagem) e 2025 (VI viagem).

Entendam, caros leitores, a publicaçãp desta série como um pequena homenagem a Timor-Leste e ao nosso Dom Quixote lusitano que já fez perto de 250 mil quilómetros de avião, desde 2016,  por solidariedade com o povo timorense e as as crianças de Boebau, nas montanhas de Liquiçá . 

É também uma forma de a  gente não se esquecer dos timorenses..., para que os timorenses, por sua vez, não se esqueçam de nós.


 Crónicas da III viagem a (e estadia em) Timor Leste (janeiro- abril 2019)

por Rui Chamusco

Fundadores: Rui Chamusco,
Glória Sobral e Gaspar Sobral



Olá amigos do Projeto de Solidariedade e estimados sócios da Astil.

Depois de retemperadas as energias despendidas nesta longa viagem e de vencermos a fadiga provocada pelo stress das mudanças e horários, aqui estou como vos prometi para, nas minhas III Crónicas vos dar conta dos factos e acontecimentos mais relevantes relacionados com o nosso projeto de solidariedade.

De antemão, peço desde já desculpa por qualquer incómodo que possa causar a alguém nas minhas descrições, mantendo sempre o propósito da transparência e fidelidade nesta condição de pobre escritor, cujo objetivo é simplesmente manter informados todos os amigos.

Assim e sem mais demora, passo a descrever:

Os dias de viagem - 31 de janeiro (quinta feira) - 01 (sexta feira) ,02 (sábado) de fevereiro  2019 

Diz-se que “o melhor da festa é esperar por ela”. Assim sendo ou não, os dias de preparação desta viagem foram bastante agitados, correndo de uns lados para os outros, sempre com a preocupação de que nada faltasse para que esta viagem e estadia seja bem sucedida. Destaco a preciosa ajuda do amigo Dr. Ascenso que tudo fez para que nenhum papel ou documento faltasse para os efeitos pretendidos. Obrigado, amigo!

Depois, são as horas que tardam em passar, dentro ou fora do avião; são as comunicações e as mudanças nos aeroportos; são os vários chekins em cada aeroporto, alguns exigindo que se tirem os sapatos e outros quase nos deixam despidos; são os cuidados excessivos com as bagagens de mão para que nada se perca ou extravie. 

Claro que também dá para apreciar paisagens, pessoas, culturas, e quantas coisas mais... E embora o cansaço se vá apoderando de nós, nada que uma boa comida ou uma boa bebida não resolva.

Ás 14.45 horas locais pisamos de novo solo timorense, com um calor húmido bempesado. Alguns rostos conhecidos fomos encontrando no caminho para o controle dedocumentos e bagagens, e uma certa ansiedade se apoderou de nós no local de levantamento da bagagem de porão. 

Será que não há duas sem três como se costuma dizer? É que de todas as outras vezes, em 2016 e 2018 nunca a minha bagagem chegou a tempo e em forma. Enquanto estávamos assim cogitando à espera do tapete rolante que trazia as malas, em tom de brincadeira disse para o Gaspar: 

E se a minha mala fosse a primeira a aparecer? 

Pois assim foi mesmo, a primeira mala que se avistou era a minha. E fiquei tão contente que não a quis pegar logo. Deixei que desse a volta de honra a que tinha direito, e só depois, triunfante, a retirei. Tudo o resto foi fácil e agradável. O Eustáquio e a Adobe lá estavam à nossa espera para nos abraçar e beijar.

Já em Ailok Laran apareceram as crianças e os adultos que nos esperavam. Depois foi distribuir beijos e abraços sem conta, até que a tarde e a noite se foram aproximando.

Sem grande esforço o “João Pestana” apoderou-se dos nossos corpos e mentes. E, apesar da música intensa que se fez ouvir toda a noite (celebrava-se o “desluto” da professora que tinha falecido há um ano, cuja descrição de rituais consta nas minhas segundas crónicas) a noite foi “sossegada” e bem aproveitada por um sono retemperante.

Claro que antes da deita dei uns passos a olhar para as estrelas, tentando descobrir nocéu pontos de observação que nos unem em qualquer parte do mundo: a úrsula maior e a úrsula menor (com incidência na estrela polar); a “santíssima Trindade”; o “sete estrelo”; etc.., etc...

E com o ”boa noiti” familiar nos despedimos até ao dia seguinte.

03.02.2019, domimgo - O encontro ansiosamente esperado

Se há acontecimentos desejados, o encontro com o sr. comandante de fragata Rui Pedro Ferreira está na lista muito bem posicionado. Então passo a explicar:

O Rui Pedro Ferreira é filho de uma prima com ascendência em Malcata, a Ti Rosa Nita e o Ti Zé Feliz, ambos primos direitos da minha mãe Laurentina. Por motivos profissionais o Rui Pedro foi destacado durante um ano para serviços em Timor Leste, e que começou em Setembro do ano passado.

Sabendo os seus pais Maria de Deus e Carlos Ferreira que nós estamos a desenvolver um projeto de solidariedade em Timor Leste e que viajamos de vez em quando para este país, procuraram de imediato que estabelecêssemos relações, neste caso através do facebook, o que não foi difícil, e assim nos mantivemos até este dia.

Assim, à hora marcada para o nosso primeiro encontro (foi a primeira vez que nos abraçámos) e por coincidência, o estacionamento dos carros foi á beira um do outro, pois o Rui Pedro mesmo ainda sem parar chamou pelo meu nome. Depois de um forte e afetivo abraço cada um de nós apresentou os seus companheiros, no meu caso o Gaspar e o Eustáquio Sobral), e dirigimo-nos para o Hotel Timor, onde amavelmente o Rui Pedro nos ofereceu o almoço. 

Claro que eu fui portador dos “miminhos da mamã”, e tive um enorme prazer de lhe entregar esta preciosa encomenda, que tão bem sabe a quase 25.000 quilómetros de distância. Foram momentos únicos e muito apreciados de parte a parte, pois a comitiva do Rui Pedro é gente de muito valor e que vale bem a pena ouvir. Ficou a promessa de nos voltarmos a encontrar para vivermos as grandes surpresas que este país nos oferece, sem esquecer claro está asimpressionantes paisagens e as sorridentes crianças que nos cativam pelos seussorrisos e necessidades.

Caro amigo Rui, caro primo: um enorme obrigado pela tua simpatia e atenção para com todos nós, e particularmente para com este Rui que já é katuas. Enquanto por aqui estivermos não nos iremos esquecer nem separar.

03.02.2019 - Rosas com espinhos

Há notícias que nos abalam. Agora mesmo passou em frente ao pátio da casa que nos alberga o Valente, filho do falecido Vitor, e que o ano passado foi personagem muito descrito nas minhas crónicas. 

Lembram-se de toda a sua história e reintegração escolar que em Fevereiro do ano passado aconteceu? Pois bem. O Valente passou, foi interpelado pelos presentes para que nos viesse cumprimentar, mas ele com ar altivo e surdo seguiu o seu caminho em direção de não sei que destino. Explicaram-me então que o protegido Valente, rapaz de 15 anos, abandonou a escola, e que neste momento é um jovem “vadio” que sai de casa (barraca) e só regressa às tantas da noite. Pobre mãe que já não tem mão nos filhos que tem! Que falta faz o pai senhor Vitor.!... Mas até nisto a vida é madrasta para alguns.

E agora, que podemos nós fazer?... Confesso que, após trinta e tal anos de docência, me sinto incapaz de resolver este problema. Não é por mim que o digo, mas lembrei-me imediatamente do ditado popular “não há rosas sem espinhos”. E bem me parece que neste caso, os espinhos abafaram a rosa e são agressivos para quem a queiraproteger.

Ai Valente, Valente! Que Deus te proteja e faça de ti um Homem, com o H grandecomo era o teu pai.

04.02.2019, segunda feira  - Tanta coisa para fazer!...

Hoje, sob um calor abafado e muito húmido, passamos a manhã a tratar de papeis. O Gaspar na UNTL (Universidade Nacional de Timor Leste) foi apresentar-se, com a credencial na mão, para entregar na reitoria. Segundo ele tudo correu bem, e está à spera que lhe comuniquem o horário e as disciplinas que vai lecionar. O Eustáquio e eu nas paróquias de Balide e Motael procurando a autentificação de certidões para documentos oficiais. Voltaremos amanhã porque não conseguimos despachar-nos hoje.

De tarde eu e o Eustáquio fizemos uma revisão da contabilidade e programamos os próximos passos a dar quanto ao programa de apadrinhamento, à funcionalidade da escola de São Francisco em Boebau, à reconstrução da “casa” de família do senhor Vitor.

Vamos tudo fazer para que a obra avance, pois as necessidades são evidentes. Oacordo está feito: nós (ASTIL) forneceremos os materiais de construção e os filhos, família e amigos darão a mão de obra. Como sinal de aceitação e agradecimento, a senhora Julieta, esposa do falecido senhor Vitor, expressou um enorme sorriso, que é a melhor paga do nosso empenhamento por esta obra social.

05.02.2019, terça feira  - Tolerância

Hoje é feriado em Timor Leste. Tal como em Portugal, há gente que, por ignorância, e pergunta porquê? Pois aqui está a explicação: começa hoje, o calendário chinês, que este ano 2019 é dominado pelo porco.

E aqui está a razão deste pequeno relato. Ao longo destes vinte anos de independência, os sucessivos governos deste país têm sido exemplares no respeito pelas diferentes religiões e povos que aqui residem. Cristãos (católicos, protestantes), muçulmanos; chineses, portugueses, indonésios, australianos, japoneses, etc.. Todos são tratados em igualdade de circunstâncias, ou seja: respeito com deveres e direitos.

Por isso em dias como hoje, escolas, serviços públicos sobretudo têm tolerância de ponto, e por isso estão fechados. E ainda que a igreja católica seja dominante no contexto das religiões, todos sabem que o respeito mútuo é um dos melhores bens que este povo tem. Graças a Deus que assim é... E já agora, que o ano chinês do porco traga prosperidade a esta gente.

06.02.2019, quarta feira  - Tão longe e tão perto...

O amigo João Crisóstomo não descansa, sempre e no intuito de ajudar. Como já sesabe, o João vive em New Yort/USA, a muitos quilómetros e muitas horas de viagemdaqui. Na impossibilidade de estar aqui connosco no desenvolvimento do nosso projeto de solidariedade, quase todos os dias entra en contacto, dando ideias, promovendo encontros, facilitando contactos através dos seus muitos conhecimentos e boas relações com gente importante deste país. O João é um homem de ação: ou vaiou racha! Quem o conhece sabe bem a paixão e a energia que ele põe nestas causas.

Por isso, imaginem o seu sofrimento de não poder estar onde ele quer. Tão longe e tãoperto... Ausente, mas presente... Não te inquietes João, porque a tua ausência físicanestá bem compensada com a tua presença e apoio constante. Onde nós estivermos, tuestarás também. És uma pessoa fundamental no nosso projeto.

07.02.2019, quinta feira - Santa paciência!...

Se alguma virtude (ou defeito) tem muita expressão em Timor Leste, é a paciência para a qual são preparados todos os timorenses, em virtude de a isso serem obrigados.

 Então não é que já fomos três vezes à igreja de Motael para que o párocon assinasse uma certidão de batismo e ainda o não conseguimos!... Se é de manhã, dizem-nos para vir à tarde; se é de tarde, dizem-nos para vir de amanhã. Santa paciência! 

Até nisto o povo continua a sofrer. As razões são sempre as mesmas: o senhor padre não está; o senhor padre está doente... Mas não haverá competência para suprir tamanha ausência? Saber esperar, mesmo que seja uma virtude, também cansa.

E convenhamos que estar à espera sob um calor húmido e abafador custa um bocado, a  nós adultos já bem treinados pelas dificuldades da vida, mas sobretudo às mães com crianças a cargo, crianças ao colo. E embora haja gente inconformada, a verdade é que não existe livro de reclamações em nenhum lado. “Ó Cristo, vem cá abaixo ver isto.” Que Deus nos valha!...

08.02.2019, sexat feira - Rua da Amargura

Destas ruas há em toda a parte, em todo o mundo. Até Cristo Jesus, a caminho do calvário, teve de passar por elas. E caiu três vezes segundo os relatos evangélicos.

Pois aqui nos arredores de Dili, mesmo em contexto de capital, existe a rua de AilokLaran em que, se Cristo por cá passasse, carregado com a cru, z teria caído com certeza mais de meia dúzia de vezes. Com tanto trânsito e tamanha confusão, que só é de estranhar que os acidentes não sejam em cadeia devido ao trânsito de peões e veículos motorizados. Dizem que já por cá passaram ministros e outras pessoas importantes.

Mas então não se deram conta da miséria em que está este piso? Há quem diga que é uma vingança devido aos estatuto revolucionário de que o Bairro Pité tem fama.

Receio que, se não houver uma intervenção rápida nesta rua, ferros, chapas, ossos etripas serão aos molhos. Mais a mais esta é uma rua de mercado. Imaginem pois asmercadorias. Há que ter um estômago bem forte para ver e deixar passar o que aqui sepassa...

08.02.2019 - Buah Naga / fruta dragão

Nem tudo o que luz é ouro.. Ou então quem vê caras não vê corações. Isto vem a propósito de uma fruta que hoje encontramos no Jaco, superfície comercial, bastante bonita e atraente mas que só abrindo-a e saboreando se tem a verdadeira noção do que estamos falando. Pelo sim e pelo não, comprou-se uma metade, por sinal nada barato, a que depois em casa lhe testamos o sabor. Pois é! As aparências iludem, e de que maneira. 

A Buah Naga (fruta dragão por o seu exterior ser parecido com a pele de dragão), embora atraente por dentro e por fora, é uma fruta desensabida a saber anada, que não justifica qualquer investimento, a não ser a curiosidade.

08.02.2019 - Até que enfim!...

Até que enfim o orçamento geral do estado 2019 foi aprovado. 

Um parto difícil mas muito desejado. Já lá vão passados quase nove meses, e era realmente o tempo de dar à luz. Até eu que teoricamente nada tenho a lucrar com esta aprovação, tenho sentido a ansiedade que este atraso tem provocado. Sempre a mesma explicação a qualquer solicitação: “não há dinheiro porque ainda não foi aprovado o orçamento”. 

O espectro de ter de enfrentar a vida em regime de pagamento de duodécimos aflige todos os sectores, sobretudo as gentes mais necessitadas, porque quem ganha bem tem reservas que lhe permitam qualquer oscilação económica. Quando o mar bate na rocha quem se lixa é o mexilhão. Por isso penso em todos os pobres deste país, os mais carentes e necessitados, que precisam do pão para a boca como do ar para respirar.

Oxalá que este orçamento seja benéfico para toda a gente, Que os governantes tenhama sensibilidade e a coragem de, com ou sem protocolos, acudir às necessidadesbásicas de cada povo, de cada pessoa. E estou a pensar na canção do Sérgio Godinho: “a paz, o pão, saúde e habitação...”

08.02.2019 - Sicut Magister

O amigo Gaspar começou hoje as suas aulas de direito na UNTL (Universidade Nacional de Timor Leste). 

Com o grau de mestre e a preparar o doutoramento, esta é uma das etapas necessárias: trabalho de campo que o Gaspar, com orientação da universidade de Coimbra, decidiu que fosse na sua terra natal, aqui em Timor. Assim poderá ser útil ao seu país, enquanto que esta experiência enriquecerá também o seu currículo.

Com alunos do terceiro e quarto anos, com salas cheias, o novo professor debita palavras e palavras que vão dando formação e engenho a estes jovens ouvintes. Já se queixa que a voz lhe falha, que as cordas vocais se esforçaram demais, que assim vai perder a voz. Ossos do ofício meu amigo! Eu bem lhe digo que compre rebuçados "Bayard”... Que trate do que é seu, porque “rouxinol sem bico não pode cantar”.

Tenho a certeza de que ele vai cumprir fielmente a sua missão...

09.02.2019, sábado - Tão perto e tão longe

Uma das prioridades da nossa ação em Timor Leste é a Escola de São Francisco em Boebau, que dista mais ou menos a oito quilómetros de Liquiçá, e que se demora à volta de duas horas para percorrer este caminho.

É sempre nossa intenção irmos a Boebau o mais rápido possível, o que desta vez ainda não aconteceu. Informaram-nos que, devido às chuvadas de que este tempo é fértil, os caminhos estão intransitáveis, andando os populares a deitar terra para que se possa passar. 

Aguardamos melhores notícias para que logo que possível, possamos rumar para as montanhas de Liquiçá, com destino a Manati / Boebau.

09.02.2019 - Ajudas divinas

Quem diria que o programa de apadrinhamento de crianças e jovens necessitados, começado em princípios de Maio de 2016 , tivesse o alcance até agora demonstrado?

Neste momento há quarenta e dois “apadrinhamentos”, e mais alguns que estão àespera de serem concretizados. Graças a este programa algumas crianças voltaram à escola e alguns jovens conseguiram entrar ou continuar na universidade. 

Cada padrinho / madrinha tenta apoiar o seu afilhado(a) da forma que achar mais conveniente, embora saibamos que o apoio económico é dos mais desejados. Oobjetivo deste programa é claro: criar laços, relações afetivas e culturais; dar apoio noincremento e divulgação da língua portuguesa.

Hoje mesmo tivemos a alegre notícia de um apadrinhamento vindo de uma família venezuelana, a viver em Portugal. Graças também a este apoio a Eza (Zinomia), uma jovem linda e muito inteligente, vai regressar à universidade para continuar os seus estudos. Mas há mais que esperam ansiosamente por estas “ajudas divinas”.

E quanto a nós só temos de nos congratular e agradecer a Deus ter posto a Adobe no meu caminho, e ter dado origem a este ato solidário de se poder ajudar quem mais precisa.

(Continua)

(Revisão / fixação de texto, negritos: LG)


Timor-Leste > Liquiçá / Manati / Boebau > 22 de março de 2025 > Visita do 1º ministro Xanana  Gusmão à Escola de São Francisco de Assis

A foto e a legenda é da página do Facebook do Nunes José Nunes Martins, com data de 27 de março ·

"Imagem com história verdadeira:  Primeiro Ministro de Timor-Leste, Xanana Gusmão, visita surpresa e celebra com a comunidade o 7ºaniversário da Escola São Francisco de Assis "Paz e Bem". Rui Chamusco sorri ao ver Xanana com tanto interesse na concertina aos ombros da menina que alegremente o recebe.

A imagem vale por mil palavras! (Nota: trata-se uma das  imagens oficiais do Governo de Timor!)

sábado, 31 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27689: Os nossos seres, saberes e lazeres (720): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (241): O Palácio de Viana em Córdova, termo da viagem pela Andaluzia - 8 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 7 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
É bem verdade que há um riquíssimo património onde os espaços palatinos se conjugam perfeitamente com jardins de grande formosura, basta pensar no Palácio e nos jardins de Queluz. O que acontece no Palácio de Viana é sentir-se a palpitação, dentro de um bairro típico, como Santa Marina, uma residência faustosa acompanhada de um número impressionante de pátios, com toda a espécie de arvoredo, variedade de jardins, tanques, trepadeiras nas paredes do Palácio, cada pátio é uma surpresa, e confirma-se a singularidade dos pátios cordoveses, como tive oportunidade de ver quando andei a bisbilhotar nas ruas da judiaria, no bairro da Villa e à volta do Guadalquivir. Foi uma viagem inesquecível, o andarilho aprendeu a lição que não chega programar oito dias para ir ao encontro destes belos recantos andaluzas. Haja saúde, o retorno será em breve.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (241):
O Palácio de Viana em Córdova, termo da viagem pela Andaluzia - 8


Mário Beja Santos

Pelos alvores da manhã percorre-se o Bairro de Santa Marina, comprou-se antecipadamente bilhetes para uma visita guiada ao Palácio de Viana, uma bela casa senhorial que se foi ampliando com as habitações da vizinhança e que nos permite apreciar a evolução da arquitetura civil cordovesa desde o século XIV até ao século XIX. É um conjunto único e surpreendente que se espalha por 6.500 m2, dos quais mais de metade são ocupados por 12 pátios e o jardim. Não se visita somente o Museu, mas aquele que foi durante séculos a casa de uma família nobre. Em 1980, um Banco comprou o Palácio dos Marqueses de Viana.
Desde a Praça de Dom Gome acede-se através de uma portada em ângulo constituída por dois corpos: uma porta de lintel com frontão partido e um balcão tendo por cima guerreiros e depois os escudos das famílias dos Argote e dos Figueiroa; coroa o balcão o escudo dos Saavedra.
Já no interior, chama a atenção a escadaria principal, renascentista do século XVI, com um magnífico artesoado mudéjar do mesmo século, e não falta harmonia no mobiliário. E assim temos acesso ao salão principal também em estilo mudéjar e depois à sala do escritório da Marquesa.
Córdova é famosa pelos seus pátios, vamos passear pelos doze esplendidos pátios ajardinados deste Palácio que nos surpreendem pelas suas cores e odores.

Trata-se de uma visita guiada e logo somos informados que é totalmente interdito fazer fotografias e filmar no interior do Palácio. Iremos falar de memória das coleções do Palácio de Viana, no rés-de-chão temos porcelanas que vão do século XVII ao século XX, uma coleção muito rara de arcabuzes; no piso superior o visitante é surpreendido por 236 peças de cerâmica dos séculos XIII a XIX, couros riquíssimos, uma coleção faustosa de guadamecis e couros cordoveses dos séculos XV a XIX; não falta tapeçaria, flamenga, francesa e espanhola, há uma peça surpreendente que tem um cartão de Goya, as artes decorativas proliferam por todos os espaços e a biblioteca impressiona com os seus sete mil volumes que vão dos séculos XVI a XIX.

Temos uma boa guia que irá resumir a história desta residência senhorial que pertenceu ao Marquesado de Villaseca. Em 1873, a 9ª Marquesa, viúva e sem herdeiros, casou-se em segundas núpcias com Teobaldo Saavedra, filho do Duque de Rivas, a quem o Rei Afonso XIII conferiu em 1875 o título de Marquês de Viana. Como se referiu acima, o Palácio foi vendido em 1980 e hoje pertence a uma Fundação. É exatamente neste património da Fundação, pictórico, que começa a visita, daqui se passa para as coleções, a Galeria dos Azulejos, a Galeria das Batalhas, o Salão dos Gobelins; temos novamente a pintura, uma coleção flamenga onde avulta uma pintura de Bruegel O Moço, seguimos para a biblioteca, um espaço admirável com os seus manuscritos e primeiras edições, não faltam livros de caça, vitrinas onde podemos ver a documentação dos arquivos históricos dos Marqueses de Viana, segue-se a Galeria dos Couros e uma coleção de armas de caça. Recordo ao leitor que estávamos interditos de tirar fotografias.

Estamos agora na zona que era habitada pelos Marqueses: o Salão dos Sentidos, com pinturas morais com alusões aos cinco sentidos, porcelanas e cristais valiosos; o Salão Vermelho, também enriquecido por peças de arte decorativa de imenso valor; este salão comunica com o espaço íntimo da Marquesa; segue-se o quarto do Marquês, Fausto de Saavedra era almirante e a sua paixão pelo mar é patente na decoração do quarto, parece que estamos numa cabine de navio; por último, no decurso desta visita guiada, é-nos dado a ver o escritório da Marquesa com teto mudéjar e mobiliário barroco, os azulejos do pavimento representam um leão rastejante, símbolo do Marquesado de Viana.

Agora o visitante é abandonado à sua sorte, tem uma imensidade de pátios que mostram um fascinante reportório com diferentes arquiteturas, pavimentos de ornamentação vegetal. Agora já se podem tirar fotografias, só para ver este esplendor floral vale a pena vir a Córdova.

Já no Bairro de Santa Marina, uma casa típica onde não falta uma coluna antiga.
Entrada do Palácio dos Marqueses de Viana
Um aspeto da cozinha
Um esplendoroso corredor, com ligação às galerias
Sala das refeições da família, imagem retirada do site artencordoba, com a devida vénia
Pormenor da biblioteca onde se albergam 7 mil volumes, imagem retirada do site artencordoba, com a devida vénia
Pormenor do Salão Vermelho, imagem retirada do site artencordoba, com a devida vénia
No pátio guardam-se os velhos transportes, impecavelmente conservados
Pormenor do pátio principal
Não se pode resistir à beleza desta coleção de vasos pendurados e engalanados com plantas
O requinte do arvoredo, do buxo, das plantas trepadeiras e dos vasos à volta do tanque, tudo numa atmosfera de apaziguamento e bons cheiros.
Outro pormenor do tanque ricamente florido
Mais um recanto surpreendente, um ajardinamento sem mácula
Imprevistamente, depois de tanta flor um jardim onde não faltam palmeiras, cada pátio é um recanto, fica-se com os olhos esbugalhados.
Quando uma imagem fala por mil palavras
Outro ângulo deste pátio em recanto
É o momento da despedida, a simplicidade destes vasos é tocante, tudo diferente nos pátios do Palácio de Viana para comprovar que os pátios de Córdova ombreiam os mais belos jardins do mundo. Aqui me despeço de Córdova, tomo o autocarro e vou até Tavira visitar uma grande amiga que perdeu recentemente o seu marido. O leitor que não se esqueça que as viagens nunca acabam, só os viajantes as podem renunciar.
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Nota do editor

Último post da série de 24 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27666: Os nossos seres, saberes e lazeres (719): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (240): Uma viagem à Córdova árabe, a todos os títulos inesquecível - 7 (Mário Beja Santos)

sábado, 24 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27666: Os nossos seres, saberes e lazeres (719): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (240): Uma viagem à Córdova árabe, a todos os títulos inesquecível - 7 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 5 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
Aqui prossegue e termina a visita à Mesquita-Catedral de Córdova. Temos de agradecer aos príncipes Omíadas terem feito de Córdova a metrópole mais relevante do Ocidente, deixaram-nos esta construção feita entre os séculos VIII e X uma joia única da arquitetura mundial, continua na vanguarda de toda a arte islâmica. É monumento nacional desde 1882 e património da humanidade desde 1984, tendo ainda a classificação dada pela UNESCO de Bem Valor Universal Excecional. Procurou-se de forma abreviada falar da estrutura com as diferentes ampliações, recordou-se que a Mesquita não era apenas um local de oração, aqui se faziam conferências, se praticava justiça. No século XVI construiu-se a Catedral. Mas já no século XV se tinha criado a Capela de Villaviciosa, o resultado é uma mistura de arte islâmica de grande beleza, a sua Cúpula é do século IX; para se fazer a Catedral houve que derrubar 63 colunas. Nunca houve atrevimento em mexer em dois pontos altos deste património de altíssimo valor, o mihrab e a maqsura, que no momento em que visitei estavam em restauro. É ocioso dizer, mas não resisto: visitar a Mesquita da Catedral de Córdova é conhecer o que há de mais faustoso da arte islâmica. Vou agora à última etapa, o Palácio Viana.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (240):
Uma viagem à Córdova árabe, a todos os títulos inesquecível - 7


Mário Beja Santos

Não é possível regatear ou procurar comparações com a espantosa singularidade do espaço da Mesquita da Catedral de Córdova, onde se entrecruzam vestígios da Basílica visigoda de S. Vicente (meados do século VI), a primitiva mesquita (século VIII), a primeira ampliação (século IX), a intervenção de Abderramão III (século X), a segunda ampliação, durante o califado Omíada (século X), a última ampliação, por ordem de Almansor (século X), e as obras do século XV até ao século XVII, envolvendo uma Capela-mor e um cruzeiro. Para minha surpresa entrego ao visitante uma brochura onde se vê claramente o espaço quadrangular que abarca o Pátio das Laranjeiras com a Porta do Perdão, a Torre Campanário e a Porta de Santa Catalina, bem como a Porta das Palmas, seguindo-se as sucessivas ampliações desde a Mesquita de Abderramão I.

Para desfrutar de uma visita que nos leve a entender as sucessivas construções, a brochura inclui um plano guia onde se destacam a Mesquita fundacional, que se mostrou no texto anterior, com a reutilização de materiais romanos, helenísticos e visigodos, o visitante fica deslumbrado com o módulo de construção baseado na sobreposição de uma dupla arcada; vê-se depois a ampliação de Abderramão III que se concretiza em 11 capitéis feitos por artesãos locais, temos depois a ampliação de Alhaken II, criou sumptuosidades, introduziu claraboias que conferem mais iluminação; há, depois, o mihrab, que é muito mais do que o nicho que orienta a oração, é um trabalho ornamental dos mosaicos que provém da tradição vicentina; está ali enquistada a Capela Real; e a rematar esta transcendente sequência de preciosidades arquitetónicas e artísticas a ampliação de Almansor, isto para já não falar do cruzeiro onde se vê um perfeito diálogo entre o gótico, o renascimento e o maneirismo, lá em cima uma imensa claraboia que inunda de luz o conjunto.

É esta a viagem que vamos fazer depois da construção de Abderramão I.


Um pormenor do Pátio das Laranjeiras com a torre campanário ao fundo
Entrelaçamento de arcos à entrada da capela da Villaviciosa. Foi uma ampliação no século X por Alhaken II. Esta ampliação foi a mais sumptuosa de todas. Todas as colunas e capitéis foram trabalhados para este edifício. É surpreendente a riqueza ornamental que se centra à volta do mihrab, autêntica joia da Mesquita.
O mihrab é um nicho ornamentado na parede que indica a direção de Meca, para onde os muçulmanos rezam, sendo o espaço mais sagrado de uma mesquita. A estrutura é um exemplo notável da fusão de estilos arquitetónicos islâmicos e cristãos, com elementos omíadas, visigodos, góticos, renascentistas e barrocos. Apresenta arcos em ferradura e colunas de mármore e jaspe recuperadas de edifícios romanos e visigodos anteriores.
Arco da Mesquita, a beleza dos tons azulados e o surpreendente canelado que se adossa ao ponto superior
Pormenor do arco da Mesquita, permitindo ver a riqueza dos cambiantes de cor
Uma floresta de colunas na ampliação de Alhaken II
Outra perspetiva
Mais outra perspetiva
O fabuloso cromatismo de um vitral islâmico
A caminho da Catedral. Cabe aqui lugar um comentário. No século XVI, mesmo com oposição do cabido, o Bispo do D. Alonso Manrique obteve autorização para erguer uma catedral no centro da Mesquita. Mesmo que se queira reconhecer beleza e riqueza a esta catedral, houve imediatamente críticas, logo do Imperador Carlos V: “Haveis destruído o que não existia em lugar nenhum para construir algo que se pode encontrar em qualquer lugar.”
Teto da Capela Maior no lugar conhecido pelo nome de Lucernario de Villaviciosa
A maqsura em restauro. Referiu-se que a ampliação de Alhaken II é a mais sumptuosa de todas. Está perto do mihrab. É surpreendente a riqueza ornamental do mihrab, autêntica joia da Mesquita. A maqsura é um nicho octogonal que, tal como o mihrab, foi trabalhado por artistas bizantinos que realizaram os maravilhosos mosaicos que decoram o seu arco de entrada e a magnífica cúpula que o antecede. Este espaço estava reservado ao califa, nada tem a ver com as cúpulas da arte cristã. A abóboda da maqsura é considerada a abóboda mais formosa da Mesquita.
Para construir esta catedral foram destruídas 63 colunas em tempo recorde. É uma igreja em forma de cruz latina, as suas alfaias religiosas são de uma enorme riqueza.

Houvesse tempo e a visita continuaria pela Sinagoga, pelo Museu Provincial de Belas Artes, não havendo tempo para tudo, aponta-se como objetivo um passeio pela Judiaria. Em Córdova, durante o período do califado, viveu uma grande comunidade judaica, Córdova foi um centro espiritual e social dos judeus. Resta o labirinto das suas estreitas ruelas e pequenas praças encantadoras. Ainda houve oportunidade de uma curta visita ao Museu Arqueológico, está na hora de descansar, amanhã ainda se quer percorrer a Ponte Romana, bisbilhotar os Pátios Cordoveses e visitar o Palácio de Viana, assim se porá termo a esta curta visita Andaluza.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 17 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27643: Os nossos seres, saberes e lazeres (718): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (239): Uma viagem à Córdova árabe, a todos os títulos inesquecível - 6 (Mário Beja Santos)

sábado, 17 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27643: Os nossos seres, saberes e lazeres (718): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (239): Uma viagem à Córdova árabe, a todos os títulos inesquecível - 6 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 29 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
Ando por aqui sempre com a sensação de uma visita de médico, a visita à Mesquita era ponto obrigatório, as escolhas subsequentes, caso do alcázar dos reis católicos, a judiaria, os museus, os bairros típicos, preferiu-se optar por um passeio descontraído depois da visita à Mesquita e reservar a manhã seguinte, antes de partir para Tavira, ao bairro de Santa Marina e visitar cuidadosamente o Palácio de Viana, uma casa senhorial com surpreendentes jardins. Tudo começou andando à volta da Mesquita, contemplou-se o Pátio das Laranjeiras e com roteiro na mão percorreram-se as sucessivas etapas de construção entre os séculos VIII e X. Para surpresa do visitante há uma brochura em português que delineia o faseamento da construção, mostrando as sucessivas ampliações, as portas, tudo começando, como se procurou aqui mostrar na Mesquita fundacional de Abderramão I, que adota em planta um modelo basilical inspirado nas de Damasco e Jerusalém. Não deixa também de surpreender a reutilização de materiais onde não falta inspiração helenística, romana e visigoda. Pois vamos continuar.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (239):
Uma viagem à Córdova árabe, a todos os títulos inesquecível - 6

Mário Beja Santos

Córdova, durante o período do domínio romano, foi capital da Bética, uma das cidades mais importantes da Península Ibérica. Com a conquista árabe, converteu-se na cidade mais cosmopolita e refinada do ocidente. O legado romano foi enorme, em Córdova surgiram figuras de grande estatura como Séneca, o Retórico, e seu filho, o filósofo estoico e percetor de Nero, Séneca, bem como o poeta Lucano. Córdova foi conquistada em 711, os emires residiram na cidade desde 711. Em 755, Abderramão I, o único sobrevivente Omíada da matança ordenada pelos Abássidas, criou o Emirato independente, não reconhecendo a Bagdade mais do que a supremacia religiosa. No século IX, durante o reinado de Abderramão II haverá um grande florescimento cultural. Em 929, Abderramão III proclama o Califado de Córdova, com independência total. É um tempo de paz e prosperidade que favoreceu um esplendor cultural sem precedentes. Reina a tolerância religiosa permite às cultural judaica, cristã e muçulmana um convívio pacífico. Córdova torna-se na grande capital de todo o ocidente. A sua população chegou a superar os 250 mil habitantes, havia 3 mil mesquitas, uma infinidade de lojas e banhos, teve universidade, bibliotecas, edifícios sumptuosos.

No século XI deram-se intensas lutas internas que desembocaram na dissolução do Califado, surgiram os chamados Reinos de Taifas. Destacaram-se muitas personalidades neste período tanto no campo científico (caso da astronomia, matemáticas e medicina), como no filosófico, em que os nomes mais salientes foram o muçulmano Averróis, um comentador muçulmano da obra aristotélica, e o judeu Maimónides, filósofo e médico.

Em 1236, Fernando III, o Santo, reconquistou Córdova, mas a presença muçulmana tornou-se inextinguível, com destaque para a Mesquita, a cidade continua marcada por uma urbanização de cunho árabe.

A Mesquita-Catedral atrai todos os anos milhões de turistas, vêm procurar contemplar um monumento único no mundo. Sobre a basílica visigótica de São Vicente erigiu-se entre os séculos VIII e X a Mesquita tal como a conhecemos. Depois da Reconquista, os cristãos enxertaram uma catedral gótica, e daí o visitante contemplar um edifício tão heterogéneo, formado por dois oratórios completamente distintos.

Uma breve síntese das imagens que se seguem. Vou caminhando em direção à Mesquita, passo por duas belíssimas portas do lado direito e entro num edifício que hoje dá pelo nome de Palácio de Congressos e Exposições, antigo hospital.

Uma das entradas para a Mesquita-Catedral de Córdova, Património da Humanidade desde 1984, a sua construção original começou em 784 d.C., tinha na base uma basílica visigótica.
A imagem mostra uma estátua de Dom Quixote sentado numa pilha de livros, localizada no pátio do Palácio de Congressos de Córdova.
Retábulo da capela do antigo hospital de São Sebastião em Córdova, a capela foi concluída em 1516, atualmente, o edifício do antigo hospital funciona como o Palácio de Congressos e Exposições de Córdova.
A imagem mostra uma porta de entrada arqueada para a Mesquita-Catedral de Córdova, apresenta uma mistura única de estilos arquitetónicos islâmicos e cristãos, refletindo a sua história de conversão de mesquita para catedral.
Já estou no interior desta obra-prima da arte muçulmana, a sua planta responde ao esquema tradicional da Mesquita árabe que tem a sua origem na casa do profeta Maomé em Medina: um recinto retangular fechado, um pátio de abluções, a sala de orações e um minarete. Abderramão I iniciou a construção da Mesquita com 11 naves que se abrem ao Pátio das Laranjeiras. Na sua construção utilizaram-se colunas de mármore e capitéis de edifícios romanos e visigóticos. Com o objetivo de elevar o conjunto recorreu-se à sobreposição de dois pisos de arcos, dispondo-se as colunas com um segundo piso com pilares, solução de grande originalidade Abderramão II fez a primeira ampliação, Al-hakam II voltou a ampliar e construiu o Mihrab (é um nicho em arco ou reentrância na parede de uma mesquita que indica a Qibla, isto é, a direção de Meca). Por último, Almansor acrescentou 8 naves paralelas às primeiras (reconhecem-se porque o pavimento é de cor vermelha, deu-lhe as dimensões definitivas.

Estou no Pátio das Laranjeiras, tem este nome devido às laranjeiras plantadas pelos cristãos depois da Reconquista. Os muçulmanos antes de iniciar as suas orações deviam realizar abluções na fonte do pátio. Vejamos agora o Minarete, o ponto alto destinado ao chamamento para a oração. Abderramão III foi quem ordenou a construção do minarete monumental de 47 metros, o que testemunha a grandeza do autoproclamado Califa. Foi modelo para a construção posterior de famosos minaretes, como os de Sevilha, Marraquexe e Rabat. Embutido na torre do campanário, pode ver-se a sua estrutura e decoração no interior.

Em 1589, um terramoto afetou gravemente a estabilidade do minarete a que se havia acrescentado um corpo superior de campanário. No Pátio das Laranjeiras pode observar-se o que terá sido o primitivo minarete.
Começa aqui o espetáculo surpreendente, contraste entre os elementos cristãos e o bosque de colunas e árvores. Logo chamo a atenção a cor e as sombras, a formosura dos arcos em ferradura (herança visigótica) apresentam uma alternância de aduelas vermelhas e brancas. Esta bicromia enriquece com as tonalidades dos fustes das colunas em que predominam os tons acinzentados e róseos.
Inicia-se a visita pela zona mais antiga da construção, passamos pela nave central da primeira Mesquita e ainda não se consegue ver o mihrab. As naves correm perpendiculares ao muro da quibla é nesta direção que se orienta o muçulmano a rezar, é o muro voltado para Meca. Não deixa de surpreender a magnificência da decoração onde não existe a figura humana, devido aos preceitos religiosos muçulmanos, daí os artistas terem desenvolvido ao máximo os elementos decorativos de inspiração vegetal ao geométrica.
Numa zona reservada a peças soltas de inestimável valor, destaquei uma placa de pedra esculpida com um padrão de rosetas e círculos entrelaçados.
O teto de caixotões de madeira restaurado na imagem é do interior da Mesquita-Catedral de Córdova, apresenta intrincados padrões geométricos e caligráficos, típicos da arte islâmica e mourisca.
Uma fascinante mistura de arquitetura mourisca e elementos cristãos, como se pode ver na rosácea.

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 10 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27623: Os nossos seres, saberes e lazeres (717): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (238): Ver a Alhambra por um canudo, visitar o Palácio de Carlos V e partir para Córdova - 5 (Mário Beja Santos)