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sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Guiné 61/74 - P27164: Os 50 anos da independência de Cabo Verde (8): a pequena burguesia urbana guineense, de origem cabo-verdiana, na génese e desenvolvimento do PAI / PAIGC e do PAICV

 


Capa do livro de memórias de Luís Cabral (Bissau, 1931 - Torres Vedras, 2009), "Crónica da Libertação", Lisboa, "O Jornal", 1984, 464 pp. (Capa: de João Segurado segundo foto de Bruna Polimeni)

 Capa do livro  de Daniel dos Santos, "Amílcar Cabral:   um outro olhar" (Lisboa, Chiado Editora, 2014). Com a devida vénia ao blogue "Baía da Lusofonia"



1. Cremos que está por estudar o papel  dos  cabo-verdianos na colonização e administração da Guiné...A frase é dita com cautela: não somos especialistas nesta matéria, e muito menos na história do PAIGC, da Guiné-Bissau, de Cabo Verde...

Além de comerciantes, os "colonos" cabo-verdianos foram "ponteiros" (donos de pontas, pequenas explorações agrícolas nas zonas férteis das bacias hidrográficas, outrora postos comerciais...), mas também, um ou outro,  grandes proprietários agrícolas (produção de arroz), fabricantes de aguardente de cana,  donos de embarcações que faziam as ligações fluviais, pequenos e médios funcionários públicos (em áreas como a administração civil, o ensino, a saúde,  os correios, a banca, etc.).

Enfim, fizeram parte também da elite intelectual e social do território (por exemplo, foram dirigentes associativos), mesmo tratando-se  de uma pequena comunidade que nos anos 50/60 não devia ultrapassar as 1500 pessoas, mas que era maior e tinha mais importância do que a dos sírio-libaneses (*).

Com base no nosso blogue e e com ajuda da IA (Gemini, Perplexity, ChatGPT), vamos explorar  algumas  pistas e identificar alguns exemplos, sobretudo no século XX. 

É um pequeno contributo para a série "Os 50 anos da independência de Cabo Verde"(**), país lusófono a que nos ligam fortíssimos laços históricos e afetivos, tal como a Guiné- Bissau.
 
  • muitas famílias cabo-verdianas ocupavam empregos intermédios nas grandes casas comerciais (como a Casa Gouveia, do grupo CUF, a Sociedade Comercial  Ultramarina, do grupo BNU, a Barbosas & Cia, e Ed. Guedes Lda, e outras firmas de importação/exportação instaladas em Bissau e Bolama, incluindo as francesas SCOA e NOSOCO);
  • eram também funcionários administrativos (chefes de serviços, administradores, chefes de posto), bancários, professores primários, empregados dos correios, etc, nomeadamente em setores onde a oferta local guineense era muito mais reduzida devido às barreiras coloniais no acesso à educação ( até tarde, não havia ensino médio nem secundário no território).
  • este grupo  formava uma pequena burguesia urbana, com maior escolaridade, que servia de “almofada” entre os colonizadores portugueses e a maioria da população guineense;
  •  até 1961 o guineense ("não- assimilado") tinha o estatuto de "indígena", enquanto o cabo-verdiano era cidadão português; 
  • curiosamente não sabemos se os comerciantes sírio-libaneses, ou de origem sírio-libanesa, já tinham nos anos 50/60, a cidadania portuguesa; parece-nos que sim, pelo menos os já nascidos no território, face à legislação em então em vigor.

(i) Do colonialismo à resistência

Essa mesma camada social irá fornecer os primeiros quadros ao PAI (Partido Africano para a Independência) (até 1962) e depois PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde).

A família Cabral parece ser  o exemplo mais emblemático:

  • Juvenal Cabral (pai de Amílcar e Luís Cabral) era cabo-verdiano, professor primário na Guiné, teve numerosos  filhos )cerca de duas dezenas!), de, pelo menos, 3 mulheres);
  • os filhos Amílcar Cabral (engenheiro agrónomo e fundador do PAI / PAIGC) e Luís Cabral (primeiro presidente da república da Guiné-Bissau) vieram diretamente dessa pequena burguesia urbana,  escolarizada;
  • há um segundo meio-irmão de Amílcar Cabral, mais novo, que também já vimos referenciado no livro de memórias do Luís Cabral como dirigente ou militante do PAIGC, embora de 2ª linha (Tony Cabral ?);
  • as respetivas esposas também eram de origem cabo-verdiana: Ana Cabral (a segunda esposa de Amílcar Cabral); e Lucette Andrade, a esposa do Luís (era uma senegalesa, de origem cabo-verdiana, ou uma filha de pais cabo-verdianos, da ilha de Santiago, a viver em Dacar).
Fica.se com a ideia de que o PAI/PAIGC era, originalmente, um quase "negócio de família" (sob a liderança férrea, autoritária e centralizadora,  do engº Amílcar Cabral, o único que teve acesso ao ensino superior universitário na metrópole, o único teórico, o único estratega, o único diplomata, o único político, etc., do Partido).

Muitos dos primeiros militantes e dirigentes do PAI / PAIGC  (professores, pessoal de saúde, funcionários e comerciantes de origem cabo-verdiana, etc,.) tinham precisamente passado por esta experiência: servir o Estado colonial ou casas comerciais ( os verdadeiros "colonos") e acabar por romper com o sistema que os limitava social, profissional e politicamente.

  • Luís Cabralfilho de pai cabo-verdiano e mãe portuguesa (?), foi contabilista da Casa Gouveia, para onde entrou com uma "cunha" do irmão, conceituado engenheiro agrónomo formado no prestigiado ISA - Instituto Superior de Agronomia, da então Universidade Técnica de Lisboa.

  • Aristides Pereira  foi chefe da Estação Telegráfica dos CTT, e  o Fernando Fortes   o chefe da Estação Postal (na prática os "donos" dos CTT de Bissau, mesmo debaixo de olho da PIDE; se não mesmo "colaborantes" com a polícia política).


Há aqui uma contradição social  interessante:
  • por um lado, os cabo-verdianos foram peças-chave no aparelho colonial português na Guiné (quem eram os europeus que queriam vir para Guiné como administradores e chefes de posto professores, médicos, enfermeiros, bancários, empregados das alfândegas, dos correios,  das finanças, etc. ?)

  • por outro, a sua maior escolarização e contacto com ideias políticas (vindas de Lisboa, Dacar, Conacri,  Paris) deu-lhes ferramentas para enquadrar e  liderar o movimento independentista (não vamos discutir aqui a hegemonia do PAI/PAIGC e como foi conseguida);

  • essa é uma das razões porque o PAI / PAIGC se afirmou com uma liderança inicial fortemente cabo-verdiana, embora depois tenha procurado ampliar a sua base social de apoio (entre camponeses e trabalhadores urbanos guineenses, com destaque para os balantas, que foram os homens do mato. a "carne para canhão").


Faltam-nos dados biográficos e historiográficos, documentados, para identificar todos os "históricos" do PAI/PAIGC.

Uns eram cabo-verdianos ou de origem cabo-verdiana; outros  podiam ter ou não laços de parentesco, por sangue ou casamento,  com famílias cabo-verdianas.

 Ocorre-nos à memória  gente oriunda sobretudo da pequena burguesia escolarizada ou já com alguma qualificação profissiomal, que trabalhou quer na administração pública quer nas casas comerciais, vindo a desempenhar posteriormente funções de relevo, políticas e/ou e militares, no PAI/PAIGC

  • Domingos Ramos: nascido em Bissau, e, ao que parece, trabalhou como auxiliar hospitalar antes de fazer a tropa,. tendo frequentado o 1º Curso de Sargentos Milicianos da província, em 1959, com o nosso camarada Mário Dias); acabou por desertar, e passar pela Guiné-Conacri e pela China, regressando depois como comandante da Frente Leste;  iria morrer em combate em novembro de 1966, em Madina do Boé; tornou-se um dos primeiros "heróis da luta de libertação";
  •  João Bernardo “Nino” Vieira: eletricista, terá aderido ao PAI/PAIGC em 1960; rapidamente se tornou uma figura-chave na luta de guerrilha e também um "mito" ao olhos das NT (que o viam por todo o lado, dotado como Deus do dom da "ubiquidade"); depois da independência seria o primeiro-ministro no regime de Luís Cabral e, em 14 de novembro de 1980, liderou um golpe de Estado que acabou de vez com outro "mito", o da unidade Guiné-Bissau - Cabo Verde (as feridas entre guineenses e cabo-verdianos ainda hoje não estão saradas, 'Nino' foi o histórico carrasco da poderosa facção cabo-verdiana do PAIGC.

(ii) Contexto histórico e papel das casas comerciais como a Casa Gouveia

O "massacre de Pidjiguiti" (1959) teve forte ligação à Casa Gouveia: marinheiros e estivadores em greve muitos deles associados à esta casa comercial, foram repri­midos violentamente, desencadeando uma radicalização política no seio das forças nacionalistas e independentistas. Parece todavia ser um "mito" o papel do PAI (só mais tarde PAIGC)  e a transição definitiva para a luta armada.

Outros  exemplos podem ser apontados para  ilustrar  o duplo percurso de alguns pequenos e médios  quadros cabo-verdianos: inicialmente integrados nas estruturas coloniais,  aproveitando a sua formação e contactos (inclusive com outras diásporas cabo-verdianas) para organizar, enquadrar e comandar a luta política e depois militar contra o domínio português.
 
(iii) Esquema cronológico com o papel dos cabo-verdianos na Guiné

Embora nos faltem muitos detalhes, pode-se dizer que a presença cabo-verdiana na Guiné foi ao mesmo tempo um pilar do sistema  colonial português e viveiro de resistência (ou de "subversão", como dizem as autoridades portuguesas da época),  contradição que pode explicar muitas tensões (e proximidades) entre guineenses e cabo-verdianos, mesmo até hoje.

Uma linha cronológica pode ser organizada passando por:

  • chegada e papel dos cabo-verdianos no comércio e na administração (sécs. XIX-XX),

  • formação da pequena burguesia urbana ligada às casas comerciais (como a Gouveia),

  • a viragem para a luta anti-colonial  (a partir das independências na África Ocidental, mas também do ano-charneira de 1959),

  • e a passagem dessas figuras para a liderança do PAI / PAIGC.

Século XIX

  • Até 1800/50 : cabo-verdianos (sobretudo mestiços) atuam como "lançados", comerciantes e mediadores culturais entre colonos portugueses e populações locais da Guiné;

  • 1852/59:  Honório Barreto, de ascendência cabo-verdiana, governa a Guiné em nome de  Portugal, reforçando o comércio e a presença administrativa.

Final do século XIX – início do século XX

  • 1880/1920: expansão das “pontas” (pequenas propriedades agrícolas) e do cultivo de arroz por cabo-verdianos (e outros) fixados nas margens dos rios.

1900/1930: migração de professores, funcionários públicos, bancários e empregados comerciais cabo-verdianos para a Guiné; surge uma pequena burguesia urbana que ocupa cargos intermédios em casas comerciais (Casa Gouveia, Sociedade Comercial Ultramarina, SCOA, NOSOCO...), bancos, correios e ensino primário


D

écadas de 1930/40
  • Cabo-verdianos passam a constituir a maioria dos quadros intermédios da administração colonial (estima-se mais de 70% dos postos públicos).

  • Famílias como a dos Cabral, destacam-se:

    • Juvenal Cabral, cabo-verdiano, professor primário;

    • Os filhos Amílcar e Luís Cabral recebem formação escolar diferenciada, que lhes abre  caminho para os estudos superiores (Amílcar começa a escola, faz o liceu no Mindelo e consegue uma bolsa para ir para  Lisboa).

Década de 1950
  • A pequena burguesia cabo-verdiana cresce em importância nas cidades (Bolama, Bissau, Bafatá...);

  • 1956: fundação do PAI (Partido Africano da Independência) em Bissau, por Amílcar Cabral e outros, com forte núcleo inicial cabo-verdiano;

  • 3 de agosto de 1959: "massacre de Pidjiguiti", durante uma greve de estivadores ligados à Casa Gouveia (papel controverso do administrador cabo-verdiano António Carreira),


Década de 1960

  • 1961: primeiras ações armadas (o protagonismo ainda não é do PAI/PAIGC);

  • mobilização (clandestina) de militantes e simpatizantes do futuro PAIGC ( trabalho de sapa sobretudo de Rafael Barbosa);

  • 21 de janeiro de 1963: ataque, precipitado,  a Tite (que a propaganda do PAIGC transforma noutro "mito",  o início histórico da luta armada contra Portugal);

  •  Domingos RamosJoão Bernardo “Nino” Vieira e outros futuros "comandantes" formam-se na China.

Década de 1970
  • 1973: assassinato de Amílcar Cabral em Conacri;

  • 24 de setembro de 1973: proclamação  unilateral da independência da Guiné-Bissau alegadamente na região fronteiriça do Boé (uma encenação  com forte apoio logístico e diplomático de Cuba, Guiné -Conacri, Suécia, etc.)

  • Luís Cabral, cabo-verdiano, torna-se o primeiro presidente da Guiné-Bissau;

  • Antigos quadros da administração colonial cabo-verdiana passam a integrar o novo Estado, depois da saída dos portugueses em setembro de 1974; outros "retornam" a Cabo Verde, a Portugal, ou emigram,

Resumo interpretativo
  • Colónia → Cabo-verdianos eram funcionários, comerciantes e pequenos proprietários.

  • Nacionalismo → Essa posição intermédia deu-lhes acesso à educação, redes políticas e contactos (internos e externos) que permitiram a formação do núcleo dirigente do PAI / PAIGC.

  • Independência → Os descendentes dessa pequena burguesia (como a família Cabral) assumiram o comando político e estatal na nova Guiné-Bissau e em Cabo Verde.


Lista (exemplificativa) de militantes e dirigentes cabo-verdianos (ou de origem cabo-verdiana) do PAI / PAIGC

1. Amílcar Cabral

Filho de pais cabo-verdianos, nasceu na Guiné-Bissau. Formou-se engenheiro agrónomo em Lisboa e, em 19 de setembro de 1956 (data controversa), cofundou o PAI, depois transformado em 1962 no PAIGC, juntamente com Aristides Pereira, Luís Cabral, Fernando Fortes, Júlio de Almeida e Elisée Turpin (facto também por documentar com rigor).

2. Luís Cabral

Meio-irmão de Amílcar Cabral, também de origem cabo-verdiana, foi cofundador do PAI / PAIGC e tornou-se o primeiro presidente da Guiné-Bissau independente, em 1973/74.

3. Rafael Paula Barbosa

Nascido em Safim, filho de mãe guineense e pai cabo-verdiano,  participou na formação inicial do PAI, inclusive recrutando membros. Esteve a maior parte do tempo preso, sendo libertado por Spínola em 1969: exerceu ainda funções simbólicas no partido em determinados momentos críticos.

4. Comissão Nacional de Cabo Verde do PAIGC e a criação do PAICV

Após a fundação do PAI / PAIGC , foi criada em Cabo Verde uma comissão com cabo-verdianos como Pedro Pires, Abílio Duarte, Silvino da Luz, Osvaldo Lopes da Silva e Olívio Pires, membros do Conselho Superior da Luta, embora com atuação mais simbólica e clandestina em Cabo Verde (nunca guerrilha nas ilhas).

Silvino da Luz, Osvaldo Lopes da Silva e outros receberam formação militar em Cuba e na URSS antes de serem integrados como altos quadros militares nas FARP (Forças Armadas Revolucionárias do Povo) do PAIGC. 

Mas os cabo-verdianos no mato, de armas na mão, na Guiné,  eram poucos, se os compararmos com os "internacionalistas cubanos": terão morrido 2  cabo-verdianos, contra 17 cubanos...

Em 20 de janeiro de 1981 será criado na Praia, Cabo verde,  o Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV)... Diz-se hoje de centro-esquerda, de ideologia social-democrata, depois de ter aderido, em 1990, à "democracia multipartidária" (após a queda do muro de Berlim).

O PAICV nasceu da cisão com o PAIGC (e na sequência do golpe de Estado de 14 de novembro de 1980, em Bissau, liderado por 'Nino' Vieira). O então Secretário-Adjunto do PAIGC (e  Presidente de Cabo Verde) Aristides Pereira tornou-se Secretário-Geral do PAICV.

5. Outros nomes entre os fundadores do PAI / PAIGC

  • Aristides Pereira:  posteriormente tornou-se presidente de Cabo Verde, foi um dos fundadores; de origem cabo-verdiana;

  • Fernando FortesJúlio de Almeida e Elisée Turpin: também mencionados entre os fundadores do PAI/PAIGC, com ligações à comunidade cabo-verdiana e à oposição ao Estado Novo.

6. Outros

Embora não sejam necessariamente cabo-verdianos, eram elementos da pequena burguesia escolarizada, incluindo professores e funcionários,  cedo integraram o PAI / PAIGC como quadros políticos, administrativos e militares. 

Exemplos como Domingos Ramos“Nino” Vieira, e Tiago Aleluia Lopes são sobretudo guineenses, mas surgiram da mesma estrutura social urbana onde muitos cabo-verdianos estavam presentes e interligados, o que ajudou à formação dos primeiros militantes e redes de ação.


Síntese em tabela
NomeOrigem / Vínculo Cabo-VerdianoPapel no PAI / PAIGC
Amílcar CabralPais cabo-verdianos, nascido na GuinéCofundador, líder intelectual e estratégico do PAIGC

Luís CabralIrmão de Amílcar, origem cabo-verdianaCofundador do PAIGC, primeiro Presidente da Guiné-Bissau

Rafael Paula BarbosaPai cabo-verdianoLigado à construção civil, recrutador inicial e dirigente simbólico
Pedro Pires, Abílio Duarte, Silvino da Luz, Osvaldo Lopes da Silva, Olívio PiresCabo-verdianos, fundadores do CNCVProcessos de mobilização e comando militar logo no início

Aristides Pereira, Fortes, Almeida, Irmãos Turpin
Cabo-verdianos (ou de origem cabo-verdiana) nos fundadores do partidoLegitimidade política e binacional da causa


(Pesquisa: Blogue | LG | Assistente de IA (Gemini, ChatGPT, Perplexity)

(Revisão / fixaçãod e texto, negritos: LG)

_________________

Notas do editor LG:

(*) vd. poste 26 de agosto de 2025 > Guiné 61/74 - P27153: A nossa guerra em números (37): Colonos - Parte II: cabo-verdianos (uma pequena burguesia que, na Guiné, foi viveiro de militantes e dirigentes do PAIGC)

terça-feira, 26 de agosto de 2025

Guiné 61/74 - P27153: A nossa guerra em números (37): Colonos - Parte II: cabo-verdianos (uma pequena burguesia que, na Guiné, foi viveiro de militantes e dirigentes do PAIGC)


Foto nº 1 > Lisboa > s/d > Sede do BNU - Bnaco NacionalUltramarino (Hoje sede do MUDE - Museu do Design



Foto nº 2 



Foto nº 3

Lisboa > Antiga sede do BNU,  na Rua Augusta, que hoje aloja o Museu do Design   (MUDE). Esculturas de Leopoldo de Almeida (1964), que representam a expansão do BNU como banco emissor pelos antigos territórios ultramarinos portugueses, e os respetivos escudos, incluindo a Guiné (cujo escudo é o da direita, a contar de baixo para cima, inspirado no original, a seguir descrito

"Escudo composto tendo a dextra em campo de prata, cinco escudetes de azul, cada um com cinco besantes de prata em aspa e a ponta, de prata com cinco ondas de verde - pretendiam simbolizar a ligação à metrópole; a sinistra em campo de negro, um ceptro de ouro com uma cabeça de africano, alusão ao ceptro utilizado por D. Afonso V, rei de Portugal à época da exploração da região. Brasão de armas simplificado, de 8 de maio de 1935 a 24 de setembro de 1973."

Fonte: BNU. (Reproduzido com a devida vénia...)

Foto nº 4 > Guiné > s/d > s/ l > A embarcação "Bubaque", ostentando a bandeira portuguesa... Antiga LP 4 (Lancha de Patrulha 4, da nossa Marinha, no ativo entre 1963 e 1964), terá sido anteriormente uma traineira de pesca, algarvia... Depois de abatida ao efetivo, foi comprada pelo pai do nosso camarada Manuel Amante da Rosa, antigo embaixador da República de Cabo Verde em Roma. 

Foto (e legenda): © Manuel Amante da Rosa (2014). Todos os direitos reservados. 8Edição: LG]


1. Os colonos na África Portuguesa não eram só cidadãos portugueses da metrópole, mas também das ilhas atlânticas (Madeiras, Açores e Cabo Verde) e igualmente estrangeiros como os libaneses, ou sírio-libaneses (oriundos do antigo império otomano, que emigraram para a África Ocidental nos anos de 1910/20) (*) sem esquecer os luso-indianos de Goa, Damão e Diu, e até os macaenses. 

Já aqui destacámos o papel dos sírio-libaneses, "comerciantes e empreendedores" (*), e falámos da sua presença na Guiné até à independência (em 1974). Falemos agora de outros grupos e comunidades, começando pelos cabo-verdianos (que eram, na altura,  cidadãos portugueses, a quem não se aplicava o famigerado estatuto do indigenato).


(i) Funcionários e Trabalhadores: A Diáspora Cabo-Verdiana

A emigração de cabo-verdianos para as outras colónias portuguesas em África foi um fenómeno de grande relevo.

Impulsionados por secas e fomes cíclicas (1901-1904, 1920-21, 1941-43,  1947/49) e pela escassez de recursos (agricultura, indústria, educação, saúde, emprego, transportes,  etc.) no seu arquipélago, 
muitos cabo-verdianos procuraram melhores condições de vida na Guiné, em Angola, Moçambique e, especialmente, em São Tomé e Príncipe, onde chegaram a constituir uma parte significativa da população. (Para além de terem emigrado para Portugal, Holanda, EUA.)

Dada a sua familiaridade com a língua e a administração portuguesas, foram frequentemente empregados em cargos de baixa e média hierarquia na função pública, nos correios,  nas alfândegas, na banca, bem como em atividades comerciais, transportes marítimos, etc. e em geral como mão de obra qualificada.

Esta posição intermédia na hierarquia social colonial era, por vezes, fonte de tensões com as outras comunidades como aconteceu na Guiné-Bissau, antes e durante a guerra colonial, bem como depois da independência (golpe de Estado de 'Nino' Vieira,  primeiro-ministro, contra o presidente da república, Luís Cabral, em 14 de novembro de 1980, em que os cabo-verdianos foram "demonizados").

Os cabo-verdianos tiveram um papel importante na colonização da África portuguesa, e em especial a Guiné, onde foram comerciantes, "ponteiros", e ocuparam lugares de nível médio (na administração civil, banca, correios, educação, etc.).

A presença e o papel dos cabo-verdianos na colonização da África portuguesa, especialmente na Guiné, foram marcantes e multifacetados. Desde o início da ocupação portuguesa na África Ocidental, a história da Guiné e de Cabo Verde esteve profundamente entrelaçada, não apenas por laços geográficos, mas também por interesses económicos e sociais compartilhados.

Em boa verdade,  a Guiné  foi tratada como uma "dupla colónia", sendo administrada  por  Cabo Verde até 1879, altura em que foi separada das ilhas, passando a ser governada autonomamente.

Os cabo-verdianos atuaram como comerciantes, estabelecendo-se principalmente na zona costeira e nas margens dos rios guineenses, donde desenvolveram intensas atividades mercantis. Esses comerciantes envolveram-se no tráfico de escravos (até meados do séc- XIX), além de serem depois  detentores de lojas e proprietários de transportes coletivos, fluviais e rodoviários, exercendo influência significativa no mercado local.

Além do papel comercial, muitos cabo-verdianos ocupavam posições médias na administração colonial: eram funcionários na banca, nos correios, na educação, e em outros setores de serviços públicos. Na realidade, ocuparam lugares que os portugueses da metrópole não queriam, devido à "má fama" do território (insegurança, atraso, clima, paludismo e outras doenças tropicais, etc.). 

Registe-se, a par disso, a atividade agrícola como “ponteiros”, ou sejam,  
pequenos agricultores que exploravam "pontas" (geralmente hortas, pequenas quintas), em zonas férteis, nas bacias hidrográficas: Cacheu. Mansoa, Geba, Corubal, Buba, etc.

 Os cabo-verdianos na Guiné também foram proprietários de pequenas embarcações e prestadores de serviços de transporte local. Esses serviços fluviais e costeiros eram essenciais para a interligação das comunidades em regiões onde o rio e o mar eram os principais meios de circulação.

Essa posição como donos e operadores de embarcações permitiu_lhes  ser intermediários cruciais nas trocas comerciais e no transporte de pessoas e mercadorias. 

Por estarem nessa interface, os cabo-verdianos mantinham uma relação próxima com o poder colonial, já que facilitavam a logística e o funcionamento dos mecanismos administrativos e económicos do regime português.

Além disso, essa função conferia-lhes um papel importante como intérpretes culturais, sociais  e económicos, mediando entre as autoridades coloniais e as populações locais de diversas origens étnicas e culturais. 

Essa mediação contribuía para que os cabo-verdianos se posicionassem como uma ponte social, favorecendo a comunicação, negociações e intercâmbios entre diferentes grupos dentro do contexto colonial.

É importante destacar ainda a forte componente crioula presente nesse contexto, já que boa parte dos  grupos intermediários que atuavam nesses espaços eram de origem mista, fruto de séculos de convivência e intercâmbio entre Cabo Verde e a região da Guiné. Essa dinâmica reforçou a ligação social e cultural entre ambas as regiões. Por exemplo, Amílcar Cabarl, nascido em Bafatá em 1924, era filho de pai cabo-verdiano, o professor primário Juvenal Cabral, e de mãe guineense, de etnia fula, Iva Pinhel Évora.

Em resumo, os cabo-verdianos desempenharam um papel crucial na economia e na administração da África portuguesa, especialmente na Guiné, forma verdadeiros marginais-secantes, exercendo funções estratégicas como comerciantes, ponteiros, donos de barcos de cabotagem e ocupantes de cargos de nível baixo e médio na sociedade colonial.
 
Sublinhe-se que a atuação dos cabo-verdianos na sociedade colonial da Guiné foi muito além do comércio e da administração, incluindo também um contributo notável na agricultura de pequena escala e de subsistência.


Apresenta-se a seguir um esquema detalhado sobre o papel dos cabo-verdianos na colonização da Guiné, então colónia portuguesa, com enfoque no século XX, complementada por alguns exemplos históricos


(ii) Papel dos cabo-verdianos na Guiné colonial (séculos XIX e XX)

1. Intermediários, "lançados" e gestores comerciais

  • Desde os séculos XVI e XVII, muitos cabo-verdianos, especialmente mestiços e "lançados",  atuavam como intermediários comerciais ao longo da costa da Guiné; filhos de colonos com mulheres africanas, esses indivíduos formavam uma classe de “lançados” que facilitava o trânsito de mercadorias, escravos e informações entre as ilhas e o continente; eles eram peças cruciais na economia regional, estabelecendo redes comerciais e vínculos sociais locais;

  • Companhia de Cacheu, Rios e Comércio da Guiné (1675), criada em Portugal, conferia privilégios aos residentes de Cabo Verde, mesmo sob monopólio, permitindo-lhes embarcar seus próprios produtos e manter certa autonomia comercial na costa da Guiné.

2. Agricultores ("ponteiros"), grandes proprietários, comerciantes e navegadores fluviais

  • O termo “ponteiros” (donos de “pontas”, pequenas explorações agrícolas em zonas férteis) e grandes proprietários agrícolas, como os envolvidos na produção de arroz, corresponde exatamente à presença de cabo-verdianos que, aproveitando zonas férteis nas bacias hidrográficas, ocuparam-se com a agricultura;

  • Além disso, muitos eram donos de embarcações, que operavam as ligações fluviais, essenciais na mobilidade de pessoas e mercadorias na Guiné.

Embora menos documentado com nomes específicos, esse conjunto de funções estava bem representado na elite cabo-verdiana que ocupava o espaço colonial de forma bastante atuante. (A IA não sabia o que eram "ponteiros", tive que lhe explicar... Há subtilezas da nossa língua e da nossa história, que lhe escapam: como também sabia não distinguir "régulo", termo que só existia na Guiné e em Moçambique, e não em Angola).

Historicamente, o termo "ponteiro" está ligado ao sistema de "pontas", que remonta ao período colonial. Estas "pontas" eram inicialmente zonas de controlo comercial, tendo depois evoluído para explorações agrícolas. A relação entre os "ponteiros"  e os  "tabanqueiros", nem sempre terá sido  isenta de tensões e conflitos,  originando dispustas por terras com criadores de gado (nomeadamente,fulas).

3. Funcionários públicos (pequenos e médios), ensino, correios, banca

  • No século XX, especialmente entre 1920 e 1940, mais de 70% dos postos no sector público da Guiné eram ocupados por cabo-verdianos ou seus descendentes; isso incluía cargos administrativos, ensino primário, correios, banca e outros serviços públicos.

  • Esses emigrantes, escolarizados, foram incorporados ao sistema colonial português, prestando um apoio técnico essencial à administração e à expansão estatal.

4. “Crioulização social” e intelectuais cabo-verdianos, ou de origem cabo-verdiana

  • A chegada massiva de cabo-verdianos à Guiné no início do século XX deu origem a uma "crioulização social", um processo que aproximou as sociedades cabo-verdiana e guineense: o elemento cabo-verdiano funcionava como uma ponte entre colonos e indígenas.

  • Alguns exemplos notáveis na área intelectual, cultural,  educacional e política incluem:

    • Fausto Duarte (1903-1953), romancista;

    • Juvenal Cabral, pai de Amílcar Cabral; professor

    • Fernando Pais de Figueiredo: professor primários; ele e o Juvenal Cabral defenderam a expansão e a melhoria do sistema educativo para a população guineense;

    • Amílcar Cabral (1924-1973) (imagem à direita);

    • António Carreira (1905-1994), administrador , investigador, escritor;

    • Artur Augusto Silva (1912-1983), advogado, escritor, jurista, especialista em direito consuetudinário, casado com Clara Schwarz (1915-2017), professora no liceu Honório Barreto;

    • Não sei exatamente quantas senhoras brancas viviam em Bambadinca no meu tempo (1969/71), mas algumas eram cabo-verdianas, como por exemplo  a professora do ensino primária, que raramente era vista, mas que vivia dentro das nossas instalações militares, no edifício da escola, a dona Violete da Silva Aires e sua mãe; muitos alunos se lembram dela, e que depois foram quadros importantes da Guiné-Bissau (de jornalistas a engenheiros),

    • Carlos Silva Schwarz (1949-2012),  engenheiro agrónomo, director executivo da AD - Acção para o Desenvolvimento, com sede em Bissau, particularmente ativo depois da independência; membro da nossa Tabanca Grande.


5. Exemplo histórico destacado: Honório Barreto

Resto da estátua do Honório Barreto.
 Foto: João Melo (2025)



  • Um caso emblemático é o Honório Barreto (1813-1859), de ascendência cabo-verdiana por parte de pai, que exerceu funções elevadas como governador da Colónia Portuguesa da Guiné entre 1852 e 1859;  dirigiu a administração, investiu em agricultura, comércio, educação e saúde e até liderou esforços militares para preservar  o controle português, ao mesmo tempo que os seus negócios de família no Cacheu (incluindo o tráfico de escravos). 

  • A sua figura foi muita mal tratada por gente boçal do PAIGC, a seguir à independência.



6. Resumo

Função / Papel | Detalhes / Exemplos
  • Comerciantes e "lançados" | Ativos nas rotas comerciais da Guiné, frequentemente mestiços com redes locais;
  • Ponteiros / Agricultores / Donos de embarcações de cabotagem | Pequenas explorações e produção de arroz; donos de embarcações nas rotas fluvial;
  • Funcionários da administração colonial | Entre 1920–1940, os cabo-verdianos ocupavam >70% dos cargos públicos; foram administradores e chefes de posto, etc.
  • Empregados e quadros intermédios de importantes casas comerciais como a Gouveia e a Sociedade Ultramarina (ligada ao BNU) | Luís Cabral (***)
  • Intelectuais e professores | Fausto Duarte, Juvenal Cabral, Amílcar Cabral, Fernando Pais de Figueiredo, entre outros.
  • Governança e elite local | Honório Barreto (1813-1859): governador, empresário, administrador da Guiné colonial; filho de mãe guineense e de pai cabo-verdiano

~
Luís Cabral (1931-2009)

Enfim, uma pequena burguesia onde o PAIGC foi buscar muitos dos seus primeiros militantes e dirigentes,  a começar pela família e clã Cabral (Amílcar, Ana, Luís, Lucette Andrade, etc.)

Este é ponto central da história social e política da Guiné-Bissau no século XX: a pequena burguesia cabo-verdiana radicada na Guiné, formada por comerciantes, funcionários públicos, professores, empregados de casas comerciais e pequenos proprietários agrícolas. foi decisiva tanto para o funcionamento do sistema colonial como para a génese da luta de libertação. (**).

Ainda a talhe de foice, lembre-se os nomes de Aristides Pereira, que era chefe da Estação Telegráfica dos CTT, e o Fernando Fortes era o chefe da Estação Postal, na prática os "donos" dos CTT , em Bissau.


PS - É difícil saber, com rigor, qual era a população cabo-verdiana (ou de origem cabo-verdiana) na Guiné nos anos de 1950, 60 e 70 (***)

(Pesquisa: IA / Gemini / Perplexity / ChatGPT LG | Revisão / fixação de texto, negritos: LG)


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(**) Último poste da série > 22 de agosto de 2025 > Guiné 61/74 - P27141: A nossa guerra em números (36): Auxiliares da administração colonial: régulos, sobas e liurais...

(***) Estimativa do assistente de IA / Gemini. Pesquisa, revisão / fixação de texto:   LG


População Cabo-Verdiana na Guiné-Bissau em Meados do Século XX: Números e Proporções


Na metade do século XX, a presença de cabo-verdianos na então Guiné Portuguesa era uma realidade demográfica significativa, especialmente nos centros urbanos e na administração colonial. 

No entanto, a quantificação precisa dessa população, bem como a sua proporção em relação ao total de habitantes, enfrenta desafios devido à natureza dos registos da época, que distinguiam a população entre "civilizada" e "não-civilizada".

Com base nos dados disponíveis, é possível apresentar uma estimativa detalhada para 1950 e informações mais gerais para 1960 e 1970.

(i) 1950: Uma Presença Notável no Estrato "Civilizado"

No censo de 1950, a população total da Guiné Portuguesa foi registada em 517.290 habitantes. Deste total, a esmagadora maioria, 508.970 indivíduos, era classificada como "não-civilizada".

A população "civilizada" ascendia a 8.320 pessoas (1,61% do total), e é neste grupo que os dados permitem uma análise mais detalhada da presença cabo-verdiana. 

De acordo com estudos demográficos da época, nomeadamente os do investigador António Carreira, os cabo-verdianos representavam uma fatia importante deste estrato:

  • População de origem cabo-verdiana: Cerca de 1.478 indivíduos.

  • Proporção de cabo-verdianos na população "civilizada": Aproximadamente 17,8%.

  • Proporção de cabo-verdianos na população total: Cerca de 0,29%.

Esta expressiva percentagem na população "civilizada" reflete o papel que muitos cabo-verdianos desempenhavam como funcionários públicos, comerciantes e em outras profissões liberais na estrutura colonial.

(ii) 1960: Crescimento Populacional e Lacunas nos Dados Detalhados

Em 1960, a população total da Guiné Portuguesa era de aproximadamente 525.437 habitantes, um ligeiro aumento em relação à década anterior. Contudo, os dados detalhados sobre a composição da população "civilizada" por naturalidade para este ano são mais difíceis de apurar a partir de fontes abertas.

Embora o censo de 1960 tenha sido realizado e analisado em publicações como o "Boletim Cultural da Guiné Portuguesa", os números exatos da população de origem cabo-verdiana não estão facilmente acessíveis. É razoável presumir que a tendência de uma presença cabo-verdiana significativa nos centros urbanos e na administração se mantivesse, mas a sua quantificação precisa para este ano permanece um desafio.

(iii) 1970: O Impacto da Guerra e a Incerteza Estatística

A década de 1970 foi marcada pela intensificação da guerra de libertação/guerra colonial, o que torna os dados demográficos para este período particularmente complexos e, por vezes, divergentes. As estimativas para a população total em 1970 variam consideravelmente, situando-se entre 571.000 (550.000 a 600.000 habitantes para 1970 seria uma estimativa  mais realista e alinhada com os dados históricos).

A realização de um censo em 1970 é documentada, mas a sua execução e a fiabilidade dos dados em todo o território foram certamente afetadas pelo conflito em curso. Além disso, a abolição do estatuto do "indigenato" em 1961 alterou as categorias de recenseamento, o que dificulta uma comparação direta com os censos anteriores.

Não foram encontrados dados específicos que permitam quantificar a população de origem cabo-verdiana na Guiné-Bissau em 1970. É de notar que, durante a luta pela independência, a relação entre as populações da Guiné e de Cabo Verde foi complexa, com muitos indivíduos de origem cabo-verdiana a participarem ativamente no movimento de libertação (PAIGC), que lutava pela independência de ambos os territórios.

Em suma, enquanto para 1950 é possível apresentar um retrato relativamente claro da população cabo-verdiana dentro do quadro estatístico da época, para 1960 e 1970 os dados são mais escassos, impedindo um cálculo preciso da sua dimensão e proporção na população total da Guiné-Bissau.

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

Guiné 61/74 - P27118: A nossa guerra em números (32): A Administração Colonial (que, no caso da Guiné, foi completamente ultrapassada, para não dizer "cilindrada", pelas Forças Armadas)


Governador Manuel Sarmento Rodrigues (1945-1949) [ foto: cortesia da Revista Militar].


Também era carinhosamente conhecido com o "Mamadu" Rodrigues e havia uma tabanca chamada Sinchã Sarmento.  Capitão de fragata e depois almirante, Sarmento Rodrigues (Freixo de Espada à Cinta, 1899 - Lisboa, 1979) foi, a par do gen António Spínola, um dos melhores governadores que passou pela Guiné. Foi governador entre  abril de 1945 e janeiro de 1949, quis fazer daquele território atrasado uma "colónia-modelo" (então colónia portuguesa, parte do Império Colonial Português, e sem complexos, de natureza semântica e conceptual, e muito menos político-ideológica!),  Foi ele quem, por exemplo, em 1948, fez um primeiro esforço sério para grafar os topónimos (nomes geográficos) guineenses, através da Portaria nº 71, de 7 de julho de 1948. Apostou na construção de infra-estruturas, mas também no desporto, educação e cultura. Reforçou a aliança com os muçulmanos. Foi também reformador da administração  ultramarina enquanto ministro do Governo de Salazar (1950/55).



Guiné-Bissau > Bissau > Maio de 2025 > O antigo edifício da administração civil


Fotos: © João Melo (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné.]



 Guiné > Região do Cacheu > São Domingos > CCS/BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69) > Janeiro de 1969 > Cerimónias da mudança do administrador da circunscrição de São Domingos > Em primeiro plano, o cmdt do BCAÇ 1933 e o administrador cessante, cabo-verdiano.

Foto (e legenda): © Virgílio Teixeira (2018). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. A administração colonial portuguesa no Estado Novo: como funcionava  ? quais eram  as principais categorias de funcionários ?


Durante o Estado Novo (1933-1974), a administração colonial / ultramarina portuguesa seguia uma lógica fortemente centralizada e hierárquica, refletindo a ideologia autoritária do regime de Salazar. 

A gestão das colónias (chamadas oficialmente “Províncias Ultramarinas” a partir de 1951, ao tempo do Ministro do Ultramar, o reformador Sarmento Rodrigues) era orientada, a mhares de quilómetros de distância, a partir de Lisboa, pelo Ministério das Colónias ( e depois do Ultramar) e executada localmente por um aparelho administrativo que espelhava a estrutura do Estado em Portugal. 

 O próprio Gabinete de Urbanização Colonial (1944-1951) (depois GUU - Gabinete de Urbanização Ultramarina)  funcionava, imagine-se!, em Lisboa, dependente do Ministério das Colónias (e depois do Ultramar): centralizava o planeamento e a execução de projetos de arquitetura e urbanismo nas então colónias portuguesas, com um foco particular nos territórios africanos.

(i) Três características fundamentais da administração colonial de então:
  • centralização em Lisboa: todas as grandes decisões políticas, económicas, financeiras e militares eram controladas pelo governo central;

  • governadores e chefes superiores: cada colónia tinha um Governador-Geral (nas maiores, como Angola e Moçambique) ou Governador (nas menores, como era o caso da Guiné), nomeado diretamente pelo Presidente da República sob proposta do Ministro do Ultramar;

  • aparelho administrativo rígido: a organização visava manter a ordem, cobrar impostos (incluindo o famigerado "imposto de palhota"),  gerir recursos,  garantir a presença cultural e linguística portuguesa, etc.


(ii) Principais categorias de funcionários:

(a) Governador-Geral  (Angola, Moçambique) / Governador (Guiné)
  • máxima autoridade na colónia;
  • competências políticas, militares e administrativas;
  • nomeação política, geralmente militares de carreira ou altos quadros civis.
(b) Secretário-Geral
  • no. 2  do governo colonial / eminência parda do governador
  • coordenava as direções e serviços administrativos.
(c) Administradores de Circunscrição / Concelho:
  • responsáveis por áreas administrativas menores (circunscrições: semelhantes a municípios: por exemplo na Guiné: Bissau, Bolama, Bafatá,  Teixeira Pinto,  Cacheu, Farim, Catió, etc.).
  • ligavam a população local ao governo colonial;
  • Manuel da Trindade Guerra Ribeiro, natural de Chaves, é a figura mais conhecida nos anos 60/70:   atuou como administrador colonial (administrador da circunscrição/concelho de Bafatá, nos anos 60) e, mais tarde, foi intendente,  exercendo funções durante o período do general Spínola, já no início dos anos 70.
(d) Chefes de Posto Administrativo:
  • autoridade em zonas rurais e remotas;
  • funções de polícia, cobrança de impostos,  mediação de conflitos, etc.:
  • por exemplo, a circunscrição (mais tarde, concelho de Bafatá, um vasto território da zona leste) em 1969 tinha os seguintes postos administrativos: Bambadinca, Contuboel, Xitole, Galomaro, Gã-Mamudo.
(e) Magistrados e funcionários judiciais:
  • juízes, escrivães, procuradores do Ministério Público.
  • aplicavam as leis portuguesas (adaptadas ao “indigenato” até 1961, e procurando  respeitar os usos e costumes jurídicos de cada etnia).
(f) Funcionários técnicos:
  • engenheiros, médicos, enfermeiros. professores, agrónomos, geógrafos, topógrafos, etc.
  • muitas vezes com estatuto especial de “funcionários ultramarinos”.

(g) Polícia e militares:


  • tropas coloniais, Polícia de Segurança Público (PSP), PIDE/DGS, no plano político;
  • polícia administrativa ("cipaios"):
  • garantiam a ordem e reprimiam revoltas .

Observ1 - É difícil (se não impossível)  fornecer um número exato e definitivo de funcionários da administração colonial portuguesa em Angola, Guiné e Moçambique em 1979.  As estatísticas da época muitas vezes agrupavam diferentes categorias de pessoas e trabalhadores, e os números variam entre as fontes.

Observ2 - Até 1961, vigorava o Estatuto do Indigenato, que criava uma divisão legal entre “indígenas” e “cidadãos portugueses”, com direitos, deveres e tratamento administrativo diferentes. A partir de 1961, houve uma crescente "militarização" da administração civil (muita acentuada, por exemplo, com o  gen Spínola na Guiné, entre 1968 e 1973).

A Administração Civil sofria de graves carências, em termos quantitativos e qualitativos, no que dizia respeito a recurso humanos e a meios técnicos e financeiros, sendo completamente ultrapassada (para não dizer "cilindrada") durante o consulado de Spínola.(**)

Segue-se um quadro esquemático e um gráfico com a hierarquia da administração colonial portuguesa no Estado Novo, permitindo visualizar melhor a sua estrutura.

  

Quadro esquemático da administração colonial portuguesa no Estado Novo:


Ministério do Ultramar (Lisboa) │ └── Governador-Geral (Angola / Moçambique) Governador (colónias menores) │ ├── Secretário-Geral │ ├── Direções de Serviços Centrais │ ├─ Finanças │ ├─ Obras Públicas │ ├─ Educação │ ├─ Saúde │ └─ Agricultura │ ├── Administradores de Circunscrição / Concelho │ ├─ Chefes de Posto (zonas rurais) │ │ └─ Autoridades tradicionais “reconhecidas” (sob controlo)
(régulos na Guiné e em Moçambique; sobas em Angola;
liurais em Timor) │ ├── Magistratura e Serviços Judiciais │ └── Forças de Segurança ├─ Polícia Colonial / PSP ├─ PIDE/DGS └─ Tropas coloniais (Exército e milícias locais)



Leitura rápida do esquema:
  • Topo → Lisboa decidia quase tudo.
  • Meio → Governadores geriam a colónia com um núcleo de secretários e diretores.
  • Base → Administradores, chefes de posto, polícia administrativa e forças policiais/militares garantiam o controlo direto sobre a população.
As autoridades locais  (sob o sistema do Indigenato até 1961) tinham funções subalternas, limitadas, subordinadas, em grande parte simbólicas: régulos (na Guiné e em Moçambique), sobas (erm Angola), liurais (em Timor).

A polícia administrativa, a par da PIDE, era particularmente odiosa.
 
Gráfico: a hierarquia da administração colonial




(Pesquisa: IA / ChatGPT / Gemini  + LG | Revisão / fixação de texto: LG)

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Notas do editor LG:


(*) Último poste da série > 12 de agosto de 2025 > Guiné 61/74 - P27113: A nossa guerra em números (31): Angola e Moçambique: População europeia total: ~535 mil / 600 mil | Total geral de "retornados" (incluindo os restantes territórios): c. 500 mil / 520 mil pessoas

(**) Vd. postes de:

20 de novembro de 2018 > Guiiné 61/74 - P19213: O nosso blogue como fonte de informação e conhecimento (59): os reordenamentos no desenvolvimento sócio-económico das populações, brochura da Repartição de Assuntos Civis e Ação Psicológioco [ACAP], do QG / CCFAG - Parte I


21 de novembro de 2018 > Guiné 61/74 - P19214: O nosso blogue como fonte de informação e conhecimento (60): os reordenamentos no desenvolvimento sócio-económico das populações, brochura da Repartição de Assuntos Civis e Acção Psicológica [ACAP], do QG / CCFAG - Parte II

(...) 1. Estando a Guiné sob a pressão de um estado de subversão que visa a conquista das populações por vários meios, entre os quais a luta armada; existindo um Quadro Administrativo [QA] com graves deficiências quantitativas e qualitativas e possuidor da falta de meios para realizar a manobra de contra-subversão em tempo útil e, ainda, por razões de controle e segurança, não é possível à Administração Civil encarar sozinha, de momento, o esforço que se pretende realizar.

Assim, porque possuidoras de vários meios, humanos, técnicos e de defesa, as Forças Armadas estão aptas a colaborar, com carácter temporário, com as estruturas administrativas na solução dos problemas sócio-económicos. Porque, também, os problemas de desenvolvimento social e económico constituem a manobra da contra-subversão que é preciso fazer rapidamente e pertence à missão das Forças Armadas [FA].

As FA são, pois, chamadas a participar temporariamente em funções que seriam da competência civil, se os quadros administrativos estivessem em condições de as desempenhar, e que lhes serão totalmente confiadas quando as condições o permitam. São funções de colaboração e reforço da orgânica...[ilegível].

2. (...) Os civis do Quadro Administrativo (QA) pensam e actuam de maneira diferente. E a diferença reside em dois pontos distintos: a estagnação e carências várias do próprio QA e no diferente carácter de obrigatoriedade de uns e outros.

As Forças Armadas são uma organização profundamente hierarquizada, com escalões de comando definidos, com leis e regulamentos mais rígidos e pormenorizados, prevalecendo um forte espírito de disciplina. Arreigados a conceitos burocráticos ultrapassados e morosos por natureza , regulados por leis mais vastas, com um carácter de disciplina menos acentuado e relativo momento a leis de carácter mais geral, os civis do QA têm um diferente comportamento face a situações que exigem a resolução adequada em tempo próprio. A base de toda a actuação entre militares e civis terá de basear-se na compreensão e na colaboração, já que ambos servem o objectivo comum. (...)