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sábado, 27 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27575: Foi há 100 anos (3): O Natal de 1925 e a moda (francesa), na capa e contracapa de "O Domingo Ilustrado", um semnário "inócuo" que, cinco meses deposi, estava a dar vivas aos carrascos da I República


Contracapa (pág. 20): Legenda: "Lisboa elegante e moderna: À porta da elegantíssima étalage Pompadour no Chiado, as mulheres chics de Lisboa, apeiam-se duma deliciosa limousine Citroën da Cooperativa Lisbonense dos Chauffeurs, cujos carros vieram dar à cidade uma tão grande nota de civilisação"... 

Comentário do editor LG:  Numa legenda em duas linhas, detetamos 4 galicismos (étalage, chics, limousine,chauffeurs). O francês era, até á I Grande Guerra,  a língua da ciência e tecnologia, da medicina, da civilização, da cultura, da gastronomia e da moda...


Capa: Legenda:  "A cerimónia da exposição do menino nos templos de Lisboa. [ Desenho inédito do grande artista (Manuel) Roque Gameiro ] : Entre a multidão onde afloram cabeças que são admiráveis expressões da Raça, o sacerdote expõe o símbolo da eterna graça que é o Menino Jesus! Paz aos homens, paz nos corações!... Que a curta vida que vivemos, seja mais de beleza que de  tentação, mais de bondade que de rancor!"

Comentário do editor LG: Na litogravura do Manuel Roque Gameiro (filho do Alfredo Roque Gameiro), parece haver uma falsa mistura de classes sociais: nas igrejas também havia uma clara segregação socioespacial.


O Domingo Ilustrado, Ano I, nº 50, Lisboa, 27 de dezembro de 1925. Preço avulso: 1 escudo (Edição com 20 páginas, grande parte de publicidade) (Diretores: Leitão de Barros e Martins Barata). Cortesia de Hemeroteca Digital / Câmara Municipal de Lisboa.


1. Estávamos a cinco meses do fim da República (1910-1926), derrubada pelo  golpe militar do 28 de maio de 1926, que levaria à instauração da Ditadura Militar (1926-1933) e do Estado Novo (1933-1974). 

Sobre o semanário "O Domingo Ilustrado" (de que um dia dediretores foi o futuro cineasta Leitão de Barros), já aqui dissemos, citando  Rita Lopes, na ficha histórica disponível em formato pdf, no portal da Hemeroteca Digital / Câmara Municipal de Lisboa, que teve um vida efémera (janeiro de  1925 - dezembro de 1926);

(...)  "A sua curta existência coincide com um período de grande perturbação política e social, que muitos autores consideram mesmo de guerra civil latente, e que conduzirá à Ditadura Militar, instaurada pelo golpe militar de 28 de Maio de 1926.

(...) [Espelha] uma imagem profundamente negativa da política, enquanto jogo protagonizado por partidos, e, consequentemente, da própria democracia, enquanto sistema político. 

"Esta será a mensagem de fundo que trespassará subliminarmente todas as edições até ao golpe de 28 de Maio de 1926. Era então chegada a hora de aclamar sem reservas as forças que, sob o comando do general Gomes da Costa, se sublevaram em Braga e se põem em movimento para Lisboa para confiscar o poder." (...)

 Este semanário, "apolítico", "inócuo", que se pretendia aberto a todos, ao grande público, com muita parra e pouca uva (de que este nº 50, de 27 de dezembro de 1925,  é um exemplo), pôs-se de imediato ao serviço dos golpistas: 

«Este homem [general Costa Gomes] tem poder: Ajudemos este homem a salvar Portugal!» − proclama em primeira página, ilustrada com a bandeira nacional e uma fotografia do militar" (...).

O nº 50 traz na capa e contracapa ilustrações contraditórias de um Portugal, que na época ainda se resume a Lisboa, a cabeça de um vasto e desvairado império  e que está longe de ser um país moderno e desenvolvido. 

A circulação automóvel começa a mudar a paisagem da capital (há já uma cooperativa de "chauffeurs") e a moda parisiense instala-se no Chiado, burguês, chique, elegante... (A loja "A Pompadour", na rua Garrett, tinha sido inaugurada em 23 de junho de 1924.)    

Nesse ano de 1925, entre 4 e 13 de  julho, tinha-se realizado entretanto o I Salão Automóvel de Lisboa, no Coliseu dos Recreios. Na exposição estiveram presentes mais de 100 carros de cerca de 60 marcas diferentes (Buick, Mercedes, Chrysler, Studebaker, etc.). 

Há 100 anos Lisboa teria entre 6 a 9 mil veículos automóveis, entre 50% a 60% do total da frota nacional. Mas a "motorização" era já uma realidade imparável, alterando o quotidiano de uma cidade ainda dominada por elétricos, carruagens a cavalo e sobretudo peões que circulam livremente pelas ruas.

2. Nesse Natal de há 100 anos ainda se mantém, entretanto, a tradição do "beija-pé" do menino Jesus, nas igrejas, contrariando todas as boas práticas da saúde pública... 

O país estava ainda, lentamente, a recuperar da maior tragédia demográfica do séc. XX, que foi a "pneumónica" , a pandemia de gripe de 1918/19.  E a taxa de mortalidade por tuberculose era altíssima em 1925, agravada pelo regresso do  CEP - Corpo Expedicionário Português:  (i) aproximadamente entre 150 a 180 mortes por 100 mil habitantes a nível nacional; mas com grandes disparidades regionais; (ii) no distrito de Lisboa, a taxa rondava os 245 óbitos por 100 mil habitantes; e (iii) no Porto chegava a atingir os 300.

Restringindo-nos à "pneumónica",  estima-se que tenha sido responsável por um número de mortes superior ao de qualquer guerra ou desastre natural anterior em território nacional (com exceção da "peste negra"). 

Terão morrido cerca de 120 mil portugueses (2% do total da população, na altura de 6 milhões).  O ano de 1918 foi o único no século XX em que Portugal registou um saldo fisiológico negativo (mais mortes do que nascimentos), com uma perda líquida de mais de 70.000 pessoas.

Já agora acrescente-se que a epidemia manifestou-se em três momentos distintos: (i) maio/junho de 1918: uma vaga moderada, com muitos contágios mas baixa letalidade; (ii) outubro/novembro de 1918: a vaga mais letal, que paralisou o país, sendo nesta fase que a doença se tornou fulminante, muitas vezes matando em menos de 48 horas; e (iii) início de 1919: uma última vaga menos intensa, mas que ainda provocou milhares de mortos.

 A pandemia atingiu um país já de si fragilizado pela participação na I Guerra Mundial (Flandres, Angola e Moçambique), pela crise económica e financeira, pela instabilidade política do regime de Sidónio Pais e por graves crises de subsistência (fome, com todas as letras). 

Foi o colapso do incipiente sistema de saúde: total incapacidade de resposta dos hospitais e do corpo médico; falta de  caixões e coveiros; pânico generalizado  com o fluxo constante de funerais  (traduzido, por exemplo, na proibição dos  sinos das igrejas  tocarem a finados).

Face aos graves acontecimentos políticos e militares da época, e apesar da sua dimensão trágica,  a pandemia acabou por ser rapidamente esquecida e manteve-se assim durante décadas. Voltou a falar-se da "pneumónica" aquando da pandemia de Covid-19 (2020/21).
 
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Nota do editor LG:

segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

Guiné 61/74 - P26384: Foi há 100 anos (2): A "saloiada" vem às sortes a Lisboa...enquanto bandos de operários, nas ruas, pedem "pão ou trabalho" ("O Domingo Ilustrado", nº 1, 18 de janeiro de 1925)... Estamos já a um ano e pico da instauração da Ditadura Militar.

 

Legenda: "Os Recrutas: Bandos de rapazes dos arredores, com os seus pitorescos trajes invadiram a cidade para a incorporação militar. No meio da monotomnia de Lisboa, o seu ar saudável e a sua indumentária característica aparecem como uma alegre saudação do campo. Oxalá so seus braços aprendam depressa o manejo das armas para as trocarem pela prosaica enxada, de glória humilde mas sagrada". Ilustração: B.B (pág. 1)


Fonte: Capa do semanário "O Domingo Ilustrado",  nº 1, 18 de janeiro de 1925,12 pp. (Custava 1 escudo.). Cortesia de Hemerateca Digital / Câmara Municipal de Lisboa.


Legenda: "A Parada da Fome: Bandos de operários percorreram a cidade pedindo pão com que matassem a fome. É um espetáculo desolador o que oferece uma sociedade que não consegue assegurar a existência dos que produzem. Sem revoltas e sem excessos contraproducentes, todos temos o dever de  arrumar melhor a vida. Por detrás de cada homem está um lar, e se o patriotismo é alguma coisa mais do que uma imagem retórica, façamos lares felizes para que a pátria possa viver". Ilustração: B. B. (pág. 12).

(Seleção, fixação / revisão de texto, reedição de imagens: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, 2025)

1. Estávamos a um ano e 4 meses do golpe militar do 28 de maio de 1926, que levaria à instauração da Ditadura Militar (1926-1933) e do Estado Novo (1933-1974). (*)

Sobre este novo semnanário, "O Domingo IIustrado" (DI), escreveu Rita Lopes, na ficha histórica disponível em formato pdf, no portal da Hemerateca Digital / Câmara Municipal de Lisboa (**)

(...) Semanário editado regularmente, em Lisboa, entre Janeiro de 1925 e Dezembro de 1927. A sua curta existência coincide com um período de grande perturbação política e social, que muitos autores consideram mesmo de guerra civil latente, e que conduzirá à Ditadura Militar, instaurada pelo golpe militar de 28 de Maio de 1926.

 (...) [Espelha] uma imagem profundamente negativa da política, enquanto jogo protagonizado por partidos, e, consequentemente, da própria democracia, enquanto sistema político. Esta será a mensagem de fundo que trespassará subliminarmente todas as edições até ao golpe de 28 de Maio de 1926. Era então chegada a hora de aclamar sem reservas as forças que, sob o comando do general Gomes da Costa, se sublevaram em Braga e se põem em movimento para Lisboa para confiscar o poder. O DI está ao serviço da sua legitimação e da mobilização da nação: «Este Homem tem poder: Ajudemos este homem a salvar Portugal!» − proclama em primeira página, ilustrada com a bandeira nacional e uma fotografia di militar" (...)

Um dos fundadores e diretor do DI foi o conhecido  Leitão de Barros (1896-1967), professor, realizador de cinema (Nazaré, 1927; Maria do Mar, 1930: A Severa, 1931; As Pupilas do Semhor Reitor, 1935; Ala, Arriba!, 1942; Camões, 1946...), escritor, jornalista, dramaturgo, cenógrafo, pintor, próximo de figuras do poder (António Ferro, Duarte Pacheco, Salazar...) sem contudo ter sido um "salazarista" indefetível (ecompletamente esquecido depois do 25 de Abril).

 (...) "O seu interesse pelas artes gráficas levaram-no a Frankental, na Alemanha, onde fez a aprendizagem da heliogravura. Foi um difusor deste processo em Portugal que fez brilhar no DI e, posteriormente, no Notícias Ilustrado, que também dirigiu, e no Século Ilustrado." (**) 
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Notas do editor:

(**) Vd. Rita Correia (10 de Novembro de 2007). «Ficha histórica: O Domingo Ilustrado (1925-1927)» (pdf). Hemeroteca Municipal de Lisboa. Consultado em 11 de janeiro de 2025.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

Guiné 61/74 - P26338: Foi há 100 anos (1): "bodo aos pobres" por parte dos Armazéns Grandella, em 1 de janeiro de 1925 (Recorte do "Diário de Lisboa, 2/1/1925)

 




Diário de Lisboa, 2 de janeiro de 1925, pág. 1 
(Custava na época este jornal diário vespertino 30 centavos, 
o número avulso; e ia já no 4º ano de publicação).

Fonte: Casa Comum | Instituição: Fundação Mário Soares e Maria Barroso |  Pasta: 05742.006.01429 | Título: Diário de Lisboa | Número: 1147 | Ano: 4 | Data: Sexta, 2 de Janeiro de 1925 | Directores: Director: Joaquim Manso | Fundo: DRR - Documentos Ruella Ramos | Tipo Documental: Imprensa (com a devida vénia...)

Diário de Lisboa/Ruella Ramos 
Citação: (1925), "Diário de Lisboa", nº 1147, Ano 4, Sexta, 2 de Janeiro de 1925, Fundação Mário Soares / DRR - Documentos Ruella Ramos, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_31342 (2025-1-2)


Vd. aqui um pequena biográfica do homem que fundou os Armazéns Grandela, Francisco de Almeida Grandella (Aveiras de Cima, Azambuja,1853 — Foz do Arelho, Caldas da Rainha, 1934), um dos maiores senão o maior benemérito da República. Tendo começado como marçano ou moço de fretes, tornou-se empresário, comerciante, industrial, maçon, boémio,  autarca e benemérito. Uma figura notável do seu tempo, um exemplo bem português do homem que, não tendo nascido em berço de ouro, se fez a si próprio... E que tinha um pioneiro sentido de responsabilidade social como empresário.