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sexta-feira, 20 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27839: No céu não há disto: comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (51): Recordando o famoso Cozido à Portuguesa, by chef Preciosa, da Tabanca do Centro, que se reuniu pela 1ª vez em 27/01/2010



Alfragide >  17 de fevereiro de 2026 > Um Cozido à Portuguesa, by Chef Alice


Fotos (e legenda): © Luís Graça (2026). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné


1. No céu não disto. Não há Cachupa (*), nem rica nem pobre. Não há Cozido à portuguesa. Nem Bacalhau Assado na Brasa. Deve haver outras coisas boas. Ou até bem melhores. A avaliar pela publicidade que lhe fazem, ao céu, há centenas, milhares de anos. (Olimpo para os gregos da antiguidade clássica;  Jardim do Éden, para os judeus;  Céu, para os cristãos;  Jannah, para o Islão;  Svarga, no hinduísmo, etc.)

Mas agora que a primavera se arrependeu e voltou o inverno, hoje, sexta feira e se calhar sábado, "até ia um cozidinho à portuguesa", diz o nosso vagomestre de serviço (que passou dois anos na Guiné sem provar nem cheirar a farinheira nem a moira nem o nabo nem o salpicão nem o focinho de porco, e muito menos a couve portuguesa).


Foi com um prato destes que se inaugurou a Tabanca do Centro, no já longínquo dia 27 de janeiro de 2010, em Monte Real. O anfitrião foi o Joaquim Mexia Alves e a cozinheira a Dona Preciosa (foto à esquerda). E teve um nome de código, Operação Cozido à Portuguesa. E realizou-se no restaurante da Pensão Montanha (**). 

Foi o primeiro de muitos Cozidos à Portuguesa, hoje lembrados com saudade pelos tabanqueiros do Centro. O último terá sido em 28/10/2016, data em que se realizou o 56º Encontro. No fim desse mês, a Dona Preciosa cessaria a sua atividade., para grande mágoa de todos A Tabanca do Centro teve que encontrar outras alternativas. Mais recentemente passou a reunir-se na Ortigosa. O 110º Encontro, em 27 do corrente mês, vai ser lá.

As imagens que se publicam acima não são desse famoso Cozido de 2010 (que era sempre servido às quartas feiras na Pensão Montanha)... Não seria muito diferente o Cozido by Chef Alice.  (***)

Curiosamente não há fotos do petisco, só dos comensais. O mais "ilustre" dos quais o Joseph Belo, um "tuga" do nosso tempo já há muito "assuecado" (vd,. fotos abaixo).

2. Recordo aqui a mensagem  que o régulo da Tabanca do Centro escreveu então ao nosso camarigo José Belo, o nosso grão-tabanqueiro que, na altura era vizinho, do Pai Natal, bem dentro do Círculo Polar Ártico. Esses versos ficaram famosos, merecem ser aqui reproduzidos, são um hino ao Cozido à Portuguesa e à nossa camarigagem.


Tabanca do Centro > quinta feira, 14 de janeiro de 20010 >


Nada de confusões
Nessas cabeças já gastas,
Tão cheias de incerteza,
É que o amor da Suécia
É p’lo Cozido à Portuguesa.

Diz-me o nosso camarigo,
José Belo de seu nome,
Que virá de avião, de skate, ou a pé,
Apenas para comer
O afamado cozido,
Com a malta da Guiné.

É que não sabem vocês
Que por causa de um vento estranho
Que sopra no Litoral e na Beira,
Chegou até á Lapónia
O cheiro da farinheira.

Não contente com isso, 
Este ventinho maldoso
Levou também consigo
Um cheirinho a chouriço.

Coitado do José Belo, 
A tiritar do frio imenso!
Quando olha para as renas, vê vacas,
E todo o verde são couves,
Cozidas mesmo a preceito.

E o vento que nunca cessa
De lhe levar o cheiro intenso!
É uma dor de alma,
Um tormento,
Não devia ser permitido,
Que odor tão salivante
Fosse nas asas do vento.

Prometo solenemente
Que te guardo a melhor parte,
Fica com esta certeza.
Não só eu,
Mas toda a gente,
Te servirão alegremente
O “Cozido à Portuguesa”.


Monte Real, 14 de Janeiro de 2010

A 13 dias do Cozido à Portuguesa!!!

Joaquim Mexia Alves

(Revisão / fixação de texto: LG)


Leiria > Monte Real > Restaurante Montanha > 27 de janeiro de 2010 > 1º Encontro Nacional da Tabanca do Centro > Op Cozido à Portuguesa > Da direita para a esquerda, o Joaquim Mexia Alves, o José Belo e o José Teixeira (régulo da Tabanca de Matosinhos)


Leiria > Monte Real > Restaurante Montanha > 27 de janeiro de 2010 > 1º Encontro Nacional da Tabanca do Centro > Op Cozido à Portuguesa > Juntou 40 "tugas" da Guiné... O mais "exótico" veio da Lapónia sueca, o José Belo, aqui na foto à esquerda, tendo a seu lado o Joaquim Mexia Alves. De pé, ao centro, o Silvério Lobo. 



Leiria > Monte Real > Restaurante Montanha > 27 de janeiro de 2010 > 1º Encontro Nacional da Tabanca do Centro > Op Cozido à Portuguesa > Quatro "tugas" que combateram no sul da Guiné: da esquerda para a direita, Zé Teixeira, Zé Belo, Vasco Ferreira e Manuel Reis.


Leiria > Monte Real > Restaurante Montanha > 26 de fevereiro de 2010 > 2º Encontro Nacional da Tabanca do Centro >  José Belo, Luís Graça, e em segundo plano o saudoso JERO.



Leiria > Monte Real > Restaurante Montanha > 26 de fevereiro de 2010 > 2º Encontro Nacional da Tabanca do Centro >  Em primeiro plano, Joaquim Mexia Alves e Teresa, a esposa do Carlos Marques Santos (1943-2019), infelizmente já falecido; em segundo plano, José Belo, Idálio Reis,Luís Graça e Joáo Barge (1945-2010) (morreria nesse ano em princíos de dezembro, ainda foi ao V Encontro Nacional da Tabanca Grande, em Monte Real, em 26 de junho desse ano). 

No almoço do 2º Encontro, já não foi servido Cozido, mas sim Bacalhau Assado na Brasa com Migas e Batatas a Murro. Presentes 29 tabanqueiros (6 dos quais já falecidos): Alice e Luís Graça | Álvaro Basto e Rolando Basto (pai) (já falecido) | Agostinho Gaspar | Antonieta e Belarmino Sardinha | Artur Soares | Dulce e Luís Rainha | Gil Moutinho | Giselda e Miguel Pessoa | Hélder Sousa | Idálio Reis | Isabel e Alexandre Coutinho e Lima (1935-2022)  | João Barge (1945-2010) |   Joaquim Mexia Alves | José Eduardo Oliveira (JERO ) (1940-2021)  | José Belo | Jorge Narciso | Juvenal Amado | Manuel Reis | Teresa e Carlos Marques  Santos (1943-2019) | Silvério Lobo | Vasco da Gama | Victor Barata (1951-2021)
 

Créditos fotográficos: Tabanca do Centro (2010). Ediçãpo e legendagem : LG


3. Que fique,  para a história,  a "lista do 40 magníficos que estiveram presentes no 1º Encontro da Tabanca do Centro", a maior parte  membros da Tabanca Grande, 4 deles, infelizmente, já falecidos (a negrito, os seus nomes)

Álvaro Basto |  Ana Maria e António Pimentel | António Martins Matos | António Graça de Abreu | Agostinho Gaspar | Américo Pratas | Artur Soares | Antonieta e Belarmino Sardinha | Carlos Neves | Daniel Vieira | Dulce e Luís Rainha | Eduardo Campos | Eduardo Magalhães Ribeiro | Gina e Fernando Marques | Giselda e Miguel Pessoa | Gustavo Santos | Joaquim Mexia Alves | Jorge Canhão | Maria Helena e José Eduardo Oliveira (Jereo)  | José Belo | José Brás | José Casimiro Carvalho | José Diniz | José Moreira | José Teixeira | Juvenal Amado | Manuel Reis | Silvério Lobo | Teresa e Carlos Marques Santos | Torcato Mendonça | Vasco da Gama | Vasco Ferreira | Victor Caseiro.

A refeição custou a astronómica quantia de 8,5 euros. Nunca  o Zé Belo, que veio expressamente da Suécia, pagou uma refeição tão cara. Os elogios à iniciativa e ao Cozido da Dona Preciosa foram unânimes, do general ao soldado. O vagomestre ficou babado. A chef Preciosa conquistou um exército de clientes.

(***) Último poste da série > 15 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27823: No céu não há disto: comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (50): Não há sável ? Come-se lúcio...

segunda-feira, 9 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27806: Humor de caserna (243): uma história de partir o coco a rir, a de uma "amizade improvável": o piloto de AL III, Jorge Félix, e o prisioneiro Malan Mané (Rui Felício, 1944-2026)


Guiné > s/l > s/d (c. 1968/70) > Algures sob os céus da Guiné, aos comandos de um AL III, o nosso camarada Jorge Félix (ex-alf mil pil, AL III, Esq 122, BA 12, Bissalanca, 1968/70; frequentou o 1º curso de pilotos de helicóptero, em Tancos, em 1967, aberto a milicianos... Entre os colegas de curso,  estava o Duarte Nuno de Bragança.


Guiné > s/l > s/d (c. 1968/70) > O Com-chefe António Spínola, numa das viagens a bordo do helicóptero do Jorge Félix. Dizia-se que este era um dos pilotos preferidos do nosso comandante.


A caderneta de voo do Jorge Félix, onde consta a operação em que foi capturado o prisioneiro a que se refere esta história (Op Nada Consta, 18 de agosto de 1969)

Fotos (e legendas): © Jorge Félix (2008). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá  > Carta de Duas Fontes (Bengacia)  (1959) / Escala 1/50 mil > Posição relativa de  Galomaro, onde ocorreu a história  do  Malan Mané, capturado pelos páras (BCP 12)  (Op Nada Consta, 18 de agosto de 1969)... O PAIGC tinha uma "barraca" na mata próxima da bolanha do Rio Biesse (a vermelho).  O Jorge Félix sinalizou duas povoações,  a azul: Dulo Gengéle e Sinchã Lomá, a sudoeste de Galomaro.

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)



Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Sector L1 > Mansambo > 
CART 2339 (1968/69) > "Interrogatório" (que mais parece um exame oral da 3ª classe no Posto Escolar Militar...)  ao prisioneiro, Malan Mané (sentado, à esquerda). Quem preside ao ato é o nosso saudoso alf mil at art Torcato Mendonça (1944-2021) (à direita), visivelmente bem disposto tal como o militar guineense que faz de intérprete (de pé, ao centro). 

Assistem à cena 3 "viriatos" da CART 2339... O seu olhar é de espanto,  curiosidade e desconfiança... A  foto foi tirada pelo alf mil Cardoso, e chegou-nos à mão através do ex-fur mil Carlos Marques dos Santos, de Coimbra (1943-2019). "Pela disposição dos presentes é fácil imaginar a brutalidade do interrogatório. O militar das patilhas sou eu, na escrita, Torcato Mendonça"

Foto (e legenda): © Carlos Marques dos Santos (2006) 
Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Recuperamos e reeditamos uma mensagem e uma história do Rui Felício (1944-2026) (*), ex- alf mil at inf,  CCAÇ 2405 (Galomaro e Dulombi, 1968/70), autor da série "Estórias de Dulombi", e recentemente falecido:

Data - 12 de março de 2008:

Meu Caro Amigo Luís Graça,

Depois de vários anos sem notícias do Jorge Félix (**), tive a felicidade de o reencontrar há dias através de e-mail que ele me enviou.

Soube do meu endereço, por meio do nosso blogue,  que ele  tem lido...

Relembrou-me uma história curiosa que se passou em Galomaro numa operação militar em que ele esteve envolvido e da qual resultou um prisioneiro do PAIGC que pernoitou na sede da CCAÇ 2405.

É essa história que, no seguimento de outras anteriores te tenho enviado, que agora te peço que tenhas o incómodo de ler e decidir se lhe achas interesse para publicação no blogue.

Além da história propriamente dita, juntei-lhe algumas fotos cedidas pelo Jorge Felix, cuja publicação autorizou, bem como do endereço de um filme do YouTube.

Aceita os meus melhores cumprimentos, depois de tão longa ausência e os parabéns renovados pelo esforço que tens dedicado ao blogue que de muita utilidade tem sido para tantos de nós.


2. Série Humor de Caserna


O Piloto de Al III, Jorge Félix, e o prisioneiro Malan Mané  

por Rui Felício (1944-2026)

(i) Preâmbulo

Durante cerca de 3 semanas estacionou na sede da nossa CCAÇ 2405, em Galomaro / COP 7, uma companhia de paraquedistas (aliás, duas, CCP 122 e 123 / BCP 12), para fazer limpeza de alguns objectivos do PAIGC, que as informações militares detectaram nas imediações da zona operacional da CCAÇ 2405.

No apoio a essa Companhia de paraquedistas, incluía-se o helicóptero pilotado pelo meu grande amigo alferes mil piloto Jorge Félix.

O episódio que vou contar poderia ter resultado em catástrofe, como mais adiante se compreenderá, mas o que permanece na memória, é de facto a situação picaresca que, passado o perigo, a seguir se desenvolveu.

Antes do relato dos factos, é importante dar a conhecer a personalidade do Jorge Félix. Sem ela, esta história não teria o sal e a pimenta que a maneira de ser dele lhe conferem.

(ii) A personalidade do Jorge Félix

O Jorge Félix, a quem ainda hoje me ligam laços de grande amizade, foi piloto de helicópteros da Força Aérea em Bissalanca, BA 12,  nos anos de 1968 a 1970.

Para além do seu elevado profissionalismo, capacidade técnica e conhecimento do território, que o tornaram, na opinião generalizada, como um dos melhores, senão o melhor piloto de helicópteros que terão passado pela guerra da Guiné, reunia e ainda reúne, invulgares qualidades difíceis de encontrar todas concentradas numa mesma pessoa.

Aquelas que mais apreciei foram e ainda são, apesar dos anos passados;
  • um apurado sentido de humor;
  • uma jovial e permanente boa disposição que alastrava a quantos o rodeavam;
  • um permanente lenço de seda colorido em volta do pescoço que era a sua imagem de marca;
  • e uma aptidão especial para rapidamente aprender a dominar as técnicas das mais variadas especialidades.
Refiro-me ao domínio da fotografia e da imagem, da música e, sobretudo, dos corações femininos! Dizem que destroçou vários na sua passagem por Bissau, Bafatá, Galomaro e sei lá quantas mais terras da Guiné...

(iii) A Op Nada Consta (18 de agosto de 1969: destruir um acampamento nas matas do Rio Biesse)

Mas vamos à história de cuja parte final fui testemunha.

A parte inicial foi-me descrita pelo próprio Jorge Felix e confirmada pelos paraquedistas intervenientes.

Em 18 de agosto de 1969, às 09h30, o Jorge Félix transportou no seu helicóptero um grupo de paraquedistas que iam fazer um assalto, a uma base do PAIGC, identificada pelos serviços de informações militares da Guiné, como estando localizada na região de Galomaro.

Ao procurar local para a aterragem perto do objectivo, em plena mata, o Jorge Felix foi descendo o helicóptero e, a uns 5 metros do chão, a deslocação de ar provocada pelo movimento das pás do aparelho, afastou uma série de ramos de arbustos deixando a descoberto um guerrilheiro do PAIGC que ali se havia emboscado.

O homem estava armado com um RPG7, e a granada colocada, apontando para o helicóptero, o que naturalmente deixou em pânico o piloto e os tripulantes.

Na verdade, se o gatilho tivesse sido premido, era o destruição do helicóptero e de algumas vidas, senão todas, daqueles que o tripulavam.

O Jorge Félix que foi quem primeiro avistou o guerrilheiro, gritou aos paraquedistas que de imediato saltaram do heli e aprisionaram o homem sem necessidade de dispararem um único tiro, desarmando-o acto contínuo.

Pelos vistos, o susto e a surpresa dele foram tão grandes, ao avistar inesperadamente o helicóptero sobre a sua cabeça, que lhe devem ter paralisado os movimentos e o raciocínio... para sorte dos militares que enchiam o aparelho...

(iv) O regresso a Galomaro

E a partir daqui já fui testemunha ocular...

Regressados a Galomaro, o prisioneiro (4) foi fechado numa sala da casa onde funcionava a secretaria da CCAÇ 2405, aguardando ali que lhe fosse dado o destino que os altos comandos de Bissau lhe determinassem.

Como nunca antes na CCAÇ 2405 tivéssemos feito prisioneiros, aquele homem mais parecia uma ave rara enjaulada em jardim zoológico em dia de grande afluência de visitantes.

Todos queriam vê-lo e o seu aspecto era o de um animal acossado e aterrorizado, certamente porque a propaganda que lhe tinham enfiado no cérebro, lhe fixara a ideia de que os soldados colonialistas haviam de o torturar até à morte...

A verdade é que ninguém lhe fez mal... Pelo contrário, vendo-o assim aterrorizado, procurámos tranquilizá-lo e dar-lhe de comer, o que foi sempre recusando, possivelmente porque pensava que a comida estaria envenenada.

Assisti a dada altura, a um diálogo que jamais esquecerei e que não resisto a tentar reproduzir tanto quanto a memória mo permita, passados já tantos anos.

(v) A conversa do Jorge Félix com o prisioneiro

O Jorge Felix entrou na sala, onde eu me encontrava com o prisioneiro e com mais um ou dois soldados, com o lenço de seda esvoaçando, o habitual ar sorridente e descontraído, e dirigiu-se cordatamente ao prisioneiro:

 Então como vai, meu amigo? Está tudo bem consigo?

O prisioneiro, consciente de que aquele piloto tinha todas as razões do mundo para se sentir revoltado pelo sucedido uma ou duas horas antes, encolheu-se receoso e ficou, tenso e em silêncio, esperando a vingança...

O Jorge Félix, insistiu:

− O senhor é casado?

O homem fez um sinal de assentimento com a cabeça, e o Jorge Felix prosseguiu:

− Pois é, a sua esposa lá em casa a remendar-lhe as peúgas, coitada, e o senhor anda para aqui a brincar às guerras... E tem filhos?

Mais um movimento afirmativo do prisioneiro incentivou o Jorge Felix a prosseguir:

− Sabe, o senhor parece ser uma pessoa de bem, por isso devia estar em casa a ajudar a sua esposa, a acompanhar os estudos dos seus filhos... Em lugar disso, anda por aí com uma arma daquelas nas mãos, sujeito a que ela se dispare sem querer e ainda vir a magoar alguém, ou magoar-se a si próprio... Já viu em que situação a sua família ficaria se o senhor viesse a sofrer algum acidente? Quem iria depois cuidar deles? Já pensou nisso?

O homem cada vez entendia menos daquela conversa mansa, daqueles conselhos simpáticos vindos de um oficial português que se habituara a considerar como seres desumanos e cruéis.

Quanto mais o Félix falava, mais ele se encolhia, sentado a um canto contra a parede, se calhar a pensar em que momento lhe iriam fazer mal...

O Félix não desistia da sua prelecção, tentando que o prisioneiro se descontraísse e estabelecesse com ele algum diálogo.

− Ora diga-me lá, o senhor estava com aquela perigosa arma nas mãos, para quê? Se era para disparar uma bazucada contra nós, porque não o fez?

Finalmente o prisioneiro sentiu-se na obrigação de responder:

− Porqui tem medo! Helicóptero é suma mosca... quando olha a gente nunca mais despega di nós...

O Jorge Felix ripostou de imediato:

− Isso é verdade! Mas nunca faríamos mal a uma pessoa como o senhor, que tem família constituída, que aparenta ser uma pessoa de bem... E porque é que não quer comer?... Sabe que tem que se alimentar para poder dar assistência aos seus filhos... A menos que não lhe agrade a comida... Realmente esse esparquete que lhe deram, não tem grande aspecto... E os olhos também comem, não é? Quer vir jantar fora comigo? Um frango de churrasco e umas cervejolas? Eu pago!

Brincando ou não, a verdade é que com toda esta conversa o Félix conseguiu que a tensão do prisioneiro se distendesse e, inacreditavelmente, este aceitou o convite!

O Felix, saiu para pedir autorização aos paraquedistas para levar o homem a comer um franguinho no restaurante do Regala, o único aliás que existia em Galomaro. Estes autorizaram desde que o prisioneiro fosse acompanhado por um soldado, para se garantir que não fugiria...

E foi assim que o Jorge Felix, à falta de melhor companhia, saiu para a night de Galomaro com o novo amigo conquistado às hostes do PAIGC que poucas horas antes podia tê-lo mandado para os anjinhos...

E jantaram juntos... E trocaram confidências que só o Felix poderá revelar...

O Jorge Félix pagou o jantar, como prometera! Com exclusivo recurso aos seus capitais próprios.

É uma divida que, segundo me disse, gostaria de lhe cobrar se o homem ainda estiver vivo e se lhe for possível reencontrá-lo.

Anexo três fotos que o Félix me enviou.

Rui Felício
Ex-alf mil inf, CCAÇ 2405 (Galomaro e Dulombi, 1968/70)

Lisboa, 11 de Março de 2008

(Revisão / fixação de texto, título: LG)

3. Comentário do editor LG:

Meus amigos e camaradas:

É uma história a ler e reler. Uma daquelas de partir o coco a rir... Não me canso de a revisitar (***). E o mérito é tanto do narrador como do Jorge Félix e, de algum modo, do pobre Malan Mané que, três semanas depois, ia morrendo ao meu lado, um jovem a quem deram uma bandeira, um hino, um RPG 2, enfim, uma causa para lutar, viver e morrer. (Era biafada, da região de Quínara, tal como o seu comandante, o Mamadu Indjai, futuro carrasco de Amílcar Cabral, e que morrerá a seguir, em 1973, fuzilado sem honra nem glória, no ajuste de contas entre "cavalos" e "cavaleiros" do PAIGC).

O Malan Mané era apontador de RPG 2 (e não 7), se bem me lembro. Foi, de facto, capturado pelos paraquedistas do BCP 12, em operação conjunta do Sector L1 (BCAÇ 28252, Bambadinca, 1968/70) e COP 7 (Bafatá) (Op Nada Consta, 18 de Agoso de 1969) (em que também participei, tal como o Torcato Mendonça e o Carlos Marques dos Santos) (****) ...

As forças paraquedistas eram a CCP 123, a 2 Gr Comb, e a CCP 122, a 1 Gr Comb. Ambas as unidades estavam aquarteladas temporariamente em Galomaro. O Malan Mané, depois de Galomaro, foi levado para Bambadinca, para interrogatórios. Também esteve em Mansambo. Estava ao meu lado, no 2º Gr Comb, CCAÇ 2590 / CCAÇ 12, que gravemente ferido (Op Pato Rufia, no Xime, a 7 de Setembro de 1969, o "meu batismo de fogo").

Esta história, "escrita" a quatro mãos" (Rui Felício e Jorge Félix), é um tesouro de humanidade, sensibilidade, inteligência emocional e humor pícaro no meio daquela merda de guerra. Bem merecia mais comentários dos nossos leitores, cada vez mais cansados e distraídos. 

É uma história que nos honra e nos delicia, e que diz muito sobre a nossa maneira de ser e de estar, como portugueses, mesmo em situações-limite como a guerra... Voltaremos a ela num próximo poste da série "Nomadizações de um marginal-secante".
_______________

Notas do editor LG:

(*) O Rui Felício (1944-2026), juntamente com o Paulo Raposo, o Victor David (1944-2024) e o Jorge Rijo (de quem não sabemos nada há muito), fazia parte dos famosos baixinhos de Dulombi, os quatro alferes milicianos da CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852 (Galomaro e Dulombi, 1968/70), reunidos sob o poilão da Tabanca Grande...

Vd. poste de 8 de Dezembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1352: Estórias de Dulombi (7): Perigos vários, a divisa dos Baixinhos de Dulombi (Rui Felício)

(**) Vd. postes de:

28 de Fevereiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2592: Voando sob os céus de Bambadinca, na Op Lança Afiada, em Março de 1969 (Jorge Félix, ex-Alf Pil Av Al III)

12 de Março de 2008 > Guiné 63/74 - P2627: Vídeos da Guerra (8): Nha Bolanha (Jorge Félix, ex-Alf Mil Piloto Aviador, 1968/70)

18 de Março de 2008 > Guiné 63/74 - P2660: Notas de leitura (10): Jorge Félix, o nosso piloto aviador, fala do livro do Beja Santos e evoca o Alf Mil Brandão (CCAÇ 2403)

(***) Último poste da série : 4 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27793: Humor de caserna (242): "Está a ver, meu alferes ? Era melhor ter limpado o sebo ao gajo" (Alberto Branquinho, "Cambança Final, 2013, pp. 77-79)

(****) Vd. postes de:

25 de Junho de 2006 > Guiné 63/74 - P906: CART 2339 e Malan Mané, duas estórias para duas fotos (Torcato Mendonça)
23 de setembro de 2016 > Guiné 63/74 - P16519: Manuscrito(s) (Luís Graça) (97): O 'prisioneiro' Malan Mané... a quem cedo, talvez demasiado cedo, deram um arma e uma bandeira e um hino

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27780: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (38): O Fígaro, um dos cromos do Liceu D. João III, em Coimbra (Rui Felício, 1944-2026)


Coimbra > Antigo Liceu Dom João III, hoje Escola Secundária José Falcão. Foto: © CEIS20 / Universidade de Coimbra (2023) (com a devida vénia; reeditada pelo Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, 2026) 


1. A melhor homenagem que podemos fazer a um  amigo e camarada que acaba de partir da Terra da Alegria para a "derradeira viagem",  sem retorno, é lembrar o bem que fez aos outros, as histórias que nos deixou, as memórias partilhadas... Neste caso, falamos do Rui Felício (1944-2026) que, ao  longo da vida, e mesmo longe da sua terra natal, sempre cultivou  um genuíno espírito coimbrão. 

Sabemos pouco da sua vida, só estivemos juntos uma vez, na Ameira, Montemor-O-Novo (em 14/10/2006, por ocasião do I Encontro Nacional da Tabanca Grande, organizado pelo Paulo Raposo e pelo Carlos Marques Santos, também ele coimbrão tal como o Felício e o David). 

Acompanhávamos com irregularidade a sua página do Facebook e editámos uma boa dúzia de "Histórias de Dulombi", a sua série no nosso blogue, onde tem mais de 4 dezenas de referências. 

É também o autor do blogue Escrito e lido: episódios que são sementes de vida , que ele manteve entre 2010 e 2014 (c. de 90 postagens).

Julgamos que teve uma infância feliz no Bairro  Norton de Matos, em Coimbra (*).  Estudou na universidade da sua terra onde fez direito. E julgamos também que foi advogado toda a vida, e nomeadamente, na Ericeira, Mafra.   

Durante o serviço obrigatório, calhou-lhe na rifa a Guiné onde foi oficial miliciano, na CCAÇ 2405 (Galomaro e Dulombi, 1968/70). 

Foi um dos sobreviventes do desastre de Cheche em 6/2/1969. Aprendeu a sorrir com meia-cara, como muitos de nós, tendo passado mais de 1/3 da sua vida sob o regime do Estado Novo.

A história, pícara,  que, em sua homenagem,  aqui reproduzimos, diz-nos muito sobre o que eram os professores e os liceus daquela época.  Havia os "cromos", como o Fígaro, que hoje são objeto do nosso ridículo,  mas também havia outros professores que nos marcaram para a vida, alguns grandes figuras como portugueses, cidadãos,  pedagogos, escritores... Seria injusto referir uns e omitir outros...

O Rui Felício fazia parte da Associação dos Antigos Alunos, Professores e Funcionários do Liceu D. João III / Escola Secundária José Falcão, que tem uma página de grupo no Facebook, com mais de 880 membros, e é administrada pelo Mário Araújo Torres (antigo juiz do Tribunal Constitucional) (fez o serviço militar em Angola, 1972/74).  

Pela foto de grupo que publicamos a seguir, vemos que andaram juntos no liceu, o Rui Felício (1944-2026) e o Victor David (1944-2024), ambos alf mil at inf, CCVAÇ 2405 (1968/7'0) e nossos grão-tabanqueiros.


Coimbra > Liceu D. João III > Turma A do 6.º Ano (1960/ 61). Legenda:

1 - Albino Esteves | 2 - Júlio Maia | 3 - Tomás Porto 4 - Gil Ferreira | 5 - Rui Martins Borges | 6 - Costa Gírio | 7 - Paulo Xavier | 8 - Sá Cunha | 9 - Pinto Fortes | 10 - Rui Felício  |11 - António Cardoso Bernardino | 12 - Vasconcelos Coelho | 13 - Duarte Santos | 14 - Acácio Resende | 15 - Deniz Duarte | 16 - António Horta Pinto | 17 - Castel-Branco Sacramento | 18 - Manolo Mattos-Chaves | 19 - Cruz Almeida | 20 - Cruz Gonçalves | 21 - Veloso e Brito | 22 - Alexandre Gaspar | 23 - Vítor David | 24 - Mário Torres.




Cromos do Liceu D. João III: o Fígaro
 

O circunspecto Fígaro era um férreo disciplinador. Nas suas aulas de Ciências Naturais, tornava-se impensável um sorriso, uma distracção, um movimento mais brusco ou irrequieto.

Ao mínimo sinal de indisciplina, o Fígaro anotava no seu caderninho o nome do aluno prevaricador e era certo e sabido que na atribuição da nota final isso ia ser tido em conta.

Naquele dia, um dos alunos tinha faltado para ir ao funeral de um seu tio e o Fígaro aproveitou a circunstância para dar uma lição sobre a morte dos seres vivos e ensinar aos alunos o que é um defunto, o que é um cadáver.

Calvo, as bochechas arrocheadas, a barriga proeminente, empacotado no velho e coçado fato de tecido da Covilhã, caminhava lentamente no estrado de um lado para o outro, como que a preparar mentalmente a lição.

De pé, fixa os pequenos olhos na turma e começa:

"Quando um orgão do corpo humano deixa de funcionar, diz-se que esse órgão morre.

O corpo humano é formado por um conjunto de órgãos e quando eles cessam o seu funcionamento, a vida acaba e sobrevém a morte.

Com a morte o corpo transforma-se em cadáver e começa a decompor-se. O homem transforma-se assim em defunto.

E,  com a decomposição do corpo, geram-se infecções que podem contaminar aqueles que ainda estão vivos.

Por isso, enquanto não se fizer o enterro do cadáver, deve arejar-se o local onde se encontra e deixar as janelas abertas, para prevenir a propagação de infeções."

O Fígaro reparou que, estranhamente, sobre um tema tão mórbido, os alunos não conseguiam conter o riso e só não desatavam às gargalhadas certamente pelo medo do castigo que sofreriam pela indisciplina.

− Então, meninos? Porque se estão a rir?

E, de dedo em riste para o Teixeira da Silva, da fila da frente, vociferou:

− Explica lá tu o que se passa!

O Teixeira da Silva, chefe de turma, engasgou-se e tartamudeou:

 
− Eu penso que será por o Sr. Dr. estar a arejar algum órgão defunto, porque tem a braguilha aberta...

Rui Felicio (**)

(Revisão / fixação de texto: LG)
________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 8 de fevereiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26473: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (34): O amola-tesouras (Rui Felício, nado e criado no Bairro Norton de Matos, em Coimbra)

sexta-feira, 15 de novembro de 2024

Guiné 61/74 - P26156: In Memoriam (517): José Manuel Amaral Soares (1945-2024), ex-fur mil sapador MA, CCS/BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70); morava em Caneças, Odivelas




José Manuel Amaral Soares (1945-2024)


1. Por intermédio do Humberto Reis, nosso colaborador permanente (e meu vizinho de Alfragide), tive ontem a triste notícia da morte, no passado dia 10, de mais um nosso camarada e amigo, o José Manuel Amaral Soares (1945-2024), ex-fur mil sapador minas e armadilhas, CCS/BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70). (*)

Soubemos, pela notícia da agência funerária, que a cerimónia fúnebre se realizou no passado dia 11 de novembro, pelas 15:30, tendo sido antecedida de velório e de missa de corpo presente. O corpo saiu depois da capela mortuária da igreja de Caneças, para o cemitério local.

 família enlutada transmitimos ainda, em tempo, os nossos votos de pesar e a nossa solidariedade na dor. O Soares vai ficar aqui também connosco, à sombra do nosso simbólico e fraterno poilão. Queremos honrar a sua memória e lembrarmpo-nos dos bons e maus momentos qiue passámos juntos. Por lapso, ele não passou a figurar na lista alfabética da nossa tertúlia, logo em abril de 2005, como deveria ter acontecido pelas nossas regras. Ingressa agora, a título póstumo, na nossa Tabanca Grande. com o nº 895.

O Soares residia em Caneças, concelho de Odivelas, e estava doente há já alguns tempos, o que não o impediu de ir ao último convívio da malta de Bambadinca, em Vila Nova de Azeitão, no passado dia 25 de maio, de cadeira de rodas, amparado pela filha (**)

Em Bamdadinca, estivemos juntos cerca de 10/11 meses  (entre julho de 1969 e maio de 1970). As nossas instalações eram comuns, incluindo a messe e o bar de sargentos. 

Muito mais assíduo do que eu nos convívios do pessoal de Bambadinca do nosso tempo, encontrámo-nos também algumas vezes em vários locais do país: por exemplo, em Lisboa, na Casa do Alentejo (2007) (***), em Castro Daire (2009), etc. 




Vila Nogueira de Azeitão > 25 de maio de 2024 > Restaurante Típico Manuela Borges> 28º almoço-convívio do pessoal de Bambadinca de 1968/71 (BCAÇ 2852, CCÇ 12 e outras subunidades). A organização coube ao João Gonçalves Ramos (ex-sold radiotelegrafista, CCAÇ 12, Contuboel e Bambadinca, jun 69/ mar 71).Sentados, da esquerda para a direita: Fernando Calado (CCS/BCAÇ 2852) (Lisboa), Gabriel Gonçalves (CCAÇ 12) (Lisboa). Silvino Carvalhal (CCS/BCAÇ 2852) (V.N. Famalicão), e o José Manuel Amaral Soares (CCS/BCAÇ 2852) (Caneças / Odivelas).(**)

(Foto gentilmente cedidas pelo Humberto Reis, tirada por um fotógrafo da organização. Edição e legendagem complementar: Humberto Reis e Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, 2024)


Castro Daire > Freguesia de Monteiras > Zona Industrial da Ouvida > Restaurante P/P > 30 de Maio de 2009 > 15º Convívio do pessoal de Bambadinca, 1968/71, CCS / BCAÇ 2852, CCAÇ 12 e outras subunidades adidas > O ex-fur mil sapador, MA,  CCS / BCAÇ 2852, José Manuel Amaral Soares.


Foto ( legenda): © Luis Graça (2009). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Lisboa > Casa do Alentejo > 26 de Maio de 2007 > Encontro do pessoal de Bambadinca 1968/71 > A organização coube ao Fernando Calado, coadjuvado pelo Ismael Augusto, ambos alferes da CCS/BCAÇ 2852 (1968/71). 

Aqui na foto o Ismael Augusto e o José Manuel Amaral Soares, ex-furriel mil sapador, ambos da CCS / BCAÇ 2852. O primeiro vivia em Lisboa (trabalhou na RTP como engenheiro e gestor;  e era na altura consultor e docente universitário nas áreas da multimédia). O Soares, por sua vez, vivia em Caneças.(***)

Foto ( legenda): © Luis Graça (2007). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


2. O Zé Manuel Soares foi dos primeiros camaradas a aparecer no blogue. No poste P5, de 20 de abril de 2005 (****), publicámos a sua convocatória para o convívio desse ano, do pessoal de Bambadinca 1968/71 (de que ele era o organizador, como já o tinha sido em anos anteriores):



"Guiné, Bambadinca 68/71. 

"Companheiros: Desejo que estejam de saúde assim com os vossos familiares. Vamos mais uma vez realizar o nosso almoço anual a fim de convivermos, matarmos saudades e ainda relembrarmos aqueles bons e menos bons momentos que cimentavam a nossa amizade; de tal forma que passados 37 anos sentimos ainda um grande prazer de estar juntos, ainda que por breves horas.

"Por tudo isto, camaradas, no próximo dia 11 de junho espero por todos na Baixa de Faro, junto ao Jardim Manuel Bivar, pelas 10.30 horas. 

"Vamos aí fazer a nossa concentração para que, depois das habituais formalidades, possamos seguir para o Cais da Porta Nova e às 11.00 horas embarcar até à Ilha Deserta. Durante o percurso vamos apreciar a bela paisagem da magnífica Ria Formosa. 

"Quando forem 13.00 horas iniciaremos o nosso alomoço, composto apenas por produtos do mar. O preço por pessoa é de 48 euros com viagem de barco incluída.  As crianças dos 5 aos 11 anos pagam 50%, portanto 24 euros.

"Camaradas, a vossa confirmação tem que ser feita até ao dia 1 de junho, impreterivelmente, com cheque cruzado para José Manuel Amaral Soares (...). Para toda ajuda, telemóvel 96 242 80 53".


3. Além destas referências no blogue, há uma do tempo de Bambadinca, que nos é particularmenmte cara pelas fotos de camaradas daquele tempo e dos nossos quartos. As fotos foram-nos enviadas pelo nosso muito querido e saudoso amigo e camarada de Coimbra, o Carlos Marques Santos (1943-2019), ex-fur mil, CART 2339 (Mansambo, 1968/69) (*****)



Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Setor L1 >  Bambadinca > CCS/ BCAÇ 2852 (1968/70) >  "Na primeira fila, veem-se os Furriéis Oliveira e Soares. Na 2.ª fila, eu (Marques dos Santos) mais o furriel Carlos Pinto... A foto foi tirada pelo furriel Rei (Cart 2339), meu inseparável companheiro de férias. No interregno das nossas férias aconteceu o desastre do Cheche – Madina do Boé, em 6/2/1969, onde também a CART 2339 esteve envolvida com material auto e apoio logístico"

O Humberto Reis veio depois completar o nome dos dois camaradas que apareciam em primeiro plano: à direita, o  José Manuel Amaral Soares,  ex-furriel mil sapador de minas e armadilhas, CCS / BCAÇ 2852; e à esquerda, o "ranger" Fernando Jorge da Cruz Oliveira (hoje a viver em Fernão Ferro, Seixal). Quanto ao Carlos de Oliveira Pinto, era  radiomontador  (morou depois no Porto onde se formou em engenharia).




Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Setor L1 > Bambadinca > CCS/ BCAÇ 2852 (1968/70) >  "Aqui, já com o furriel Rei na 1.ª fila",

Comentário de LG: "Como se pode ver pelas fotografias, não se passava sede no Hotel de Bambadinca e, a avaliar pela decoração das paredes dos quartos, os seus hóspedes tinham uma permanente ligação (espiritual, estética, mágica, poética, erótica...) com o mundo das "fadas"  que povoavm os seus sonhos ou ajudavam a climatizar os seus pesadelos,,, Além disso, supremo luxo, tinham direito a lençóis brancos, lavados, e até a frigorífico elétrico"...




Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Setor L1 > Bambadinca > CCS/ BCAÇ 2852 (1968/70) > O Carlos Marques Santos em trânsito para Mansambo, depois da licença de férias na metrópole. (*****)


Fotos (e legendas): © Carlos Marques dos Santos (2006). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné.]


Acrescenta o Humberto Reis em relação a esta última foto: "(...) pode ver-se um frigorífico que eu comprei quando os velhinhos da CCS / BCAÇ 2852 se vieram embora e ficou para a malta da CCAÇ 12 que depois mudou para o meu quarto".

Comentário de LG:

 "Um frigorífico (para mais  elétrico), naquelas paragens e naquele contexto, era um verdadeiro luxo! 

"O nosso (o do Humberto, que ele compartilhava com a malta do quarto, como eu e o Tony Levezinho) só funcionava à hora do almoço e à noite, quando estava ligado o gerador... Foi depois revendido aos periquitos que nos vieram render, em finais defevereiro de 1971. 

"E julgo que terá chegado, heroicamente, até à hora da partida do último soldado português na Guiné. Provavelmente terá sido oferecido a um camarada do PAIGC. Por falta de energia eléctrica, terá morrido ingloriamente no montão de lixo que deixámos em Bambadinca, a começar pela tralha da guerra, incluindo obuses 14...

"Um felizardo do mato, com direito a férias (nem que fosse em Bissau, também conhecida por guerra do ar condicionado), ia de barco, civil, a partir de Bambadinca, ou apanhava uma LDG no Xime ou, ainda, uma boleia, de helicóptero ou de Dornier, DO 27 (o que era mais difícil, por causas das prioridades, do elevado custo do transporte aéreo e sobretudo do factor C - a cunha).

"A sede da CCS / BCAÇ 2852, a que a CCAÇ 2590/CÇAÇ 12 estva adida, em Bambadinca, funcionava como hotel para os militares em trânsito, oriundos dos aquartelamentos e destacamentos do setor (em especial, Xime, Mansambo, Xitole, Missirá e Fá Mandinga) ou até de outros setores da Zona Leste (Bafatá, Gabu, Galomaro...).

"Comparadas com as do Xime, Mansambo ou Xitole, as instalações para oficiais e sargentos em Bambadinca eram as de um hotel de cinco estrelas... Daqui que a malta de Bambadinca (CCS / BCAÇ 2852, CCAÇ 12 e outras subunidades) procurava sempre 'desenrascar'   os alferes e furriéis milicianos em trânsito... 

"Mais do que cumplicidade corporativa, havia solidariedade para com os camaradas que viviam em piores condições do que nós... De resto, havia sempre camas vazias, nomeadamente da malta operacional que frequentemente dormia no mato ou estava destacada fora de Bambadinca (como era o caso da CCAÇ 12)." (...)


(*****) Vd. postes de:

quinta-feira, 25 de maio de 2023

Guiné 61/74 - P24339: Tugas, pocos pero locos: algumas das nossas operações temerárias (2): Op Gavião (Madina / Belel, 4-6 de abril de 1968): 300 homens desbaratados pelas abelhas, armas extraviadas, um cadáver abandonado, um homem perdido, etc.


Cracá do Pel Caç Nat 52 (1966/1974), "Os Gaviões". Divisa: "Matar ou morrer"


Operação Gavião (Madina / Belel, 4-6 de Abril de 1968)  

1. Todos os anos, pela época seca, de preferência entre março e abril, o comando do batalhão sediado em Bambadinca, Sector L1, zona leste, região de Bafatá, mandava uma força de cerca de 300 homens à procura do acampamento IN do Enxalé, algures na península de Madina / Belel, mesmo já no limite do Sector, a sudeste da base de Sara.  Por aqui o IN e a população sob o seu controlo viviam com relativa tranquilidade, só sendo importunados por alguma incursão de tropas helitransportadas ou pelos bombardeamentos da FAP. A ida a Madina / Belel era quase sempre azarada: em geral as NT levavam prisioneiros que serviam de guias, e que procuravam ludibriar as NT, "perdendo-se" propositadamente ou tentando inclusive a fuga (como aconteceu, por exemplo, na Op Anda Cá, 22 e 23 de fevereiro de 1968) (*), 

Todos os anos aconteciam erros de planeamento, guias que se perdiam, itinerários mal escolhidos, PCV (antes da época do Strela...) que denunciavam a presença das NT, falhas no abastecimento de água, progressão para o objectivo a horas proibidas, confusão de (ou chegada tardia aos objetivos), flagelações do IN, tabancas abandonadas e queimadas, casos de exaustão, insolação e  desidratação, indisciplina de fogo, ataques de abelhas, debandada geral, perda de armas e muniçóes, e até de homens, regresso dramático ao Enxalé com viaturas a sair até São Belchior para transportar os mais "desgraçados", tentatativa de recuperação, no dia seguinte, do material perdidos… e, claro, relatórios por vezes fantasiosos, pouco rigorosos, etc....

Em 1968 (Op Gavião), aconteceram também estas coisas, próprias de uma guerra de contraguerrilha, num terreno inóspito para muitas das tropas portuguesas... É também caso para dizer, "tugas pocos pero locos" (**).

2.  Op Gavião: Desenrolar da acção

Iniciada no dia 4 de abril de 1968, às 18h00, com a duração de 3 dias, tinha como finalidade excutar uma acção ofensiva na mata de Belel, começando por um golpe de mão ao acampamento IN  do Enxalé. 

Forças ( c. 300 homens) que tomaram parte na operação:

(i) Cmdt: 2º cmdt BART 1904;

(ii)  Destacamento A: CART 2338 a 4 Gr Com + Pel Caç Nat 52;

(iii) Destacamento B: CART 2339, a 4 Gr Comb + Pel Caç Nat 53


Destacamento A

O Pel Caç Nat 52 deslocou-se de Missirá para a região de Aldeia do Cuorno dia 4 de abril de 1968, às 15h00, onde se instalou protegendo a cambança das restantes forças do Destacamento (CART 2338), cambança essa que foi efectuadas às 18h45 do mesmo dia.

Uma vez completo o Destacamemnto, as NT iniciaram a marcha para Missirá, tendo pernoitado um pouco antes de o atingir, pelas 22h00. 

Reiniciaram o movimento no dia 5, às 5h30, utilizando um guia natural de Missirá, ao qual foi acordado e indicado qual o serviço a desempenhar só pouco antes do início do movimento, por razões de sigilo e segurança.

Ao fim  da tarde do dia 5 atingiu um ponto cerca de 1 km atrás do local previsto onde pernoitou.

Reiniciado o movimento no dia 6, pelas 5h30, foi detectado um sentinela por volta das 7h30. Começou então a instação de 3 Gr Comb para proteger o ataque dos outros dois grupos. 

Entretanto a sentinela detectou as NT e fugiu. Passados poucos minutos o IN emboscou as NT com LGFog e armas automáticas
Zacarias Saiegh, mais tarde,
na 1ª CCmds Africanos,
como  tenente graduado
'comando'

Com o Pel Caç Nat 52 à frente, impulsionado pelo seu comandante, o fur mil Zacarias Saiegh, que demonstrou um sangue frio, decisão e temeridade  dignos de serem apontados, reagiu à emboscada,  perseguindo o IN durante cerca de 1,5 km. 

Deparou nessa altura com a tabanca de Belel que imediatamente atacou e destruiu totalmente, tabanca essa que tinha sido abandonada recentememnte, e que tinha 25 palhotas. Foram destruídos ainda um tanque de água e uma horta grande.

Aquando da  destruição da tabanca pelo fogo, foram ouvidos uns rebentamentos muito fortes, o que levou a concluir tratar-se de um pequeno paiol.

Entretanto, o PCV infornou o Destacamento A que o objetivo destruído era o objectivo do Dest B e deu ordens para reiniciar o regresso para o local previsto onde se devia emboscar durante a acção do Dest B, o que foi cumprido,

Ao chegar ao local previsto, encontrou-se com o outro Dest, que já tinha destruído o objetivo deste Dest (B), e acabava de sofrer um ataque de abelhas que tinha provocado uma grande desorganziação. 

Tendo então recebido ordem do PCV para iniciar o regresso da operação, acordou com o Dest B que seguisse este na frente por já conhecer o caminho. Entretanto, ao iniciar o movimenmto depois da preparação das macas improvisadas para o transporte dos elementos mais atingidos pelo ataque das abelhas, o que demorou um certo tempo, foram emboscados novamente por forças do IN, tendo sido pedido então apoio aéreo, o que foi recusado pelo PCV.

Foi reiniciado o movimento com algumas paragens motivadas por flagelações do IN, com armas automáticas, e mais dois ataques de abelhas na margem do Rio Gandurandim, o que provocou nova desorganização nos Destacamentos. 

Por fim foi atingida a estrada Finete-Enxalé, sendo o Destacamemto recolhido em viaturas em São Belchior, atingindo o Enxalé no dia 6, às 18h30.

Aí, mais tarde, foi constatado o desaparecimento de uma praça metropolitana pelo que o cmdt do Destacamento A resolveu  na madrugada seguinte ir à sua procura, não tendo sido necessário por a praça ter aparecido no Enxalé no dia 7, às 6h00.

Iniciou-se a cambança do Rio Geba para o Xime, e daí, em viaturas, iniciou-se o movimento para Fá que foi atingida no dia 8, às 15h00.

Constatou-se que, durante o ataque de abelhas, duas praças perderam as armas, pelo que o Cmdt do BART ordenou a ida de 1 Gr Comb deste Dest, e um do Dest B no dia seguinte, 8, às 5h00 ao local,  a fim de recuperar as referidas armas, o que foi conseguido. A força regerssou ao quartel em 8, às 20h00.

Destacamento B

A CART 2339 iniciou o seu movimento, em meios auto, no dia 5, às 15h00, de Fá para o Xime onde agregou o Pel Caç Nat 53. Iniciou a cambança do Rio Geba pelas 18h00, recebeu no Enxalé dois guias e iniciou a marcha pelo itinerário previsto, tendo atingido o local a norte de Madina onde se devia instalar, no dia 6, às 7h00, após alguma hesitações ("exitações", no originnal) dos guias,

Cerca das 9h00, o PCV informou que o Dest A tinha já destruído a tabanca de Belel e ordenou que se iniciasse o movimento pelo trilho Mandina-Belel, a fim de iniciar a batida à zona a sul do referido trilho.

Durante o deslocamento foi detectado o acampamento de Enxalé. que imediatamente foi atacado e destruído, sem resistência, verificando-se que tinha sido abandonado há pouco tempo. O objectivo tinha 8 palhotas, e forma capturadas 1 espingarda Mauser, 2 marmitas, 1 granada de RPG, e alguns documentos.

Aquando da destruição pelo fogo, foram ouvidos rebentamentos de munições de armas ligeiras e granadas de RPG.

Entretanto, os elementos do Dest instalados, quando se procedia ao assalto, foram atacados pela abelhas, o que provocou uma desorganiozaçáo grande, e pôs 2 homens em estado grave, que não permitiu que se deslocassem pelos seus meios.  

Devido ainda a esse ataque de abelhas, no seu movimento desordenado o Dest encontrou-se com o Dest A instalado no local previsto.

Nessa altura e como havia uma linha de água perto, 3 elementoso do Pel Caç Nat 53, sem autorização, deslocaram-se para se reabastecerem de água. Foram atacados pelo IN tendo sido abatido o soldado milícia 60/64, Tura Jau, e tendo o IN capaturado a sua arma, espingarda G3 nº 035786.

Acorrendo imediatamente ao local, repeliu-se o IN e recuperou-se o corpo  do referido mílicia.

Como o PCV informara que ía Bissau abastecer, foi pedido pela rede de operação a evacuação dos elementos feridos e do morto. Entretanto, ao chegar o PCV, foi pedida novamente a evacuação, tendo o mesmo  determinado que não houvesse evacuações, após se ter inteirado que os feridos picados pelas anelhas estavam a recuperar, e ter decidido o regresso ao quartéis em face dos objectivos previstos terem sido destruídos, o terreno a sul da picada onde nos encontrávamos estar queimado e não havendo possibilidade de se esconderem instalações do IN e ainda pelo facto do Dest GAMA (BCAÇ 1912) não se ter instalado no local previsto para proteger a acção deste Dest.

Por lapso que se explica pelas circunstâncias de momento, o PCV não foi informado que já tinha sido pedida a evacuação pela rede de operações, o que provocou a vinda do héli a Bambadinca, não sendo contudo utilizado.

Depois de uma certa demora, com o Pel Caç Nat 52 e 53 à frente, iniciou-se o regresso, tendo as NT sofrido 3 flagelações sem consequèncias, e tendo o IN sofrido 5 mortos confirmados.

Já junto da estrada Finete-Enxalé as NT sofreram mais 2 ataques de abelhas, provocando o desmaio de alguns elementos que tiveram de ser transportados às costas.

Continuando a progressão atingiu-se São Belchioronde se foi recolhido por viaturas para Enxalé, que foi atingo cerca das 18h00.

Verificou-se que o morto tinha ficado na zona d0 último ataque de abelhas pelo que foi decidido o Pel Caç Nat 53 ficar em Enxalé, a fim de ir de madrugada no dia seguinte recuperar o corpo, o que foi feito.

A CART 2339 inicou a travessia do Rio Geba, e deslocou-se em viaturas para Fá, que atingiu no dia 7 às 3h00.

Ao conferir o material foi constatada a falta de 2 espingardas G3 e alguns cantis e bornais ("burnais", no original), o que foi comunidacado ao Cmdt do BART que ordenou a ida no dia seguinte à zona do último ataque das abelhas juntamente com 1 Gr Comb da CART 2338, o que foi feito e conseguido recuperar parte do material perdido. As NT regressaram  a Fá, que atingiram no dia 8, às 20h00.

Fonte: Excerto das  páginas 43, 44 e 45 da História da Unidade: Batalhão de Artilharia nº 1904, 1966/68. Relatório da Op Gavião, iniciada em 4 de Abril de 1968: com a duração de três dias, e destinada a executar um golpe de mão contra o acampamento do Enxalé, do PAIGC, na mata de Belel, teve a participação da CART 2338, a 4 Gr Comb, mais o Pel Caç Nat 52 (Destacamento A), bem como da CART 2339, a 4 Gr Comb, mais o Pel Caç Nat 53 (Destacamento B). Foi comandada pelo 2º Comandante do BART 1904.


Documento digitalizado: © Armando Fernandes (2008). Direitos reservadas.


3. O Armando Fernandes, ex-alf mil cav, cmdt do  Pel Rec  Info,  CCS / BART 1904, Bissau e Bambadinca, 1966/68), mandou-nos em 8 de maio de 2008 fotocópias das páginas 43, 44 e 45 da história da unidade, com base nas quais transcrevemos o texto acima (com algumas adaptações, devido ao facto de estar mal redigido e ter alguns erros de ortografia).

Na altura, o nosso camarada escreveu o seguinte:

Professor Luís Graça:

Chamo-me Armando Fernandes, fui alf mil cav, comandei o Pel Rec do BART 1904 que esteve sedeado em Bambadinca, de Janeiro a Setembro de 1968. Durante todo o ano de 1967 o Batalhão esteve sedeado em Santa Luzia, Bissau, onde rendeu, em Janeiro de 67, o BCAÇ 1876.

Entrei ontem, pela 1ª vez, no seu blogue e chamou-me a atenção o nome de uma operação referido em P2817 (***), Operação Gavião.

Sobre essa operação consta da história do BART 1904, pags. 43/45 (edição não canónica em meu poder) que o fur mil Zacarias Saiegh nela participou, o que está em desacordo com uma resposta do doutor Beja Santos registada em P2817. Parece, também, que relativamente à entrada em Belel há discrepância entre o registado na história do BART e o afirmado no mesmo poste. Onde estará a verdade?

Em anexo envio cópia das páginas que referi.

Apresento os meus cumprimentos, Armando Fernandes

4. Comentário do editor L.G.:

Na altura agradeci ao camarada Armando Fernandes, dizendo-lhe que ia divulgar a sua versão (que era a versão do BART 1904)  (****) e dar conhecimentos aos camaradas que tinham escrito sobre a Op Gavião (Mário Beja Santos, do Pel Caç Nat 52, e Torcato Mendonça e Carlos Marques dos Santos, da CART 2339, estes dois últimos participantes da Op Gavião) (*****). 

Escrevi então: 

"A nós interessa-nos a verdade e só a verdade... Em muitos casos, há discrepâncias factuais entre os nossos relatórios de operações e os depoimentos pessoais. É normal. O Mário Beja Santos, que comandou o Pel Caç Nat 52 (a partir de agosto de 1968), não poderia obviamente ter participado nesta Operação Gavião (abril de 1968). Socorre-se da memória dos seus antigos soldados, alguns dos quais felizmente ainda estão vivos e vivem em Portugal."

O ex-alf mil Torcato Mendonça e o ex-fur mil Carlos Marques dos Santos, da CART 2339 (Mansambo, 1968/69), esses,  infelizmente, já náo estão entre nós...

Na altura também convidei o Armando Ferreira  a ingressar na nossa Tabanca Grande.  Infelizmente nunca mais nos contactou, pelo que nem ele nem mais ninguém representa o BART 1904 no nosso blogue.

De qualquer modo, ficou claro na altura que  o fur mil Zacarias Saiegh, a comandar interinamente  o Pel Caç Nat 52, tinha particiapdo na Op Gavião, e que recebera do comandante da operação, rasgados elogios, como se depreende deste excerto do relatório:

(...) "Com o Pel Caç Nat 52 à frente, impulsionado pelo seu comandante, o fur mil Zacarias Saiegh, que demonstrou um sangue frio, decisão e temeridade  dignos de serem apontados, reagiu à emboscada,  perseguindo o IN durante cerca de 1,5 km. " (...)
__________

Notas de L. G.:

(*) Vd. poste de 23 de fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1542: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (34): Uma desastrada e desaosa operação a Madina/Belel

(**) Último poste da série > 21 de maio de 2023 > Guiné 61/74 - P24330: Tugas, pocos pero locos: algumas das nossas operações temerárias (1): Op Tigre Vadio, 30 de março a 1 de abril de 1970, sector L1, Península de Madina / Belel, zona leste, sector L1 (Bambadinca)

(***) Vd. poste de 7 de Maio de 2008 > Guiné 63/74 - P2817: Blogoterapia (51): O Alentejo do Casadinho e do Cascalheira, o Tura Baldé, a Op Gavião... (Torcato Mendonça / Beja Santos)
(****) Vd. poste de 11 de maio de 2008 > Guiné 63/74: P2833: Op Gavião (Belel, 4-6 de Abril de 1968) (Armando Fernandes, Pel Rec CCS / BART 1904, Bissau e Bambadinca, 1966/68)

(*****) Vd. ppostes de:

9 de maio de 2008 > Guiné 63/74 - P2823: Dando a mão à palmatória (11): Operação Gavião, 5 de Abril de 1968, com as CART 2338 e 2339 (Torcato Mendonça / Beja Santos)

2 de janeiro de 2012 > Guiné 63/74 - P9303: Memórias do Carlos Marques dos Santos (Mansambo, CART 2339, 1968/69) (1): Op Gavião: Abril de 1968, antes o fogo do IN que o ataque das abelhas