Coimbra > Antigo Liceu Dom João III, hoje Escola Secundária José Falcão. Foto: © CEIS20 / Universidade de Coimbra (2023) (com a devida vénia; reeditada pelo Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, 2026)
1. A melhor homenagem que podemos fazer a um amigo e camarada que acaba de partir da Terra da Alegria para a "derradeira viagem", sem retorno, é lembrar o bem que fez aos outros, as histórias que nos deixou, as memórias partilhadas... Neste caso, falamos do Rui Felício (1944-2026) que, ao longo da vida, e mesmo longe da sua terra natal, sempre cultivou um genuíno espírito coimbrão.
Sabemos pouco da sua vida, só estivemos juntos uma vez, na Ameira, Montemor-O-Novo (em 14/10/2006, por ocasião do I Encontro Nacional da Tabanca Grande, organizado pelo Paulo Raposo e pelo Carlos Marques Santos, também ele coimbrão tal como o Felício e o David).
Acompanhávamos com irregularidade a sua página do Facebook e editámos uma boa dúzia de "Histórias de Dulombi", a sua série no nosso blogue, onde tem mais de 4 dezenas de referências.
É também o autor do blogue Escrito e lido: episódios que são sementes de vida , que ele manteve entre 2010 e 2014 (c. de 90 postagens).
O Rui Felício fazia parte da Associação dos Antigos Alunos, Professores e Funcionários do Liceu D. João III / Escola Secundária José Falcão, que tem uma página de grupo no Facebook, com mais de 880 membros, e é administrada pelo Mário Araújo Torres (antigo juiz do Tribunal Constitucional) (fez o serviço militar em Angola, 1972/74).
Julgamos que teve uma infância feliz no Bairro Norton de Matos, em Coimbra (*). Estudou na universidade da sua terra onde fez direito. E julgamos também que foi advogado toda a vida, e nomeadamente, na Ericeira, Mafra.
Durante o serviço obrigatório, calhou-lhe na rifa a Guiné onde foi oficial miliciano, na CCAÇ 2405 (Galomaro e Dulombi, 1968/70).
Foi um dos sobreviventes do desastre de Cheche em 6/2/1969. Aprendeu a sorrir com meia-cara, como muitos de nós, tendo passado mais de 1/3 da sua vida sob o regime do Estado Novo.
A história, pícara, que, em sua homenagem, aqui reproduzimos, diz-nos muito sobre o que eram os professores e os liceus daquela época. Havia os "cromos", como o Fígaro, que hoje são objeto do nosso ridículo, mas também havia outros professores que nos marcaram para a vida, alguns grandes figuras como portugueses, cidadãos, pedagogos, escritores... Seria injusto referir uns e omitir outros...
Pela foto de grupo que publicamos a seguir, vemos que andaram juntos no liceu, o Rui Felício (1944-2026) e o Victor David (1944-2024), ambos alf mil at inf, CCVAÇ 2405 (1968/7'0) e nossos grão-tabanqueiros.


Coimbra > Liceu D. João III > Turma A do 6.º Ano (1960/ 61). Legenda:
1 - Albino Esteves | 2 - Júlio Maia | 3 - Tomás Porto 4 - Gil Ferreira | 5 - Rui Martins Borges | 6 - Costa Gírio | 7 - Paulo Xavier | 8 - Sá Cunha | 9 - Pinto Fortes | 10 - Rui Felício |11 - António Cardoso Bernardino | 12 - Vasconcelos Coelho | 13 - Duarte Santos | 14 - Acácio Resende | 15 - Deniz Duarte | 16 - António Horta Pinto | 17 - Castel-Branco Sacramento | 18 - Manolo Mattos-Chaves | 19 - Cruz Almeida | 20 - Cruz Gonçalves | 21 - Veloso e Brito | 22 - Alexandre Gaspar | 23 - Vítor David | 24 - Mário Torres.
O circunspecto Fígaro era um férreo disciplinador. Nas suas aulas de Ciências Naturais, tornava-se impensável um sorriso, uma distracção, um movimento mais brusco ou irrequieto.
Ao mínimo sinal de indisciplina, o Fígaro anotava no seu caderninho o nome do aluno prevaricador e era certo e sabido que na atribuição da nota final isso ia ser tido em conta.
Naquele dia, um dos alunos tinha faltado para ir ao funeral de um seu tio e o Fígaro aproveitou a circunstância para dar uma lição sobre a morte dos seres vivos e ensinar aos alunos o que é um defunto, o que é um cadáver.
Calvo, as bochechas arrocheadas, a barriga proeminente, empacotado no velho e coçado fato de tecido da Covilhã, caminhava lentamente no estrado de um lado para o outro, como que a preparar mentalmente a lição.
De pé, fixa os pequenos olhos na turma e começa:
E , com a decomposição do corpo, geram-se infecções que podem contaminar aqueles que ainda estão vivos.
Por isso, enquanto não se fizer o enterro do cadáver, deve arejar-se o local onde se encontra e deixar as janelas abertas, para prevenir a propagação de infeções."
O Fígaro reparou que, estranhamente, sobre um tema tão mórbido, os alunos não conseguiam conter o riso e só não desatavam às gargalhadas certamente pelo medo do castigo que sofreriam pela indisciplina.
− Então, meninos? Porque se estão a rir?
E, de dedo em riste para o Teixeira da Silva, da fila da frente, vociferou:
− Explica lá tu o que se passa!
O Teixeira da Silva, chefe de turma, engasgou-se e tartamudeou:
− Eu penso que será por o Sr. Dr. estar a arejar algum órgão defunto, porque tem a braguilha aberta...
(*) Vd. poste de 8 de fevereiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26473: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (34): O amola-tesouras (Rui Felício, nado e criado no Bairro Norton de Matos, em Coimbra)
(**) Último poste da série > 15 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27425: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (37): o Petromax de 500 CP/Velas
Fonte: Página do Facebook de Mário Torres | 26 de fevereiro de 2026, 15:31
Cromos do Liceu D. João III: o Fígaro
O circunspecto Fígaro era um férreo disciplinador. Nas suas aulas de Ciências Naturais, tornava-se impensável um sorriso, uma distracção, um movimento mais brusco ou irrequieto.
Ao mínimo sinal de indisciplina, o Fígaro anotava no seu caderninho o nome do aluno prevaricador e era certo e sabido que na atribuição da nota final isso ia ser tido em conta.
Naquele dia, um dos alunos tinha faltado para ir ao funeral de um seu tio e o Fígaro aproveitou a circunstância para dar uma lição sobre a morte dos seres vivos e ensinar aos alunos o que é um defunto, o que é um cadáver.
Calvo, as bochechas arrocheadas, a barriga proeminente, empacotado no velho e coçado fato de tecido da Covilhã, caminhava lentamente no estrado de um lado para o outro, como que a preparar mentalmente a lição.
De pé, fixa os pequenos olhos na turma e começa:
"Quando um orgão do corpo humano deixa de funcionar, diz-se que esse órgão morre.
O corpo humano é formado por um conjunto de órgãos e quando eles cessam o seu funcionamento, a vida acaba e sobrevém a morte.
Com a morte o corpo transforma-se em cadáver e começa a decompor-se. O homem transforma-se assim em defunto.
E , com a decomposição do corpo, geram-se infecções que podem contaminar aqueles que ainda estão vivos.
Por isso, enquanto não se fizer o enterro do cadáver, deve arejar-se o local onde se encontra e deixar as janelas abertas, para prevenir a propagação de infeções."
O Fígaro reparou que, estranhamente, sobre um tema tão mórbido, os alunos não conseguiam conter o riso e só não desatavam às gargalhadas certamente pelo medo do castigo que sofreriam pela indisciplina.
− Então, meninos? Porque se estão a rir?
E, de dedo em riste para o Teixeira da Silva, da fila da frente, vociferou:
− Explica lá tu o que se passa!
O Teixeira da Silva, chefe de turma, engasgou-se e tartamudeou:
− Eu penso que será por o Sr. Dr. estar a arejar algum órgão defunto, porque tem a braguilha aberta...
Rui Felicio (**)
(Revisão / fixação de texto: LG)
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Notas do editor LG:
(**) Último poste da série > 15 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27425: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (37): o Petromax de 500 CP/Velas

3 comentários:
Uma história pícara, de antologia!
O humor sempre foi um arma contra os pequenos e os grandes poderes.
E afinal não é preciso dizer palavrões para provocar o riso!
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