Mostrar mensagens com a etiqueta Tala Djaló. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Tala Djaló. Mostrar todas as mensagens

domingo, 4 de setembro de 2022

Guiné 61/74 - P23586 Os nossos camaradas guineenses (47): Tala Biu Djaló, ex-alf 2ª linha, cmdt Pelotão de Milícias (Bedanda, 1965/69), e ex-fur graduado 'comando, 1ª CCmds Africanos (Fá Mandinga, 1969/70), desaparecido em Conacri, em 22/11/1970, no decurso da Op Mar Verde (Hugo Moura Ferreira, ex-alf mil, CCAÇ 1621, Cufar, e CCAÇ 6, Bednda, 1966/68)




Tala Biu Djaló, ex-fur graduado 'comando', 1ª Companhia de Comandos Africanos. Pertencia ao Gr Com do alf graduado 'comando' João Benjamim Lopes, que ficou retido em Conacri, em 22 de novembro de 1970, no decurso da Op Mar Verde. Terá sido depois fuzilado, juntamente com todo o grupo.

Originalmente, o Tala Dajló era alf de 2ª linha, comandante do Pelotão de Milícias, de Bedanda, ao tempo do último comandante da 4ª CCAÇ e primeiro da CCAÇ 6,  cap inf Aurélio  TRindade (Bedanda, 1965/67).

Fotos ( e legendas): © Hugo Moura Ferreira (2022). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Hugo Moura Ferreira
1. Mensagem de 30/8/2022, 0h56, do veterano da Tabanca Grande, Hugo Moura Ferreira, ex-alf mil inf, CCAÇ 1621, Cufar, e CCAÇ 6, Bedanda, 1966/1968)
 
Verifiquei que, no poste colocado em 29Ag22 (Guiné 61/74 - P23565) (*), dás como em falta uma imagem do meu saudoso amigo Tala Biu Djaló. Sendo assim, aqui te envio uma imagem dele.

Abraço e dispõe para aquilo que aches que eu possa ser útil. Hugo Moura Ferreira (**)
___________

Notas do editor:

(*) Vd. poste de:


segunda-feira, 29 de agosto de 2022

Guiné 61/74 - P23565: Notas de leitura (1481): "Panteras à solta", de Manuel Andrezo (pseudónimo literário do ten gen ref Aurélio Manuel Trindade): o diário de bordo do último comandante da 4ª CCAÇ e primeiro comandante da CCAÇ 6 (Bedanda, 1965/67): aventuras e desventuras do cap Cristo (Luís Graça) - Parte III: O Tala Djaló, cmdt do Pel Mil 143 e depois fur grad 'comando' da 1ª CCmds Africana, que virá a ser fuziladdo em Conacri, na sequência da Op Mar Verde


Cópia (frente) do aerograma  enviado pelo comando africano Tala Djaló, com data de 21 de Outubro de 1970, do SPM  de Fá Mandinga (Zona Leste, Sector L1, Bambadinca) , onde estava colocada a sua Companhia de Comandos Africanos, à ordem do Com-Chefe, a um mês da sua trágica partida para Conacri (Op Mar Verde)

Foto: © Hugo Moura Ferreira (2006).Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

    

Imagem da  contracapa do livro "Panteras à solta: No sul da Guiné uma companhia de tropas nativas defende a soberania de Portugal", de Manuel Andrezo, edição de autor, s/l, s/d [c.2010/ 2020] , 445 pp. , il. [ Manuel Andrezo é o pseudónimo literário do ten gen ref Aurélio Manuel Trindade, ex-cap inf, CCAÇ 6, Bedanda, 1965/67. ]


1. Em tempos, há muito tempo, há 16 anos (!), o Hugo Moura Ferreira (ex-alf mil inf, CCAÇ 1621, Cufar, e CCAÇ 6, 1966/1968)  mandou-cópia de um aerograma de um seu antigo soldado da CCAÇ 6. (*)

O seu autor era o Tala Djaló, furriel graduado 'comando', da 1ª Companhia de Comandos Africanos, oriundo da CCAÇ 6, sediada em Bedanda. Também era conhecido por 
Tala Biú Djaló ou Manuel Talabiu Djaló.  

A missiva foi escrita um mês antes da Op Mar Verde (invasão de Conacri, em 22 de novembro de 1970), onde o Tala Djaló foi dado como "desaparecido em combate") (**). Fazia parte do grupo de combate do tenente graduado 'comando' João Januário Lopes que, com os seus vinte homens, tinha por objectivo a destruição dos MiG, no aeroporo de  Conacri, mas que acabou por não cumprir a missão, tendo sido preso, interrogado e, mais tarde, fuzilado, juntamente com os restantes comandos.

Infelizmente, não temos nenhuma foto do Tala Djaló, mas temos do nosso camarada Hugo Moura Ferreira, um dos históricos do nosso blogue  (foto à direita ) (***)

O Hugo Moura Ferreira escreveu aqui no blogue:

(...) Embora sabendo, de forma oficiosa, da morte do Tala, em combate, na Operação Mar Verde, em Conakry, nunca consegui encontrar o nome dele referênciado nas listagens até hoje publicadas, nem no Monumento do Bom Sucesso.

Perante tal, resolvi pesquisar e desloquei-me ao Arquivo Geral do Exército onde localizei a ficha dele como Alferes do Pelotão de Milícia 143, junto da minha CCAÇç 6, que terminava com a indicação de um ferimento em combate em 1967 e a transferência para a 1ª Companhia de Comandos Africanos. (...)

Na altura, chamámos a atenção para a importância que se revestia, para o nosso blogue e para a memória da guerra da Guiné (1971/74), a publicação deste tipo de documentos (caso das cartas e dos aerogramas), para se poder  conhecer e perceber melhor a mentalidade dos nossos camaradas guineenses que combateram o PAIGC sob a bandeira portuguesa, e que,  depois da independência pagaram caro (muitos deles, com a discriminação, a 
perseguição, a prisão, a tortura e a morte) a sua condição de "cães dos colonialistas"... 

Reportando-nos ao teor do aerograma, repare-se como o Tala Djaló (presumivelmente fula ou futa-fula), descreve a entrada da CCAÇ 6 na base de Lanchandé, a sul de Bedanda, em perseguição a um grupo que havia atacado o aquartelamento das NT. Para ele, "turra" era sinónimo de "balanta" e a guerra que então se travou tinha também muitos contornos de guerra tribal ou interétnica... 

Em termos secos e simples, diz ele que o pessoal do PAIGC  de Lanchandé (e não havia distinção entre combatentes e população,  armada ou desarmada)  fora apanhado a dormir: 11 foram mortos, à queima-roupa, e 4 foram capturados... Esta era  a "cultura do ronco", em pleno consulado spinolista: apesar da "psico", a guerra continuou implacável...

Na devida altura também agradecemos,  ao Hugo Moura Ferreira, esta prciosidade, que foi o último aerograma do Tala Djaló,  destacando a sua sensibilidade e e sua cultura, ao ter sabido conservar em arquivo "este singelo aerograma que o teu amigo Dajló te enviou para Portugal" em 1970.

O Tala Djaló era, em 1965/67, ao tempo do cap inf Aurélio Manuel Trindade, o comandante da 4ª CCAÇ / CCAÇ 6, o chefe do pelotão de mílicias de Bedanda, o Pel Mil 143.  Não sabíamos era que, em 1967, tinha sido ferido em combate,  e ingressado depois na 1ª CCmds Africanos, cuja instrução e formação se realizou em Fá Mandinga, a escassos quilómetros de Bambadinca, sector L1, ou seja no meu tempo (CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71), na altura em que o nosso saudoso Jorge Cabral era o cmdt do Pel Caç Nat 63, aquartelada em Fá Mandinga.

2. Transcrição, revisão  e fixação do texto por L.G., com respeito pelo original (que, além de erros ortográficos, não trazia praticamente nenhuma pontuação).

Fá Mandinga [.] 22/10/70

Caro amigo Moura F[er]reira

Recebi a sua carta na qual fiquei muito contente contigo.

Amigo Moura [:] Eu ainda não esqueço de ti [.] Aquela revista que tu me mandou eu já mostrei aos meus colegas [.] Todo ficamos muito contente e toda a companhia por saber da sua [?][.]

Eu já lhe mostrou a revista [.] Eu quero que tu me manda uma fotografia sua que [é] para eu a mostrar meus colegas todo [.] Já te conheço pela carta e falta pela cara [.] Eu agradeço-te me mandar uma fotografia sua bem tirada [.]
Olha [,] a nossa antiga companhia CC[AÇ] 6 fizeram ronco no [?] tempo os turras venha atacar Bedanda.

Depois quando [a]tacaram[,] retiraram no Lanxandé e depois do ataque o capitão mandou logo sair a companhia atrás dos turras [.] Quando chegaram a companhia no Lanxandé [,] alguns dos turras estavam a dormir e logo chegou a companhia e cercaram a tabanca em toda a volta[.] Depois [entraram] nas casas dos Balanta [.] Na dentros das casa encontra[vam]-se lá alguns a dormir e logo é só chegar[.] 1ª coisa é [a]panhar ainda armas e, logo a seguir [,] é que se cerca os turras nas cama [.] 

Resultado [:] foi assim 11 mortos, 4 capturados, 14 armas [a]panhadas e muitas coisas [a]panhadas [.] Os comandantes daquele grupo foi [a]pnhado e 2º chefe dele também foi [a]apanhado[.] Mais 2 soldados dos turra também foi [a]panhado [.] 

Amigo Moura Ferreira [,] a companhia de Bedanda continou [a] ser valente no mato [.]

Toda a sua família cumprimento e teu irmão [.] E eu quero que tu me [ar]ranja um boné de sargento mas não é [a]quele branco, é[a]quele da farda nº 2 [.] É que eu quero que [ar]ranja nada mais [,] amigo.

Remetente: Manuel Talabiu Djaló, Furriel , SPM 0798.

Destinatário: Hugo Fernando de Moura Ferreira, Stº António, Costa da Caparica


3. O que é o cap inf Aurélio Manuel Trindade, comandante em 1965/67 da 4ª CCAÇ  / CCAÇ 6 (e hoje ten gen ref)  escreveu sobre o Tala, no livro "Panteras à Solta" (ed. de autoor, s/l, s/d, c, 2010/2020) (***) ? Aqui fica mais uma nota de leitura (****):

 O então alferes de 2ª linha, comandante do Pelotão de Milicias (nº 143, acrescenta o Hugo Moura Ferreira) é sempre referido simplesmente por"Tala", sem apelido (Djaló ou Jaló). Mas não temos dúvida de que se trata do mesmo indivíduo. 

Mas em julho de 1965, quando o cap Cristo  ("alter ego" do autor) chega a Bedanda, em julho de 1965,  o comandante do pelotão de milícias era um tal Amadeu, "um fula sabido (...) e com fama de ser grande vigarista, usando e abusando da sua posição  para conseguir vantagens materiais e não só. Não é um elemento muito querido dos militares,  nem da população da tabanca, nem sequer dos próprios milícias que comanda" (pág. 21).  

O capitão Cristo  não tinha consideração pela milícia de Bedanda: na frente do régulo, Samba Baldé, chamava-lhes "militares de meia tigela" (pág. 86). E quando decide fazer a sua "reforma agrária" em Bedanda, chama o Amadeu e o Tala e os demais milícias. Quer pôr toda a gente a trabalhar a bolanha: 

"O Tala, o Amadeu e os sargentos vão dar o exemplo. Dispenso o pelotão de milícias de ir para o mato desde   que todos estejam a trabalhar na bolanha. (...) Daqui a quatro meses, os que não tiverem bolanha deixam de ser milícias, eu não pago a malandros" (pp. 87/88)... 

E a verdade é que o cap Cristo conseguiu pôr os "malandros" a lavrar arroz na bolanha e cultivar a mancarra junto ao arame farpado, no exterior da tabanca,,,  E a reconstruir as moranças da tabanca bem como a estrada para o porto exterior (que ficava a 4 km de Bedanda). 

Não sabemos exatamente quando é que o Tala passou a comandar o pelotão de milícias nº 143, talvez por volta de finais de 1965.  Mas na verdade é sempre ele que vai para o mato, em reforço da companhia, quando há operações como, por exemplo, a fracassada tentativa de reabertura do itinerário Catió-Bedanda (pp. 148-165). Ou a ida a Salancaur, já no corredor de Guileje (pp.229-247). Ou ainda a "batalha de Nhai" (pp. 248-265). 

Portanto, Tala é o seu homem de confiança no pelotão de milicias. Quando sai para o mato, leva duas secções, vinte homens. Nunca mais se ouve falar do Amadeu, a não ser na pág. 369, a propósito dos roubos às "mulheres do mato" que vinham a  Bendanda vender os seus produtos e reabastecer-se de outros (em geral, cana e tabaco).  Já o cap Cristo tinha gozado a sua segunda licença de férias (portanto isto deve-se ter passado já em 1967), qundo um dos seus  alferes milicianos, feito com um comerciante local, roubou arroz às mulheres do mato. Foi exemplarmente punido com 3 dias de prisão simples, expulso da companhia e transferido para Catió. 

(...) "Foi a segunda vez que o capitão teve conhecimento de roubos às mulheres do mato. A primeira vez, foi o Amadeu, alferes de segunda linha, ao tempo comandante do pelotão de milícias. Esse nativo, distinguido com o posto de alferes, teve a ousadia de assaltar várias vezes as mulheres do mato quando regressavam depois de venderem o arroz. Roubava-lhes a cana, o tabaco e o dinheiro, e ainda as violava. Depois mandava-as seguir para o mato. Logo que o captão soube disto, tirou-lhe o comando e entregou-o ao Tala, que estava graduado em aspirante. O capitão exigia que as mulheres do mato fossem resepitadas quando vinham à povoação e não admitia nenhum abuso por parte dos militares ou dos milícias, pois têm todos e em todos os momentos de servir de exemplo para a população civil" (pág. 369).

A confiança no Tala não impede o capitão de ser duro com ele, qundo o comportamento dos seus milícias o põe furioso (vd. "O reino do Nino", uma ida a Cobolol, pp. 396-409). A operação correu bem mas os milícias do Tala ter-se-ão "acorbardado" quando, de surpresa, são confronados com um grupo de guerrilheiros, alguns dos quais poderiam ter sido "apanhados à mão"...  Eles pensavam que os milícias eram  o grupo de "reforço  que esperavam"... A milícia, em vez de responder  que sim e avnçançr   sem medo,  soube o que dizer e fazer, instalando-se o tiroteio... 

Reproduz-se aqui a "piçada" que o cap Cristo deu ao Tala, no regresso ao quartel:

(...) "Repara, Tala, como eu tenho razão. Se em vez de um pelotão de milícia eu levasse um pelotão de soldados à frente,. tínhamos agrardo os gajos à mão. Bastava que dissesem que sim, somos o reforço. Quando eles dessem conta, já tinham levado a maior surra da vida deles. Continuo a pensar que as milícias nunca mais vão à frente da coluna. Podes ir, até logo" (pág. 409)...

Entrento, algun tempo depois, finda comissão em julho de 1967, o capitão Cristo diz adeus a Bedanda e despede-se, emocionado,  com um almoço na casa do Zé Saldanha, o comerciante mais antigo da localidade, e com um discurso do anfitrião que merece ser reproduzido aqui, noutra oportunidade (pp. 413-419).

(Continua)
__________

Notas de L.G.


(...) Naturalmente que, como todos aqueles que por ali passaram (pelo menos grande parte deles), fiquei "apanhado" e tenho uma certa "paranóia" por aquelas terras e aquelas gentes. Digo mesmo que, se é que existe vida para além da morte, certamente em outra encarnação terei sido africano e guineense, pois que, tendo vivido também alguns anos em Angola, as saudades daquele pequeno país são muito maiores.(...) 

(****) Vd. postes de:


25 de agosto de 2022 > Guiné 61/74 - P23553: Notas de leitura (1478): "Panteras à solta", de Manuel Andrezo (pseudónimo literário do ten gen ref Aurélio Manuel Trindade): o diário de bordo do último comandante da 4ª CCAÇ e primeiro comandante da CCAÇ 6 (Bedanda, 1965/67): aventuras e desventuras do cap Cristo (Luís Graça) - Parte I: "Os alferes não gostaram do novo capitão. Acharam-no com cara de poucos amigos."

26 de agosto de 2022 > Guiné 61/74 - P23559: Notas de leitura (1480): "Panteras à solta", de Manuel Andrezo (pseudónimo literário do ten gen ref Aurélio Manuel Trindade): o diário de bordo do último comandante da 4ª CCAÇ e primeiro comandante da CCAÇ 6 (Bedanda, 1965/67): aventuras e desventuras do cap Cristo (Luís Graça) - Parte II: "Homem gosta de ter mulher na cama, quando vem da guerra", lembra a "Tia", a mulher grande...

terça-feira, 6 de junho de 2006

Guiné 63/74 - P850: Os roncos da CCAÇ 6 em Lanchandé, em aerograma de 22/10/1970, do furriel graduado 'comando' da 1ª CCmds Africanos, antigo cmdt do Pelotão de Milícia de Bedanda, Tala Djaló (Hugo Moutra Ferreira, ex-alf mil, CCAÇ 1621,Cufar, e CCAÇ6, Bedanda, 1966/1968)

 1. O Hugo Moura Ferreira (ex-alferes miliciano de infantaria, CCAÇ 1621 e CCAÇ 6, Bedanda e Cufar, 1966/1968) (1) mandou-cópia de um aerograma de um seu antigo soldado.

O seu autor foi o Tala Djaló, furriel graduado 'comando', da 1ª Companhia de Comandos Africanos, oriundo da CCAÇ 6, sediada em Bedanda. A missiva foi escrita um mês antes da Op Mar Verde (invasão de Conacri, em 22 de novembro de 1970), onde o Djaló foi dado como "desaparecido em combate") (2).

A publicação deste tipo de documentos é muito importante para se conhecer e perceber melhor a mentalidade dos africanos que combatiam o PAIGC sob a nossa bandeira. 

Repare-se como o Djaló, fula ou futa-fula, descreve a entrada da CCAÇ 6 na base de Lanchandé, a sul de Bedanda, em perseguição a um grupo que havia atacado o aquartelamento das NT. Os turras são sinónimo de balantas... Foram apanhados a dormir: 11 foram mortos, à queima-roupa, desarmados (presume-se!), 4 foram capturados... Era a cultura do ronco, em pleno consulado spinolista...

Obrigado ao Hugo Moura Ferreira, pela tua sensibilidade e cultura, por teres sabido conservar em arquivo este singelo aerograma que o teu amigo Dajló te enviou para Portugal há 35 anos !!!...







2. Transcrição, revisão  e fixação do texto por L.G., com respeito pelo original (que, além de erros ortográficos, não trazia praticamente nenhuma pontuação).


Fá Mandinga [.] 22/10/70

Caro amigo Moura F[er]reira

Recebi a sua carta na qual fiquei muito contente contigo.

Amigo Moura [.] Eu ainda não esqueço de ti [.] Aquela revista que tu me mandou eu já mostrei aos meus colegas [.] Todo ficamos muito contente e toda a companhia por saber da sua [?][.]

Eu já lhe mostrou a revista [.] Eu quero que tu me manda uma fotografia sua que [é] para eu a mostrar meus colegas todo [.] Já te conheço pela carta e falta pela cara [.] Eu agradeço-te me mandar uma fotografia sua bem tirada [.]
Olha [,] a nossa antiga companhia CC[AÇ] 6 fizeram ronco no [?] tempo os turras venha atacar Bedanda.

(2) Depois quando [a]tacaram[,] retiraram no Lanxandé e depois do ataque o capitão mandou logo sair a companhia atrás dos turras [.] Quando chegaram a companhia no Lanxandé [,] alguns dos turras estavam a dormir e logo chegou a companhia e cercaram a tabanca

(3) em toda a volta[.] Depois [entraram] nas casas dos Balanta [.] Na dentros das casa encontra[vam]-se lá alguns a dormir e logo é só chegar[.] 1ª coisa é [a]panhar ainda armas e, logo a seguir [,] é que se cerca os turras nas cama [.] Resultado [:] foi assim 11 mortos, 4 capturados, 14 armas [a]panhadas

(4) e muitas coisas [a]panhadas [.] Os comandantes daquele grupo foi [a]pnhado e 2ºchefe dele também foi [.] a]apanhado[.] Mais 2 soldados dos turra também foi [a]panhado [.] Amigo Moura Ferreira [,] a companhia de Bedanda continou [a] ser valente no mato [.]

(5) Toda a sua família cumprimento e teu irmão [.] E eu quero que tu me [ar]ranja um boné de sargento mas não é [a]quele branco e [a]quele da farda nº 2 [.] É que eu quero que [ar]ranja nada mais [,] amigo.

Remetente: Manuel Talabiu Djaló, Furriel , SPM 0798.

Destinatário: Hugo Fernando de Moura Ferreira, Stº António, Costa da Caparica

____________

Notas de L.G.

(1) Vd. post de 22 de Dezembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCCXCV: CCAÇ 16121 (Cufar); CCAÇ 6 (Bedanda) (1966/68)

2) Vd. post de 1 de Junho de 2006 > Guiné 63/74 - P827: 'Retido pelo IN': o caso do meu amigo Tala Djaló (Hugo Moura Ferreira)

quinta-feira, 1 de junho de 2006

Guiné 63/74 - P828: 'Retido pelo IN': o caso do meu amigo Tala Djaló, ex-fur grad 'comando' da 1º CCmds Africanos, desaparecido em Conacri, no decurso da Op Mar Verde, em 22/11/1970 (Hugo Moura Ferreira, ex-alf mil 1621, Cufar, e CCAÇ 6, Bedanda, 1966/77))




Cópia do aerograma (frente) enviado pelo comando africano Tala Djaló, com data de 21 de Outubro de 1970, enviada de Fá Mandinga (Zona Leste, Sector L1, Bambadinca) , onde estava colocada a sua Companhia de Comandos Africanos, à ordem do Com-Chefe, a um mês da sua trágica partida para Conacri.

Foto: © Hugo Moura Ferreira (2006).
Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Luis:

Tal como me pediste para te informar quando soubesse algo do meu amigo Tala, depois de ter pedido ajuda ao nosso amigo tertuliano, José Carlos Mussá Biai, de que não recebi feedback (1), junto estou a enviar-te, em anexo Um desabafo.

Abraço.

Hugo Moura Ferreira
____________________

Luís:

Estou triste… Deixa-me desabafar…

Vou fazê-lo ao correr da pena sem rever para que o que aqui te vou contar se apresente como a forma mais pura do meu sentir.

Recordas-te de uma mensagem que enviei, de que te dei conhecimento, a solicitar ajudas no sentido de tentar encontrar o meu amigo Furriel Graduado Comando Tala Biu Djaló?

Pois o facto é que o encontrei.Mas parece-me que estou a viver um daqueles filmes que retratam os problemas entre as famílias dos desaparecidos na 2ª Guerra Mundial em que as viúvas (?) casavam, tinham filhos e mais tarde os maridos, dados como mortos, por desaparecidos em combate, apareciam.

Quem me dera que este fosse um filme e que, como tal, acabasse com um final feliz com o aparecimento do Tala. Mas eu sei que não vai ser assim! Isso dá-me uma tristeza tamanha e ainda mais quando sei, embora de forma oficiosa, e o compreenda, o seu nome, tal como o de outros nunca irá aparecer nas nossas listas de mortos nas Campanhas de África.

Pois ele faz parte de uma lista de mais de uma vintena (ele é o 3º) de militares da 1ª Companhia de Comandos Afriacanos que ficaram em Conacri, na Operação Mar Verde, que tem como titulo "Retidos pelo Inimigo".

Ao falar com quem está envolvido nesta operação de registo histórico, foi-me afirmado que, como os vários Governos, desde essa época até hoje, não podem (esta é a palavra exacta, dado que à face do Direito Internacional poder-nos-ia ainda hoje obrigar a pagar indemnizações elevadíssimas a um país estrangeiro – foi esta a explicação) assumir oficialmente o episódio. Como tal não poderemos envolver, nem sequer a diplomacia para saber de forma oficial o que aconteceu àqueles militares que todos nós sabemos foram fuzilados logo a seguir ao fiasco da Operação ou morreram durante a mesma, mas cujos corpos não atravessaram a fronteira.

Durante a conversa falaram-me de um Alferes Comando europeu, que teria sido morto em combate e que tinha ficado no terreno, mas que o pessoal voltou a trás para o ir buscar e que passou a fronteira às costas dos camaradas.

Perante esta situação de "Retidos pelo Inimigo", apenas me interrogo o porquê desta situação, que certamente será comum aos diversos teatros de operações, não fazer parte das listagens de baixas que tivemos com as nossas campanhas em África.

Poderia eventualmente ser uma listagem paralela às dos mortos em combate, em que constassem os "Desaparecidos e os Retidos”. Gostaria de ver essa lista publicada oficial ou oficiosamente, nem que fosse no nosso Blogue-fora-nada.

Realmente eu entendo que não podem ser dados como mortos porque o podem não estar. Conta-se nos vários departamentos por onde passei a ocorrência de um determinado militar de uma das Companhais de Comandos Africanos ter sido dado como morto e, quando da entrada em vigor da Lei 9, apareceu um requerimento de contagem de serviço para efeitos de aposentação, do referido militar que se veio a constatar que era vivo e residia em Portugal.

Bom, deixa-me viver a recordação do Tala… Para isso vou juntar, a título de curiosidade, a reprodução do último aerograma que o Tala me mandou e que periodicamente dou por mim a lê-lo.

Um abraço.

Hugo Moura Ferreira


PS – Estou a enviar-te isto desta forma para que faças uso dela da maneira que melhor entenderes. Era minha ideia, quando comecei, apenas desabafar, sabendo que tu compreenderias, mas se entenderes publicar alguma parte, já que não referencio ninguém, nem nenhum serviço, em especial, não haverá qualquer problema.

Gostaria, no entanto, de alvitrar que, como nós gostamos da Guiné, também de alguma forma seria interessante fazer referência aos que morreram do outro lado. Seria talvez o mínimo que nós, no Blogue-fora-nada, poderíamos fazer. Aliás seguindo a ideia que está expressa no ponto (vi) das Regras da Tertúlia dos Amigos e Camaradas da Guiné: "respeito pelo inimigo de ontem (que, sempre o disse pela boca do seu líder histórico, nunca lutou contra o povo português, mas contra um regime político)"...

Não haverá ninguém que tenha sido do PAIGC e que queira, sem ressentimentos, entrar neste grupo? Certamente depois viriam mais, pois com toda a certeza veriam que seriam bem recebidos. Estou certo ou não? Se calhar isto é uma ideia utópica... ou talvez não.

_________________

Nota de L.G.:

(1) Cópia da mensagem enviada pelo Hugo Moura Ferreira, em 19 de Maio último, ao José Carmos Mussá Biai, com conhecimento ao editor do blogue:

Assunto - Operação Mar Verde

Caro Eng.

Começo por me apresentar e para tal faço-o da forma mais simples, indicando-lhe o link do nosso Blogue.

Depois desta cómoda apresentação queria, caso lhe seja possível dar-me algumas indicações ou se possivel me indicasse alguns contactos para o fim que tenho como objectivo. Mas passo a explicar-lhe, tentando ser sucinto.

Entretanto, embora leve esta mensagem ao conhecimento do Luís Graça, apenas por questões éticas, já que entendo que, tendo ele tanto trabalho com o Blogue, promovendo também estes contactos e ser justo que saiba o que cada um de nós anda a fazer, gostaria de lhe solicitar que não fosse levado ao conhecimento dos Tertulianos o seu conteúdo, visto que este é apenas mais um passo para eu ver se chego a alguma conclusão do que a seguir vou expor.

Assim, se o verificar no Blogue, eu já fiz algumas referências ao Tala Biú Djaló ou Manuel Talabiu Djaló. Então a questão coloca-se da seguinte forma:

Embora sabendo, de forma oficiosa, da morte do Tala, em combate, na Operação Mar Verde, em Conakry, nunca consegui encontrar o nome dele referênciado nas listagens até hoje publicadas, nem no Monumento do Bom Sucesso.

Perante tal, resolvi pesquisar e desloquei-me ao Arquivo Geral do Exército onde localizei a ficha dele como Alferes do Pelotão de Milícia 143, junto da minha CCAÇç 6, que terminava com a indicação de um ferimento em combate em 1967 e a transferência para a 1ª Companhia de Comandos Africanos.

Confirmo essa transferência porque já ele ali era Furriel, quando me enviou o último aerograma, em 23 de outubro de 1970 (ver anexo). A Operação Mar Verde foi em 22 de novembro de 1970. No entanto, continuando a pesquisa nada mais foi encontrado. Tive inclusivamente na minha presença uma listagem dos militares daquela Companhia , mas na mesma também não constava o seu nome.

Perante esta situação enviaram-me para o CECA (Comissão de Estudos das Campanhas de África), onde são tratadas as listagens relacionadas com estas matérias. Ali ainda não fui definitivamente esclarecido, tendo tal situação sido transferida para a próxima 4ª feira, quando ali voltar, mas foram-me avisando que se calhar haveria dificuldade em saber algo mais do que aquilo que eles já tinham. Vamos a ver.

Então o que me traz até si, muito objectivamente é o seguinte:

- Será que terá contactos com antigos elementos da 1ª CCmds Africanos ?
- Estaria disposto a colocar-me em contacto com esses elementos?
- Poderia dar-me alguma opinião acerca de outra forma de eu encontrar a memória deste meu amigo?

Desculpe trazer-lhe esta questão mas como verifiquei que o meu caro amigo está bem relacionado e é guineense, talvez possa proporcionar-me alguma ideia ou hipótese para eu, de forma oficiosa, me apresentar junto das entidades oficiais com elementos objectivos que possam, no caso do Tala que chegou a visitar Portugal, com o prémio Governador da Guiné, ser feita a justiça de o integrar nas listas dos que morreram, como neste caso, por algo em que acreditavam.

Ainda tenho presente, como se fosse hoje, a resposta que me deu quando eu lhe disse, referindo-me ao risco que ele corria com tantos anos de actividade operacional, que o "Cântaro tantas vezes vai à fonte que um dia quebra-se". Então disse ele, "Pois mas eu tenho que o fazer. Se eu vou ser o próximo Régulo do Cantanhez, os outros vêm-me perguntar: Então tu é que és o Régulo e nós é que andamos a defender aquilo que depois vai ser teu?".

Afinal, tinha dito que seria sucinto, mas parece que não o fui. Como tal, vou terminar aqui e agradecer-lhe antecipadamente qualquer ajuda que me possa prestar... E ao Tala, naturalmente.

E caso vá até ao Bom Sucesso no 10 de Junho... Quem sabe se não nos encontraremos. Eu não falho!

Cumprimentos.
Hugo Moura Ferreira