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terça-feira, 8 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28330: III Viagem a Timor-Leste : 2019 (Rui Chamusco, ASTIL) - Parte XIV: semana de 5 a 11 de maio


Prompt e orientaçáo editorial: Luís Graça
Texto: "Luta de galos, euforia masculina e sofrimento dos animais", 
por Nicodemos do Espírito Santo (Diligente, 13 de outubro de 2023)
Ilustração em estilo banda desenhada
gerada por IA (Gemini / Google) (2026)









Gente linda da ASTIL:

 Da esquerda para a direita:

Rui Chamusco, 
João Crisóstomo 
e Eustáquio (irmão do Gaspar Sobral, e em cuja casa, em Ailok Laran, nos arredores de Díli, o Rui costuma ficar alojado nas suas estadias em Timor-Leste). 


1. Prosseguimos a publicação das crónicas de 2019 (III Viagem a Timor-Leste) do nosso amigo (e membro da Tabanca Grande), Rui Chamusco, professor de música reformado, natural da Malcata, Sabugal, a viver na Lourinhã.

Vai a Timor Leste todos os anos desde 2016 (exceto na pandemia, 2020, 21 e 22). Ele é um exemplo vivo do que é a solidariedade e o amor à lusofonia. Ele e a associação que ajudou a fundar (a ASTIL).

Essa história de dedicação às crianças das montanhas de Liquiçá (onde está funcionar, em Manatti / Boebau, a Escola de São Francisco de Assis) merece ser conhecido pelos nossos leitores, os amigos e camaradas da Guiné. Bem como outros aspetos da geografia, história e cultura de Timor-Leste, membro da CPLP, que as crónicas do Rui também ajudam a conhecer melhor.

E, a propósito, é bom recordar a efeméride de 11 de setembro de 1945, data em que o Japão se rendeu formalmente, em Timor-Leste, aos Aliados, depois de uma dolorosa ocupação do território desde a madrugada de 19 de fevereiro de 1942 (que terá custado muitas dezenas de milhares de vidas, de timorenses, mas também de portugueses, australianos, holandeses e outros: a estimativa aponta para 40 mil a 70 mil, vítimas diretas e indiretas da guerra, ou seja 10% a 15% da população que lá vivia, estimada em 450 mil no início da década de 1940. Enfim, foi um dos capítulos mais trágicos e esquecidos na na guerra do Pacífico.

Mas mais brutal ainda foi a invasão e a ocupação do território, em 1975-1992, pelos indonésios. Numa população que em 1975 rondava os 650 mil a 680 mil habitantes, a perda de mais de 100 mil a 150 mil vidas entre 1975 e 1992 representou, uma vez mais na história de Timor-Leste, a perda de cerca de 20% da sua população em menos de duas décadas.



III Viagem a Timor-Leste : 2019 (Rui Chamusco, ASTIL) - Parte XIV: semana de 5 a 11  de maio (*)


06.05.2019, segunda feira- “ O gato e o rato ...”


É uma história sobejamente conhecida de todos nós: o gato que persegue o rato...e o rato que se esconde do gato. Um jogo da vida com aplicação em muitas situações reais.

O Amali e a Adobe são os dois irmãos mais novos do casal Aurora e Eustáquio (irmão do Gaspar Sobral, dirigente e cofundador da ASTIL, juntamente com o Rui Chamusco).

Várias vezes ao dia ouvimos os “berros” de um para o outro, as provocações, as corridas de um atrás do outro, o agarra, bate e foge, os choros da Adobe, os risos e as gargalhadas - uma panóplia de gestos e atitudes mais próprias do “ jogo do gato e dorato.” E não venham os “katuas” (os mais velhos)  repreender ou afligir-se com a situação, porque isto é “o pão nosso de cada dia”. Eu até ouso dizer que, dia em que isto não aconteça, algo vai mal cá na casa.

No entanto, a relação de irmãos, incluindo a Eza e o Zinon, é invejável. Faz lembraras famílias mais antigas em que cada irmão mais velho tinha o cuidado dos irmãos mais novos. A fratria está bem guardada. É impossível quebrar esta relação, esta união, este amor em família.

E nós a pensar em tantas crianças que, sendo filhos únicos, estão privados deste amor familiar: os manos. Por mais que nos justifiquemos, nunca saberemos dar o verdadeiro valor a este dom da vida partilhada entre irmãos. Pena é que depois, por imperativo da vida de cada um, a gente se separe. Muitas vezes até separações definitivas, por dá cá aquela palha, por questões de herança, ou por outras coisas inexplicáveis.

Por mim, quero continuar a ouvir esta algazarra, a presenciar este jogo, a ser testemunha desta verdadeira amizade. Adobe e Amali, continuai a brincar como bem sabeis fazer...


07.05.2019, terça feira  - “ As aparências ...iludem. “


Tantas vezes pensamos que a rama viçosa que cobre a sementeira é sinal de abundante colheita, e enganamo-nos. Quando abrimos o rêgo das batatas dsecobrimos que, afinal,nos enganamos. E poucas apanhamos. A ilusão seguida do seu contrário. Tantas vezes pensamos em projetos mirabolantes, capazes de revolucionarem o mundo, e nunca chegamos a vê-los realizados. Tantas vezes construímos “castelos no ar”,  e nunca essas construções foram habitáculos de reis, raínhas ou vassalos.

Vem tudo isto a propósito do que vemos e ouvimos neste recanto do mundo. É frequente encontrarmos crianças e jovens de telemóvel ne mão, servindo-se dele para diversos fins: telefonar, ouvir música, mandar mensagens, etc, como em qualquer parte do mundo. Uma interrogação ressalta logo à nossa mente: então esta gente que dizem ter tantas carências, sobretudo económicas, ostenta e utiliza estes objetos sofisticados tão caros? Donde lhes vem este poder de compra?

Pois é!... Felizmente que também os pobres têm acesso a alguns benefícios dos ricos. Enquanto que os ricos dispendem quatrocentos, quinhentos ou mais euros por um telemóvel, outros mais não gastam que dez a vinte dólares por um aparelho com as mesmas funções. Aqui pouco importa a marca, nem se é de primeira ou segunda mão.

O que interessa é que funcione bem. Graças a acordos bilaterais entre os governos da Coreia do Sul e de Timor-Leste, e porque a maioria destes utilizadores até nem são esquisitos, podem assim usufruir destes bens, destes meios de comunicação.

 A perícia com que eles manejam estes objetos é notável. Fazem inveja a quem, como eu, tem dificuldades em “mexer” em tais artificios, por falta de competência ou por pouca destreza.

Esta gente sabe muito. Nem sempre o “doutor” bem vestido e de pasta na mão sabe mais que um destes jovens ou crianças. Até porque porque parece que os meninos e asmeninas de de hoje já nascem ensinados.

09.05.2019, quinta feira  - Conversa de gagos


Mateus e Alula (Félix) são dois irmãos, os dois gagos, filhos do Álvaro Sobral. Por sinal, os dois são meus conhecidos - são sobrinhos do Gaspar e do Eustáquio - e, de vez em quando, veem visitar-nos a Ailok Laran.

Ontem o Eustáquio fez-nos rir à gargalhada, ao contar o que se passou entre os manos.

O “motor” de família teve um furo no pneu, e entre eles decidiram repará-lo. Já no processo de enchimento, enquanto um segurava a roda o outro dava à bomba. Foi quando o Alula sentiu que estava no ponto, e disse para o Mateus: “Pára!” Só que demorou tanto tempo a dizer “ra” que o mano continuou a dar à bomba até que o pneu rebentou. 

Isto contado por eles até tem mais graça. E fica mais ou menos assim: “pá pá pá pá pá pá pá... e PUM!...” Ou seja, em menos palavras que nós relatam o que aconteceu.

Este episódio faz-me questionar mais uma vez sobre a importância da linguagem não-verbal, ou pelo menos na economia das palavras. Para nós é caricato, faz-nos rir o que só nos faz bem, mas quem é privado ou tem deficiência em articular as palavras lá tem outros meios para se fazer entender. Mais pneu ou menos pneu pouco importa. O mais importante é fazer-se entender, comunicar, seja de que forma for.

Como todos nós sabemos, há uma excelente forma de não gaguejar: falar a cantar. Portanto, se for este o seu caso, cante. Cante porque, quem canta “seu mal espanta”...


09.05.2019 - Língua portuguesa e... religião


Há quem diga que Timor-Leste deve a sua independência à língua portuguesa e à religião. 

Dezasseis anos já passados, e damo-nos conta, aqui no terreno, que a religião (sobretudo a religião católica) continua a exercer a sua influência na mentalidade e modo de ser deste povo. 

O mesmo não direi da língua portuguesa pois, apesar de todos os esforços que se têm feito, não se vêm grandes resultados práticos. O tetum e o bahasa continuam de longe a dominar a língua falada desta gente. E ainda que a maioria dos timorenses manifestem a sua afeição pelo povo e pela língua portuguesa, a verdade é que têm grandes dificuldades em aprender e em falar o nosso idioma.

Dizem que a gramática é muito complicada. É mais fácil aprenderem as línguas mais simples, e que utilizam a mesma palavra e os símbolos para várias situações.

Mas vem isto a propósito de quê? É que, durante este mês de Maio, quase todas as noites ouço cantorias pela noite fora.

Quis saber o que se passava, e alguém me explicou: “ um grupo de pessoas foram pedir autorização ao pároco para irem de casa em casa, à noite, a fim de rezarem o terço.” 

Ora já sabemos que aqui em Timor, e particularmente na região de Dili, qualquer motivo serve para fazer festa pela noite fora, que envolve rezar, cantar, comer e beber, e até jogar as cartas. Do nascer ao morrer, vários são os momentos festivos. Parece-me que só o ato de nascer não é festejado tão abundantemente.

Então estão justificadas todas estas interrupções do sono noturno que ao longo da noite vão acontecendo. Às vezes até sabe bem acordar ao som de alegres melodias, normalmente muito bem cantadas porque esta gente tem uma queda natural para a música.

 É muito mais agradável ouvir cantar assim, do que acordar sarapantado pela algazarra dos grupos que, a partir das quatro horas da manhã locais, gritam desalmados quando o seu clube predileto marca golos ou constrói jogadas de perigo.

Estas cantorias noturnas fazem-me lembrar as serenatas ao som do acordeão que, enquanto menino, se faziam ouvir durante a madrugada pelos balcões e ruas da minha aldeia, Malcata. 

Por isso, se a língua portuguesa ou a religião puderem ajudar uma aldeia ou uma nação a crescer e a sermos nós próprios tornando-nos independentes por que não? Quem sabe se assim não seremos mais felizes!...

10.05.2019, sexta feira  - ”Ay flores del...” Aituri!...


Aituri é uma planta que aqui encontramos, a dois ou três metros do aposento onde estou instalado, e que se afirma entre o árvoredo pelas suas flores cor de púrpura com recetáculos e estames esbranquiçados. São de uma beleza invulgar.

A flor de Aituri é comestível em salada, a sós ou acompanhada de temperos. Sabebem ao paladar e à vista, e já não será a primeira vez que aqui a comemos.

Hoje de manhã prontifiquei-me para a apanha destas flores que, juntamente com a Adobe, recolhemos e desfolhamos, pois só as pétalas são comestíveis. A Eza e a mãe Aurora é que as vão preparar para logo ao jantar. Hum!...!...

Este aproveitamento faz-me pensar na mãe natureza, que tudo nos dá e governa. E, já que estamos em Timor Leste, quero recordar que a sobrevivência dos guerrilheiros (Xanana, Matan Ruah e companheiros) na guerra que durante anos travaram contra os invasores indonésios se deveu em grande parte ao conhecimento e utilização dos recursos naturais que a montanha lhes oferecia: raízes, flores e frutos.

Há tempos encontrei e publiquei no facebook uma notícia sobre “43 plantas que podemos utilizar na nossa alimentação.” Claro que haverá muitas mais. Importa por isso conhecê-las bem e, se for o caso, tirar proveito da sua utilização na nossa alimentação, sem ofender ou prejudicar o meio ambiente e agradecendo sempre à mãe natureza.

E já agora, em atalho de foice, congratular-me com o evento que a AMCF (Associação Malcata Com Futuro) irá organizar pela segunda vez em Malcata, no próximo dia 18 sobre “ Flores Comestíveis”.

Saibamos ser gratos à natureza que tanto nos dá.


11.05.2019, sábado  - As mulheres não se medem aos palmos


Pois então!.. A Umbelina. uma moça da montanha, franzina e de baixa estatura, mostrou esta tarde quanto vale. Qual Maria da Fonte, resgatou um senhor galo numabrir e fechar de olhos,

Então foi assim. A meio da tarde ouviu-se um grande burburinho aqui em casa. O Amali e a irmã Eza corriam desalmados pelo caminho que nos leva à mikrolete, ao mesmo tempo que chamavam por alguém. Eu, que estava no quarto e me dei conta do alvoroço, acudi também na intenção de saber o que se passava e de ajudar. 

Foi então que vimos a Umbelina a chegar, toda ofegante, com um lindo galo ao colo, e nos contou o que se tinha passado. Ela regressava da universidade, em mickrolete, e quando desceu avistou um rapaz que triunfante transportava o lindo bicho, roubado há instantes aqui na casa, ninguém sabe como, pois o galo estava preso e havia aqui bastantes pessoas. 

Diz a Umbelina que mal o viu reconheceu logo que era o galo do Painino (Eustáquio). O que disse ao ladrão pouco sabemos. Contou-nos sim o que fez: “dei-lhe um par de chapadas e tirei-lhe o animal.” Toma lá que já as levaste!..

Todos ficamos estupefatos pela coragem da rapariga. Em jeito de graça até diziamos: “a Umbe merece um prémio, pois salvou um atleta...” É que este galo está destinado para a luta de galos, que aqui também se pratica. Até já tem comprador. (**)

E quanto aos perseguidores do larápio,  o que dizer? Não lhe puseram a vista em cima, mas diz o Amali que, pelas características que lho descreveram, sabe quem ele é. Que se cuide!...

(Revisão / fixação de texto, negritos: LG)

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Notas do editor LG:

(*) Ultimo pposte da série > 31 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28308: III Viagem a Timor-Leste : 2019 (Rui Chamusco, ASTIL) - Parte XIII: semana de 28 de abril a 1 de maio

(**) Vd. artigo de Nicodemos do Espírito Santo > Luta de galos, euforia masculina e sofrimento dos animais > Diligente, 13 de Outubro, 2023

Sinopse: Historicamente associada à resolução pacífica de conflitos, a rituais comunitários e à troca de informações durante a resistência, a luta de galos (Manu Futu) em Timor-Leste converteu-se, após a independência, num motor de entretenimento e apostas informais predominantemente masculino. O artigo analisa a transição desta tradição sociocultural para um negócio rentável, sublinhando o impacto da hegemonia patriarcal que afasta as mulheres e a crueldade imposta aos animais perante a ausência de proteção jurídica no país.

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28265: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (16): "o nosso querido mês de agosto" de há 50, 40, 30, 20 anos... no Portugal sacroprofano



O nosso querido mês de Agosto

Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Imagens e texto: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné | Luís Graça (2026)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. O "nosso querido mês de agosto" , em Portugal,  era o tempo das "vacanças" (sobretudo dos luso-franceses). Mas também, "voilá"!,  o mês por excelência das festas e romarias... 

Era (e ainda é?!)...

Há ainda santuários (na sua grande maioria marianos), por toda a parte, no Portugal profundo, "sacroprofano", de Norte a Sul do país, onde se pagavam promessas (sobretudo no tempo da guerra colonial, 1961/74). 

Mas ainda hoje, dizem... (Fátima, à parte, que é sobretudo um fenómeno turísticorreligioso.)

O Portugal do "nosso querido mês de agosto"  era muito interessante,  sociologicamente falando. Pelo menos, mais colorido, mais saboroso, mais "pimba", mais autêntico, quer  dizer, mais nosso, do que é  hoje, vendido a retalho aos multimilionários,  gentrificado, globalizado, igual ao resto da m*rda mundial... 

Para já,  era muito mais do  que a imagem convencional do “mês das férias”, das férias grandes escolares, das praias superlotadas,  do Algarve dos políticos e dos  famosos, das invasões turísticas, e depois também dos desvastadores incêndios à medida que o  interior do  país se despovoava e o eucalipto impunha a sua ditadura económica e ecológica... em nome da indústria do papel-de-limpar-o-cu!

O mês de agosto era, por excelência, a afirmação e a consagração do "Portugal sacroprofano". 

As  romaria portuguesas não eram apenas religião, pura e dura.  Era uma espécie de contrato anual entre a comunidade, o santo ou a santa que a protegia, os vivos do lado de cá e os mortos do lado de lá, Deus e os seus embaixadores na terra, os santos, as santinhas.

Havia fatiotas novas, missa, procissão, andores, anjinhos,  velas, ex-votos e promessas. Muitas notas, sobretudo de escudos e francos (antes do euro, ainda no tempo do escudo) e depois euros,  pregadas com molas ou alfinetes ao manto da santa.

Havia também vinho (muito, e o verdasco  bebia-se em canecas de litro, de porcelana). 

Havia bifanas, farturas,  pão com chouriço, sardinhas assadas, coiratos, frango no espeto,  algodão doce, tremoços e pevides (no Oeste),  concertinas, bailaricos, foguetes, namoros, juras eternas de amor,  reencontros familiares, emigrantes regressados, negócios, noivados, casamentos, beijos roubados.   comércio ambulante, carroséis e carrinhos de choque... E também porrada, de varapau, de criar bicho (como antigamente...). 

Havia, claro, a indispensável fotografia de família (antigamente, quando ninguém ainda tinha máquina fotográfica, muito menos telemóvel). No tempo do fotógrafo ambulante, em que as festas e romarias eram o seu "São Miguel" (isto é, a época em que faturava).

A meteorologia e a agricultura davam uma ajudinha, à festa, à romaria, à santa, ao santo...  As vindimas eram só em setembro, os cereais já estavam colhidos... O corpinho podia folgar. O "emigras" regressavam, a família dispersa reencontrava-se, a aldeia voltava a ter gente (sobretudo nova), antes de desaparecer no futuro próximo que já é presente.

A festa religiosa funcionava, portanto, também como uma espécie de assembleia geral, anual, da aldeia. O Portugal rural disperso recompunha-se por alguns dias, no nosso querido mês de agosto.

E pagavam-se promessas, camaradas!... Algumas antigas, camaradas!... Agora que a família tem carro, em segunda mão, comprado às prestações...

Se há coisa nossa, bem portuguesa, era  a promessa!... A "cunha" metida aos santos e às santas. Que a gente tinha pejo ou vergonha em ir diretamente a Deus, sem intermediários, desbarretados... (Mas, atenção, "quando Deus não quer, os santos não rogam", ou seja, não adianta meter cunhas ao céu...)

Durante a guerra colonial, a promessa ganhou uma dimensão extraordinária. Um mancebo ia às sortes, ficava apurado, "graças a Deus" (sinal de que não era nenhum aleijadinho),  para todo o serviço militar (mesmo que tivesse os pés chatos e fosse lingruinhas, meia-f*da, meia-leca!...), era chamado pela Pátria, para defender o Ultramar, embarcava para Angola, Guiné ou Moçambique... 

E  logo o mulherio (a mãe, a mulher, a namorada, a noiva, as irmãs, até as madrinhas de guerra!.) que ficavam a rezar por ele,  faziam uma promessa: 

"Se o mê Zé vier inteirinho, são e salvo, hei de ir à Senhora...do Castelinho, dos Remédios, da Agonia, do Sameiro, da Nazaré, da Graça, do Cabo Espichel, da Lapa, do Almortão..."

E depois havia que pagar a dívida. Podia ser ir descalço, de joelhos, carregar uma vela, oferecer dinheiro, levar um ex-voto (um braço ou uma perna em cera), mandar celebrar missas, etc.. 

A promessa estabelecia uma relação quase pessoal e de cumplicidade com a santa:  “Eu peço-te isto, senhora; se me concederes a graça, eu faço-te aquilo.” Era senhora e não "priga" (rapariga), que entre o céu e a terra vai alguma distância e o respeitinho é(era, antigamente) muito bonito.

Era uma religião pouco ou nada sofisticada  profundamente popular, corporal e contratual, interesseira,  descarada, franca, comercial,  baseada na contabilidade simples, de merceeiro, do "deve-e-haver" e da lista dos fiados.

E isso ajuda-nos a compreender melhor a mentalidade dos "tugas" de 1961-74 que alombaram com a guerra de África.  A guerra não se travava longe de casa, a 4 mil, 8 mil, 12 mil quilómetros de distância.  

Qual quê?!... A guerra entrava na capela da aldeia, no adro da igreja, na escola, na casa de família, na casa dos vizinhos, na taberna, na vinha, no campo, nos montes,   no terço, na promessa, na lareira, no altar de Nossa Senhora de Fátima, erguido lá em casa, alumiado dia e noite por uma lata de azeite!

O soldado estava em África; a guerra estava também em Portugal ( que era a metrópole). E a Nossa Senhora,  mais do que Deus,  estava em toda a parte, de Gadamael a Buruntuma, de Madina do Boé a Varela, do Minho a Timor...

2. O culto mariano tem raízes muito profundas em Portugal, e são inúmeros os santuários e festas dedicados a Nossa Senhora.  Por isso há que distinguir Fátima e  os demais santuários do Portugal "sacroprofano".

Fátima é uma coisa... do "outro mundo", uma coisa de outra escala: fenómeno nacional e internacional, peregrinação organizada, turismo religioso, "máquina caça-níqueis", infraestrutura, hotelaria, comércio, negócio, comunicação social, calendário e liturgia próprias...

Fátima é  uma “indústria da fé”,  sem ofensa para os crentes, e sem que isso implique negar a fé genuína de quem lá vai.

A santa  da aldeia é outra coisa, a outra escala, liliputiana. É a santinha da terrinha. 

Aquela imagem concreta que está no alto do monte , ou no cima da falésia, á  entrada do porto de abrigo, ou na capelinha; que pertence à memória da freguesia; que guia os pescadores como um farol; que viu partir os rapazes para a guerra; que recebeu as promessas das mães; que todos os anos desce ou sai em procissão (por terra ou por mar); que conhece, por assim dizer, a biografia sentimental da comunidade... Essa é que é a santa de verdade.

É aqui que o sacro e o profano se juntam, misturam, fundem...  

A primeira vez que fui à Senhora do Castelinho, em 1975, no Marco de Canaveses, é que tive esse vivência (e evidência)  das festas e romarias nortenhas (coisa que não havia verdadeiramente nas terras estremenhas, ou pelo menos, na minha vilória da Lourinhã).   

O mesmo homem que eu cumprimentei e que o meu futuro sogro me apresentou, "ramadeiro", e que fazia parte da sua equipa de construção de "ramadas",  podia: 

  • companhar a procissão de vela na mão;
  •  ajoelhar-se diante do andor; 
  • cumprir uma promessa; 
  • emborcar três canecas de verdasco  depois da missa; 
  • dançar até às três da manhã; 
  • discutir futebol (ou até política, já se discutia política acaloradamente em 1975, no verão quente de 1975, e que "a Senhora do Castelinho" nos livrasse dos homens com barba e gadelha comprida); 
  • catrapiscar uma solteira ou mandar um piropo a uma casada; 
  • comprar uma fartura; 
  • e no dia seguinte, depois de dar uma "trancada na velhota",   
  • estar fresco para pegar no trabalho, no suplício de Sísifo de todos os dias...

Não havia necessariamente contradição. Era assim que funcionava a cultura popular. O sagrado não estava num compartimento estanque. Ruy  Belo, que não era antropologo  mas poeta compreendeu isso melhor do que nongyem ...

A cultura popular misturava-se com o quotidiano. O ano era regido pelos solstícios do inverno e do verão. A vida era simples, a preto e branco. 

De resto, havia romarias em que elementos aparentemente profanos eram  tão antigos e estruturantes como os religiosos. 
 
3. E eu aí é que percebi que o Portugal tradicional era muito mais do que um simples país estatisticamente  de “católicos apostólicos romanos", praticantes. 

Qual quê!.. Era anticlerical, se fosse preciso andava á porrada com o padre da freguesia, para logo a seguir fazer o compasso no Páscoa e angariar umas coroas valentes spara o sustenho do passal, da casa e da horta do padre... 

Era tudo muito mais complexo (e fascinante) do que eu imaginacva ou tinha apreendido ingenuamente nos livros. 

Havia fé, superstição, ritual, tradição familiar, medo, Deus e o Diabo, esperança, sociabilidade, festa,  foguetes, bombos, cabeçudos  .., tudo misturado como num "cocktail". 

E os "emigrantes" (externos e internos)  trouxeram outros ingredientes (da França, da Alemanha, do Luxemburgo, da Suiça..., mas também,  do Porto e de Lisboa, sem esquecer a tropa que regressava do ultramar...). 

Mas, antes destes todos, tinha havido os brasileiros de torna-viagem.
 
Agosto era, nos anos 70, 80, 90, o  mês do regresso à terra. 

O emigrante chegava de Renault, Peugeot ou Mercedes; trazia presentes, bebidas, charutos, cigarrilhas, chocolates, dinheiro e novas maneiras de vestir, de viver, de falar, de consumir, de comprar e ate  de pensar.. E encontrava a aldeia engalanada para a festa do padroeiro ou padroeira 

Havia ali uma pequena ironia histórica,  deliciosa: o emigrante que partira pobre, pobretana ou até  miserável (cabaneiro, rendeiro, camponês sem terras, jornaleiro, ganhão, pescador, operário, marçano, sapateiro, moleiro, alfaiate, ferrador, trolha da construção civil, criada de servir, doméstica, etc.)  voltava à aldeia precisamente para participar na festa que os seus pais e avós celebravam quando ele ainda era pobre, pobretana ou até miserável.

E muitas vezes era  ele quem agora pagava a banda, o foguetório, o andor, a ornamentação ou a comissão de festas, o padre de fora que vinha fazer o sermao... Ou seja: a emigração, que despovoara o interior, também financiava uns anos depois (e mantinha viva) uma parte importante da sua cultura festiva.

O  “querido mês de agosto” português  era então, há 50, 40, 30, 20 ano atrás, dificil de definir: 

mês das férias + mês dos emigrantes + mês das festas e romarias + mês dos reencontros e casamentos + mês das promessas + mês da memória... 

Uma frase talvez pudesse resumir tudo isso:  em agosto, no nosso querido  mês de agosto, Portugal regressava temporariamente às suas aldeias, e as aldeias regressavam temporariamente a si próprias. Isso era mais evidente no Norte e Centro do país. 

Eu ainda apanhei esse Portugal "sacroprofano" (ou sacro-profano, como escrevia o Ruy Belo)... Em terras de Entre-Douro-e-Minho. Casei-me lá em agosto de 1976.

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 15 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28261: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (15): Os nossos provérbios pouco ou nada populares - Parte IV: Ainda o "Amor com amor se paga". E o ódio, camaradas?!

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28225: Manuscrito(s) (Luís Graça) (291): As minhas geografias emocionais: Ainda o conventinho da Arrábida... Salazar gostava de lá ir... E eu também gosto.




Estátua de Frei Martinho de Santa Maria
(pormenor)

O verdadeiro "guardião" do convento: a imponente, icónica, estranha  estátua do fundador do Convento, com os braços em cruz e os pés a esmagar a serpente (=demónio), assente no globo terrestre. Segundo a explicação que nos foi dada, pela guia cultural, Andreia Gomes, mester em hstória da arte pela minha universidade, a NOVA de Lisboa, segura na mão direita o archote da fé (simbolizando as boas obras) e na esquerda um cilício, instrumento de mortificação, que o frade utilizava para se penitenciar dos pecados. Nos olhos, uma venda, na boca um grosso cadeado, e no coração uma fechadura, outros tantos símbolos da vida do asceta que se fecha às coisas do mundo.













Setúbal > Parque Natural da Arrábida > Convento da Arrábida > 23 de julho de 2026 >  Gostei de lá voltar...

Fotos (e legenda): © Luís Graça (2025). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Garça & Camaradas da Guiné]


1. Às veze ponho-me a duvidar da saúde mental destes homens (não havia mulheres...), que escolheram viver em conventos completamente isolados do mundo, em sítios luxuriantes, como o da Arrábida e de Sintra.... A pão e água... Extasiados com tanta beleza, esmagados por tanto silêncio!

Eram eremitas... Escolheram o caminho mais radical, 
a do isolamento total (cortando simbolicamente,  até na estatuária, os cinco sentidos...), da pobreza absoluta, da ascese, da mortificação do corpo, da superação dos sentidos, do lento e exaltante suicídio pela fome, da meditação, da contemplação versus ação...

Que raio de "leitura da mensagem de Cristo" foi esta, pergunto-me, mais de 60 anos depois de ter aqui acampado, nas férias grandes escolares, no início dos anos 60 ?

Dizem as ciências da saúde mental (psicologia, psiquiatria, neurologia...) que o isolamento extremo pode ser patológico...  Cortar radicalmente com os outros (isolamento social prolongado) pode levar a distúrbios mentais (depressão, ansiedade, alucinações). Cortar os cinco  sentidos (como se vê na estátua do Frei Martinho de Santa Maria, inscrutada na parede da fachada da igreja) ou jejuar até à exaustão são comportamentos que, hoje, associaríamos a transtornos obsessivo-compulsivos ou até psicose.

Mas, temos que lembrar (e respeitar) a opção destes homens de meados do séc. XVI, tão
exaltante como contraditório e dilacerante  (nomeadamente para o mundo cristão, dividido em dois, com a reforma e a contrarreforma); tratava-se de uma escolha consciente, uma forma de transcender a condição humana. 

Não era "loucura", era a procura da "santidade" e do caminho solitário até ao Criador...

Diz a guia cultural, Andreia Gomes, que a Arrábida é reconhecidamente um lugar único, onde a natureza e a espiritualidade se encontram e se fundem. Os monges que ali viveram,  deixaram um legado de paz, reflexão e conexão com a terra, que ainda hoje se sente no ambiente sereno da serra (para mais, no lado  protegido do vento marítimo). Um legado que não pode deixar de tocar o coração de um simples turista que hoje visite o antigo convento (seja ele russo, francês ou espanhol, como exemplificou a guia).


2. O Convento de Nossa Senhora da Arrábida é um mosteiro franciscano localizado na Serra da Arrábida, em Portugal, hoje integrado no Parque Natural da Serra da Arrábida, um dos sítios mais deslumbrantes (e cobiçados!) da nossa costa, a par da península de Troia, ali em frente.

Fundado no século XVI, no reinado de Dom João III, é um lugar de grande importância histórica, espiritual, cultural e ecológica.

O que se sabe sobre os seus moradores ?

Para já aconselho que se veja ou reveja na RTP Play o programa:

O convento foi fundado em 1542 por Frei Martinho de Santa Maria, castelhano, franciscano, da Ordem dos Frades Menores (OFM), a quem D. João de Lencastre (1501-1571), 1º duque de Aveiro, cedeu as terras da encosta da serra. Em boa verdade, tratava-se de uma "doação", dentro do espírito cristão ainda medievo segundo o qual dar aos pobres (e aos monges mendicantes...) era emprestar a Deus...

Lê-se no sítio da Fundação Oriente, atual proprietária do Convento da Arrábida e da sua cerca de 25 hectares: 

 "Anterior à construção, existia onde é hoje o Convento Velho, a Ermida da Memória, local de grandes romarias, junto da qual, durante dois anos, viveram, em celas escavadas nas rochas, os primeiros quatro frades arrábidos: Martinho de Santa Maria, Diogo de Lisboa, Francisco Pedraita e São Pedro de Alcântara.

"D. Jorge de Lencastre, filho do 1.º duque de Aveiro, continuou as obras mandando construir uma cerca para vedar a área do convento. Mais tarde, seu primo D. Álvaro, mandou edificar a hospedaria que lhe servia de alojamento e projectou as guaritas, na crista do monte, que ligam o convento ao sopé da montanha, deixando, no entanto, três por acabar. Por sua vez, D. Ana Manique de Lara, nora de D. Álvaro, mandou construir duas capelas, enquanto o filho de D. Álvaro, D. António de Lencastre, mandou edificar, em 1650, o Santuário do Bom Jesus.

"Com a extinção das ordens religiosas em 1834, o convento, as celas e as capelas dispersas pela serrania sofreram várias pilhagens e enormes estragos causados pelo abandono.

Em 1863, a Casa de Palmela adquiriu o convento, mas as obras só começaram nas décadas de 40 e 50 do século seguinte. Quarenta anos depois, em 1990, o seu então proprietário, Manuel de Souza Holstein Beck, vendeu o convento e a área envolvente, num total de 25 hectares, à Fundação Oriente, a única instituição, que, no seu entender, dava garantias de manter os valores com que, no século XVI, os seus antepassados o haviam entregue aos arrábidos." (...)

 Os frades viveram ali durante séculos, dedicando-se à vida contemplativa, à oração e ao trabalho manual, seguindo os princípios de São Francisco de Assis.

A vida monástica na Arrábida regia-se por regras estritas: os
 frades viviam em reclusão ou clausura, dedicados à oração, meditação e estudo. Seguindo a regra franciscana, viviam com pouquíssimos bens materiais (não tinha bens próprios, os prato sem que comia, eram conchas do mar, nem sequer o convento era deles). Cultivavam a terra, produziam o seu próprio alimento e realizavam outras tarefas manuais; náo comiam carne, faziam jejum e abstinência, conforme o calendário religioso.  Em épocas de crise (fome, epidemias, etc.), tinham que recorrer à  caridade... 

Enfim, o convento foi um centro de peregrinação e retiro espiritual, atraindo fiéis e nobres em busca de reflexão.

Curiosidades:   o convento foi classificado como Monumento Nacional em 1910, mas foi só nos anos 40/50, que se procedeu ao seu restauro, por iniciativa privada (casa Palmela) e apoio do Estado Novo. Salazar gostava de visitar a Arrábida e o seu conventinho. Eu também gosto.

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terça-feira, 21 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28202: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte XI : semana de 14 a 20 de abril: tempo pascal, a importância da religião católica


Timor-Leste > Liquiçá > Manatti > Boebau > Placa da inauguração da Escola de Sáo Francisco de Assis, em 19 de março de 2018.

Foto: cortesia de página do Facebook da ASTIL 



1. O nosso amigo (e membro da Tabanca Grande), Rui Chamusco, professor de música reformado, a viver na Lourinhã, vai a Timor Leste todos os anos desde 2016 (exceto na pandemia, 2020, 21 e 22).

São 3 dias de viagem até Díli!... Fica lá 3 ou 4 meses... Ele já tem 80 anos e há dias fez uma operação cirúrgica,delicada, de que está a recuperar felizmente bem... Temos publicado as suas crónicas anuais no nosso blogue.

Ele é um exemplo vivo, o dele e da associação que ajudou a fundar (a ASTIL), de amor à lusofonia. Essa história merece ser conhecido pelos nossos leitores, os amigos e camaradas da Guiné.

Já aqui publicámos excertos das crónicas da I viagem (2016), II (2018) e VI (e última) (2025). Depois da pandemia, o Rui voltou a Timor-Leste em 2023 (IV viagem), e anos seguintes: 2024 (V viagem) e 2025 (VI viagem).

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Banda desenhada: Rui Gaspar, João Crisóstomo e Gaspar Sobral, membros da ASTIL

"Prompt e orientação editorial: Luís Graça | Imagem:  João Crisóstomo (2017) | Geração gráfica assistida por IA: Google (2026), Gemini (versão de 8 de julho de 2026) [Grande modelo de linguagem]. Disponível em: https://gemini.google.com/"



Continuamos a publicar e excertos das crónicas da III Viagem (2019) (*), realizada pelo Rui Chamusco a Timor-Leste, enquanto cofundador e dirigente da ASTIL, a associação portuguesa de solidariedade com Timor Leste (ASTIL).

Lendo as suas crónicas (que ele reuniu numa brochura em pdf, com cerca de 3 centenas de páginas), ficamos a saber muito mais sobre a história, a cultura, a geografia, a sociodemografia, a idiossincrasia daquele país, que nos é tão querido, membro da CPLP.

 Além da construção, organização e funcionamento da Escola, a par do "apadrinhamento de crianças em idade escolar", a pequena ASTIL (que tem sede em Coimbra e delegação no Sabugal) já construiu a "casa do professor" e adquiriu uma viatura todo-o-terreno ("pick up"), indispensável para se chegar a Boebau, na montanha. 


Nestas crónicas de 2019, há referência a dificuldades e limitações que, felizmente, já foram entretanhto superadas. Falta, finalmente, resolver o magno problema da colocação, definitiva, de professores de carreira. A escola continua a ser privada e inteiramente financiada pela ASTIL (e os pais dos alunos).

Em  
Ailok Laran, nos arredores de Díli, costuma ficar na casa do irmão mais novo do Gaspar Sobral (outro cofumdador e dirigente da ASTIL, luso-timoresne, retornado de Angola, onde foi topógrafo), o "Eustáquio" (João de Araújo Moniz de Oliveira Sobral) (que de 1975 a 1978, andou fugido dos indonésios nas montanhas de Liquiçá, com a irmã mais nova e a mãe, tinha então 14 anos!).


Rui Chamusco e Gaspar Sobral (2027)

Foto à direita: Rui Chamusco (à esquerda), professor de música, reformado, é cofundador e líder da ASTIL - Associação dos Amigos Solidários com Timor Leste: é natural ds Malcata, Sabugal; vive na Lourinhã; é membro da Tabanca Grande, tem 70 referências no blogue; à direita, o Gaspar Sobral, o luso-timorense, retornado de Angola, casado com a Glória Sobral, natural de Sabugal: foi este casal que meteu o Rui nesta aventura solidária (que, para todos, tem sido gratificante).


III Viagem a Timor-Leste : 2019 (Rui Chamusco, ASTIL) - Parte XI: semana de 14 a 20 de abril



15.04.2019, segunda feira  - Ambição humana ou recado de Deus?

Este dia ficará na história da humanidade como um marco indelével da perda de um património social, político e religioso ímpar, incapaz de ser reparado na totalidade.

O incêndio deflagrado na Catedral de Notre Dame de Paris deixou todo o mundo atónito. A tarde deste dia 15 de Abril de 2019 ficará registada na história de França com marcas de angústia, de tristeza, de pena e de lamentações. Oitocentos anos de vida que, de um momento para o outro, são postos à mercê das chamas, com obras dem arte reduzidas a cinzas. 

A notícia correu célere por todo o mundo. E até aqui em Timor, a tantos quilómetros de distância, é o tema de conversa, particularmente entre os ocidentais que por cá habitam e aqueles que alguma vez tiveram a sorte de visitar
este monumento de renome internacional.

Lembro-me, nos princípios dos anos oitenta, quando habitava Paris, das experiências e vivências que tive neste local: o espetáculo noturno, com raios laser, sobre a história de Notre Dame de Paris; o encontro com o escritor Pe. Jean Leclérc, que dispunha de um gabinete de atendimento na catedral por onde passavam pessoas desesperadas da vida e que, em última oportunidade, foram salvas do suicídio graças a estes encontros (o livro “Début sur le Soleil” escrito por este autor reflete muitos destes casos); o encontro de emigrantes portugueses que, numa tarde de domingo, encheu por completo este templo para uma celebração eucarística, e que depois se prolongou no “parvis de Notre Dame” com manifestações culturais e recreativas; as visitas ocasionais em que eu fiz de guia a alguns amigos que visitaram esta catedral durante a minha estadia nesta cidade da luz.

É impossível ficar indiferente a tal tragédia.

Mas, como nada acontece por acaso, e tal como outros já fizeram com certeza, questiono-me sobre o porquê deste e doutros acontecimentos similares. Como entender tais acontecimentos? Terão algo para nos dizer? Que a Torre de Babel se tenha desmoronado, até parece compreensível à luz da mensagem bíblica. Que as “torres gémeas” de New Work tenham sido abatidas por terroristas assassinos, até parece que se entende devido ao ódio instalado no mundo árabe contra os americanos.

Tudo o que é grande e se orgulha de si próprio como o maior de todos tem o seu fim à vista, sejam torres, aviões, barcos, pessoas, nações, etc... E até pode haver quem diga que isto é castigo de Deus, que são lições de vida, que é o que tem de ser...

Quando há muitos anos estudei teologia, um dos temas de estudo era a “Teofania dos Lugares Altos”. Aí aprendemos que, ao logo de toda a história da salvação, os homens sempre acreditaram que, estando Deus lá no céu, a melhor maneira de estar mais perto dele é subir o mais alto possível, na tentativa de Lhe tocar. Por isso tantos templos, tantas igrejas, tantas capelas no cimo dos montes e em toda a parte.

Mas será que Deus quer ser mesmo tocado (apanhado) desta maneira? Não será mais certo procurarmos cá em baixo o Deus que encarnou e habita connosco? Não será demasiada ambição querer ser igual ou superior a esse Deus criador do céu e da terra?

Quem sabe se o incêndio da catedral de Notre Dame de Paris, este e outros acontecimentos, não terão alguma pedagogia divina? Quem sabe se, em contexto de fé, não serão uma chamada de atenção?... Até já há quem relacione este acontecimento com as “profecias de Nostramus”, como um sinal de purificação nesta Europa que envelhece e perde muitos dos seus valores e referências.

E por aqui me fico, não vão apelidar-me de profeta da desgraça, de bruxo ou de outra coisa qualquer...

17.04.2019, quarta feira  - Ida e volta a Boebau

Era assim que estava combinado. A educadora Diana Rebelo, aproveitando as férias de Páscoa, dispôs-se a ir até Boebau, à Escola de São Francisco de Assis, para “in loco” orientar as duas estágiárias nas suas atividades com as crianças. 

Claro está que nós (o Eustáquio, o Gaspar, a Adobe, a Diana e eu) sentimo-nos na obrigação de a acompanhar e apoiar em todas as solicitações. Depois de três horas de caminho nada fácil, mesmo que viajando em jipe alugado para o efeito, lá chegamos ao destino, onde as crianças já nos esperavam. Depois da imposição do tais à educadora Diana, e feitos os cumprimentos habituais, fomos mostrando e explicando as instalações da escola. 

A Diana aproveitou logo para dar sugestões de trabalho para estes dois grupos de crianças: o Grupo A, de 3 e 4 anos, com 17; o Grupo B, de 5 e 6 anos, com 27 crianças. Ao todo frequentam neste momento a escola 44 alunos.

Verifiquei a avidez com que as senhoras Fátima e Adelina (estagiárias) ouviam e assimilavam as observações feitas pela professora educadora, bem como a preocupação de registarem as ideias de trabalho para cada um dos grupos. Tenho a certeza de que esta visita vai contribuir imenso para o bom funcionamento da escola São Francisco de Assis. À educadora Diana um grande obrigado pela ajuda que, desdeno primeiro momento, nos tem prestado. É para nós uma referência de solidariedade.

Apesar dos muitos afazeres, está sempre disposta a colaborar connosco. OBRIGADO!

Aproveitamos também esta curta estadia para tratarmos de alguns assuntos pendentes, nomeadamente da construção de uma casa residencial para professores e voluntários.

Estivemos no local previsto para a construção, e estamos agora à espera de negociar o terreno e a empreitada. Pedimos para que fossem rápidos a apresentarem as suas propostas e, se assim for, em breve começará a sua construção. Casa residencial é uma condição “sine qua non” para que possamos motivar alguém da classe docente a aceitar trabalhar na nossa escola. Por nossa vontade, a sua inauguração será no começo do ano 2020. Mas isso não depende inteiramente só de nós.

Eram 14 horas quando procedemos ao regresso. Pelas 17.30 horas estàvamos todos em casa, felizes desta jornada. Amanhã será outro dia...

19.04.2019 - Sexta Feira Santa: hábitos, usos e costumes...

A religião católica, a par de outras religiões, tem uma presença muito signicativa na sociedade timorense. A sua influência na vida deste povo é bem notória nos seus hábitos, usos e costumes.

Hoje, Sexta Feira Santa, segundo dia do tríduo pascal, “es dia de dolor / murió nuestro Señor / No se puede estudiar” (letra de uma canção espanhola). 

Pois, aqui em Timor, povo que alia a sua cultura animista ao culto e à prática religiosa, celebra-se com devoção o dia da morte do Senhor em cerimónias que, sobretudo a religião católica, organiza nas suas igrejas. A afluência dos fiés é enorme e, regra geral, todo o povo se orienta por regras e princípios que desde há muito existem ou existiram na maior parte do mundo católico. 

Sabemos que o mais importante está dentro de nós, observantes ou não observantes. Sabemos que há pessoas não alinhadas nestas práticas religiosas.

Sabemos que cada um é livre de seguir esta ou aquela religião. Mas há ainda nesta cultura timorense hábitos, regras, usos e costumes que no dia de hoje, Sexta Feira Santa, ninguém deve transgredir: não dar o bom dia, a boa tarde, a boa noite; não varrer a casa; não fazer barulho: não gritar, não assobiar e não cantar; não ver televisão, etc, etc...

Onde é que eu já vi isto há mais de cinquenta anos atràs?

A verdade é que aqui, em Ailok Laran, hoje não se tem ouvido a algazarra, a música do todos os dias: crianças que passam, jovens cantarolando e tocando guitarra, carretas carregadas de produtos alimentares que, em alta música, vão anunciando a sua chegada, etc... 

O único ruído que se vai ouvindo são as folhas das árvores que, sopradas por um vento suave, nos vão enchendo os pulmões de oxigénio. Nem mesmo o cantar dos galos ou o cacarejar das galinhas se faz ouvir. (Ops!... que agora cantou um galo três vezes e me alertou de que, tal como Pedro, vos estou a mentir.)

Seja como for, o melhor é respeitar a cultura deste povo e a suas manifestações religiosas. Sexta Feira Santa, um dia de respeito, de devoção, de silêncio interior, de purificação. Estamos a caminho da Páscoa da Ressurreição...


20.04.2019, sábado  - Vigília Pascal...em noite de lua cheia

Para os cristãos esta é a noite mais importante do seu calendário litúrgico. Como se lê ou canta no Precónio Pascal, também chamado de “Exultet”, esta é a noite ditosa em que o céu se une à terra para celebrar a Ressurreição de Jesus:

 “No esplendor desta noite / Que viu ressurgir Jesus / Do sepulcro. Exultemos / Pela vitória da Cruz.”

“Noite mil vezes feliz / Na noite clara como o dia / Na noite de Cristo glorioso / Exultemos de alegria.”

Não importa muito como se começa; importa é como se acaba. Ora, convenhamos que a ressurreição de Jesus é um acontecimento únco na história da humanidade, e é o auge de toda a vida terrena, de toda a vida cristã. Como diz a letra do cântico “Ressuscitou” de Kiko Arguello: “ Se com Ele morremos, com Ele vivemos, com Ele cantamos Aleluia!” Ou seja, também nós havemos de ressuscitar. É uma questão de fé. Temos de acreditar.

Em todo o mundo os cristãos celebram a Páscoa (do hebraico Pasha, que quer dizer passagem) com manifestações religiosas diversas: a Festa da Ressurreição, a Festa das Flores (talvez por ser o inívio da primavera): Para os não cristãos é também uma festa.

São as férias escolares, são os encontros de família e de amigos, são as provas desportivas, são os doces e as amêndoas, etc... Queiramos ou não todo o mundo está envolvido. É a Festa da Páscoa de 2019.4.21

Aqui em Timor, com uma maioria predominantemente católica, vive-se a Páscoa intensamente. A julgar pela afluência e participação dos fiéis nas cerimónias que as igrejas promovem. 

Em Ailok Laran, pelas dezanove horas passavam constantemente grupos de pessoas bem trajadas. Perguntei para onde ia toda aquela gente, e de pronto
me responderam: “vão para a catedral, para a vigília pascal. Com mais ou menos meia hora de caminhao para cada lado, quer dizer que só lá para a meia noite estarão de volta. A liturgia desta vigília é muito demorada, devido em parte à quantidade de leituras que são proclamadas. Mas esta gente é de ferro. Tudo suporta em nome daquilo em que acredita. É gente de uma fé inabalável, capaz de tudo. Que Deus os abençõe!

E eu, um ocidental aqui deslocado, que faço eu neste contexto? Às vezes tenho inveja da fé simples mas forte destes crentes. Nós escusamo-nos e defendemo-nos com a nossa racionalidade, mas eles dão-nos exemplos e lições do que é acreditar com o coração. Se calhar, eles é que têm razão.

Mas nesta noite santa de 20 de Abril de 2019, quis a natureza associar-se a esta vigília pascal, presenteando-nos com uma lua cheia espetacular. A noite estava inundada de luz, a preconizar a luz solar que iria colmatar este luar. 

Sentado na varanda mais alta desta casa, desfrutei por horas este cenário idílico, deixando-me embeber deste luar inebriante. E, contemplando a lua, pensei em tudo: no homem que lá se vê com um molho de silvas às costas (crendice de meninos); nas viagens lunares, na compra de terrenos e viagens para a lua, no fascínio e apetência dos homens por este astro através dos tempos. 

A lua feiticeira que a todos encanta e extasia. Contemplando o horizonte, cheio de luzinhas e penumbras provocadas pelo arvoredo circundante, termino louvando o criador com as palavras de São Francisco de Assis, no Cântico do Irmão Sol ou Cântico das Criaturas: “ Louvado sejas meu Senhor pela irmã lua e as
estrelas que no céu formaste claras. preciosas e belas.”

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos: LG)
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Nota do editor LG:

Guiné 61/74 - P28201: S(C)em comentários (92): Eu, crente, me confesso... mas não pagador de promessas... (José Teixeira)

N. Sra. de Fátima de Guileje 
(2010)  | Foto: © António 
Camilo (2010). 
Todos os direitos reservados.
 [Edição e legendagem: 
Blogue Luís Graça
 & Camaradas  da Guiné]

1. Comentário de José Teixeira ao poste P17347 (*)

Poucos dias depois de chegar à Guiné; escrevi:

Prometi a minha mãe não me esquecer de Deus, mas confesso, que Ele se escapuliu, logo nos primeiros abalos do mar alto que me fizeram vomitar tudo quanto tinha e não tinha no estômago em alta sinfonia com centenas de camaradas alojados no porão do Niassa.

Singular fenómeno de religiosidade fui encontrar em Ingoré. Aí que tive o primeiro reencontro com Deus, após a saída de Portugal.

Logo no segundo dia da chegada, depois do jantar e, acabada a limpeza do refeitório, este enche-se de novo, agora sem pratos nem comida para o corpo. Seguia-se o momento de alimentar a alma. O grupo foi engrossando. Um estranho silêncio ou conversas em tom abaixo do normal, provocaram-me para ir averiguar o que se passava, com aquele grupo de camaradas de tez queimada por uns meses largos de sol na Guiné.

Um jovem soldado, lá na frente, começa a “votar” o terço em honra de Nossa Senhora, respondendo em coro o grupo de combatentes, onde se viam praças e um ou dois furriéis.

Foram vinte minutos de paragem, de reflexão, sobre o que me era exigido como seguidor do projeto de Jesus Cristo numa guerra para onde fui atirado, contra a vontade, pelos “senhores” do meu país.

Rezar, para mim, é mais um permanente estado de louvor a Deus pela vida, pela natureza que me disponibilizou para a minha felicidade. Corresponsabilizando-me com actos e acções de defesa de mim próprio no ambiente de guerra em que estou inserido, no respeito e serviço aos outros que me rodeiam pela missão que me foi atribuída - enfermeiro.

A oração não é para mim uma forma de negociar com Deus, com promessas a cumprir se... chegar ao fim da comissão escorreito, ou um pedir permanente a proteção, vendo Deus como que um guarda-chuva protetor, esquecendo que esse mesmo Deus também o é de tantos, quantos do outro lado da barricada nos atacam ou se defendem.

Os povos que ousam fazer-nos frente, possivelmente também tem a “sua Fé”, os seus santos a quem se agarrar nos momentos difíceis, os amuletos que lhes vemos à cintura são a prova evidente. Também tem avós, pais esposas, namoradas. Algumas, na frente de guerra, combatem lado a lado, outras, na retaguarda, sofrem como as nossas mães, os nossos familiares.


José Teixeira,
colaborador permanente
 do blogue

PS - Sobre o fenómeno de Fátima, onde gosto de ir no silêncio, já escrevi o poste nº 1873 um pouco baseado neste, que já estava escrito há muito tempo.

Creio que esta reflexão continua atual, pois muitas vezes deusifica-se a Virgem Maria e tenta-se "negociar" com ela a salvação na vida terrena com promessas de sacrifícios. Ouso colocar a questão: Quem é a mãe/pai que gosta de ver um filho a sofrer, mesmo que seja por "amor" ?!

sexta-feira, 12 de maio de 2017 às 14:23:00 WEST





2. Outro comentário do José Teixeira, agora ao poste P17350: 

Sem dúvida que não se pode "meter" a religião no blogue, sobretudo a discussão religiosa. 

Creio que muitos dos combatentes eram "marianos" por educação, por tradição e por devoção. Não podemos esquecer que a religião tinha um peso elevado na família, nas povoações e até na escola. Eu continuo a não ver mal nisso, mas não creio que consigas testemunhos das peregrinações que se fizeram sobretudo por parte da família, muito em especial as mães de todos nós. Não te esqueças que Maria, mãe de Jesus sempre nos foi apresentada como a mãe do céu e...quando a crise, a dor ou a insegurança aparece recorre-se sempre à mãe (antes do pai.

Assisti por missão a vários feridos e mesmo, apenas, debaixo de combate, muitos deles faziam preces a Nossa Senhora. E o contrário também, ou seja, culpar Maria mãe de Jesus, do infortúnio. (...)