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quinta-feira, 19 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27835: Os 50 anos da independência de Cabo Verde (24): "Catchupa é fidju di tera,/ku midju, fexon, tchouriçu,/ batata, karni na panela, / amor ki ta brilha na luz"... Cachupa é em Lisboa, na Kasa Crioula, restaurante, em Carnide



Cachupa ... Um dos ícones de Cabo Verde. Com a morna, a coladera, a Cesária Évora... E o mar, azul,m claro: "O retângulo azul da bandeira simboliza o espaço infinito do mar e céu que envolve as ilhas. As faixas, o caminho da construção do país. O branco, a paz que se quer. O vermelho, o nosso esforço. As estrelas, as dez ilhas que compõem o arquipélago"

Há anos que eu não comia uma "cachupa" de Cabo Verde... Rica. Fui à Kasa Crioula, ali em Carnide, Lisboa, com  a malta da tertúlia da "chef" Alice... Colegas dela. E até arrisquei (!) fazer uns versinhos, em crioulo, de homenagem à cachupa e aos presentes... Chamei-lhe a "Catucha di Tabanka Grandi"...Espero que os meus amigos cabo-verdianos me desculpem este crioulo aportuguesado (destilado, depois de meia dúzia de versões)... Não é "armar ao pingarelho"... Há aqui apenas amor, afeto, ternura pela terra e gentes de Cabo Verde. E a sua cultura. E a sua história. E tudo os que nos liga. Há morabeza. Há morna. Há coladera. Há lusofonia. Há saudade. 

Isso já é meio pedido de desculpa pelo atrevimento. Conheço uns rudimentos de crioulo. Estou a aprendser. Gostaria de poder falar. Claro que tive uma ajuda da IA (ou de várias ferramentas de IA). Mas o que importa é a intenção. 

Esta tertúlia é de malta, reformada, do Ministério da Agricultura e Pescas (que eu não sei se ainda existe com o desmantelamento progressivo do "aparelho de Estado" português, em todos os sectores, da saúde ao ambiente). São sobretudo mulheres, os homens estão em minoria. Encontram-se de mês a mês, num restaurante, popular, da cidade. E têm sempre um tema "literário" ou "filosófico" para servir, no fim da refeição, como "sobremesa cultural"... Procuram manter-se ativos, proativos, vivos e saudáveis. Gostam de conviver. Conhecem África. Alguns nasceram lá, outros viveram e trabalharam lá:  são quase todos quadros médios e superiores... Um parte foram retornados,. Há gente de Cabo Verde, Guiné-Bissau, Angola, Moçambique, e até de Goa, do tempo em que Portugal ia do Minho a Timor. Eu às vezes apareço. Tiro umas fotos. Faço uns versos. Participo.  


Catchupa di Tabanka Grandi

Bô ma, fidju di Guiné,
Casada ku Manel di Angola,
Piedade di Moçambique,
Marília, Fernanda, nha kriola.

Bia di Portugal, Emília, Alice,
Gentis di Ministério, retornadu,
Na tabanka grandi, mesa sta posta,
Catchupa kenti, tudu misturadu.

Catchupa é fidju di tera,
Ku midju, fexon, tchouriçu,
Batata, karni na panela,
Amor ki ta brilha na lus.

É vida inteiru na pratu,
É luta, é fé, é kruz,
É memória di nos povu,
É speransa ki ta benha ku lus.


Teixeira da Cruz, nos amigu,
Africanista sabi sabi,
Tabanka txora bu partida,
Ma bu lugar sta li, na nos kabesa i na nos sabi.

Tabanka, ô Tabanka,
Tera di amor i união,
Catchupa ta fervê na panela,
É nos revoluson!

(LG + IA generativa)


Página do Facebook >  Kasa Crioula - Cozinha by Chef Fátima Moreno ; "um projeto que celebra a rica tradição lusófona, com especial foco nas cozinhas cabo-verdiana e portuguesa". Fica em Carnide, R Guiomar Torresão 128, 1500-425 Lisboa (junto ao Metro de Carnide).

O restaurante funciona na sede da Associação dos Antigos Alunos do Ensino Secundário de Cabo Verde, muitos dos quais passaram pelo antigo liceu nacional Infante Dom Henrique e depois Liceu Gil Eanes, na época colonial, e por onde passou a elite crioula (incluindo o Amílcar Cabral).



Lisboa > Carnide > Restaurante Cabo Verde > Decoração (excerto) > Répica em papel de parede, "Ronca Baxon, 2018. Autor: Luís Levy Lima. Técnica: acrílico sobre tela, 90 x  90 cm. Propriedade: Manuel Gomes dos Anjos & Filhos, SA, Praia, Santiago, Cabo Verde.   

Em relação a Cabo Verde, eu também gosto de lembrar que Portugal foi, no passado, Pai Tirano e Madastra, hoje felizmente Irmão, mais velho. Carlos Filipe Gonçalves,  Kalu Nhô Roque, explica lá à gente de Lisboa o que é o "Ronca Baxon"... Batuque, penso eu, a dança mais antiga das ilhas,o ADN de África...


Cabo Verde > Mindelo, Baía Grande e Monte Cara. 
Foto (pormenor) de quadro disponível nas paredes da Kasa Crioulo


Cabo Verde > Mindelo > Liceu Gil Eanes.
Foto (pormenor) de quadro disponível nas paredes da Kasa Crioulo


Cabo Verde > Mindelo > Retrato do senador Augusto Pereira Vera Cruz (1862-1933).
Foto (pormenor) de quadro disponível nas paredes da Kasa Crioulo

(...) A sua maior vitória política foi a Lei n.º 701, que criou o Liceu Nacional de Cabo Verde, com o nome, Infante D. Henrique.  que, mais tarde, tomou o nome de Gil Eanes. Durante quatro anos, Vera-Cruz lutou contra o desinteresse da metrópole. Por saber o que era a falta de estudos na pele, ele não descansou até ver a lei aprovada em 1917. E o seu gesto de desprendimento foi total: cedeu o seu próprio palacete no Mindelo para que as aulas pudessem começar. Sem o seu "Senador", Cabo Verde teria demorado décadas a formar a sua elite intelectual. (...).

Fotos e legendas : Luís Graça  (2026)
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Nota do editor LG:

terça-feira, 3 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27789: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - XI (e última) Parte: Conclusão

Guiné > Região de Tombali > Catió > CCS / BART 1913 (Catió 1967/69) > Cerimónia militar em fevereiro de 1968, por ocasião da imposição à CART 1689 da Flâmula de Honra (ouro) do CTIG (Comando Terriorial Independente da Guiné), atribuída em julho de 1967, com a presença das entidades civis e população.

Foto do álbum do nosso saudoso Victor Condeço (1943-2010) > "Militares, civis da administração, correios e comerciantes. Da esquerda para a direita, [?], de costas, o Cap Médico Morais (1), o comandante, ten cor Abílio Santiago Cardoso (2), quatro funcionários dos Correios e Administração (3), os comerciantes srs. José Saad e filha (4), Mota (6), Dantas e filha (5), Barros (7), depois o electricista civil Jerónimo (8), e o alf grad capelão Horácio  Fernandes (9)".

Ao canto superior direito pode ler-se a seguinte inscrição: "A nossa intervenção em África é resposta a um desafio que nos lançaram e a afrontas que não podemos esquecer' ".  

Foto (e legenda): © Victor Condeço (2007).  Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

1. Chegámos ao fim desta série, baseada na reprodução de  excertos da dissertação de mestrado em ciências da educação, pela Faculdade de Psicologia e Ciências das Educação da Universidade do Porto (1995), da autoria do nosso grão -tabanqueiro Horácio Fernandes, nascido em Ribamar, Lourinhã, em 1935, que foi nosso camarada como capelão militar no CTIG (BART 1913, Catió,  1967/69), e que faleceu no passado mês de novembro de 2025,  aos 90 anos.



Horácio Fernandes
(1935-2025)
No capº IV daquele trabalho académico, ele narra e comenta a história de vida de Francisco Caboz, seu "alter ego". Trata-se, pois, de uma autobiografia, que em 30 páginas, a duas colunas, cobre a sua infância, adolescência, juventude e idade adulta até 1972, o ano em que, prestes a fazer 37 anos, regressa ao estado laical e constituiu família, passando a viver no Porto.

Nos dez  postes anteriores já publicados (*), ele fala-nos, sucintamente, de:

(i) a sua terra natal, "Arribas do Mar" [leia-se Ribamar, da Lourinhã], bem como as 3 figuras da família que o marcaram:  
o pai (José Fernandes Nazaré), a mãe (Elvira Neto) e o avô materno,  o sacristão da freguesia, o Ti João das Velas de Santa Bárbara;

(ii) como foi criando raízes a ideia de ser padre: o avô materno, sacristão, e a professora primária acabaram por ser as pessoas que mais pesaram nessa decisão;

(iii) a entrada no Colégio Angélico (leia-se, Seráfico, na altura Montariol, em Braga, a mais de 300 km de distância da sua terra natal), e os "quatro cenários" onde se vai desenrolar a sua vida de "angélico" (ou seja, até ao 5º ano, correspondente hoje ao 9º ano de escolaridade): a camarata, o refeitório, a sala de aulas, o salão de estudo, e onde vigorava o panoptismo;

(iv) os mecanismos de vigilância dos internos e os rituais de punição por parte dos prefeitos;

(v) o 6.º ano, quando passou a ser noviço (Convento do Varatojo, Torres Vedras, já ao pé de casa);

(vi) seguiu-se o Coristado de Filosofia (em Leiria, no seminário de São Francisco / convento da Portela);

(vii) e depois de Coristado de Teologia (no Seminário da Luz, Carnide, Lisboa), até à ordenação sacerdotal (em agosto de 1959).

(viii) no início do 2º semestere de 1967, foi chamada para fazer, na Academia Militar, o 1º curso de capelães militares;

(ix)  foi mobilizado para a Guiné, em rendição individual, como capelão militar, sendo colocado no BART 1913 (Catió, 1967/69);

(x) a sua vocação sacerdotal começou a ser  abalada com a sua passagem pelo sul da Guiné.

Terminada a comissão, em finais de 1967, andou ainda na marinha mercante (transporte de tropas e navios petroleiros), como capelão, até deixar o sacerdócio em 1972.

Casou, passou a viver no Porto. Teve 3 filhos. Estava reformado da Inspeção Geral de Educação onde trabalhou 25 anos na zona norte. Em 2006, aos 70 anos, doutorou-se em ciências da educação pela Universidade de Salamanca, Espanha.

Reencontrámo-nos, por volta de 2015, na Tabanca de Porto Dinheiro, Lourinhã, ao fim de 57 anos de vidas completamente separadas. 


2. Achámos que era uma história de vida que merecia ser conhecida dos nossos leitores. Um verdadeiro testemunho de uma época que ainda coincide, em parte, com a nossa.

Considerámos tratar-se de um trabalho académico, relevante não só para a história da capelania castrense como também para o conhecimento do ensino confessional ministrado em seminários diocesanos e regulares, onde se formava o clero católico ao tempo da Ditadura Militar e Estado Novo (1926-1974).

Imagem acima, do lado direito: capa do livro do Horácio Fernandes, publicado 14 anos depois da sua dissertação de mestrado (1995): ""Francisco Caboz: a construção e a desconstrução de um padre" [Porto: Papiro Editora, 2009, 185, (7) pp. ISBN 978-989-636-446-5].(O livro está esgotado.)


História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - XI (e última) Parte: Conclusão 

por Horácio Fernandes

6. - A desconstrução do habitus. O Trânsfuga.

De novo, e no fim deste desenvolvimento autobiográfico, se coloca a questão de saber qual a relevância científica da descrição fenomonológica de uma vida.

Defendemos (vd. cap 3° da dissertação de mestrado) que a individualidade, não só  não  esgota as explicações estruturais - Francisco é produto de uma construção social em contexto salazarista - como estas podem ser enriquecidas pela análise daquela.

Francisco não se deixou dilacerar, como porventura conviria a uma autobiografia mais épica (mas menos real), prioritariamente por dilemas políticos, ou por dilemas teológicos. 

O trânsfuga, em que o tornaram e em que se tornou, era constituído por uma contradição que não lhe parecia insuperável, mas que as normas institucionais tornaram insuperáveis, entre a busca da sua identidade pessoal e a sua identidade profissional. Contradição essa, constituída prioritariamente por um cadinho de sensibilidades e afectos que ele, por excesso, não conseguia conter, dentro do «ego» que pensou ser o seu, durante 26 anos.

Nos últimos tempos de Capelão Militar, Francisco andava em grande perturbação. Por um lado o habitus (**) predispunha-o e quase o obrigava a regressar à instituição. Por outro, achava que após a experência de uma vida diferente, a força das suas representações esmorecera e já não iria assumir a sua missão, apaixonadamente. 

Abandonar, para ele, também era um terrível obstáculo, pois uma terrível frase não só o matraqueava, como se entranhara nele: tu es sacerdos in aeternum (tu és sacerdote para sempre).

- 133 - 


O habitus,  como dupla personalidade que é, resiste sempre a qualquer reconstrução que contra si se faça. A reconstrução de Francisco não foi fácil.

Lançado em pleno mundo que aprendera a anatematizar, Francisco vê-se, com raras excepções, mal amado como padre e apenas tolerado, como companheiro de viagem.

As representações que tinham sustentado e alimentado o seu longo percurso de domesticação começaram a desvanecer-se: 

  • foi o sonho de ser missionário que ficou desfeito, depois de observar in loco a irracionalidade da Guerra Colonial, a exploração do homem preto pelo branco e a aversão dos professores mais evoluidos a tudo o que fosse vestígio do colonialismo;
  • foi a excelência simbólica da missão de administrador do sagrado, que afinal não era reconhecida pela maior parte dos homens com quem vivera;
  • era a sacralidade da própria instituição divina, a Igreja, tão permeável às «cunhas» e compadrios, e indiferente às injustiças praticadas, na Guerra que apadrinhava.

Estes dilemas não o dilaceravam, nem foram ocasião próxima de tomar uma atitude épica de rompimento. Mentiria, se o empolasse agora. Os dilemas políticos não foram a causa próxima do seu rompimento com a instiuição. Contudo, ajudaram-no a descrer.

Francisco precisava de estar apaixonado por alguma coisa, ou por alguém. Fragilizadas as suas representações, abriu-se um vazio que precisava de ser preenchido A instituição, mergulhada como toda a Igreja, no aggiornamento (vd. cap 2º da dissertação) dos anos 60, debatia-se numa crise de identidade e as deserções multiplicavam-se.

- 134 -

Francisco era um apaixonado e estava a viver os seus 15 anos. As suas irmãs e demais pessoas, que o conheceram na altura da Missa Nova, descreviam-no como um místico, que quando se ordenou vivia o sagrado intensamente em todos os seus gestos. Quando tomou a peito que os alunos fizessem boa figura no liceu, levou até ao sacrifício esse objectivo. Quando se propôs ajudar a sua família, custeando os estudos de suas irmãs, não se poupou a esforços e fê-lo.

Agora, estava numa encruzilhada. Na sua penúltima viagem no «Niassa», carregado de tropas para a Guiné, teve ocasião de conversar com um angélico, não trânsfuga, que lhe contou o seguinte:

Em 1969, quando acabou a Comissão Militar, Francisco confídenciou-lhe que estava desamorado daquilo em que se empenhara e acreditara e se estava a inclinar para outra paixão. Confidenciara-lhe que era um poço de afecto e que se apaixonava com toda a facilidade, faceta que até aí nunca experimentara. Agora, queria viver a vida que não o deixaram viver durante 13 anos e queria vivê-la intensamente. 

Confessou-lhe, então, que mais cedo ou mais tarde preencheria esse vazio. Ainda não individualizara esse afecto, mas quando se apaixonasse, não hesitava em pedir a redução ao estado laical. Sentia-se bem entre as raparigas, embora as suas reacções fossem como os de um jovem imaturo de 15 anos. Por um lado, o 'habitus' a inibi-lo e a lembrar-lhe que o seu compromisso com o sagrado era eterno. Por outro, um instinto quase irresistível para amar.

- 135 -

Tal como na construção da sua vocação, entra então em cena uma terceira personagem: o seu Prior. É com a sua intervenção que é possível estabelecer negociações entre o 'habitus', a dupla personalidade incutida durante 13 anos pelo Seminário e o agora Francisco de 36 anos, há já quase quatro anos, praticamente fora da instituição. E, novamente, a questão da influência das pessoas singulares na vida das pessoas, se coloca com toda a pertinência (cap. 2º).

Na boa lógica do filho pródigo, as hierarquias tentam reconvertê-lo à causa, e prometem-lhe mesmo, não uma grande festa, com a matança de um carneiro, mas uma parcela do poder, cujo significado ainda é maior. Como persiste em recusar regressar, arrependido, à casa paterna, consideram-no Trânsfuga.

É a lógica do ensino confessional, no tempo do regime salazarista, cuja estrutura organicista permanecia intacta. Se fosse fiel à domesticação, seria bem-aventurado; se não se subordinasse, seria amaldiçoado. A ordem discursiva, essa, serpenteia ao sabor das circunstâncias políticas: ora pede perdão, ora se autolegitima para esconjurar o demónio da racionalidade.

- 136 - 

CONCLUSÃO

Um dos propósitos centrais deste trabalho foi o de explorar a hipótese de saber se é possível ou não penetrar sociologicamente as experiências de vida de alguém, a partir dessas próprias experiências e não apenas, como a sociologia tradicional procede, a partir das estruturas macro-sociais, enquanto instância explicativa.

No final deste percurso de investigação queremos haver construído uma resposta à pergunta que na "Introdução" (da dissertação) formulámos:

«Como penetrar sociologicamente as experiências de Francisco Caboz que cresceu e foi enformado pelo sistema do ensino salazarista, pelo subsistema do ensino confessional, foi domesticado e interiorizou o 'habitus sacerdotal', foi ungido na sua 'missão' simbólica, e se transformou em 'trânsfuga' e regressou ao quotidiano profano?».

Resposta porventura não definitiva, primeiro porque as próprias vidas também não o são, depois porque não há olhar, científico ou não, que esgote totalmente o seu objecto.

Admitimos que outros olhares, outra metodologia teria feito falar a história de Francisco Caboz de outro modo. Todavia, acreditamos ser esta, de todas elas, uma forma de o fazer que menos exaure a própria história de Francisco de possíveis significações e resultados.

Num tempo de mudança de paradigma de cientificidade, em que as distinções entre as Ciências da Natureza e as Ciências Sociais e Humanas são postas em causa (cfr. Sousa Santos, "Para uma Ciência Pós-Moderna", 1979), num tempo em que o modelo positivista da cientificidade, mais do que criticado, tende a ser suplantado por modelos em que a própria cientificidade se intromete substancialmente na própria objectividade científica; finalmente, num tempo em que a literatura e a arte em geral se vê desafiada num potencial de nova cientificidade, ou cientificidade diferente, optamos por um método que possuindo a marca da História e dos seus cuidados metodológicos, possui uma espessura ficcional clara. (Nisbet, 1976: 16). Isto no que concerne à questão da pertinência sociológica da História de Vida de Francisco.

Quanto à segunda interrogação: «quais os processos de domesticação/interiorização do habitus no ensino confessional e sua articulação com os vectores educativos do sistema salazarista?», esses processos, no Seminário tradicional, pretendiam plasmar uma representação de homem em que se miscegenavam as visões febris dos anacoretas do deserto africano, a dualidade maniqueísta medieval e os arroubos simbólicos reinventados pelos hagiógrafos (cf. Rodrigues, 1933).

Centravam-se no aniquilamento do «homem velho», reconstrução do «homem novo» e inteira subjugação do self ao colectivo institucional. Consistiam na ritualização de todos os momentos e a subordinação destes ao Regulamento, num sistema panóptico, sem permitir que a racionalidade profana questionasse a sacralidade dos processos. 

- 137 - 

Obtinha-se, assim,uma dupla personalidade que obedecia cegamente ao rito inculcado e interiorizado. Tudo em nome dos valores simbólicos que constrangiam as subjectividades com dupla violência (Bourdieu, 1978).

Relativamente à articulação com o ensino salazarista, se todo o ensino reflecte a matriz social do regime (Bourdieu, 1978), o ensino confessional exercia funções de complementariedade e articulação, em relação ao sistema de ensino público salazarista:

  • Complementariedade, na medida em que, subsidiado em grande parte pela clientela eclesiástica e «benfeitores», supria as lacunas do ensino público salazarista para os meios rurais, seleccionava os melhores, os vocacionados, na mesma lógica do sistema, incutindo-lhes o habitus para reproduzir a permanência irracional do mesmo constructum simbólico;
  • Articulação, porque embora tutelado pelas instâncias internacionais da Igreja mas não certificado, através de diploma, reproduzia os administradores do sagrado para difundir em todo o Império a Trilogia simbólica que constituía a essencialidade do regime e a subordinação do Outro.

Mais do que orientado pela lógica das conjunturas político-económicas internacionais, a Ditadura autolegitimou-se simbolicamente e enformou a Nação pela matriz sistémica do ensino confessional de que o Ditador fora quer reprodutor, quer paladino. 

As hierarquias eclesiásticas foram cúmplices desta ditadura por terem ofertado o ditador, alimentado-a ideologicamente e à sombra dela se instalarem, à excepção de algumas vozes individuais discordantes, sobretudo da política social (D. António, Bispo do Porto, 1958). As hierarquias perderam a voz, depositando-a nas mãos do regime, em troca dos favores temporais.

Nos anos 60, factores endógenos e exógenos põem em causa o funcionamento pedagógico dos Seminários. O número de vocacionados regride com a certificação liceal imposta, a representação social do padre diminui e as mudanças inerentes ao aggiornamento da Igreja abalam as estruturas panópticas do Seminário tradicional. A crise estende-se à própria classe eclesiástica que começa a pôr em causa não só os processos de inculcação do 'habitus', como a legitimidade do próprio 'habitus' sacerdotal. As deserções multiplicam-se e os grandes Seminários esvaziam-se, procurando novos paradigmas pedagógicos.

Finalmente a História de Vida de Francisco Caboz revela que o micro pode dialectizar com o macro, mas não se esgota nele. Enformado pelas práticas rituais, e conformado por elas, até à «missão», vê-se depois confrontado com o seu self, quando, ultrapassadas as barreiras panópticas «deixa de ser profissional a tempo inteiro do rito» (Saud, 1975). Paulatinamente, vai sendo destruturado o 'habitus' interiorizado, até à libertação dos «instrumentos de censura, e auto-controlo que produziam, sem exame crítico, explícito, mensagens conforme a ortodoxia» (Ibidem).

Em termos de ganhos sociológicos, adiantamos que ao partir da não hipóstase do social e do político, ao substancializá-los em sistemas de agência humana, pretendemos quer completar os «buracos negros» que a sociologia de teor estruturalista sempre deixa em aberto, enquanto formação discursiva quer sublinhar a não reificação das estruturas sociais.

- 138 - 

Com a história de Francisco Caboz pretendemos haver mostrado que o salazarismo não criou apenas salazaristas, que as determinações estruturais deixam margem de acção suficiente para a agência humana se instalar e que o próprio salazarismo, enquanto Weltanchaung [visão do mundo, em alemão], não pode ser reduzido a um mimo do fascismo italiano ou nazismo alemão. Aí, uma outra, muito peculiar, história de vida, teria de se contar, a do próprio Salazar, a do Prefeito do Colégio da Via Sacra. Mas isto seria uma outra Dissertação (cf. 1º capítulo).

Efectivamente, o próprio salazarismo, acreditamos nisso, poderia ver alguns dos seus «buracos negros» preenchidos - histórica e sociologicamente - se com as análises macro se cruzassem as análises micro. O nosso contributo, para a compreensão sociológica do salazarismo, parece concentrar-se aí, por uma dupla via: a via do salazarismo, esclarecido pelo seminarismo de Salazar e a via de uma criança que se fez homem e trânsfuga num Seminário e ambiente de tipo salazarista.

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Fonte: Excertos da dissertação de mestrado do Horácio Neto Fernandes, "Francisco Caboz: do angélico ao trânsfuga, uma autobiografia". Porto: Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. 1995, pp. 133-139 (A dissertação, orientada pelo Prof Doutor Stephen R. Stoer, já falecido, está aqui disponível em formato pdf).

(Revisão/ fixação de texto, negritos, links, parênteses retos, título: LG)
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Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 23 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27763: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte X: A desconstrução do padre, que ainda andou nos navios da marinha mercante (T/T Niassa e petroleiros)

(**) Habitus: conceito central da teoria sociológica do francês Pierre Bourdieu (1930-2002). Em termos sucintos, efere-se a um sistema de disposições duradouras ( esquemas de perceção, pensamento, ação e avaliação ) que são incorporadas pelos indivíduos através da socialização (família, escola, grupo social, etc.) e que orientam as suas práticas e escolhas de forma inconsciente e adaptativa. Ou por outra palavras,m é a interiorização da estrutura social que molda a forma como agimos, pensamos e sentimos, reproduzindo (ou transformando) as desigualdades e hierarquias do campo social onde nos inserimos.

Pierre Bourdieu esteve na Argélia durante a guerra colonail  como parte do serviço militar obrigatório. Recusou ir como oficial miliciano,  prestou serviço como simples soldado na área administrativa. Depois da desmobilização, tornou-se professor e investigador na Universidade de Argel (1958–1960). Foi durante este período que realizou trabalho de campo etnológico entre os cabilas, um subgrupo do  povo bérbere,  experiência que fundamentou a sua obra "Sociologie de l’Algérie" (1958) e que marcou  a sua transição da filosofia para a sociologia e antropologia.

terça-feira, 10 de setembro de 2024

Guiné 61/74 - P25931: II Viagem a Timor: janeiro / junho de 2018 (Rui Chamusco, ASTIL) - Parte XI: Não sei explicar o que nos prende a esta gente...




Timor Leste > Liquicá > Manatti > Boebau > Escola São Francisco de Assiz (ESFA)


Foto:  © Rui Chamusco (2024). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Estamos a chegar ao fim... No dia 16 de junho de 2018 o Rui Chamusco empreenderá a viagem de regresso a Portugal... Desta vez, na sua segunda viagem a Timor, ele partiu em 25 de janeiro de 2018. Foram cinco meses de estadia. 

E foi seu companheiro de viagem o amigo luso-timorense Gaspar Sobral, que vive em Coimbra. Ambos são cofundadores e dirigentes da ASTIL (Associação dos Amigos Solidários com Timor-Leste), criada em 2015, com sede em Coimbra.

De Timor Leste o Rui mandou-nos na altura as crónicas dessa viagem (a segunda, de cinco já feitas, de 2016 a 2024).  Decidimos reproduzir uma seleção dessas crónicas, na medida em que elas nos ajudam  a conhecer melhor  a história recente e passada deste povo a que nos ligam laços linguísticos, culturais e afetivos. Laços que o própripo resume nestes termos: "Não sei explicar o que nos prende a esta gente"...

O Rui é membro da nossa Tabanca Grande desde 10 de maio último. Natural da Malcata, Sabugal, vive na Lourinhã onde durante cerca de 4 décadas foi professor de música no ensino secundário. Em Timor, o Rui tem-se dedicado de alma e coração aos projetos que a ASTIL tem lá desenvolvido, nas montanhas de Liquiçá, e nomeadamente a Escola de São Francisco de Assis (ESFA), em Manati / Boebau, no município de Liquiçá.

Em Dili ele costuma ficar em Ailok Laran, bairro dos arredores, na casa do Eustáquio (alcunha do João Moniz) , irmão (mais novo) do Gaspar Sobral,

(Por coincidência, ontem, segunda feira, o Papa Francisco chegou a Timor Leste para uma visita histórica de 3 dias.)





O "malaio" (estrangeiro) Rui Chamusco
e o seu companheiro de vaigem, o luso-timorense
 Gaspar Sobral.

Foto: LG (2017)



II Viagem a Timor: janeiro / junho de 2018 (Rui Chamusco, ASTIL)


Parte XII -   Não sei explicar o que nos prende a esta gente.




(...) Dia 01.062018, sexta feira - Dia Mundial da Criança


Neste dia todos temos de ser criança. Porque é um dia especial, não há desculpa para nos alhearmos desta celebração. As redes sociais inundam-nos com publicações sobre o evento. Por todo o lado se ouvem os vivas e as palmas como sinal de festa. Pois que seja uma grande festa!

Sem esquecermos as crianças que, devido à guerra, aos maus tratos, às separações, à fome, à falta de escolas, às dificuldades económicas e tantas outras carências são
privadas dos festejos deste dia.

Cada um, à sua maneira, faça o que pode e deve fazer para que o mundo das crianças seja cada vez melhor. E, quem tiver oportunidade, ao menos neste dia pegue ao colo uma criança, para sentir bem junto a si o dom da vida a nascer e a crescer. 

Ou então como diz a canção francesa: “prend un enfant par la main; pour l’amèner vers demain; pour lui donner la confiance en ses pas; prend un enfant dans tes bras.” [Pega uma criança pela mão; para a levar para o amanhã; para lhe dar confianças nos seus passos; toma uma criança nos teus braços" (LG)].

Hoje tive esta sorte: O Zé (uma criança de um ano de idade,o filho mais novo do Anô) foi trazido para o meu colo onde esteve brincando durante mais ou menos meia hora.

Entre mimos e mais mimos, o Zé ganhou tal gosto e descontração que não resistiu a
deixar-me de presente uma boa mijatada. Com certeza que não o irei esquecer
facilmente.

Dia 02.06.2018. sábado - Por esta 
não esperava eu

Como há dias combinámos amanhã dia 4 de junho regressaremos às montanhas de
Liquiçá, mais propriamente a Boebau, onde espero dar um reforço na aprendizagem do português e da música. Então não é que a minha perna esquerda voltou a estar emperrada nos movimentos! Bem temos tudo feito para que as dores me deixem em paz: massagens, massagens e mais massagens... mas, não sei não. 

Vamos lá a ver se me aguento em cima da mota. Alguma apreensão, mas nada que me tire a boa disposição e a vontade de viajar. Só se for de todo impossível. Prometi que voltaria antes de ir para Portugal e tenho de cumprir custe o que custar. Como se diz, a esperança é a última coisa a morrer...

Dia 03.06.2018, domingo - Tenho que voltar a Boebau antes de partir...

Quando prometo e não cumpro sinto-me interiormente revoltado. Pelos vistos já não foi hoje, nem amanhã, e eu sei lá se conseguirei mesmo ir a Boebau. O raio do joelho está a incomodar-me em demasia. Costuma dizer-se que “Deus escreve direito por linhas tortas”. Será algum aviso? Mas se não forem oito dias, que seja ao menos dois ou três.

Tenho que ir a Boebau antes de partir... E se não for? Ficarei mesmo desconsolado..
Tenho que dizer aquela gente, aquelas crianças que em breve voltarei, que não as
abandonarei, que a escola de São Francisco tem que funcionar, para o bem delas e para o bem destas povoações. 

Que Deus me dê forças para vencer qualquer desânimo ou tentação de abandono. Quando a cabeça e o coração se entendem também o resto do corpo tem que colaborar. Por isso tenho fé que esta peça que agora faz gazeta depressa se recomponha. E “se o coração não engana, havemos de ir a Viana”.


 Observar e contemplar

Esta tarde, a falta da luz elétrica obrigou-nos a pôr de lado o computador e a sair para o exterior tentando ocupar o tempo. Sentados como habitualmente no hall de entrada, dou comigo a observar uma cena que dá que pensar. Sem que ninguém esperasse, começam a chegar apressados galináceos de todas as idades. Pelos vistos, era a hora da sua refeição. O Eustáquio levantou-se e foi procurar uns punhados de arroz que projetou no chão em frente. Verifiquei então que havia uma hierarquia no acesso ao alimento, e ai de quem ousasse contra. 

Primeiro os maiores, os mais fortes, que penicavam os grãos com sofreguidão, afastando para longe com ataques de picadas os atrevidos invasores. Depois, vinham os de porte médio, os franganitos saciar a sua fome. Os mais pequenos, os pintaínhos, nem sequer ousavam aproximar-se; entretinham-se a esgravatar ao lado o redondel duma pequena planta. Somente os mais pequeninos de todos, os pardais, conseguiam infiltrar-se por entre os grandes. Esses sim. De tão pequeninos, passavam quase despercebidos dos maiores e assim fizeram em conjunto o festim.

Onde é que eu já vi isto? Será que entre os humanos não acontece algo idêntico? Que significado têm as minorias? O caminho é duro, é difícil mas possível, pois não há sistema, sociedade ou grupo totalmente hermético, que não tenha alguns locais de fuga e de infiltração. E daí o provérbio “ os primeiros serão os últimos e os últimos os primeiros”. O que hoje é grande poderá amanhã ser pequeno; o que hoje manda amanhã terá de obedecer; o que hoje é rico amanhã poderá ser pobre. Todas as “torres de Babel” ao longo da história têm conhecido desmoronamentos; todos os “bezerros de oiro” idolatrados têm passado ao esquecimento.

Entretanto, logo aqui em frente, as crianças brincam alegres e indiferentes às nossas cogitações. Parecem “ bandos de pardais à solta”, os putos...os putos”.


Dia 06.06.2018. quarta feira - Moonlight,  Sonata de Beethowen

Acabo de ver e ouvir no Youtube, interpretada na guitarra clássica pelo artista Michael Lucarelli a Sonata Moonlight de Bethoven, já ouvida várias vezes interpretada sobretudo ao piano.

Por coincidência ou não, a luz da lua cheia faz-se presente, e vêm -me à ideia uma série de imagens e sons que a lua e o luar suscitam: “Andar com a lua”, “lunático”, “aluado” são expressões que utilizamos frequentemente e que revelam a influência que este astro tem nas nossas vidas. 

Até os pescadores e os agricultores se deixam orientar por ela, escolhendo as melhores marés para a faina, as melhores luas para plantar, enxertar, podar, etc. Os poetas e trovadores tecem-lhe “loas”, os amantes projeções, os compositores sonatas. Os homens sempre tiveram grande atração por ela. Enviam saudações, naves, astronautas, e até dizem que já lá estiveram. Já a casaram com o sol, ainda que raramente se encontrem. 

Em jeito de anedota conta-se, que um dia o sol foi pedir o divórcio a Deus, que lhe perguntou porque lhe fazia tal pedido. Ao que o sol respondeu: ”Anda só de quarto em quarto e, de vez em quando, aparece cheia”.

Seja como seja, o seu luar é encantador. É algo que muito se aprecia e usufrui. Recordo-me do refrão de uma canção do norte do Brasil “ Não há, ó gente, ó não - não há luar como este do sertão”. 

Recordo-me do luar de Boebau, nas montanhas de Liquiçá, aqui em Timor Leste. E recordo-me das noites de luar em Malcata, terra aonde a conheci pela primeira vez na minha vida, em que durante a infância, à noite, jogávamos à “Espada Lua”. Há dias foram publicadas pela Joela no Facebbok imagens deslumbrantes dos últimos luares de Malcata.

Por isso, e em atitude de contemplação, utilizo as palavras de São Francisco de Assis para rematar este relato: “Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã lua e as estrelas, que no céu formaste claras, preciosas e belas”. (Cântico das Criaturas
 -1224)

Dia 07.06.2018, quinta feira  - Indo eu, indo eu...a caminho de Boebau!


As coisas acontecem, muitas vezes sem muito pensar ou programar. Tendo eu prometido às gentes de Boebau de que não regressaria a Portugal sem que voltasse a esta terra, e estando eu ansioso por cumprir a promessa pois via o tempo a passar, eis que, de um dia para o outro, se toma a decisão de partir.

Assim, neste dia sete de junho, depois dos preparativos necessários, pusemo-nos a
caminho, em carreta alugada, do nosso destino. Eu, o Eustáquio, o Aipeu (dono do
veículo), o chofer e mais dois moçoilos.

Primeira surpresa do percurso: saídos de Dili, mais ou menos a cinco quilómetros de distância, uma roda traseira esvaziou devido a um parafuso intruso. Paragem obrigatória para a mudança do pneu, mas impossível de realizar pois não havia macaco na carrinha..

Mais de meia hora à espera que alguém passasse e quisesse ajudar, até que, finalmente, um cireneu se decidiu parar para resolver a carência.

Depois, até Boebau, foram quatro horas de saltos e sobressaltos, algumas paragens de motor, buracos e mais buracos a decorar o caminho. Compensáva-nos a maravilhosa paisagem que nos era oferecida pelos cafeeiros abrigados pelas soberbas madrecacau em flor  
[ Gliricidia sepium]
 ; as crianças que saindo da escola nos brindavam com o “Boa tardi”; os adultos que nos acenavam e, que bem me soube, a criança que, ainda longe da Escola São Francisco de Assis, me reconheceu e atónito exclamou: “avô Rui!!!”

Já chegados à escola, e depois das saudações calorosas dos amigos presentes, fomos almoçar a casa do Bôzé, onde o arroz com feijão foré, a papaia e o café alimentaram os nossos corpos.

Logo a seguir, mãos à obra, pois o tempo urge. A carreta não tinha faróis em condições para viajar de noite. Colocamos então no lugar certo os acrílicos identificadores da escola, e que dizem “Escola de São Francisco de Assis” em horizontal; e “Paz e Bem”, em vertical. O característico Tau com o qual Francisco de Assis assinava, por ser a última letra do alfabeto grego, e como tal queria ser o último, o mais humilde de todos..

A noite foi compensadora, com um sono repousante. E, como diz uma canção “ O dia chegou ao fim; silêncio... a noite desceu. Boa noite! Paz em Deus...”

Dia 08.06.2018, sexta feira - Acordar 
em harmonia

Se há coisas que a montanha proporciona, é esta sintonia com a natureza o que mais aprecio. Então logo de manhã, antes que qualquer outro ser dê o alarme ou antes que qualquer objeto mecânico se arme em despertador, começa a sinfonia galinácea. Um senhor galo, que bate três vezes as asas e enche o peito de ar, dá o mote com a sua voz potente e bem sonante: “Có-co-ró-có-cóóóó!!!” 

Seguem-se respostas diversas de outros executantes, vindas de todos os lados, a querer fazer lembrar um concerto em estereofonia. Por fim, há um cantante que, talvez por pensar que eu ainda estivesse a dormir, mesmo em frente do local que me destinaram, bate as asas, respira fundo e canta: “Acorda velhote que já são horas!” Ok! Já estava bem acordado, de modo que foi levantar da cama e começar este novo dia com alegria. À socapa para não incomodar ninguém, fomos saindo do habitáculo: eu, o galo e uma galinha com os seus pintainhos.

E toca a andar, que há muito para fazer.

Não sei explicar o que nos prende 
a esta gente
 

Não, nãp sei explicar o que nos prende a esta gente. Cada vez que aqui vimos novos laços são criados, novas razões aparecem para gostarmos cada vez mais do que estamos fazendo. 

Hoje, a professora Rita e o seu marido Julito disseram-me que da última vez que parti daqui, as crianças ficaram muito tristes. A nossa presença é motivo de muita alegria, de confiança e de esperança. Ainda bem que assim é.

Como já sabem que no dia dezasseis regressamos a Portugal, querem saber quando
voltamos a Timor. Sem darmos certezas informamos que, se Deus quiser, talvez na
segunda quinzena de Dezembro regressemos, porque queremos estar presentes no início do novo ano letivo, que será a partir do dia sete de Janeiro.

Quase sem querer, deixei escapar o desejo de pedir a nacionalidade timorense, sobretudo para evitar o pedido de renovação de visto ou de estadia. A alegria do Julito foi notória, dizendo que para o suco de Leotalá e para a gente de Boebau/Manati será uma grande honra. 

E conta como, através do projeto de solidariedade “Uma Escola em Boebau/Manati", esta região saíram do anonimato e do esquecimento. Têm a esperança de que muitas coisas boas poderão ainda acontecer, e que por isso acarinham fervorosamente este meu desejo.

Timorense ou não, continuaremos a prestar o nosso apoio a esta gente, a estas crianças. “ O que fizerdes a estes pequeninos é a mim que o fazeis”. E assim este mundo ficará um pouquinho melhor.


Pronto!... E aí vamos nós de “motor”para a reunião de pais

Sem que ninguém esperasse, logo de manhã, a professora Rita e o seu marido Julito
apareceram de “motor” para me fazerem um convite:participar na reunião de pais e
encarregados de educação que daí a instantes se iria realizar na escola primária de
Bantur/Kelor, a escola mais próxima daqui, a fim de esclarecer a situação da sua
colaboração na escola São Francisco de Assis. Há pais e encarregados de educação que não compreendem a sua colaboração connosco e reclamam a sua exclusividade para a escola dos seus filhos.

Pronto!, disse eu. E aí vamos nós de “motor”para a reunião. Muito bem recebido pelo professor coordenador e pelos presentes, tive a ocasião de explicar o porquê da Escola de São Francisco de Assis, como funciona, porque a professora Rita trabalha na nossa escola e, sobretudo, a vontade que temos de uma colaboração mútua.

Não houve questões, pelo que sou levado a concluir que o assunto está esclarecido.

Mais uma vez me dou conta de que, quando as coisas são bem explicadas, as pessoas são compreensivas e colaboradoras. Espero bem que, com esta ação, estas escolas se entendam e colaborem, para bem de todas as crianças que as frequentam.


(Continua)

(Seleção, alguns dos subtítulos, revisão / fixação de texto, parênteses retos, negritos: LG)
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Nota do editor:

Último poste da série > 23 de agosto de 2024 > Guiné 61/74 - P25872: II Viagem a Timor: janeiro / junho de 2018 (Rui Chamusco, ASTIL) - Parte XI: um futuro promissor, com mais de 60% da população abaixo dos 30 anos

terça-feira, 16 de julho de 2024

Guiné 61/74 - P25748: II Viagem a Timor: janeiro / junho de 2018 (Rui Chamusco, ASTIL) - Parte VII: "Bom dia, professor!"



Timor Leste >Liquiçá > Manati > Boebau > Escola de São Francisco de Assiz, "Paz e Bem"  (ESFA) > Alunos e professores. Foto da página do Facebook do João Moniz ("Eustáquio"), publicada em 22 de março de 2023. (Com a devida vénia...)



T
Timor Leste >Liquiçá > Manati > Boebau > Escola de São Francisco de Assiz, "Paz e Bem"  (ESFA) > 2024 > Aspeto exterior da Escola. Foto da página do Facebook do Rui Chamusco,, publicada em 5 de maio de 2024. (Com a devida vénia...)



Timor Leste > Liquiçá > c. 1936-1940 > Residência do Chefe de Posto de Liquiçá, na época colonial... Liquiçá  é hoje um dos 13 municípios de Timor Leste (c. 63 mil habitantes). Ficou tristemente famosa pelo massacre perpetrado pelas milícias pró-indonésias em 1999 ("massacre de Liquiçá") .

Foto do Arquivo de História Social > Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa > Álbum Fontoura. Imagens do domínio público, de acordo com a Wikimedia Commons. 

Editada por Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2024). Com a devida vénia...



Timor Leste > Liquiçá > 2016 > Vista aérea da cidade costeira de Liquiçá > Foto de Jorge Santos (aka Jrg Snts), publicada no belíssimo álbum  "Timor - a ilha feiticeira". Esta foto aérea está alojada na Wikimedia Commons.  

A vila de Liquiçá é rodeada por  duas ribeiras que vêm da montanha, à esquerda  Gularkoo, e à direita Lacló.  A cidade,  sede de município do mesmo nome, tem 19 mil habitantes.

Foto: © JgrSnts (2016) / This file is licensed under the Creative Commons Attribution-Share Alike 4.0 International license.
 



Lourinhã > 2017 > Rui Chamusco e Gaspar Sobral

1. Continuação da publicação de uma selcção das crónicas do Rui Chamusco, respeitantes à sua segunda estadia em Timor Leste (janeiro / julho de 2018) (*).

Membro da nossa Tabanca Grande desde 10 de maio último, é cofundador e líder da ASTIL (Associação dos Amigos Solidários com Timor-Leste), criada em 2015 e com sede em Coimbra.
 
Professor de música, do ensino secundário, reformado, natural do Sabugal, e a viver na Lourinhã, o Rui tem-se dedicado de alma e coração aos  projetos  que a ASTIL tem desenvolvido no longínquo território de Timor-Leste.

O Rui Chamusco partiu para Timor, em 25 de janeiro de 2018, com o seu amigo, luso-timorense, Gaspar Sobral, cofundador também da ASTIL. Em Dili ele costuma ficar na casa do Eustáquio, irmão (mais novo) do Gaspar Sobral, e que andou, com a irmã mais nova, a mãe e mais duas pessoas amigas da família, durante três anos e meio, refugiado nas montanhas de Liquiçá, logo a seguir à invasão e ocupação do território pelas tropas indonésias (em 7 de dezembro de 1975) (tinha "apenas" 14 anos...).

Voltamos à Escola de São Francisco de Assis, localizada em Boebau, Manati, município de Liquiçá, em plena montanha.


II Viagem a Timor: janeiro / junho de 2018 (Rui Chamusco, ASTIL)


Parte VII -  "Bom dia, professor!"



Dia 16.04.2018, segunda feira - Reunião Geral


A fim de se esclarecerem algumas situações e alguns pequenos conflitos foi convocada uma reunião geral na escola neste dia 16 de abril. 

Depois de ouvidos todos os intervenientes pudemos pôr a água na fervura e acalmar as hostes. A minha presença e do Eustáquio trouxe a compreensão e a paz a esta gente. Claro que seria melhor que este conflitos não aparecessem. Ou se calhar até não. Tudo isto ajuda a crescer e a ser mais forte, tal qual como quem nasce e aprende a dar os primeiros passos em ordem a um longo caminho que tem de fazer.

A proteção de São Francisco ajuda-nos a compreender e até a rezar a sua oração: onde houver guerra que haja paz; onde houver ódio que haja amor; onde houver ofensa que haja perdão, etc... 

Há gente que me identifica com esta personagem recorrente e este espírito franciscano. Que hei-de dizer? Eu não posso deixar de ser aquilo que me ensinaram a ser ao longo da vida. Mas quem sou eu para ser comparado com tal santo? Um grande pecador que, por mais que disfarce, nunca chegarei aos seus calcanhares. Por isso peço constantemente a sua proteção, para mim e para os outros.


 A alegria e a vontade de aprender



Hoje foi a primeira aula (se assim se pode dizer). A sala de São Francisco estava repleta de crianças de todas as idades, algumas ao colo de suas mães, para aprenderem a falar o português. 

Há crianças de 10 e 11 anos que nunca foram à escola. Estou certo que para a maioria delas terá sido a primeira vez que balbuciaram tais palavras. Imitando, cantando, soletrando por mais de duas horas estivemos “online”, com a vontade enorme de saber, de aprender, de comunicar em português. 

O facto de as escolas estarem de férias em Timor (final do 1º período) trouxe-nos ainda mais afluência à nossa escola. Por isso, organizamos um turno de tarde para os mais crescidos, jovens e adultos. Ou seja, um dia bem cheio de atividades. Valeu-me a ajuda preciosa da professora Rita, que dá aulas de manhã na escola mais próxima, e de tarde na nossa escola.

Já sei, por experiência da minha avançada idade, que todas as atividades têm um início empolgante, e que depois sofrem de algum desinteresse e entusiasmo. Mas não deixa de ser compensador a alegria sobretudo das crianças ao repetirem palavras, gestos, sons que lhes são propostos. E então o entusiasmo com que cantam e dançam o malhão, deixam-nos o coração em pedaços.

Dizem e desejam que “se o Tiu Rui cá estivesse todo o ano a gente aprendia depressa o português”, talvez porque é ensinado a cantar. 

Pois é! A idade não perdoa e não será fácil tal decisão. Mas, enquanto houver forças, o meu apoio nunca faltará. Não há por aí voluntários e voluntárias que queiram experimentar?...


Arco iris, símbolo da esperança


Não é nem de longe a primeira vez que contemplo este fenómeno da natureza. Todos sabemos como ele se forma, mas cada vez que com ele nos encontramos ficamos atónitos, a olhar para a sua beleza. Pois em montanhas timorenses sim que é o primeiro encontro. Agora imaginem a beleza e encanto neste quadro tão elegante da natureza. 

À semelhança de São Francisco, contemplo embasbacado esta beleza e dou por mim a louvar o Senhor que criou tanta beleza: “Louvado sejas meu Senhor pelo nosso irmão o arco iris, que fizeste tão belo e esplendoroso. De Ti Senhor ele é a imagem.”

A policromia das suas cores faz-me lembrar a harmonia dos sons, das notas musicais. Um tema forte para uma criação musical, que talvez um dia aconteça, em terras de Boebau. A harmonia é o símbolo forte da nossa escola, que se pode traduzir em cores, em sons, em relações sociais e atitudes individuais. A esperança, essa virtude tão humana e tão divina, será um farol que, com as cores do arco iris, nos iluminará e guiará rumo a um futuro cada vez melhor para estas crianças e toda esta gente. Assim cremos e queremos...

 Colia... colia... colia...

Estamos aqui em Timor, em tempo de campanha eleitoral para o Parlamento. Não sei de nada, mas vou ouvindo. Tal como aí ou em qualquer parte do mundo civilizado, multiplicam-se os pregadores e anunciadores de programas, tentando convencer o eleitor de que o seu partido é melhor do que os outros. Falam...Falam...Falam...! (colia...colia...colia...).

É fácil falar... É difícil dizer algo com substância... É difícil fazer... É muito mais difícil fazer bem... Como diz o ditado:” Não faças como o Tomás. Olha para o que ele diz e não para o que ele faz.”  (...)


Dia 17.04.2018 - Presente!...



Mais ou menos 50 crianças e alguns adultos disseram “Bom dia,  professor” ao entrarem ordenadamente para a sala de São Francisco. Depois, seguem-se as palavras de identificação de objetos, as expressões e frases mais usuais em português, as canções, as notas da música. 

Durante duas horas estivemos ensinando e aprendendo. É certo que a missão do professor é ensinar, mas também se aprende muito com esta gente. Aprender até morrer, uns com os outros.

Como o lenço não é objeto que se use por estas bandas, o mais comum é recebermos o cumprimento das crianças (o beija-mão) entre ranho e lágrimas, Nada que nos incomode, porque este viver é tão natural que o nosso corpo tudo aguenta e suporta. E mesmo que alguns hábitos culturais, por exemplo o mascar do betel (malus+areca+cal), a vontade de aculturação é tão forte que tudo suporta. È uma questão de pensarmos no essencial da vida.

De tarde, antes do turno da tarde às 16.00 horas, quis ir conhecer a escola mais próxima, a escola de Fatu. Acompanhado do Laurindo, percorremos a distância que nos separa, parando aqui e acolá para cumprimentar amigos do Laurindo. 

Há crianças que chegam a fazer 7,50 quilómetros por dia para frequentarem esta escola. A carência desta gente é tanta, devido ao isolamento e falta de meios económicos, que algumas famílias queriam oferecer o café aos visitantes mas não puderam, justificando-se “não temos café nem açucar”. Assim, pude sentir na pele as dificuldades do caminho a que estes alunos estão sujeitos, com sol que foi o caso, ou com chuva.

Dia 18.04.2018, quarta feira  - Um almoço inesperado


Devido às dificuldades de comunicação digital por não haver rede elétrica disponível, e a conselho do amigo Laurindo, fomos até à casa ainda em fase de acabamentos do sr. Manuel dos Santos, ou como eu gosto de o chamar comandante Sarunto Limurai. 

Já falei com ele várias vezes, cumprimentando-nos sempre com um caloroso abraço. O meu comandante estava ausente devido ao trabalho, mas o seu filho João recebeu-nos com toda a simpatia. O objetivo da visita era carregar o meu telemóvel através do gerador ali em funções. 

Telemóvel à carga, umas cadeiras para descansar e um pouco de conversa como aqui é habitual. E, enquanto esperava pelo sinal de partida, eis que chega a ordem da casa: “Vamos comer!...” 

Já vou entendendo esta gente e o seu modo de ser. Chegando a hora da refeição, esteja quem estiver a refeição é para todos. Há sempre lugar para mais um, para mais dois ou para mais três. Já me vou habituando a não recusar e a aceitar toda esta hospitalidade. Claro que almoçamos, com todo o prazer, e que bem me soube aquele invariável arroz, acompanhado de peixe e folhas de mandioca, com o remate do bom café timorense. 

Já no final do almoço aparece o nosso herói que, surpreendido, manifestou efusivamente a sua alegria de nos ter em sua casa através de um forte abraço. Obrigado,  amigo e família. Com certeza que celebraremos mais vezes esta amizade sincera.


Restos mortais e outras coisas...


Junto à escola estão umas quantas campas dos antepassados das famílias que aqui moram e que, por uma questão de respeito, nós prometemos que iríamos reparar. Hoje, olhando em pormenor este espaço com a ajuda de alguns dos trabalhadores na terraplanagem (feita a pulso sem qualquer máquina) da escola, vim a saber algo inesperado.

 Foram encontrados uns quantos cadáveres, alguns ainda bastante recentes, que depois de serem contactadas as famílias foram deslocados para o sítio do cemitério familiar que queremos reparar. Os cadáveres não identificados foram sepultados em campa comum, supondo-se até que haja alguns de soldados indonésios.

 Precisamente em primeiro plano a seguir à escola está um espaço demarcado sem qualquer elemento identificativo que afirmam estar sepultado o Mau Quinta, aquele de quem já falei nas primeiras crónicas e que durante a guerra, num gesto de desespero e vingança, cortou com a sua catana a cabeça do seu comandante por este o ter tentado matar. Este espaço é um símbolo de que a traição não é coisa boa, e de que a confiança mútua é sempre o melhor caminho.


Dia 19.04.2018, quinta feira - O Hino da escola


Não sei porquê, mas a insónia desta noite levou-me a estar em alerta várias horas, pelo que tive tempo de mentalmente percorrer muitos caminhos e projetos. Foi então que surgiu a ideia: e se fizesse um hino da escola para que todos possam cantar? 

Vira e revira, põe e tira, de trauteamento em trauteamento vou criando a melodia, a letra, a forma. Às sete horas da manhã já estava na escola tentando concretizar a respetiva partitura que, com inspiração ou sem ela, ficou pronta num instante.

Pelas dez horas chegam as crianças que, acompanhadas de alguns adultos, enchem literalmente a sala de São Francisco. À semelhança dos dias anteriores, começaram as saudações, as palavras, as frases em português, seguidas de canções. 

E pronto, aparece o hino da escola que, com facilidade é assumido na sua letra, música e gestos. Esta gente de Boebau, tal como qualquer timorense, tem cá um ouvido de invejar. Em poucos minutos tudo canta com entusiasmo o hino da escola. Não posso esconder que senti alguma emoção ao ouvir estas vozes cristalinas cantando “Obrigado! Obrigado! Obrigado com amor... Obrigado Obrigado! Obrigado meu Senhor!...” E, já agora, a letra do hino:


HINO DA ESCOLA DE SÃO FRANCISCO BOEBAU / MANATI

Letra e música:  Rui Chamusco

1. A escola de São Francisco,
Um projeto de Paz e Bem,
Para o povo de Boebao/Manati,
Um presente que a gente tem.

Por isso cantamos:

Refrão:

OBRIGADO! OBRIGADO!
OBRIGADO COM AMOR...
OBRIGADO! OBRIGADO!
OBRIGADO, MEU SENHOR!.
..


2. São Francisco lá na glória,
Lá nesse formoso céu,
Protege a nossa escola,
Protege este povo teu.

Por isso cantamos:

Refrão (...)

3. Vamos todos contribuir
Com amor e confiança,
Construir um mundo novo
Para todas as crianças.

Por isso cantamos:


Refrão (...)

(Ver aqui na página da ASTIL os miúdos da ESFAMB (Escola São Francisco de Assis. de Manati, Boebau) a cantarem  o seu hino. Uma ternura!... Vídeo: 4' 44''. Data: 8 de dezembro de 2020.)

 (Título, seleção de excertos, revisão / fixação de texto, negritos: LG)

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Nota do editor:

(*) Vd. poste de 8 de julho de 2024 > Guiné 61/74 - P25724: II Viagem a Timor: janeiro / junho de 2018 (Rui Chamusco, ASTIL) - Parte VI: Uns com tanto, e outros com tão pouco