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domingo, 12 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28176: Notas de leitura (1936): "3x44: Abel e Caim em Contrapé", de António Carvalho (Porto: eVida, 2026, 287 pp.): dois continentes, dois destinos (Luís Graça)


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Gondomar > Medas > Fundação Hermínia Rei Vilar > 11 de julho de 2026 > 15h00 > Sessão de apresentação do livro "3x44: Abel e Caim em Contrapé", editado pela eVida, chancela do jornal Vida Económica. O romance tem 287 pp.


1. Com a devida vénia, reproduzimos estas fotos (sem legenda, numeradas por nós, na nº 1 o autor e a esposa Maria de Fátima) e este apontamento da sessão de lançamento do livro do António Carvalho. Fonte: Página do Facebook da Vida Económica (11 de julho de 2026, 15h00):


Uma tarde de encontros, partilha e celebração da literatura.

A apresentação de “3x44 – Abel e Caim em Contrapé”, a mais recente obra de António Carvalho, reuniu familiares, amigos, leitores e convidados num momento marcado pela emoção, pelas memórias e pelo prazer de partilhar histórias.

O nosso agradecimento a todos os que estiveram presentes e contribuíram para o sucesso desta sessão, bem como ao Grupo Vida Económica, através da sua chancela eVida, pelo apoio e pela aposta na divulgação da literatura portuguesa.

Que este livro siga agora o seu percurso, encontrando novos leitores e inspirando novas reflexões.

Obrigado por fazerem parte deste momento especial.



2. Texto que mandei ao António para ser lido na sessão de apresentação do seu romance "3x44: Abel e Caim em Contrapé" (Porto: eVida, 2026), que se realizou ontem, à tarde, na quinta da Fundação Hermínia Vilar Rodrigues, em Medas, Gondomar.

António, começo por saudar-te, a ti, que és o artista principal desta sessão literária, o motivo afinal por que estamos aqui.

E saudar todos os demais presentes, a começar pelos donos da casa, a Fundação Hermínia Vilar Ribeiro, a par da coapresentadora, a doutora Angélica Lima, e do Jorge Castro Guedes, encenador, mestre em Artes Cénicas pela Universidade, a NOVA de Lisboa, que se voluntariou
para me emprestar a sua voz (e a quem fico, desde já, muito
reconhecido, não podendo eu estar, aqui, fisicamente presente por razões imperiosas).

António (e amável audiência): eu, por mim, dava uma.. "aula de hora e meia" para falar deste teu segundo livro... Que li de fio a pavio, em formato digital, na esplanada da praia, tentando fugir da canícula que nos castiga por estes dias.

Li o teu livro, deliciado, e suspenso do final, empolgante e genial. E, todavia, não é um "thriller".

Não, não quero nem posso abusar da paciência dos teus convidados e teus futuros leitores. Tenho sempre presente a tripla obrigação do apresentador de um livro:

(i) dar a conhecer o autor/produtor e o livro/produto;

(ii) suscitar curiosidade, interesse, empatia no leitor, através de uma sinopse do livro;

(iii) levá-lo, por fim a comprar o livro, a lê-lo, a discuti-lo, a promovê-lo, a partilhá-lo com outros...

Como mandam as boas regras do marketing (nas áreas do social e do cultural), tenho de ser claro, conciso, preciso e... entusiástico.

Vou-te apresentar o livro, não como "académico", mas como amigo, ex-camarada de armas e até confidente (tive o privilégio de acompanhar um pouco, à distância, o "making of" do teu livro...). E, não preciso de to lembrar, fiz-te a apresentação do teu primeiro livro, "Um caminho de quatro passos", em 2021, em Fânzeres, na Tabanca dos Melros...

Deixem-me então desenvolver três ou quatro ideias sobre o autor e o seu livro, que cruza dois continentes e dois destinos. Há um primeiro leitor, português, que sou eu, e uma segunda leitora, brasileira, que é a Angélica Lima. Julgo que fomos os primeiros a ter o privilégio de ler o manuscrito do livro em primeira mão.

Trata-se, pois, de um exercício a quatro mãos, que todavia não foi ensaiado, nem sequer à distância.

O romance "3 x 44 – Abel e Caim em Contrapé" conta a história de um homem comum, transformado pelas grandes migrações e pelas circunstâncias do seu tempo.

Abel, natural de Emendadas, é enviado ainda criança, em 1909, para uma fazenda de café no interior do Estado de São Paulo, onde cresce, trabalha, apaixona-se pela primeira vez por uma mulher, ao mesmo tempo que se deixa tocar e marcar profundamente pelo Brasil.

É aí que surge Chiquinha, uma jovem afro-descendente, determinada, inteligente e independente. O amor entre ambos nasce naturalmente, mas a vida (e as opções de vida de cada um) acaba por separá-los.

Quinze anos depois, Abel regressa a Portugal, em 1924, convencido de que um dia voltará ao Brasil. Nunca mais voltará.

Tema exaustivamente glosado na literatura portuguesa dos séc. XIX e XX, é um "brasileiro de torna-viagem" que não já não é inteiramente português nem inteiramente brasileiro, é um homem em contrapé, com duas identidades em conflito.

A Chiquinha, essa, permanecerá na sua terra, fiel ao seu próprio projeto de vida. Contudo, apesar da distância e dos muitos anos de separação, continua a habitar a memória mais íntima de Abel, sobretudo nos momentos decisivos e dramáticos da sua existência.

De regresso à aldeia, Abel torna-se um próspero negociante de madeira, lenha e carvão, recursos então escassos e muito procurados. Estamos em plena II Guerra Mundial e no auge do Estado Novo.

O protagonista desta história casa, enviúva, cria os dois filhos pequenos e procura reconstruir a sua vida conjugal e familiar.

Mas o sucesso desperta invejas. É então que ganha relevo a figura de Caim, vizinho consumido pelo ressentimento, cuja hostilidade cresce sem causa proporcional aos gestos de generosidade que Abel lhe dispensara.

O contraste entre os dois homens vai-se adensando até desembocar numa tragédia anunciada logo desde as primeiras páginas.

O verdadeiro protagonista é, contudo, Abel. O autor afirma- o expressamente na Introdução. Chiquinha não é apenas a figura feminina da história. É o grande amor da juventude, a memória permanente que acompanha Abel até ao fim da vida, embora os dois nunca mais se reencontrem.

Chiquinha simboliza também a resistência, a educação como arma e a libertação dos oprimidos. Depois de aprender a ler, na fazenda, com Abel, torna-se professora e ajuda os outros a libertarem-se das trevas da ignorância e das grilhetas da opressão.

Caim é importante, mas sobretudo como contraponto moral e dramático. Representa a inveja, o ressentimento e a violência que acabarão por conduzir à morte de ambos.

Não conto o desfecho: comprem e leiam o livro.

Mais do que um romance de ação, esta é uma grande narrativa sobre a emigração portuguesa para o Brasil, a vida rural durante o Estado Novo, os efeitos da Segunda Guerra Mundial na economia portuguesa, a figura do brasileiro torna-viagem, os afetos, a memória e a condição humana.

O título remete para o episódio bíblico de Abel e Caim, mas António Carvalho evita a armadilha das simplificações morais: as suas personagens não são arquétipos, são profundamente humanas, moldadas tanto pelas suas escolhas como pelas circunstâncias da História.

O resultado é uma saga familiar e social em que o amor, a ambição, a inveja, a liberdade e o destino caminham constantemente... em contrapé.

Lógica e cronologicamente, podíamos dividir esta saga em três atos:
 
Ato I - A partida de Abel para o Brasil e a sua formação
(1909–1924);

Ato II - O regresso (contrariado) a Emendadas e a vida em Portugal (1924–1944);

Ato III - Chiquinha, a heroína do Brasil (1924– 1980 +) e o "ajuste de contas no além";.

O(s) diálogo(s) dos mortos no cemitério (Ato III) é(são) momento(s) de realismo mágico que eleva o romance a um patamar filosófico e universal.

"3x44! pode parecer um título cabalístico. Caberá ao autor (ou ao leitor) descodificá-lo. Não vou roubar esse prazer a ninguém. Direi apenas que é o jogo dos números e dos destinos que se cruzam e descruzam.

Abel e Caim são como dois lados da mesma moeda:

  • Abel, o sonhador que falha (regressa a Portugal sem fortuna, morre traído);
  • Caim o invejoso que se destrói (suicida-se, condenado pela sociedade);
  • E há ainda a terceira personagem, forte, poderosa, feminina, a Chiquinha: a sobrevivente que vence (liberta-se das grilhetas, dos preconceitos, das ameaças, ensina, educa, transforma o mundo à sua volta).
Chiquinha, a filha de uma ex-escravizada, Abel ensina-a a ler, é a sua primeira aluna e o seu primeiro grande (e único) amor. A relação entre eles é pura, platónica e transformadora: ele abre-lhe as portas do conhecimento; ela abre-lhe os olhos para a injustiça social (quilombos, escravidão, segregação social e racial).

Recorde-se que a abolição da escravatura no Brasil "de jure" mas não "de facto" é tardia: 1888 (Lei Áurea).

O António não inventa um mundo. Parte de uma velha história que ouviu contar em criança, na sua terra. Quiçá assustado, ou até aterrorizado.

Como acontece tantas vezes na literatura, um "fait-divers" quase esquecido transforma-se em romance. É isso que faz a boa literatura: salva do esquecimento aquilo que parecia perdido no sótão da memória coletiva.

Não é um  "thriller"muito menos um romance policial. É verdade que existe um crime. Mas o assassínio de Abel é apenas o motor da narrativa. Caim teria que ser logo o suspeito, como na história bíblica, e onde, de resto, não falta uma Eva, nada e criada nas "ilhas" do Porto.

O verdadeiro protagonista é outro. É coletivo. É uma comunidade. É Medas. É o Douro e sua faina fluvial. É a emigração para o Brasil. É o Estado Novo. É a vida rural. É a dureza do trabalho. São as carquejeiras. É o mundo dos "brasileiros de torna-viagem" É uma civilização inteira que desapareceu.

António Carvalho escreve contra a "vala comum do esquecimento". E esse é um traço comum entre mim e o António. Tenho defendido e reafirmado, há mais de 20 anos a esta parte, no blogue "Luís Graça & Camaradas da Guiné" o nosso direito e dever de memória como antigos
combatentes. Procuramos preservar vidas, pessoas, lugares, geografias emocionais, episódios de tropa e de guerra etc., que a História com H grande quase sempre deixa para trás.

Só que agora a memória, que é matéria-prima do António, já não é apenas autobiográfica. É coletiva. É quase etnográfica. É uma homenagem aos homens e mulheres anónimos que fizeram aquele mundo.

O António é, antes de tudo, um contador de histórias. Não pertence à escola da escrita minimalista. Escreve com gosto. Demora-se. Delonga-se. Descreve. Deixa um parágrafo inteiro ocupar o espaço de uma página. Deixa a ação espraiar como as águas do seu Douro. Ouve-se a oralidade da conversa a fluir junto ao lume, com as panelas de ferro de três pés.

Essa oralidade é uma marca muito própria. Que já vem do primeiro livro, Não deve ser confundida com excesso. Não é defeito, é uma opção estética. É uma forma de preservar a maneira de falar e de contar do mundo rural onde tem ele tem raízes telúricas, genéticas, socioecológicas, culturais.

Há escritores que inventam lugares imaginários. António Carvalho fez o contrário. Pegou numa pequena freguesia do concelho de Gondomar, a sua terra natal, e mostrou que nela cabem todos os grandes temas da literatura de todos os tempos: a infância, a emigração, o amor, a inveja, a ambição, a morte, a memória, o destino. Mas também a
liberdade e a dignidade do ser humano.

Quem ler "3x44 Abel e Caim em Contrapé" não encontrará apenas um crime por deslindar. Encontrará um país que já não existe, mas que continua vivo enquanto houver quem o saiba contar ou recriar.

Nesse aspeto, lembrou-me, guardadas todas as distâncias, alguns dos nomes grandes da literatura portuguesa dos últimos dois séculos, do romantismo de meados do séc. XIX ao neorrealismo de meados do séc. XX: Camilo Castelo Branco, Júlio Dinis, Eça de Queiroz, Miguel Torga, José Rodrigues Miguéis, Ferreira de Castro, Alves Redol, etc.

Em todos eles, está presente a figura do emigrante, e nomeadamente o "brasileiro de torna-viagem", o drama da emigração, o retorno, a crise de identidade...

Creio que a grande força deste romance não reside apenas na história que conta, mas sobretudo na forma como a conta.

Antes de mais, trata-se de uma verdadeira saga. A vida de Abel atravessa dois continentes, o Velho e o Novo Mundo, Portugal e o Brasil, e quase meio século de História.

A narrativa acompanha o percurso de um homem vulgar, sem nunca o transformar num herói que, segundo a mitologia grega, é sempre mais do que um homem, e menos que um deus. É precisamente essa condição de homem comum que o torna tão próximo de nós, leitores.

Um segundo aspeto que merece destaque, é a extraordinária reconstituição histórica e social.

O autor não fala como sociólogo, antropólogo, psicólogo ou historiador,  revela, isso sim, uma grande sensibilidade sociocultural e um conhecimento profundo, empírico, do mundo rural português da primeira metade do século XX: os trabalhos agrícolas, a navegação no Douro, o comércio das lenhas e do carvão, a emigração para o Brasil, as formas de falar, de trabalhar, de namorar, de casar, de negociar, de
rezar e até de morrer.

Nada disto aparece como simples "décor" ou cenário: faz parte da própria respiração da narrativa. E é aí que ele se sente nas suas sete quintas e mostra o seu talento literário.

Ao mesmo tempo, o romance mostra como a História interfere silenciosamente na vida de todos nós. A Segunda Guerra Mundial, o Estado Novo, o racionamento, as restrições económicas, as viagens transatlânticas, os ciclos económicos, os mecanismos de controlo do regime ( da censura à polícia política), etc., surgem sempre através das consequências concretas que produzem no quotidiano das personagens. Mais: com o autor evitar ou recusar cair no
fácil registo panfletário.

Outro elemento particularmente conseguido é a construção psicológica das personagens.

Abel é um homem empreendedor, trabalhador e generoso, mas também vulnerável, emocionalmente frágil, preso às recordações, às perdas e aos arrependimentos.

Chiquinha representa, por seu turno, muito mais do que um amor de adolescência e juventude: é uma presença permanente na memória de Abel, quase um ideal de vida que o persegue até à morte. E até depois da morte. O diálogo "post mortem" com a Chiquinha é outra página de
antologia.

Já Caim não é apenas o "mau da fita". É uma personagem dominada pela inveja, pela pobreza, pelo ressentimento e pelas frustrações acumuladas, mostrando como sentimentos aparentemente pequenos podem crescer até adquirirem a força devastadora de um vulcão assassino.

Gostei também da utilização discreta, mas muito eficaz, do simbolismo bíblico. Os nomes Abel e Caim remetem inevitavelmente para o primeiro fratricídio da nossa tradição judaico-cristã.

Contudo, António Carvalho não tem a veleidade de reescrever esse episódio da Bíblia (quase fundacional da moral judaico-cristã). Serve-se desses nomes (a que há a acrescentar a Eva) para propor uma reflexão sobre a natureza humana, mostrando que o bem e o mal não
aparecem em estado puro, nem são o verso e o reverso da mesma medalha, mas estão misturados nas circunstâncias, nas escolhas e nos acasos da vida, enquanto jogo de luz e sombra.

Merece igualmente destaque a linguagem e o estilo literário. O autor escreve num português rico, elegante e profundamente expressivo, com uso da metáfora e outros recursos estilísticos, recuperando um património lexical rural que hoje quase desapareceu, ou ainda não foi grafado pelos nossos lexicógrafos.

Muitas páginas têm um evidente sabor etnográfico, sem perderem fluidez narrativa. Sente-se que há um enorme trabalho de investigação, mas nunca se tem a impressão de estar a ler um pachorrento tratado histórico. O conhecimento está completamente integrado na ficção.

E que dizer do ritmo narrativo ? O romance alterna momentos de descrição demorada, quase contemplativa, com episódios de grande intensidade dramática. Essa alternância permite ao leitor respirar, conhecer melhor as personagens e compreender o mundo em que vivem antes de ser confrontado com os acontecimentos decisivos.

Sem querer nem poder ser exaustivo, direi que este livro tem também o mérito de nos deixar uma ideia simples, mas profundamente humana: cada vida resulta de uma mistura de vontade própria, circunstâncias, encontros, desencontros e acaso(s). Ninguém constrói sozinho o seu destino. Todos somos, ao mesmo tempo, atores e personagens da nossa própria história. Nós e a nossa circunstância.

É um romance que eu li, antes de mais, pelo prazer da narrativa. E que vou reler, agora em papel e de lápis na mão. E esse é seguramente um dos melhores elogios que se pode fazer a um jovem autor de 76 anos: o seu segundo livro, afinal o seu primeiro romance, permanece connosco depois da última página, porque nos leva a pensar na memória, no tempo, na emigração, no amor, na inveja e na fragilidade da condição humana e na sempre inacabada luta pela liberdade e felicidade.

Quero terminar com uma breve nota. Este romance começa no Brasil, passa pelo Brasil e regressa ao Brasil através da memória. E do Brasil falará, muito melhor do que eu,  a Angélica Lima a quem vou passar a palavra. Mas as suas raízes mergulham profundamente nesta margem do Atlântico, e do rio Douro. O autor não idealiza, nem um, Portugal onde nasceu, nem outro, o Brasil onde o Abel poderia ter sido livre e feliz.

Há um Portugal inteiro dentro destas páginas:
  • o Douro dos barcos, das marés e das inundações;
  •  a aldeia de Emendadas, com os seus lavradores (cuja riqueza se mede pelo número de juntas de bois, carros de milho, sacas de batata e pipas de vinho), com os seus jornaleiros, cabaneiros, mineiros, carquejeiras, barqueiros;
  • a cidade do Porto, a cidade grande, e o porto de Leixões, cais de partidas e regressos, ou seja, fábrica de histórias;
  • o Estado Novo, sentido não através dos discursos oficiais, mas através da vida concreta das pessoas.
É esse Portugal popular que António Carvalho recria com uma impressionante riqueza de pormenores e grande talento literário. O leitor não encontra apenas personagens: encontra modos de viver, de trabalhar, de falar, de amar e de sofrer que pertencem à memória coletiva de várias gerações.

É sobretudo esse registo que me toca mais, tanto mais que não conheço o Brasil. Ao longo da leitura (penosa, porque quase sempre feita através do pequeno ecrã do telemóvel à beira-mar), tive todavia a sensação de não estar apenas perante um romance, mas perante um vasto fresco humano, onde a ficção e a memória histórica caminham lado a lado.

Gostaria, por isso, de terminar lendo um pequeno excerto situado precisamente neste universo português, onde se percebe bem a qualidade da escrita do autor e a extraordinária capacidade de recriar uma época e um mundo que já desapareceram, mas que continuam vivos graças à literatura. E nada melhor para o ler do que através a voz de um homem do teatro:

(...) Costumavam as mães, nos anos cinquenta do século passado, antes do cumprimento da norma obrigatória da missa do domingo, apressadamente, atamancar alguns padre-nossos e ave-marias, no cemitério de Emendadas, adjacente à Igreja Paroquial.

Quedavam-se frente a cada campa onde morasse familiar benquisto, não se esquecendo nem dos avós nem dos bisavós, muito menos dos pais e irmãos. Detinham-se por mais tempo defronte da sepultura de algum filho pequeno que não tivesse sobrevivido a doença sem médico ou epidemia sem cura. Então, quando acontecia, por mero adrego,
passarem pela campa de Caim, com alguns filhos pela mão, usavam dizer-lhes, depois de se assegurarem que não estava ninguém por perto, de modo ciciado:

- Não olheis prali, meus meninos, que está ali enterrado um home ronhe.

Era assim que, reiteradamente, manifestavam o seu repúdio pela presuntiva crueldade daquele morto, personagem secundária deste livro, inumado no canto amaldiçoado do cemitério, sem merecer o benefício da cruz, nem lhe dispensarem um pingo de água benta sobre a cova.

Mas não foi por Caim, sepultado sem missa nem padre, que me atrevi a contar as peripécias desta aventura decorrida em dois continentes. Fi-lo pela memória de Abel, supostamente sua vítima inocente, cujo corpo ali encontrara morada também, a bem poucos metros do outro. (...)

Lourinhã e Alfragide, 9 de julho de 2026, Luís Graça

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28168: Agenda cultural (896): Apresentação do romance, da autoria do António Carvalho, "3x44: Abel e Caim em Contrapé", Fundação Hermínia Vilar Ribeiro, Medas, Gondomar, sábado, dia 11, às 15h30. Entrada livre




1. É já no sábado, dia 11 do corrente, às 15h30, que o nosso camarada António Carvalho (ou "Carvalho de Mampatá", como é mais conhecido), ex-fur mil enf, CART 6250/72 (Mampatá, 1972/74) apresenta o seu segundo livro, o romance "3x44: Abel e Caim em Contrapé" (2026) (Editora: Vida Económica).


Local: Fundação Hermínia Vilar Ribeiro | Quinta do Carreiro, Lugar da Estivada, Rua da Bicha, nº 2, Medas, 4515-386 Gondomar |

Para mais informações consultar:

www.fundacao-hvr.pt | Email: geral@fundacao-hvr.pt | tlm: 9657 567 240. A entrada é livre.

A apresentação estará a cargo de:
  • Luís Graça, sociólogo, doutor em Saúde Pública pela Universidade NOVA de Lisboa e editor do blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (representado por Jorge Castro Guedes, encenador, mestre em Artes Cénicas pela Universidade Nova de Lisboa, dramaturgo, tradutor, copywritter, e que integra o Conselho de Administração da Fundação HVR, com funções de director-coordenador no Órgão Executivo);
  • Angélica Lima (doutora em Ciências da Educação pela Universidade Federal de São Paulo, escritora, educadora e consultora cultural, natural de São Paulo, Brasil, a viver em Portugal há 10 anos).


António Carvalho
Sinopse:

3x44 – Abel e Caim em contrapé, de António Carvalho, é uma narrativa de memória, identidade e destino, profundamente ligada à terra de Medas/ Emendadas, em Gondomar, às margens do Douro. A obra recupera o passado recente de uma comunidade marcada pelo trabalho duro, pela emigração, pelas relações familiares, pela religiosidade popular, pelas desigualdades sociais e pelos dramas silenciosos de gente comum. O prefácio sublinha precisamente esse valor de preservação da memória local, ao apresentar o livro como um contributo para dar voz a uma terra “tão esquecida” e às suas gentes, costumes e dificuldades.

No centro da narrativa está Abel, personagem principal, cuja vida se cruza com a emigração para o Brasil, o regresso a Portugal, os negócios no Douro, a viuvez, a relação com a comunidade e o conflito latente com Caim. O próprio autor assume que a morte trágica de Abel foi a “mola impulsionadora” da escrita deste livro, construído entre personagens reais e verosímeis, memória e imaginação.

TEMAS CENTRAIS
A obra aborda, entre outros temas, a memória coletiva e familiar; a vida rural no Portugal profundo; a emigração portuguesa para o Brasil; o regresso, a saudade e o desenraizamento; o trabalho no rio Douro, nas minas, na carqueja, na lenha e no carvão; a condição social das comunidades pobres; a religiosidade e os códigos morais da época; os conflitos humanos, a inveja, o ressentimento, a culpa e a violência.

A viagem de Abel entre Emendadas e o Porto, feita pelo rio, permite retratar um mundo económico e social muito concreto: o transporte de carqueja, carvão, lenha, vinho e outros bens, bem como a ligação comercial entre a aldeia e a cidade. A narrativa integra ainda o contexto histórico da Segunda Guerra Mundial e do Estado Novo, mostrando como a guerra, o racionamento, a censura e a intervenção do regime afetavam a vida quotidiana e os pequenos negócios.

PORQUE DEVE LER ESTE LIVRO
Deve ler este livro porque ele é, simultaneamente, uma história de vida e um retrato de época. Através do percurso de Abel, o leitor entra num universo onde o destino individual se cruza com a história coletiva: a emigração, a pobreza, o trabalho, a família, a honra, a perda e a esperança. A obra permite compreender melhor a vida de uma comunidade ribeirinha do Douro, os seus modos de falar, trabalhar, acreditar e resistir.

É também um livro sobre a natureza humana. Como se refere na apresentação, por detrás da aparente simplicidade da narrativa surgem “alegrias e tristezas”, “partidas e regressos”, dilemas morais, paixões e conflitos humanos.

O que distingue esta obra é a forma como cruza memória local, ficção narrativa e reconstrução histórica. António Carvalho não se limita a contar uma história individual: procura preservar uma comunidade, os seus usos, os seus medos, as suas palavras, as suas tragédias e a sua dignidade.

A obra destaca-se também pela atenção ao detalhe etnográfico e social: a casa rural, o rio, os barcos, as vendas, os negócios, a igreja, o cemitério, os pobres, os emigrantes, os trabalhadores e as mulheres que sustentavam discretamente a vida familiar. Ao mesmo tempo, a oposição simbólica entre Abel e Caim dá à narrativa uma dimensão moral e universal, aproximando-a de uma reflexão sobre o bem, o mal, a inveja, a fatalidade e a fragilidade das relações humanas.

PÚBLICO-ALVO
Este livro destina-se a leitores interessados em romance histórico e memorialístico, literatura de matriz regional, história local de Gondomar e do Douro, emigração portuguesa para o Brasil, vida rural portuguesa no século XX e narrativas centradas nas comunidades do chamado “país profundo”.

É também uma obra indicada para leitores que apreciam histórias familiares, dramas humanos, retratos sociais de época e livros que preservam a memória de lugares, pessoas e modos de vida em risco de desaparecimento. (Fonte: Vida Económica) (com a devida vénia...)
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oduto "gourmet"

sábado, 4 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28156: Agenda cultural (895): Na 2ª feira, dia 6 de julho, lá estaremos na tradicional batatada de peixe seco, na Festa da Marquiteira, Lourinhã... Ontem, comida dos pobres, hoje produto "gourmet"


Cartaz (pormenor) da festa da Marquiteira, Lourinhã, em honra do Sr. Jesus do Carvalhal.

2ª feira, dia 6, é a tradicional batatada de peixe seco que congrega os amantes do petisco, 
 que dantes era dos pobres e agora é produto "gourmet".

A  iniciativa é da Associação Cultural, Recreativa e Desportiva da Marquiteira, a quem tiramos o quico, por manter esta tradição, provavelmente única em todo o mundo... Em anos anteriores, foram já  centenas os comensais da batatada de peixe seco. Só a terra vizinha da Ventosa do Mar lhe faz frente...
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 17 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28109: Agenda Cultural (894): Lançamento do livro "Um percurso pela história e pelos sabores da Guiné-Bissau", de M. Margarida Pereira-Müller, dia 23 de Junho de 2026, pelas 18h00, na Galeria ArteGraça, Rua da Graça, 27-29, Lisboa

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28109: Agenda Cultural (894): Lançamento do livro "Um percurso pela história e pelos sabores da Guiné-Bissau", de M. Margarida Pereira-Müller, dia 23 de Junho de 2026, pelas 18h00, na Galeria ArteGraça, Rua da Graça, 27-29, Lisboa


Boa tarde!
É com enorme prazer que convido para o lançamento do meu mais recente livro: "Um percurso pela história e pelos sabores da Guiné-Bissau".

Esta obra é um convite para viajar através da rica herança histórica e cultural da Guiné-Bissau, desvendando os segredos e as tradições que moldam a sua gastronomia única. Infra uma apresentação da obra.

A apresentação terá lugar no próximo dia 23 de junho, às 18h00, na Galeria ArteGraça (Rua da Graça, nº 27-29, Lisboa).

Se necessitarem de mais informações, estou à vossa disposição.

Conto com a vossa presença!

Com os meus melhores cumprimentos,
M. Margarida Pereira-Müller

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Nota do editor

Último post da série de 13 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28016: Agenda Cultural (893): Convite para a apresentação do meu 12.º livro, tendo este como tema o AVC, a levar a efeito no próximo dia 16 de Maio de 2026, sábado, pelas 15h00, na Casa do Alentejo, Rua das Portas de Santo Antão, 58, Lisboa (José Saúde)

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28016: Agenda Cultural (893): Convite para a apresentação do meu 12.º livro, tendo este como tema o AVC, a levar a efeito no próximo dia 16 de Maio de 2026, sábado, pelas 15h00, na Casa do Alentejo, Rua das Portas de Santo Antão, 58, Lisboa (José Saúde)

1. O nosso Camarada José Saúde, ex-Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BART 6523 (Nova Lamego, Gabu) - 1973/74, enviou-nos a seguinte mensagem.


Convite aos camaradas

Lisboa, Casa do Alentejo, Portas de Santo Antão, 16 de maio, sábado, 15h00, apresentação do meu 12.º livro, tendo este como tema o AVC

Camaradas, residentes em Lisboa ou em localidades próximas

Sendo o AVC – Acidente Vascular Cerebral – um tema que mexe mundialmente com a sociedade em geral, não importando a cor, a idade, credos, ou o estrato social, ou religiões que cada um de nós perfilha, esta doença é tão-só um grito de alerta que se estende por um infinito, onde o portador é, apenas, alguém que um dia, sem hora marcada, se confrontou com tal “flagelo”.

Porém, somos gentes capazes em responder e ultrapassar dificuldades, não obstante as sequelas sofridas. Neste contexto, apresentarei no próximo sábado, 16 de maio, 15h00, na Casa do Alentejo em Lisboa, Portas de Santo Antão, o meu último que tem como título: Acidente Vascular Cerebral – AVC Viagem ao Mundo de Sobreviventes, cujo teor fala da realidade de quem sofreu um AVC, como recuperou, o quanto possível, e testemunhos de muitos companheiros que em determinado momento foram apanhados com esta enfermidade.

Aqui não houve G3, canhões sem recuo, granadas ofensivas, ou defensivas, para abater um inimigo que tocou às nossas portas e por cá se instalou. No meu fará 20 anos no dia 27 de julho de 2026, que está malazenga por cá mora.

A tarde será acompanhada por cante Alentejano, Cantadores do Desassossego, de Beja, e o Grupo Musical "Os Alentejanos", de Serpa. 


Abraços camaradas e por lá vos espero.

José Saúde
Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BART 6523

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Nota de M.R.:

Último poste da série de 7 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27997: Agenda Cultural (891): "Mais Alto", memórias de Enfermeiras Paraquedistas tornadas visíveis, exposição patente até 5 de Outubro de 2026 no MAAT (Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia), Av. Brasília, Lisboa

domingo, 10 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28007: Humor de caserna (265): Quando, em 1991, o António Graça de Abreu meteu uma "cunha" ao imortal poeta chinês do séc. VIII, Li Bai, para que fosse desbloqueado, na nossa Secretaria de Estado da Cultura, o "patacão" do Prémio de Tradução que ele ganhara e que só receberia ano e meio depois (eram 500 contos, c. 6 mil euros a preços de hoje, o que dava para os dois beberem uns copos valentes)


Ilustração: representação clássica de Li Bai, poeta chinês do século VIII.


Capa do livro: "Poemas de Li Bai: tradução, prefácio e notas de António Graça de Abreu, 2ª ed. Macau: Instituto Cultural de Macau, 1996, 328 pp.  (1º ed., 1990).

Fotos (e legendas) : © António Graça de Abreu (2026). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. O nosso amigo e camarada António Graça de Abreu (n. Porto, 1947),  é licenciado em Filologia Germânica e Mestre em História pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa. Esteve na Guiné, como alferes miliciano, pertenceu ao CAOP 1 (Teixeira Pinto/Canchungo, Mansoa e Cufar, 1972/74). Integra a nossa Tabanca Grande desde 2007, tendo cerca de 390 referências no nosso blogue.

Entre 1977 e 1983 viveu e trabalhou na China, em Pequim e Xangai, tendo sido professor de Língua e Cultura Portuguesas na Universidade de Pequim e tradutor nas Edições de Pequim em Línguas Estrangeiras.

Tem diversos livros publicados na área da sinologia, da poesia e dos estudos luso-chineses, além da crónica de viagens (é um compulsivo viajante). 

Tem traduzido para português os grandes poetas clássicos chineses, a começar por Li Bai, Han Shan, Su Dongpo, Bai Juyim,  Wang Wei, Du Fu,  e outros.

Professor do ensino secundário, leccionou Sinologia na Universidade Nova de Lisboa e no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas e, mais recentemente, na Universidade de Aveiro. É casado com uma médica chinesa de Xangai. O casal, que tem dois filhos, vive no concelho de  Cascais.

Publicou há dias um texto que merece honras de figurar na nossa série Humor de Caserna, mesmo que não se refira diretamente à tropa e à guerra.

De facto, ele é um homem de muitos talentos. Em 1991 ganhou um prémio de tradução de 500 mil escudos (equivalente a preços de hoje a pouco mais de 6 mil euros). Mas demorou ano e meio a receber o prémio. Daí esta carta, bem humorada, a meter uma "cunha" ao poeta Li Bai (séc. VIII) que ele traduziu. Os portugueses, que também gostam de meter cunhas a Deus através dos santos (e sobretudo das santas), reveem-se neste texto.  E os nossos camaradas ainda mais

É um texto delicioso,  um "mix" elegante de ironia fina, erudição e humor, com uma pitada de sarcasmo pela nossa proverbial e secular burocracia. 

É um exemplo magnífico de como o humor pode ser usado para criticar, sem azedume, sem amargura, os passos de lesma com que às vezes achamos que o país marcha.  

Fica bem no espírito e  na letra da série "Humor de Caserna". O tom é leve, mas inteligente, e a referência à vida militar (ainda que indireta) está lá, no nosso espírito de resiliência e desdém pelas teias burocráticas, sejam civis ou castrenses.

De resto, a narrativa é envolvente: a  estrutura da carta é cativante,  começando com uma descrição poética do paraíso de Li Bai, passando depois  pela frustração terrena do prémio anunciado mas não pago, e finalizando com um convite a uma viagem etílica por Portugal em com ou sem a "massa" do prémio... 

O prémio acabou por ser pago, tarde e a mais horas, em outubro de 1992, só não sabendo nós como e onde  é que o patacão foi gasto... e se o Li Bai acabou por aceitar vir cá baixo beber uns valentes copos com o António.


2. Facebook > António Graça de Abreu > Quinbta feira, 7 de maio de 2026, 19:56 > A propósito de um Grande Prémio de Tradução

Estes Poemas de Li Bai obtiveram o Grande Prémio de Tradução 1990, da Associação Portuguesa de Tradutores e do Pen Club, tendo o júri sido constituído por Yvette Centeno, Pedro Tamen e Casimiro de Brito.

O prémio, no valor de quinhentos mil escudos — e não mil contos, como inicialmente eu imaginara — foi-me entregue pelo poeta Pedro Támen, em outubro de 1992, em cerimónia na Livraria Buchholz, em Lisboa. 

O atraso na sua entrega deveu-se a dificuldades na obtenção da verba referente ao prémio, resultantes da reestruturação entretanto levada a cabo por Pedro Santana Lopes, então Secretário de Estado da Cultura.

Longe de todos estes problemas, em dezembro de 1991 escrevi uma carta ao poeta Li Bai, que foi publicada no jornal Comércio de Macau em fevereiro de 1992 e no Jornal de Letras em abril do mesmo ano. É essa carta que agora recupero e transcrevo:

Carta aberta ao poeta Li Bai (*)

Meu caríssimo Amigo

Escrevo-te para o Céu, onde vives há muitos milhares de anos. Um grou imaculado levar-te-á a minha carta.

Desculpa incomodar-te com míseras coisas terrenas. Sei que continuas a brincar em mares de névoa púrpura, a subir às nuvens, a humedecer o teu corpo com vapores rosa, a levantar a mão e a tocar a Lua, a passear entre os pontos cardeis, a beber vinho mágico em taças de jade, a voar com o vento e a rodopiar à vontade na imensão do céu. Gostava muito de te poder fazer companhia, mas quem sou eu para merecer tal benção dos deuses?

Foi célere a tua passagem pelo mundo dos homens. Por comportamento menos atilado entre as divindades celestiais, foste condenado a um duro degredo na Terra, entre os anos de 701 e 762. Imortal no exílio, inundaste então a China com a tua grande poesia. Depois, quase todos os homens te consideraram o maior de todos os poetas chineses. No país que habitaste, os meninos de escola — há muitas, muitas gerações —, conhecem bem o teu nome e sabem sempre de cor dois ou três poemas teus.

Eu conheci-te em Pequim e durante oito agitados anos, por Xangai, por Macau, por Lisboa, outra vez por Pequim, fui traduzindo para língua portuguesa alguma da tua poesia. Foi um alvoroço, uma longa aprendizagem, um prazer transmutar, recriar, reinventar os teus gufeng, lushi e jueju em versos na língua de poetas como Camões e Pessoa. Creio que sabes quem são. Talvez já os tenhas encontrado aí pelo Céu, o Camões finalmente feliz, trepando às árvores e amando docemente a sua Dinamene chinesa (?), o Pessoa, sereno e solitário, agora à vontade para ir “buscar ao ópio que consola, um Oriente ao oriente do Oriente.”

Em 1990, o Instituto Cultural de Macau editou os teus (meus) Poemas de Li Bai. A 7 de junho de 1991, recebi um simpático telegrama assinado pela Yvette Centeno, professora, escritora e literata. Um júri, representando a Associação Portuguesa de Tradutores e o Pen Club, havia acabado de decidir, por unanimidade, conceder-me o Grande Prémio de Tradução 1990 pelos teus (meus) Poemas de Li Bai.

Podes imaginar, fiquei naturalmente satisfeito. A tua grande poesia obtinha reconhecimento em Portugal, o meu trabalho merecera uma recompensa. Depois, importante, o prémio era de quinhentos contos, uns largos milhões de sapecas para gastar com a minha mulher chinesa, os meus filhos, livros, vinho e pequenos prazeres.

Há doze séculos, quando da tua passagem por este mundo, não existiam estes prémios literários. Quando muito, o imperador honrava os mais subservientes e medíocres letrados com um lugar na Academia Hanlin, por onde tu também passaste, com a velocidade de uma estrela cadente. Estamos agora no fim do século XX, em Portugal, um pequeno país da Europa, quase há quinhentos anos ligado à China através de Macau.

Apesar de Macau e do Grande Prémio de Tradução, pouca gente conhece o velho poeta Li Bai, beberrão e sábio, há tantos séculos inebriando-se de sol e de luar. No entanto, lá do outro lado do mundo, nas Nascentes Amarelas, o lugar habitado pelos mortais imortais, tu, de vez em quando, repetes com o teu amigo Han Yu (768-824), a ouvidos desatentos e desinteressados, que “o mais perfeito dos sons é a palavra e a poesia é a forma mais perfeita da palavra”.

Escrevo-te esta carta para te pedir um favor: depois de haver sido informado, em junho passado, que os teus (meus) Poemas de Li Bai haviam ganho o Grande Prémio de Tradução, não mais fui contactado por quem quer que seja. O Prémio caiu no absoluto silêncio e esquecimento, e nunca me foi entregue. Creio que o vou receber, algum dia.

Na tua estada neste mundo, nunca tiveste jeito para lidar com os poderosos, mas tenho a certeza de que aí no Céu vivem pessoas influentes, hábeis no trato, no relacionamento com o mundo dos homens, cá em baixo. Essa gente, hoje, respeita-te.

Peço-te, caríssimo Li Bai, que fales com alguém poderoso aí no Céu, sugerindo-lhe que interceda junto de alguém poderoso aqui na terra portuguesa, compondo as coisas de modo a que o Grande Prémio de Tradução me seja entregue.

Eu não estou zangado com ninguém. Conheço o meu país, sei como em Portugal — na tua China também —, decidir, resolver demoram sempre algum tempo. Mas caríssimo Li Bai, este prémio são quinhentos contos, dinheiro suficiente para uma festa de arromba.

Conheço também o teu gosto pelo vinho, pelos prazeres da vida e, mesmo sem prémio, queria-te convidar a descer, pelo alto das montanhas, até à minha aldeia. 

Portugal é bonito, as pessoas são afáveis e o vinho é óptimo. Eu vou-te buscar e viajaremos pela terra fora, pelo Douro, pelo Alentejo, de taberna em taberna, de adega em adega, saboreando, encharcando-nos em preciosos néctares. Lucidamente bêbados, afogaremos em bom vinho as tristezas da existência.

Depois, diante do mar, com o azul a passear nos olhos, iremos buscar uma nuvem branca, aconchegá-la-emos no coração e deslizaremos no espaço.

Saúda-te, com muito respeito e amizade, o
António Graça de Abreu

(Revisão / fixação de texto, negritos, itálicos, notas, título: LG) (**)
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Notas do editor LG:

(*) Observações:
  • Li Bai (701–762): poeta chinês da dinastia Tang, conhecido como o "Poeta Imortal"; escreveu sobre vinho, lua, montanhas e a efemeridade da vida; o  António traduziu a sua obra para português.
  • Gufeng, lushi e jueju: formas poéticas chinesas que Li Bai dominava.
  • Academia Hanlin: Instituição imperial chinesa onde Li Bai serviu brevemente.
  • 500 mil escudos (e náo mil contos, como pensava inicialmente o premiado): equivalente a cerca de 6 mil euros hoje; o prémio foi entregue apenas em outubro de 1992, um ano e tal depois da decisão do júri.
  • O Grande Prémio Internacional de Tradução Literária é um prémio literário instituído pela Associação Portuguesa de Tradutores. Inicialmente foi organizado em associação com o PEN Clube Português e o patrocínio da Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas, atualmente realiza-se com o patrocínio da Sociedade Portuguesa de Autores; o prémio é atribuído a traduções publicadas no ano anterior. O valor pecuniário atual é de 3 mil euros.
  • Dois membros do Prémio de 1991 já morreram, Pedro Tamen e Casimiro Brito.

(**) Último poste da série > 7 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27996: Humor de caserna (264): o 1º cabo corneteiro António Torres (1949-2023), CCAÇ 3398 / BCAÇ 3852 (Buba, 1971/73), no HM 241, sujeito a uma delicada e embaraçosa operação cirúrgica a um varicocelo (Joaquim Pinto de Carvalho)

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P27997: Agenda Cultural (891): "Mais Alto", memórias de Enfermeiras Paraquedistas tornadas visíveis, exposição patente até 5 de Outubro de 2026 no MAAT (Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia), Av. Brasília, Lisboa


Créditos: Foto: Paulo Spranger


A Exposição 'Mais Alto' estará no MAAT Central até 5 de outubro
As memórias de enfermeiras paraquedistas da guerra colonial tornadas visíveis


(...) fotografias e objetos pessoais de enfermeiras paraquedistas que participaram na guerra colonial (...)

(...) A artista olha o contexto da guerra colonial e para o lugar das mulheres naquele tempo através das vivências de antigas enfermeiras paraquedistas como Maria de Lourdes Mota, Maria Arminda Lopes, Rosa Serra Lopes, Eugénia Sousa, Maria Cristina da Silva, Aura Teles ou Maria Emília Sousa, quase todas octogenárias. As mulheres posam com orgulho: “É quem elas são, é a identidade delas. E a vontade de partilhar também tem a ver com isso (...)

(...) Entre 1961 e 1974, ao longo de 12 cursos, formaram-se em Portugal 47 enfermeiras paraquedistas que integraram o Batalhão de Caçadores Paraquedistas da Força Área Portuguesa. Foram as primeiras mulheres a entrar nas Forças Armadas, até então um domínio exclusivo de homens. (...)

(...) Em 1975, após a última missão de retirada de portugueses de Timor, deixou de haver enfermeiras paraquedistas na Força Aérea. Apenas em 1988 é que as mulheres viriam a poder ingressar nas Forças Armadas e só em 1991 é que puderam candidatar-se a piloto da Força Aérea.

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Nota do editor

Último post da série de 24 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27949: Agenda Cultural (890): Rescaldo da apresentação do livro "Guiné, Bilhete de Identidade. Tomo II – Da Pequena Senegâmbia à Guiné Portuguesa", de Mário Beja Santos, que teve lugar no passado dia 21 de Abril, na Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27949: Agenda Cultural (890): Rescaldo da apresentação do livro "Guiné, Bilhete de Identidade. Tomo II – Da Pequena Senegâmbia à Guiné Portuguesa", de Mário Beja Santos, que teve lugar no passado dia 21 de Abril, na Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 24 de Abril de 2026:

Confesso que me foi muito reconfortante apresentar este livro na casa onde me bacharelei e licenciei, aqui me apresentei vindo da Guiné, com o estatuto de estudante-militar, encontrei muita solidariedade de colegas que me facultaram apontamentos das aulas e preciosas referências bibliográficas, que me permitiram ir paulatinamente fazendo exames enquanto trabalhava na Agência Militar. Presidiu à sessão de apresentação o Professor José Pedro Serra, académico e diretor da biblioteca da Faculdade de Letras, contei com os prestimosos comentários de dois investigadores de gabarito, a quem devo admiração e muita amizade, António Duarte Silva e Eduardo Costa Dias, ambos com estudos de referência tanto sobre a colónia como o período posterior, da Guiné Independente.

Tive a alegria da comparência de várias dezenas de amigos, limitei-me a enunciar os principais tópicos que abordei no livro sobre os séculos XIX e XX: os conflitos diplomáticos com a França e com o Reino Unido, a questão do Casamansa e a questão de Bolama, as iniciativas políticas de Honório Pereira Barreto, que se revelaram determinantes para a configuração do atual Estado, as guerras do Forreá, o desastre de Bolor, a formação do distrito autónomo da Guiné, a formação da Província da Guiné, a ocupação militar, o destaque das medidas políticas dos principais governadores, tais como Carlos Pereira, Velez Caroço, Carvalho Viegas e Ricardo Vaz Monteiro, pondo ponto final com a governação do comandante Sarmento Rodrigues, que pôs a Guiné no mapa não só do Império português como no contexto africano, criando um espaço autónomo na chamada África Ocidental francesa.

Braima Galissá fez um memorável recital, ele é de facto um exímio tocador de Korá, tem um espetáculo marcado para o Centro Cultural de Belém, no dia 9 de maio, pelas 17h, intitulado Bela-Nafa, uma sugestão cultural para todos os nossos confrades que vivem em Lisboa e arredores.

Aspecto da sala
Na mesa: o autor Mário Beja Santos; o investigador e historiador António Duarte Silva, no uso da palavra; o Director da Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, José Pedro Serra e o Prof. Jubilado do ISCTE, Eduardo Costa Dias
José Pedro Serra no uso da palavra
O nosso confrade Mário Beja Santos, autor do livro em apresentação, usando da palavra
José Pedro Serra; o economista Jorge Braga de Macedo e o autor Mário Beja Santos
Braima Galissá, exímio tocador de korá, durante o seu recital
Mário Beja Santos e Braima Galissá

OBS: - Edição e legendagem das fotos: Carlos Vinhal
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Nota do editor

Último post da série de 16 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27925: Agenda Cultural (889): Apreciação de Philip Havik ao livro "Guiné, Bilhete de Identidade. Tomo II – Da Pequena Senegâmbia à Guiné Portuguesa", de Mário Beja Santos, que será apresentado no próximo dia 21 de Abril de 2026, pelas 17h30, na Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

terça-feira, 21 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27937: Lembrete (55): Cerimónia de apresentação do livro "Guiné, Bilhete de Identidade. Tomo II – Da Pequena Senegâmbia à Guiné Portuguesa", de Mário Beja Santos,: hoje, 21 de Abril de 2026, pelas 17h30, na Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Campo Grande


Capa do livro (Lisboa, Edições Húmus, 2026)




Sinopse do livro

A mais indefinível possessão portuguesa ganhou finalmente nome: Guiné.

Admitindo que navegadores portugueses aqui arribaram em finais da primeira metade do século XV, este espaço conheceu uma enormidade de nomes, desde Etiópia Menor, Guiné do Cabo Verde, Grande e Pequena Senegâmbia e muitos mais. Até que, em 1886, passou a chamar-se Guiné Portuguesa, e com menção constitucional. O livro aborda a história desta possessão de meados do século XIX e meados do século XX, um território que tinha praças e presídios, dependente de Cabo Verde; todas as companhias comerciais se tinham malogrado; foi preciso a comoção de um desastre militar num local chamado Bolor para, em 1879, se ter determinado a sua separação de Cabo Verde; estabeleceu-se uma capital em Bolama, mas a presença portuguesa manteve-se ténue, junto dos rios e rias. No final do século XIX, chegou a admitir-se a entrega da colónia a uma companhia majestática.





MÁRIO BEJA SANTOS


Biografia

Toda a sua vida profissional, entre 1974 e 2012, esteve orientada para a política dos consumidores. Ao nível da sua participação cívica e associativa, mantém-se ligado à problemática dos direitos dos doentes e da literacia em saúde, domínio onde já escreveu algumas obras orientadas para o diálogo dos utentes de saúde com os respetivos profissionais, a saber: Quem mexeu no meu comprimido?, 2009, e Tens bom remédio, 2013. Doente mas Previdente, dá continuidade a esta esfera de preocupações sobre a informação em saúde, capacitação do doente, o diálogo entre os profissionais de saúde, os utentes e os doentes.


(Com a devida vénia a Bertrand Livreiros)
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Nota de Mário Beja Santos:

A cerimónia de apresentação do livro será abrilhantada com uma actuação de Braima Galissá




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Notas do editor:

Vd. post de 11 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27911: Agenda Cultural (888): Convite para a cerimónia de apresentação do livro "Guiné, Bilhete de Identidade. Tomo II – Da Pequena Senegâmbia à Guiné Portuguesa", de Mário Beja Santos, a levar a efeito no próximo dia 21 de Abril de 2026, pelas 17h30, na Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. A obra será apresentada por António Duarte Silva e Eduardo Costa Dias

Último post da série de 17 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27434: Lembrete (54): Cerimónia Comemorativa do 107.º Aniversário do Armistício da Grande Guerra e 51.º Aniversário do fim da Guerra do Ultramar, que se realiza amanhã, dia 18 de novembro, pelas 10h00, no Forte do Bom Sucesso, em Belém, Lisboa. Durante a cerimónia o nosso Editor Luís Graça será agraciado com a Medalha de Honra ao Mérito, grau Ouro, da Liga dos Combatentes

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27925: Agenda Cultural (889): Apreciação de Philip Havik ao livro "Guiné, Bilhete de Identidade. Tomo II – Da Pequena Senegâmbia à Guiné Portuguesa", de Mário Beja Santos, que será apresentado no próximo dia 21 de Abril de 2026, pelas 17h30, na Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

Na impossibilidade de estar presente do próximo dia 21 de Abril, na FLUL, na cerimónia de apresentação do II Tomo de "Guiné - Bilhete de Identidade", da autoria do nosso confrade Mário Beja Santos, Philip Havik, doutorado em Ciências Sociais pela Universidade de Leiden - Países Baixos, distinto investigador, há muito ligado a Portugal, com ênfase na medicina tropical e em estudos orientados para a Guiné colonial, quis deixar a sua apreciação a esta obra de antologia para ser publicada no nosso Blogue.  


O mais recente opus de Mário Beja Santos, ‘Guiné - Bilhete de Identidade T. II: da Pequena Senegâmbia Guiné Portuguesa’ contem novamente uma antologia de textos cuidadosa selecionados em seis atos. Cobrindo um período de cem anos, dos meados do séc. XIX para o séc. XX, os textos amplamente citados e comentados, de autoria portuguesa e alguns franceses, levam o leitor numa viagem por este território que permite formar uma ideia da trajetória acidentada deste cantinho do dito império luso.

Principalmente servindo como um depósito de degredados e entreposto de exportação de escravos para as Américas, enfrentou grandes mudanças políticas nos séculos XIX e XX. Largamente esquecida até o Ultimato Britânico, o autor acompanha o despertar dos governos portugueses para não só revindicar, mas também de efetivamente ocupar parcelas do continente ‘distribuídos’ entre participantes da Conferência de Berlim. Nas 467 páginas o autor demonstra como os esforços diplomáticos vindo de dentro e fora da Guiné foram insuficientes para segurar a ‘Pequena Senegâmbia’ que o Honório Pereira Barreto ambicionava, esbatendo nas movimentações francesas na Casamance, ocupando pontos estratégicos, colocando as autoridades lusas perante um fait accompli.
O tratado luso-francês de 1886 que fixou pela primeira vez as fronteiras, foi encarado como uma derrota, por assinalar ‘a presença portuguesa […] ténue’ (p. 49) no terreno, que até aí se tinha limitado a uns presídios dispersos de uns meros centenas de metros quadrados. Quatro anos antes, o primeiro governador da ‘Guiné-Portuguesa’ ainda revindicava a zona da ‘Senegâmbia portuguesa do Sul do Rio Gâmbia até o Rio Nuno’ (p. 44/5).


Quando a partir de 1879 a ilha de Bolama alberga a capital da ‘Guiné Portuguesa’, os textos demonstram bem o facto que este território - governado durante séculos a partir de Cabo Verde - foi uma ficção do imaginário luso. Tal como o René Pélissier documentou na sua obra Naissance de la Guiné sobre as intermináveis guerras pelo domínio da Guiné, os relatos de oficiais e viajantes portugueses incluídos no livro lamentam e criticam duramente a falta de ambição e de êxito de sucessivos governadores e governantes na metrópole. Este abandono político contrasta com as pontas de cultivo de amendoim que começam a crescer na zona costeira da Guiné a partir dos anos 40 do século XIX, que por sua vez constituíram os primeiros passos para a colonização da terra africana, geridos por caboverdianos e ‘guinéus’. Foram eles próprios, nomeadamente as linhagens comerciais ou gan - cujo mais famoso exponente foi o Honório Pereira Barreto - que asseguraram a ‘herança’ Luso-Africana na zona, e conduziram a transição do tráfico de escravos trans-Atlântico para o chamado ‘comércio legítimo’, exportando as suas colheitas para o porto francês de Marseille… As fontes escritas tal como os relatórios dos governadores e relatos de viagem nos anos 80 e 90 do séc. XIX citados no livro lamentam amplamente a decadência destas feitorias e ainda sonham com ‘um futuro comercial brilhante’ mediante que a sua tão almejada ocupação ‘por todos os meios incluído a força’ (p. 133/4) se concretizasse.

Como os documentos do século XX perscrutados bem ilustram, a ocupação pela força em 1915 após campanhas muito sangrentas e devastadoras contra os povos costeiros conduzido com ‘quase só com irregulares’ (p. 360) numa terra ‘empapada de […] sangue’ (p. 229), afinal não transformou este futuro risonho em realidade. Após décadas de o comércio (de borracha e noz de palma) ter sido explorado por casas comerciais francesas e alemães, e companhias de capitais principalmente francêses terem adquiridos terrenos, a ocupação administrativa deste quinhão do império ‘insalubre’, mas repleto de riquezas naturais, não trouxe o fomento desejado pela 1.ª República. A ocupação da terra onde recém-chegados da metrópole eram recebidos com ‘as febres do paíz’ nos presídios cercados de pântanos, só trouxe diminutos capitais da metrópole, enquanto empresas como a CUF e a Casa Gouveia – além do Banco Ultramarino que tal com os primeiros deteve vastas explorações agrícolas - exerceram o quase monopólio do comercio de exportação, principalmente de amendoim não descascado. Sujeitando a ‘população indígena’ a novos estatutos fortemente discriminatórios e os régulos a nova ordem administrativa, os governos conduzem uma ‘politica indígena’ para impor a ‘pax lusitana’. Numa colónia onde se falava crioulo nos meios da função pública e do comércio, a obra de nacionalização podia, pensou-se, finalmente começar, como perspetivava um governador nos anos 20. Este mesmo deixou muito claro como se ia desenvolver o território: ‘Se o indígena não quer trabalhar, seja compelido a fazê-lo’ (p 238).

Virava-se assim, aparentemente, uma nova página na história desta Guiné, de curta duração, até que em 1963 estala o conflito armado. Passamos por descrições da rica flora e fauna guineense e do seu mosaico étnico complexo através de inquéritos etnográficos administrativos – não profissionais – que fazem distinções entre os dois extremos ‘dos atrasos de civilização’ dos Bijagós (p. 266) e ‘os racialmente superiores’ Futa-Fulas (p. 320), e as potencialidades da agricultura e o comércio, além de descrições da organização administrativa e seus serviços, sujeita a Reforma Administrativa Ultramarina nos anos 30 pelo Estado Novo (p. 351). Este último começa também por promover uma nova versão da então muito incipiente historiografia da Guiné, dos ‘descobrimentos’ até as ‘campanhas de pacificação’, após investidas anteriores de Cristiano José de Senna Barcellos (1899-1915), o geógrafo Ernesto Vasconcellos (1903) e de Carlos Pereira (1914), um antigo governador do território.

O Teixeira da Mota, oficial da Marinha, acaba por ‘atenuar’ e em parte ‘corrigir’ estas epístolas, quando publica os dois volumes da Guiné Portuguesa em 1954. Além de impulsionar uma série monografias administrativas baseado no inquérito etnográfico de 1946 que coordenou, ele também fundou o Centro de Estado da Guiné Portuguesa que publicou o Boletim Cultural da Guiné Portuguesa até 1973 (p. 374). Com as missões da Junta Científicas de Investigações do Ultramar (JCIU), forma o início de uma tentativa de documentar e investigar o território sob a batuta do governador Sarmento Rodrigues com o qual o livro fecha. Apelidado pelo autor como ‘o definidor da colónia guineense’ (p. 397), o Sarmento Rodrigues se afirma logo como um governante imbuído de um espírito reformista, que pretende desenvolver e modernizar o território.


Enquanto esperamos pelo terceiro tomo desta série, podemos já antecipar que este otimismo será de curta duração, e novamente posto em causa com o eclodir da guerra/luta em 1963. Parece que a história se repete… Para quem esteve no terreno da guerra nos fins dos anos 60, o autor encontrou neste segundo volume a inspiração e a oportunidade de partilhar com os leitores o seu conhecimento do terreno. Aliás, se nota nas páginas do livro que o conhecimento pessoal do autor dos vários cantos do território para construir uma antologia ‘passeada e comentada’, que é sem dúvida uma grande vantagem quando se comenta os muitos documentos que compõem este livro.

A sua paciência de consultar documentos e reservados poeirentos nas bibliotecas na capital, ilustra bem o seu comprometimento com a história deste pequeno talhão, a que se dedicou desde 2006, e que em 20 anos resultou numa ‘saga’ contínua de mais de dez livros publicados. Tal como disse, e cito: ‘Quando tudo leva a crer que estavam esgotados os filões sobre a Guiné, apareceu de rompante um projeto um tanto ambicioso …’ (p. 10) que, entretanto, resultou em dois volumes da Guiné-BI, deixando antever mais surpresas. A sua paixão não se limitou, como no caso de outros camaradas que lá combateram e descreveram as suas experiências no terreno – o que alias já fez em ‘dois volumes diarísticos’ (p. 9) – mas de ir mais a fundo sobre o passado e presente da Guiné-Bissau e as suas gentes, que hoje, ficaram, infelizmente, largamente esquecidas pela comunidade científica e o público em geral.


Philip J. Havik, abril 2026
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Nota do editor

Vd. post de 11 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27911: Agenda Cultural (888): Convite para a cerimónia de apresentação do livro "Guiné, Bilhete de Identidade. Tomo II – Da Pequena Senegâmbia à Guiné Portuguesa", de Mário Beja Santos, a levar a feito no próximo dia 21 de Abril de 2026, pelas 17h30, na Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. A obra será apresentada por António Duarte Silva e Eduardo Costa Dias.