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sábado, 21 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27844: Humor de caserna (249): O anedotário da Spinolândia (XXI): O frango Hubbard


Spínola e o frango Hubbard. Cartum: Passão, 1975

(Com a devida autorização do autor)





António Ramalho, natural de Vila Fernando, Elvas, 
é da colheita de 1948


Fotos (e legendas): © António Ramalho (2026) . Todos os direitos reservados (Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)


1. Mensagem do António Ramalho, ex-fur mil at cav, CCAV 2639 (Binar, Bula e Capunga, 1969/71), alentejano de Vila de Fernando, Elvas, membro da Tabanca Grande, com o nº 757, desde 20/10/2017.

Data -23 mar 2026, 09:24
Assunto - Obrigaste-me a ir de novo ao baú das memórias!

Caro Luís, bom dia!

Obrigado pelas tuas palavras, não é obrigação nenhuma, é um prazer colaborar no blogue que em boa hora criaste!

Foi com todo o gosto que revivi de novo alguns acontecimentos passados nos Resorts de Capunga e Bissum.

Aquela cena no Hospital em Bissau deixou-me angustiado, a guerra é assim! A do frango Hubbard está o máximo e a do monóculo então!...

Um forte abraço para todos os Tabanqueiros.
Para ti mais um abraço.

António Ramalho


Factos passados comigo na Guiné entre 1969/1971 e, não só!

por António Ramalho


(i) Em Bissau:  a cena do monóculo que já todos conhecem! (*)


 A menina Cremilde, da loja do oculista, corou de vergonha e escangalhou-se a rir depois do  gen Spínola abandonar o estabelecimento!


(ii) No Hospital Militar de Bissau no princípio da comissão.

Na visita a uns camaradas com ferimentos ligeiros após um contacto com o IN, na zona de Binar, deparei-me com a seguinte situação:

Nesse ano o MNF (Movimento Nacional Feminin) oofereceu-nos a todos, uma cigarreira de plástico, um isqueiro a gasolina, uma Gillette e um pincel, lembram-se?

Na mesma enfermaria, estava internado um camarada com as duas pernas amputadas, com uma resiliência e disposição muito acima do normal para a situação em que se encontrava! Dizia ele que tinha ficado ainda com os braços para nos abraçar!

Entram elementos do MNF em visita de circunstância e perguntam se tínhamos gostado das lembranças de Natal, daquele ano.

Antes de nos manifestarmos, dizem as distintas senhoras:

— Olhem que o Senhor Governador também recebeu.

Diz um dos presentes:

— Mas,  olhem, minhas senhoras, o nosso General não fuma e não tem barba!...

Risada geral!

(iii) Em Capunga

Estando na parada do aquartelamento, vejo chegar num jipe o nosso general e o major Marcelino (não o da Mata), numa visita ao reordenamento das Tabancas.

Gritei para o Furriel mais velho, que estava jogando à bola.

— Despacha-te que vem aí o Maior.

Nas apresentações da praxe pergunta o general:

 — É você o nosso alferes?

Resposta pronta:

— Não, meu general, o nosso alferes foi a Bula com uma secção buscar água.

 — Pois olhe: você tem mais cara de alferes do que muitos que para aí temos...

Lá foi a comitiva ver o reordenamento...

(iv) Em Bissum

Numa das visitas do nosso general à Tabanca, acompanhado de um membro (ou representante) do Governo Brasileiro,  aproveitou para fazer uma visita ao aquartelamento.

De passagem pela padaria, o nosso cabo ofereceu-lhe um pão. Depois de o apreciar, elogiou o produto em voz alta, entregando-o em seguida ao ajudante de campo.

Retorquiu o nosso cabo:

 — Meu general, se vier cá amanhã ainda estará melhor!

 Adeus,  rapaz, então até amanhã!


(v) Em Bissum


Fui avisado da chegada do nosso general ao aquartelamento. Ordenaram-me para ir com uma secção limpar a pista (enxotar as vacas!) e fazer a segurança.

Nos cumprimentos da praxe, mediu-me de cima a baixo!

O meu camuflado tinha mais adesivos do que tecido!

À partida a mesma cena, na observação do fardamento, sem qualquer comentário.

Na despedida disse-lhe:

—   Meu general, peço-lhe desculpa pela apresentação, estamos há semanas a aguardar fardamentos.

Continência...

 — Bom regresso a Bissau, meu general.

Passados poucos dias chegaram numa DO-27  os fardamentos (coincidências!...)


(vi) Nota final (**)

O gen Spínola acompanhava de perto algumas operações pelo ar e em terra! Correu Mundo... Aquela foto da Operação Ostra Amarga, fotografado na mata com Alves Morgado,

Almeida Bruno e Marcelino (não o da Mata), que a revista francesa Paris Match filmou, em que houve, infelizmente, também baixas do nosso lado.

Dos contactos pessoais  e institucionais que tive com o general António de Spínola, encontrei um cidadão simples, educado, trato normal, sem imposturices, apesar da distância entre patentes e, a outros que estavam presentes, o verdadeiro cabo-de-guerra. O respeito foi sempre muito bonito!

Hoje, penso que se a sua chegada à Guiné tivesse ocorrido dois ou três anos antes a entrega da província ao PAIGC teria sido completamente pacífica. Todos ganharíamos, exceptuando aqueles em que a guerra foi um negócio!

Esta é a minha opinião.

Agora um facto muito interessante, pessoal e reservado, que quero partilhar. Os protagonistas já cá não estão. Felizmente, o autor da obra (um cartum...) ainda está entre nós, a quem pedi autorização para o divulgar.

Passei quarenta anos da minha vida ligada à avicultura, numa empresa que pulverizou o país de pequenas empresas que se tornaram grandes e, outras enormes!

Foi um viveiro (hoje incubadora) para que muitas atingissem uma dimensão nacional e ibérica importante.

Depois do regresso a Portugal do gen Spínola, no mandato do Gen Ramalho Eanes, então Presidente da República, se bem se lembram, ocupava o seu tempo da forma que melhor entendia, reservando uma parte à equitação, não fosse ele da distinta Arma de Cavalaria!

Dado que nós representávamos e explorávamos uma estirpe avícola de reprodutores Hubbard (pais dos frangos) americana, propriedade da Merck Sharp & Dome, ainda hoje líder do mercado mundial, numa conversa informal, no intervalo dos passeios equestres, ao almoço, quis saber pormenores da mesma.

O autor, audaz e de pensamento rápido, depressa imaginou passar à imagem o tema da conversa. Então pegou no seu lápis de carvão e fez o que a imagem nos transmite. O gen Spínola ao ver a obra, ficou deslumbrado e, imediatamente fez questão de a mandar emoldurar e colocá-la em sua casa!

Por este pormenor tão simples, humilde, sincero e generoso me apraz reafirmar a admiração que tive por ele.

Ficam de fora as questões políticas e outras que nada me impedem de reafirmar o que escrevi.

Um forte abraço para todos. António

(Revisão / fixação de textro, negritos, título: LG)

_______________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 13 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27820: Humor de caserna (245): O anedotário da Spinolândia (XVII): A Anedota e a Piada...

(...) O nosso General teve um pequeno acidente com o seu monóculo, enviou o seu impedido a um oculista da cidade, cuja empregada era familiar do proprietário, natural duma aldeia perto da minha.

Avisado depois de reparado o monóculo, foi ele mesmo levantá-lo com aquele seu ar austero, de camuflado engomado, sempre simpático para com as populações.

No a,to da entrega pergunta-lhe a empregada:

— Senhor Governador, quer que embrulhe ou leva no olho?

— Oh!, menina, dê-me cá o monóculo, que no olho levam vocês!...

A rapariga desmanchou-se a rir quando nos contou! (...)

(**) Último poste da série > 20 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27841: Humor de caserna (248): O anedotário da Spinolândia (XX): O "general alemão" (Schulz) que garantiu a Salazar, em 1965, que a Guiné seria sempre portuguesa

quarta-feira, 11 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27810: Os nossos médicos (93): ten cor médico António Campos Felino de Almeida, falecido em 28/1/2011; em 24 de junho de 1969 era diretor do HM 241, em Bissau


Foto nº 1


Foto nº 2


Foto nº 3


Foto nº 4

RTP Arquivos > 1994 > Reportagem sobre o antigo HM 241, em Bissau, com assinatura da jornalista Fátima Matos Lima: passou no Telejornal da RTP1, em 25 de agosto de 1994. Não são propriamente fotogramas do vídeo, mas fotografias obtidas do seu visionamento (a exibição do conteúdo está sujeito a licença da RTP Arquivos).

Na foto nº 1,  o antigo diretor Felino de Almeida, comenta, desolado, as imagens da brutal degradação por incúria e abandono do seu antigo hospital (que depois da independência ainda integrou o complexo militar "3 de agosto") (Fotos nºs 2, 3 e 4).


O que restava do antigo HM 241 foi entretanto demolido em 2025 (*).



Ministério do Exército > CTIG > Hospital Militar nº 241 > Bilhete de identidade do alf mil médico José António Pardete da Costa Ferreira, nosso grão-tabanqueiro, já falecido. O documento emitida em 24 de junho de 1969 tem a assinatura do comandante, Felino de Almeida, major médico.


1. Já tínhamos, no nosso blogue, uma ou outra referência ao médico militar Felino de Almeida  (**). Em 1969 ele era diretor do HM 241, como se comprova pela cópia do BI do alf mil médico José Pardete Ferreira (1941-2021).

Foi também pelo dr. Pardete, que vivia em Setúbal, que soubemos que este antigo diretor do HM 241 já tinha falecido em janeiro de 2011 (***)

Por pesquisa na Net, e com base nas Ordens do Exército Português, descobrimos que:

(i) morreu em 28 de janeiro de 2011;

(ii) com o posto de tenente-coronel médico;

(iii) pertencia à Secção de Apoio / RRRD;

(iv) chamava-se, de seu nome completo,  António Campos Felino de Almeida;

(v) e devia viver no Porto.

Com base numa ferramenta de IA, ficamos a saber que a sigla RRRD refere-se à Repartição de Recrutamento, Reserva e Disponibilidade.

Esta repartição está inserida na Direção de Administração de Recursos Humanos (DARH) do Exército Português e é responsável por processos administrativos relacionados com o pessoal militar, tais como: gestão de situações de licença ilimitada; processos de reserva e disponibilidade de oficiais, sargentos e praças. A secção de apoio (SecApoio/RRRD) dá suporte a estas áreas.

Diz o Virgínio Briote (*) que o Dr. Felino de Almeida (***) tinha consultório na cidade do Porto

O que foi confirmado por nós: tinha a especialidade de dermatologia e venereologia, e o agendamento de consultas, na cidade do Porto, ainda se mantém ainda hoje "on line" (!), quinze anos depois da sua morte (na plataforma Doctoralia).

2. Também o nosso camarada Manuel Freitas (ex-1º cabo escriturário, HM 241, Bissau, 1968/70,  empresário, técnico de contabiliudade e de seguros), que vive em Espinho e que há anos organiza o encontro anual do pessoal desta unidade de saúde, escrevia o seguinte, em 2011 (****), em comentário ao António Paiva (que infelizmente desapareceu há muito do nosso radar, tudo levando a crer que terá morrido em 2017/2018) (*****):

Olá,  Paiva,

Não compreendo porque andei tanto tempo sem consultar este blogue do Luís Graça & Camaradas da Guiné. Já estava desatualizado porque, organizando há já 9 anos convívios com os ex-militares do HM 241, onde já estiveram o Dr. Felino de Almeida (diretor do hospital do nosso tempo), o Dr. Diamantino, o Dr.Rui Meireles, o Dr. Ventura e outros, não consegui trazer-te para este evento que por certo vais gostar pois junta a malta de 1967 a 1971.

Das histórias que contas lembro-me do resultado desta cobiça.(**)

Lembras-te daquela africana que veio evacuada, trazendo alojada numa anca, uma granada, e foi um espetáculo a preparação no bloco para retirar sem rebentar?

Vou inscrever-me no blogue e depois conto algumas histórias que tenho registadas no meu álbum. 

Sou o Manuel Freitas e estive no HM 241 de 1968 a 1970,  era o treinador e jogador da nossa equipa de futebol. (...) 
Manuel Freitas.


(*****) Vd. poste de 3 de maio de 2021 > Guiné 61/74 - P22168: Desaparecido do nosso radar (1): António Duarte de Paiva, ex-sold cond ambulâncias, HM 241, Bissau, 1968/70

terça-feira, 10 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27808: Bom dia, desde Bissau (Patrício Ribeiro) (63): O antigo hospital militar, HM 241 (e depois "complexo hospitalar 3 de agosto"): "E tudo o vento levou"...


Foto nº 1


Foto nº 2


Foto nº 3

Guiné-Bissau >Bissau > Bairro da Ajuda, na estrada Bissau - Brá - Bissalanca > Antigo Hospital Militar 241, depois Complexo Hospitalar 3 de Agosto, a seguir a independência, e que rapidamente se degradou até à ruína total > 4 de março de 2026 >  Eis o que resta hoje...

Fotos (e legendas): © Patrício Ribeiro (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




Guiné > Bissau > "O Pavilhão de Tisiologia do Hospital de Bissau foi projetado por Lucínio Cruz e Mário de Oliveira, entre 1951 e 1953 para doentes tuberculosos, e construído a pedido do governo da província à entrada de Bissalanca, a cerca de 6 km do centro da cidade, numa altura em que algumas valências são gradualmente implantadas fora do sector hospitalar existente no centro de Bissau. Erguido no recinto do atual Hospital 3 de Agosto, atualmente em ruínas, em 1962 funciona já como novo hospital militar, situação que se prolonga com a guerra colonial." (Ana Vaz Milheiro)

 Foto (e legenda): © Mário Beja Santos (2013). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Mensagem do Patricio Ribeiro,  "embaixador"  da Tabanca Grande em Bissau:

Data - quarta, 4/03/2026, 20:39
Assunto - Antigo Hospital Militar

Luís,
Hoje foi com surpresa que vi que já não há as paredes do Hospital "3 de Agosto", o antigo hospital militar português onde muitos sobreviveram.

Abraço, Patrício

2. Comentário do editor LG:

Pois é, Patrício, andamos todos distraídos... Há muito que esta unidade de saúde era uma ruína completa: já em 1994 chocava os profissionais que lá haviam trabalhado...  Chegou a ser, no tempo da outra senhora, o melhor hospital da África, subsariana, com exclusão da África Austral do "Apartheid"

Vd. aqui uma reportagem da RTP:

Degradação do Hospital Militar na Guiné-Bissau

1994-08-25 00:02:49

Bissau, degradação do Hospital Militar choca aqueles que lá trabalharam, pois era considerado o melhor equipado, de todas as colónias portuguesas.

Resumo analítico: Imagens de arquivo do hospital totalmente degradado, da Guerra Colonial e ferido em maca; declarações de Felino Almeida, antigo diretor do hospital, sobre o imperdoável estado de conservação.

Fonte: RTP Arquivos

Soubemos agora, por pesquisa na Net, que a demolição do antigo Complexo Hospitalar 3 de Agosto em Bissau, Guiné-Bissau, já tinha tido início em abril de 2025, devendo em seu lugar construir-se um novo Hospital de Referência. 

Segundo notícias de Bissau, a infraestrutura original, abandonada após a independência e em ruínas, é (ou era) para  ser substituída por um "hospital moderno com tecnologia de ponta" (sic), numa área de 33 mil metros quadrados, fruto da cooperação com os Emirados Árabes Unidos. Pelo menos era essa promessa (!)  do deposto Presidente da República Umaro Sissoco Embaló, há quase um ano atrás.

Pelo que se deduz das fotos recentes do Patrício Ribeiro, o edifício (ou o que dele restava, as paredes) foi arrasado pelas máquinas da engenharia militar mas ainda não há notícias (nem sequer um foto da primeira pedra) do prometido novo hospital de chave na mão....

terça-feira, 20 de maio de 2025

Guiné 61/74 - P26820: Vivências em Nova Sintra (Aníbal José da Silva, Fur Mil Vagomestre da CCAV 2483/BCAV 2867) (12): O meu acidente

CCAV 2483 / BCAV 2867 - CAVALEIROS DE NOVA SINTRA
GUINÉ, 1969/70


VIVÊNCIAS EM NOVA SINTRA

POR ANÍBAL JOSÉ DA SILVA


41 - O MEU ACIDENTE

04 de Agosto de 1969

A primeira vez que fui de férias à metrópole foi a 23/06/69, na companhia do inseparável furriel Lima. Iniciei a viagem de regresso à Guiné nos últimos dias de julho.

Chegados a Bissau fomos ao Hospital Militar visitar o nosso capitão, que dias antes tinha pisado uma mina e ficado sem a perna esquerda. Mal sabia eu que passados quatro dias também lá daria entrada.

Na Repartição de Transportes em Bissau, conseguimos transporte fluvial até o Enxudé e daqui até Tite, sede do batalhão, fomos de unimog. De Tite para Nova Sintra só havia duas hipóteses de transporte, aéreo ou a pé. O Lima teve a sorte de ir de helicóptero pois era de Transmissões e a sua presença era necessária, porque estava em curso a formação de uma operação. Em Tite também em trânsito, encontrei seis soldados da companhia que regressavam após consulta externa no Hospital Militar. No regresso a Tite o helicóptero trouxe as G3 e fardamento de nós sete. Na noite de dois de agosto Tite foi flagelado.

Desconhecendo os cantos à casa, não sabia onde me proteger, até que o furriel Rui Ferreira, puxou-me por um braço e corremos até à retrete do quarto dos furriéis. Lá havia alguma proteção com sacos de terra empilhados acima das nossas cabeças. Na tarde de dois de agosto foi-nos transmitido aquilo que já se esperava. Fazer o trajeto a pé integrados num grupo de combate da CCAÇ 2314, que ia fazer reforço a Nova Sintra, devido à operação que estava a ser preparada.

Saímos de Tite por volta das duas horas da madrugada do dia 04/08/69, acompanhados por quinze carregadores que também iam participar na operação. Chovia torrencialmente.

Passado o arame farpado entramos na mata. Estava muito escuro e dada a intensidade da chuva, mal conseguíamos ver quem ia à nossa frente. Atravessamos uma bolanha com água acima da cintura e os pés enterravam-se no lodo. A marcha era lenta. Finalmente amanheceu, a chuva parou e o sol apareceu, começando a secar o camuflado. Os sete da minha companhia seguiam na retaguarda. O soldado Ventinhas, que tinha ido a Bissau despedir-se do irmão, que tinha terminado a sua comissão, seguia à minha frente. O trilho era apertado ladeado por capim muito alto e verdejante. O cenário era bonito, só que daí a momentos BRUUMMM, um grande estrondo.

Eram sete da manhã. O Ventinhas provavelmente saiu fora do trilho, pois este fazia uma espécie de cotovelo e pisou uma mina antipessoal reforçada com trotil, que o desmembrou, provocando-lhe a morte. Com eu seguia atrás dele a dois metros de distancia, com a explosão a minha cabeça ficou cheia de terra, que entrou na boca, tapou o nariz e sobretudo os olhos. Imediatamente deixei de ver e com dores horríveis nos olhos, zumbidos agudos e tosse ao procurar expelir a terra da boca. Levantei-me e sem ver caí no buraco aberto pela explosão. A G3 voou das mãos e deve ter ido parar ao meio do capim. Na frente da coluna, embora ouvindo perfeitamente o rebentamento, não se aperceberam do que tinha acontecido. O furriel que comandava a coluna, veio atrás ver o que se passava e só então se apercebeu que tinha sido uma mina.

Aos berros chamou pelo cabo enfermeiro, que não teve muito a fazer. O Ventinhas estava moribundo e faleceu algum tempo depois. Segundo me disseram mais tarde, foi embrulhado num ponche de borracha e transportado no regaço de alguém para o quartel de Nova Sintra. Eu não tinha ferimentos visíveis e os que tinha ele não podia ajudar. Foi pedida imediata evacuação, só que as comunicações via rádio com Tite não funcionaram. Resolveram fazermos o resto do percurso, mais ou menos três quilómetros, a pé. Eu fui amparado aos ombros do cabo enfermeiro Henriques e do Arouca. Próximo do quartel estava a sair uma coluna que ia para S. João. Passamos por entre eles e segundo me disseram mais tarde, ninguém sabia quem era o ferido, tal a camada de terra agarrada à cabeça. Pelos vistos só o Tomás, miúdo de dez anos, orfão da guerra, disse que era eu atendendo à forma de caminhar. Já no quartel ouvia a pergunta, quem é? Quem é?

A comunicação com Tite continuava a não ser conseguida. O amigo Lima agarrado ao rádio berrava “india cinco sierra, zulu nove mike, chama“. À data eram os códigos dos postos de transmissões de Tite e de Nova Sinta. Durante o tempo da comissão estes códigos mudavam com frequência, mas estes ficarão para sempre gravados na minha memória e não haverá alzeimer que os retire. Enquanto não era possível efetuar a evacuação, despiram-me e puseram-me debaixo do chuveiro. Termia como varas verdes, de frio não seria porque estava calor, era talvez do estado de choque. A minha farda de passeio e sapatos tinham ficado em Tite. Alguém trouxe uma camisa, calças e calçado. Lembro que as calças eram muito apertadas. Entretanto a evacuação foi conseguida. Levaram-me de jeep para a pista, bem como os restos mortais do Ventinhas. Na avioneta veio uma enfermeira paraquedista, que segundo disseram era loira, talvez numa tentativa de me animar e que meses mais tarde conheci, quando voltou a Nova Sintra numa outra evacuação.

Chegado à base de Bissalanca segui de ambulância para o Hospital Militar. Fui colocado não sei onde deitado na maca. Não sabia se estava no chão ou em cima de qualquer coisa. Com a mão direita de fora da maca, tocava no que me rodeava e conclui que estaria no chão pois sentia uma superfície fria e lisa.

As pessoas passavam por mim mas não ligavam nenhuma. As dores nos olhos e o rubor na cara era escaldante. Comecei por insultar quem por mim passava, chamando-lhes filhos desta e daquela, até que alguém, creio que era um sargento pois chamaram-lhe assim, veio ter comigo e perguntou a outros o que é que aquele homem estava ali a fazer. Responderam que estava à espera do oftalmologista. Era uma segunda-feira e o médico devia ter ido passar o fim de semana à ilha dos Bijagós. Mas o sargento ordenou que eu fosse de imediato ao RX para a eventualidade de ter algum estilhaço no corpo, o que felizmente não se veio a confirmar. O médico chegou e mandou-me para a sala de observações, onde permaneci três dias.

Foi iniciado o tratamento prescrito, que consistia na lavagem dos olhos várias vezes ao dia e mesmo durante a noite, mais umas injeções não sei para quê. Ao fim da tarde desse dia, ouvi passos que vinham na minha direção. Abeiraram-se da cama e uma voz perguntou: “Rapaz de onde és e o que te aconteceu?”. Reconheci logo a voz do General Spínola e resumidamente respondi. O acompanhante habitual do general era o Capitão Almeida Bruno, que me perguntou se eu sabia com quem estava a falar. Respondi que era o General Spínola e ele o Capitão Almeida Bruno. No dia seguinte voltaram a visitar a sala de observações, tomando conhecimento dos que chegaram nesse dia. Era do conhecimento geral, que desde sempre, os dois ao fim da tarde iam ao hospital quase todos os dias. De madrugada entrou alguém na sala a gemer e a berrar. Era uma parturiente que horas mais tarde deu à luz uma bebé.

O barbeiro do hospital, de dois em dois dias, ia-me fazer a barba e eventualmente aparar o cabelo. Para ir ao refeitório, nos primeiros dias, era acompanhado pelo cabo enfermeiro, que me ensinou a fazer o percurso sozinho. Saía da porta da enfermaria, dava quatro passos em frente atravessando o corredor e tocava na parede, virava à esquerda e caminhava uns tantos passos ao longo da parede até ao início da escada, depois à direita, descia seis degraus, contornava o patamar e descia mais seis degraus até à entrada do refeitório. Quando entrava diziam, lá vem o ceguinho, quem é que lhe vai dar a sopa na boca e cortar o bife? Obviamente que meter a sopa na boca era exagero, era uma brincadeira, mas o restante sim, precisava de ajuda. No trajeto inverso contava os mesmos degraus e dava os mesmos passos. Na cama não podia estar de barriga para cima, porque a deslocação de ar provocado pelas enormes pás das ventoinhas colocadas no teto, ao bater nas pálpebras agravava as dores.

Outro problema, o correio. Não podia ler nem escrever, mas consegui uma boa solução para o resolver. O furriel Oliveira Miranda do 4.º Pelotão, andava na consulta externa do hospital, em tratamento da fratura de dois dedos sofrida aquando do rebentamento da mina de 24/07/69. Ia ao SPM (Serviço Postal Militar) levantar o seu correio e trazia o meu. Lia as minhas cartas e ajudava-me a responder. Colocava a minha mão direita que agarrava a esferográfica sobre a primeira linha do papel de carta e vagarosamente começava a escrever. Ao chegar ao fim de cada linha ele dizia, devagar pois vais ter de mudar de linha. Os meus pais não sabiam o que tinha acontecido. Escrevi dizendo que estava em Bissau a tratar de assuntos da companhia. Estava esperançado em voltar a ver, a curto prazo, adiando sempre contar a verdade. Só que o meu pai soube de uma forma abrupta, que mais adiante vou referir.

Às terças e quintas feiras recebíamos a visita das senhoras do Movimento Nacional Feminino e da Cruz Vermelha, respetivamente. Conversavam connosco dando-nos apoio moral, mostravam-se disponíveis para resolver alguma dificuldade e tomavam nota do que nos fazia falta, para eventualmente a satisfazer. Na expetativa de a breve prazo voltar a ver, pedi um estojo de barba. Na semana seguinte fui contemplado com o dito estojo, que me foi entregue por uma senhora e pelo conhecido artista Marco Paulo. Nestas entregas normalmente faziam-se acompanhar de figuras públicas, artistas, cantores, futebolistas e outros.

Ao iniciar a quarta semana de internamento, comecei a sentir melhoras, a manter os olhos abertos durante instantes e dores residuais. Numa ida à casa de banho, ao passar junto dos espelhos, parei diante de um e consegui ver a cara, muito desfocada mas vi. Era sinal que estava no bom caminho e chorei de contente. Nessa semana melhorei substancialmente e como tive conhecimento de que as coisas em Nova Sintra, não estavam a correr da melhor maneira, incluindo a gestão do depósito de géneros, de que era o principal responsável e fui pedir alta ao médico. Ela ficou surpreso e disse: “Oh homem você é maluco, quer ir outra vez para aquele buraco?” À minha insistência ele acedeu, prescrevendo as gotas que devia continuar a aplicar e uns óculos escuros. Tive alta e saí do hospital.

Fui ao Serviço de Transportes solicitar transporte aéreo, porque a pé nunca mais, nem que tivesse de alugar uma avioneta civil. Estava ansioso por voltar a Nova Sintra, acrescido do facto de não ter dinheiro para umas cervejas. Tive a sorte de encontrar o furriel Barriga Vieira, que acabara de chegar de férias e que me emprestou algum.

A primeira coisa que fiz ao chegar ao quartel foi consultar as ordens de serviço, para verificar como estava referido o acidente. Estava só no que dizia ao falecido Ventinhas e quanto a mim nada. Exigi ao alferes Carriço, que na altura comandava a companhia e ao primeiro sargento que o meu caso também fosse registado em ordem de serviço, o que foi feito. Esse documento foi anexo ao processo clínico do hospital e depois organizado um processo por ferimentos em combate.

Trabalhei bastante para repor a escrita em dia mas consegui.

Quanto ao modo como o meu pai teve conhecimento do sucedido foi assim. O Quim Marques, meu conterrâneo e amigo, estava destacado em Farim e tinha vindo passar férias a metrópole. Ele não sabia o que me tinha acontecido. No regresso à Guiné, o meu pai e a família dele, foram a Pedras Rubras despedir-se. No aeroporto o Quim, que era do Serviço de Material, encontrou o furriel do mesmo serviço da CCS do meu batalhão, que se conheciam por terem feito juntos a especialidade. O Quim na melhor das intenções, apresentou-o ao meu pai e disse, este meu amigo pertence ao batalhão do Aníbal. Na ânsia de informações a meu respeito, o meu pai perguntou-lhe, então conhece o Aníbal? Sabe como ele está? E não é que o camelo responde dizendo: “O seu filho está cego“!.. Quando ele veio de férias era a informação que havia em Tite. Não sei como o meu pai resistiu ao choque, pois era muito medricas e sofria do coração.

Dias antes tinha ido a minha casa o alferes Martinho, mostrando-se disponível para me levar alguma encomenda, tendo dito que eu estava em Bissau a tratar de assuntos da companhia e que estava bem. Mentiu a meu pedido. O meu pai chegado a casa vindo de Pedras Rubras, voltou ao Porto para ir tirar satisfações com o alferes. Quando chegou junto dele disse, o senhor alferes mentiu-me, pois acabo de saber que o meu filho está cego. O alferes ficou desarmado e disse: “Sim é verdade mas não é bem assim, menti a pedido do Aníbal e por uma boa causa. De facto ele foi vítima de um acidente grave, mas provavelmente na data de hoje já estará de regresso a Nova Sintra“, o que era verdade. Efetivamente já estava no mato, mais ou menos recuperado, mas ainda em tratamento ambulatório.

Então escrevi à família contando a ocorrência.

Na primeira vez que o amigo Oliveira Miranda me foi visitar ao hospital, eu ainda tinha marcas na cara provocadas pela projeção de areias e terra e disse que eu parecia um goraz de pinta.

De realçar, pela negativa, que o 1.º Comandante do Batalhão e os dois 2.ºs nunca me foram visitar ao hospital e o 1.º ia com frequência a Bissau pois tinha lá família.

Hospital Militar 241 - Bissau
Uma das enfermarias
Heliporto onde todos os dias chegavam feridos

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 13 de maio de 2025 > Guiné 61/74 - P26796: Vivências em Nova Sintra (Aníbal José da Silva, Fur Mil Vagomestre da CCAV 2483/BCAV 2867) (11): Uma jóia de criança; A Tombó; Abutres e pelicanos e As larvas de asa branca

sábado, 8 de fevereiro de 2025

Guiné 61/74 - P26472: Humor de caserna (101): Dar de beber à dor... (António Reis, ex-1º cabo aux enf, HM 241, Bissau, 1966/68, autor de "A Minha Jornada em África", 2015)


Espinho > 20.º Encontro do Pessoal do HM 241 (Bissau) > 7 de Outubro de 2023 >  O António Reis e a esposa, Rosa, na convívio anual do pessoal do HM 241 (Bissau)


Foto (e legenda): © António Reis (2023). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

António Reis, ex-1º cabo aux enf, HM 241 (Bissau, 1966-68)
 membro da nossa Tabanca Grande, nº 882. 
É natural de Avintes, Vila Nova de Gaia.



Capa do livro de  António Reis, "A minha jornada de África", 
1ª ed., s/l, Palavras e Rimas, Lda, 2015, 111 pp. 


1. Tenho especial carinho pelos nossos camaradas dos serviços de saúde militar, não só alferes milicianos médicos (não conheci os do QP, a não ser mais tarde como professor...),  mas também furriéis enfermeiros, 1ºs cabos aux enf, soldados maqueiros, e outros.

 Nunca entrei felizmente no HM 241 (devia tê-lo feito, ainda em Bissau, antes de regressar a casa, para visitar camaradas internados, o que nunca se proporcionou). 

Também nunca fui, como devia ter ido, ao HMP, à Estrela, depois da "peluda"...Visitar os doentes é uma das 14 obras de misericórdia que um cristão deve cumprir.  Mas depois da guerra acabar (?) para mim, ainda houve camaradas que conheceram o calvário do Hospital  Militar Principal... Não fui cristão para com  eles.  

Penitencio-me agora, mais de 50 anos depois, dando-lhes a palavra, não os esquecendo, valorizando o seu papel... O mesmo se passa com as nossas antigas enfermeiras paraquedistas, que pertenciam ao serviço de saúde da Força Aérea.  Temos que falar mais deles e delas. porque "nunca tantos deveram tanto a tão poucos e tão poucas"...

O António Reis foi um dos nossos camaradas que passou toda a comissão no HM241. Nunca saiu de Bissau, e se deu um "tiro" de G3 só para dazer o gosto ao dedo e... "perder os três" como combatente; enfim, nunca viu o "mato" mas viu os "horrores do mato" nos corpos e nas almas dos que chegavam, de helicóptero, ao HM241,  onde trabalhava por turnos.   

Não o conheço pessoalmente, mandou-me há 10 anos atrás dois ou três exemplares da nova edição do seu livrinho de memórias. Tenho que publicar um dia destes a sua pequena grande história de vida. Gosto do seu sentido de humor, da sua bonomia, da sua bondade e da sua...marotice.

Esta cumplicidade entre dois avintenses, o Toinho e o Feiteira é uma grande história, a nº 101 da série "Humor de caserna".


Dar de beber à dor

por António Reis

(....)

Fonte: Excertos e adapt. de António Reis - "Em nome do próximo" e  "Saudade". In:  "A minha jornada de África", 1ª ed., s/l, Palavras e Rimas, Lda, 2015, pp. 45/46 e 49/50.


Observações: 

 O autor queria muito provavelmente escrever " Coramina" e não "Coromina"...

"La niquetamida es un estimulante que afecta principalmente al ciclo respiratorio. Ampliamente conocido por su antiguo nombre comercial de Coramina, se utilizó a mediados del siglo XX como contramedida médica contra las sobredosis de tranquilizantes" (...). Fonte: Wikipedia.

O medicamento "Coramina®", dos Laboratórios Ciba,  era "a marca registrada da substância (C10H14N2O) derivada do ácido nicotínico, indicada como estimulante cardíaco e respiratório". Etimologia: vocábulo composto do latim, "cor + amina". Fonte: Michaelis.


(Seleção, digitalização, título, observações: LG)

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Nota do editor:

Último poste da série > 5 de fevereiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26460: Humor de caserna (100): A piçada do general: "Ó nosso alferes, qual bicha, qual carapuça!... Saiba que no exército português não há bichas e muito menos de pirilau!"... (disse ele para o ten mil José Belo, sendo o 1º cabo mil Carlos Silvério testemunha)

sexta-feira, 31 de janeiro de 2025

Guiné 61/74 - P26444: Humor de caserna (99): Evacuado com um "tiro no cu"... (Valdemar Queiroz, que hoje está acamado, em casa, sozinho, a lutar contra o raio da sua DPOC de estimação...)



Guiné >  Região de Gabu > Nova Lamego > 15 de junho de 1970 >
Foto (modificada) do "artista quando jovem", tirada no quartel velho de  "com o 'ferido', convalescente, amarelinho e magricelas" (na  "estância de repouso do Gabu"),,,

Foto (e legenda): © Valdemar Queiroz (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. É uma pequena  história, que merece ser compilada na série "Humor de caserna"... O contista é o Valdemar Queiroz [ex-fur mil, CART 2479 /CART 11, Contuboel, Nova Lamego, Canquelifá, Paunca, Guiro Iero Bocari, 1969/70] que, no HM 241, onde esteve internadom passava por um herói da 4ª Rep que tinha apanhado com uma "bala no cu" e sobrevivido... 

Infelizmente, por estes dias de sol de inverno, está em casa, trancado, só e  acamado, a lutar contra o raio da sua DPOC de estimação... Um abraço solidário para ele, que ainda consegue sorrir com meia-cara... e pedir desculpa por não poder "blogar" como ele  queria...



Humor de caserna >   Evacuado com ‘um tiro no cu’ 

por Valdemar Queiroz


Desde criança que sofro com problemas de frúnculos [ou furúnculos, frunchos, fruncos...]. 

Começaram por aparecer em sítios complicados: na dobra das pernas, nas axilas dos braços e na barriga. Os mais complicados, por terem sido dolorosos, foram os na dobra das pernas, que me dificultavam o andar e terem aparecido na idade 8-9 anos. Não me recordo como estes foram tratados, mas tenho grandes cicatrizes por detrás dos joelhos que sinalizam o sofrimento.

Com o tempo, houve um período sem grande ‘erupção cutâneo’, aparecendo apenas o vulgar pelo encravado da barba no pescoço, mas, no meu caso, sempre com necessidade de uma intervenção muito para além da pinça-saca-pelos: cheguei a sacar pelos encravados com mais de três centímetros.

Na Guiné, também, apareceu um frúnculo, e que frúnculo. Apareceu numa nádega, localizado na parte interior perto do recto. Tentei rebentá-lo espremendo, mas ou por isso ou por outra razão criou uma grande inflamação. Não foi possível tratá-lo com pomadas ou injeções contra inflamações e o oficial médico de Nova Lamego foi de opinião da evacuação para intervenção cirúrgica em Bissau. 

O fur mil enf Edmond,   da minha CART 11,  tratou de toda a papelada e lá fui evacuado em DO 27 para o Hospital Militar de Bissau [HM 241], com um grande hematoma e 40 graus de febre.

Não me lembro de mais pormenores, só me lembro de, depois da intervenção cirúrgica, acordar na Enfermaria Geral,  rodeado de vários doentes carentes de saber o meu nome, em que sítio foi o ataque e como tinha sido ferido. 

Depois, apareceu um Sargento Enfermeiro a perguntar quem era o Queiroz. "É este aqui que foi evacuado com um tiro no cu", disseram uns que já tinham ‘arranjado’ uma história, daquelas idealizadas à ‘5ª. Rep’[o Café Bento].

Tive que mudar para o piso superior do Hospital, para uma das Enfermarias de Oficiais e Sargentos  ficando num quarto com mais quatro doentes, que eram todos Oficiais, um deles tinha a cara toda ferida de estilhaços e outro muito magricelas e já tinham recebido a habitual visita do Spínola.

Uma semana depois, lá regressei a Nova Lamego, com o ‘assunto’ tratado, mas com o aviso do médico cirurgião de que, mais mês menos mês, voltaria a infetar/rebentar outra vez.

E assim aconteceu, o ‘tiro no cu’ deu-me grandes chatices depois de sair da tropa, com infeções, hematomas, rebentamentos, melhoras/pioras durante mais de dois anos, só ficando totalmente curado em maio de 1973 com uma operação na Clínica St. António, na Amadora.

Ainda agora, quando calha em conversa sobre mortos e feridos na guerra na Guiné, eu comento que, pessoalmente, a não ser ter sido evacuado com um problema dum frúnculo numa nádega, não tive problemas, há sempre alguém que diz: "pois, tá bem, desculpas de quem foi evacuado com um tiro no cu".

Anexo uma foto tirada no nosso Quartel, em Nova Lamego, com o 'ferido', convalescente, amarelinho e magricelas, que, não fora ser vista a vala e os abrigos dos cunhetes de munições, parecia uma estância de férias.

Valdemar Queiroz
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Nota do editor:

Último poste da série > 20 de janeiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26403: Humor de caserna (98): Quando o IN... jabadava!... Até que o goês e pacato alferes Basílio dos morteiros quis saber porquê... (Rui A. Ferreira, Sá da Bandeira, 1943 - Viseu, 2022)

segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

Guiné 61/74 - P26386: Humor de caserna (95): Os meus Natais de 66 e 67 no HM 241, em Bissau (António Reis)


Guiné > Bissau > Hospital Militar 241 > Natal de 1967 > "Foto que me foi oferecida pelo grande amigo  António Malheiro (natural de Lamego, vive no Porto)."


Foto (e legenda): © António Reis (2023). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné > Região de Tombali > Cachil > CCAÇ 1423 > Monumento funerário, à memória dos Fur Mil Condeço e Boneca, mortos na tarde de 24 de dezembro de 1966 (ainda evacuados para o HM 241). (****)

Foto (e legenda): © Ex-1º Cabo Gandra / Hugo Moura Ferreira (2006). 
Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




Ex-1º cabo aux enf, HM 241, Bissau, 1966/68; natural de Avintes, V. N. Gaia, é membro da nossa Tabanca Grande, nº 882; é autor de dois livrinhos de memórias da Guiné; tem página no Facebook... Vai fazer 81 anos no próximo dia 28 de fevereiro.

Gosto de reler o seu título "A minha jornada em África", com as as suas pequenas histórias do dia dia do HM 241 (Bissau), onde há uma sempre uma mistura de ternura, compaixão, humanidade, humildade, gratidão... e ironia". Tem uma boa memória.

Algumas delas tem perfeito cabimento na nossa série "Humor de caserna". Como esta que vamos aqui reproduzir, com a devida vénia, "Os Natais"...

Ele passou dois, no CTIG, o de 1966 e 1967. Um, o de 66, passado em família, a grande família do hospital, onde não faltaram oficiais e sargentos, médicos e enfermeiros, esposas que vieram da metrópole, etc., e onde não faltou nada do bom e do melhor... O de 67, bom... "também não foi mau", mesmo sem convidados... À boa melhor maneira portuguesa, ele justifica-se: havia quem estivesse pior, no mato...

Os meus Natais de 66 e 67 no HM 241, em Bissau...

por António Reis


O de 66 foi um Natal passado em família, a família do hospital mais os convidados. 

As mesas forma postas cá fora; foram os oficiais médicos e os não médicos, os sargentos... Foram muitas esposas da metrópole para passarem o Natal.

Para quem estava habituado a pouco como eu, diria que nada faltou. Na nossa mesa andava, à vez, um de nós quase sempre de pé para desenrascar o que faltava.

Para quem estava em guerra foi um bom Natal, mas para que não esquecêssemos que estávamos em guerra, não faltaram  os helicópteros com mortos e feridos, por mais de uma vez, uma das quais com um capitão, já morto (**), e outra com dois furriéis gravemente feridos.

Um deles, se bem me lembro era uma figura do mundo do desporto, conhecido por "furriel boneco": ficaram ambos na minha enfermaria. Não me lembro se morreram os dois, mas pelo menos o "boneco" morreu. (***)

Assim se passou o Natal de 66, só que depois veio janeiro e passámo-lo, nós, as praças, a comer "bianda" (arroz) ao almoço e "bianda" ao jantar, para pagar a fatura do que foi gasto na noite de Natal.

No Natal de 67, como não foram  convidados nem médicos nem sargentos, nem ninguém estranho ao serviço, passámo-lo no nosso modesto refeitório, feito em hexágonos de cimento, tendo como telhado chapas de zinco, sem nada a lembar qiue era o Natal.

Não foi mau, porque outros o passaram metidos em abrigos que tinham furado, ou tinham sido feitos com camadas de troncos de árvores, e  a frazerem uma prece para chegarem ao dia seguinte.



Fonte: António Reis, "Os Natais". In: A minha jornada de África, 1ª ed., s/l, Palavras e Rimas, Lda, 2015, pp. 75/76,

(Revisão/ fixação de texto, título: LG)

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Notas do editor:

(*) Ultimo poste da série > 11 de janeiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26377: Humor de caserna (94): "Ó meu alferes, telefone à minha mulher e diga-lhe que morri a pensar nela!" ... Ou para o que davam as sezões!... (Alberto Branquinho, "Cambança Final", 2013)

(**) Vd,. poste de 17 de setembro de 2009 > Guiné 63/74 - P4968: In Memoriam (32): Cap Mil Art Fausto Manteigas da Fonseca Ferraz, CART 1613, morto pelo Sold Cavaco, na véspera do Natal de 1966

(***) Não era alcunha mas apelido: "Boneca" e não "boneco": José Manuel Caracol Boneca, algarvio de Portimão...Vd. aqui os dois furriéis, gravemente feridos, que vão morrer no HM 241 na Consoada de 1966, ambos vítimas de rebentamento de uma armadilha, no Cachil:

Álvaro Nuno Florentino Condeço, fur mil at inf, CCAÇ 1423 / BCAÇ 1858, natural de Évora,

José Manuel Caracol Boneca,  fur mil sapador,  CCAÇ 1423 / BCAÇ 1858, natural de Portimão.


(****) Vd. poste de 18 de dezembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2361: O meu Natal no mato (4): Cachil, 1966: A morte do Condeço e do Boneca, CCAÇ 1423 (Hugo Moura Ferreira / Guimarães do Carmo )

sexta-feira, 22 de novembro de 2024

Guiné 61/74 - P26178: Humor de caserna (82): "Anestesiado... com uísque" (António Reis, ex-1º cabo aux enf, HM 241, Bissau, 1966/68)


António Reis

António Reis, ex-1º cabo aux enf, HM 241, Bissau, 1966/68; natural de Avintes, V. N. Gaia, é membro da nossa Tabanca Grande, nº 882; é autor de dois livros de memórias da Guiné; tem página no Facebook.


1. Gosto de ler ou reler histórias dos nossos camaradas que pertenceram aos serviços de saúde miilitar, dos médicos aos enfermeiros, sem esquecer as nossas enfermeiras paraquedistas, as únicas mulheres que foram, em boa verdade, nossas camaradas de armas.

Mas esta "cena" que selecionei (*),  passa-se no HM 241, o hospital militar de Bissau,  onde o nosso já conhecido António Reis fez a sua comissão de serviço e conheceu a guerra, ou melhor, as vítimas da guerra. 



Vem contada, de maneira singela e despretensiosa (mas com a sua habitual pontinha de bom humor e empatia, ingredientes afinal fundamentais para quem cuida dos outros e salva vidas, seja na guerra ou na paz), no seu livrinho de memórias do HM 241, "A minha jornada em África".  Coim a devida vénia... e apreço.



Humor de caserna (82) > Anestesiado com... uísque 

por António Reis


Não ter cão e caçar com gato era o que acontecia em situações adversas. As dificuldades eram muitas das vezes tremendas.

Um dia, chegou um, como normalmente, de helicóptero. Aparentemente os ferimentos não eram graves, mas o nosso homem vinha num estado que os ferimentos não justificavam: não dava acordo de si.

Era uma moço ainda com a cor da metrópole, devia pertencer a alguma companhia ainda recém-chegada, de "periquitos" (como lhe chamávamos). Daqueles a quem o sr. Amíklcar Cabral gostava logo de lhes fazer o batismo de fogo, pois companhias havia que ainda não tinham oito dias de Guiné e já tinham baixas, feridos e mortos.

Foi então que se reparou num papelucho que vinha por baixo dos pés, e onde lia: "Anestesiado com uísque"...

Era assim; quem náo tinha cão, caça com gato.

Fonte: António Reis, "Quem não tinha cão caçava com gato". In: A minha jornada de África, 1ª ed., s/l, Palavras e Rimas, Lda, 2015, pág. 71

(Revisão/ fixação de texto, título: LG)

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Nota do editor:

(*) Último poste da série > 12 de novembro de 2024 > Guiné 61/74 - P26143: Humor de caserna (81): "Há ouro em Bafatá ?!"... A imaginação febril dos serôdios "garimpeiros" coloniais... (Excerto do "Diário Popular", de 20 de outubro de 1951, suplemento especial dedicado às províncias ultramarinas que, em revisão constitucional, tinham acabado de deixar de ser colónias)

sexta-feira, 1 de novembro de 2024

Guiné 61/74 - P26102: Humor de caserna (80): Fui um felizardo: mandaram-me ir substituir uma enfermeira paraquedista e fazer uma evacuação no mato...Foi a primeira vez que peguei na G3, dei um tiro, para o ar...(António Reis, ex-1º cabo enf aux, HM 241, Bissau, 1966/68)



Capa do livro de  António Reis, "A minha jornada de África", 
1ª ed., s/l, Palavras e Rimas, Lda, 2015, 111 pp. 




António Reis, hoje e ontem: ex-1º cabo aux enf, HM 241, Bissau, 1966/68; natural de Avintes, V. N. Gaia, é membro da nossa Tabanca Grande, nº 882; é autor de dois livros de memórias da Guiné; tem página no Facebook.


Fotos (e legendas): © António Reis (2023). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Do seu pequeno livro de memórias, "A minha jornada em África" (2015, 111 pp.), tomamos a liberdade de reproduzir este pequeno apontamento, bem humorado, "A estrela da sorte": ele considera-se um felizardo porque só deu... um tiro e foi para o ar! (pag. 73).

Humor de caserna > A estrela da sorte

por António Reis

 Posso dizer que fui um felizardo. Enquanto que uns passaram parte do tempo fazendo fogo para dele não morrer, ou matando para sobreviver, eu apenas dei um tiro e foi para o ar.

Foi um sábado à tarde ou um domingo. Estava de serviço de escala,  quando recebo ordens para ir de helicóptero fazer a evacuação de um enfermo do mato para o hospital.

Quem desempenhava estas funções eram normalmente enfermeiras paraquedistas com o posto de tenente, mas que, por qualquer motivo, não podiam ir. E,  então, foi requisitado um do hospital. E que fosse armado. 

Eu fui o escalado.

Era a primeira vez que pegava na minha G3, que estava à cabeceira da cama com quatro cartucheiras. E, na iminência de a usar, havia que a experimentar. E experimentei-a, dando um tiro para o ar.

Entretanto deram-nos ordem em contrário e já não foi necessário ir ninguém do hospital.

No dia seguinte fui chamado para justificar o porquê de ter dado o tiro. Justifiquei-me . E ficou justificado.

(Revisão/ fixação de texto, título: LG)
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Nota do editor:

Último poste da série > 21 de outubro de 2024 > Guiné 61/74 - P26066: Humor de caserna (79): O soldado que foge, apavorado, do bloco operatório ao ver "tantas tesouras e faquinhas"... (Maria Celeste Guerra, ex-alferes graduada enfermeira paraquedista, FAP, 1962/65)