Pesquisar neste blogue

Mostrar mensagens com a etiqueta Coimbra. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Coimbra. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 3 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27788: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (39): A rapariga "Singer Plano Inclinado" com quem a malta gostava de dançar, nos bailes do Greco, em Coimbra (Rui Felício, 1944-2026)


Fonte: Imagens e texto: Página do Facebook do nosso saudoso camarada Rui Felício (1944-2026)  > 5 de dezembro de 2025



Ilustração de Rui Borges (com a devida vénia...), um dos antigos condiscípulos e amigos do Rui Felício, da Turma A do 6.º Ano (1960/ 61), do Liceu D. João III, Coimbra. Também ele seguiu direito e, se não erramos, é magistrado aposentado, vivendo em Lisboa (tem página no Facebook, aqui). Também ele é um antigo combatente, tendo estado em Angola, BCAÇ 1875 (1966/68). Além de poeta e ilustrador de talento (tardio?).


1. Mais um microconto nostálgico do nosso Rui Felício (1944-2026). Uma  pequena obra-prima. Título: "Nos Bailes do Greco"... 

Por uma rápida pesquisa na Net, descobri que o "Greco", em Coimbra, era uma associação ou um grupo de amigos, da geração dos "baby-boomers", que adorava dançar e tinha o culto do Elvis Presley... 

Foi lá que o nosso  Rui Felício terá conhecida a rapariga "Singer Plano Inclinado" com quem a malta gostava de dançar... Dou esse título a esta pequena história.  É uma pequena homenagem ao Rui e à sua/nossa geração que fez a guerra e a paz.


A rapariga "Singer Plano Inclinado" com quem a malta gostava de dançar,
no bailes do Greco

por Rui Felício (1944-2026)

Ela colava o corpo ao par com quem dançava mas o rosto e o pescoço encaixavam no pescoço do parceiro, desviando a cara, quase torcendo o resto do corpo para obviar tal postura.

Havia naquela altura um reclame a uma máquina de costura que inventara uma revolucionária forma de costurar e que consistia em alinhavar o tecido de forma inclinada sem necessidade de o retirar para esse efeito.

Era a famosa Singer Plano Inclinado!

A tal moça com quem a malta gostava de dançar, tomou tal “slogan” como alcunha. E a malta avisava:

 Na próxima música sou eu quem vai dançar com a “Singer Plano Inclinado”, ouviram ?!

Rui Felício


(Revisão / fixação de texto, título: LG)

2. Comentário do editor LG

Quando parte alguém da nossa Tabanca Grande, como o Rui Felício, que carregava memórias tão densas do leste da Guiné, a começar pelo desastre do Cheche de que ele foi um dos sobreviventes (mas em que perdeu mais de 1/3 dos seus homens),  deixa sempre um vazio que só as histórias conseguem, em parte, preencher.

Este "microconto" do Rui Felício não são mais do que meia dúzia de linhas,  é verdade, mas é uma pequena joia de observação social e humor de época. Quando o li, na sua página do Facebook, o que me cativou logo  foi  a capacidade  do Rui em transformar um detalhe (digamos técnico ou comercial,  da sua época da adolescência, a publicidade à máquina de costura Singer) numa metáfora comportamental.

Ele não descreve um passo de dança, reconstitui um atitude. Que delícia este contraste, que ironia (sem ser sarcasmo!), na descrição da rapariga, sem nome, que "colava o corpo" mas "desviava o rosto"... nos bailes do Greco!...  (Noutras terra, como a minha,  seria o baile dos Bombeiros.)

É o esboço do retrato dos tabus da nossa sociedade, ainda muito conservadora, a dos finais dos anos 50 / princípios dos ano 60, em que à proximidade física permitida pela dança, num baile público, se contrapunha  a reserva (o tal "plano inclinado") que ajudava a manter  o conveniente decoro e a distância emocional dos dançarinos.

O texto funciona como uma espécie de  "cápsula do tempo". O uso da alcunha "Singer Plano Inclinado" revela muito sobre o espírito daquela juventude coimbrã, nada e criada na cidade dos lentes, a querer romper as "muralhas" dos usos e costumes impostos pela moral vigente em matérias de relações homem (atrevido) - mulher (recatada).

Por um lado, é de destacar a criatividade da "malta" daquele tempo, a forma como se transformavam marcas e slogans em gíria grupal,  demonstra uma cumplicidade geracional muito forte. 

A "Singer Plano Inclinado" é, pois,  um portento de  humor pícaro: é uma observação brejeira,  malandra, mas ao mesmo tempo respeitosa e nostálgica. O Rui consegue, mais uma vez, ser visual sem ser vulgar, muito menos cruel.

E, por fim, é fascinante pensar que um homem que viveu o trauma da guerra colonial e da perda de um filho, em plena idade adulta (o Nuno Felício tinha 38 anos e trabalhava na Antena 1, em 2013, como jornalista)  tenha conseguido preservar esta leveza para contar histórias do ainda seu tempo de "menino & moço". Para o Rui foi talvez a forma, que ele encontrou,  de celebrar a vida que continuava, apesar de tudo.
_______________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 28 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27780: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (38): O Fígaro, um dos cromos do Liceu D. João III, em Coimbra (Rui Felício, 1944-2026)

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27780: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (38): O Fígaro, um dos cromos do Liceu D. João III, em Coimbra (Rui Felício, 1944-2026)


Coimbra > Antigo Liceu Dom João III, hoje Escola Secundária José Falcão. Foto: © CEIS20 / Universidade de Coimbra (2023) (com a devida vénia; reeditada pelo Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, 2026) 


1. A melhor homenagem que podemos fazer a um  amigo e camarada que acaba de partir da Terra da Alegria para a "derradeira viagem",  sem retorno, é lembrar o bem que fez aos outros, as histórias que nos deixou, as memórias partilhadas... Neste caso, falamos do Rui Felício (1944-2026) que, ao  longo da vida, e mesmo longe da sua terra natal, sempre cultivou  um genuíno espírito coimbrão. 

Sabemos pouco da sua vida, só estivemos juntos uma vez, na Ameira, Montemor-O-Novo (em 14/10/2006, por ocasião do I Encontro Nacional da Tabanca Grande, organizado pelo Paulo Raposo e pelo Carlos Marques Santos, também ele coimbrão tal como o Felício e o David). 

Acompanhávamos com irregularidade a sua página do Facebook e editámos uma boa dúzia de "Histórias de Dulombi", a sua série no nosso blogue, onde tem mais de 4 dezenas de referências. 

É também o autor do blogue Escrito e lido: episódios que são sementes de vida , que ele manteve entre 2010 e 2014 (c. de 90 postagens).

Julgamos que teve uma infância feliz no Bairro  Norton de Matos, em Coimbra (*).  Estudou na universidade da sua terra onde fez direito. E julgamos também que foi advogado toda a vida, e nomeadamente, na Ericeira, Mafra.   

Durante o serviço obrigatório, calhou-lhe na rifa a Guiné onde foi oficial miliciano, na CCAÇ 2405 (Galomaro e Dulombi, 1968/70). 

Foi um dos sobreviventes do desastre de Cheche em 6/2/1969. Aprendeu a sorrir com meia-cara, como muitos de nós, tendo passado mais de 1/3 da sua vida sob o regime do Estado Novo.

A história, pícara,  que, em sua homenagem,  aqui reproduzimos, diz-nos muito sobre o que eram os professores e os liceus daquela época.  Havia os "cromos", como o Fígaro, que hoje são objeto do nosso ridículo,  mas também havia outros professores que nos marcaram para a vida, alguns grandes figuras como portugueses, cidadãos,  pedagogos, escritores... Seria injusto referir uns e omitir outros...

O Rui Felício fazia parte da Associação dos Antigos Alunos, Professores e Funcionários do Liceu D. João III / Escola Secundária José Falcão, que tem uma página de grupo no Facebook, com mais de 880 membros, e é administrada pelo Mário Araújo Torres (antigo juiz do Tribunal Constitucional) (fez o serviço militar em Angola, 1972/74).  

Pela foto de grupo que publicamos a seguir, vemos que andaram juntos no liceu, o Rui Felício (1944-2026) e o Victor David (1944-2024), ambos alf mil at inf, CCVAÇ 2405 (1968/7'0) e nossos grão-tabanqueiros.


Coimbra > Liceu D. João III > Turma A do 6.º Ano (1960/ 61). Legenda:

1 - Albino Esteves | 2 - Júlio Maia | 3 - Tomás Porto 4 - Gil Ferreira | 5 - Rui Martins Borges | 6 - Costa Gírio | 7 - Paulo Xavier | 8 - Sá Cunha | 9 - Pinto Fortes | 10 - Rui Felício  |11 - António Cardoso Bernardino | 12 - Vasconcelos Coelho | 13 - Duarte Santos | 14 - Acácio Resende | 15 - Deniz Duarte | 16 - António Horta Pinto | 17 - Castel-Branco Sacramento | 18 - Manolo Mattos-Chaves | 19 - Cruz Almeida | 20 - Cruz Gonçalves | 21 - Veloso e Brito | 22 - Alexandre Gaspar | 23 - Vítor David | 24 - Mário Torres.




Cromos do Liceu D. João III: o Fígaro
 

O circunspecto Fígaro era um férreo disciplinador. Nas suas aulas de Ciências Naturais, tornava-se impensável um sorriso, uma distracção, um movimento mais brusco ou irrequieto.

Ao mínimo sinal de indisciplina, o Fígaro anotava no seu caderninho o nome do aluno prevaricador e era certo e sabido que na atribuição da nota final isso ia ser tido em conta.

Naquele dia, um dos alunos tinha faltado para ir ao funeral de um seu tio e o Fígaro aproveitou a circunstância para dar uma lição sobre a morte dos seres vivos e ensinar aos alunos o que é um defunto, o que é um cadáver.

Calvo, as bochechas arrocheadas, a barriga proeminente, empacotado no velho e coçado fato de tecido da Covilhã, caminhava lentamente no estrado de um lado para o outro, como que a preparar mentalmente a lição.

De pé, fixa os pequenos olhos na turma e começa:

"Quando um orgão do corpo humano deixa de funcionar, diz-se que esse órgão morre.

O corpo humano é formado por um conjunto de órgãos e quando eles cessam o seu funcionamento, a vida acaba e sobrevém a morte.

Com a morte o corpo transforma-se em cadáver e começa a decompor-se. O homem transforma-se assim em defunto.

E,  com a decomposição do corpo, geram-se infecções que podem contaminar aqueles que ainda estão vivos.

Por isso, enquanto não se fizer o enterro do cadáver, deve arejar-se o local onde se encontra e deixar as janelas abertas, para prevenir a propagação de infeções."

O Fígaro reparou que, estranhamente, sobre um tema tão mórbido, os alunos não conseguiam conter o riso e só não desatavam às gargalhadas certamente pelo medo do castigo que sofreriam pela indisciplina.

− Então, meninos? Porque se estão a rir?

E, de dedo em riste para o Teixeira da Silva, da fila da frente, vociferou:

− Explica lá tu o que se passa!

O Teixeira da Silva, chefe de turma, engasgou-se e tartamudeou:

 
− Eu penso que será por o Sr. Dr. estar a arejar algum órgão defunto, porque tem a braguilha aberta...

Rui Felicio (**)

(Revisão / fixação de texto: LG)
________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 8 de fevereiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26473: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (34): O amola-tesouras (Rui Felício, nado e criado no Bairro Norton de Matos, em Coimbra)

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27773: In Memoriam (571): Rui Manuel da Silva Felício (1944-2026), ex-alf mil at inf, CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852 (Dulombi e Galomaro, 1968/70): natural de Coimbra, vivia na Ericeira, Mafra; era um dos sobreviventes do desastre do Cheche (ia na trágica jangada, tendo perdido 11 homens do seu pelotão, em 6/2/1969)



Rui Felício (c- 1944- 2026)


Montemor-o-Novo > Ameira > Herdade da Ameira > Restaurante Café do Monte >  I Encontro Nacional da Tabanca Grande > 14 de Outubro de 2006 > Da esquerda para a direita: 
  • Rui Felício (*);
  • Maria Alice Carneiro (esposa do nosso editor Luís Graça);
  • António Pimentel (que veio propositadamente do norte, com o Hernâni Figueiredo. ambos antigos alf mil da CCS/ BCAÇ 2851);
  • Victor David /1944-2024) e a esposa;
  •  e, por detrás, o Paulo Lage Raposo, o nosso amável anfitrião (e também dos "baixinhos de Dulombi; faltou aqui o outro alferes mil da CCAÇ 2405, Jorge Rijo, também nosso grão-tabanqueiro, bem como o cap mil José Jerónimo).
Foto (e legenda): Arquivo do Blogue Luís Grdaça & Camaradas da Guiné (2006)


1. Pelos comentário, na página do Facebook, dos seus amigos de Coimbra, aperecebemo-nos há duas ou três horas, que o nosso grão-tabanqueiro Rui Felício, sobevivente do desastre do Cheche em 6/2/1969, faleceu por estes dias. Natural de Coimbra, vivia nos últimos anos na Ericeira, Mafra.

O Bernardo Godinho confirmou, dando-nos a triste notícia, hoje, às 12:47, através do Formulário de Contacto do Blogger:

"Rui Felicio, até um dia! 
Os meus sentimentos. 
Mais uma voz que se apaga...
Cumprimentos, 
Bernardo Godinho"

Julgo tratar-se do ex-alf mil Leitão, 3ª C/BCAÇ 4612 (Mansoa e Gadamael, 1972/74), de seu nome completo Bernardo Godinho Abranches Leitão, que vive em Lisboa, e que foi camarada de guerra do Jorge Canhão, no CTIG.

Da alferes da companhia dos "baixinhos de Dulombi", todos eles membros da Tabanca Grande, resta-nos agora o Paulo Raposo e o Jorge Rijo.

2. O Rui Felício (de seu nome completo, Rui Manuel da Silva Felício) era um dos sobreviventes do desastre do Cheche (ia na trágica jangada, tendo perdido 11 homens do seu pelotão em 6/2/1969) (**)

Advogado, era autor do blog Escrito e Lido 2010-2014, colaborou no blog Encontro de Gerações do Bairro Norton de Matos

Era  um talentoso contador de histórias, dotado de fino humor, autor da série "Estórias de Dulombi", de que se publicaram, no nosso blogue, 12 postes.

Em 2013, a morte súbita do seu filho, Nuno Felício (1974-2013),  jornalista da Antena 1, foi um duro golpe para ele, e famíla, de que só muito dificilmente recuperou (***). Talvez o humor o tenha ajudado a superar. E seguramente a resiliência criada na guerra,

Era  um dos 111 históricos do nosso blogue. Entrou para a Tabanca Grande em 12/2/2006 (a par do Paulo Raposo). Ex-alf mil at inf, 3º Gr Comb, CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852 (Galomaro e Dulombi, 1968/70), tem 42 referências.

Tinha muito apreço pelo nosso blogue. Mas aquele trágico acontecimento ter-lhe-á inibido de aparecer mais vezes na Tabanca Grande. De resto, depois do I Encontro Nacional da Tabanca Grande, na Ameira, Montemor-O-Novo, em 2006, nunca mais nos encontrámos.

3. A Tabanca Grande está de luto. Fazemos esta singela homenagem ao nosso Rui Felício cujo ano de nascimento deve ser 1944 (****). 

Da sua  página do Facebook  fomos repescar a sua última postagem, com data de 3 de janeiro de 2026, que tem algo de premonitório. Deixamos aqui os nossos mais profundos votos de pesar à filha, netos e restante família, aos amigos mais íntimos e aos nossos camaradas da CCAç 2405.


O Céu e o Inferno (o Bem e o Mal ?)
 
(Facebook > 3 de janeiro de 2026)

por Rui Felício

O Padre Anibal gostava de aterrorizar os meninos da catequese pintando o Inferno de cores horrendas, onde ardia o fogo eterno que chamuscava as almas pecadoras e calcinava tudo à sua volta. Ensinava-nos que era para aquele antro medonho que iríamos passar a eternidade, se praticássemos o Mal, se pecássemos...

Como contraponto, desenhava-nos o Céu em cores suaves, onde cresciam flores de inimagináveis perfumes, com regatos de cristalinas águas a correrem, numa melodia inebriante, de paz infinita... Esse era o Éden, o lugar perfeito, para onde iam as almas boas.

A que só teríamos acesso se fôssemos bons meninos, se fizessemos só o Bem, se não fossemos pecadores...

Lamentava-me por não conseguir apreender a noção de Bem e de Mal. Achava que o que era Mal para mim podia ser Bem para outro. E vice-versa. Parecia-me que tudo era uma questão de consciência...

E, sendo assim, que certeza poderia eu ter de, no Juízo Final, poder ser condenado a ir para o inferno, mesmo que, em minha consciência, eu achasse que só tinha praticado o Bem? 

Estava nas mãos do critério do Criador, com o qual o meu podia não coincidir. Podendo ser castigado pelo Mal que honestamente considerava que era o Bem.
E não valia a pena pedir ao Padre Anibal que me definisse com exactidão o que era o Bem e o que era o Mal, porque ele, do alto do seu pedestal, não o faria...
Nem, se calhar, o saberia!

Até que uma noite, tive um sonho esclarecedor...

Um génio, de longas barbas brancas, apareceu-me nesse sonho e perguntou-me se eu queria ver, com os meus olhos, quem estava no inferno e quem estava no céu, para depois ser eu mesmo a daí retirar as minhas conclusões.

Caminhámos juntos calmamente até ao Pinhal de Marrocos [o antigo Pinhal de Marrocos circundava o território consolidado de Coimbra; hoje ocupado pelo Pólo II da Universidade de Coimbra].

No meio do pinhal, afastou com o bordão uma moita de silvas, e disse-me que o Infermo era ali.

Aos meus olhos surgiu um terreno relvado com grandes mesas de pedra redondas à volta das quais se sentavam corpos esqueléticos, famintos. Cada um tinha uma colher de madeira, enorme, com mais de dois metros de comprimento.

No meio de grande berreiro, iam mergulhando as colheres nos caldeirões de comida que fumegavam nos centros das mesas. Mas como não conseguiam levá-las à boca, por serem demasiadamente compridas, iam tentando roubar, de forma violenta, a comida uns dos outros.

Admirei-me por não ver chamas, nem terrenos calcinados, ao contrário da imagem que o Padre Anibal nos transmitia na catequese...

Ao fim de um bocado, o génio pegou-me ternamente no braço e caminhámos uns cinco minutos para outra zona do pinhal. Por trás de uma enorme pedra, deixou-me ver aquilo que me disse ser o Céu.

Espantado, deparei com um sítio em tudo semelhante ao do Inferno. As mesmas mesas, os mesmo caldeirões de comida, as mesmas colheres de dois metros que cada um manipulava!

A diferença é que aqui o ambiente era calmo, silencioso, cordato, ordeiro...
Via-se que aqueles corpos estavam bem alimentados, não zaragateavam. Estendiam as suas grandes colheres de dois metros, cheias de comida e davam-nas na boca uns aos outros.

Fiquei, a partir de então a saber, que o critério de selecção entre o Céu e o Inferno, não é o da bondade ou da maldade. É apenas o da inteligência das almas.

Rui Felício, 25 nov 2025

(Revisão / fixação de texto. parênteses retos: LG)
_______________

Notas do editor LG:


(...) Meu Caro Luís Graça: como dizem os brasileiros, o meu testemunho é claramente chover no molhado... Na verdade, dizer que o belo dia de sábado, passado na agradável herdade do Raposo, foi uma jornada inesquecível, é repetir o que por certo todos já te terão dito (...)

Mas nem por isso devia deixar de o referir, para lembrar que o encontro da Ameira só foi possível, porque existe o blog que tu criaste e que, com tanto trabalho e mérito, vais gerindo, coordenando e engrandecendo.

Registei, das intervenções que alguns fizeram a seguir ao almoço, alguns aspectos que confirmaram aquilo que eu já pensava através da assídua leitura do que vais editando no blog, designadamente, o facto de a tertúlia se compor de variadas perspectivas e olhares, na análise e recordação da nossa passagem por terras da Guiné, em circunstâncias adversas de clima e da própria guerra.

Embora nem sempre coincidentes, são perspectivas cuja diversidade proporciona uma visão mais completa, segura e enriquecedora das memórias de todos nós. Bastaria ter ouvido, além de tantos outros, o Virgínio Briote, o Casimiro Carvalho, o Lema Santos [, o Pedro Lauret, o Tino Neves, o Paulo Santiago, o Carlos Santos] e, especialmente, o Vitor Junqueira, para comprovar o que acabei de dizer, isto é, a nossa geração fez a guerra de África segundo as suas próprias convicções, declaradamente contra ela, a favor dela ou conformada com ela, mas sem dúvida dando o melhor de si na defesa de princípios e sentimentos que pairam acima dos interesses ou conveniências individuais.

Sou dos que naquela época era contra a guerra, mas nunca confundi isso com o dever de a fazer o melhor e mais profissionalmente que me fosse possível, quanto mais não fosse para garantir aos soldados à minha responsabilidade o regresso a casa, sãos e salvos. (...)

(***) Vd. poste de  13 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27730: Documentos (53): A retirada de Madina do Boé (Rui Felício, ex-alf mil at inf, CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852, Mansoa, Galomaro e Dulombi, 1968/70)


terça-feira, 14 de outubro de 2025

Guiné 61/74 - P27315: Notas de leitura (1851): "Os Có Boys (Nos Trilhos da Memória)", de Luís da Cruz Ferreira, ex-1º cabo aux enf, 2ª C/BART 6521/72 (Có,1972/74) - Parte III: de Leiria a Coimbra, e da Carregueira a Penafiel, a caminho do CTIG (Luís Graça)



Crachá da 2ª C/BART 6521/72 (Có, 1972/74)


Luís da Cruz Ferreira (n. 1950, Benedita, Alcobaça)


1. Continuando a leitura do livro do Luís da Cruz Ferreira, "Os Có Boys" (edição de autor, 2025, il., 184 pp,) 
(ISBN 978-989 -33.7982-0) (*).

Oriundo co contingente geral, vamos encontrá-lo na recruta, no RI 7, Leiria, 4º turno de 1971 (out/dez 1971).

Fará depois a especialidade de auxilitar de enfermeiro, em Coimbra, no RSS (Regimento de Serviços de Saúde) (jan/mai 1972)

Irá de seguida  formar batalhão, o BART 6521/72, no RAL 5,  Penafiel (jun / set 1972). 

Daí partirá, de autocarro, em 22 de setembro de 1972, de noite, para o aeroporto militar de Figo Maduro,em Lisboa.  Embarcará num Boeing 707 para Bissau, onde chega no dia 26/9/1972 (uma pequena divergència quanto à data de chegada ao CTIG).

O exército levava quase um ano a formar um militar que depois seguia para o ultramar (Angola, Guiné ou Moçambique), em rendição individual, ou integrado num contingente. 

As suas observações críticas  (mesmo que "anedóticas"...) sobre o quotidiano da tropa naquela época merecem, só por si, uma nota de leitura à parte. O livro foi destinado, antes de mais, aos camaradas da sua subunidade,  tendo sido publicado (a 1ª edição) para comemorar, em 2/8/2024,  os 50 anos do regresso da 2ª C/BART 6521/72 (Có, 1972/74).

Com 11 anos de guerra, em Angola e 9 na Guiné e em Moçambique, o serviço militar obrigatório era vista, pelos jovens portugueses de então, como um tempo completamente perdido das suas vidas, que se podia prolongar por 3 ou mais anos. Muitos desses jovens já tinham saído das suas famílias, trabalhando ou continuando a estudar fora das suas terras.

A qualidade da instrução militar (recruta e especialidade) ressentia-se da necessidade, sobretudo do Exército, em mobilizar e preparar rapidamente dezenas de milhares de jovens para um conflito de longa duração, a milhares de quilómetros de casa e  de baixa popularidade. Técnica, tática, física e culturalmente, os militares portugueses iam mal preparados para  uma guerra dita de contra-guerrilha (ou "contra-subversão"), num terreno difícil, de clima tropical.



Capa do livro 


2.  Luís da Cruz Ferreira é natural da Benedita, Alcobaça. Nasceu em 2 de março de 1950, mas só  foi registado  seis meses depois, em 4 de outubro. 

De alcunha o "Beatle", quando jovem, profissionalmente já estava ligado à restauração, tendo trabalhado em diversos estabelecimentos conhecidos da Linha, e nomeadamente em Cascais, a começar pelo famoso  Muchaxo (Guincho).

Na tropa e na guerra, foi 1º cabo aux enf, tendo sido mobilizado para o CTIG, integrado na 2ª C /BART 6521/72 (Có 1972/74). O batalhão estava sediado no Pelundo. Também foram dos últimos soldados do Império, tendo regressado a casa já em finais de  agosto de 1974. 

Antes da suas relativamente tranquilas  "peripécias" da Guiné (onde acabará pro ser sobretudo professor do Posto Escolar Militar nº 20, em Có), vamo ver o que ele nos conta sobre o seu tempo de recruta e instrução de especialidade, bem como de formação de batalhão. (Em Bolama, o batalhão haveria ainda de fazer, durante mais de um mês, a sua IAO -  Instrução de Aperfeiçoamento Operacional, antes de ser colocado na zona oeste,  Sector 07, com sede em Pelundo e abrangendo os subsectores de Có, Jolmete e Pelundo.)

Comecemos pela distribuição do fardamento no RI 7, em Leiria;
 

Fonte: Luís da Cruz Ferreira, "Os Có Boys" (edição de autor, 2025), pág. 9.


Num quartel gigantesco (que albergaria, segundo autor,  c. 1500 homens, um regimento), ficou aboletado  numa caserna para 30 recrutas, com camas duplas, em beliche. Tocou-lhe o 1º andar. Tinha direito a um cacifo com o respetivo cadeado. 

Em Leiria, um quarto dos recrutas do contingente geral eram cooptados para o CSM (Curso de Sargentos Milicianos). Com três disciplinas que lhe faltavam para acabar o 5º ano do liceu,  o jovem recruta, com 21 anos e 6 meses de idade (ou só 21 anos, segundo o registo civil), tinha algumas esperanças de ser um dos "eleitos"... Não o foi, alegadamente por não ter nenhuma "cunha",  revoltou-se mas depressa se resignou, a viver naquele espaço "onde tudo quanto mexia, (...) era de cor verde" (pág. 11).

Visto por um "extraterrestre", aquele era um espaço de segregação, destinado apenas a homens,  "onde não havia mulheres" (pág. 11), e onde esses homens,  com postos hierárquicos bem diferenciados, tinham de se saudar uns aos outros, quando se cruzavam:



Fonte: Luís da Cruz Ferreira, "Os Có Boys" (edição de autor, 2025), pág. 11


Lembra os instrutores (cabos milicianos, furriéis, aspirantes...) que o tratavam com uma inesperada e desnecessária "rudeza". A instrução era dada "em passo de corrida". E havia a ideia de que um homem só era homem depois de ter ido à tropa, e de ter suportado, ci,m sucesso,  muitas privações, contrariedades, humilhações, afinal "demonstrações de coragem, destemor e capacidade  de sofrimento, além de muitas outras coisas inúteis" (pág. 11).



Fonte: Luís da Cruz Ferreira, "Os Có Boys" (ediçáo de autor, 2025), pág. 12


Havia "palestras" ou aulas ao ar livre. Mas o mais importante era o "exercício prático", com a omnipresente companhia da inseparável G3. Recorda a "ida à carreiro de tiro de Marrazes", onde cada recruta fez tiro a 100 metros, em várias posições, gastando cada um carregador de 20 balas... 

Equipara o RI 7 a uma "prisão", onde escasseavam os apoios sociais..Com tanta gente, beber um café na cantina, foi coisa que nunca conseguiu, e que muita falta lhe fazia. Estava habituado, na vida civil, a tomar, depois do almoço e do jantar, o seu "Tofa 404 e, mais tarde, o 505 embalado em vácuo" (pág, 13). Tal como era difícil comprar cigarros. Ir à cidade eram 2 km.  Com o tempo ameno, nesse outono de 1971,  ainda chegou a lá ir e ver nas esplanadas algumas meninas da sua terra, Benedita, Alcobaça, que estavam a tirar o curso do magistério primário. Capital de distrito, Leiria também tinha liceu.

Relembra ainda a semana de campo nas "matas de São Pedro de Moel" e "a tenda de quatro panos" que  ele e mais 3 recrutas montaram.  Passou o tempo doente, de amigdalite, na tenda, e de tal maneira que passou a odiar o campismo para o resto da vida.

Depois do juramento de bandeira, na parada do quartel, ficou a saber que lhe tinha calhado em sorte ir para Coimbra "tirar a especialidade de enfermeiro" (pág, 17).

De Coimbra, onde o colchão já era de espuma (em Leiria era de palha...), não guarda boas recordações da tropa, e muito menos do "rancho": tratavam os futuros enfermeiros "como presidiários com algumas precárias pelo meio para lavarmos a roupa que tínhamos bem suja à custa de nos fazerem ajoelhar, chafurdando nas terras enlameadas" (pág. 21).

Os transportes na época eram um pesadelo. Eram escassos, morosos e caros. Pouca gente ainda tinha carro. Aprendeu a andar à boleia, na estrada nacional nº 1. O célebre restaurante "O Bigodes", aberto 24 horas por dia, era paragem obrigatória, quer de camionistas quer dos militares que andavam à boleia. (Ainda hoje existe, IC2 / N 1 Km 81, 2475-034 Benedita),.

Um dia apanhou boleia até à Figueira da Foz, onde chegou às cinco da manhã. O comboio para Coimbra era só às sete. Com medo de chegar tarde à formatura, teve de ir de táxi, viagem que lhe custou uma pequena fortuna, 150 $00, o equivalente a 10 jantares (ou a 42 euros, a preços de hoje).

Comia-se tão mal no quartel, que era um antigo convento (e depois instalaçpes do RI 12 e, a oartir de 1965, do Regtimento do), que o Luís e um colega decidiram fazer, mesmo sem estarem desarranchados, as suas refeições por conta própria.

Quanto ao que aprendeu em Coimbra, 
entre janeiro e maio de 1972, foi muito pouco. E também ali não se falava do "conflito do ultramar"...



Fonte: Luís da Cruz Ferreira, "Os Có Boys" (edição de autor, 2025), pág. 25


Passou ainda pelo Hospital Militar Principal (HMP) na Estrela, em Lisboa, e pelo quartel da Carregueira. Ainda conseguiu fazer mais um disciplina do 5º ano, o inglês, faltando-lhe agora duas: fisico-químicas e matemática.

É pena que, passado mais de meio século, sobre o seu tempo de instrução de especialidade, em Coimbre e depois no HMP, à Estrela, haja poucas referências ao que ali aprendeu. Diz-nos apenas que foi pura perda de tempo. Mesmo assim, da sua passagem pelo "serviço de cirurgia plástica" do HMP, diz-nos que "através de observação, aprendi alguma coisa, não muito" (pag. 27).

Sabemos que o curso de especialidade para 1º cabo auxiliar de enfermeiro,   ministrado apenas em Coimbra, no Regimento do Serviço de Saúde (criado em 1965, poara responder às necessidades de pessoal sanitário nos 3 teatros de operaçóes. Os futuros furriéis enfermeiros, esses, tiravam a especialidade em Lisboa, no antigo quartel de Campo de Ourique,  onde  funciona a Escola do Serviço de Saúde Militar, a ESSM). 

O conteúdo era sobretudo prático,  devendo compreer matérias como: (i) noções básicas de anatomia e fisiologia; (ii) higiene e profilaxia de doenças tropicais (paludismo, disenterias, infecções cutâneas); (iiii) técnicas de enfermagem geral (curativos, injeções, soros, etc.); (iv) socorrismo em combate (estancar hemorragias, imobilizações, transporte de feridos, reanimação); (v) administração de medicamentos de rotina (quinino, cloroquina, antibióticos comuns); (vi) evacuação sanitária e triagem.

Portanto, o Luís deve ter recebido uma formação intermédia entre o socorrista civil e o enfermeiro profissional, com forte ênfase na autonomia e na  improvisação em condições adversas (recorde-se  que, na Guiné, tanto o furriel enfermeiro como o alferes médico, ambos milicianos, raramente saíam para o mato, sendo cada vez afetos, no tempo do gen António Spínola, aos serviços de saúde da província, prestando cuidados primários (e secundários) não só aos militares como à população civil.) (Os casos mais graves careciam de evacuação para o HM 241, em Bissau.)




Guiné > Zona Leste > Região de Gabu >  Nova Lamego > 1973 > CCS/ BART 6523 (Nova Lamego, 1973/1974)  > O 1.º cabo aux enf Alfredo Dinis, a "tratar de graves queimaduras do Filipe, resultantes da explosão de um gerador de energia, no quartel".

Foto do álbum de Alfredo Dinis (já falecido) – P6060, com a devida vénia. Ver, também, "Memórias de Gabú (José Saúde): Recordando o saudoso enfermeiro Dinis" – P14106.


E entramos na reta final, que foi o RAL 5, em Penafiel, distrito do Porto, onde se foi juntar ao BART 6521/72, que estava em formação. De Penafiel até tem boas recordações, mas não dos transportes para lá se chegar na época. Eram 3 enfermeiros que sairam da Carregueira com destino  a Penafiel:

(i) "por  volta das 11 horas meteram-nos numa camioneta de carga que era utilizada para fazer a ligação  entre o quartel e a estação do Cacém e lá nos largaram" (pág. 34);

(ii) em Braço de Prata, informaram-nos que tinham um comboio-correio para o Porto às 15h00, mas parava em todas as estações e apeadeiros;

(iii) chegaram ao Porto, Campanhã, seis horas e meia depois, às 21h3o;
 
(iv) foram dar um giro pelos arredores e "comer um bom bife com batas fritas a um preço acessível", mas acabando por perder o comboio da meia-noite;

(v) apanharam o das 2h00, chegaram a Penafiel às 3h00;

(vi) extremamente cansados, pousaram os sacos no chão, a servir de almofada,  e assim se ajeitaram para retemperar as forças, só despertando ao toque do corneteiro a anunciar a alvorada.

A manhã começaria com a azáfama própria de um quartel de mobilização de tropas para o ultramar. Nesse mesmo dia conheceu o seu futuro comandante, um jovem capitão miliciano, bem como o alferes, também miliciano, do seu pelotão.  Ficou então a saber que "pertencia ao 2º pelotão da 2ª companhia do Batalhão de Artilharia nº 6521" (pág. 38) (**).

(Continua)

______________________

terça-feira, 24 de junho de 2025

Guiné 61/74 - P26951: O Cancioneiro da Nossa Guerra (26): "Quero Ir para Lisboa", paródia cantada pela malta do BCP 12, em Cacine, em junho de 1973, ao tempo da CCAÇ 3520 (Abílio Magro, ex-fur mil amanuense, CSJD/QG/CTIG, 1973/74),




Crachá da madeirense CCAÇ 3520, disponibilizado em formato digital pelo nosso grão-tabanqueiro Juvenal Candeias, ex-alf mil.

Foto: © 
 Juvenal Candeias (2007). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Há 13 anos atrás o  Abílio Magro (ex-fur mil amanuense, CSJD/QG/CTIG, 1973/74), na sua série "Um Amanuense em Terras de Kako Baldé" (*), escerevia, bem humorado:



(,,,) Decorria o mês de junho de 1973. Eu ainda era muito "pira", não tinha completado ainda 3 meses de Guiné. Vinha do "ar condicionado" e encontrava-me em Cacine, no meio de grande confusão, tropas páraquedistas, fuzileiros, Marcelino da Mata, etc.

Felizmente em Cacine não faltava nada. Não faltava cerveja morna, não faltava uma pedra de gelo, por cabeça, às refeições, não faltava o arroz de "rolhas" (arroz com muito colorau e meia dúzia de rodelas de salsicha), etc., etc..

A CCAÇ 3520  [ "Estrelas do Sul", ou "Os Homeopáticos Cacine´", mobilzados pelo BI 17, Funchal, dez 71 / mar 74, com pelotões destacados em Cameconde, Guileje. Cacine, 1971/74 ] era um companhia farta. Farta de ali estar, farta de comer arroz de "rolhas", farta de esperar pela rendição. Julgo que não cheguei a completar 4 semanas de "férias" naquela "estância balnear", mas foi o suficiente para imaginar uma estadia de 23 meses!

Tenho ideia de só ter comido arroz de "rolhas" durante aquele período. Posso estar enganado. Comecei a dar mais valor ao "pessoal do mato". Antes 527 serviços de Sargento da Guarda!

O major Leal de Almeida  
 [ comandnate do COP 5 ?]  lá continuava a fazer incursões por Gadamael e levava habitualmente consigo o outro furriel. O major, além de me ter pedido, no início, para lhe dar um jeito no "estaminé", pouco mais me pediu para fazer. Apenas um ou outro "mail" para Bissau.

E eu... andava por ali a ver as "bajudas"! (...) Entretanto, eu ia jogando a "lerpa", bebendo umas "bejecas" mornas e convivendo com os sargentos paraquedistas (ah gente do "catano"!).

Recordo-me bem de um convívio noturno na "messe" de sargentos. Houve de tudo! Aguardente, fados, poesia, etc., tudo a roçar o "hard-core", claro! Gente espetacular, camaradagem excelente e com uma disciplina extraordinária, nomeadamente com o armamento.

Guardei na memória alguns versos de um fado cantado pelos "páras" com música do hino académico "Amores de Estudante" e que, salvo erro, rezavam assim:

Quero, quero ir para Lisboa,
Ai, ai, eu quero,
Nem que seja de canoa,
Eu quero ir
P'ra terra santa querida,
Dizer adeus a esta merda
P'ro resto da minha vida.

Pára-quedistas, homens nobres,
Tanto ricos como pobres,
Avançando pela mata (...)

(e de mais não me recordo)




Crachá do BCP 12. Cortesia da página do Facebook Álbuns de  


2.  Ao fim destes anos todos (!), sem qualquer "feedback" da malta do BCP 12, conseguimos recuperar o resto da letra, graças à ajuda do assistente de IA / Perplexity...


(...) Sim, reconheço a canção a que te referes! Trata-se de uma canção popular entre militares portugueses, especialmente associada aos paraquedistas. Muitas vezes é conhecida simplesmente como "Quero ir para Lisboa" ou "Canção dos Paraquedistas". A letra que apresentaste é uma das versões que circulam oralmente, sobretudo entre antigos militares que serviram nas guerras coloniais portuguesas.(...)

Letra Completa (Versão Tradicional)  (embora haja variantes);

Quero, quero ir para Lisboa,
Ai, ai, eu quero,
Nem que seja de canoa,
Eu quero ir
P’ra terra santa querida,
Dizer adeus a esta merda
P’ro resto da minha vida.

Paraquedistas, homens nobres,
Tanto ricos como pobres,
Avançando pela mata,

Com a espingarda na mão,
Sempre prontos para a luta,

Com coragem e devoção.

O assistente de IA / Perplexity deu-nos duas fontes cujos URL, segundo confirmámos, já foram descontinuados. Devem ter tido vida efémera. Nem no Arquivo.pt conseguimos recuperá-los, mas aqui fica o seu registo:
 

https://www.paraquedistas.com/forum/.

Blog "Os Paraquedistas"

https://osparaquedistas.blogspot.com/


3. A letra aqui parodiada pelos páras (de uma das 3 companhias do BCP 12, não sabemos exatamenmete qual, talvez a CCP 122 ou CCP 123) passa a  fazer  parte integrante do Cancioneiro da Nossa Guerra (**),

A autoria da letra é mais provável que seja dos páras (envolvidos na batalha dos 3 G, e que aguentaram Gadamel). A CCAÇ 3520 era madeirense, e era a unidade de quadrícula de Cacine.

De qualquer modo, a letra pdoer ser vista como uma homenagem aos bravos do BCP 12 ("sempre prontos para a luta / com coragem e devoção"), mas também diz muito sobre o "estado de espírito" e o "moral" das NT no terrível período dos três G (Guileje, Gadamael, Guidaje), em maio/junho de 1973. 

Tanto a letra como a música nada têm a ver com os "hinos guerreiros" que podemos encontrar noutras fontes da Net sobre os nossos camaradas paraquedistas...e com os quais reforçam o seu "espírito de corpo".

Eles, o BCP 12, tal como nós, "tropa-macaca" ou (ou do "arre-nacho"), todos estavávamos fartos daquela... "merda" (sic), não se vendo, em meados de 1973,  qualquer luzinha no fim do túnel.. O general Spínola vai "bater com a porta"  na cara de Marcelo Caetano...

Implícita há uma mensagem: o poder político, na altura, usou e abusou da extraordinária capacidade de sofrimento, abnegação, coragem e patriotismo do soldado português. E não esteve decididamente à altura da história!...

O BCP 12, não é preciso recordá-lo,  tem um  brilhante historial no CTIG... Cite-se, pro exemplo,  o sítio dos Boinas Verdes

(...) A competência e eficiência com que os Paraquedistas cumpriram na Guiné as missões atribuídas, de 1961 a 1974, foi paga com a morte em combate de 56 paraquedistas (47 praças, 6 sargentos e 3 oficiais). (...)


4. A letra que reproduzimos acima é uma paródia (e, afinal, não mais do que isso), que se cantarolava enter dois copos e duas saídas para o mato...


(...) Quero, ficar sempre estudante,
P'ra eternizar
A ilusão de um instante.
E sendo assim,
O meu sonho de Amor
Será sempre rezado,
Baixinho dentro de mim. (...)


(Revisão / fixação de texto: LG)

_______________

Notas do editor LGF:


(**) Último poste da série > 30 de maio de 2024 > Guiné 61/74 - P25582: O Cancioneiro da Nossa Guerra (25): Os Gandembéis - Canto IV, Estrofes de I a XI (Fim) (CAÇ 2317, Gandembel, Ponte Balana e Nova Lamego, 1968/69)

quarta-feira, 18 de junho de 2025

Guiné 671/74 - P26934: Memórias da tropa e da guerra (Joaquim Caldeira, ex-fur mil at inf, CCAÇ 2314 / BCAÇ 2834. Tite e Fulacunda, 1968/60) (1): RI 15, Tomar, outrubro de 1967: a "graxa" que custava 3$00, a caixa, e que o 1º sargento queria descontar no meu pré de 1º cabo miliciano (que era de 90$00 mensais, 37 euros a preços de hoje)


Capa do livro de Joaquim Caldeira,  "Guiné - Memórias da Guerra Colonial", publicado pela Amazona espanhola (2021)


1. Texto enviado pelo Joaquim Caldeira, grão-tabanqueiro nº 905 (*),   ex-fur mil at inf CCAÇ 2314 / BCAÇ 2834 (Tite e Fulacunda, 1968/69)

(Vive em Coimbra; reformou-se da Caixa Geral de Depósitos em 1996; foi um dos primeiros camaradas a ter um blogue criado uns anos a seguir; o blogue chamava-se Reviver a Guiné; ele já não se lembra exatamente da URL, talvez: https://reviverguine.blogspot.com

O blogue foi enretanto descontinuado. Recuperou muitas histórias, integrando-as no seu livro de 2021. Ainda não conseguimos localizá-lo no Arquivo.pt nem no Archive Net... A URL pode estar errada.

2. Perguntámos ao asssistente de IA da Gemini / Google, "quando é que apareceram os primeiros blogs em português no servidor Blogger"... A resposta foi a seguinte:

(...) "O Blogger foi lançado em agosto de 1999 pela Pyra Labs. Foi uma das primeiras ferramentas a facilitar a publicação de blogs, popularizando o formato. Em 2003, o Blogger foi adquirido pelo Google.

Embora não haja uma data específica para o surgimento dos primeiros blogs em português no servidor Blogger, podemos inferir que começaram a aparecer pouco depois do lançamento da plataforma e com a popularização da internet no Brasil e em Portugal no início dos anos 2000.

Naquela época, os blogs eram frequentemente usados como diários online, e o Blogger, por ser uma ferramenta gratuita e fácil de usar, contribuiu para a proliferação desses espaços pessoais na internet. (...)


3, Esta é uma das histórias que o Joaquim Caldeira reteve da sua passagem pelo RI 15 (Tomar), em outubro de 1967. 

Era 1º cabo miliciano e recebia de pré 90$00 (noventa escudos) (equivalente naquela época a 37,00 euros da preços de hoje de acordo com o simulador de inflação da Pordata).

Passado menos de 3 meses o seu batalhão, o BCAÇ 2834, estava a embarcar, em 10 de janeiro de 1968, para o CTIG.


Data - domingo, 8/06/2025, 19:30

Assunto -  História anterior à guerra



A "graxa" do 1º sargento...

por Joaquim Caldeira


Decorria o ano de 1967 e o mês de outubro.

Em formatura, aguardávamos a chamada para nos ser entregue o pré correspondente à patente.

No meu caso, 90$00 (noventa escudos). Sobre este montante, ainda eram deduzidos 8% para a Caixa Geral de Aposentações (CGA), de que eu era subscritor e exigia que os descontos fossem feitos para efeitos de contagem de tempo.

Afinal, o meu primeiro trabalho na CGD (Caixa Geral de  Depósitos) tinha sido, exatamente, a contagem de tempo e o abono das pensões aos novos subscritores. Era, portanto, um assunto do qual eu sabia muito, e bem, o que deveria ou não fazer.

Chegada a minha vez, em sentido, feita a devida continência, recebia o pré com a mão direita, conferia, passaria para a mão esquerda com a qual guardaria o dinheiro, nova continência, dois passos à retaguarda, meia volta e iria embora.

Só que o valor não estava correto. E reclamei, no ato.

Com modos de malcriado e muito zangado, o primeiro sargento quis saber o motivo da minha discordância. Em resposta, informei que deveria receber 82$80  e não 79$80. 

Com péssimos modos, esclareceu que a diferença correspondia ao valor da caixa de graxa (3$00) que ele disponibilizava diariamente, na arrecadação, conforme aviso na entrada da caserna. Ripostei que utilizava a minha e, portanto, não pagava. 

 − Paga, sim senhor, como todos os outros. 

 − Então, irei reclamar para o comando.

Pôs-me fora do gabinete e eu mantive que iria reclamar. Era uma sexta feira à tarde e deixei isso para a segunda feira seguinte.

Dia seguinte, sábado, munido de uma licença de fim de semana, rumei à estrada Tomar-Coimbra, devidamente fardado por ser mais fácil obter boleia e vai de fazer o gesto habitual do pedido de boleia. Ninguém parava e, passada meia hora, já com fome, fui a uma tasca que estava junto à estrada e comprei algo para comer e regressei ao meu posto.

Passa um carro preto, marca Mercedes, com um único ocupante. Pára à frente, o que me obrigou a uma ligeira corrida e...

 − Bom dia, vou para Coimbra.

 − Está com sorte, entre. Vou para Condeixa e fica perto de casa. 

E começámos uma conversa sobre a tropa. Onde eu estava e há quanto tempo.

− Olhe, estou no quartel de Tomar há duas semanas e vim formar batalhão para ir até ao Ultramar.

− E antes da tropa, que fazia ?

Lá fui informando de que era “funcionário” da CGD, meio ano em Lisboa e meio ano em Aveiro, com pedido para ser colocada em Coimbra, minha terra de eleição.

− Muito bem. E quem é o seu comandante aqui em Tomar?

− Para ser franco, estou há tão pouco tempo que ainda nem sei quem é e nem sei ainda o seu nome.

Quis saber mais da minha experiência de trabalho e lá expliquei que há muito vivia do meu trabalho e que, além de saber fazer de tudo, tinha facilidade de adaptação a tudo.

E chegámos a Condeixa.

− Já agora, vou levá-lo a Coimbra. É um pulo.

E assim foi. Deixou-me no Largo da Portagem, praça de entrada na cidade.

E, na despedida, disse:

− E o seu comandante...sou eu.

Perfilei-me em sentido, continência e votos de bom fim de semana trocados de ambas as partes.

No dia seguinte, domingo, à tarde, enfio-me na camioneta para Tomar e, após a chegada, rumei ao quartel e, neste, à minha camarata. E passada a noite, estava a vestir a farda para novo dia de instrução aos homens que eu queria bem treinados para me defenderem a pele quando chegasse a hora.

Ouvi, então, que o cabo da secretaria chamava:

− O cabo miliciano Caldeira?

− Sou eu. Há alguma novidade?

− Há sim. Vá ao nosso primeiro.

Era o primeiro sargento da secretaria. Chegado lá, aos berros, perguntou:

− Que merda fez você durante o fim de semana? Vá apresentar-se, com urgência, ao nosso comandante.

Confesso que fiquei inquieto. Aqueles modos e ir ao comandante, poderia ser alguma coisa de desagradável.

E lá fui, ao edifício por cima da porta de armas, local do gabinete do comando. Chegado lá, um cabo sentado a uma secretária, perguntou-me ao que ia e, após a minha informação, levantou-se, bateu na porta e entrou.

Pouco tempo depois, saiu e disse que o nosso comandante pedia para que eu entrasse.

É pá! Isto estava tudo do avesso. Afinal, o comandante não devia estar muito zangado. Até pedia para que eu entrasse.

Entrei, sentido, continência e...

− Bom dia, meu comandante. Passou um bom fim de semana?

Que sim e indagou que tal foi o meu. Mas sempre afável e de modos educadíssimos. O que estaria para vir?

Afinal, as minhas capacidades de saber tratar com papeladas poderia ter muita utilidade porque o seu gabinete estava muito desorganizado e, se eu aceitasse, poderia dar um jeito e arrumar toda a documentação.

Até tinha a possibilidade de ficar livre de dar a instrução que, nos meses de inverno, é sempre mais desconfortável.

Aceitei logo. Passei a ter horário de comandante. E logo que soube do meu novo posto, o primeiro sargento veio ter comigo para me restituir os 3$00 que indevidamente me tinha cobrado da graxa para as botas e que eu nunca tinha utilizado.

Moral da História:

"Temos sempre muito a ganhar quando sabemos mamar. Até o comandante."


(Revisão / fixação de texto, título: LG)

___________________

Nota do editor:


(*) Vd, poste de 5 de maio de 2025 > Guiné 61/74 - P26845: Tabanca Grande (575): Joaquim Caldeira, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 2314 / BCAÇ 2834 (Tite e Fulacunda, 1968/69), que se senta à sombra do nosso poilão no lugar 905

terça-feira, 27 de maio de 2025

Guiné 61/74 - P26851: Convívios (1033): Rescaldo do Encontro do pessoal do BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71), levado a efeito no passado dia 24 de Maio de 2025, em Arganil (Ernestino Caniço, ex-Alf Mil Cav)

1. Mensagem do nosso camarada Ernestino Caniço, ex-Alf Mil Cav, CMDT do Pel Rec Daimler 2208 (Mansabá e Mansoa) e Rep ACAP - Repartição de Assuntos Civis e Ação Psicológica, (Bissau) (1970/1971), com data de 26 de Maio de 2025:

Caros amigos
Votos de ótima saúde.

Realizou-se um convívio de camaradas do BCAÇ 2885, que esteve sediado em Mansoa.
Anexo algumas fotografias para publicitação no blogue se assim o entenderem.
O evento ocorreu junto ao Santuário do Mont´Alto no concelho de Arganil, distrito de Coimbra.

O Santuário (mariano) culmina numa capela situada a 615 metros de altitude (no mais alto do cômoro), onde os peregrinos se dirigiam (outrora único caminho) em romaria e devoção, passando por 6 Ermidas dedicadas a vários Santos. As Ermidas servem como descanso e alívio, em virtude de ser caminho comprido e escabroso por o monte ser muito alto.
O santuário assume-se também, como um miradouro privilegiado, proporcionando vistas deslumbrantes sobre o rio Alva, a serra do Açor e os campos circundantes.

Um grande abraço
Ernestino Caniço


Foto 1 - Aspecto da sala
Foto 2
Foto 2 e 3 > Entradas servidas no exterior
Foto 4 > Ex Alf Ernestino Caniço, ex-Alf Jacinto Rodrigues, ex-Cap Jorge Picado, ex-Alf Martinez
Foto 5 > Jorge Picado, César Dias
Foto 6 > César Dias
Foto 7 > Jorge Picado
Foto 8 > César Dias
Foto 9 > Ernestino Caniço, Jacinto Rodrigues, Jorge Picado, Martinez
Foto 10 > Jacinto Rodrigues, Ernestino Caniço
Foto 11 > César Dias, Ernestino Caniço, Jacinto Rodrigues
Foto 12 > Jorge Picado, Martinez, ex-Fur Filipe

Fotos enviadas e legendadas por Ernestino Caniço. Editadas por CV
_____________

Nota do editor

Último post da série de 26 de maio de 2025 > Guiné 61/74 - P26848: Convívios (1032): No rescaldo do nosso encontro (Famílias Crisóstomo & Crispim + amigos), Torres Vedras, Convento do Varatojo, 25/5/2025 (João Crisóstomo, Nova Iorque)