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terça-feira, 10 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27809: O Spínola que eu conheci (39): ...Em Sinchã Lomá, no regulado do Corubal, na vistoria de uns malfadados abrigos de autodefesa (Rui Felício, "um alferes que não era parvo de todo")


Guiné > s/l > s/d (c. 1968/70) > O Com-chefe António Spínola, numa das viagens a bordo do helicóptero do Jorge Félix. Dizia-se que este era um dos pilotos preferidos do nosso comandante. E o piloto nunca escondeu a admiração que tenha pelo ilustre militar que se sentava à sua esquerda...

Foto (e legenda): © Jorge Félix (2008). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá  > Carta de Duas Fontes (Bengacia)  (1959) / Escala 1/50 mil > Posição relativa   Sinchã Lomá, no regulado de Corubal, a sudoeste de Galomaro e Dulo Gengéle...

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)



Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Setor L1 (Bambadinca) > CCAÇ 12 (1969/71) > 2º semestre de 1969 > Sinchã Mamajã... Algures, numa tabanca do regulado de Badora, já no limite sul, fazendo fronteira com o regulado do Corubal; uma tabanca em autodefesa, reforçada pelo 3º Gr Comb, com os respetivos furrieis mlicianos, "periquitos": na foto o fur mil arm pes inf  Henriques, junto a um dos abrigos e posando com o RPG 2 para a fotografia... 

O fotógrafo foi o Arlindo Roda, que também era deste Gr Comb, o grande fotógrafo da CCAÇ 12, a par do Humberto Reis (fur mil or esp, 2º Gr Comb, o nosso "cartógrafo").

Foto  © Arlindo Roda (2010). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Setor L1 (Bambadinca) > Carta do Xime (1955) (Escala 1/50 mil) > Subsetor de Bambadinca > Detalhe > Tabancas fulas em autodefesa, Samba Juli, Sare Adé, Sinchã Mamajá e Sansacuta, situadas entre os rio Quéuol e Timinco, a leste da estrada Bambadinca-Mansambo, na fronteiras entre os regulados de Badora e Corubal.

Sansancuta fazia parte dum eixo de tabancas no limite sul do regulado de Badora, no Sector L1, e que funcionava como uma espécie de pequena muralha da China, cortando as linhas de infiltração das forças da guerrilha que eventualmente se podiam  para o interior daquele regulado a partir do rio Corubal (infiltração facilitada pela retirada de Madina do Boé, Béli, Cheche, Madina Xaquili...) Estavam ali reagrupados os habitantes de três tabancas, uma das quais Sare Ade cuja população, sobretudo os mais jovens, não se conformou com a ordem de deportação dada pelo comando militar de Bambadinca, tendo fugido para o nordeste (Gabu) e inclusivamente para o Senegal, que também é chão fula.

A sudeste ficavam Afiá e Candamã, já no regualdo de Corubal (tal como a Sinchã Lomá  desta história, a escassos quilometros, a sul do rio Biesse), j+a no setor de Galomaro, Sector L5, criado por essa altura).

Lugares que continuam no nosso imaginário, ao fim de mais de meio século, fazendo parte das nossas geografias emocionais...

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)


1. O general Spínola que conhecemos na Guiné, foi um cabo de guerra, carismático, populista, justiceiro, amado e odiado, e que os capitães do MFA utilizaram como "figura de proa" para, na Junta de Salvação Nacional, o Exército de apresentar, ao país, em 25 de Abril de 1974, como os salvador da Pátria (mais uma vez...).

Confesso que, no CTIG e depois cá, na nossa santa terrinha, nunca morri de amores por ele... Foi meu comandante na Guiné, tive que lhe bater a pala... Visitou-me, no meu buraco, no Rio Undunduma, no dia 1 de janeiro de 1971, para me desejar um bom ano... o que naturalmente sensibiliza qualquer soldado... Mas eu continuei a chamar-lhe o "Herr" Spínola... por causa do sua pose prussiana e do seu ridículo monóculo... 

Hoje olho esse tempo com o "monóculo do humorista" e,  por incrível que possa parecer, já não tenho  qualquer animosidade para o nosso general... Respeito os mortos, é um princípio que tenho (e cultivo no blogue). O que não me impede de ter uma opinião crítica sobre o seu "deve-e-haver", em vida, como homens, portugueses, cidadãos, políticos, militares, escritores, reis, rainhas, presidentes da república, governantes, santos, heróis, etc.

Dito isto, pergunto-me: conhecer ? Não se pode dizer que o conhecemos... Muitos de nós viram-no, ao longe. No palanque, nas receções de boas vindas ao CTIG, em Brá ou no Cumeré. Ou até lhe bateram a pala numa visita relâmpago por ocasião das "festas de Natal e Ano Novo" (em que estávamos quase sempre de prevenção).

Dizer que conhecemos o Comandante-chefe e Governador António Spínola é uma força de expressão. Os oficiais superiores, comandantes de batalhão, esses (com exceção dos de cavalaria e tropas-especiais) tinham medo que se pelavam, dele e das suas visitas-surpresa: tinha fama de trazer sempre um "par de patins" para correr com aquele ou aqueles a quem ele já tinha "feito a folha" em Bissau...

A malta da Força Aérea (pilotos e mecânicos dos helis) também o admiravam. O Jorge Félix já aqui o reconheceu publicamente.

Os soldados em geral adoravam-no por  ser "justiceiro" e por se sentirem lisonjeados com os seus discursos inclusivos sobre o "bom povo português"... Os fulas, idem aspas... Não era ele o "Caco Baldé", segundo a "vox populi"?

Quanto aos milicianos... bom, esses, tinham um sentimento ambivalente: uns gostavam dele, outros nem tanto, mas a maior parte tinha que o gramar. Um camarada, com grande experiência operacional como o Torcato Mendonça (1944-2021) disse dele. "Encontrámo-nos diversas vezes. Confesso que sempre vi naquele homem, trinta e quatro anos mais velho, o Chefe Militar. Obstinado, de forte coragem e frontalidade, teimoso, determinado em vencer o inimigo mas não de qualquer maneira."

Embora crítico, o nosso querido Torcato também escondia a sua admiração por ele... Nessa época, em que lá andámos (1968, 1969, 1970), ainda eram poucos os milicianos que tinham consciência política, embora bastantes já fossem contra aquela merda de guerra... De resto, "tropa é (era) tropa", sempre "foi assim" em todo o lado, até um dia, e que se invertem as hierarquias, em cima o soldado, em baixo o general... (Isso só acontece de 100 em 100 anos.)

A todos o Com-Chefe  exigia que dessem o litro e meio... E está tudo dito. Até o Rui Felício (1944-2026), se "acagaçou" com a sua sempre espalhafatosa visita (vinha sempre de héli, e neste caso com o seu piloto preferido...) a Sinchã Lomã (alguém sabe onde isso fica? Não é, por certo, na serra de Arganil, é a 4 mil quilómetros mais abaixo, depois do trópico de Câncer...).

Releiam esta crónica, de 2006 (há 20 anos!), que ele escreveu para malta do bairro Norton de Matos, em Coimbra  (e sobretudo para nós, seus camaradas da Guiné). É mais uma joia de humor castrense... E um belo retrato tanto do autor como da sua personagem. Devem-se ter encontrado há dias lá no Olimpo dos deuses e dos heróis. Espero que aos dois se tenha juntado o António Lobo Antunes (1942-2026), que adora ouvir histórias de guerra (e  de sexo).



Sinchã Lomá, regulado do Corubal: O Spínola e eu, que era um alferes com medo de levar uma porrada e perder o direito às férias

por Rui Felício (1944-2026)


Chegado a Sinchã Lomá, iniciei os trabalhos, dando prioridade, por questões de segurança própria, à organização da defesa da tabanca, estendendo arame frapado em redor do perímetro idealizado, e marcando os locais dos futuros abrigos, que decidi que fossem oito.

Ao mesmo tempo, seleccionei trinta recrutas entre os homens da população e incumbi o furriel Coelho de lhes dar alguma instrução militar e manuseamento do armamento que lhes iria ser distribuído. O objectivo era criar condições de autodefesa à população, evitando assim mais um destacamento militar do exército para o qual não havia efectivos suficientes.

Enquadrada a tabanca e os objectivos, passo à história propriamente dita.

Dada a experiência anterior já atrás referida, demorámos menos de metade do tempo que tínhamos gasto nas tabancas anteriores, para dar a missão como concluída. Para isso contribuiu também o dinamismo do chefe de tabanca que, ao contrário do de Dulo Gengele, colaborou activamente com a tropa, mobilizando praticamente toda a população para os trabalhos de construção dos abrigos.

Para quem não saiba, os abrigos eram buracos rectangulares, escavados até cerca de 1,20 de profundidade, em cujos cantos se colocavam quatro bidons cheios de terra que serviriam de pilares, nos quais iriam assentar os troncos de palmeira que constituíam a estrutura do telhado.

Feito o esqueleto do abrigo, cobria-se o telhado com uma camada de terra de cerca de 30 cm.

Tudo isto, sem cimento, nem máquinas e com rudimentares ferramentas (pás, picaretas, martelos, pregos, serras manuais e pouco mais…). E um Unimog que com o seu guincho eléctrico era de extrema utilidade. Tudo o resto, à base de esforço braçal…

Porque eu sabia que após a conclusão da missão, regressaria para a sede da Companhia, interessava-me despachar-me o mais rapidamente possível.

Por isso, logo que achei que o trabalho estava feito, mandei um rádio para a Companhia, solicitando que alguém fosse vistoriá-lo para me ser dada a ordem de regresso.

Alguns dias depois, finalmente ouço o ruído de um helicóptero aproximando-se e fiquei ansioso para que tudo fosse visto e achado conforme.

O Héli pousou, pilotado pelo meu grande amigo de sempre, o alferes Jorge Félix, mais tarde um quadro importante da RTP do Monte da Virgem em V. N. de Gaia.

Fiquei, porém, surpreendido pelas altas patentes que o acompanhavam! O Spínola, o coronel Hélio Felgas (Cmdt do Agrupamento de Bafatá ) e o capitão Almeida Bruno, à época oficial às ordens do Velho.

O Spínola dirigiu-se-me, cumprimentou-me e encaminhou-se para o abrigo mais próximo, consertando o monóculo e apoiando-se ritmadamente no seu bastão, à medida que ia caminhando.

Olhou, mirou, deu uma volta ao abrigo e, com ar admirado, deu uma segunda volta agora em sentido contrário… Dirigiu-se a um outro e repetiu a vistoria.

Batia nervosamente várias vezes com o bastão na terra poeirenta, olhava com ar inquisidor o Capitão Bruno e o Coronel Felgas e fez-me sinal para me aproximar… Pelo ar dele, senti-me pequenino e inseguro, embora sem ainda descortinar a razão da sua indisposição.

Olhou-me fixamente nos olhos, ficou em silêncio durante uns segundos e depois as palavras saiam-lhe da boca como se fossem pedras:

 – Vocé é o alferes mais original da Guiné!

A frase seguinte, continha a explicação da sua irritação:

–  Para que raio servem abrigos sem qualquer entrada?!

Nem me deu qualquer hipótese de resposta. Virou-me as costas e foi cumprimentar demoradamente o chefe de tabanca ao lado do qual se aglomeravam homens, mulheres e a criançada da aldeia.

E começou a arengar meia dúzia de frases feitas que ele adorava proferir :

– Vocês são o bom povo da Guiné, donos desta bela terra, que se desenvolverá harmonicamente sob a bandeira portugues... (E etc… etc… etc…).

Entretanto, enquanto decorria a parte política, o capitão Almeida Bruno falou comigo, também ele intrigado, e perguntou-me porque razão eu mantinha os abrigos fechados, como se não tivessem portas de entrada.

Expliquei-lhe que os queria manter limpos e apresentáveis para a vistoria, estando previsto que, logo que aprovado o trabalho, eu retiraria uma série de grades que estavam colocadas nas futuras entradas dos abrigos, para ficarem definitivamente operacionais. É que, se o não tivesse feito, à semelhança do que se tinha passado nas outras tabancas onde tinha estado, a população metia lá dentro os animais domésticos (cabritos, galinhas, patos, etc.) que conspurcavam aquilo tudo. Para evitar isso, fechei provisoriamente os abrigos…

O Almeida Bruno, conhecedor profundo do estilo do general, disse-me que essa explicação não servia, e o Caco estava chateado que nem um perú. E que isso podia redundar em qualquer coisa desagradável para mim…

E aconselhou-me a ir explicar ao Spínola antes de ele embarcar de novo no Heli, o seguinte: 

(i) que eu tinha andado a ler uns livros sobre a guerra do Vietname; 

(ii) e que, num desses livros tinha ficado a saber que os americanos construíam uma grande quantidade de abrigos falsos, onde de facto não iriam estar quaisquer efectivos militares; 

(iii) e que o faziam para que o inimigo, quando atacasse, dispersasse o fogo por inúmeros pontos, muitos dos quais seriam meramente fictícios, diminuindo assim o poder de fogo e a sua eficácia; 

e, finalmente, 

(iv) que fora por isso que tinha decidido levar à prática a referida táctica.

– Por azar meu, logo aqueles que o general Spínola tinha vistoriado!

Estudada a lição, quando o Spínola, depois de discursar à população, se aproximou de mim para se despedir, pedi-lhe licença para lhe explicar o que atrás ficou dito. Não fez qualquer comentário e entrou no Héli que de imediato levantou voo, deixando uma enorme nuvem de pó sobre as nossas cabeças…

E um grande aperto no meu coração… O pior castigo que poderia sofrer era o de me cancelarem as férias na Metrópole, já programadas para o Novembro próximo…

Recebi, uma semana depois, ordem de regresso à base e logo que cheguei, perguntei ao Capitão se havia novidades a meu respeito… Disse-me que não… Pelo contrário, o Felgas até tinha elogiado o meu trabalho. Mas nada comentou àcerca do incidente com o Spinola.

Enfim, do mal o menos… Ausência de notícias, boas noticías  – costuma dizer a sabedoria popular.

Andava cansado e preocupado com tudo isto e pedi ao Capitão que me deixasse ir espairecer uns dias a Bissau, a pretexto de uma qualquer consulta externa que o pudesse oficialmente justificar.

Ao contrário do que era hábito, o Capitão condescendeu e, dois dias depois rumei e Bafatá e daqui apanhei uma boleia num velho Dakota, para Bissau.

Depois de aterrar em Bissalanca, fui à messe de oficiais da Força Aérea e ali encontrei o Jorge Félix. Enquanto bebericávamos um copo, contou-me o que se passou no helicõptero, logo que levantaram voo de Sinchã Lomá.

 – Eh pá… Tiveste muita sorte! – começou por me dizer… – O Velho estava com cara de poucos amigos quando olhou para os malfadados abrigos, mas logo que se sentou no helicóptero, depois de ouvir a tua versão táctica, olhou de soslaio para o banco a seu lado onde estava o Almeida Bruno e disse-lhe:

– Oh, Bruno,  aponta aí! Este alferes não é parvo de todo!

E pronto, a minha ansiedade distendeu-se... Percebi que, graças ao capitão Almeida Bruno, as minhas férias de Novembro mantinham-se intactas… Como de facto se mantiveram!

Rui Felício (1944-2026)
Ex-Alf Mil Inf
3º Grupo de Combate
CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852 (Galomaro e Dulombi, 1968/70

(Texto originalmente publicado na série "Estórias de Dulombi", em 2006, mas na altura, há 20 anos, nem um simples comentário mereceu) (*ª)

(Revisão / fixação de texto, título: LG)
_______________

Notas do editor LG:

(*) Vd. postes de 

Último poste da série > 1 de dezembro de 2024> Guiné 61/74 - P26222: O Spínola que eu conheci (38): Nunca o vi com um fotógrafo atrás, no mato (António Martins de Matos / Luís Graça / Valdemar Queiroz / Virgílio Teixeira)... Havia um fotógrafo fardado, que tirava fotos de forma muito dsicreta (Domingos Robalo)

(**) Vd. poste de 27 de outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1217: Estórias de Dulombi (Rui Felício, CCAÇ 2405) (6): Sinchã Lomá, o Spínola e o alferes que não era parvo de todo

quarta-feira, 23 de outubro de 2024

Guné 61/74 - P26069 O Spínola que eu conheci (37): "Nunca foram ao Senegal ?!... Deixe-se de rir, nosso alferes, pois comecem a pensar em ir lá"... (A. Marques Lopes, 1944-2023)


Guiné > Região do Caheu > Barro > CCAÇ 3 > 1968 > À direita.  ex-alf mil at inf, A. Marques Lopes, que comandava o grupo Os Jagudis.   Ao centro, o seu guarda-costas, e à sua esquerda, presumimos nós, o cap art Carlos Alberto Marques de Abreu (promovido a coronel, em 2/5/1989), e aqui numa foto rara.

 Fotos (e legendas): © A. Marques Lopes (2005). Todos os direitos reservados. [Edução e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



O gen Spínola em Infandre (1970).
Foto: Arquivo do blogue Luís Graça &
 Camarafdas da Guiné

1. Recorde-se que o nosso querido e saudoso A. Marques Lopes (1944-2024), ex-alf mil, CART 1690 (Geba, 1967/69) foi  evacuado para a metrópole, na sequência de uma mina A/C que matou o cap inf Manuel Guimarães e que o feriu também a ele,  na estrada Geba-Banjara, em 21 de agosto de 1967 (*). 

Ao fim de nove meses de tratamento e recuperação no HMP, em  Lisboa, voltou para o CTIG, em maio de 1968, para cumprir mais 10 meses de comissão de serviço, neste caso na CCAÇ 3, que estava aquartelada em Barro, na região de Cacheu, mesmo junto à fronteir com o Senegal. Passou  a comandar um  grupo de combate que mais tarde se irá chamar... 
"Jagudis" (abutres).

Na altura o comandante era o cap art Carlos Alberto Marques de Abreu (capitão Alves, no livro "Cabra Cega"). ("Depois do 25 de Abril será adjunto do general Spínola; conheci os pais dele, que tinham um restaurante na Calçada do Combro, em Lisboa.") (**).

Passado pouco tempo de chegar à CCAÇ 3, "creio que em junho de 1968, o general Spínola foi a Barro", numa visita relâmpago, que o autor de "Cabra Cega" recontitui, com muita piada.  (    (Lapso do autor: em junho de 1968, Spínola ainda era brigadeiro, e com um mês de Guiné ainda não deveria ser conhecido por "Caco  Baldé"-)

Vamos selecionar alguns excertos das pp. 491/495, e fazer um resumo deste episódio.


2. O A. Marques Lopes [Aiveca, no livro ] estava a descansar, depois de uma noite passada no "tarrafe do Cacheu à  espera que os guerrilheiros passassem" (pág. 491). Chegado às seis da manhã, morto de sono, tirou o camuflado, nem tomou banho, atirou-se para cima da cama... 

"O ruidoso girar característico das pás dos helicópteros" (pág. 492), fê-lo saltar da cama, a ele e ao outro alferes, o Rudolfo (nome fictício). 

(...) Vestiram os calções e enfiaram as chinelas nos pés (...)  Foram para a porta da secretaria. Já lá estavam o cabo escriturário e o primeiro sargento, este todo aprumado:

 Vem aí o nosso general!  – anunciou, embevecido. (...)

Os dois alferes "viram com espanto o Caco Baldé a aproximar-se em passo decidido, olhar penetrante e pingalim da ordem". Vinha acompanhado pelo comandante da CCAÇ 3... e "todo emproado no camuflado limpo e brilhante pelo uso em cerimónias, de luvas impecáveis e boina vermelha berrante", o ajudante de campo "com a G3 em prontidão, coronha poisada no quadril" (pág. 492).

(...) O Rudolfo mostrou-se preocupado...

 – É, pá, não podemos receber o general em tronco nu, de calções e chinelos.

  Oh, agora, chapéu. Ele  está perto e já olhou para nós. Quando aparece assim de repente, o que é que pode esperar ?
 
O general chegou ao pé deles e o capitão apresentou-os:

   Meu general, estes são comandantes de dois pelotões da minha companhia. Há um que está a montar emboscada num corredor de infiltração e outro está num destacamento. (...)

O Lopes instintivamente ia levantar a mão para bater a pala, mas deu conta que estava "desfardado"... 

(...) Mas o Rudolfo não pensou e fez mesmo a continência. Ninguém ligou, nem o general (pág. 493). (...)

O Lopes [ Aiveca, no livro] achou que devia dizer qualquer coisa, pediu desculpa ao general, dizendo-lhe que não estava à espera e tinha passado toda a noite no mato (...).

   Deixa-te disso, pá. Vamos lá que estou com pressa, quero ir falar com o major do COP  [que era na altura o Correia de Campos ]. (...)

Depois, entraram na secretaria e falaram da atividade operacional, dass infiltrações do PAIGC a partir do Senegal, da missão do COP,  mas também da situação do pessoal e dos problemas de alimentação em Barro.  

(...) Toma nota    ia dizendo o general para o [ajudante de campo, o cap cav  'cmd Almeida Bruno, maio 68 / julho 70].

Este, que pusara a G3, tinha agora um pequeno bloco na mão.

O Aiveca esteve tentado a dizer  que a carne que tinham, era das vacas que, às vezes , iam roubar às aldeias fronteiriças do Senegal, ou daquelas que caíam nas armadilhas que montavam nos carreiros e que os elementos do PAIGC traziam para atravessar o Cacheu. Os gajos das tabancas não querium vender vacas. Mas preferou ficar caladinho, o capitão que desbroncasse. 

 O Caco Baldé ajeitou o monóculo e mudou de conversa.

   Quais são as etnias dos grupos de combate ?

   Meu general, a maior parte são fulas e balantas, mas há de outras etnias, e estão misturados.

  Então vai separá-los, nosso capitão. Fulas num grupo de combate e balantas noutro. Dá mais unidade a cada um e pode criar emulação entre eles. " (pág. 494).

Ninguém disse nada. Não havia nada a dizer porque aquilo foi dito em tom de uma ordem.

  Já alguma vez foram ao  Senegal ?   perguntou po general.

O Aiveca riu-se,  mas depressa ficou sério. O general e o adjunto olharam para ele como que a pergunhtar qual era a piada. O capitão e o Rudolfo ficaram apreensivos, a interrogar com o olhar se ia falar das vacas roubadas no Senegal. Viu que tinha de dizer alguma coisa.

   Peço desculpa, meu general, mas é que nós  nunca fomos ao Senegal.

   Então deixe de se rir, nosso alferes. Comecem a pensar em ir lá (pág. 495)...

E lá abalou a caminho do heli...

3. Conclusão tirada pelo A. Marques Lopes, no poste P47 (**), um dos primeiros que publicámos no blogue, em 6 de junho de 2005:

(..) "   Vocês já foram ao Senegal? 

"Eu, e os outros, que não sabíamos o que ele queria, dissemos que não (já tínhamos ido várias vezes a Sano, Sonako e Samine para roubar vacas e queimar casas). E ele disse:

"–  Então, têm de pensar em ir lá.

" E lá fomos mais à vontade. O roubar vacas era uma preocupação, pois era a nossa subsistência. Muito raramente, havia um abastecimento feito pelos fuzileiros através do rio Cacheu. Às vezes, vinha uma Dornier trazer o correio e os chamados frescos. A maior parte das vezes comíamos arroz e rações de combate, ou, então, uma dobrada hidratada que saltava da panela assim que aquecia. Só tínhamos carne quando havia vacas. (...) (**)

E foi assim que ele conheceu, ao vivo e a cores, o novo com-chefe e governador da Guiné, que tinha acabado de chegar ao CTIG, e que será promovido à categoria de general apenas um ano depois, em julho de 1969... (Há aqui uma notória dissincronia por parte do A. Marques  Lopes ao tratar o Spínola por general em junho de 1968.) (***)

 ______________

Notas do editor:

(*) Vd. poste de 25 de setembro de 2024 > Guiné 61/74 - P25978: O melhor de... A. Marques Lopes (1944-2024) (9): a última foto do cap art Manuel Guimarães, cmdt da CART 1690, tirada instantes antes de morrer, na estrada Geba-Banjara, vítima de uma mina A/C, em 21 de agosto de 1967

(**) Vd. poste de


(***) Último poste da série > 26 de março de 2024 > Guiné 61/74 - P25308: O Spínola que eu conheci (36): A história do Mário, da CART 2478, contada pelo Manuel Mesquita, da CCAÇ 2614 ("Os Resistentes de Nhala: 1969/71", ed. autor, 2005)

quinta-feira, 25 de julho de 2024

Guiné 61/74 - P25776: A minha ida à guerra (João Moreira, ex-Fur Mil At Cav MA da CCAV 2721, Olossato e Nhacra, 1970/72) (53): Operação Jaguar Vermelho - III: dia 1 de Junho de 1970



"A MINHA IDA À GUERRA"

João Moreira


OPERAÇÃO JAGUAR VERMELHO - III

1970/JUNHO/01

Em CANFANDA emboscamos os 3 grupos de combate ao longo do trilho, conforme o estabelecido.

Às 10h30 ouviu-se um helicóptero que pelo rádio chamou "leão?? - um algarismo que não me recordo)". Identificou-se como "leão 1" e disse que ia pousar.

Com todos os acontecimentos anteriores eu não sabia qual era o nosso nome de código.
Perguntei ao soldado das transmissões quem era o "leão 1" e ele também não sabia.
Mandei-o dizer para não pousar, porque íamos montar segurança.

Resposta imediata do helicóptero: "Vou pousar. Não preciso de segurança".

Entretanto aparece o Alferes Pimentel com 1 secção, e pediu-me outra secção para montar segurança ao helicóptero que trazia o General Spínola.
Quando chegamos ao local, para montar segurança, já o heli tinha pousado.

Do heli saiu o General Spínola, um brigadeiro (penso que era o 2.º Comandante das Forças Armadas), o Capitão Almeida Bruno (Ajudante de Campo do General Spínola) e um alferes (penso que era o piloto do heli - Jorge Félix?).


Guiné > Algures > Jorge Félix, Alf Mil Piloto de Heli Al III (BA 12, Bissalanca, 1968/70) e António Spínola (Com-Chefe e Governador Geral, CTIG, 1968/73)...

Foto: © Jorge Félix (2010). Todos os direitos reservados

O General Spínola perguntou para que era aquele pessoal que ia connosco.
Como o Alferes Pimentel disse que era para montar segurança, mandou-os regressar ao local da emboscada, dizendo que ele não precisava de segurança.

Quis saber como tinham acontecido as coisas na véspera e qual era o moral do pessoal da Companhia, após o ataque que tínhamos sofrido e que tinha provocado ferimentos graves ao nosso capitão.
Deu-nos notícias do estado do Capitão Moura Borges.
Disse que antes de vir para a Operação, que continuava a decorrer, tinha ido ao Hospital Militar ver o Capitão Moura Borges.
Informou-nos que já tinha sido operado e que tinha corrido bem.
Iria ser transferido para o Hospital Militar de Lisboa, para a recuperação ser mais rápida, porque o clima húmido da Guiné não era favorável a esta situação.

Durante a conversa com o General Spínola, o brigadeiro veio ter comigo para saber onde estava instalada a nossa Companhia.
Apontei-lhe o local e disse-lhe que era ali o trilho indicado para a Companhia montar a emboscada.
Para meu espanto, o brigadeiro mandou-me buscar o pessoal da Companhia, para o nosso General passar revista.

Felizmente para mim, o Capitão Almeida Bruno assistiu à conversa/ordem que o brigadeiro me deu.
Achei um grande disparate, mas cumpri a ordem do brigadeiro - Quem era o furriel "periquito" que não cumpria a ordem recebida dum brigadeiro?
Contrariado, fui buscar o pessoal da Companhia e dirigi-me para junto do heli, onde estava a decorrer o nosso encontro.

Quando chegamos junto do heli, o General Spínola perguntou-me quem me mandou ir buscar os soldados.
Apeteceu-me dizer que tinha sido o brigadeiro - o que era verdade - mas ao mesmo tempo pensei na gravidade de um furriel "periquito" estar a acusar um brigadeiro.

E aqui valeu-me a ajuda do Capitão Almeida Bruno. Contornou parte do círculo que formávamos e colocou-se virado para mim e a apontar para o brigadeiro. Fez isto várias vezes, mas eu continuava a ter medo das consequências.

Bastava o brigadeiro dizer que não me deu essa ordem e eu é que ficava como mentiroso. O Capitão Almeida Bruno viu o meu "desespero", contornou novamente parte do círculo e quando passou por trás de mim, bateu-me nas costas e disse: "Diz que foi o brigadeiro". Com este "apoio", decidi e respondi ao General Spínola:
"Meu Comandante, foi o nosso Brigadeiro que me deu ordem para levantar a emboscada e trazzer o pessoal para aqui, para o meu Comandante passar revista".

Resposta do General Spínola: " O nosso Brigadeiro aqui não manda nada. Volta a instalar o pessoal no trilho, e eu é que vou lá visitá-lo para não arriscar a segurança deles".

Desta já me safei, pensei eu.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 18 DE JULHO DE 2024 > Guiné 61/74 - P25758: A minha ida à guerra (João Moreira, ex-Fur Mil At Cav MA da CCAV 2721, Olossato e Nhacra, 1970/72) (52): Operação Jaguar Vermelho - II: dia 31 de Maio de 1970

quarta-feira, 19 de junho de 2024

Guiné 61/74 - P25657: Humor de caserna (68): O anedotário da Spinolândia (XIII): na ilha das Cobras, a ementa hoje é... cabrito com ostras... V. Exas são servidas ?


Palmela > Poceirão > Casa do João Vaz > 2017 > Encontro do pessoal dos Pel Caç Nat 51, 52 e 54 > Petisco:  Ostras do Sado, na grelha, para matar saudades das ostras do tarrafo...

Foto (e legenda): © José Manuel Viegas (2017). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Mensagem do José António Viegas (ex-fur mil do Pel Caç Nat 54, Mansabá, Enxalé, Missirá, Porto Gole; e CIM Bolama, Ilha das Cobras e  Ilha das Galinhas, ago 1966 / set 68):



Do Spínola (sou do tempo dos dois, do Schulz e do Spínola) lembro os dois contactos que tive com ele, um ainda com o Pel Caç Nat 54, em Porto Gole, e outro na Ilha das Cobras, para onde fui destacado, no final da comissão, com um pelotão do CIM de Bolama:

1.1. Algures em 68,  apareceu em Porto Gole, com o Capitão Bruno, pois ia fazer-se uma grande operação no Xime; deu uma preleção à malta, e depois o Capitão Bruno mandou arranjar o Unimog com uma secção para ir ao Enxalé.

Eu disse: 

− Meu Capitão,  temos que picar a estrada...

Respondeu o Spínola:  

− Anda depressa, rapaz, temos mais que fazer...

1.2. Em meados de 68,  apareceu na Ilha das Cobras com o seu staff, a guarnição era toda tropa nativa (1 Pelotão do CIM Bolama), deu uma preleção aos nativos,  a enaltecer os homens, e que eles é que deveriam defender o seu chão, blá-blá...

Era hora de almoço. O Capitão Bruno foi atrás do cheiro até á cozinha, e com muita pena dele (e se calhar do  Spnínola) não ficou para o  almoço: tínhamos apanhado um cabrito nessa noite e estava a ser cozinhado com ostras.

Enfim, coisas da nossa guerra.

José António Viegas
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Notas do editor:

Último poste da série > 17 de junho de  2024 > Guiné 61/74 - P25652: Humor de caserna (67): O Spínola teria-se-ia desmanchado a rir, se fosse vivo, e tivesse lido esta história do cabo Abel, contada aqui, em versão condensada, pelo nosso Alberto Branquinho

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

Guiné 61/74 - P25222: Memórias cruzadas: A Op Safira Solitária (em que o PAIGC sofre um dos maiores reveses da guerra, no Morés) e o delirante comunicado, em francês, do Amílcar Cabral em que fala de uma derrota amarga dos colonialistas portugueses, incluindo a morte de 102 militares e o suicidio do... comandante da operação, que foi o major comando Almeida Bruno



Amílcar Cabral (1924-1973) > c. 1970 >  Foto  do líder histórico do PAIGC, incluída em O Nosso Livro de Leitura da 2ª Classe, editado pelos Serviços de Instrução do PAIGC  (1970)... O "culto da personalidade" com a ajuda dos amigos suecos (mas também italianos, franceses, etc.)...

O homem que assina o comunicado de 4 de janeiro de 1972 não podia ser um tipo "inteletualmente honesto"...  Aceitava "acriticamente" todas atoardas que os seus comandantes no mato lhe faziam chegar a Conacri, incluindo a notícia (manifestamente exagerada...) do suicídio do major comando Bruno de Almeida, futuro cmdt do Batalhão de Comandos da Guiné, de 2 de novembro de 1972 a 27 de julho de 1973... 

Neste comunicado (vd. abaixo), o Amílcar Cabral, em desespero de causa, transforma um dos maiores desaires militares do PAIGC, no coração das "áreas libertadas" (o mitico Mores) numa heróica vitória do seu povo em armas... Mas era assim que se construíam os mitos revolucionários naquele tempo....

O então capitão Almeida Bruno, ajudante de campo do gen Spínola, fotografado no decorrrer da Op Ostra Amarga, na mata da Caboiana, em 18 de outubro de 1969. (Foto do arquivo do Virgínio Briote, reproduzida, a preto e branco, na pág. 223, do livro de memórias do Amadu Djaló).


1. Comunicado original, em francês, datilografado, a 2 folhas, datado de 4 de janeiro de 1972, e assinado pelo Secretário Geral, Amílcar Cabral (tradução, revisão e fixação de texto: LG)



PAIGC - Comunicado

O governo português, por intermédio do Estado Maior das tropas colonialistas no nosso país,  tornou público, no dia 29 de dezembro último, um "comunicado especial", relativamente aos resultados de uma operação designada "Safira Solitária" ("Saphir Solitaire", em francês), lançada contra a zona libertada do Morés, no centro-norte, a cerca de 50 km de Bissau.


Este comunicado especial, ao mesmo tempo que reconhece que as tropas colonialistas tiveram 61 baixas no decurso da operação, vêm fazer elogios à ação e à "técnica avançada" dos nossos combatentes, ao mesmo tempo que pretende fazer crer que se trata de grupos infiltrados do Senegal, enquadrados por cubanos e "mercenários estrangeiros africanos".

 Estamos perante uma tentativa desesperada, da parte do Estado Maior colonial e particularmente do governador militar, de esconder a amarga derrota, infligida às tropas colonialistas pelas nossas forças armadas e pelo povo em armas.


Convém esclarecer, em primeiro lugar, que o Sector do Morés, onde a luta armada foi desencadeada em julho de 1963, é uma zona libertada desde 1964, em que a organização do Partido e do nosso Estado em desenvolvimento é uma das mais sólidas.

É neste  sector que o escritor francês Gérard Chaliant assim como os cineastas e jornalistas Mario Marret e Isidro Romero (franceses), Piero Nelli e Eugenio Bentivoglio (italianos), Justin Vyera, Justin Mendy e Mamlesa Dia (africanos), Oleg Ignatiev (soviético), Nicolai Bozev (búlgaro) e tantos outros, rodaram os seus filmes e fizeram reportagens bem conhecidas da opinião mundial, nomeadamente europeia.

Lembremos, além disso, que o dito "Comunicado Especial" afirma que, durante os combates, as forças armadas regulares do nosso Partido estavam reforçadas por mais de 300 elementos da milícia popular, a qual, no quadro da nossa organização, é uma força armada local integrada pelos camponeses e camponesas do sector.


Com base nos relatórios recebidos do Comando da Frente Norte e do sector do Morés, assim como em informações provenientes de Bissau e Mansoa, estamos em condições, neste momento, de esclarecer a opinião pública sobre o que se passou no sector do Morés, entre 20 e 26 de dezembro último.

Face à intensificação da acção dos nossos combatentes que, em dezembro, tinham atacado por por diversas vezes todos os campos fortificados do centro-norte do país, nomeadamente


as cidades de Farim e Mansoa, e as importantes guarnições de Bissorã e Olossato, o Estado Maior colonialista convenceu-se que nós estávamos a preparar uma ação mais ampla por altura do fim do ano, nomeadamente um novo ataque contra a capital.

Foi tomada então a decisão de desencadear uma operação de grande envergadura contra as nossas forças na região, em particular no sector do Morés, conhecida como uma base importante,


Assim, na manhã de 20 de dezembro, vários contingentes de tropa colonialista, estimados em cerca de 800 homens, saídos dos quartéis da região, e dos comandos especiais helitransportados de Bissau, penetraram no sector do Morés, vindos de várias direcções, depois de um bombardeamento aéreo intensivo.

No decurso de vários reencontros e emboscadas realizadas tanto pelos combatentes das nossas forças armadas regulares como pelas forças armadas locais e o povo armado, a tropa colonial foi posta em debandada, tendo vindo em seu socorro os aviões a jacto, e helicópteros para evacuar os mortos e os feridos.

Os nossos combatentes mataram 102 militares inimigos, tendo ferido


várias dezenas. Os hospistais de Bissau transbordaram com a chegada de feridos, de tal modo que não havia lugar para todos. O comandante português que dirigiu a operação dita "Safira Solitária", suicidou-se.

Os colonialistas portugueses  sabem muit0 bem (e estes resultados mostraram-no mais uma vez) que, se é fácil dar às suas operações uma designação de estilo nazi, o nosso povo não tem necessidade de recorrer a combatentes ou a quadros não nacionais,  para transformar estas operações em amargas derrotas.


Noite de 4 de janeiro de 1972, 
Amílcar Cabral, Secretário Geral


Comunicado PAIGC, datilografado, a duas págimas, redigido em francês, datado da noite de 4 de jneiro de 1972, e assinado pelo Secretário geral Amílcar Cabral

Fonte: Casa Comum |  Instituição: Fundação Mário Soares |  Pasta: 07197.160.006 | Título: Comunicado do PAIGC analisando os resultados da operação "Safira Solitária" | Assunto: Comunicado assinado por Amílcar Cabral, Secretário Geral do PAIGC, analisando os resultados da operação "Safira Solitária" lançada contra o sector de Morés, cujos dados foram divulgados pelo Estado Maior do Exército Português num comunicado especial. | Data: Terça, 4 de Janeiro de 1972 | Observações: Doc. incluído no dossier intitulado Documentos. | Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral | Tipo Documental: Documentos. Citação (1972), "Comunicado do PAIGC analisando os resultados da operação "Safira Solitária"", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_42402 (2024-2-28)


2. Despacho da Agência Lusitânia, datada de Bissau, 29 Dez 1971 (não nos foi possível encontrar este comunicado das Forças Armadas na imprensa de Lisboa, e em especial no "Diário de Lisboa", neste dia e dias imediatos)

 
BISSAU, 29 Dez 1971  - Comunicado especial do Comando-Chefe das Forças Armadas da Guiné: 

"Numa das mais importantes operações militares realizadas no Teatro de Operações da Guiné, as forças guerrilheiras acabam de sofrer um expressivo revés.

"Desde Outubro, final da 'época da chuvas',  que o Comando, através dos seus orgãos de pesquisa,  vinha acompanhando os movimentos de infiltração do inimigo nas florestas da área do Morés, situada no norte da Província, tendo lançado algumas operações de diversão com vista a criar no inimigo uma falsa sensação de segurança que o levasse a continuar a concentrar meios na referida área,  o que efectivanente se verificou. 

"A crescente adesão das populações à causa nacional permitiu que,  através de informações seguras e detalhadas, colhidas no seio do próprio dispositivo inimigo, se localizassem exactamente as posições inimigas e se completasse o conhecimento do esquema da sua denominada 'Ofensiva do Natal' e definida nos seguintes termos constantes em documentos apreendidos: Oposição a todo o custo ao asfaltamento das estradas Mansoa - Bissorâ e Bula- Bissorâ - Olossato; desencadeamento dum conjunto de acções ofensivas na quadra do Fim de Ano sobre as povoações mais importantes da área, nomeadamente Bissorã, Mansoa, Olossato, Mansabá e sobre todos os novos aldeamentos. 

" De posse de todos os elementos foi planeado, no maior sigilo, uma grande operação visando envolver, cercar e aniquilar as forças de guerrilha concentradas na referida área fulcral do Morés.  Montada a operação, denominada 'Safira Solitária', foi esta levada a efeito por unidades da força africana e teve início ao alvorecer do dia 20,  prolongando-se até à tarde do dia 26,  tendo as nossas forças sido guiadas na floresta por elementos das populações da área pertencentes à nossa rede de informações que conhecia a localização precisa das posições inimigas. 

"Apesar de colhido de surpresa,  o inimigo estimado em 6 bigrupos, 2 grupos armados de armas pesadas instalados em posições fortificadas e cerca de 333 elementos armados da milícia popular, opôs durante os três primeiros dias tenaz resistência,  acabando todavia por ser desarticulado e aniquilado, tendo sofrido 215 mortos confirmados, entre os quais três cubanos, e alguns mercenários estrangeiros africanos, 28 capturados, além de apreciável número de feridos. Segundo declarações dos capturados, encontravam-se na área pelo menos mais 4 elementos cubanos. 

"Verificou-se que o inimigo estava implantando no Morés um sistema de fortificação de campanha do qual se destacavam espaldões para armas pesadas e abrigos subterrâneos para pessoal. Os grupos de guerrilha, pela resistência que ofereceram,  revelaram uma sensível melhoria de enquadramento e uma técnica mais avançada de guerra de posição. 

"No decurso da operação foi capturado o seguinte material: 1 canhão sem recúo B-10, 2 morteiros de 82 mm, 2 morteiros de 60mm, 3 metralhadoras pesadas Goryonov, 7 lança-granadas RPG-7, 14 espingardas automáticas Kalashnikov, 38 espingardas semi-automáticas Simonov, 8 espingardas Mosin Nagant, 14 pistolas metralhadoras PPSH, além de avultado número de armas de repetição, de cunhetes de munições, fitas e carregadores, destruídos no local por desnecessárias. 

"As nossas forças sofreram 8 mortos, 12 feridos graves e 41 feridos ligeiros." 

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Nota do editor:

Guiné 61/74 - P25221: Recordando o Amadu Bailo Djaló (Bafatá, 1940 - Lisboa, 2015), um luso-guineense com duas pátrias amadas, um valoroso combatente, um homem sábio, um bom muçulmano - Anexos: IV. Excertos do relatório da Op Safira Solitária (Morés, 20-24Dez71)

 

João de Almeida Bruno: em 20-24Dez71, já major, comandou a Op Safira Solitária. E será, com este posto, o primeiro cmdt do Batalhão de Comandos da Guiné entre nov72 e e jul73.0

O PAIGC, em comunicado em francês, dactilografado,  datado da noite de 4 de janeiro de 1972 (sic), diz que esta operação  mobilizou 800 inimigos, que tentaram em vão penetrar no coração do Morés (considerado um dos grandes santuários da guerrilha),  mas  que se saldou por uma retumbante derrota, com mais de 100 soldados colonialistas mortos !... E, no final, acrescenta-se, para nissov espanto: "o comandante da operação suicidou-se!"... (Iremos, em próximo poste, traduzir e reproduzir este delirante comunicado da propaganda do partido do Amílcar Cabral; e uma peça de antologia!)


 

Capa do livro "Guineense, Comando, Português: I Volume: Comandos Africanos, 1964 - 1974" (Lisboa, Associação de Comandos, 2010, 229 pp, il., edição esgotada) 




O autor, em Bafatá, sua terra natal, por volta de meados de 1966.
(Foto reproduzida no livro, na pág. 149)


1. Ainda com base no manuscrito, digitalizado, do livro do Amadu Bailo Djaló, "Guineense, Comando, Português: I Volume: Comandos Africanos, 1964 - 1974" (Lisboa, Associação de Comandos, 2010, 229 pp, il., edição esgotada) (*), estamos a  publicar alguns "Anexos" (pp. 287-299).

O nosso camarada e amigo Virgínio Brioe, o editor literário ou "copydesk" desta obra , facultou-nos uma cópia digital. (O Virgínio, com a sua santa paciência e a sua grande generosidade, gastou mais de um ano a ajudar o Amadu a pòr as suas memórias direitinhas em formato word, a pedido da Associação dos Comandos, a quem, de resto, manifestamos também o nosso apreço e gratidão...).

O Amadu Djaló, membro da Tabanca Grande, desde 2010, tem mais  de 120 referências no nosso blogue. Tinha um 2º volume em preparação, que a doença e a morte não lhe permitaram ultimar. As folhas manuscritaas foram entregues ao Virgínio Briote com a autorização para as transcrever (e eventualmente publicar no nosso blogue). Desconhecemos o seu conteúdo, mas já incentivámos o nosso coeditor jubilado a fazer um derradeiro esforço para transcrever, em word, o manuscrito do II volume (que ficou incompleto). E ele prometei-nos que ia começar a fazê-lo, "para a semana"...

 Reprduz-se a seguir o relatório (resumido) da Op Safira Solitária, Morés, 20-24Dez1971

Anexos

IV. Excerto do Relatório da operação “Safira Solitária” [1]


De 20DEZ71 a 24DEZ71, na região de Morés


- Cmdt: Major Almeida Bruno

- Adjunto Operacional: Tenente Saiegh/Cmdt 1ª CCmdsAfri

Forças envolvidas: 1ª e 2ª CCmdsAfri

- Agrupamento Alfa – Tenente Saiegh/Cmdt 1ª CCmdsAfri/4 GrsCmds (100H)

- Agrupamento Bravo – Alferes Carolino Barbosa/2º CCmdsAFRI4/4 GrsCmds (100H)

- Agrupamento Charlie (Reserva) – Alferes Candé/2ª CCmdsAfri/2 GrsCmds da 1º e 2ª CCmdsAfri (40H)


Desenrolar da acção:


  • Dia 21Dez71


- 0900 – IN emboscou NT entre ponto 9 e 10. Causados 04 mortos ao IN. NT sofreram 01 ferido grave e 05 ligeiros;

- 0945 – NT flageladas com mort. 82 em Santambato;

- 1030 – NT assaltaram o objectivo 40, tendo sido abatidos 68 elementos IN;

- 1100 – NT emboscaram Gr IN, causando 06 mortos, no objectivo 40;

- 1125 – NT flageladas com mort. 82 em Gã Fará;

- 1345 – Em encontro frontal das NT com Gr IN, estes sofreram 04 mortos e as NT 05 feridos ligeiros, junto ao objectivo 41;

- 1500 – NT foram emboscadas pelo IN sem resultados junto ao ponto 41;

- 1530 – Junto do objectivo 33, o IN sofreu 06 mortos e as NT sofreram 01 morto e 01 ferido ligeiro;

- 1630 – Capturados 09 elementos da população no ponto 29;

- 1700 – NT emboscadas pelo IN na cambança 7, sem resultados.

  • Dia 22Dez71

- 0600 – IN emboscou NT junto do objectivo 25 e sofreu 01 morto;

- 0730 – NT assaltaram um objectivo junto do ponto 25 e abateram 17 elementos IN;

- 0900 – IN emboscou no objectivo 25. IN sofreu 03 mortos e NT 01 ferido grave;

- 1030 – IN emboscou NT junto ao objectivo 25, sofrendo 43 mortos e apreendidas 02 GR. RPG-2. NT sofreram 01 ferido grave e 01 ligeiro;

- 1050 – 20 elementos IN abatidos junto do ponto 25;

- 1200 – Assaltado o objectivo 17, tendo o IN sofrido 28 mortos;

- 1250 – Junto do objectivo 17, em assalto ao acampamento, abatidos 42 elementos;

- 1300 – Por TMAN (helis) colocados a N do objectivo 40, 2 Grs. Cmds, antecedidos de ATIP;

- 1500 – NT abateram, em progressão, 06 elementos IN junto do ponto 24;

- 1600 – NT capturaram 19 elementos da população no ponto 35 e apreenderam 01 Esp. Aut. Simonov e 01 canhangulo;

- 1630 – No objectivo 40, NT emboscaram GR. IN, causando 04 mortos e capturando 02 Esp. Aut. Kalashnicov e 05 carregadores. NT sofreram 02 mortos e 03 feridos ligeiros;

- 1700 – NT emboscaram GR. IN junto do ponto 29, causando 04 mortos e capturando 01 Esp. Mosyn Nagan M/44. NT sofreram 02 feridos ligeiros;

- 2000 – Junto do objectivo 40, NT emboscaram Gr IN, causando 05 mortos.

  • Dia 23Dez71

- 0645 – NT foram emboscadas pelo IN, junto ponto 17, causando às NT 02 feridos ligeiros. IN sofreu 05 mortos e a captura de 01 Esp. Aut. Simonov.

- 0900 – Interceptado numeroso grupo na bolanha do objectivo 25, tendo o Gr IN sofrido 43 mortos.

- 1100 – NT emboscaram Gr IN junto ao objectivo 25, tendo abatido 28 elementos.

- 2130 – Forte gr. IN apoiado por barragem de fogos de morteiro 82 tentou assalto às posições NT, causando-nos 04 mortos, 09 feridos graves e 23 ligeiros, tendo sofrido baixas não confirmadas.

  • Dia 24Dez71

- 0100 – Forte Gr IN voltou a tentar assalto às posições NT, causando 01 morto, 03 feridos graves e 06 ligeiros. IN sofreu baixas não confirmadas.


NT: baixas em combate:

Mortos: 08


- Soldado Adulai Djaló (1ªCCA)

- Soldado Vicente Malef (1ªCCA)

- Soldado Aliu Djaquité (1ªCCA)

- Soldado Mamadu Camará (2ªCCA)

- Soldado Carlos Aliu Mané (2ªCCA)

- Soldado Quintino Gomes (2ªCCA)

- Soldado Deneba Denibo (2ªCCA)

- Soldado Mil Anso Seidi

Feridos graves: 15

Feridos ligeiros: 44


IN: 

Mortos confirmados: 217 (+ um nº indeterminado)
Capturados (População):  28


O que diz a CECA (2015): 

Operação "Safira Solitária" - 20 a 24Dez71

Na região de Morés-Santambato- Tambato-Gã Farã- Talicó-Cambajo--larom-Siure, Secyor 04 e COP 6, forças da 1ª e 2ª CCmds Afr efectuaram
uma nomadização. 

O lN reagiu por 21 vezes à penetração e progressão das NT, com maior intensidade nas regiões de Cubonge e Morés.

Foram causados ao lN 54 mortos confirmados, bastantes feridos e 283 elementos da milícias locais, todos armados, também mortos que reagiram à acção das NF. 

As NT sofreram 8 mortos, 15 feridos graves e 44 ligeiros. Recuperados 28 elementos da população, 2 esp autom "Simonov", 2 esp autom "Kalashnikov" com cinco carregadores, 1 esp "Mosin-Nagant",  met lig  "MG-42", 1 "longa" e 2 gran de LGFog  "RPG-2".

Foi destruído um acampamento lN.

Fonte: Excertos de: Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 6º volume: aspectos da actividade operaciona. Tomo II: Guiné, Livro III, Lisboa: 2015, pág. 46.

(Revisão / fixação de texto, negritos: LG)

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Nota do editor VB:
Blogue 
[1] Nota do editor: em “Uma noite nos cajueiros em Morés” (pp8. 212/224): Vd. poste de


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Nota do editor LG:

Último poste da série > 22 de fevereiro de 2024 > Guiné 61/74 - P25199: Recordando o Amadu Bailo Djaló (Bafatá, 1940 - Lisboa, 2015), um luso-guineense com duas pátrias amadas, um valoroso combatente, um homem sábio, um bom muçulmano - Anexos: III. Lista dos "meus companheiros do Batalhão de Comandos, que morreram em combate, acidentes ou por doença" (n=59)