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sábado, 18 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27929: Humor de caserna (257): O anedotário da Spinolândia - Parte XXix Ainda a origem das alcunhas "Caco Baldé" (grafada pelos fulas...) e "Aponta, Bruno" (fixada pelos "tugas") (António J. Pereira da Costa / Cherno Baldé)

1. "Aponta, Bruno!"... era outra das alcunhas do general Spínola, na Guiné Portuguesa, no tempo em que foi governador e comandante-chefe (1968/73) (*)... Embora fosse mais conhecido, dentro e fora da  caserna, por  "Caco Baldé" ou simplesmente "Caco". (Os oficiais do QP  chamavam-lhe o "Velho", o seu nome de guerra era o "Bispo").

Bruno foi o seu primeiro ajudante de campo, o capitão de cavalaria 'comando' João Almeida Bruno (1935-2022) (morreu como general reformado).

António Spínola (1910-1996) quando foi para a Guiné em meados de 1968, escolheu a dedo os elementos da sua equipa, diz o seu biógrafo, o historiador Luís Nuno Rodrigues ("Spínola: biografia", Lisboa:  A Esfera dos livros, 2010, 
 pág. 106).

Uns vieram de unidades e subunidades de cavalaria com provas dadas em Angola: 

  • como Almeida Bruno (que foi cap cav, of inf op / adj, BCAV 745 , Angola, jan 1965/ fev 1967); 
  • ou  como Henrique Bernardino Godinho (cap cav, of op / inf ( adj), e Rui Mamede Monteiro Pereira (cap cav, cmdt da CCAV 295) oficiais que pertenceram ao célebre BCAV 345, que o Spínola comandou em Angola, como tenente-coronel e depois coronel, entre dezembro de 1961 e fevereiro de 1964.

Além de pertencerem à arma de cavalaria, outro critério era terem sido alunos do Colégio Militar, como ele (que foi o nº 33, no período de 1920 a 1928).

Independentemente da arma de origem e/ou da passagem pelo Colégio Militar, pesava muito a  "competência técnico-militar", que ele reconheceu em militares como Firmino Miguel, Belchior Vieira, Lemos Pires, Pereira da Costa, Ramalho Eanes, Otelo Saraiva de Carvalho, Carlos Fabião.

A alcunha "Aponta, Bruno!”, associada ao António de Spínola, faz parte da Spinolândia, aquele universo meio mítico, meio pícaro, de humor caserna, que se criou à volta da sua figura (e da sua "entourage") durante a guerra colonial na Guiné,  e mais exatamente no período em que foi governador e comandante-chefe (maio de 1968 / agosto de 1973).

A expressão ficou célebre porque, segundo relatos de militares da época, Spínola tinha o hábito de mandar , ao seu ajudante de campo, o capitão Bruno, “apontar” (registar, tomar nota, ou até preparar algo com rapidez), muitas vezes em tom perentório. 

A frase acabou por se transformar em refrão ou bordão de caserna.

Quanto às anedotas, elas circulam sobretudo na tradição oral e variam bastante, mas seguem quase sempre o mesmo padrão: brincar com a autoridade do general e a prontidão do Bruno.

A expressão nasce, pois,  da presença constante, quase obsessiva,  do seu primeiro ajudante de campo (1968/69), o então capitão de cavalaria 'comando' João Almeida Bruno:  andava sempre próximo dele, quase como uma extensão operacional.

Os outros dois ajudantes de campo, que sucederam ao Almeida Bruno,  também eram de cavalaria:

  • Cap cav Lourenço Fernandes Tomás (1969/72) ;
  • Cap Cav Carlos Domingos de Oliveira Ayala Botto (1972/73) (nosso grão-tabanqueiro).

2. A imagem que ficou (muito alimentada pelo humor de caserna e pelas memórias de antigos combantentes, além da documentação fotográfica) era a de um Spínola teatral, de monóculo, pingalim, luvas e postura aristocrática, de “cavaleiro”, sempre impecável no seu uniforme, e que apontava alvos, reais ou figurados, com determinação e dramatismo. O Almeida Bruno não lhe ficava atrás na pose.


(i) A anedota típica (em várias versões): circulavam versões diferentes, mas o núcleo era mais ou menos este:

Spínola, em visita a uma posição no mato, observa o horizonte com o monóculo e diz, com ar solene:

— Inimigo à vista!...

Pausa teatral.

— Aponta, Bruno!

O Bruno, sempre pronto, apontava…

E alguém murmurava atrás, meio a sério, meio na galhofa:

— Já está apontado, meu general… agora só falta aparecer o inimigo…


(ii) Ou noutra variante mais mordaz:


— Aponta, Bruno!

— P'ra onde, meu general?

— P'ra qualquer lado, homem! O importante é manter a iniciativa!


(iii) A solução para tudo

Entre soldados, qualquer problema,  desde a merda da comida até à falta de material, era resolvido com a frase milagrosa:

— Não te preocupes, caga nisso… aponta, Bruno!

Ou seja, tornou-se também sinónimo de “deixa andar” ou “alguém há de tratar disso”.


(iv)  A pontaria na carreira de tiro:

Noutra versão mais caricatural, durante a IAO ou na carreira de tiro, se alguém falhava um alvo, um outro gritava:

— Ó pá, isso não é nada!... Aponta, Bruno!

Como se o Bruno resolvesse até as falhas da pontaria dos "tugas".


(v) O apontar… tudo!

Dizia-se que o Bruno levava a ordem tão à letra que, se o general comentasse algo banal tipo “uff!, que calor”, ele pegava logo no famoso  bloco 
“Aponta, Bruno!”...  e lá ficava registado o desafo do comandante-chefe como se fosse uma ordem operacional. 

A piada acabou por evoluir para qualquer coisa como : “Põe-te a pau com o que dizes perto deles, as tuas bocas ainda vão parar ao QG.”


(vi) O milagre  impossível

Numa versão mais absurda, Spínola teria pedido algo completamente irrealista (tipo ter determinado material de engenharia  “para amanhã de manhã” ).

Resposta típica da tropa:

— Não há problema… aponta, Bruno, que há de aparecer, a tempo e horas!”

Era uma forma de gozar com  ordens impossíveis ou absurdas "vindas de cima".


(vii) A cunha:

Entre oficiais mais novos (onde Spínola, de resto, era popular), dizia-se:

— Queres subir na carreira? Não te chateies, não estudes… Aponta, Bruno!

Ou seja, bastava estar perto de quem mandava e cair nas suas boas graças, e ir dizendo ámen (isto é, “sim, meu general”).


(viii) A versão mais atrevida, pícara, brejeira  se não mesmo pornográfica:

Em linguagem de calão, quando alguém se gabava demais,  dava ordens sem sentido ou "se armava em carapau de corrida" (sic), corria o risco de  ouvir:

— Olha,  este!… Pensa que é o Aponta, Bruno, mas vê lá para onde é que apontas! — e virava o traseiro.

Aqui o humor já descambava para o duplo sentido, como era comum na caserna.


(x)  Omnipotência:

Havia ainda a ideia de que o Bruno resolvia tudo:

—  Falta cerveja ?!

— Aponta, Bruno!

— Faltam granadas de obus ?!

— Aponta, Bruno!

— Não há gajas?!

— Aponta, Bruno!

— Porra, nunca mais chega a peluda ?!

— Eh,  pá… essa já nem o Bruno aponta!


3. O que está por trás da graça ?

A piada joga com três traços atribuídos , mal ou bem, a Spínola:

  • encenação e estilo pessoal: ele cultivava uma imagem muito forte, quase cinematográfica (embora, curiosamente, não costumasse andar com fotógrafos atrás, até por que o heli AL III tinha limitações de espaço);
  • comando muito próximo da frente: visitava posições das NT, aparecia de helicóptero quando menos se esperava,  marcava presença no mato junto dos seus soldados;
  • dependência funcional e simbólica do ajudante de campo:  o “Bruno” transformou-se numa personagem, quase como um escudeiro, um verdadeiro "cromo" (secretário, que tomava notas, mas também era guarda-costas, andando sempre armado).

Este tipo de piadas funcionava quase sempre4 como uma válvula de escape. Num contexto duro como a guerra da Guiné, brincar com figuras de autoridade, mesmo que de forma exagerada, caricatural  ou irreverente, ajudava a aliviar a tensão ou de sublimar a revolta.


António de Spínola, governador e comandante-chefe das Forças Armadas da Guiné, à direita, durante o discurso de um líder guineense, à esquerda (c. 1968/69).  Spínola promoveu o diálogo sob o lema: «Por uma Guiné melhor». O deputado ou futuro deputado James Pinto Bull (1913-1970) é visível, em segundo plano, entre o lider guineense que discurs e o Spínola. Possivelmente a foto, de autor desconhecida, foi tirada durante a campanha para as elieções legislativas (para a Assembelia Nacional) de 26 de outubro de 1969. Pinto Bull era o único candidato para o círculo eleitoral da Guiné, proposto pela União Nacional.

Fonte: Adapt de Museu da Presidência da República (com a devida vénia...)


4. Origem da alcunha "Caco Baldé”


A outra alcunha,"Caco" ou  "Caco Baldé, é diferente, mas a sua origem é mais controversa: mas, dizem,  viria  sobretudo do contacto com o meio guineense (os "guinéus") e da forma como os africanos reinterpretavam nomes e figuras portuguesas, muitas vezes com humor muito próprio. Caco seria o monóculo; Baldé, um apelido fula vulgar (como o nosso Silva)... 

Ficamos sem saber se a alcunha lhe foi dada pelos "guinéus", se pelos "tugas". O "Aponta, Bruno" é claramente castrense... Já o "Caco Baldé" teria sido uma expressão grafada pelos fulas, segundo a intuição do Cherno Baldé,

Também aí há histórias, mas são mais difusas e menos padronizadas do que o “Aponta, Bruno!”


António J. Pereira da Costa: 
nosso grão-tabanqueiro desde 12/12/2007, coronel art ref 

 (i) ex-alf art, CART 1692/BART 1914, Cacine, 1968/69; (ii) ex-cap art, cmdt da Btr AAA 3434, Bissau;  (iii) cmdr CART 3494/BART 3873, Xime e Mansambo;  (iv) cmdt CART 3567, Mansabá, 1972/74.








4.1. O António J. Pereira da Costa fez uma leitura interessante sobre esta alcunha, mais recorrente e popular, o "Caco Baldé" (**)

(...) O Caco Baldé acaba por ser um nome carinhoso para materializar a popularidade o prestígio de um chefe. 

Sabemos bem que essa alcunha casa o monóculo (Caco) com um apelido frequente na Guiné (um espécie de Silva ou Oliveira) e nada mais. 

Creio que ele realizou uma aprendizagem e aproximação lúcida à vida do seu tempo. O seu modo de pensar terá evoluído desde o BCAV 345, em Angola (1961/64)  até à Guiné 73 que só poderia desembocar no 25Abril74.

Tenho para mim que era um dos melhores generais dos exércitos europeus. Ele tinha mais de 30.000 homens sob o seu comando e mais de meio milhão de civis à sua responsabilidade. 

Se tomarmos como referência os países da NATO não vejo nenhum que tivesse algo para lhe ensinar, na prática (bem entendido). Exceptuando os americanos que, riquíssimos em meios, perdiam a guerra do Vietname e os franceses que também não ganharam a da Argélia, todos andavam a "brincar aos soldados" em cenários hipotéticos em que o "insidioso, ardiloso e mauzinho In" vinha de Leste a correr pela Europa fora com uma foice numa mão, um martelo na outra e uma estrelinha no alto da cabeça.

Enquanto que ele tinha operações todos os dias (de todos os tipos e formas); logística (má e insuficiente) todos os dias; gestão de pessoal (insuficiente) todos os dias e todo o resto... e era tudo par ter efeitos ontem, porque amanhã já era outro dia com novos problemas. 

Depois veio o período mais conturbado que nenhum dos estrangeiros atravessou, mesmo os que poderiam ter tido intervenção na condução da política dos seus países. Andou mal. Poderia ter andado melhor. Talvez, mas os homens que não fazem asneiras normalmente também não fazem mais nada.

Um Ab.
António J. P. Costa


quarta-feira, 30 de janeiro de 2013 às 18:14:00 WET


4.2. Não menos original  (e seguramente mais surpreendente e etnocêntrica)  é a leitura que faz o nosso amigo Cherno Baldé [foto à direita] (***), que se orgulha da sua origem fula:


(...) Caco Baldé tem origens no meio e língua fulas, é uma alcunha bem conseguida e duplamente interessante.

 Caco, khaco ou haco, originalmente, quer dizer cor castanha (a cor das folhas secas), na língua fula, e servia inicialmente para designar a cor da farda das autoridades administrativas e/ou da tropa colonial.

Mais tarde, para simplificar, este termo seria simplesmente utilizado para designar, de forma disfarçada e caricatural, as autoridades coloniais ou seus representantes.

O apelido Baldé seria lindamente encaixado em acréscimo, certamente, seguindo a lógica da brincadeira muito habitual entre grupos que se consideram primos por afinidade (sanguínea ou territorial), a  “sanencuia”.

Por exemplo, os Djaló são primos dos Baldé por afinidade sanguínea, da mesma forma que o grupo fula, na sua generalidade, é primo do grupo etnolinguístico mandinga que abrange Saracolés, Soninqués, Bambaras etc., por afinidade territorial.

Também é bastante lógico se tivermos em conta que a maior parte dos chefes tradicionais fulas (régulos) e colaboradores das autoridades coloniais, no chão fula, ou pertenciam a esta linhagem ou tinham este apelido, de modo que é uma homenagem e, ao mesmo tempo, uma caricatura dirigida a linhagem dos Baldé, na minha opinião bem conseguida, por um primo, resultante da brincadeira entre grupos de afinidade, usando a figura da maior autoridade portuguesa, de então, no território da Guiné.

Não tenho a certeza e trata-se de uma conjectura da minha parte como pista para uma pesquisa mais aprofundada. (...)

(Revisão / fixação de texto, títulos: LG)

________________

domingo, 12 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27914: Humor de caserna (256): O anedotário da Spinolândia - Parte XXVIII: Do "Caco Baldé" ao "Aponta, Bruno" (José Teixeira, ex-1º cabo aux enf, CCAÇ 2381, Buba, Aldeia Formosa, Mampatá e Empada, 1968/70)


Guiné > Região de Cacheu > Bula > Pecuré > Op Ostra Amarga > 18 de outubro de 1969 > Depois da emboscada do IN, o general Spínola,  com o seu ajudante de campo, o cap cav cmd João Almeida Bruno, 1935-2022, mais tarde general (e que deu origem a uma das diversas alcunhas do governador e comandante-chefe, "Aponta, Bruno"). 

Na foto, o Almeida Bruno (que faleceu em 10/8/2022, aos 87 anos), está de luvas e óculos Ray-Ban, empunhando uma G3.  O com-chefe, por sua vez,  está  também de luvas, e com o seu aristocrático monóculo. Estavam ambos em pleno local, onde se deu a emboscada, de que resultaram 2 mortos entre as NT (CCAV 2487 / BCAV 2868). 

A foto acima reproduzida (e editada pelo nosso blogue) é do Paris-Match nº 1071, de 15 de novembro de 1969 (Com a devida vénia...).


José Teixeira: (i) colaborador permanente (com o pelouro de Tabancas, Cooperação & Desenvolvimento ); (ii) ex-1.º cabo aux enf, CCAÇ 2381 (Buba, Quebo, Mampatá e Empada, 1968/70); (iii) gerente bancário reformado, escritor,  vive em Leça do Balio, Matosinhos;  (iv) é um  histórico da Tabanca Grande (desde 14/12/2005); (v)  tem 460 referências no nosso blogue; (vi) cofundador e régulo da Tabanca de Matosinhos; (vii) é autor da série "Estórias do Zé Teixeira", de que já se  publicaram 65 postes, desde 31/12/2005  a 30/10/2024; (viii) é também autor da série "O meu Diário"...


1. O Zé Teixeira, além de ser um "histórico" da Tabanca Grande (foi dos primeiros camaradas a sentar-se, simbolicamente,  à sombra do nosso poilão...), foi também (e continua a ser) um profícuo, talentoso, ativo, proativo e bem-humorado autor de textos de memórias: por exemplo, nos primeiros mil postes que publicámos, 60 são dele  (entre dezembro de 2005 e  julho de 2006). 

O Zé Teixeira foi dos que acreditou na força, importância e viabilidade do nosso projeto bloguístico coletivo, como repositório (partilhado) de memórias de antigos combatentes da Guiné.  E o tempo deu-lhe razão. Tem sido também  dos mais "leais" grão-tabanqueiros. 

Estive com ele, na passada quinta feira, dia 9: fui a um velório de uma senhora amiga da família de Candoz, na igreja de Padrão da Légua, Matosinhos, perto da sua casa, e que ele de resto conhecia; dei-lhe um toque, apareceu logo a seguir, conversámos um pouco; anda compreensivelmente preocupado com uns problemas de saúde; espero que o prognóstico lhe seja favorável; quero voltar a ver-te,  Zé, em boa forma!)

Do poste P613, de 16 de março de 2006 (há 20 anos!), sob o título "Aponta, Bruno! (ou outra alcunha do Spínola) (Zé Teixeira)", voltamos a publicar uns excertos, que ficam muito melhor  nesta série "Humor de caserna >  O anedotário da Spinolândia" (*).

Esta "cena" deve ter-se passado  em Buba, em meados de 1969, quando os "Maiorais" (a CCAÇ 2381) estiveram particularmente empenhados na seguranç e proteção dos trabalhos de construção da estrada Buba - Aldeia - Formosa. Spínola tinha então 59 anos (!). Se fosse vivo faria hoje, 11 de abril, 106 anos. Nasceu em Estremoz em 11 de abril de 1910. Morreu, aos 86 anos, em 13 de agosto de 1996, no Hospital Militar de Belém, em Lisboa.
 

Alcunhas do Spínola: do "Caco Baldé" ao "Aponta, Buno"

por José Teixeira

 
  O Aponta, Bruno!... Aí vem o Aponta, Bruno !    dizia logo o pessoal quando se avistava o héli que o transportava.

Porquê ? Toda a zona de Buba, Nhala, Mampatá, Chamarra e Aldeia Formosa esteve uns tempos a comer, ao almoço e ao jantar, arroz com arroz e de vez em quando uma amostra de chispe. A barcaça que levava os mantimentos foi afundada pelos nossos amigos, e ficámos a ver . . . barcaças 

Isto gerou um mal estar que mais se agravou com o ataque às 5 da matina, como já contei no meu diário. 

Devo dizer que a minha companhia estava reduzida a 36 homens operacionais, dado esforço que se estava a fazer com a protecção à nova estrada de Buba para Aldeia Formosa, em que saíamos com o que seriam três pelotões às seis da matina. Regressávamos à tarde, e no dia seguinte estávamos de serviço à segurança do quartel e logo de seguida abalávamos de novo para a estrada.

Então o homem chega e começa o discurso:

 
  Pátria está a exigir de vós um grande esforço e vós sois .....blá, blá, blá. Sei que a comida não tem sido a melhor, mas a Pátia exige sacrificios... blá, blá,blá. Quando estiverdes a comer feijão ou arroz, sem mais nada, fechai os olhos e imaginai-vos a comer um belo perú recheado ou um grãozinho com bacalhau, lá em Lisboa... blá, blá, blá.

Acompanhava-o um capitão, seu ajudante de campo, que toda a gente conhece,  e perante as reclamações do major e do médico, o  Spínola só dizia:

 
  Aponta, Bruno!

Felizmente tinhamos um excelente médico, a quem presto a minha homenagem no Blogue, o Dr. João Carlos de Azevedo Franco, que,  à mais pequena mazela, muitas vezes resultante do estado psicológico em que vivívamos, dava uma baixa. 

Recordo que nesse célebre dia do Aponta, Bruno,  o Spínola disse ao médico:

—  Estes rapazes o que precisam é de umas picas, vou lhe mandar uma boa dose de medicamentos... Aponta, Bruno!

Ao que o médico lhe respondeu:

  O que eles precisam é de uns bons bifes e descanso.

Claro está que o capitão Bruno não apontou o que o médico disse. Mas, não é que oito dias depois chega a barcaça com mantimentos e duas enormes caixas de medicamentos não solicitados ?! 

Escusado será dizer que foram devolvidas ao remetente, com a informação "medicação não solicitada"... E a vida continuou.

 (Revisão / fixação de texto, título, negritos, itálicos:  LG)

 
2. Ficha de unidade > 
Companhia de Caçadores nº  2381

Identificação  CCaç 2381
Unidade Mob: RI2 - Abrantes
Cmdt: Cap Mil Inf Jacinto Joaquim Aidos | Cap Mil grad Inf Eduardo Moutinho Ferreira Santos
Divisa: "Os Maiorais" - "Pela Lei. Pela Grei"
Partida: Embarque em 01Mai68; desembarque em 06Mai68 | Regresso: Embarque em 03Abr70

Síntese da Actividade Operacional

(i) Em 06Mai68, seguiu para Ingoré, a fim de efectuar a instrução de aperfeiçoamento
operacional com a CCaç 1801, sob orientação do BCaç 1933 e seguidamente, assegurar a segurança e proteção dos trabalhos de reordenamento de Antotinha e efectuar ações de patrulhamento e emboscadas nas áreas dos corredores de Sano e Canja, em reforço da guarnição local e daquele batalhão.

(ii) Em 18Ju168, na sua função de subunidade de reserva do Comando-Chefe, foi deslocada para Buba, a fim de reforçar o BCaç 2834, em substituição da CArt 1613, que anteriormente recolhera a Bissau, por fim de comissão.

(iii) Em 08Ago68, por troca com a CCaç 2382, assumiu a responsabilidade do subsector de Aldeia Formosa, com pelotões destacados em Chamarra, de 10Ago68 a 08Fev69, ficando integrada no dispositivo e manobra do COSAF/ COP 1 e depois do BCaç 2834.

(iv) Em 04Jan69, substituída pela CCaç 1792, seguiu para Buba, no mesmo sector, a fim de colaborar na segurança e protecção dos trabalhos da estrada Buba-Aldeia Formosa e na ação de contrapenetração, passando a ficar integrada no dispositivo e manobra do COP 4, então criado, a partir de 19Jan69.

(v) Em 01Mai69, por troca com a CCaç 1792, assumiu a responsabilidade do subsector de Empada, continuando na dependência do COP 4 e depois do BCaç 2892 e mantendo dois pelotões em Buba até 03Dez69, um dos quais foi deslocado para Mampatá, de 04 a 31Mai69, orientando a Companhia a sua atividade para a realização de emboscadas, patrulhamentos e defesa e controlo das populações.

(vi) Em 26Fev70, foi rendida no subsector de Empada pela CArt 2673 e recolheu a Bissau, em 28Fev70, a fim de aguardar o embarque de regresso.

Observações - Tem História da Unidade (Caixa nº 94 - 2ª  Div/4ª Sec, do AHM).

Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 7.º volume: Fichas das Unidades. Tomo II: Guiné. Lisboa: 2002,  pág. 366.
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Nota do editor LG:

Últimpo poste da série > 10 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27908: Humor de caserna (255): O anedotário da Spinolândia (XXVII): Os comparsas da FAP - Parte II

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27908: Humor de caserna (255): O anedotário da Spinolândia (XXVII): Os comparsas da FAP - Parte II


Guiné > Região de Cacheu > Bula > Pecuré > Op Ostra Amarga > 18 de outubro de 1969 > Depois da emboscada, o general Spínola, ao centro, ladeado à esquerda pelo major João Marcelino (2.º cmdt do BCAV 2868, então em Bissau e que apanhou boleia no heli) e o ten cor Alves Morgado, cmdt do BCAV 2868 que acompanhou o desenrolar da acção. 

À direita de Spínola, o seu ajudante de campo, o cap cav Almeida Bruno (que faleceu em 10/8/2022, aos 87 anos), de luvas, empunhando uma G3, e de costas o cap cav José Maria Sentieiro, cmdt da CCAV 2485 que, por impedimento do comandante da CCAV 2487, foi encarregado de dirigir a Op Ostra Amarga.

Vd. também o vídeo "Guerre en Guinée" (1969) (13' 50''), imagens da chegada do Spinola e do Almeida Bruno, 11' 30'' ... Cortesia de INA - Institut National de l' Audividuel.

A foto acima reproduzida (e editada pelo blogue) é do Paris-Match nº 1071, de 15 de novembro de 1969 (Com a devida vénia...).
 

I. Spínola ficou conhecido na Guiné por voar muito mais que os anteriores comandantes-chefes, visitando frequentemente unidades isoladas no mato. Isso contribuiu para a aura quase teatral do personagem:  monóculo, luvas, pingalim, camuflado impecável, acompanhado pelo seu ajudante de campo (o mais conhecido de todos provavelmente era o cap cmd João Almeida Bruno, 1935-2022, mais tarde general, e que deu origem a uma das diversas alcunhas do general, "Aponta, Bruno").

A malta dos Alouettes III (AL III), pilotos e especialistas, ficaram com fama de estarem na origem de muitas anedotas atribuídas a Spínola.  Muitas terão um fundo de verdade, outras são variantes de primitivas versões. Impossível hoje é comprovar a veracidade das situações. Algumas serão mais verosímeis do que outras...Mas em geral são todas divertidas... De qualquer modo, convém sempre ressalvar o seguinte sobre a personalidade e o comportamento como comandante-chefe: António Spínola podia ser temerário mas não era doido...

E os nossos camaradas pilotos e especialistas da BA 12 (Bissalanca), mesmo anónimos, podem ser, sem desprimor, verdadeiros "comparsas", merecendo o devido destaque nesta série "Humor de Caserna: o Anedotário da Spinolândia"... 

Nenhum de nós (com exceção de dois très dos nossos grão-tabanqueiros da FAP, o Jorge Félix, o Jorge Narciso, etc.)  teve o privilégio de viajar de heli com o governador e comandante-chefe, no período em que foi o "régulo-mor" da Tabanca Grande da Guiné, mas pode imaginar (e rir-se, ou apenas sorrir, com) estas situações...

 Aqui vai mais um "balaio" de anedotas da Spinolândia,  recolhidas da Net (via IA) e depois revistas pelo editor LG (*):


1. General não tem medo

Um piloto de Alouette III contou que, numa viagem baixa,  no mato, a rasar a copa das árvores, ouviram tiros de armas ligeiras.

O piloto disse pelo intercomunicador:

— Meu general, estão a disparar.

Spínola respondeu calmamente:

— Ó nosso alferes piloto, se fosse para me acertarem já tinham acertado.

Silêncio na cabine. O mecânico, que ia ao lado do piloto, murmurou:

— Pois… mas nós não somos generais.


2. A aterragem impossível

Num destacamento remoto, o piloto avisou:

— Meu general, aqui não há sítio para pousar.

Spínola espreitou pela porta do heli e disse:

— Há ali um bocadinho.

O piloto respondeu:

— Meu general… aquilo é uma bolanha, um campo de arroz.

Resposta:

— Então pousamos antes de ele crescer.

Dizem que o helicóptero pousou mesmo… e saiu de lá cheio de lama.


3. O famoso “salto rápido”

Spínola tinha fama de sair do helicóptero antes das pás pararem.

Num destacamento no interior, o piloto ainda estava a estabilizar o aparaelho quando o general abriu a porta.

— Meu general, espere pelas pás!

Spínola saltou e respondeu:

— Quem está com pressa são eles. 

E apontou para a mata.

O piloto comentou a seguir:

— Ele saltava como se estivesse a sair de um táxi em Lisboa.


4. O táxi aéreo

Entre pilotos corria uma piada recorrente:

— O helicóptero do general não é da Força Aérea…

— Então?

— “É táxi aéreo da praça de Bissau.

Porque Spínola pedia frequentemente voos curtos para visitar aquartelamentos, destacamentos, tabancas, reordenamentos, ciruncrições, postos administratvios.


5. A pergunta incómoda

Um piloto,  jovem,  ainda "periquito", nervoso por transportar o comandante-chefe, perguntou:

— Meu general, prefere que voe mais alto ou mais baixo?

Resposta imediata:

— Não prefiro, exijo apenas que voe bem.


6. O capacete de segurança

Outra história muito contada: no início, ainda  era brigadeiro,  deram a Spínola um capacete de voo como parte do equipamento de segurança.

Ele experimentou e disse:

— Isto estraga-me o penteado.

O piloto respondeu:

— Meu brigadeiro, estraga menos que uma bala.

Consta que o Spínola riu a bom rir e nunca usou mais capacete. (**)

(Pesquisa: LG + IA (ChatGPT / Open AI)
(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, títulos: LG)
_______________

Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 1 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27876: Humor de caserna 
(254): O anedotário da Spinolândia (XXVI): Os comparsas da FAP - Parte I

(**) Esta anedota parece-nos inteiramente "forçada", para não dizer "descabida" no âmbito da nossa Spinolândia. Pior só a galga do "cavalo branco" nas traseiras do palácio do Governador, para o Spínola de vez em quando matar saudades dos seus tempos gloriosos de aristocrático cavaleiro hípico...

Tanto quanto sabemos não havia hipódromos em Bissau...  E o gado equino (e em especial os cavalos importados da Europa) sempre se deram mal na Guiné (e em grande parte da África Ocidental) durante a época colonial, dificultando a sua introdução e utilização pelas autoridades portuguesas... Primeiro foi a Tripanossomíase Animal Africana, frequentemente referida na época apenas como doença da mosca tsé-tsé; mais tarde, Peste Equina Africana que, julgamos,  será endémica (causa de mortandade grave, caracterizada por febre alta e edema).

Segundo consulta á ferramenta de IA, francesa (Le Cha Mistral), "o contexto da Guerra Colonial Portuguesa (1961–1974), nomeadamente no TO da Guiné,  o uso de capacetes de segurança pelos passageiros do Aérospatiale Alouette III não era prática comum nem estava formalmente previsto nos regulamentos da época.

(---) "Os pilotos e, por vezes, os tripulantes (como mecânicos de bordo ou operadores de rádio) usavam capacetes de voo, principalmente para comunicação via intercomunicador e proteção contra ruído e eventuais impactos.

(...) Os soldados transportados no Alouette III (como paraquedistas ou comandos)  geralmente não usavam capacetes de segurança.(...)

(...) Não existiam normas específicas que obrigassem ao uso de capacetes de segurança para passageiros em helicópteros durante a guerra colonial. A prioridade era a mobilidade rápida e a capacidade de resposta imediata após a aterragem, o que tornava o uso de capacetes pouco prático.

(...) O Alouette III era um helicóptero pequeno, com capacidade para cerca de 6 passageiros além da tripulação. O uso de capacetes volumosos reduziria ainda mais o espaço e a comodidade.

(...) As missões eram muitas vezes de inserção/extração rápida, com necessidade de desembarque imediato e ação no terreno.

(...) Não existiam capacetes leves ou adaptados para passageiros em contexto de transporte aéreo táctico na altura.

(...) Muitos veteranos da Guerra Colonial, incluindo os que serviram na Guiné, confirmam que o uso de capacetes durante o transporte em helicóptero não era habitual. O foco estava no equipamento de combate individual e na rapidez de movimento.
 
A segurança em voo era garantida pela perícia dos pilotos e pela manutenção das aeronaves, não por equipamentos de proteção individual para passageiros. (...)

Também não encontro no blogue dos nossos camaraadas  Especialistas da BA 12, Guiné, 1965/74 qualquer referência ao uso de capacetes,. quer de voo (tripulantes), quer de segurança (passageiros), a bordo  nos helis AL III, no TO da Guiné.

terça-feira, 10 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27809: O Spínola que eu conheci (39): ...Em Sinchã Lomá, no regulado do Corubal, na vistoria de uns malfadados abrigos de autodefesa (Rui Felício, "um alferes que não era parvo de todo")


Guiné > s/l > s/d (c. 1968/70) > O Com-chefe António Spínola, numa das viagens a bordo do helicóptero do Jorge Félix. Dizia-se que este era um dos pilotos preferidos do nosso comandante. E o piloto nunca escondeu a admiração que tenha pelo ilustre militar que se sentava à sua esquerda...

Foto (e legenda): © Jorge Félix (2008). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá  > Carta de Duas Fontes (Bengacia)  (1959) / Escala 1/50 mil > Posição relativa   Sinchã Lomá, no regulado de Corubal, a sudoeste de Galomaro e Dulo Gengéle...

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)



Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Setor L1 (Bambadinca) > CCAÇ 12 (1969/71) > 2º semestre de 1969 > Sinchã Mamajã... Algures, numa tabanca do regulado de Badora, já no limite sul, fazendo fronteira com o regulado do Corubal; uma tabanca em autodefesa, reforçada pelo 3º Gr Comb, com os respetivos furrieis mlicianos, "periquitos": na foto o fur mil arm pes inf  Henriques, junto a um dos abrigos e posando com o RPG 2 para a fotografia... 

O fotógrafo foi o Arlindo Roda, que também era deste Gr Comb, o grande fotógrafo da CCAÇ 12, a par do Humberto Reis (fur mil or esp, 2º Gr Comb, o nosso "cartógrafo").

Foto  © Arlindo Roda (2010). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Setor L1 (Bambadinca) > Carta do Xime (1955) (Escala 1/50 mil) > Subsetor de Bambadinca > Detalhe > Tabancas fulas em autodefesa, Samba Juli, Sare Adé, Sinchã Mamajá e Sansacuta, situadas entre os rio Quéuol e Timinco, a leste da estrada Bambadinca-Mansambo, na fronteiras entre os regulados de Badora e Corubal.

Sansancuta fazia parte dum eixo de tabancas no limite sul do regulado de Badora, no Sector L1, e que funcionava como uma espécie de pequena muralha da China, cortando as linhas de infiltração das forças da guerrilha que eventualmente se podiam  para o interior daquele regulado a partir do rio Corubal (infiltração facilitada pela retirada de Madina do Boé, Béli, Cheche, Madina Xaquili...) Estavam ali reagrupados os habitantes de três tabancas, uma das quais Sare Ade cuja população, sobretudo os mais jovens, não se conformou com a ordem de deportação dada pelo comando militar de Bambadinca, tendo fugido para o nordeste (Gabu) e inclusivamente para o Senegal, que também é chão fula.

A sudeste ficavam Afiá e Candamã, já no regualdo de Corubal (tal como a Sinchã Lomá  desta história, a escassos quilometros, a sul do rio Biesse), j+a no setor de Galomaro, Sector L5, criado por essa altura).

Lugares que continuam no nosso imaginário, ao fim de mais de meio século, fazendo parte das nossas geografias emocionais...

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)


1. O general Spínola que conhecemos na Guiné, foi um cabo de guerra, carismático, populista, justiceiro, amado e odiado, e que os capitães do MFA utilizaram como "figura de proa" para, na Junta de Salvação Nacional, o Exército de apresentar, ao país, em 25 de Abril de 1974, como os salvador da Pátria (mais uma vez...).

Confesso que, no CTIG e depois cá, na nossa santa terrinha, nunca morri de amores por ele... Foi meu comandante na Guiné, tive que lhe bater a pala... Visitou-me, no meu buraco, no Rio Undunduma, no dia 1 de janeiro de 1971, para me desejar um bom ano... o que naturalmente sensibiliza qualquer soldado... Mas eu continuei a chamar-lhe o "Herr" Spínola... por causa do sua pose prussiana e do seu ridículo monóculo... 

Hoje olho esse tempo com o "monóculo do humorista" e,  por incrível que possa parecer, já não tenho  qualquer animosidade para o nosso general... Respeito os mortos, é um princípio que tenho (e cultivo no blogue). O que não me impede de ter uma opinião crítica sobre o seu "deve-e-haver", em vida, como homens, portugueses, cidadãos, políticos, militares, escritores, reis, rainhas, presidentes da república, governantes, santos, heróis, etc.

Dito isto, pergunto-me: conhecer ? Não se pode dizer que o conhecemos... Muitos de nós viram-no, ao longe. No palanque, nas receções de boas vindas ao CTIG, em Brá ou no Cumeré. Ou até lhe bateram a pala numa visita relâmpago por ocasião das "festas de Natal e Ano Novo" (em que estávamos quase sempre de prevenção).

Dizer que conhecemos o Comandante-chefe e Governador António Spínola é uma força de expressão. Os oficiais superiores, comandantes de batalhão, esses (com exceção dos de cavalaria e tropas-especiais) tinham medo que se pelavam, dele e das suas visitas-surpresa: tinha fama de trazer sempre um "par de patins" para correr com aquele ou aqueles a quem ele já tinha "feito a folha" em Bissau...

A malta da Força Aérea (pilotos e mecânicos dos helis) também o admiravam. O Jorge Félix já aqui o reconheceu publicamente.

Os soldados em geral adoravam-no por  ser "justiceiro" e por se sentirem lisonjeados com os seus discursos inclusivos sobre o "bom povo português"... Os fulas, idem aspas... Não era ele o "Caco Baldé", segundo a "vox populi"?

Quanto aos milicianos... bom, esses, tinham um sentimento ambivalente: uns gostavam dele, outros nem tanto, mas a maior parte tinha que o gramar. Um camarada, com grande experiência operacional como o Torcato Mendonça (1944-2021) disse dele. "Encontrámo-nos diversas vezes. Confesso que sempre vi naquele homem, trinta e quatro anos mais velho, o Chefe Militar. Obstinado, de forte coragem e frontalidade, teimoso, determinado em vencer o inimigo mas não de qualquer maneira."

Embora crítico, o nosso querido Torcato também escondia a sua admiração por ele... Nessa época, em que lá andámos (1968, 1969, 1970), ainda eram poucos os milicianos que tinham consciência política, embora bastantes já fossem contra aquela merda de guerra... De resto, "tropa é (era) tropa", sempre "foi assim" em todo o lado, até um dia, e que se invertem as hierarquias, em cima o soldado, em baixo o general... (Isso só acontece de 100 em 100 anos.)

A todos o Com-Chefe  exigia que dessem o litro e meio... E está tudo dito. Até o Rui Felício (1944-2026), se "acagaçou" com a sua sempre espalhafatosa visita (vinha sempre de héli, e neste caso com o seu piloto preferido...) a Sinchã Lomã (alguém sabe onde isso fica? Não é, por certo, na serra de Arganil, é a 4 mil quilómetros mais abaixo, depois do trópico de Câncer...).

Releiam esta crónica, de 2006 (há 20 anos!), que ele escreveu para malta do bairro Norton de Matos, em Coimbra  (e sobretudo para nós, seus camaradas da Guiné). É mais uma joia de humor castrense... E um belo retrato tanto do autor como da sua personagem. Devem-se ter encontrado há dias lá no Olimpo dos deuses e dos heróis. Espero que aos dois se tenha juntado o António Lobo Antunes (1942-2026), que adora ouvir histórias de guerra (e  de sexo).



Sinchã Lomá, regulado do Corubal: O Spínola e eu, que era um alferes com medo de levar uma porrada e perder o direito às férias

por Rui Felício (1944-2026)


Chegado a Sinchã Lomá, iniciei os trabalhos, dando prioridade, por questões de segurança própria, à organização da defesa da tabanca, estendendo arame frapado em redor do perímetro idealizado, e marcando os locais dos futuros abrigos, que decidi que fossem oito.

Ao mesmo tempo, seleccionei trinta recrutas entre os homens da população e incumbi o furriel Coelho de lhes dar alguma instrução militar e manuseamento do armamento que lhes iria ser distribuído. O objectivo era criar condições de autodefesa à população, evitando assim mais um destacamento militar do exército para o qual não havia efectivos suficientes.

Enquadrada a tabanca e os objectivos, passo à história propriamente dita.

Dada a experiência anterior já atrás referida, demorámos menos de metade do tempo que tínhamos gasto nas tabancas anteriores, para dar a missão como concluída. Para isso contribuiu também o dinamismo do chefe de tabanca que, ao contrário do de Dulo Gengele, colaborou activamente com a tropa, mobilizando praticamente toda a população para os trabalhos de construção dos abrigos.

Para quem não saiba, os abrigos eram buracos rectangulares, escavados até cerca de 1,20 de profundidade, em cujos cantos se colocavam quatro bidons cheios de terra que serviriam de pilares, nos quais iriam assentar os troncos de palmeira que constituíam a estrutura do telhado.

Feito o esqueleto do abrigo, cobria-se o telhado com uma camada de terra de cerca de 30 cm.

Tudo isto, sem cimento, nem máquinas e com rudimentares ferramentas (pás, picaretas, martelos, pregos, serras manuais e pouco mais…). E um Unimog que com o seu guincho eléctrico era de extrema utilidade. Tudo o resto, à base de esforço braçal…

Porque eu sabia que após a conclusão da missão, regressaria para a sede da Companhia, interessava-me despachar-me o mais rapidamente possível.

Por isso, logo que achei que o trabalho estava feito, mandei um rádio para a Companhia, solicitando que alguém fosse vistoriá-lo para me ser dada a ordem de regresso.

Alguns dias depois, finalmente ouço o ruído de um helicóptero aproximando-se e fiquei ansioso para que tudo fosse visto e achado conforme.

O Héli pousou, pilotado pelo meu grande amigo de sempre, o alferes Jorge Félix, mais tarde um quadro importante da RTP do Monte da Virgem em V. N. de Gaia.

Fiquei, porém, surpreendido pelas altas patentes que o acompanhavam! O Spínola, o coronel Hélio Felgas (Cmdt do Agrupamento de Bafatá ) e o capitão Almeida Bruno, à época oficial às ordens do Velho.

O Spínola dirigiu-se-me, cumprimentou-me e encaminhou-se para o abrigo mais próximo, consertando o monóculo e apoiando-se ritmadamente no seu bastão, à medida que ia caminhando.

Olhou, mirou, deu uma volta ao abrigo e, com ar admirado, deu uma segunda volta agora em sentido contrário… Dirigiu-se a um outro e repetiu a vistoria.

Batia nervosamente várias vezes com o bastão na terra poeirenta, olhava com ar inquisidor o Capitão Bruno e o Coronel Felgas e fez-me sinal para me aproximar… Pelo ar dele, senti-me pequenino e inseguro, embora sem ainda descortinar a razão da sua indisposição.

Olhou-me fixamente nos olhos, ficou em silêncio durante uns segundos e depois as palavras saiam-lhe da boca como se fossem pedras:

 – Vocé é o alferes mais original da Guiné!

A frase seguinte, continha a explicação da sua irritação:

–  Para que raio servem abrigos sem qualquer entrada?!

Nem me deu qualquer hipótese de resposta. Virou-me as costas e foi cumprimentar demoradamente o chefe de tabanca ao lado do qual se aglomeravam homens, mulheres e a criançada da aldeia.

E começou a arengar meia dúzia de frases feitas que ele adorava proferir :

– Vocês são o bom povo da Guiné, donos desta bela terra, que se desenvolverá harmonicamente sob a bandeira portugues... (E etc… etc… etc…).

Entretanto, enquanto decorria a parte política, o capitão Almeida Bruno falou comigo, também ele intrigado, e perguntou-me porque razão eu mantinha os abrigos fechados, como se não tivessem portas de entrada.

Expliquei-lhe que os queria manter limpos e apresentáveis para a vistoria, estando previsto que, logo que aprovado o trabalho, eu retiraria uma série de grades que estavam colocadas nas futuras entradas dos abrigos, para ficarem definitivamente operacionais. É que, se o não tivesse feito, à semelhança do que se tinha passado nas outras tabancas onde tinha estado, a população metia lá dentro os animais domésticos (cabritos, galinhas, patos, etc.) que conspurcavam aquilo tudo. Para evitar isso, fechei provisoriamente os abrigos…

O Almeida Bruno, conhecedor profundo do estilo do general, disse-me que essa explicação não servia, e o Caco estava chateado que nem um perú. E que isso podia redundar em qualquer coisa desagradável para mim…

E aconselhou-me a ir explicar ao Spínola antes de ele embarcar de novo no Heli, o seguinte: 

(i) que eu tinha andado a ler uns livros sobre a guerra do Vietname; 

(ii) e que, num desses livros tinha ficado a saber que os americanos construíam uma grande quantidade de abrigos falsos, onde de facto não iriam estar quaisquer efectivos militares; 

(iii) e que o faziam para que o inimigo, quando atacasse, dispersasse o fogo por inúmeros pontos, muitos dos quais seriam meramente fictícios, diminuindo assim o poder de fogo e a sua eficácia; 

e, finalmente, 

(iv) que fora por isso que tinha decidido levar à prática a referida táctica.

– Por azar meu, logo aqueles que o general Spínola tinha vistoriado!

Estudada a lição, quando o Spínola, depois de discursar à população, se aproximou de mim para se despedir, pedi-lhe licença para lhe explicar o que atrás ficou dito. Não fez qualquer comentário e entrou no Héli que de imediato levantou voo, deixando uma enorme nuvem de pó sobre as nossas cabeças…

E um grande aperto no meu coração… O pior castigo que poderia sofrer era o de me cancelarem as férias na Metrópole, já programadas para o Novembro próximo…

Recebi, uma semana depois, ordem de regresso à base e logo que cheguei, perguntei ao Capitão se havia novidades a meu respeito… Disse-me que não… Pelo contrário, o Felgas até tinha elogiado o meu trabalho. Mas nada comentou àcerca do incidente com o Spinola.

Enfim, do mal o menos… Ausência de notícias, boas noticías  – costuma dizer a sabedoria popular.

Andava cansado e preocupado com tudo isto e pedi ao Capitão que me deixasse ir espairecer uns dias a Bissau, a pretexto de uma qualquer consulta externa que o pudesse oficialmente justificar.

Ao contrário do que era hábito, o Capitão condescendeu e, dois dias depois rumei e Bafatá e daqui apanhei uma boleia num velho Dakota, para Bissau.

Depois de aterrar em Bissalanca, fui à messe de oficiais da Força Aérea e ali encontrei o Jorge Félix. Enquanto bebericávamos um copo, contou-me o que se passou no helicõptero, logo que levantaram voo de Sinchã Lomá.

 – Eh pá… Tiveste muita sorte! – começou por me dizer… – O Velho estava com cara de poucos amigos quando olhou para os malfadados abrigos, mas logo que se sentou no helicóptero, depois de ouvir a tua versão táctica, olhou de soslaio para o banco a seu lado onde estava o Almeida Bruno e disse-lhe:

– Oh, Bruno,  aponta aí! Este alferes não é parvo de todo!

E pronto, a minha ansiedade distendeu-se... Percebi que, graças ao capitão Almeida Bruno, as minhas férias de Novembro mantinham-se intactas… Como de facto se mantiveram!

Rui Felício (1944-2026)
Ex-Alf Mil Inf
3º Grupo de Combate
CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852 (Galomaro e Dulombi, 1968/70

(Texto originalmente publicado na série "Estórias de Dulombi", em 2006, mas na altura, há 20 anos, nem um simples comentário mereceu) (*ª)

(Revisão / fixação de texto, título: LG)
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Notas do editor LG:

(*) Vd. postes de 

Último poste da série > 1 de dezembro de 2024> Guiné 61/74 - P26222: O Spínola que eu conheci (38): Nunca o vi com um fotógrafo atrás, no mato (António Martins de Matos / Luís Graça / Valdemar Queiroz / Virgílio Teixeira)... Havia um fotógrafo fardado, que tirava fotos de forma muito dsicreta (Domingos Robalo)

(**) Vd. poste de 27 de outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1217: Estórias de Dulombi (Rui Felício, CCAÇ 2405) (6): Sinchã Lomá, o Spínola e o alferes que não era parvo de todo