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sexta-feira, 24 de novembro de 2023

Guiné 61/74 - P24879: As nossas geografias emocionais (16): Empada: a Fonte Frondosa (1946), revisitada em 2011... e os amigos que lá deixámos, eu e o Eduardo Moutinho Santos (José Teixeira)



Foto nº 1A > Guiné-Bissau > Região de Quínara > Empada > 2011 > O Eduardo Moutinho Santos e o Zé Teixeira na Fonte Frondosa, inaugurada em 1946... Sessenta e cinco anos depois ainda funcionava e a lápide em azulejo ainda lá estava.


Foto nº 1 > Guiné-Bissau > Região de Quínara > Empada > 2011 > A visita obrigatória do Eduardo Moustinho Santos e o Zé Teixeira à Fonte Frondosa,


Foto nº 2 > Guiné-Bissau > Região de Quínara > Empada > 2011 > Outra perspetiva da bela fonte de Empada.


Foto nº 3 > Guiné-Bissau > Região de Quínara > Empada > 2011 > A janta à Fula, para alegria dos mais jovens e prazer dos mais velhos.


Foto nº 4 > Guiné-Bissau > Região de Quínara > Empada > 2011 > Moutinho Santos e o Braiama a saborear um bom momento de reencontro passados 41 anos.


Foto nº 5 > Guiné-Bissau > Região de Quínara > Empada > 2011 > O último abraço do Braiama (já faleceu).


Foto nº 6 > Guiné-Bissau > Região de Quínara > Empada > 2011 > A alegria estampada no rosto que a câmara do meu filho colheu.


Foto nº 7 > Guiné-Bissau > Região de Quínara > Empada > 2005> O Kebá vestido de cor rosa, o Braima e o Xico Allen (1950-2022)

Fotos (e legendas): © José Teixeira (2023). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Mensagem do José Teixeira (ex-1.º Cabo Aux Enfermeiro da CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá e Empada, 1968/70; tem mais de 400 referências no blogue; régulo, juntamente com o Eduardo Moutinho Santos, da Tabanca de Matosinhos): 

Data - segunda, 30/10/2023, 12:07

Assunto - Fonte Frondosa

Luís e Carlos.
Bom dia.

A propósito das Fontes espalhadas pela Guiné (*), junto um artigo, para publicar se entender que vale a pena.

Fraterno abraço do Zé Teixeira



Fonte Frondosa, em Empada

por Zé Teixeira


Era o local onde se tentava “matar” todas as sedes.

Era a fonte mais linda de todas as fontes. Á água era fresca, límpida, inodora e não contava que trouxesse coliformes fecais ou outros que tais, mas se trouxesse a sede era tão grande que matava toda a bicharada.

Estava situada, num baixio, um pouco atrás da casa do Chefe de Posto, o tal que foi corrido (só não foi a tiro, porque apareceu o capitão), mas esteve quase. Ousara dar ordem de prisão a um pobre sofredor, o Kebá, que vira duas das suas mulheres e seus filhos serem apanhados pelo IN.

O Kebá  Uns tempos mais tarde, encheu-se de coragem e foi ao interior da mata tentar recuperá-los e estes negaram-se a regressar a Empada, voltando ele de mãos a abanar. Era muito estimado dentro do quartel, como auxiliar de enfermeiro e tradutor, mas recusava-se a vestir uma farda e combater, e nós compreendíamos as razões.

Pois o Kebá não tinha dinheiro para pagar o imposto de palhota, ou do pé descalço, como também se chamava, e foi detido. Como castigo tinha de ir buscar todos os dias vários barris de água à fonte Frondosa para uso na casa do Chefe de Posto e regar o seu frondoso jardim.

Quando os militares descobriram a situação em que se encontrava o Kebá, alguns, entre os quais, este que vos está a relatar a situação, pegaram na G3 e cercaram a casa do homem. Valeu-lhe o Eduardo Moutinho Santos, então a comandar a companhia,  que, alertado, apareceu e acalmou as hostes, mas o Chefe de Posto seguiu no dia seguinte sob prisão para Bissau, por ordem do Governador Spínola, e Empada só ganhou, pois, o capitão foi nomeado Chefe de Posto e as mudanças para melhor bem-estar da população, começaram a notar-se.

Mas voltemos à Fonte Frondosa. Manhã cedo, as bajudas, recolhiam as roupas dos militares e dirigiam-se para a fonte, o tal lugar sagrado para “matar” todas as sedes. Os nossos rapazes, sentavam-se no alto da pequena colina com todos os sentidos em alerta máximo. As bajudas desvencilhavam-se das roupas que as impediam de se meterem na água, deixando o “deusificado” corpo à vista, para mergulharem as camisas, as cuecas, as calças, etc. e as baterem bem batidas nas rochas circundantes e assim tentarem lavar as nossas roupas tão carregadas de suor e outros detritos acumulados pelo uso. Apenas uma pequena tarja lhe cobria as partes púdicas. 

Entretinham-se numa “algarviada” que os mirones não entendiam, mas sentiam ser de gozo, pela aproximação e desejos libidinosos bem expressos nos olhares, posicionamento do corpo, e expressões verbais. Os olhos eram o espelho do estado de espírito e brilhavam ao apreciar o fruto proibido imanado daqueles jovens corpos de tez escura, bem torneados e de beleza infinita, e sonhavam… se sonhavam! Alguns ousavam aproximar-se para tentar um toque de magia, um apalpão, mas recebiam um sonoro “nega”, “nega memo” e eram afastados ao empurrão, para gáudio dos camaradas.

A água para o quartel era retirada da Fonte Frondosa e, eu mesmo, e tantos outros, antes de sairmos para o mato, sempre que havia tempo, íamos lá encher o cantil de água bem fresquinha. Para matar a sede, quantas vezes, me debrucei sobre a bica para aparar a água na concha da mão e a saborear com deleite!

Passados quarenta e um anos (2011), eu, os meus dois filhos e o Capitão voltamos à procura da água da Fonte Frondosa para matar a sede, reviver e recontar aos vindouros as nossas histórias, e que belas histórias!

Os tempo de guerra também tem bons momentos de bem-estar e alegria que são (ou devem ser) recordados com saudade e alegria.

Já não encontramos o Kebá, tinha falecido em 2007, mas ainda conseguimos dar um abraço ao Braima, com cerca de 90 anos. Era o último dos combatentes locais, e enfermeiro, do tempo da CCaç 2381 (1968/70).

José Teixeira (**)

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quarta-feira, 5 de julho de 2006

Guiné 63/74 - P938: As emoções de um regresso (Paulo Santiago, Pel Caç Nat 53) (4): branco com coração negro no Rio Corubal, em Cassamange

Guiné > Zona Leste > Saltinho > Pel Caç Nat 53 > O Alferes Santiago na ponte do Saltinho em Dezembro de 1970

Guiné > Zona Leste > Saltinho > Quartel do Saltinho e ponte sobre o Rio. Foto tirada antes do início da construção do reordenamento de Contabane, na outra margem do rio Corubal.


Guiné-Bissau > Região de Baftá > Saltinho > O Paulo Santiago na ponte do Saltinho em Fevereiro de 2005 numa viagem de regresso de todas as emoções

Guiné-Bissau > Saltinho > Fevereioro de 2005 > Rápidos do Saltinho no Rio Corubal. Conmtinua a ser uma boa praia fluvial na época seca.


Guiné-Bissau > Cansamange > Fevereiro de 2005 > O Paulo Santiago com o Mussa, o Queta e o Samba


Texto e fotos: © Paulo Santiago (2006)

IV parte do relato da viagem do Paulo Santiago e de seu filho João Francisco à Guiné-Bissau em Fevereiro de 2005.

Terminei o meu último relato na noite de 6 de Fevereiro de 2005, na Pousada do Saltinho com o gerador avariado (1).

Dia 7, aí pelas 8 horas, saímos do Saltinho rumo a Cansamange (2), utilizando uma picada não existente nos anos da guerra. Quase à entrada da Tabanca,o jipe ía devagar, seguindo eu à frente ao lado do Pedro, há um individuo que grita:
- Santiago, Santiago! - e começa a correr em direcção à viatura. Fiquei parvo. O Pedro parou de imediato e a pessoa aproximou-se, abraça-me, eu estava atordoado, e pergunta:
- Santiago, não te lembras de mim ? Sou o Mussa, fui instruendo em Bambadinca quando tu comandavas a Companhia de Milícias. Tu eras um gajo muito duro na instrução. Estão também aqui em Cansamange o Queta e o Samba, que foram também teus instruendos.

Eu estava, de facto, completamente estupefacto... Como era isto possível ao fim de trinta e três anos ? Para o meu filho tudo isto era de espantar, notava-lhe emoção no rosto.Caminhamos para o centro da tabanca, aparecem mais pessoas, dão-se mais abraços e lá aparecem o Queta e o Samba.

Sentamo-nos, voltamos a falar da instrução (dava unicamente EF e GAM) (*), concordo com eles. Puxava bastante na instrução, mas dizem-me que eu tinha que ser mesmo assim. Não estão ressentidos, mas agradecidos por estar ali com o João no meio deles. Informo-os que sigo para Madina Buco e depois Quirafo. O Mussa pede para fazermos uma roda. Querem fazer uma oração por mim e pelo João. Damos as mãos e fazem a oração e penso:
- Que posso fazer por esta gente? Eu, branco por fora ,sinto que tenho coração negro, um coração que anda por aquelas terras desde 1970.

Quando estamos para arrancar aparece o Mussa e o Queta cada um com a sua galinha que me oferecem. Faço um esforço tremendo para não chorar, mas acabo por não resistir quando o Samba me oferece três ovos. Que falta não farão as galinhas e os ovos àqueles amigos! Despeço-me em lágrimas.

São 9.30 horas. Seguimos para Madina Buco.

(*) Descodificando: EF=Educação física; GAM=Ginástica de aplicação militar. Isto era o que dava directamente. Tinha as formaturas habituais e também a supervisão da instrução. Não me cansava muito.

__________

Nota de L.G.

(1) Vd. posts anteriores:

30 de Junho de 2006 > Guiné 63/74 - P926: As emoções de um regresso (Paulo Santiago, Pel Caç Nat 53) (3): Saltinho e Contabane

29 de Junho de 2006 > Guiné 63/74 - P923: As emoções de um regresso (Paulo Santiago, Pel Caç Nat 53) (2): Bambadinca

26 de Junho de 2006 > Guiné 63/74 - P914: As emoções de um regresso (Paulo Santiago, Pel Caç Nat 53) (1): Bissau

(2) Julgo tratar-se de Cansamange, a nordeste do Saltinho (mapa geral da Guiné, 1961) e não Cassamanje, como vinha no texto original. Ver também carta de Contabane (1961).

sexta-feira, 13 de janeiro de 2006

Guiné 63/74 - P426: Expedição 2005: o seu a seu dono (José Teixeira)

1. O José Teixeira vem rectificar a legenda que acompanha uma foto sua (1), dentro de um jipe carregado de material escolar, algures em Marrocos, a caminho da Guiné-Bissau. Ele faz questão de esclarecer o seguinte:

(i) O jipe é do Camilo; e
(ii) vai carregado de livros escolares.

Mais concretamente:

"Devo informar os tertulianos de que o Camilo e o Xico Allen faziam a 3ª viagem, por estrada e sempre carregados de material escolar (cadernos, lápis, esferográficas) e material de higiene hospitalar.

"No grupo seguíamos 6 pessoas com 3 viaturas, todas elas cheias de material. Quatro dos participantes eram antigos combatentes, os outros dois eram amigos da aventura.

"Devo salientar que os artigos transportados e distribuidos directamente nas escolas locais e nos hospitais, foram angariados pelo Camilo e pelo Xico.

"O Camilo que alguns membros da Tertúlia conhecem é um comerciante na Lagoa, Algarve, e como nós, ou mais do que nós, ficou completamente apanhado pelo clima... Em Fevereiro próximo vai partir de novo para a 4ª Expedição Portugal Guiné-Bissau, desta vez com 5 Viaturas, provavelmente todas cheias de material escolar".

Lagoa, Algarve > Março de 2005 > Partida para a 3ª Expedição: 3 viaturas, 6 pessoas, sendo 4 antigos combatentes (entre eles, o Camilo, o José Teixeira e o Xico Allen)

Bodjour, Marrocos > A SIC estava lá... O Camilo (dolado esquerdo, de maõs nos bolsos, junto ao jipe,) está a ser entrevistado, sob o olhar (divertido) do José Teixeira...

Senegal > O José Teixeira fazendo a sua "psicossocial" a jovens pastores...

Guiné-Bissau > 2005 > Um acolhimento fraterno e caloroso... Na foto o Camilo e o Teixeira... O Xico Allen não sei onde pára...

Créditos fotográficos: José Teixeira (2005) e Francisco Allen (2005)
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(1) Vd. post de 11 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXL: O meu diário (José Teixeira, CCAÇ 2381) (6): Mampatá, Setembro-Outubro de 1968

quarta-feira, 11 de janeiro de 2006

Guinbé 63/74 - P421: Lisboa-Bissau, de jipe (Abril, 2005) (Marques Lopes)

1. Texto do A. Marques Lopes enviado a toda a tertúlia:


Camaradas de tertúlia

Estive há dois dias a combinar com o Allen (o Xico de Empada) a nossa ida à Guiné. Decidimos partir de Portugal no dia 6 de Abril próximo, o Allen, eu, o Hugo (filho do Albano Costa) e um camarada de nome Armindo. Vamos de jipe via Marrocos, Sara Ocidental, Mauritânia e Senegal, com objectivo de estar em Bissau a 14 de Abril, para nos juntarmos a outros camaradas, conhecidos do Allen, que chegarão de avião nessa data. O regresso será a 28 de Abril, de avião (o Allen deixa lá o jipe para futuras idas).

Sobretudo para saber da hipótese de se poder entrar por Farim, dei a conhecer ao Indami este nosso projecto. A resposta dele vai já em baixo. E como vêem, como futuro economista, até dá ideias para investimento na ajuda à população de Farim.
A seguir, o Indami (1) renovou o apelo que já tinha feito:

«Olá Pessoal !... O meu pai Agostinho Indami,ex-Governador de Região de Oio(2001-2004)está procurando contato de um grande amigo dele, ex-combatente português, Fruel [Furriel?] Santos, Companhia 2584, Alfer Lorreiro [Alferes Loureiro ?], em Có-Bula, região de Cacheu. Esse Senhor chamava o meu pai de Agostinho Gomes. Quem saber alguma coisa sobre esse senhor, favor entrar em contato comigo. Agradeço a todos. Um grande abraço do vosso amigo de sempre, Anízio Lona Indami".

Já tenho os meus trajectos delineados, e os outros que vão também têm, claro. Mas vou também fazer o levantamento dos tertulianos que lá trabalham e outros conhecidos meus (o Allen também conhece muitos), pois não podemos ir lá sem estar com eles. Mas, para isso, peço a especial ajuda do Luís Graça que tem bem presente todos os contactos e locais onde esses guineenses estão.
Abraços. A. Marques Lopes

2. Mensagem enviada ao Indami (10 de Janeiro de 2006):

Caríssimo Indami:

Já está programada a minha viagem à Guiné-Bissau. (...) Uma ida a Farim está no programa, claro! Já agora diz-me o seguinte: do Senegal para Farim há alguma estrada? Estive a ver num mapa e pareceu-me que há de Koldá até Farim. Será verdade? É que, se houver tempo antes da chegada do avião dos outros camaradas, podemos entrar logo por Farim. Até porque quero ir a seguir a Bigene e a Barro.

De qualquer modo, se não poder ser logo no princípio será num dos quinze dias seguintes, durante os quais tenho de ir a outros sítios, por exemplo Samba Culo (fica perto de Farim e Fajonquito) e Sinchã Jobel (fica perto de Banjara, Sare Ganá, Sare Banda, Sinchã Sutu e Sare Madina). Conheces? E haverá caminhos transitáveis para lá? É que nos tempos antigos em que por lá passei não havia...

Foram boas as tuas férias? As tuas aulas já devem ter começado e espero que continue tudo bem. Passaste nos exames? Espero que sim e que daqui a uns tempos (quanto tempo?...) eu volte à Guiné-Bissau e nos encontremos lá.

Um abraço amigo do
A. Marques Lopes

3. Resposta do Anízio Indami (11 de Janeiro de 2006):

Olá, meu caro amigo Marques:

Você não imagina a minha felicidade nesse momento.

Claro que tem muitas entradas do Senegal para Farim,mais podes ir a de Kolda,eu acho que é mais tranquilo,e não tem problemas dos rebeldes de Cassamansa que de vez em quando criam instabilidade na zona fronteiriça.

E aconselho logo, ao chegarem em Farim, podem perguntar a qualquer pessoa da casa do ex-Governador Agostinho Indami(meu pai),lógico,todo mundo lhe conhece.

Marques, todas essas tabancas que o senhor citou, conheço pouco, mas pelo nome conheço todas. Mas não te preocupas, o meu pai conhece todas essas tabancas de ponta a ponta, e na última vez que falei com ele, manifestou a disponibilidade total para ir com vocês a todos lugares.

Aliás,gostaria de aproveitar essa oportunidade de pedir a você e a toda a Equipe dos ex-combatentes e demais amigos que estarão na Guiné,para fazermos uma sociedade e investir em alguma coisa em Farim. Por exemplo: Uma fábrica de gelo, é o que o povo daquela cidade ou região precisa muito, principalmente na época do jenjum [o Ramadão]. Eu acho esse negocio,além de ajudar a população,tem baixo risco de investimento e vai nos dar um rápido retorno,e assim gerar o lucro.

E eu, como sou estudante, não tenho capital para entrar na sociedade,em troca posso garantir a vocês um espaço de terra(terreno) onde podemos construir a referida fábrica de gelo, isso eu garanto 100%, e me responsabilizo de tudo que diz respeito a movimentação dos documentos, vou pedir um apoio total do meu pai nesse sentido.

Tambem tenho como segunda opção a recuperação do Clube Desportivo de Farim. Seria um grande espaço de lazer, pois um europeu(Pinheiro) já tinha investido nesse clube e ganhou muito dinheiro,saiu de lá por causa do conflito político-militar do 7 de Junho. E depois que ele saiu o clube ficou totalmente abandonado. Situa-se em frente do porto, logo na travessia. E podem efectuar uma visita ao referido Clube junto com o meu pai. É só questão de entrar em contato com a direção de clube.

Caro amigo,esse é um assunto muito sério e é um dos meus grandes sonhos,e seria ótimo se for realizado.

Agradeço desde já a sua/vossa compreensão e espero uma resposta positiva por vossa parte o mais breve possível.

Até mais, um grande abraço do amigo
Anizio
_____

Notas de L.G.

(1) Vd. posts de:

5 de Novembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCLXX: Anízio, 22 anos, estudante, procura notícias do antigamente sobre a sua terra, Farim

7 de Novembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCLXXVIII: Crianças de Farim ou como o mundo é pequeno (1)

quarta-feira, 4 de janeiro de 2006

Guiné 63/74 - P401: Pensando... A Guiné que em (re)(vi)vi (2005) (José Teixeira)


Guiné > Mampatá Foreá > Rescaldo de ataque do IN à hora do almoço (3 de Novembro de 1968)

© José Teixeira (2005)

Texto, em duas partes, do José Teixeira, ex-1º Cabo Enfermeiro da CCAÇ 2381 que esteve em Ingoré (no norte, em treino operacional) e foi depois colocada no sul (Bula, Aldeia Borbosa, Mampatá, Empada) (Maio de 1968 / Maio de 1970).

Em Março de 2005, o Teixeira volta à Guiné-Bissau... por terra (Lisboa-Bissau). O que viu e sentiu, um quarto de século depois, é relatado nesta II parte... A Guiné que eu re(vi)vi (2005) (*):

Durante estes anos passados era esta a imagem que eu retinha da Guiné. Devorava todas as notícias que foram marcando aquela terra vermelha. Mas o sonho mantinha-se.

Precisava de voltar e apreciar as mudanças. Família e amigos apelidavam-me de "doido". Rompi barreiras, aceitei o desafio de um amigo e voltei.

Atravessei Espanha, Marrocos, Mauritânia e Senegal para entrar na Guiné por Pirada (1) e ser recebido como um amigo que volta a sua casa. De facto, senti-me em Portugal.

É verdade que hoje continuo a sonhar acordado e a dormir, com a Guiné, mas uma visão muito mais sadia. Pensava que uma ida aos locais onde vivi, me curaria da sodade ... a Guiné sair-me-ia do pensamento.

Se antes, sentia necessidade de ir buscar "paz" para o meu espírito, agora sinto uma vontade ainda maior de voltar, voltar sempre. Hoje, continuo a sonhar, mas com a outra Guiné. A de 2005 com o mesmo povo, franco, aberto, comunicativo e sobretudo alegre e acolhedor.

Os tempos da guerra passaram e, se deixaram marcas negativas, estas foram abafadas pelo que de bom lhe levamos. Formas de estar, de pensar e agir diferentes. Apesar de levarmos a guerra e o sofrimento, também levámos uma nobreza de alma.

Guiné-Bissau > Buba > 2005 > Chefe da Tabanca Lisboa, a 5 Km de Buba, um antigo centro de treino do IN...

O chefe da tabanca, onde vivem vários antigos combatentes do PAIGC, é por sua vez um antigo paraquedista, formado em Tancos, e que lutou ao lado dos portugueses...

© José Teixeira (2005)

A maior parte dos portugueses que foram chamados à Guiné, eram oriundos do interior de Portugal. Gente humilde e honrada. Gente que soube separar as águas e não ver nos Guineenses um inimigo a abater, mas pessoas que apenas tinham outra cor, outras culturas e hábitos, outra forma de vestir.

A simbiose fez-se naturalmente, sem dificuldades e a imagem que ficou, mantem-se. Somos queridos e bem vindos:
Tu Português de Portugal, eu Português de Guiné - ouvi dizer algures na nova Guiné que visitei em 2005. Ou:
- Branco ê na volta ! Branco ê na volta mesmo – como me dizia a velhinha mulher do falecido Sambel, Homem Grande de Contabane (1) quando comovida me abraçava.

A visão panorâmica das aldeias locais (tabancas) mudou completamente e também mudou, felizmente, na minha mente.

Vi pistas de aviação foram transformadas em locais de habitação e de produção de Caju, vi casernas transformadas em escolas, por todas as tabancas por onde passei. Os espaços que mantínhamos capinados à voltas das tabancas por questões de segurança, são zonas de habitação e produção de cajueiros (2). As tabancas cresceram, romperam as barreiras de arame farpado, aproximaram-se umas das outras. Não há medos nem silêncios, há vida.

A estrada de Quebo a Mampatá Forea, outrora deserta e minada, quantas vezes, onde havia duas tabancas, Afia e Bacardado, esta última abandonada no meu tempo depois de incendiada pelo IN, é hoje uma passerelle contínua de pessoas em movimento, que se alonga por Uane, Sare Donhã e Samba Sábali. A estrada de Saltinho, Contabane a Quebo, fechada, após a destruição de Contabane(2), é outro corredor de interligação de pessoas.

Guiné-Bissau > 2005

... "Em Abril de 2005 tal como em 1968"...

© José Teixeira (2005)

Buba voltou a ter a vida que nos anais da história retratam como cidade comercial (transformada no tempo da guerra numa pequena povoação com um forte contingente militar – duas Companhias da tropa macaca, uma de Comandos ou Páras e uma de Fuzileiros). Banhada pelo Rio Grande Buba, braço de mar. Porto de ligação com a zona de Tombali. Centro comercial pela sua posição estratégica, cresceu imenso, gerando uma grande avenida que ultrapassa o fim da pista de aviação, actualmente transformada em zona habitacional e de comércio.

A picada para Fulacunda foi activada, dando acesso à tabanca de Sare Tuto, a cerca de 5 Km de Buba, conhecida por Tabanca Lisboa. Outrora base e centro de treino IN. Daí partiam para nos "incomodar" na estrada em construção, nas colunas para Quebo e nas tabancas onde estacionávamos (Buba, Nhala, Samba Sábali, etc.).

Insólito é que o Chefe de Tabanca actual é um antigo paraquedista das FAP [Força Aérea Portuguesa], talvez mais português que qualquer um de nós, até no português que fala sem sotaque local.

Os seus habitantes são ainda, na sua maioria antigos IN. O nosso amigo que se orgulha de ter servido Portugal tirou o Curso em Tancos e seguiu para a sua terra onde durante anos serviu Portugal nos Paras. No fim da guerra viveu clandestinamente durante dois anos e depois voltou... para a mulher que tinha do outro lado da barreira e vivia nesta linda tabanca de Sare Tuto (ou Lisboa), onde ainda hoje, quase só se fala Crioulo ou francês. As suas bases culturais depressa o guindaram ao lugar de Chefe de Tabanca. Tem em funcionamento uma escola de Português e está a criar outra no outro extremo da Tabanca. Conhecedor da mata como ninguém, é um excelente pisteiro, procurado pelos caçadores brancos que vão à Guiné e se instalam no Saltinho.

Aqui neste cantinho escondido da Guiné, tive o meu reencontro oficial com o IN. Quatro homens e mulheres, manga delas, observavam-nos à distância de 2 a 3 metros. Perguntei quem eram e tive como resposta:
- Turras!- Dirigi-me a eles:
- A bó bandido qui taka Buba, tempo di guera ? - Começaram se a rir e um deles retorquiu:
- A bó turra branco qui firma na Buba ? djobe. Manga di tempo qui guera na kaba. Parte mantanhas.

Demos um abraço e eu senti-me um homem feliz!
___________

Notas do autor:

(1) História que também merece ser contada, mais tarde.

(2) Contabane é uma tabanca que fica entre Quebo e Saltinho (Sinchã Shambel).

O Régulo Shambel teve a visita do IN na noite de São João de 1968. A tabanca foi incendiada e destruída, o Pelotão da CCAÇ 2382 teve de retirar com a roupa que trazia no corpo e a população refugiou-se em Quebo.

Actualmente a sua mulher vive em Sinchã Sambel do outro lado da ponte do Saltinho, cujo chefe é seu filho. Este era milícia em Mampatá Forea e casou com a Nana, filha do Alferes de milícia Aliu Baldé, régulo de Mampatá no meu tempo.

Tive o prazer de conviver de novo com esta mulher que era uma das mais belas bajudas que conheci, e continua a sê-lo, a par da sua amiga e futura cunhada Famara Baldé (minha lavandera).
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Nota de L.G.

(*) Vd a I parte > post de 4 de janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXVIII: Pensando... A Guiné que eu (vi)vi (1968/70) (José Teixeira)