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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27762: Documentos (59): A retirada de Madina do Boé (José Martins, ex-fur mil trms, CCAÇ 5, "Gatos Pretos", Canjadude, 1968/70) - Parte II


Guiné > Região de Gabu  > Carta de Madina do Boé (1958) (Escala  1/50 mil)  (Esta carta ainda não  está disponível  "on line" no nosso blogue) > Posição relativa de Madina do Boé, a 12 km da fronteira da Guiné-Conacri, a sul. Era rodeada de pequenas colinas, que iam dos 100 aos 200 metros de altitude. A amarelo, algumas das cotas. Os rios eram sazonais. A região semidesértica, mas impraticável no tempo das chuvas. Sem qualquer povoação, no tempo da guerra. As poucas que haviam desapareceram.  Distâncias: Madina do Boé até à fronteira, a leste (Vendu Leidi) > 60 km; Cheche-Madina: 20 km; Cheche- Béli > 35 km.

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026).



Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Setor de Boé > Madina do Boé > 1966 > Vista aérea do aquartelamento. Imagem reproduzida, sem menção da fonte, no Blogue do Fernando Gil > Moçambique para todos

Presume-se que a sua autoria seja de Jorge Monteiro (ex-cap mil,  CCAÇ 1416, Madina do Boé, 1965/67) ou de Manuel Domingues, membro da nossa Tabanca Grande, ex-alf mil da CCS/BCAÇ 1856, Nova Lamego, 1965/66 (autor do livro: "Uma campanha na Guiné, 1965/67").

Arquivo do  Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2006).


Guiné >  Zona Leste > Região de Gabu > Canjadude > 1973 > Restos de uma autometralhadora Daimler no itinerário entre Canjadude e Cheche.



Guiné > Região de Gabu > Madina do Boé > CCAÇ 1589 / BCAÇ 1894, "Os Tufas" (Bissau, Fá Mandinga, Nova Lamego, Beli e Madina do Boé, 1966-68) > 1967 > A "Fonte da Colina de Madina", construída em 1945, ao tempo do governador Sarmento Rodrigues. Foto do álbum do Manuel Coelho, o grande fotógrafo de Madina do Boé; aliás, um dos bravos de Madina do Boé, ex-fur mil trms, da CCAÇ 1580 (1966/68); natural de Reguengos de Monsaraz, vive em Paço d'Arcos, Oeiras; tem c. 50  referências no nosso blogue, ingressou na Tabanca Grande em 12 de julho de 2011).

Foto (e legenda): © Manuel Caldeira Coelho (2018). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



José Martins (ex-fur mil trms, CCAÇ 5, "Gatos Pretos", Canjadude, 1968/70) | Sócio da Liga dos Combatentes nº 80.393 | Colaborador permanente da Tabanca Grande | Histórico do nosso blogue | Vai a caminho das 500 referências | VIve em Odivelas.


Madina do Boé: contributo para sua história

por José Martins

OS HOMENS

Falar de Madina do Boé é falar dos homens que ao longo do tempo, e muito concretamente entre maio de 1965 e 6 fevereiro de 1969, estiveram em quadrícula naquela parcela do território português, hoje independente, e sobre o qual flutuou a Bandeira de Portugal.


Consultando o terceiro volume da Resenha Histórica-Militar das Campanhas de África (1961-1974) (Dispositivo das Nossas Forças - Guiné), encontrei os seguintes elementos sobre as companhias que passaram/estiveram/permanecem para sempre, nos factos que constituem a história desta zona da atual Guiné-Bissau.

A primeira unidade a instalar-se em Madina do Boé, foi a Companhia de Cavalaria nº 702 – Batalhão de Cavalaria nº 705 - formada no Regimento de Cavalaria 7 em Lisboa (já extinto) que chegou à Guiné em julho de 1964 e ficou instalada em Bissau. 

Posteriormente foi transferida para Bula (Janeiro de 1965) e Contuboel (Março de 1965). Foi colocada em Madina do Boé em maio de 1965 onde permaneceu até abril de 1966, quando terminou a sua comissão de serviço.



A CCAV 702 foi substituída pela Companhia de Caçadores nº 1416 – Batalhão de Caçadores nº 1856 - formada no Regimento de Infantaria 1 e ainda instalado na Serra da Carregueira na região de Lisboa e onde, atualmente, se encontra o Regimento de Comandos, foi colocada em Nova Lamego em agosto de 1965. 

Posteriormente, em maio de 1966 foi substituir a CCAV 702 em Madina do Boé, onde permaneceu até abril de 1967, quando terminou a sua comissão de serviço.




A Companhia de Caçadores nº 1589 – Batalhão de Caçadores nº 1894, formada no Regimento de Infantaria 15, em Tomar (uma das unidades que mobilizou militares para a I Grande Guerra), chegou à Guiné em agosto de 1966, ficando instalada em Bissau. 

Daqui foi enviada para Fá Mandinga em dezembro de 1966 e para Madina do Boé, para substituir a CCaç 1416, em abril de 1967, onde permaneceu até janeiro de 1968, altura em que foi transferida para Nova Lamego, e, em março de 1968 foi enviada para Bissau onde permaneceu até maio de 1968, altura em que terminou a sua comissão de serviço.


CMIL 15

Em Pirada, em março de 1965, foi criada a Companhia de Milícias nº 15 que foi enviada em junho de 1967 para Madina do Boé para reforço das forças ali estacionadas. 

Não existe registo para onde foi transferida depois de retirada de Madina. Foi desactivada em dezembro de 1971.


A última unidade a permanecer naquela zona foi a Companhia de Caçadores nº 1790 – Batalhão de Caçadores nº 1933, formada no Regimento de Infantaria 15 em Tomar. 

Quando chegou à Guiné em outubro de 1967 ficou estacionada em Fá Mandinga. Daqui foi transferida para Madina do Boé em janeiro de 1968 onde permaneceu até 6 de fevereiro de 1969, seguindo nesta data para Nova Lamego e em abril de 1969 foi transferida para S. Domingos, onde se manteve até ao final da sua comissão de serviço em julho de 1969. 

Esta unidade tinha um destacamento em Beli, que foi mandado regressar e juntar-se à companhia em junho de 1968.


O LOCAL

Conheci Madina do Boé numa altura em que regressava ao aquartelamento do minha unidade, a Companhia de Caçadores nº 5 estacionada em Canjadude, indo de Nova Lamego onde tinha estado, já não me recordo, se em serviço ou no regresso de férias. Viajava numa Dornier e conheci o aquartelamento do ar. 

Sei que só aterrámos depois de dois bombardeiros T 6, que nos escoltaram a partir da altura do Rio Corubal, terem feito uma observação dos locais onde era normal estarem e/ou atacarem o aquartelamento os elementos do PAIGC. Íamos buscar o Padre Libório, alferes graduado capelão do Batalhão de Caçadores nº 2835, que tinha estado junto daquela unidade durante alguns dias.

As instruções do furriel que pilotava a aeronave foram precisas: "assim que o aparelho parar,  saltas e corres para junto dos abrigos".

Assim fizemos e, ao chegar junto dos militares que não tinham saído de junto dos abrigos, fomos recebidos com algumas dezenas de abraços e palmadas nas costas daqueles homens que, só muito raramente, viam alguém que não fossem os seus camaradas habituais. Das manifestações havidas, já não sei se foram de boas vindas ou de despedida, pois o tempo de permanência da DO em terra teria que ser mínimo.

Do local ficou-me a sensação de que era uma terra inóspita, sem população civil, e, portanto, apenas a teimosia de alguém que não sabe o que é “estar no terreno de operações” fazia permanecer tropas naquele local.

A guerra que travávamos tinha como primeiro objectivo captar a simpatia e apoio das populações, transmitir-lhe alguns ensinamentos, e, sobretudo, prepará-los para “Um Futuro numa Guiné melhor”. Neste cenário não havia razão para sacrificar aqueles homens ao isolamento e ao sofrimento da incerteza da sorte das armas.


A RETIRADA

A saída da zona do Boé começou em junho de 1968, com o desmantelamento do destacamento de Beli, guarnecido por uma força destacada de Madina de Boé (CCAÇ 1790). 

Participei nessa operação, como pira já que ainda não tinha um mês de Guiné, para visitar os destacamentos de Canjadude e Cheche, locais que se encontravam guarnecidos por forças da CCAÇ 5, unidade em que fora colocado como Sargento de Transmissões.

A minha missão terminava no Cheche. Aí ficaria a aguardar o regresso da coluna que, depois de proceder ao desmantelamento de Beli e deslocar a guarnição para Madina do Boé, voltaria, pelo mesmo e único caminho, a Nova Lamego.

Presenciei o nervosismo, e porque não dizer o medo, do pessoal que ia em primeiro lugar, na jangada, ocupar posições na outra margem, para montar a segurança para a passagem do restante da coluna.

Só os meios aéreos poderiam antecipar dados que permitissem cambar o rio com relativa segurança.

Já não assisti ao regresso da coluna nem aos trabalhos da passagem para a margem norte do Corubal, pois a primeira crise de paludismo originou novo baptismo: a evacuação aérea para Nova Lamego. Dias mais tarde assisti ao regresso da coluna e, naturalmente, à descompressão das tropas utilizadas nessa operação.

Toda esta manobra obedecia a uma directiva, a nº 1/68, do Comandante Chefe recentemente empossado, o então brigadeiro António de Spínola, que previa o estabelecimento de uma grande base operacional na região do Cheche. 

Nessa região ficariam instaladas forças de intervenção, seria construída uma pista para aviões do tipo Dakota, além de uma jangada para a travessia do rio. As canoas, que seriam a estrutura base dessa jangada, passariam mais tarde por Canjadude, em mais uma das muitas colunas que por lá passaram, tendo como destino o Cheche.

Assim, mesmo sem que a base tivesse sido instalada, a guarnição de Madina do Boé seria retirada desse destacamento, numa operação montada e que seria realizada no início de fevereiro de 1969. 

A coluna constituída por cinquenta e seis viaturas foi escoltada, entre outras forças, por elementos da Companhia de Caçadores nº 2405 – Batalhão de Caçadores nº 2852,  forrmado no Regimento de Infantaria nº 2.

DESASTRE DO CHECHE

Constou, na altura, que tinha havido uma alteração na "ordem de operações". Previa-se que, aquando da travessia do Corubal, as últimas unidades a atravessar o rio seriam as de armas pesadas, ao contrário do que se verificou, que foram tropas de infantaria.

Imagino que, ao verem na outra margem do rio Corubal e para a qual se deslocavam, uma série de morteiros e canhões-sem-recuo prontos a responder a qualquer ataque, os militares tivessem descomprimido um pouco, podendo eventualmente ter tentado encher os cantis com água do rio, cuja falta se fazia sentir naquela altura do ano, desconhecendo que um Unimog, guarnecido por uma secção que eu próprio comandava, se encontrava muito próximo para reabastecer quem necessitasse, uma vez que a companhia retirada e as que haviam procedido à sua escolta, não entrariam no perímetro militar de Canjadude, não só por questões logísticas mas também operacionais.

A determinada altura, conforme se refere num filme realizado por José Manuel Saraiva, de 1995, e editado em cassete vídeo pelo Diário de Notícias, um som abafado, muito semelhante "à saída de uma morteirada ", teria gerado agitação entre os elementos que eram transportados na jangada, e eram bastantes. 

Da agitação resultou o desequilíbrio da jangada e a queda nas águas de uma parte substancial dos homens que estavam a ser transportados na mesma. O receio era de que tivessem sido seguidos à distância por forças IN e que as mesmas estivessem a preparar um ataque à jangada, que se deslocava lentamente.

A grande preocupação foi a ajuda aos que tinham caído à água, pois que transportavam consigo todo o equipamento normal numa missão de patrulhamento que, além da arma, do cantil e do bornal, munições de reserva não só para as armas ligeiras, mas também para as bazucas e para os morteiros.

Não foi só o equipamento individual que foi o responsável pelo afogamento de tantos homens. Os habitantes daquele rio também tiveram uma intervenção pouco amigável. Diz quem também esteve no centro daquele acontecimento, que as águas tomaram um tom avermelhado.

Naquela tarde de 6 de fevereiro de 1969, o Corubal roubou a todos e a cada um de nós, quarenta e sete amigos e camaradas dos quais, poucos, viriam a ser encontrados e sepultados nas margens do Rio Corubal.

OS HERÓIS/MÁRTIRES

É com emoção que, quando falo ou escrevo sobre este tema, me perfilo em continência, os meus lábios murmuram uma breve oração, e me curvo perante a memória daqueles que não voltaram e cujo espírito permanece sobre as águas do Rio Corubal (18 da CCAÇ 2405,  28 da CCAÇ 1790 e 1 civil guineense) (realce a amarelo, a companhia que retirou de Madina do Boé, a CCAÇ 1790; e a CCAÇ 2405, a azul marinho, uma das companhias que fez a escolta da coluna):


Furriéis Milicianos (n=2)

  • Carlos Augusto da Rocha, natural de Angústias – Horta – Açores – CCAÇ 1790
  • Gregório dos Santos Corvelo Rebelo, natural de Terra Chã – Angra do Heroísmo – Açores – CCAÇ 2405


Primeiros-cabos (n=7)
  • Alfredo António Rocha Guedes, natural de Vila Jusa – Mesão Frio – CCAÇ 2405
  • Augusto Maria Gamito, natural de S. Francisco da Serra – Santiago do Cacém – CCAÇ 1790
  • Francisco de Jesus Gonçalves Ferreira, natural de Tortosendo - Covilhã – CCAÇ 1790
  • Joaquim Rita Coutinho, natural de Samora Correia - Benavente – CCAÇ 1790
  • José Antunes Claudino, natural de Alcanhões - Santarém – CCAÇ 2405
  • José Simões Correia de Araújo, natural de Telhado – Vila Nova de Famalicão – CCAÇ 1790
  • Luís Francisco da Conceição Jóia, natural de Alvor - Portimão – CCAÇ 1790

Soldados (n=37) 
  • Abdul Embaló, natural de São José, Bissorã - CCAÇ 1790
  • Alberto da Silva Mendes, natural de Sande - Guimarães – CCAÇ 2405
  • Alfa Jau, natural da Guiné - CCAÇ 1790
  • Américo Alberto Dias Saraiva, natural de S. Sebastião da Pedreira - Lisboa – CCAÇ 1790
  • Aníbal Jorge da Costa, natural de Rossas – Vieira do Minho – CCAÇ 1790
  • António Domingos Nascimento, natural de Santa Maria - Trancoso – CCAÇ 2405
  • António dos Santos Lobo, natural de Favaios do Douro - Alijó – CCAÇ 1790
  • António dos Santos Marques, natural de Lorvão - Penacova – CCAÇ 2405
  • António Jesus da Silva, natural de Arazedo – Montemor-o-velho – CCAÇ 2405
  • António Marques Faria, natural de Telhado – Vila Nova de Famalicão – CCAÇ 1790
  • António Martins de Oliveira, natural de Rio Tinto - Gondomar – CCaç 1790
  • Augusto Caril Correia, natural de Santa Cruz - Coimbra – CCAÇ 1790
  • Avelino Madail de Almeida, natural de Glória - Aveiro – CCAÇ 1790
  • Celestino Gonçalves Sousa, natural de Poiares – Ponte de Lima – CCAÇ 1790
  • David Pacheco de Sousa, natural de Lustosa - Lousada – CCAÇ 1790
  • Francisco da Cruz, natural de Lebução - Valpaços – CCAÇ 2405
  • Indique Imbuque, natural de Farol, Bissorã  – CCAÇ 2405
  • Joaquim Nunes Alcobia, natural de Igreja Nova – Ferreira do Zêzere – CCAÇ 1790
  • Joel Santos Silva, natural de Guisande – Vila da Feira – CCAÇ 1790
  • José da Silva Coelho, natural de Recarei - Paredes – CCAÇ 1790
  • José da Silva Góis, natural de Meãs do Campo – Montemor-o-novo – CCAÇ 2405
  • José da Silva Marques, natural de Marmeleira - Mortágua – CCAÇ 2405
  • José de Almeida Mateus, natural de Santa Comba Dão – CCAÇ 1790
  • José Fernando Alves Gomes, natural de Carvalhosa – Paços de Ferreira – CCAÇ 1790
  • José Ferreira Martins, natural de Pousada de Saramagos – V. N. Famalicão – CCAÇ 1790
  • José Loureiro, natural de S. João de Fontoura Resende – CCAÇ 2405
  • José Maria Leal de Barros, natural de Vilela - Paredes – CCAÇ 1790
  • José Pereira Simão, natural de Salzedas - Tarouca – CCAÇ 2405
  • Laurentino Anjos Pessoa, natural de Sonim - Valpaços – CCAÇ 2405
  • Manuel António Cunha Fernandes, natural de Arão – Valença do Minho – CCAÇ 1790
  • Manuel Conceição Silva Ferreira, natural de Pombalinho - Santarém – CCAÇ 2405
  • Manuel da Silva Pereira, natural de Penude - Lamego – CCAÇ 1790
  • Octávio Augusto Barreira, natural de Suçães - Mirandela – CCAÇ 2405
  • Ricardo Pereira da Silva, natural de Serzedo ou selzedelo – Vila Nova de Gaia – CCAÇ 1790
  • Tijane Jaló, natural de Piche – Gabu – CCAÇ 1790
  • Valentim Pinto Faria, natural de Valdigem - Lamego – CCAÇ 2405
  • Victor Manuel Oliveira Neto, natural de Buarcos – Figueira da Foz – CCAÇ 2405

Civis (n=1)
  • Um caçador nativo não identificado

José Martins 
Janeiro de 2006

(Revisão / fixação de texto, negritos, realces, links, título: LG)
_________

Nota do editor L.G.

(1) Útimo poste da série > 22 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27760: Documentos (58): A retirada de Madina do Boé (José Martins, ex-fur mil trms, CCAÇ 5, "Gatos Pretos", Canjadude, 1968/70) - Parte I

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Guiné 61/74 - P19944: (D)o outro lado combate (51): a morte de 'Guerra Mendes' (Jaime Silva) em Bulel Samba, Buba, em 14 de fevereiro de 1965, na Op Gira - II (e última) Parte (Jorge Araújo)



Guiné-Bissau > Bissau > A antiga rua dr. Oliveira Salazar,  hoje Rua Guerra Mendes, 60 anos depois... Fotograma de um vídeo publicitário, da empresa Revita - Estética e Massagem , disponível no portal www.dailymotion.com (com a devida vénia...)


Guiné > Bissau > s/d [ c. 1960] > Rua Dr. Oliveira Salazar [, hoje Rua Guerra Mendes]. Bilhete Postal, Colecção "Guiné Portuguesa, 135". (Edição Foto Serra, C.P. 239 Bissau. Impresso em Portugal, Imprimarte, SARL).

Colecção: Agostinho Gaspar / Digitalização e edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2010).




Mapa da região de Antuane (Quinara), com indicação dos nomes das tabancas referidas nos documentos consultados. Sinaliza-se, ainda, o local onde o Cmdt Guerra Mendes morreu [Bulel Samba].




Jorge Araújo, ex-fur mil op esp / Ranger, CART 3494 
(Xime-Mansambo, 1972/1974); coeditor do blogue; 


GUINÉ: (D)O OUTRO LADO DO COMBATE > A MORTE DE 'GUERRA MENDES' EM BULEL SAMBA [S2-BUBA], A 14FEV1965, NA OPERAÇÃO "GIRA", UM ANO DEPOIS DE TER SUBSTITUÍDO RUI DJASSI (FAINCAM) NO COMANDO DA "ZONA 8" (QUINARA) POR DECISÃO DO I CONGRESSO DO PAIGC:  "HERÓI DA PÁTRIA", TEM HOJE NOME DE RUA EM BISSAU

II (e Última) Parte





1. INTRODUÇÃO

Com este segundo fragmento, damos por concluída a resenha sócio-histórica sobre o contexto
operacional que esteve na origem da morte do Cmdt da "Zona 8", 'Guerra Mendes' [nome de guerra de Jaime Silva], verificada em 14 de Fevereiro de 1965, em Bulel Samba [mapa acima]. Esta ocorrência, da qual fizemos referência em narrativa anterior – P19917 – verificou-se dois anos após o início do conflito e um ano depois de ter sido nomeado substituto do Cmdt Rui Demba Djassi «Faincam», em decisão tomada durante o I Congresso do PAIGC, por desconhecimento do paradeiro deste último.


2.  ENQUADRAMENTO HISTÓRICO E MILITAR SOBRE A MANOBRA EXECUTADA PELAS NT NA REGIÃO DE QUINARA EM 1964/1965

A execução da actividade operacional desenvolvida pelas NT na região em análise foi determinada pelo Comandante Militar do CTIG, à data o Brigadeiro Fernando Louro de Sousa, incluída na Directiva de Operações n.º 1/64, de 7 de Fevereiro, atribuindo essa missão ao BCAÇ 619 [unidade mobilizada pelo RI 1, da Amadora, tendo desembarcado em Bissau a 15 de Janeiro de 1964], sob o comando do TCor Inf Narsélio Fernandes Matias. De referir que após render o BCAÇ 356, em 17Jan64, aquele passou a assumir a responsabilidade pelo Sector F designado, a partir de 11Jan65, por Sector «S3», com sede em Catió, o qual abrangia os subsectores de Empada, Bedanda e Cabedú.

Os objectivos gerais da manobra eram:

1 - Intensificar a actividade de todos os Sectores por acções de patrulhamentos, nomadizações, golpes de mão e emboscadas em vista a:

(i) - Manter o controlo dos principais itinerários necessários aos reabastecimentos e à ligação entre os comandos das unidades vizinhas.

(ii) - Limitar ou impedir a liberdade de movimentos dos grupos IN.

(iii) - Detectar e aniquilar os grupos IN que se revelem nos sectores.

2 - Em ligação com o BCAÇ 513 [unidade mobilizada pelo RI 7, de Leiria, tendo desembarcado em Bissau a 22 de Julho de 1963, sendo apenas constituído por Comando e CCS], sob a liderança do TCor Inf Luís Gonçalves Carneiro, assegurar o controlo da região de Antuane - Chacoal - Bantael Sila - Queuel Lei. [Recorda-se que esta Unidade tinha assumido, anteriormente, a responsabilidade plena pelo Sector E, designado, a partir de 11Jan65, por Sector «S2», com sede em Buba, o qual abrangia os subsectores de Buba, Cacine, Aldeia Formosa e, mais tarde, os novos subsectores de Gadamael, criado em 19Dez63; Sangonhá, criado em 06Jun64 e Guileje, criado em 25Nov64].

3 - Manter o controlo dos principais itinerários do sector em especial os de:

(i) - Catió - Batambali Beafada;

(ii) - Empada - Batambali Beafada - Buba (limite do sector);

(iii) - Bedanda - Guileje (limite do sector);

(iv) - Cabedú - Bedanda.


Guiné > Região de Tombali > Bedanda > 1969 > Moranças Balantas. Foto do álbum do camarada João Martins, ex-alf mil art, BAC1 (1967/1969), com a devida vénia [P9947].



2.1.  SUBSÍDIO HISTÓRICO SOBRE A MANOBRA DAS NT NA REGIÃO DE ANTUANE DE 21 DE JANEIRO A 15 DE FEVEREIRO DE 1965


Na sequência da reformulação de responsabilidades determinada pela nova "geografia de intervenção", iniciada em 11 de Janeiro de 1965, com a criação dos Sectores «S3-Catió» e «S2-Buba», houve a necessidade de recorrer à mobilização de mais efectivos operacionais de reforço da Unidade de quadrícula, no caso o BCAÇ 513, de modo a cumprirem-se os objectivos definidos na execução da manobra referida no ponto anterior, já que contemplavam diferentes acções: prolongadas e dispersas.

Para a execução da presente manobra, as principais escolhas recaíram nos efectivos da CCAÇ 594 e CCAV 702, já com antecedentes operacionais na região, como provam os exemplos que seleccionámos da historiografia de cada uma delas, desde a sua chegada ao CTIG até à execução desta missão.

1 – Companhia de Caçadores 594 [CCAÇ 594]

Esta Unidade foi mobilizada pelo RI 15, de Tomar, tendo desembarcado em Bissau a 03 de Dezembro de 1963, sob o comando do Cap Inf Mário Jaime Calderon Cerqueira Rocha.

Seguiu, depois, para Mansabá, onde assumiu a responsabilidade pelo subsector a 23Dez63, substituindo a CCAÇ 461.

Realizou operações, entre outras, nas regiões de Uália e Mamboncó.

Em 12Set64, foi rendida no subsector de Mansabá pela CCAÇ 642, sendo deslocada para Bissau, e integrada no dispositivo do BCAÇ 600.

Em 09Jan65, foi substituída pela CCAÇ 557 e deslocada para Buba, para intervenção e reserva do BCAÇ 513 e, posteriormente do BCAÇ 600 e, mais tarde, do BCAÇ 1861, com intervenção nas áreas de Bantael Silá e Chinchim Dárin, entre outras.

2 – Companhia de Cavalaria 702 [CCAV 702]

Esta Unidade, a primeira do BCAV 705, que era comandada pelo TCor Cav Manuel Maria Pereira Coutinho Correia de Freitas, foi mobilizada pelo RC 7, de Lisboa, tendo desembarcado em Bissau a 24 de Julho de 1964, sob o comando do Cap Cav Fernando Luís Franco da Silva Ataíde.

Em função da intervenção como reserva do Comando-Chefe, com a sua base em Bissau, as três Unidades do BCAV 705 [CCAV 702, 703 e 704], cumpriram o seu treino operacional no sector de Buba, sob a orientação do BCAÇ 507, sendo utilizadas em diversas operações, nomeadamente nas regiões do Cantanhez e do Morés-Óio.

A CCAV 702, para além das operações referidas acima, foi atribuída como reforço do BCAÇ 513, para intervenção na sua área de acção, entre 15 a 17Dez64, na região de Injassane e de 21 a 28Dez64, na região de Unal, após o que recolheu a Bolama.

Entretanto, de 16Jan a 19Fev65, foi novamente atribuída em reforço do BCAÇ 513, para operações na região de Buba, de que é exemplo a presente manobra, recolhendo, de novo, a Bolama.


2.2. FACTOS MAIS RELEVANTES SOBRE A MANOBRA DAS NT NA REGIÃO DE ANTUANE DE 21 DE JANEIRO A 15 DE FEVEREIRO DE 1965

O início da manobra em análise teve lugar em 21 de Janeiro de 1965, 5.ª feira, com a «Operação Garrote», na qual participaram as forças da CCAÇ 594, CCAV 702 e PRecFox 888. No decurso desta missão as NT detectaram duas emboscadas em Galo Bolola, das quais resultaram a morte de uma sentinela e o ferimento em outra, sendo capturada uma carabina, cartuchos e material diverso. As NT assinalaram e destruíram um acampamento com capacidade para quarenta elementos, tendo sido apreendidas duas granadas de mão, restos de medicamentos e algumas munições.

Em 29 e 30 de Janeiro de 1965, 6.ª e sábado, realizou-se a «Operação Papaia», em que intervieram as mesmas forças da operação anterior, reforçadas com a CART 494, do Cap Art Alexandre da Costa Coutinho e Lima. No primeiro dia da missão foi destruída parte da tabanca de Unal e derrubado um acampamento a norte de Bricama com 5 casas.

As NT foram flageladas pelos guerrilheiros, tendo-lhes causado dois mortos. Foi, ainda, levantada uma macar "TMH-46" na estrada Nhacobá - Cumbijã, junto a Galo Cumbijã. No segundo dia, forças da CCAÇ 594 destruíram um acampamento entre Teque e Bricama, próximo de Sambasó. O IN flagelou as NT, causando três feridos. Foi destruído um acampamento em Unal, tendo as NT surpreendido três elementos, dos quais um morreu.

Em 5 de Fevereiro de 1965, 6.ª feira, teve lugar a «Operação Toupeira» em que estiveram envolvidas as forças da CCAÇ 594, CCAV 702 e do Pel Rec Fox 888. O IN emboscou as NT na estrada Galo Bolola - Bantael Silá, causando-lhes 1 ferido. Foram capturadas uma granada de mão e diversas munições. Os guerrilheiros lançaram fogo ao capim, retardando a progressão das NT para Darsalame.

O IN voltou a flagelar na área de Cancasso, tendo causado um ferido e sofrido um morto. As NT destruíram a tabanca de Cancasso e grande quantidade de arroz e apreenderam cartuchos de diversos calibres, granadas de não defensivas, medicamentos e outro material diverso. (p313)


Citação: (1963-1973), "Guerrilheiros do PAIGC.", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_44096 (2019-5), com a devida vénia.



2.2.1. FACTOS MAIS RELEVANTES DA «OPERAÇÃO GIRA», NA REGIÃO DE ANTUANE EM 13 E 14FEV65, DATA DA MORTE DE GUERRA MENDES

A última missão prevista na manobra em análise decorreu em 13 e 14 de Fevereiro de 1965, sábado e domingo, com a participação da CCAÇ 594, CCAV 702, Pel RecFox 888, ou seja, as mesmas da acção anterior, reforçadas com a CCS/BCAÇ 513 e Pel Mort 979, instalado em Buba, a qual foi baptizada de «Operação Gira».

No decurso desta acção, foram destruídos acampamentos em Umbaná, Bulel Samba e três tabancas situadas para leste desta. O IN ofereceu resistência causando um morto às NT [o soldado radiotelegrafista Albino António Tavares, do PMort 979, solteiro, natural de Cardigos - Mação. Foi sepultado em Bissau; campa 1402], tendo sofrido três mortos confirmados. Foi-lhe capturado material diverso, entre o qual granadas de mão defensivas, carregadores e munições.

Sobre os factos acima narrados, em particular as três baixas no seio do PAIGC, onde se inclui a do Cmdt 'Guerra Mendes', é 'Nino' Vieira (1939-2009) que o confirma em carta por si dirigida a Aristides Pereira (1923-2011), datada de 16Fev65, ou seja, dois dias após a ocorrência, conforme se dá conta no texto abaixo colocado no interior da caixa a vermelho.





Entretanto, no decurso desta acção, o IN emboscou as NT a sul de Darsalame, fazendo um ferido e consentindo mais cinco baixas. As NT destruíram um acampamento de grandes dimensões a norte de Darsalame e as tabancas de Dalael Balanta e Bantael Silá. Aqui as NT foram flageladas pelo fogo IN, que teve mais uma baixa, tendo sido capturado material diverso e munições. Também abriu fogo durante a travessia do rio Insane pelas NT.

Na reacção desencadeada pelas NT, com apoio aéreo, o IN retirou com mais dez baixas confirmadas, sendo-lhe capturada uma metralhadora ligeira, um espingarda, uma pistola-metralhadora, uma pistola, quatro "longas" e diverso material de guerra. Nesta operação foi, ainda, destruída grande quantidade de arroz e abatido gado. (p. 314)

3. AINDA A CARTA ENVIADA DE SALANCAUR EM 16FEV1965 - DE NINO VIEIRA PARA ARISTIDES PEREIRA, DANDO CONTA DE UMA OFENSIVA DAS NT [OPERAÇÃO GIRA]

Caro camarada Aristides Pereira

[…] Por infelicidade n/ [nossa] perdemos o n/ [nosso] camarada Guerra Mendes, Infaly e Isnaba Naberiaguebandé. Estes camaradas foram mortos pelas tropas que avançavam por Bulel Samba. [H]ouve também 3 dos n/ [nossos] camaradas que ficaram feridos: Imbaná Sambú, Bien Naína e Beínha Natchandi.

Nestas três tabancas, as tropas destruíram uma grande quantidade de arroz e casas do povo. Espero no entanto que me dessem a vossa opinião no que respeita à pessoa capaz de seguir imediatamente para Quinara, a fim de ocupar o lugar do Guerra Mendes. Quanto a mim proponho "Saco" [nome de guerra de Mário Camará] ou Arafam [Mané?]. Se estes não servem é favor de arranjarem um responsável vindo do Norte. [Recorda-se, neste contexto, que foram estes dois elementos do PAIGC que elaboraram e assinaram o comunicado relacionado com a «Operação Alvor», levada a efeito na península de Gampará e referida em postes anteriores, a propósito da morte do Cmdt Rui Djassi «Faincam», em 24 de Abril de 1964].

Claro que proponho estes 2 camaradas porque não tenho cá alguém capaz de tomar essa responsabilidade sem serem eles. […]


3.1 - A RESPOSTA DE ARISTIDES PEREIRA RELACIONADA COM A MORTE DE GUERRA MENDES E A SUA SUBSTITUIÇÃO


Conacri, 28 de Fevereiro de 1965

Caro camarada Nino,

Recebemos a tua carta de 16 do corrente [Fev1965], tendo que lamentar a perda dos camaradas, nomeadamente do responsável Guerra Mendes [Jaime Silva]. Infelizmente a nossa luta tem de ser assim, mas lamentamos ainda mais quando temos perdas desse género devido a erros nossos. Por exemplo, há quanto tempo vimos dizendo ao camarada Guerra para deixar Antuane e seguir para o seu posto – Quinara!... Sugerimos mesmo suprimir a base de Antuane, mas tudo debalde, até chegar a esse puro azar, visto ter sido resultado de bombardeamento. Enfim, importa é que tiremos sempre lições, amargas sim, de casos como este e que suportemos as responsabilidades que sempre aumentam quando faltam-nos um elemento como este infeliz camarada responsável.

Em relação a um camarada a enviar para Quinara, achamos que dos nomes que propões, qualquer dos camaradas parecem capazes de dar conta do recado. Assim, tu é que podes melhor ver o que mais convém. No entanto, se o Secretário-Geral tiver qualquer modificação a fazer, dir-to-emos depois. Assim, talvez mandares um dos camaradas Seco ou Arafan, mas a título provisório, para confirmar depois. […]

Saúde e bom trabalho. Saudações, as melhores do camarada de sempre, Aristides.



Citação: (1965), Sem Título, CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_35310 (2019-5), com a devida vénia.

Fonte: Casa Comum; Fundação Mário Soares. Pasta: 04618.082.032. Assunto: Lamenta a perda dos camaradas, nomeadamente do responsável Guerra Mendes. Remetente: Aristides Pereira. Destinatário: Nino Vieira. Data: Domingo, 28 de Fevereiro de 1965. Observações: Doc. Incluído no dossier intitulado Correspondência dactilografada (de Amílcar Cabral, Aristides Pereira e Luís Cabral para os Responsáveis da Zona Sul e Leste). Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral. Tipo Documental: Correspondência.

4. 'GUERRA MENDES' [JAIME SILVA] – HERÓI DA PÁTRIA

Hoje, o nome de Guerra Mendes [Jaime Silva], enquanto Herói da Pátria Guineense, faz parte da toponímia de "Bissau-Antigo", cuja localização se indica nos dois mapas abaixo.



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Fontes consultadas:

Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 7.º Volume; Fichas das Unidades; Tomo II; Guiné; 1.ª edição, Lisboa (2002); pp 313-314.

Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 8.º Volume; Mortos em Campanha; Tomo II; Guiné; Livro 1; 1.ª edição, Lisboa (2001); p 113.


Outras: as referidas em cada caso.

Termino, agradecendo a atenção dispensada.

Com um forte abraço de amizade e votos de muita saúde.

Jorge Araújo.

28Jun2019
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Nota do editor:

Último poste da série >  25 de junho de 2019 > Guiné 61/74 - P19918: (D)o outro lado do combate (51): a morte de Jaime Silva ("Guerra Mendes"), na versão de Bobo Keita

Vd. também:

25 de Junho de 2019 > Guiné 61/74 - P19917: (D)o outro lado combate (50): a morte de 'Guerra Mendes' (Jaime Silva) em Bulel Samba, Buba, em 14 de fevereiro de 1965, na Op Gira - Parte I (Jorge Araújo)

Guiné 61/74 - P19943: (Ex)citações (353): Uma achega referida à circunstância da morte em combate de Guerra Mendes, comandante do PAIGC (Manuel Luís Lomba, ex-Fur Mil da CCAV 703 / BCAV 705)

1. Mensagem do nosso camarada Manuel Luís Lomba (ex-Fur Mil da CCAV 703/BCAV 705, Bissau, Cufar e Buruntuma, 1964/66) com data de 1 de Julho de 2019, com uma achega à circunstância da morte de Guerra Mendes:

Citação: (1963-1973), "Jaime Silva (Guerra Mendes)", CasaComum.org, Disponível HTTP:http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_43473 (2019-4), com a devida vénia.


Uma achega referida à circunstância da morte em combate de Guerra Mendes, comandante do PAIGC

Os ventos semeados pela História transformaram a Guiné em filial do inferno, os combatentes (dos dois campos) em seus diabos, mas as suas tempestades sobraram para o Povo bissau-guineense… 

A carta de Nino Vieira à sua hierarquia contém a evidência que levou o Jorge Araújo, no seu labor, a comunicar que o Comandante Guerra Mendes morreu em 14 de Fevereiro de 1965, na região de Buba/Antuane, no decurso da “Operação Gira”, manobrada pela CCAV 702, o Pel Rec Fox 888, o Pel Mort 979 e a CCS do BCAÇ 513.

Naquele tempo e durante um ano, o BCAV 705, aquartelado no Forte da Amura, esteve de reserva às ordens do Comando-Chefe, que investiu a valente malta da sua CCAV 702 nessa operação, enquanto investia a sua CCAV 703 a nomadizar em Cufar e, durante 65 dias, dormimos no chão, alimentámo-nos de rações de combate e andámos aos tiros com o Saturnino Costa, o Nino Vieira e a sua malta.

Se a memória não me engana (já lá vão mais de 50 anos!), em 10 e 11 de Abril desse ano, nós, a CCAV 703 andámos de intervenção naquela região, na “Operação Faena”, em interacção com os Comandos "Os Fantasmas", o Destacamento de Fuzileiros 7, a CCAÇ 594, o Pel Rec Fox 888 e o Grupo de Milícia do João Bacar, com o apoio duma parelha de aviões de combate T6.

Nesta operação passámos 48 horas, “non stop” ou H24, como diz a malta da Força Aérea, num inferno de tiros e rebentamentos com os endiabrados Nino Vieira, Quebo Mané e a sua malta.

O Pelotão de Reconhecimento Fox 888 operava com a auto-metralhadora Fox “Simone” (de Oliveira) e com o granadeiro Whait e, em conversa com a sua malta, tenho a ideia que tinham abatido o Guerra Mendes (filho) e, duas horas depois, o Guerra Mendes (pai), que tentou vingar a morte do filho com uma granada em cada mão. Ou foi nessa operação ou na anterior.

Bobo Quetá diz que ele(s) eram de Bissau e como ele e o Nino Vieira não cultivavam o rigor pela verdade dos factos, perfilho a versão daquela malta, fã da “Simone”…
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Notas do editor

Vd. poste de 25 de Junho de 2019 > Guiné 61/74 - P19917: (D)o outro lado combate (50): a morte de 'Guerra Mendes' (Jaime Silva) em Bulel Samba, Buba, em 14 de fevereiro de 1965, na Op Gira - Parte I (Jorge Araújo)

Último poste da série de2 de maio de 2019 > Guiné 61/74 - P19736: (Ex)citações (352): In illo tempore, o Alferes José Cravidão, no CISMI de Tavira (Manuel Luís Lomba, ex-Fur Mil da CCAV 703 / BCAV 705, Bissau, Cufar e Buruntuma, 1964/66)

terça-feira, 25 de junho de 2019

Guiné 61/74 - P19917: (D)o outro lado combate (50): a morte de 'Guerra Mendes' (Jaime Silva) em Bulel Samba, Buba, em 14 de fevereiro de 1965, na Op Gira - Parte I (Jorge Araújo)


Citação: (1963-1973), "Jaime Silva (Guerra Mendes)", CasaComum.org, Disponível HTTP:http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_43473 (2019-4), com a devida vénia.




Jorge Araújo, ex-fur mil op esp / Ranger, CART 3494 
(Xime-Mansambo, 1972/1974); coeditor do blogue; 


GUINÉ: (D)O OUTRO LADO DO COMBATE: A  MORTE DE 'GUERRA MENDES' EM BULEL SAMBA [S2-BUBA], A 14FEV1965, NA OPERAÇÃO "GIRA", UM ANO DEPOIS DE TER SUBSTITUÍDO RUI DJASSI (FAINCAM) NO COMANDO DA "ZONA 8" (QUINARA) POR DECISÃO DO I CONGRESSO DO PAIGC : "HERÓI DA PÁTRIA", TEM HOJE NOME DE RUA EM BISSAU  (Parte I)


1. INTRODUÇÃO

Depois de nas últimas narrativas ter percorrido "um pedaço do inferno", como foi o caso do Xime (*), local de muitas memórias para a vida daqueles que lá viveram durante as diferentes épocas ou períodos, regresso, de novo, à actividade operacional desenvolvida na região de Quínara, no ano de 1965, recuperando alguns acontecimentos que fazem parte da historiografia da Guerra, com recurso, uma vez mais, às informações obtidas "(d)o outro lado do combate", e da sua triangulação com os documentos "oficiais" das NT.

Como o título acima sugere, o presente texto, que será dividido em duas partes, terá como objecto de análise, o aprofundamento do contexto sócio-histórico que originou a morte do Cmdt da "Zona 8", Guerra Mendes [nome de guerra de Jaime Silva], ocorrida em 14 de Fevereiro de 1965, em Bulel Samba [S2-Buba], dois anos depois do início do conflito e um ano após ter substituído Rui Demba Djassi «Faincam», morto em 24 de Abril de 1964 na península de Gampará [P19532 e P19536], durante a «Operação Alvor». (**)


2. SUBSÍDIO HISTÓRICO DAS ACÇÕES DE 'GUERRA MENDES' APÓS SUBSTITUIR RUI DJASSI NO COMANDO DA ZONA 8 (QUINARA)  (***)


Nomeado na reunião de quadros do PAIGC (I Congresso) realizada em Cassacá, em Fevereiro de 1964, como novo responsável pela Zona 8 (região de Quinara) [P19433], em substituição do anterior Cmdt Rui Djassi (Faincam) (1937-1964), "Guerra Mendes" viria a tombar na área da sua intervenção, a 14 de Fevereiro de 1965, domingo, exactamente um ano após ter assumido esse cargo, no decurso da «Operação Gira», na qual participaram as seguintes unidades: CCaç 594, CCav 702, Pel Rec Fox 888, CCS/BCaç 513 e Pel Mort 979.

O modo como esta operação se desenrolou será abordado na Parte II.

Considerando o período em que decorreu o desempenho da sua missão, os subsídios históricos considerados para a elaboração desta narrativa são exclusivamente os que constam no espólio documental de Amílcar Cabral (1924-1973), existentes na Fundação Mário Soares,  disponíveis no portak Casa Comum, em particular a correspondência trocada entre si e alguns dos seus responsáveis directos.


Citação: (1963-1973), "Reunião de responsáveis do PAIGC com a população", CasaComum.org Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_43984 (2019-4), com a devida vénia.


2.1. A PRIMEIRA CARTA - [JAN1965] ENVIADA DE ANTUANE: DE GUERRA MENDES PARA LUÍS CABRAL, DANDO CONTA DA ACTIVIDADE DESENVOLVIDA EM ANTUANE

Exmo. Camarada Luís Cabral

Em primeiro de tudo,  estimo que esta carta lhe vá encontrar em bom estado de saúde, ao lado da sua família.

Eu por cá vou indo bem de saúde,  enfrentando somente grande dificuldade que é para o bem do nosso povo.

Recebi as suas duas cartas a qual li e fiquei contente com a sua exposição e mormente com o meu estado em N'tuane [Antuane]. Por bem dizer posso-lhe afirmar que não me fixei em N'tuane [Antuane], ando por poda a parte da área que o Partido me incumbiu de controlar. Se estaciono em N'tuane [Antuane] é devido à análise da condição ou da decisão que os nossos inimigos tomaram a fim de fechar a linha de fronteira, e por essa razão a minha estadia em N'tuane [Antuane] é da possível necessidade a fim de dirigir camaradas.

Da minha estadia em Quínara que o Camarada Luís [Cabral] menciona, e que podia ficar descansado, porque tenho um camarada de grande confiança que é o Quemo Mané, e devido também os meios que já desenvolvi, tanto a politização da massa como bases novas que abri, tenho a certeza que tudo corre bem e há-de continuar. Mas contudo isso não passa um mês sem chegar lá, assim como a toda a parte que o Partido me ordenou de controlar.

Junto o portador agradecia enviar linhas de nylon e pilhas para fazer gerador eléctrico para instalar minas nos rios. Agradecia mandar-me oferecer jornais e livros de política.

Termino, esperando com toda a esperança o seu favor. Sou Guerra Mendes.

[Revisão / fixação de texto: JA]




2.1.1.  ORIGINAL DA PRIMEIRA CARTA






Citação: (s.d.), Sem Título, CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_34412 (2019-4), com a devida vénia.


Fonte: Casa Comum; Fundação Mário Soares. Pasta: 04613.065.092. Assunto: Explicações sobre o facto de permanecer em N'tuane. Estadia em Quinara; politização de massas e abertura de novas bases. Solicita material para um gerador eléctrico. Remetente: Guerra Mendes. Destinatário: Luís Cabral. Data: s/d. Observações: Doc. incluído no dossier intitulado Correspondência 1963-1964 (dos Responsáveis da Zona Sul. Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral.




Citação: (1963-1973), "Dois combatentes do PAIGC", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_43751 (2019-4), com a devida vénia.



2.2. A SEGUNDA CARTA - [09FEV1965] ENVIADA DE CONACRI:  DE ARISTIDES PEREIRA  PARA GUERRA MENDES SOLICITANDO A ESTE A SAÍDA DE ANTUANE, CINCO DIAS ANTES DA SUA MORTE

Caro Guerra [Mendes]

Saúde e bom trabalho.

Recebemos a tua carta [Jan65], mas continuamos a estranhar saber-te em Antuane, quando há tanto tempo contamos contigo em Quínara. Palavra que não compreendemos. Temos como indispensável a tua presença e o teu trabalho em Quínara. Esperamos que arrumes tudo aí, e que sigas o mais urgentemente para a tua área, a fim de efectuares o trabalho que te está determinado, e com o que contamos absolutamente.

Tomamos devida nota das notícias, mas torna-se necessário mais pormenores nelas.

Regressam os camaradas que vieram buscar medicamentos e artigos escolares. Levam o que é possível, conforme as notas de que são portadores.

Quanto à questão de Bolama que pões, assim como outro qualquer assunto militar ou político local, deves pô-lo ao 'Nino' [Vieira], e discutir com ele o melhor caminho a seguir. Deves, pois, pôr esses problemas ao 'Nino', para ele decidir.

Continuamos recebendo cartas tuas sem assinatura, o que não nos permite identificá-las. Chamamos a tua atenção para esse facto, que já se vem repetindo e que pode trazer prejuízos à identificação das cartas que vêm do interior.

A questão do comércio está sendo devidamente estudada e a nossa Secção encarregada desse assunto ocupa-se inteiramente do caso. Assim, podes estar descansado que tudo irá pelo melhor nesse campo. O encarregado do Depósito dos Armazéns do Povo nessa zona deve dirigir-se à sua sede e expor os problemas que há, pois tu tens que te mexer e ocupar de muitos outros assuntos, embora devas ajudar sempre na medida do possível.

Esperamos é que possamos receber dentro em breve as tuas notícias, mas vindas de Quínara, conforme dissemos acima.

Saudações de todos os camaradas, com votos de saúde e o melhor trabalho possível.

Abraço amigo do camarada, Aristides Pereira.

[Revisão / fixação de texto: JA]


2.2.1. ORIGINAL DA SEGUNDA CARTA





Citação: (1965), Sem Título, CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_35306 (2019-4), com a devida vénia.


Fonte: Casa Comum; Fundação Mário Soares. Pasta: 04618.082.030. Assunto: Instruções para sair de Antuane indispensável a sua (Guerra Mendes) presença e trabalho em Quinara. Remetente: Aristides Pereira. Destinatário: Guerra [Mendes]. Data: Terça, 9 de Fevereiro de 1965. Observações: Doc. incluído no dossier intitulado Correspondência dactilografada (Amílcar Cabral, Aristides Pereira e Luís Cabral para os Responsáveis da Zona Sul e Leste). Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral.





Mapa da região de Antuane, com indicação dos nomes das tabancas referidas nos documentos consultados. Sinaliza-se, ainda, o local onde o Cmdt Guerra Mendes morreu [Bulel Samba].



2.3. A TERCEIRA CARTA - [16FEV1965] ENVIADA DE SALANCAUR:  DE 'NINO' VIEIRA PARA ARISTIDES PEREIRA, DANDO CONTA DE UMA OFENSIVA DAS NT [OPERAÇÃO GIRA] E DA MORTE DE GUERRA MENDES E MAIS DOIS ELEMENTOS


Caro camarada Aristides Pereira

A continuação da vossa saúde, assim como a dos c/ [camaradas] são os m/ [meus] maiores desejos. Nós bons.

Tenho a informar-vos que no dia 13 e 14 [Fev65], as tropas portuguesas desencadearam uma grande ofensiva nas áreas de Antuane, donde eram apoiados de 2 aviões de caça e 2 de reconhecimento armado. Conseguiram avançar até Indaliel, Banta e Bulel Samba. Os n/ [nossos] camaradas conseguiram aguentar esse duro ataque de 48 horas, onde conseguiram pôr fora de combate dezenas de soldados inimigos, além de feridos. Como prova disso o helicóptero aterrou 3 vezes para transportar cadáveres e feridos.

Por infelicidade n/ [nossa] perdemos o n/ [nosso] camarada Guerra Mendes, Infaly e Isnaba Naberiaguebandé. Estes camaradas foram mortos pelas tropas que avançavam por Bulel Samba. [H]ouve também 3 dos n/ [nossos] camaradas que ficaram feridos: Imbaná Sambú, Bien Naína e Beínha Natchandi. […]

[Revisão / fixação de texto: JA]


2.3.1. ORIGINAL DA TERCEIRA CARTA




Citação: (1965), Sem Título, CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_39148 (2019-4), com a devida vénia.


Fonte: Casa Comum; Fundação Mário Soares. Pasta: 04613.065.078. Assunto: Informa sobre a ofensiva das forças portuguesas na área de Antuane, tendo avançado até Indaliel, Banta e Bulel Samba. Lista de combatentes mortos. Destruição de uma grande quantidade de arroz e casas. Solicita opinião sobre a substituição do Guerra [Mendes] em Quinara, propõe o Saco ou o Arafam. Remetente: Marga (Nino Vieira). Destinatário: Aristides Pereira. Data: Terça, 16 de Fevereiro de 1965. Observações: Doc. incluído no dossier intitulado Correspondência 1963-1964 (dos responsáveis da Zona Sul e Leste). Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral.


[Continua…]

Nota:

Em função da extensão da presente narrativa, e como referido na introdução, darei conta na segunda parte do modo como decorreu a «Operação Gira», de que resultou a morte de 'Guerra Mendes' [Jaime Silva] e de mais alguns guerrilheiros.

Termino, agradecendo a atenção dispensada.

Com um forte abraço de amizade e votos de muita saúde.

Jorge Araújo.

27Mai2019.

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Notas do editor:

(*) Vd. poste  de 24 de maio de 2019 > Guiné 61/74 - P19822: Jorge Araújo: Ensaio sobre as mortes por afogamento no CTIG: Os três acidentes na hidrografia guineense (IV e última Parte)