sábado, 31 de agosto de 2013

Guiné 63/74 - P11996: Blogpoesia (353): Pôr-do-sol (Juvenal Amado)

1. Em mensagem do dia 28 de Agosto de 2013, o nosso camarada Juvenal Amado (ex-1.º Cabo Condutor da CCS/BCAÇ 3872, Galomaro, 1971/74), enviou-nos este poema e as fotos que se publicam


Pôr-do-Sol

A vida escorreu-nos pelos dedos
Numa sucessão de momentos únicos
Observámos a água dos rios
Idealizámos pontes entre margens
Desaguámos em mares
Ouvimos o vento
Reprimimos lamentos
Contámos estrelas
Descobrimos odores
Criámos novos passados
Outras pessoas habitam em nós
A guerra é um sítio estranho
Porque teimamos em revivê-la,
Nunca se regressa de lá.
Nesse tempo o que fomos
O que fizemos
O que lamentamos
O que éramos e que não fomos
O que esperámos
Quem esperou por nós
Neste Verão quase Outono da vida
Os olhos cansados
Insónia de todos os excessos
Relógios que somam tempo
Tempo que soma calendários
Porque esperámos demasiado
Passámos em barco contra a corrente
Extasiados e encandeados pelos pôr-do-sol
Sentamo-nos,
E ficamos à espera do tempo que nunca virá.
É que esse tempo não existe.






Fotos: © Alf Mil Vasconcelos

Os periquitos: Sertã, Ivo, Passos, Leo, Canário e Amado, a caminho do Regala
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Nota do editor

Último poste da série de 14 DE AGOSTO DE 2013 > Guiné 63/74 - P11938: Blogpoesia (352): Três poemas recentes de J. L. Mendes Gomes: A minha bicicleta; O meu netinho Tomás; Contemplação da noite...

Guiné 63/74 - P11995: Os nossos seres, saberes e lazeres (54): Passagens da sua vida - 7000 milhas através dos Estados Unidos da América (2) (Tony Borié)

1. Em mensagem do dia 24 de Agosto de 2013, o nosso camarada Tony Borié (ex-1.º Cabo Operador Cripto do Cmd Agru 16, Mansoa, 1964/66), enviou-nos o segundo episódio da sua viagem/aventura de férias, num percurso de 7000 milhas (sensivelmente 11.265 quilómetros) através dos Estados Unidos da América.




...7.000 milhas através dos USA -2

"Companheiros de jornada”, ainda se lembram do que passou no último dia?
Pois cá vai o resumo do segundo dia.

Manhã cedo, depois de tomar iogurte, sumo de laranja, café e uns biscoitos, a normal medicina acompanhada de um pouco de fruta de banana com água, seguimos em direcção ao norte, atravessando por um pequeno período de tempo o Estado de Arkansas, onde não parámos, pois não estava no nosso roteiro. Passámos por algumas povoações rurais, longas pontes sobre rios, pântanos e terras alagadiças, chegando ao Estado de Tennessee, que fica localizado na região sudeste dos USA, cuja economia é baseada na indústria de manufactura, serviços financeiros e imobiliários, turismo e agricultura.

Muito do actual Tennessee, durante o período da colonização britânica da região das “Treze Colónias”, fazia parte do actual Estado da Carolina do Norte, sendo a região mais ocidental das antigas “Treze Colónias” britânicas, tendo inicialmente escassamente povoado, mas passou a receber muitas pessoas a partir da década de 1750. O Tennessee, por causa da cordilheira de montanhas do “Apalache”, era isolado do restante território da Carolina do Norte. Dizem que após o reconhecimento da independência dos Estados Unidos, por parte do Reino Unido, em 1783, os habitantes da região pediram a separação daquele território do actual Tennessee do restante da Carolina do Norte. Assim sendo, o Tennessee separou-se da Carolina do Norte, tornando-se o 16.º Estado Norte Americano, em 1796.

O nosso objectivo principal no Tennessee, era visitar a cidade de Memphis, que dizem que é a 20.ª cidade mais populosa dos USA, e que se destaca no seu âmbito cultural, sendo considerada uma das três cidades mais importantes da música norte-americana, juntamente com Nova Orleães e Nashville, ficando famosa por ser ali casa de Elvis Presley entre 1948 e 1977.

Nós, e talvez muitos milhares de jovens do tempo do Tony, que com toda a certeza são muitos de vocês, apreciámos o Elvis Presley, pois além de ser um grande cantor, músico e actor, até lhe chamavam o “King of Rock and Roll”, que foi um estilo de música, que na nossa opinião era um conjunto de estilos onde existia “pop”, “blues”, “gospel” e talvez mais, que transmitia algo, tanto na letra como nos movimentos, que até àquela altura quase ninguém conhecia, mas todos nós sabemos que marcou uma geração.

Como ser humano, na nossa opinião, sempre assumiu as suas responsabilidades, lutando e ajudando muitas causas, pelo menos na região onde nasceu, a localidade de Tupelo, no Estado do Mississippi, que também visitámos, pois só com a idade de 13 anos, passou a viver em Memphis, no Estado de Tennessee, para onde a sua família se mudou por razões de sobrevivência.


Lembram-se que por altura de 1958 chegou a fazer parte do exército dos USA, chegando a estar estacionado na Europa, e que uns anos antes tinha sido o principal protagonista do célebre filme “Love Me Tender”, onde interpreta o papel do irmão mais novo dos quatro irmãos “Reno”, que era o Clint Reno, que ficou em casa a cuidar da sua mãe e da fazenda da família, enquanto os irmãos mais velhos, Vance, Brett e Ray, lutavam na Guerra Civil Americana, para o Exército Confederado. A família é erradamente informada que o irmão mais velho Vance, é morto no campo de batalha. Depois de quatro anos de guerra, os irmãos voltam a casa e descobrem que a Cathy, que era a namorada e noiva do irmão mais velho Vance, está casada com o irmão mais novo Clint, que sem qualquer preconceito se tinha apaixonado pela noiva do irmão mais velho. Uma das mensagens transmitida nesse filme, era aquele jovem que estava sempre revoltado com tudo o que não fosse de acordo com a sua ideia de estar no mundo, o que acontecia com muitos de nós naquele tempo.

Como dizíamos, lembram-se vocês do nosso tempo de jovens, em que o “Elvis” marcou a época?

Queríamos ver a sua mansão, a que chamam “A Graceland”, património da família Presley, hoje transformada em museu, e que é visitada por mais de 600 mil pessoas ao ano.


Assim aconteceu, cruzámos a fronteira, a cidade acolheu-nos e depois de percorrer algumas ruas, deparámos com a mansão do Elvis Presley. Era tal e qual como nos filmes de Hollywood, estava lá, fizemos o “tour”, vimos a sua casa, os seus retratos, a roupa que ele usava, as centenas de discos de ouro que conquistou ao longo da sua carreira, os seus dois aviões, um deles, o mais pequeno, que ele usou para levar a sua filha a ver a neve no estado do Colorado, dizem que a menina lhe pedia para ver a neve, e ele já bastante ocupado com os seus espectáculos em Las Vegas, um dia levantou voo daqui e foi ao Colorado, aterrou, deixou a filha calcar a neve por uns minutos e voltou de novo a Las Vegas para continuar com a sua exibição. Talvez devido ao esforço despendido, sem intervalos para se restabelecer, querendo cantar e agradar a todos, tivesse começado a usar algo que o havia de levar à morte, ainda um jovem, pois tinha somente 42 anos. Os seus carros, a piscina, os anexos onde se divertia cantando ou brincando com a sua família, o local onde dizem que está sepultado, tudo o que a ele dizia respeito, estava lá, para que todos possam apreciar. E o Tony viu mesmo cenas de pessoas chorando ao verem este local, que mais parece um local de peregrinação.

Com o coração cheio de saudade do Elvis Presley, rumaram em direcção ao norte pela estrada número 55, que os havia de levar a St. Louis, no Estado de Missouri, que é cortado pelos rios Mississippi e Missouri, sendo este último o que lhe deu o nome. O cognome do Missouri, é “Mother of the West”, a mãe do oeste, e foi adquirido pelos Estados Unidos na “Compra da Louisiana”, em 1803, e à medida que o país passou a expandir-se em direcção ao oeste, o Missouri passou a ser uma das principais escalas dos migrantes, tornando-se no 24.º Estado norte-americano em 1821.

Naquele tempo, a indústria agro-pecuária do Missouri fazia grande uso do “trabalho escravo”, e dizem que apesar da maioria da população do Estado ser a favor da secessão e da união do Missouri com os Estados Confederados da América, este Estado permaneceu ao lado dos Estados Unidos durante toda a guerra civil.

Como dizíamos, parámos e fomos admirar a cidade de St. Louis, que foi fundada em 1764, por Pierre Laclède e Auguste Chouteau, em nome de Louis IX que foi rei de França. Depois da “Compra da Louisiana”, passou a ser o maior porto do rio Mississippi, a sua população expandiu-se e depois da guerra civil Americana, chegou a ser a quarta maior cidade dos Estados Unidos no século dezanove. Tem um monumento, o “Gateway Arch”, junto ao rio Mississippi, que é conhecido como o “Gate to the West”, ou seja a porta para o oeste, é um grande arco, construído em aço pelo arquitecto finlandês Eero Saarinen em 1947, e é considerado o mais alto monumento dos Estados Unidos, pois avista-se a milhas de distância. No seu pedestal, tem um museu com motivos do oeste, e exemplifica o que os emigrantes faziam e usavam a caminho do oeste, depois de terem viajado, talvez por anos, no rio Mississippi, vindos dos portos de Boston, New York ou Philadelphia, que depois de saírem de St. Louis, levavam outros tantos anos a chegar à Califórnia, ou mesmo ao sul, viajando pela “Santa Fé Trail”, que também era conhecida pelo “Caminho Real”, que era um caminho que os levava às regiões do sul, junto à fronteira do México.

O Tony e a sua companheira e esposa, não queriam abandonar este local, tem fascínio, tem história e em cada local faz nascer lembranças, o rio está lá, a correr em direcção ao sul, naquela curva a água pára, faz um remoinho, a lembrar-nos que era ali que as pessoas ficavam andando em redor umas das outras depois de desembarcarem, não sabrndo qual a direcção que tomariam. Sabiam só que iam à aventura, por anos, percorrendo caminhos selvagens, construindo os seus próprios utensílios, carros rudimentares, que com a ajuda de animais, viajavam, nasciam filhos que chegavam já grandes ao local de destino, quando havia destino.


Já ao fim da tarde, rumaram a oeste, despediram-se de St. Louis, e tomaram a estrada número 70 em direcção a Kansas, e ao anoitecer dormiram numa cidade com o nome St. Charles, ainda em Missouri.

Tony Borie,
Agosto de 2013.
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Nota do editor

Primeiro poste da série de > 24 DE AGOSTO DE 2013 > Guiné 63/74 - P11972: Os nosssos seres, saberes e lazeres (53): Passagens da sua vida - 7000 milhas através dos Estados Unidos da América (1) (Tony Borié)

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Guiné 63/74 - P11994: Furriel enfermeiro, ribatejano e fadista (Armando Pires) (9): Um reencontro para agasalhar a idade

1. Em mensagem de hoje, 30 de Agosto de 2013, o nosso camarada Armando Pires (ex-Fur Mil Enf.º da CCS/BCAÇ 2861, Bula e Bissorã, 1969/70) conta-nos como reencontrou o seu camarada Vilas Boas que o acompanhava, mais o João Rebola, nas suas "actuações" em Bissorã.

Camarada e Amigo Vinhal.
Sei que o Luís Graça está de férias. Mas não sei, quando ele está de férias, como se faz chegar material para o nosso blog. É que tenho um história breve de um feliz reencontro, que gostava fosse, caso fosse também essa a vossa concordância, publicada.
[...]
Um grande abraço do
Armando Pires


Furriel enfermeiro, ribatejano e fadista (Armando Pires)

9 - Um reencontro para agasalhar a idade

Mais um reencontro para agasalhar a idade. Estava eu posto em sossego e chama-me o João Rebola para perguntar:
- Ó Pires, sabes quem está aqui?

A pergunta foi feita através desse prodígio da comunicação chamado Skype. Sabem os que sabem, quem não sabe fica a saber que é um software que podemos instalar no computador, e que nos permite falar com qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo, e, o melhor de tudo, estar a vê-la do outro lado.

Pois o Rebola, nosso camarada tabanqueiro, chamou por mim no Skype e fez-me a tal pergunta. Disse-lhe que não fazia ideia, ele chamou para o seu lado um rapaz da nossa idade, cabelos grisalhos e farto bigode, e fez nova pergunta:
- Sabes quem é este gajo?

Eu pressenti que era alguém da tropa, da nossa tropa, que estivera connosco na Guiné, mas não conseguiu chegar lá.

- É pá, peço muita desculpa mas não sei quem é?

- Ó Pires, é o Vilas Boa, pá!

O Vilas Boas, imaginem, um rapaz de transmissões que pertenceu à CCAÇ 2444, a companhia do Rebola, que já estava em Bissorã quando a minha companhia lá chegou, que tocava lindamente viola, que fazia parelha com o Rebola, acompanhando-me a cantar o fado, nas noites de sábado em que o bar de sargentos da minha companhia se enchia de militares e civis a jogarem o bingo e. a ouviram cantar o fado, acompanhado à viola pelo João mais o Vilas Boas.

A fotografia desses momentos já por aqui passou, já foi, até, publicada no nosso blog mas eu recupero-a hoje aqui, para vocês verem o antes e o depois. Mas sobretudo, e esta é a finalidade da comunicação que aqui vos faço, para assinalar o meu reencontro com o Vilas Boas, quarenta e três (43!!!) anos depois de nos termos separados.

Claro que o reencontro deu-se por imagem, através do Skype, como já disse, mas não deixou de ser um reencontro. Porque nos vimos e ouvimos. Só faltou um abraço, um abraço físico, que ficou para um não tarda nada.

E eu, esse momento em que nos estávamos a ver e a falar no computador, também o registei.
Fica aqui esse momento. E, como disse, o outro, o do passado.
Para que me possam acompanhar na alegria sentida do antes e do depois.

Ontem, em Bissorã. À esquerda o João Rebola, à direita o Vilas Boas, ao meio, com sentimento, eu a cantar.

Hoje, nós a falarmos no Skype. À esquerda o Vilas Boas, á direita o João Rebola, eu, escondido no canto inferior direito.
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Nota do editor

Último poste da série de 24 DE AGOSTO DE 2013 > Guiné 63/74 - P11974: Furriel enfermeiro, ribatejano e fadista (Armando Pires) (8): Ainda Bula, 1969: Fotos do meu álbum

Guiné 63/74 - P11993: Notas de leitura (515): "As Ausências de Deus", por António Loja (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 13 de Maio de 2013:

Queridos amigos,
Esta reedição era de elementar justiça, não me canso de dizer que António Loja reservou para a literatura da guerra da Guiné parágrafos belíssimos, intensos, vigorosos. Foi comandante de companhia nalguns dos teatros de operações mais duros. Mejo, por exemplo. Passadas décadas desses eventos que nunca se apagam da memória, a pretexto de uma operação em ambiente hospitalar, associou ruídos a lembranças do que viveu.
O resultado é exaltante.
Os confrades têm agora à sua disposição um relato incontornável sobre as recordações irreprimíveis que transportaremos até ao fim das nossas existências.
Desejo-vos boa leitura.

Um abraço do
Mário


As ausências de Deus, por António Loja

Beja Santos

Trata-se de uma reedição há muito esperada, “As ausências de Deus” (por António Loja, Âncora Editora, 2013) faz parte do rol das obras fundamentais da literatura da guerra da Guiné. Tem parágrafos belíssimos, são trechos indispensáveis em qualquer antologia que doravante se venha a escrever sobre a guerra da Guiné em particular ou mesmo num contexto mais amplo. O autor explica o que o motivou, inesperadamente, a voltar à guerra: “Trinta anos passados sobre o fim da minha participação na guerra colonial na Guiné tinha a ilusão de que esta pertencia apenas ao meu passado. E, de repente, no pós-operatório de uma cirurgia num hospital de Coimbra, ela regressou. E de um modo obsessivo. No dia-a-dia do ambiente hospitalar o sono fez ressuscitar, nas pessoas que encontrei nos corredores, os meus companheiros de combate, os soldados europeus e africanos que lutarem ao meu lado ou contra nós, os homens, mulheres e crianças que passaram por mim na selva africana, que regressaram ligados a episódios ocasionais da vida presente e ganharam corpo na minha vivência de paciente em recuperação (…) São essas recordações que, naquele ambiente hospitalar, decidi passar para o papel”.

Em 1966, António Loja foi chamado pela terceira vez a prestar serviço militar obrigatório, rumou para a Guiné, no comando de uma companhia de infantaria, deram-lhe um teatro de operações entre os mais ásperos. O dever de memória surgiu assim, inusitadamente: “O ruído do motor de um frigorífico, numa sala vizinha do corredor onde, no hospital, faço a minha caminhada diária, levou-me de repente a recordar o motor da LDG (lancha de desembarque grande) que, diretamente do Uíge, nos transportou de Bissau para Buba. Fomos transferidos para a lancha de desembarque e, através do que nos parecia um impenetrável e complicado labirinto de rios e canais naturais, depois de algumas horas de navegação, com o sol alto, cerca de uma hora da tarde, chegámos a Buba”. Assim, a frio, logo atirado para a guerra, picar a estrada, fazer a conferência de material, visitar o chefe religioso do Forreá, Cherno Rachide.

A prosa de António Loja pauta-se pela intensidade com que transmite as emoções, em vez de brunir aquelas expressões que ornam a brutalidade dos acontecimentos, é seco e remete para os seus sentimentos toda a explosão de dor, é como se o leitor se condoesse da sua reação ao invés do sofrimento alheio, assim: “Não teve tempo de dizer-me que havia uma mina na picada porque, na certeza enganosa de que o terreno que antes calcara estava livre, colocou o pé sobre outra, que já tinha passado sem notar e que explodiu com violência. Mamadú ficou desfeito, literalmente, em pedaços espalhados pela picada e escorrendo de ramos das árvores; e Abdulai, que vinha logo atrás, foi apanhado por um estilhaço que o atingiu na parte superior do tórax. Deu dois passos na minha direção, dizendo: 
- Ai, meu capitão! Meu capitão!

De um buraco abaixo da clavícula jorrava, a cada batida do coração, um repuxo de sangue que me atingiu a cara, os óculos e me escorreu para o nariz e para a boca. Sustentei-o debaixo dos braços e pousei-o devagar sobre as folhas das árvores, no meio da picada, enquanto toda a companhia assumia posições de defesa. Nunca consegui esquecer o sabor do sangue ainda quente e o cheiro adocicado e logo nauseabundo que me invadiu as narinas. Disse-lhe uma mentira piedosa: 
- Vem aí o enfermeiro. Vais ficar bem! Já mandei vir o helicóptero…

Espero que ele tenha acreditado, nos breves segundos que levou a morrer. Só que na morte não há breves segundos. É um tempo sem relógio. É toda a eternidade de um fim que parece nunca chegar. Morreu a esvair-se em sangue que ninguém poderia estancar. O que recordo com horror é a minha reação seguinte: ainda ajoelhado junto dele, inclinei-me para o lado e vomitei, de um modo incontornável, ali a dois passos do cadáver do meu camarada”.

Para quem está no pós-operatório, aquela volta à guerra é irreprimível: comunicar a um pai africano que aquele estrondo que ele ouviu há pouco foi a explosão que lhe matou o filho; ver os africanos a não aceitar as fronteiras traçadas por portugueses e franceses, quem foi atacado do lado de cá sente-se no direito de atacar a sua gente do lado de lá, matar, matar até que aprendam com a lição, não compreende essa linguagem dos incidentes diplomáticos; recordar uma menina cheia de vida a quem dera um brinquedo e que ele, depois de uma flagelação, foi encontrar esvaído em sangue, apertando na mão o brinquedo que ele lhe oferecera…

O medonho da guerra é por vezes um relato entre a incredulidade, o bizarro e a extrema inocência, como o autor recorda: aqueles dois amigos que andaram juntos na escola, que foram recrutados no mesmo ano, destacados para a mesma unidade, quase dois gémeos típicos que caíram juntos e que depois foram enviados às suas famílias em dois caixões que viajaram no porão do mesmo navio e que depois foram enterrados no mesmo cemitério, nos arredores de Barcelos; as confidências do Francisco, o condutor do rebenta-minas, que vai casar dentro de dois meses e que deixou de sentir tesão, houve urgência em tomar medidas para combater o stresse; o Roncolho, um herói improvisado que um dia gritou “ai minha mãe!” lá numa emboscada e a quem o capitão teve de dar uma estalada e que estupidamente morreu na véspera da partida, atropelado para os lados do aeroporto de Bissau. A tudo isto juntam-se as queixas da dobrada liofilizada, dos coronéis incapazes, daquele aviador que durante uma operação achou que não devia almoçar em Mejo e o alferes disse ao cabo Chico para pegar numa metralhadora e caso o helicóptero levantasse lhe desse uma rajada das grossas.

Recordações em noites sem sono, naquele doente a insónia ou os medicamentos fizeram-no regressar ao passado: “Carregamo-lo connosco e basta uma pequena faísca para provocar a grande explosão. Depois, é como um filme antes da montagem. Por vezes as cenas desenrolam-se numa sequência lógica, outras de modo caótico ou pelo menos disperso, sem nexo aparente ou com um nexo difícil de discernir”.

É este o prodígio da trama de “As ausências de Deus”, que vitoriam os que conseguem dar um pontapé na morte, estão para além de qualquer convalescença, há memórias da guerra colonial que não se apagam, de Mejo a Guileje a vida era um desassossego, entre minas e emboscadas, e depois aos poucos o convalescente sente a memória suavizar, porque a recuperação foi dura: “Pago uma prestação cada vez que me dirijo ao hospital para mais uma sessão de radioterapia” é um pagamento duro, o paciente lembra um grande escritor, Thornton Wilder, que escreveu: “Será que para Deus nem a pena de um pássaro cai sem que Ele o permita; ou, pelo contrário, Deus dispõe das nossas vidas com a indiferença com que uma criança mata moscas num dia de Verão?”.

O autor, tal como estivesse em Mejo, reclama desabridamente: ou será que Deus não existe, ou, numa versão menos radical, se ausentou, deixando-nos entregues a nós mesmos?

Livro inesquecível, qualquer que seja a guerra que levamos em nossos dias.
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Nota do editor

Último poste da série de 26 DE AGOSTO DE 2013 > Guiné 63/74 - P11980: Notas de leitura (514): "Misiones en Conflicto, La Habana, Washington y África, 1959-1976", por Piero Gleijeses (2) (Mário Beja Santos)

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Guiné 63/74 - P11992: Efemérides (140): 8º aniversário do monumento aos combatentes da Lourinhã, 25/8/2013 (IV e última parte)


Vídeo (1' 15''). Luís Graça (2013). Alojado no You Tube > Nhabijoes ~

Comemorações do 8º aniversário da inauguração do Monumento aos Combatentes do Ultramar, Lourinhã, 25 de agosto de 2013. Organização da AVECO, com apoio da CM Lourinhã. Almoço-conívio no restaurante residencial Braga, no Vimeiro. Atuação de um camarada, ex-fuzileiro, do concelho de Peniche, interpretando o incontornável "Adeus, Guiné". Conheci este cmarada, num convívio anterior, na Atalaia. Penso desculpa de não ter aqui à mão o meu caderno de notas, donde constava o seu nome. Sei que ele passou pela Guiné, no início da década de setenta.

[O editor, ainda em férias, está na tabanca de Candoz,   sita em Paredxes de Viadores, Marco de Canavezes, na extrema com Baião e Cinfães, perto da barragem do Carrapatelo, onde não há Net que lhe valha... Teve de de ir, esta tarde à sede do concelho,  a amis de 15 km, para apanhar a "autoestrada" da Net, e assim aceder ao nosso querido blogue, neste fim de agosto, o nosso querido mês de agosto... Por aqui o céu é de bronze, devido aos incêndios. A minha homenagem aos heroicos bombeiros voluntários que têm perdido a vida, ou ficado gravemente feridos, neste verão de inferno, no cumprimento das suas missões de paz. Um abraço camarigo para todos os nossos tabanqueiros. Na próxima 3ª feira, tenho planeada uma viagem de barco, do Pocinho à Barca d'Alva, terra que ainda não conheço. (LG).]


Comemorações do 8º aniversário da inauguração do Monumento aos Combatentes do Ultramar, Lourinhã, 25 de agosto de 2013. Almoço-convívio no RestauranTe Residencial Braga, Vimeiro, Lourinhã. Um momento musical, com, uma camarada dos fuzileiros.


Comemorações do 8º aniversário da inauguração do Monumento aos Combatentes do Ultramar, Lourinhã, 25 de agosto de 2013. Almoço-convívio no RestauranTe Residencial Braga, Vimeiro, Lourinhã. Dois dirigentes da AVECO, promovendo o sorteio de uma garrafa de Aguardente DOC Lourinhã XO. Foram vendiadas váruias centenas de rifas,a  1 euro. O sorteio recaiu no nº 243. O sortudo foi o nosso editor Luís Graça que, num gesto de camarigagem, voltou a oferecer a garrafa à AVECO para novo sortieo noutra oacsião.


Comemorações do 8º aniversário da inauguração do Monumento aos Combatentes do Ultramar, Lourinhã, 25 de agosto de 2013. Almoço-convívio no RestauranTe Residencial Braga, Vimeiro, Lourinhã. Um antigo prisioneiro da Índia, o meu amigo, primo e camarada Luís Maçarico, de Ribamar.


Comemorações do 8º aniversário da inauguração do Monumento aos Combatentes do Ultramar, Lourinhã, 25 de agosto de 2013. Almoço-convívio no Restaurante Residencial Braga, Vimeiro, Lourinhã. À esquerda o meu conterrâneo e amigo, João Delgado, ex-combatente em Angola e membro da comissão "ad hoc" que construiu o monumento aos combatentes, numa altura (2005) de vacas gordas. A comissão dispôs de um verba generosa, 30 mil euros, da autarquia local. À direita, outro ex-combatente, emAngola, e que vive na Lourinhã, desde o seu regresso de África.


Comemorações do 8º aniversário da inauguração do Monumento aos Combatentes do Ultramar, Lourinhã, 25 de agosto de 2013. Almoço-convívio no RestauranTe Residencial Braga, Vimeiro, Lourinhã. O bolo de aniversário.

Fotos (e legendas): © Luís Graça (2013). Todos os direitos reservados
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Guiné 63/74 - P11991: Conversas à mesa com camaradas ausentes - Estórias da História da Guerra Colonial – Guiné-Bissau (José Martins Rodrigues) (5): Os meses seguintes até às férias na Metrópole

1. Quinto episódio da série "Conversas à mesa com camaradas ausentes", pelo nosso camarada José Martins Rodrigues, ex-1.º Cabo Aux Enf.º da CART 2716/BART 2917, Xitole, 1970/72:

A todos os ex-combatentes da Guiné
Só peço ao meu futuro que respeite o meu passado

No baú das memórias de cada um de nós existem inúmeras “Estórias da Guerra” por contar.
O convívio semanal na Tabanca de Matosinhos e o nascimento da ONG Tabanca Pequena-Amigos da Guiné a que me honro pertencer, despertaram-me para o desafio de retirar do baú as minhas “estórias da guerra”. Para ultrapassar a minha manifesta falta de jeito para a escrita, socorro-me de um método narrativo baseado na descrição cronológica de episódios, a que chamarei “Conversas à mesa com camaradas ausentes”. Do outro lado da mesa estará sentada a esperança de encontrar alguém que se reveja nas “estórias” relatadas e sinta a emoção do reencontro com realidades da nossa vivência na Guiné.


CONVERSAS À MESA COM CAMARADAS AUSENTES

ESTÓRIAS DA HISTÓRIA DA GUERRA COLONIAL - GUINÉ-BISSAU

5 – Os meses seguintes até às Férias na Metrópole

Era a época das chuvas e, estavam já inscritas nas nossas rotinas a presença diária das lavadeiras, dos “putos” dos abrigos, e as idas à Ponte dos Fulas. As saídas às tabancas e patrulhamentos, passaram a ser mais espaçadas. Devido ao isolamento provocado pelas chuvas, não eram possíveis as colunas de reabastecimento o que transformou, durante meses, o Rancho Geral numa rotina que alternava entre “vianda” com atum ou com salsichas porque, os pára-quedas que traziam os frescos eram um verdadeiro milagre. Logo pela manhã, os putos da nossa estimação encarregavam-se de que o pequeno-almoço não faltasse no momento certo. As lavadeiras tratavam as roupas com esmero e desdobravam-se na conquista da nossa simpatia. Era a luta pela sobrevivência, vista do outro lado.

Já tudo funcionava, parecia um paraíso. As primeiras grandes “pielas” não se fizeram esperar. Nuns quantos abrigos cantarolava-se ao som de uma viola e as patuscadas ditavam o fim de uns quantos frangos e cabritos. Rolavam as “bazucas” da Cristal. Lembras-te camarada? Tinhas um talento soberbo para as petiscadas. Fazias uns pitéus de hipopótamo, de vaca ou de frango que eram de chorar por mais. Bons momentos, que nos faziam esquecer as agruras da guerra. Os jogos de futebol, algumas paixonetas pelas bajudas e as idas domingueiras a banhos em Cusselinta, compunham o resto do ramalhete.

Devido à intensidade das chuvas, o caudal do Rio Corubal subiu acentuadamente. Uma noite, as sentinelas do posto da cozinha assustadas, deram o alarme. Teriam ouvido um zumbido muito intenso e que lhes parecia ser um helicóptero. Todo o pessoal ficou em prontidão, mas a presença da aeronave não se confirmou. Todos se interrogavam da origem do estranho barulho. A resposta veio pela manhã pela boca da população. O “zumbido” teria origem na força da deslocação do vento, provocado pela grande altura da vaga do Macaréu no Corubal. A pouca distância do quartel para o rio fez o resto.

Não resisto camaradas, a partilhar convosco uma “estória” singular de que fui um dos intervenientes. E quero garantir-vos que, só eu e o principal actor a conhecemos e do seu nome sempre farei reserva.
Um dia, um dos oficiais da companhia em privado no Posto de Socorros, foi-me dizendo que, como já tínhamos uns meses de comissão sentia necessidade de ter relações sexuais, de preferência longe do Xitole e, não se via, devido ao seu posto a ir à tabanca solicitar os favores sexuais de uma mulher.
Mas porquê a mim este pedido, interrogava-me eu? E logo a mim, que também estive uns meses a “seco” com medo das doenças sexualmente transmissíveis, ou não fosse eu Enfermeiro e, não soubesse das misérias de uns quantos! E acabei por entender a escolha do oficial.
Devido à minha função, respeitado pela população, entendeu ele que a mim elas não recusariam um pedido. Não era tão fácil assim mas, vestido dos meus brios e dos dotes que os outros me atribuíam, não dei o flanco e respondi:
- Vamos tentar.

Engendrei uma estratégia, que nem para mim tinha utilizado.
- Quando o senhor se deslocar às tabancas mais afastadas, eu também irei prestar assistência sanitária às populações e veremos então o que se pode arranjar.

E lá fomos um dia.
Chegados a Tangali, debaixo de um grande mangueiro no centro da tabanca, pedi que se reunissem as pessoas que necessitassem de assistência. Entre o grupo que entretanto se juntou, estava uma linda mulher, alta, de tez clara, talvez Futa-Fula com uma criança ao colo, aí pelos dois anos. Adivinhava-se-lhe uns lindos seios e um corpo escultural. Vai ser esta, pensei eu.
Propositadamente deixei-a ficar para o fim.
O “consultório” era no interior de uma das habitações próximas do mangueiro e o oficial assistia ao desenrolar das “consultas”.
Quando ela entrou, eu dei-lhe sinal de que o momento tinha chegado. Abordei a mulher e, ela pediu-me “mesinho” para a criança que estava com “panga na bariga”. Antes de continuar, solicitei-lhe que “partisse catota” com o oficial, que era “manga” de bom pessoal e que eu depois trataria muito bem o seu menino. Com alguma relutância, que sinceramente vos digo, me pareceu algo artificial, acedeu ao meu pedido.
Deixei-os a sós durante o tempo suficiente enquanto me demorava, simulando ir à viatura buscar medicamentos. Por pudor ou por respeito, eu e o oficial nunca mais voltamos a trocar qualquer palavra a propósito deste episódio.

Umas horas depois eu questionava-me? Mas que desperdício, para mim “niente”.
Bem mais à distância no tempo, não pude evitar um sentimento de repulsa por me ter prestado a esse papel. Era a guerra que tudo explicava, ou antes, que anestesiava o nosso carácter.
E o tempo ia correndo até que, um nefasto acontecimento veio empalidecer os nossos dias.

No percurso entre o Xitole e a Ponte dos Fulas existia um trilho, aí a um quilómetro do quartel, que se sabia usado pelo PAIGC e que era necessário armadilhar para se evitar que viessem colocar mais minas e atacassem o Xitole como já o haviam feito.

Uma secção, com dois furriéis especialistas em minas e armadilhas, foram encarregados dessa tarefa. Era um final de tarde e o tempo urgia antes que escurecesse. Os furriéis montavam a armadilha enquanto o resto da secção, afastada, fazia protecção. Inesperadamente, aconteceu o desastre. Um deles, completamente destroçado, teve morte imediata. O outro ficou gravemente ferido no rosto, no tórax e quase perdeu uma mão. Eram dois jovens, dois jovens com a vida e os sonhos interrompidos. Caía uma noite muito enevoada, o que não permitiu voos para a evacuação urgente do ferido muito grave.

Foi uma noite muito difícil, em que assistimos a noite inteira, minuto a minuto, ao sofrimento e à luta pela vida de um camarada e, tendo bem ao lado, o outro que havia falecido. Enquanto aceitava impotente, a impossibilidade da evacuação que insistentemente pedi, não consegui evitar as lágrimas pelo sofrimento humano a que assistia. Sempre atentos, mantivemos os procedimentos de estabilização do ferido até à evacuação, que aconteceu logo que a luz do dia o permitiu.
O nosso camarada saiu das nossas mãos com vida e assim continuou depois de tratado em Bissau e evacuado para Lisboa. Termos consciência de que a nossa acção contribuiu para salvar uma vida, enche-nos de uma imensa alegria, quase como que um hino de louvor à Vida.

Estávamos novamente na época seca. Os tempos seguintes foram de flagelações à Ponte dos Fulas e ao Xitole, levantamentos e rebentamentos de minas, patrulhamentos e Operações de grande envergadura. Destaco, pelas especiais circunstâncias as “ARRUAÇA" 1 e 2. A Operação “Arruaça 1” foi um autêntico fracasso militar.

Na progressão para SATECUTA, o PAIGC montou uma emboscada de que resultaram ferimentos nos dois guias africanos, sendo um deles com gravidade. Avisado dos feridos, desloquei-me à frente e deparei com os dois guias prostrados no chão. Logo me apercebi de que um deles não inspirava cuidados de maior, mas o outro estava esventrado e com os intestinos pousados no chão, misturados com terra e capim.
O velho guia estava estável e lúcido. No seu aportuguesado crioulo, balbuciava que ia morrer e eu tentava transmitir-lhe serenidade e a convicção de que se salvaria, embora eu próprio não estivesse convencido disso.
Em pleno mato, sob fogo do inimigo, as condições de tratamento dum caso destes, são muito difíceis. O ferido apresentava sinais de que uma bala ou um estilhaço lhe teria “rasgado” a parede abdominal. O objecto causador só parou no velho cantil esmaltado que o ferido trazia à cintura. Felizmente nenhum órgão vital fora atingido, nem mesmo os intestinos. Foi necessário retirar destes, todos os vestígios de terra e capim e repô-los na cavidade abdominal.

Já mais sereno, o guia pediu-me que ficasse com o amuleto que trazia ao pescoço e uma bolsa em pele e os entregasse à família. Confiava, como se de um testamenteiro se tratasse, que eu cumpriria o seu pedido, o que lhe garanti. Tocou-me bem fundo este gesto, que revela o quanto a natureza humana é tão frágil em momentos limite.
E o nosso velho Guia foi evacuado a partir do mato e, apesar de longo internamento em Bissau, sobreviveu. Mas, sem guias, a Companhia não tinha possibilidades de prosseguir. Bem lá do alto do avião ligeiro DO, o Comando insistia que, guiados por ele, podíamos continuar. Não foi esse o entendimento do Comandante da Companhia que, avaliando as circunstâncias, ordenou a retirada para o Xitole apesar das dificuldades de orientação que viriam a provocar a fragmentação da Companhia.

O comandante da Operação ordenaria a repetição da mesma “ARRUAÇA 2”, três dias depois. Esta Operação correu bem e cumpriu o objectivo de destruir SATECUTA.

Sem perceber como, aquando da entrada no objectivo, eu ia integrado no pelotão de assalto. Após os primeiros minutos e não havendo sinal do inimigo, começamos a incendiar o colmo dos telhados das casas. Quando as labaredas já iam altas, rebentou um fogachal medonho. Entretidos na tarefa de pegar fogo à tabanca, eu e mais dois camaradas mal tivemos tempo de nos abrigarmos atrás de uma grande palmeira que se encontrava perto de nós. Lembram-se camaradas? Um de vós lançava dilagramas, o outro disparava a sua G3 e eu, no meio de vós de cabeça bem rente ao solo.

Quando, por momentos levantei a cabeça, assustei-me com a possibilidade de os dilagramas baterem nas grandes folhas da palmeira. O perigo cercava-nos. Foi o momento em que concentrei o pensamento e senti a necessidade de, por instantes, dedicar uma breve lembrança aos que me eram mais queridos.
Até que um de vós percebe que um líquido quente lhe escorre para o pescoço e, ao passar a mão no rosto e vendo que está suja de sangue, quase entra em pânico. Foi preciso um forte abanão para te sossegar e, estando nós ainda debaixo de fogo, aconcheguei-te a mim para fazer o que fosse possível naquelas circunstâncias. Pude verificar que um estilhaço se espetou na parede do crânio na zona da orelha e que, mesmo sangrando muito, não estavas em perigo.

Temendo provocar uma situação que poderia não controlar, optei por não mexer no estilhaço e controlar a perda de sangue. Foste o único ferido, continuaste connosco até ao fim e só foste evacuado a partir do Xitole. A vinda do providencial helicanhão pôs fim àquele inferno.

A pressão sobre a Companhia era enorme. Cerca de um mês depois realizou-se a operação “CORRIDA ENTUSIÁSTICA” para o mesmo objectivo mas por diferentes percursos.
Digno de realce, foi o momento em que um helicóptero desce numa bolanha e, de surpresa, temos perante os nossos olhos o Comandante-Chefe General Spínola. Foi gratificante e moralizador sentir a sua presença e companhia durante uma parte do percurso a caminho do objectivo.

Por esta altura, o Serviço de Saúde funcionava só com dois cabos enfermeiros. O outro camarada por castigo, foi deslocado para Nhabijões/Bambadinca e para os que ficaram, sobrou uma carga excessiva de trabalho.

Lembram-se camaradas que parti para a Guiné de relações cortadas com o meu Pai. Essa situação vinha-me castigando interiormente o que, aliado ao imenso cansaço, fez-me alimentar a ideia ir à Metrópole de férias. Pretendia tentar reatar as relações com o meu Progenitor e, na companhia da família e da namorada comemorar o meu aniversário.
Um tio materno, intercedeu junto do meu Pai e conseguiu que ele aceitasse receber-me em casa. Para minha felicidade, o meu pai esperava-me no Aeroporto de Pedras Rubras. Trocamos aquele apertado abraço que me toldou a emoção até às lágrimas. O Amor falou tão alto, quanto um grito do fundo da Alma.

(Continua)

Corubal nas proximidades do Xitole

Rápidos de Cussilinta na época seca

Hora das lavadeiras, casa do Chefe do Posto e, em primeiro plano à direita, Bar do Soldado e Capelinha

Campo de futebol e pista de aterragem
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Nota do editor

Último poste da série de 22 DE AGOSTO DE 2013 > Guiné 63/74 - P11968: Conversas à mesa com camaradas ausentes - Estórias da História da Guerra Colonial – Guiné Bissau (José Martins Rodrigues) (4): Da adaptação ao Xitole, até ao baptismo de fogo

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Guiné 63/74 - P11990: "Memórias da Guiné", por Fernando Valente (Magro) (6): A invasão de Conacry

1. Continuação das "Memórias da Guiné" do nosso camarada Fernando Valente (Magro) (ex-Cap Mil Art.ª do BENG 447, Bissau, 1970/72), que foram publicadas em livro no ano de 2005:


MEMÓRIAS DA GUINÉ

Fernando de Pinho Valente (Magro)
ex-Cap. Mil de Artilharia

6 - A invasão de Conacry

No dia 23 de Novembro de 1970, Bissau ficou completamente às escuras. Não havia energia eléctrica em parte alguma.
Toda a gente ficou a pensar que o gerador tinha avariado.

Naquelas paragens, dadas as altas temperaturas que por lá se registam durante todo o ano, a energia eléctrica torna-se essencial para a maneira de viver a que os europeus estão habituados.
Sem energia o ar condicionado deixa de se fazer sentir, as ventoinhas deixam de funcionar e os frigoríficos deixam de conservar os alimentos e de refrescar as bebidas…

No dia seguinte a conversa de todos os europeus e porventura de muitos africanos era a falta de energia que se havia sentido durante a noite.

Que teria acontecido?

Começa a espalhar-se, muito em segredo, a notícia de que Bissau ficou às escuras na noite de 23 para 24 de Novembro e iria continuar sem qualquer iluminação nas noites seguintes porque se temia que os aviões MIG da República da Guiné-Conacry atacassem a cidade.
E depois começou a circular a notícia de que essa acção poderia vir a dar-se por retaliação, porquanto Conacry tinha sido atacada pelos portugueses na noite de 22 para 23 desse mesmo Novembro de 1970.
As notícias desse acto de guerra eram porém muito vagas e quando se falava nisso era muito em surdina, quase em segredo.

Resolvi saber o que se passou em concreto e sintonizei o meu rádio na frequência da Rádio Conacry. Comecei a ouvir notícias em francês que me desconcertaram, deixando-me boquiaberto com o que estava a ser divulgado nessa rádio.
E a data altura foi anunciado que o Tenente Januário dos Comandos Africanos, que eu conhecia bem, e que havia sido aprisionado em Conacry, iria relatar tudo quanto se passou.

Gravei o testemunho do Tenente Januário e o seu relato explosivo que reproduzirei mais à frente.
E comecei a tirar conclusões. A pouco e pouco, ao longo do tempo, compus um "puzzle" que julgo não andar longe do que verdadeiramente aconteceu.

A Guiné Conacry e o seu Presidente Sekou Touré, davam um total apoio ao PAIGC de Amílcar Cabral, movimento subversivo que combatia os portugueses.
Em Conacry estava instalado o Quartel-general Central do PAIGC e as suas bases na República da Guiné.
Por outro lado a oposição interna ao Presidente Sekou Touré estava continuamente aumentando e até já havia colaboração de guineenses de Conacry com os Comandos Africanos Portugueses.

Segundo Mário Matos Lemos, talvez tivesse partido dessa oposição a ideia da invasão da Guiné-Conacry.
Com efeito, Gago de Medeiros, no seu livro "Um Açoreano no Mundo", afirma que um representante da Frente de Libertação Nacional (Front National de Liberation) da República da Guiné o procurou em Genebra, em Setembro de 1967, pedindo-lhe que o pusesse em contacto com o Governo Português, o que terá acontecido.
Há quem atribua, contudo, a ideia da invasão ao Comandante Alpoim Calvão, apoiado pelo General Spínola.
Seja como for, a ideia seria invadir Conacry e colocar um Governo na República da Guiné discretamente favorável à política colonial portuguesa.

"A esse governo nada mais se lhe exigiria que a interdição das actividades do PAIGC em território da República da Guiné.
A PIDE e outros serviços secretos da Europa (franceses e alemães) mais a CIA, estabeleceram contactos. Tratava-se de saber se diversos países seriam ou não favoráveis a um golpe de estado que depusesse Sekou Touré.
Spínola avista-se com Marcelo Caetano a quem expõe a ideia, solicitando-lhe o seu acordo.
Ao que parece Caetano não ofereceu grande resistência. pondo, no entanto, o seu governo fora do assunto. O Governo Português não teria conhecimento de nada do que se viesse a passar. Reserva-se, porém, o direito de vetar o governo fantoche que seria imposto à Guiné-Conacry se dele discordasse."(*)


O receio de se poderem verificar nacionalizações por parte do governo de Sekou Touré levaram multinacionais e serviços secretos a concordarem com a invasão.
Por outro lado, o porto de Bissau e as Ilhas de Cabo Verde são considerados pelo Estado-Maior da Nato como bases estratégicas essenciais.

"Iniciam-se, então, os contactos para formação do governo fantoche a cargo da PIDE. São estabelecidas ligações com vários indivíduos dissidentes do regime de Sekou Touré e com refugiados políticos não só na Europa como em alguns países limítrofes da Guiné-Conacry.
Realizam-se várias reuniões na Europa.
Alpoim Cakvão desloca-se à Suíça a fim de participar numa dessas reuniões. A ela compareceu também Jean Marie Doré, primeiro e principal candidato a Presidente após o golpe de estado.
Doré esteve quase a ser aceite para o cargo, no entanto viria a ser posto de lado em virtude da sua conduta moral (...).
É então designado para Presidente o Coronel Diallou (ex-sargento do exército francês) pois oferecia maiores garantias que o anterior.
Escolhido o novo gorverno havia que arranjar os executores do golpe de estado.
Paralelamente às negociações com os políticos, os serviços secretos estabeleceram contactos com mercenários e refugiados da Guiné-Conacry que se encontravam em países fronteiriços.
Duas camadas de refugiados foram recrutadas: os dissidentes por motivos ideológicos e políticos e os que apenas tinham motivos raciais.
Uma vez contactado um número bastante elevado de indivíduos, navios de guerra portugueses foram às águas territoriais de vários países vizinhos, nomeadamente à Gâmbia e Serra Leoa, durante a noite, buscar grupos de indivíduos recrutados pelos contactos locais da PIDE, dispostos a participar no golpe. Uma vez recolhidos pelos navios da Armada Portuguesa foram transportados para a ilha de Soga no arquipélago de Bijagós, onde seriam treinados por um grupo de oficiais portugueses, à frente dos quais estava o Comandante Rebordão de Brito."(*)


Anteriormente, com vários meses de antecedência, haviam sido construídas instalações para albergar este pessoal.
Esta ilha de Soga foi escolhida por se ter considerado ser um lugar bastante discreto onde se podia realizar o treino do pessoal sem dar nas vistas.
Na ilha de Soga vieram juntar-se aos mercenários e dissidentes de Sekou Touré, num total de 200 homens, mais 220 militares do Exército e Marinha Portugueses.

"A invasão de Conacry veio a receber o nome de código de «Operação Mar Verde».
Esta operação foi planeada com mais de um ano de antecedência e para ela contribuiram investimentos estrangeiros.
O ojectivo político da operação era a substituição do regime de Sekou Touré por um regime não favorável ao PAIGC e simultâneamente favorável às multinacionais e aos interesses estrangeiros na Guiné Conacry."
(*)
E favorável aos interesses de Portugal com interdição das actividades do PAIGC. Os objectivos militares da operação eram os seguintes, de acordo com uma entrevista dada ao Diário de Notícias, em 22 de Novembro de 2000, por Alpoim Calvão:

Em primeiro lugar destruir o Quartel-General Central do PAIGC. Não se tratava de eliminar os seus dirigentes, mas aprisioná-los se possível.
Em segundo lugar libertar os prisioneiros portugueses que se encontravam em Conacry.


Em terceiro lugar destruir as vedetas e embarcações do PAIGC e da República da Guiné que estivessem no Porto de Conacry.
O quarto objectivo militar era a neutralização da aviação que se encontrasse no aeroporto.
Finalmente, o quinto e último objectivo da Operação Mar Verde era proporcionar o desembarque em Conacry dos elementos do "Front National de Liberation", opositores de Sekou Touré, que acompanhavam os portugueses na referida operação.


Durante a tarde do dia 20 de Novembro de 1970, o General António de Spínola, acompanhado do Comandante Alpoim Calvão, Capitão Almeida Bruno e Luciano Bastos, na altura Comandante Naval da Guiné, dirige-se à ilha de Soga, onde a bordo de um dos navios faz uma exortação aos Comandos Africanos, com viata à acção que iriam empreender.
Esta exortação, em português, é traduzida para crioulo pelo capitão de raça negra João Bacar Jaló (que eu conheci também).


Após o jantar, no mesmo dia 20, os navios Oriane (barco patrulha) [LFG-Orion], Cassiopeia (barco patrulha) [LFG], Dragão (barco patrulha) [LFG], Bombordo (barcaça de desembarque) [LDG-Bombarda] e Montante (barcaça de desembarque) [LDG] [e ainda a LFG-Hidra] zarpam para o largo de onde tomariam o rumo de Conacry.
A bordo de um dos navios, Alpoim Calvão comandaria todas as operações.
Embarcaram também nesse navio o Tenente Januário, Zacarias Saiegue [Saiegh] e Marcelino da Mata, todos de raça negra.

Noutros navios seguem, além da Companhia de Comandos Africanos (com o Major Leal de Almeida e o Capitão Bacar), um destacamento de fuzileiros especiais também africanos, o governo do Coronel Diallou e os grupos de combate compostos por dissidentes e refugiados do regime de Sekou Touré, bem como uma força de mercenários.
Durante todo o tempo que durou a operação, Alpoim Calvão teria estado em contacto rádio com o General Spínola.

À uma hora e trinta minutos de 22 de Novembro de 1970 Spínola terá enviado para Lisboa uma mensagem rádio dando por iniciada a Operação Mar Verde.
A essa hora desembarcaram em Conacry a Companhia de Comandos Africanos, o Destacamento de Fuzileiros Especiais e o Grupo de dissidentes e mercenários.

"Os 220 militares do Exército Português e da Marinha e os cerca de 200 militares do Front National de libération, chegaram nessa noite a ter o controlo quase completo da capital da República da Guiné.
Destruiram as vedetas rápidas da Marinha Guineense e do PAIGC, assegurando o domínio do mar.
Atingiram a central eléctrica, deixando a cidade às escuras, ganhando maior efeito de surpresa.
Tomaram a prisão «La Montaigne», libertando 26 militares portugueses lá detidos.
Destruiram cinco edifícios do PAIGC, eliminando sentinelas e militares que estavam nas imediações, mas Amílcar Cabral não foi encontrado.
Na ânsia de encontrar o Presidente Sekou Touré e de o eliminar, revistaram o Palácio Presidencial, abandonado pela guarda, aterrorizada com o ataque e tomaram a residência secundária do Presidente, mas Touré não estava em nenhum dos locais.
Ocuparam ainda o Quartel da Guarda Republicana e o Campo Militar Samory, destruindo viaturas e originando centenas de baixas... Penetraram na base militar, mas os caças MIG tinham sido enviados para outro local.
Obtido o quase total domínio em terra, as forças portuguesas e da oposição guineense não conseguiram o domínio do ar"
(**)

Mas houve outros acontecimentos que correram francamente mal.
Uma vez em terra, o Tenente Januário com o seu grupo de 20 homens, que tinha por objectivo a destruição dos MIG, deserta.
Por seu lado, Zacarias Saiegue [Saiegh] e o seu grupo não conseguiram tomar a estação de rádio, de onde devia ser feita uma exortação ao país pelo Coronel Diallou e a proclamação da destituição de Sekou Touré.

"Alpoim Calvão ao tomar conhecimento do falhanço da não tomada da estação de rádio e sabedor que os MIG não estavam no aeroporto, ordena a retirada levando os militares portugueses libertados. O Coronel Diallou, Presidente indigitado para a República da Guiné retira, também, abandonando os seus homens à sua sorte.
Às 9 horas e 15 minutos de 22 de Novembro de 1970 o Presidente Sekou Touré faz na rádio uma comunicação em que afirma que a situação se encontra normalizada e diz estarem ainda à vista os navios do invasor colonialista, o que era factualmente verdade."
(*)

(*) - Jornal Expresso de 3 de Janeiro de 1976
(**) - José Manuel Barroso. Diário de Notícias de 22 de Novembro de 2000.

(Continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 21 DE AGOSTO DE 2013 > Guiné 63/74 - P11963: "Memórias da Guiné", por Fernando Valente (Magro) (5): Os movimentos subversivos

Guiné 63/74 - P11989: Resumo dos Factos e Feitos Mais Importantes da CCAÇ 3476 - "Bebés de Canjambari" (4): Capítulo II - DEZ72/JUN73 (Manuel Lima Santos)




Conclusão da publicação do Resumo dos Factos e Feitos Mais Importantes da CCAÇ 3476 - "Bebés de Cajambari", enviado pelo nosso camarada Manuel Lima Santos (ex-Fur Mil Inf.ª nesta Companhia açoriana que esteve em Canjambari e Dugal, nos anos de 1971 a 1973.





CCAÇ 3476
BEBÉS DE CANJAMBARI

RESUMO DOS FACTOS E FEITOS MAIS IMPORTANTES

CAPÍTULO II

ACTIVIDADES MAIS SIGNIFICATIVAS NO TO DA GUINÉ

DEZEMBRO DE 1972

De 06 a 08 – A CART 3332, na presença do CMT e do Oficial de Minas da CCAÇ 3476, procedeu ao levantamento das minas implantadas ao longo do Rio Mansoa, entre Jugudul Com e Fanho.

Em 16 – Concluída a instrução de actualização do Pel Mil 228 (Chugué), que ficou adido a esta CCAÇ

Em 20 – Início do funcionamento do Centro Cripto do Dugal construído por esta CCAÇ. Foram também rapidamente introduzidos muitos melhoramentos nas instalações extremamente deficientes do Aquartelamento do Dugal, por exemplo a criação dum Gabinete de Comando e construção dum quarto para Oficiais, então inexistente, a ampliação de balneários das praças e casernas sem o que não seria possível instalar o pessoal.

De 23 a 26 – Período de prevenção, tendo a actividade das NF sido intensificada com prolongamento das emboscadas até de madrugada e patrulhamentos constantes.

Em 30 – Visita de S.Exa o General Comandante-Chefe ao destacamento do Chugué, desta CCAÇ.


JANEIRO DE 1973

Dias 01 e 02 – Intensificou-se toda a actividade operacional das NF, reforçadas de outras Unidades.

Em 03 – Visita ao Dugal de S. Exa o General Comandante-Chefe, tendo-se deslocado para o efeito em automóvel, falando às tropas e seguindo depois para Mansoa.

Em 04 – Visita ao destacamento de Fatim de S.Exa o General Comandante-Chefe, que se deslocou em helicóptero, tendo também falado às tropas.

Em 20 – Começou a funcionar o Posto Sanitário do reordenamento de Changue Bedeta, com enfermeiro desta CCAÇ. 

Em 21 – Concluídos os trabalhos de melhoria geral do sistema defensivo.

Em 30 – Início do funcionamento do P.S. do reordenamento de Jugudul com um enfermeiro desta CCAÇ. Os postos sanitários do Subsector, que se encontravam encerrados, começaram assim a justificar a sua construção. Verificou-se desde logo larga afluência da população para receber tratamento em ambos os postos.


FEVEREIRO DE 1973

Em 10 – Fim da instrução de actualização do Pel Mil 229 (Fanho), adido a esta CCAÇ.

Em 12 e 13 – Prolongamento de toda a actividade Operacional das NF, com carácter de continuidade.

Em 19 – Início do lançamento do futuro Campo de Minas que irá, do rio Mansoa ao Geba, passando ao lado do Dugal, de Fanhe e do Chugué, tendo apenas passagens nessas três localicades.
Em 20 – Concluídas outras obras necessárias nos Aquartelamentos desta CCAÇ – um paiol (inexistente), postos de vigilância, balneários nos destacamentos, cantinas e salas do Soldado nos destacamentos.


MARÇO DE 1973

Em 05 – Seguiram para Pelundo a fim de receberem instrução militar 05 naturais do Chugué, que pela primeira vez deu voluntários, abrindo boas perspectivas para a futura constituição de 01 Pel Mil de naturais da região e dando seguro indicio da aproximação das populações às NT.

Em 14 – Visita do Coronel Adido Militar à Embaixada Britânica em Lisboa, aos reordenamentos e à acção psico-social do nosso subsector, acompanhado do Coronel Chefe do Estado Maior do Com-Chefe, do CMDT Geral das Milicias, do Chefe da Rep. Acap. e do CMDT desta CCAÇ, tendo visitado também os Aquartelamentos do Dugal e Fatim.

Em 20 – Visitaram a Companhia o Chefe da Sec. Pop. do Com-Chefe acompanhado de oito Oficiais do Com. Chefe e do BENG 447 para fazerem a marcação do terreno para a construção do Posto Sanitário de Fatim e da Casa Comercial de Changue Bedete, destinada à Soc. Com. Ultramarina, conforme despacho de S. Exa o General Comandante-Chefe. Contratado pessoal balanta, foram iniciados em força os trabalhos.


ABRIL DE 1973

Em 19 - Continuação dos trabalhos de abertura do furo artesiano em Changue Bedeta com mais de 100 metros de profundidade. Depois de instalada uma bomba e um reservatório, a população terá água no reordenamento. Logo a seguir foram iniciados os trabalhos no reordenamento de Jugudul Com/Cadé.

Em 20 – Recebida MSG do Com-Chefe do seguinte teor: “Regista-se bom ritmo trabalhos reoordenamentos Changue – Subal, Fatim e Changue – Bedeta”.

Em 25 – O Posto Sanitário de Fatim, construído por nossa iniciativa, em pouco mais de quinze dias, foi concluído nesta data, tornando muito boa a cobertura Sanitária do Subsector, sendo mais uma forma de aproximar as populações, cuja adesão tem sido crescente.

Em 27 – Foi recebida nova MSG do Com-Chefe em que se salienta o bom ritmo dos trabalhos dos reordenamentos.


MAIO DE 1973

Em 05 – A apreciação da actividade Oper. N.º 17/73 refere: “Regista-se bom ritmo trabalhos reordenamentos Changue – Subal/Fatim e Changue – Bedeta”.

Em 07 – Inicio do IAO do Pel Mort 4581/72, que veio render neste sector o Pel Mort 3032. Para Director da Instrução foi nomeado o CMDT desta CCAÇ. 

Em 11 – Recebida nova MSG do Com-Chefe a salientar o bom ritmo dos reordenamentos.

Em 20 – Conclusão da Casa Comercial de Changue – Bedeta. Foi entretanto recebida mais uma MSG do Com-Chefe a salientar o nosso trabalho nos reordenamentos, em fase de conclusão. A Casa Comercial é obra de certa envergadura (8 divisões) e concluiu-se dentro dos prazos estipulados.

Em 26 – O CMDT desta CCAÇ foi nomeado pelo Exmo CMDT do COP 8, por conveniência de serviço, para comandar uma escolta a Farim, com 02 Grupos de Combate da CCAÇ 3414, seguindo também uma secção da COMP, constituída por voluntários.


JUNHO DE 1973

Em 01 – Apresentaram-se na COMP para substituição de elementos do Pel Mort 3032, 01 Furriel e 10 Praças do Pel Mort 4581, concluída a IAO que tiveram em Nhacra e no Dugal.

Em 03 – Marcharam para Nhacra os componentes do Pel Mil 3032, para seguirem no dia seguinte para Bissau, para aguardarem embarque, por fim de Comissão. O Pel Mort 3032 esteve adido a esta CCAÇ embora tivesse a maior parte do seu efectivo em Nhacra, junto da CCAÇ 3477.

Em 06 – Visitou este Subsector o jornalista Leonel Borralho, redactor-Chefe da “Gazeta Macaense” e correspondente da United Press do Extremo Oriente, fez uma extensa reportagem dos reordenamentos, para posterior publicação em jornais portugueses e estrangeiros.

Em 10 – Visitou o Subsector e em especial os reordenamentos um grupo de alunos do Liceu e Escola Técnica de Bissau, membros do Círculo de Estudos Ultramarinos.

Em 27 – Por despacho de S.Exa o Brigadeiro Comandante Militar, foram agraciados com a Medalha Comemorativa das Campanhas das Forças Armadas Portuguesas os Oficiais, sargentos e Praças desta COMP que estão dentro das condições da sua atribuição.

Em 30 – O Com-Chefe transmitiu às Unidades que tomaram parte nos reordenamentos na época seca 72/73, que agora termina, o seu alto apreço pelo trabalho realizado. No que respeita a esta CCAÇ foi feita a seguinte apreciação: ”há a assinalar o trabalho realizado pela CCAÇ 3476, não pelo seu volume em si, mas pela sua especialização (Posto Sanitário de Fatim, portas e janelas de Changue Bedeta e Casa Comercial), sendo de salientar a acção do Sr. Comandante de Companhia, Cap. Rangel e do Alf. Domingos.

(FIM)
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Nota do editor:

Postes da série de:

16 DE AGOSTO DE 2013 > Guiné 63/74 - P11946: Resumo dos Factos e Feitos Mais Importantes da CCAÇ 3476 - "Bebés de Canjambari" (1): Capítulo I (Manuel Lima Santos)

20 DE AGOSTO DE 2013 > Guiné 63/74 - P11959: Resumo dos Factos e Feitos Mais Importantes da CCAÇ 3476 - "Bebés de Canjambari" (2): Capítulo II - OUT71/ABR72 (Manuel Lima Santos)
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24 DE AGOSTO DE 2013 > Guiné 63/74 - P11973: Resumo dos Factos e Feitos Mais Importantes da CCAÇ 3476 - "Bebés de Canjambari" (3): Capítulo II - MAI72/NOV72 (Manuel Lima Santos)

Guiné 63/74 - P11988: Parabéns a você (619): António Barbosa, ex-Fur Mil Cav do Pel Rec Panhard 1106 (Guiné, 1966/68) e José Manuel Corceiro, ex-1.º Cabo TRMS da CCAÇ 5 (Guiné, 1969/71)

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Nota do editor

Último poste da série de 27 de Agosto de 2013 > Guiné 63/74 - P11984: Parabéns a você (618): Jaime Machado, ex-Alf Mil Cav, CMDT do Pel Rec Daimler 2046 (Guiné, 1968/70)

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Guiné 63/74 - P11987: Efemérides (139): 8º aniversário do monumento aos combatentes da Lourinhã, 25/8/2013 (Parte III)



Comemorações do 8º aniversário da inauguração do Monumento aos Combatentes do Ultramar, Lourinhã, 25 de agosto de 2013. Organização da AVECO, apoio da CM Lourinhã.   A seguir às cerimónias militares junto ao monumento (das 9h30 às 11h00), realizou.se missa, às 11h30,  na igreja do Castelo (séc  XII/XIV). Na foto supra, uma imagem da fantástica rosácea que encima a parede onde onde se abre o arco triunfal, virada para poente. [A Igreja de Santa Maria do Castelo encontra-se num local onde os árabes haviam construído um castelo, dentro de nuralhas (hoje desaparecidas),  dominando o braço mar que ia até à atual Praia do Areal, a sul da Praia da Areiua Brana.

É um magnífico templo gótico, dos meados do século XIV. A sua construção realizou-se em duas fases, a primeira foi atribuída a D. Jordan (cavaleiro franco que ajudou D. Afonso Henriques na Reconquista, e primeiro donatário da Lourinhã) e a segunda a D.Lourenço Vicente (arcebispo de Braga, natural da Lourinhã e seu donatário. Outra igreja da Lourinhã digna de visia é a do antigo Convento de Santo António, começada a construir no início do Séx. XVII, também monumento nacional].



Comemorações do 8º aniversário da inauguração do Monumento aos Combatentes do Ultramar, Lourinhã, 25 de agosto de 2013. Foto de grupo. Ver mais fotos do evento no sítio da AVECO.



Louirnhã > Monumento aos Combatentes do Ultramar > 25 de agosto de 2013


Fotos (e legendas): © Luís Graça(2013). Todos os direitos reservados






Vídeo (''53): Luís Graça (2013). Alojado em You Tube > Nhabijoes


Comemorações do 8º aniversário da inauguração do Monumento aos Combatentes do Ultramar, Lourinhã, 25 de agosto de 2013. Organização da AVECO, com apoio da CM Lourinhã. Final da missa dita pelo jovem padre Ricardo, pároco local, na igreja do Castelo (ou de Santa Maria do Castelo).





Vídeo (2' 15''): Luís Graça (2013). Alojado em You Tube > Nhabijoes

Comemorações do 8º aniversário da inauguração do Monumento aos Combatentes do Ultramar, Lourinhã, 25 de agosto de 2013. Organização da AVECO, apoio da CM Lourinhã. Cerimónia no cemitério local de homenagem aos mortos da guerra colonial. Visita às campas de José António Canoa Nogueira e do Arsémio Bonifácio bem como ao talhão dos combatentes. Largadas pétalas de flores em memória do José Henriques Mateus, desaparecido na Guiné, no decurso da Op Pirilampo, em 10 de setembro de 1966, no sul da Guiné, igualmente no setor de Catió, na região de Tombali, (O corpo nunca foi encontrado; stá prevista, para breve, uma homenagem ao Mateus, por parte dos seus conterrâneos da povoação da Areia Branca, freguesia da Lourinhã).



Comemorações do 8º aniversário da inauguração do Monumento aos Combatentes do Ultramar, Lourinhã, 25 de agosto de 2013. Visita à campa do José António Canoa Nogueira (1942-1965), o primeiro lourinhanense a morrer na Guiné, em Ganjola, setor de Catió, região de Tombali. em combate. Foi no dia 23 de janeiro de 1965. Era soldado apontador de morteiro, Pel Mort 942 / BCAÇ 619 (Catió, 1964/66). Era meu primo, em 3º grau, tal como o Arsénio Bonifácio, morto em Angola, era primo (direito) do Jaime Bonifácio Marques da Silva


Fotos (e legendas): © Luís Graça (2013). Todos os direitos reservados

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Guiné 63/74 - P11986: Efemérides (138): 8º aniversário do monumento aos combatentes da Lourinhã, 25/8/2013 (Parte II)



Vídeo (11' 23''). Luís Graça (2013). Alojado em You Tube > Nhabijoes


Comemorações do 8º aniversário da inauguração do Monumento aos Combatentes do Ultramar, Lourinhã, 25 de agosto de 2013. Segunda e última parte do discurso do Jaime Bonifácio Marques da Silva, ex- alf mil paraquedista, BCP 21 (Angola, 1970/72), e hoje professor de educação física refomado, natural do Seixal, Lourinhã, e residente em Fafe. Há 8 anos atrás, o Jaime, mais o João Delgado e o João Picão foram os principais elementos dinamizadores da comissão "ad hoc" que pensou, planeou e executou este monumento, dentro do pacote financeiro disponibilizado pela CML (cerca de 30 mil euros).

A iniciativa destas comemorações foi da AVECO, com apoio da CM Lourinhã. Vídeo de Luís Graça



Comemorações do 8º aniversário da inauguração do Monumento aos Combatentes do Ultramar, Lourinhã, 25 de agosto de 2013.  Da esquerda para a direita, o Jaime Bonifácio Marques da Silva e o João Delgado, dois elementos da comissão "ad hoc" que há 8 anos atrás concretizou o sonho dos combatentes  da Lourinhã. Falta aqui o José Picão de Oliveira, de férias fora do concelho.



Comemorações do 8º aniversário da inauguração do Monumento aos Combatentes do Ultramar, Lourinhã, 25 de agosto de 2013.  Coroa de flores depositada na base do monumento pelos dirigentes da AVECO.


Fotos (e legendas): © Luís Graça(2013). Todos os direitos reservados





Vídeo (1' 03''). Luís Graça (2013). Alojado em You Tube > Nhabijoes

Comemorações do 8º aniversário da inauguração do Monumento aos Combatentes do Ultramar, Lourinhã, 25 de agosto de 2013. Entoação do hino nacional pelos presentes, no final das cerimónias militares.

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Nota do editor:

Último poste da série >  Guiné 63/74 - P11983: Efemérides (138): 8º aniversário do monumento aos combatentes da Lourinhã, 25/8/2013 (Parte I)

Guiné 63/74 - P11985: Bom ou mau tempo na bolanha (29): Herói Combatente (Tony Borié)

Vigésimo nono episódio da série Bom ou mau tempo na bolanha, do nosso camarada Tony Borié, ex-1.º Cabo Operador Cripto do Cmd Agru 16, Mansoa, 1964/66.



A avioneta do furriel Honório, o “Pardal”, como era conhecido no aquartelamento, sobrevoou a tal mangueira, árvore de grande porte que existia no aquartelamento, que por uns metros sobreviveu ao arame farpado, pois os postes de cimento passaram junto a ela, enquanto que algumas gaiolas de macacos e periquitos foram desviadas para o outro lado da árvore, fazia os animais fazerem algum barulho, tal como se fosse o carteiro, a tocar a corneta da sua bicicleta, quando andava na distribuição, na aldeia do vale do Ninho d’Águia, de onde o Cifra era oriundo, e era sinal que lá vinha correio. Passado pouco tempo havia a sua distribuição, e desta vez, vinham duas cartas para o Cifra, uma dos primos de Lisboa e outra da mãe Joana, onde dizia mais ou menos, depois de desejar muitos beijinhos e xi-corações, que estivesse bem, e todas aquelas coisas que as mães sempre desejavam:

“Olha, o senhor Manuel Manco, que vivia no mato, naquela casa sozinha, quase a seguir ao caminho para o Gravanço, morreu, foi encontrado morto, coitadinho, tão boa pessoa...”, e depois explicava mais alguns pormenores.

Então o Cifra fechou por momentos os olhos, lembrando-se do senhor Manuel, que devia de ter outro sobrenome, mas era conhecido por Manuel Manco, porque tinha só uma perna. Tinha sido casado, a esposa morreu com a doença do “tifo”, e tinha uma filha que foi “casada de encomenda” para o Brasil.
O povo dizia “casada de encomenda”, que era quando um português, “muito rico”, lá no Brasil, que andasse muito ocupado na “roça”, na “xácra”, no “açougue”, na “padaria”, no “botequim”, na “birosca” ou no “boteco”, mandava uma carta, normalmente ao senhor Regedor ou a Vossa Reverência, o senhor Abade da freguesia, a pedir esposa que soubesse cozinhar, lavar e engomar, que fosse donzela, estivesse vacinada e que fosse boa parideira.
Continuando, essa filha, foi para o Brasil e nunca deu sinal de si. O senhor Manuel Manco era um sobrevivente de guerra, pois fez parte do Corpo Expedicionário Português que esteve presente na Frente de Flandres, onde muitos militares portugueses foram mártires.

Havia um dia no ano em que vinham buscá-lo num automóvel preto, que tinha uma placa na frente, quase junto à manivela que o fazia começar a trabalhar, que dizia, “Propriedade do Estado”, e que parava quase junto à casa onde vivia o Cifra, que nessa altura era o Tó d’Agar, lá na sua aldeia do vale do Ninho d’Águia, vindo buscá-lo ao seu casebre, trazendo-o ao colo até ao carro, indo em seguida para a vila, com três ou quatro medalhas no peito, sobre um fato velho e preto, com um chapéu de aba larga, e um sapato, também preto no pé, que às vezes era o do outro pé, da perna que lhe tinham cortado.
Iam exibi-lo, ou seja mostrá-lo, como exemplo de coragem e bravura do Estado Novo, davam-lhe de comer, do bom e do melhor naquele dia, tiravam-lhe fotografias, de diversos ângulos, mostrando as medalhas, e onde aparecia, quase sempre a sorrir, mas em segundo plano, pois na frente e em grande plano, eram as caras rosadas e gordas das pessoas importantes da vila.

Ao fim da tarde vinha o motorista, que era o “Zica”, que dava sempre cinco tostões ao Tó d’Agar, por segurar na porta do carro, enquanto carregava o senhor Manuel Manco para fora do carro, e o ia “despejar” no seu casebre, dizendo:
- Até ao ano, Ti Manel

Durante o ano devia comer o que arranjava e das esmolas que a mãe Joana e as vizinhas lhe levavam. Elas lavavam-lhe também os trapos da sua roupa. Deslocava-se de um lado para o outro, à volta do seu casebre, com a ajuda de um pau que arranjou algures, parecendo-se com uma muleta. Tinha uma pequena horta e uma “arma de caça”, das pequenas de carregar pela boca, que usava para se defender dos lobos, que naquele tempo por lá havia, e também para matar coelhos. Diziam que tinha uma grande pontaria, pois tinha sido um COMBATENTE.

Na boca do povo, era um herói COMBATENTE, da Primeira Grande Guerra, cheio de medalhas, que tinha estado ainda jovem, com saúde e as suas duas pernas, num cenário de guerra, defendendo a sua bandeira e a sua Pátria, mas que agora vivia sozinho, arrastando-se só com uma perna.
Morreu sozinho, quase abandonado!

O Cifra, acredita que já viu este cenário, em tempos recentes, mas deve de estar confundido.

Ah..., deve de estar mesmo confundido, pois já não tem idade e não tem a companhia do furriel miliciano para fumar um cigarro feito à mão!

Tony Borie,
Setembro de 2011.
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Nota do editor

Último poste da série de 21 DE AGOSTO DE 2013 > Guiné 63/74 - P11962: Bom ou mau tempo na bolanha (28): O José que já foi "Arroz com pão" (Toni Borié)