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sábado, 1 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27372: Manuscrito(s) (Luís Graça) (277): As andorinhas de Candoz na véspera da "grande viagem" para a África (subsariana, equatorial e até austral)


Vídeo. 0' 45''. Alojado em Luís Graça > You Tube



Vídeo: 2' 00'' . Alojado em Luís Graça > You Tube

Quinta de Candoz > Paredes de Viadores > Marco de Canveses > 11 de setembro de 2025. 15h40. Dia de vindimas. Tempo de trovoada. Calor e humidade. Milhões de insectos, centenas de andorinhas. Ambos, os insetos e as andorinhas, parece,  surgir do nada. Como na Guiné, no incío da época das chuvas. 

Antes de partirem para África, as andorinhas, com este festim, reforçam as suas reservas de proteína. Nunca nos tinhamos apercebido deste fenómeno.  

Vídeo: Luís Graça (2025)



Quinta de Candoz > 8 de abril de 2023



Quinta de Candoz > 6 de julho de 2023



Quinta de Candoz > 11 de setembro de 2024



Quinta de Candoz > 11 de abrul de 2025



Quinta de Candoz > 11 de setembro de 2025


 

Marco de Canaveses, Paredes de Viadores, Candoz, Quinta de Candoz > 23 de Agosto de 2012 > Fotograma de vídeo > Ninho de andorinha, insólito, construído à volta da lâmpada do hall exterior ou alpendre de uma das nossas casas (antiga "casa de caseiro", que deixou de ser habitada há muito)...

Aos 43 segundos vê-se uma andorinha entrar no ninho levando insetos para alimentar as crias, e 10 segundos depois a sair para mais uma "caçada" na (e ao redor da) Quinta de Candoz, que é rica em insectos... O ninho tinha sido recentemente reconstruído. As andorinhas caçam em círculo, num raio de 500 metros do ninho.

Vídeo (1' 07''): © Luís Graça (2012). Alojado em Luís Graça : You Tube

Fotos e vídeos (e legendas): © Luís Graça (2025). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné] 
 


 1. O vídeo, que eu fiz em 2012, comprovava a existência de um família de andorinhas, que vinham todos os anos do norte de África, imaginava eu, passar as férias de verão e reproduzir-se em Candoz, na nossa quinta... Acabei / acabámos por manter um especial carinho por este ninho... Nunca, que eu tivesse reparado, nenhuma andorinha tinha feito ninho na nossa terra...no séc. XX.  Estas, tal como eu, chegaram e gostaram, voltando sempre...   

Mais tarde, num qualquer mês de junho em que estive em Candoz,  para surpresa e desgosto meus, dei conta que a "abóboda" do industrioso ninho tinha caído, possivelmente sob o efeito de alguma intempérie. Voltei, dois meses depois, a sorrir, quando dois mneses depois, em agosto, verifiquei   que o ninho tinha sido reconstruído e tinha novos inquilinos, seguramente descentes dos primitivos construtores .

 Moral da história: as andorinhas, mesmo aquelas que são mais "desalinhadas", mostram aos seres humanos que todos podemos ser ao mesmo tempo iguais, diferentes e únicos, e que isso só nos enriquece como espécie... Ah, tem outras qualidades, importantes nos tempos que correm, de feroz individualismo, chauvinismo, xenofobia, racismo, populismo, intolerância, arrogância etnocêntrica, belicismo: é leal, gregária, solidária, corajosa, persistente, vai à luta, não desiste... Parafraseando o Evangelho de Jesus Cristo, segundo Mateus (6: 26), tomemos como exemplo as andorinhas e demais aves do céu...


2. Em Candoz temos andorinhas.  Todos os anos nidificam lá.  Em vinte e tal, talvez até trinta anos, já devem ter nascido muitas. Morrido algumas.Emigrado todas. Quantas, ao fim destes todos ? Não sei. Só conheço um ninho. 

Só sei que as andorinhas nidificam no Norte do país, na Quinta de Candoz, Paredes de Viadores, Marco de Canaveses... Quantas ? Só temos esse  ninho, e o povoamento é disperso.

Pergunta o leitor, leigo, curioso: e nessa "grande viagem", intercontinental, vão para onde e quando ?

As andorinhas funcionam como nós, se acordo com  aos ciclos da natureza. No nosso caso, podemos dividir o no em dois solstícios, o do inverno e o do veráo. Afetam a maneira como vestimos, nois alimentamos, trabalhamos, vivemos, passeamos,  etc. As andorinhas são, como toda a gente sabe, um dos sinais mais alegres, para nós seres humanos,  da chegada da primavera e do outono (neste caso, um sinal de tristeza, com a sua partida para outras paragens, o longínquo Sul, a África subsariana).
 
As andorinhas começam a chegar a Portugal em fevereiro e março. Nascidas as crias, partem durante o mês de setembro (na sua grande maioria), Daí a expressáo popular: “És como a andorinha: vens e vais com as estações.”

Em Portugal nidificam em Portugal, incluindo no Norte, na Quinta de Candoz. Migram depois viajam para África subsariana onde passam o inverno.

Claro que não chegtam de uma só vez, em bando. A sua chegada prolonga.se por várias semanas."Uma andorinha não faz a primavera", diz o provérbio. "Nem por morrer uma andorinha se acaba a primavera".

As primeiras a chegar podem ser logo observadas no sul do país, no Algarve, por  finais de janeiro e ao longo do o mês de fevereiro. Como diz o ditado, : "Pelo São Brás (3 de fevereiro), a andorinha verás".

À medida que o tempo aquece e a disponibilidade de insetos (que são o seu alimento) aumenta, elas progridem para Norte. Na nossa Quinta de Candoz, é vè-las, a começar a andar à volta do ninho  partir de março/abril. Quase todos os anos, há trabalhos de manutenão/reconstrução. Que podem levar mais de uma semana,,,

Elas vêm até nós para nidificar. O clima ameno da primavera e do verão no suld a Europa oferece as condições ideais: abundância de insetos,  dias mais compridos para alimentar as suas crias, etc.

A espécie mais comum que vemos a fazer os ninhos de barro nos nossos beirais é a Andorinha-das-chaminés (Hirundo rustica). Tem um peso médio que varia entre 16 e 25 gramas.  .

 As aves insetívoras, especialmente as que têm um voo tão ativo e acrobático como as andorinhas, possuem um metabolismo muito elevado e precisam de consumir uma grande quantidade de alimento para obter energia. A regra geral para muitas aves pequenas e ativas é que consomem uma quantidade de alimento próxima do seu próprio peso corporal por dia.

Com base em estudos de ornitologia e no metabolismo destas aves, um valor razoável para o consumo diário de uma única andorinha adulta é: entre 10 a 22 gramas de insetos por dia.

Este valor corresponde, aproximadamente, a 70-100% do seu peso corporal, o que é um feito energético extraordinário, mas biologicamente plausível.

confrontámos a nossa assistente de IA com este "dislate" ou "disparate"... A resposta, diplomática, veio logo a a sguir: "Onde a confusão pode ter surgido é ao considerar não o consumo individual, mas o esforço de caça de um casal para alimentar as suas crias"...

 É aqui que os números disparam:

(i) um casal: duas andorinhas adultas já consomem, juntas, entre 20 a 40 gramas de insetos por dia só para si;

(ii) as crias: uma ninhada típica tem entre 4 a 6 crias; nos primeiros dias de vida, as crias crescem a um ritmo alucinante e precisam de ser alimentadas constantemente; cada cria, essa sim, pode consumir uma quantidade de insetos equivalente ao seu próprio peso em desenvolvimento;

(iii) o esforço total: um casal de andorinhas tem de caçar o suficiente para se alimentar a si próprio de para alimentar as 4-6 crias famintas no ninho; o  esforço de caça do casal pode resultar na captura de uma massa total de insetos que pode facilmente ultrapassar as 80 ou 100 gramas por dia.

 Este esforço de caça traduz-se em centenas, ou mesmo milhares, de insetos (mosquitos, moscas, afídeos, etc.) capturados diariamente, o que faz das andorinhas um elemento fundamental e gratuito no controlo de populações de insetos e de eventuais pragas para o agricultor.

 Antes de partirem para o Sul, para a tal "grande viagem", há um processo de agrupamento curiosos:  a partir de finais de agosto e durante o mês de setembro, começa-se a a notar um comportamento diferente. As andorinhas, incluindo as crias já jovens e já capazes de voar, juntam-se em grandes bandos. É nessa altura que podemos vê-las pousadas em fios elétricos e de telefone, como que a preparar-se para a "grande viagem". Durante os meses anteriores, não têm um minuto para descansar. O seu ritmo de vida é alucinante!

No final do verão e início do outono, é comum observar a formação de enormes bandos de andorinhas. Estes aglomerados, que podem juntar milhares de indivíduos, têm como principal objetivo a alimentação intensiva. As aves aproveitam a abundância de insetos voadores para se alimentarem de forma contínua, voraz e eficiente, garantindo que acumulam a gordura corporal essencial para a travessia de milhares de quilómetros. 

Este comportamento gregário é uma estratégia de sobrevivência. Voar em grandes grupos oferece também proteção contra predadores e facilita a localização de áreas com maior concentração de alimento. Durante a própria migração, estes bandos fazem paragens estratégicas para descansar e reabastecer as suas reservas energéticas, continuando a sua jornada em busca de climas mais quentes e de alimento abundante.

A maioria destes bandos inicia a sua longa viagem para Sul durante o mês de setembro. Algumas aves podem partir um pouco mais tarde, mas em outubro já não vemos andorinhas em Candoz. 

 Todas elas têm o mesmo padrão migratório ancestral.O seu destino de inverno é a África subsariana. Atravessam Portual e a Espanha. A sua principal rota de saída  é através do Estreito de Gibraltar. Náo é preciso "dizer-lhes" que essa é a  mais curta  distância marítima entre o sul de Espanha e Marrocos. A partir daí, enfrentam outros obstáculos; a travessia do Saara até chegarem aos seus locais de invernada. De facto, elas não ficam no Norte de África. Atravessam o Deserto do Saara para chegar a zonas mais ricas em insetos, como a bacia do Congo e até mesmo a África do Sul. Absolutamente incrível!

É uma autêntica odisseia. É uma viagem duríssima e cheias de riscos.  de  milhares de quilómetros. É feita duas vezes por ano!...São guiadas pelo campo magnético da Terra, pela posição do sol e por outros instintos que a ciência ainda tenta compreender por completo.

 Quanto à sua alimentação....Claro, são insetos.  E quanto comem em média ? Não há estudos concludentes   sobre a quantidade média de gramas de insetos que uma andorinha come por dia em Portugal. No entanto, estudos gerais indicam que andorinhas, sendo aves insetívoras, consomem diariamente uma quantidade significativa de insetos para suprir suas necessidades energéticas, o que normalmente pode variar entre alguns gramas até cerca de 10 a 20 gramas de insetos por dia, dependendo do tamanho da ave, espécie e disponibilidade de alimento.

Para uma andorinha típica (que pesa entre 16 a 20 gramas), o consumo diário de insetos geralmente representa uma alta proporção do seu peso corporal, aproximadamente entre 10% a 20% do seu peso corporal diário, o que poderia equivaler, grosso modo, a cerca de 2 a 4 gramas de insetos por dia, em média.

Este valor é uma estimativa baseada em dados gerais de consumo alimentar de aves insetívoras de tamanho semelhante

3. O que podemos saber  mais sobre as andorinhas (ou como resumir o  que já dissemos atrás), recorrendo à nossa Wikipedia:

(...) As andorinhas são um grupo de aves passeriformes da família Hirundinidae. A família destaca-se dos restantes pássaros pelas adaptações desenvolvidas para a alimentação aérea. As andorinhas caçam insectos no ar e para tal desenvolveram um corpo fusiforme e asas relativamente longas e pontiagudas. Medem cerca de 13 cm (comprimento) e podem viver cerca de 8 anos. (...) 

"As fêmeas fazem uma postura de 4 ou 5 ovos, que depois são incubados durante cerca de 23 dias. Passado o tempo da incubação, nascem os jovens, cuja alimentação é feita por ambos os progenitores. 

"Quando a temperatura baixa, as andorinhas juntam-se em bando e vão à procura de locais da Europa mais quentes, indo também para o norte de África. Depois, quando a temperatura volta a subir, por volta da primavera, regressam novamente. Constroem as suas casas perto do calor, em pequenos ninhos normalmente colados ao tecto." (...)

(...) "Originalmente, a andorinha-dos-beirais [ 'Delichon urbicum'] construía os seus ninhos em falésias e cavernas. Ainda são encontradas algumas colónias em falésias, com o ninho construído sob uma rocha saliente, mas atualmente esta espécie usa sobretudo estruturas feitas pelo homem, como edifícios e pontes, de preferência junto à água. 

"Ao contrário da andorinha-das-chaminés, usa a parte exterior de edifícios abandonados em vez do interior de estábulos ou celeiros. Os ninhos são construídos na junção da parede com o beiral, ficando assim fortalecidos pela ligação a dois planos distintos.

"Regressa à Europa para nidificar entre abril e maio, e a construção dos ninhos ocorre entre o fim de março (no norte de África) e o meio de junho (na Lapónia). O ninho tem a forma de uma taça fechada com uma abertura estreita no topo e é feito com pedaços de lama colados com saliva, e forrado com palha, ervas, penas ou outros materiais macios. A sua construção demora até 10 dias e é levada a cabo tanto pelo pela fêmeacomo pelo macho.

"Frequentemente, o pardal-doméstico ('Passer domesticus') ocupa o ninho durante a sua construção, forçando a andorinha-dos-beirais a construir um novo. A abertura no topo do ninho completo é tão pequena que os pardais não conseguem ocupá-lo uma vez construído.(...)
 
"A andorinha-dos-beirais é mais gregária do que a andorinha-das-chaminés 
['Hirundo rustica'] estando habituada a viver e a migrar em bando, e tende a nidificar em colónias numerosas. Os ninhos podem inclusive ser construídos em contacto uns com os outros. Tipicamente, estas colónias têm menos de dez ninhos, mas há registos de colónias com milhares de ninhos. Cada postura possui habitualmente quatro ou cinco ovos brancos, com um tamanho médio de 1,9 x 1,33 cm e um peso médio de 1,7 g. A incubação dura geralmente de 14 a 16 dias, e é feita essencialmente pela fêmea. As crias recém-eclodidas são altriciais e necessitam de 22 a 32 dias, dependendo das condições atmosféricas, para abandonar o ninho" (...) (Fonte: Wikipédia)



4. Nenhuma assistente de IA (ChatGPT, Perplexity, Gemini...) conseguiu dizer-me  com segurança de que espécie era o ninho mostrado nas imagens e descrito na perguntei que lhes submeti.


Hirundo rustica
Cecropis daurica
Uma diz que é característico da espécie conhecida como andorinha-das-chaminés (Hirundo rustica), mas o formato e localização sugerem que pode pertencer à andorinha-dáurica (Cecropis daurica), também chamada de andorinha-dos-beirais ou andorinha-dos-arcos.​



  • Andorinha-das-chaminés (Hirundo rustica): costuma nidificar em locais abrigados como estábulos, garagens ou beirais, construindo ninhos de barro semicirculares abertos, normalmente apoiados numa saliência.​
  • Andorinha-dáurica (Cecropis daurica): nidifica frequentemente em estruturas humanas, como alpendres, mas o seu ninho tem forma de cabaça ou garrafa, com um longo túnel de entrada, como se observa nas imagens acima; utiliza barro misturado com saliva e prefere locais protegidos, frequentemente em habitações rurais pouco usadas (como é o caso do alpendre, na Quinat de Candoz).​

Reconstrução anual

Ambas as espécies costumam reconstruir e reutilizar os ninhos de barro todos os anos, especialmente se estes se mantêm estruturais e protegidos das intempéries e predadores.​ Mais recentemente verifiquei que o ninho de Quinta de Candoz  tinha sido "vandalizado" por um "ocupa", mais provavelmente uma "boeira"  ou ""lavandisca".

Por causa dos "ocupas", a andorinha tem de ter a liberddade criativa do arquiteto e o rigor milimétrico do engenheiro: o diâmetro do túnel de entrada do ninho tem de ser ajustado ao seu  corpo fusiforme... Elas entram no ninho em voo!... Mais nenhuma outra ave pode lá entrar, a não ser quando há ruína da construção devido, em geral, às intempéries. 

Conclusão

Com base na estrutura do ninho nas imagens, na localização (alpendre de casa não habitada) e no facto de ser reconstruído anualmente há quase 30 anos, trata-se muito provavelmente de um ninho de andorinha-dáurica (Cecropis daurica), espécie que tem vindo a expandir-se em Portugal nas últimas décadas, diferenciando-se da andorinha-das-chaminés pelo formato distintivo do ninho com túnel de entrada.


Pesquisa: LG + assistente de IA / ChatGPT, ​Perplexity, Gemini

Condensação, revisão / fixação de texto, negritos: LG


5. Excertos de poemas de Luís Graça, com referência às andorinhas de Candoz

(...) As andorinhas que por cá ficaram,
há mais de uma década,
parecem ser felizes.
São inteligentes, as andorinhas,
e fazem análises de custo-benefício,
como qualquer economista.
Passam todo o santo dia a caçar insetos
num raio de 500 metros à volta do ninho
que fizeram no alpendre de uma das casas
em redor do fio da lâmpada exterior.
É uma insólita construção,
herdada de geração em geração
e todos os anos retocada ou reconstruída.
Eu acho que já não voltam para o norte de África,
ficam por cá,
as andorinhas de Candoz.
Se calhar fogem de Alá,
do alvoroço do povo
e dos tiros das Kalash.
Afinal, a felicidade está onde nós a pomos,
mas nós nunca a pomos onde nós estamos.

Luís Graça (2014)


(...) Circadiana, a vida!...
E, se Deus quiser, a primavera há de chegar,
e com ela as cerejeiras em flor,
e os melros que vão pôr os seus ovos
nos arbustos de alecrim no caminho para a leira cimeira,
e as andorinhas que irão reconstruir o seu ninho
na varanda da casa de cima.

E trazem histórias de coragem,
as tuas andorinhas de torna-viagem,
vêm do norte de África, quiçá da Guiné,
e não precisam de passaporte,
nem de GPS, nem de código postal, nem de carimbo das alfândegas.
São heroínas, sobreviveram a mais um ano,
fogem da guerra, e das alterações climáticas,
sem o aval nem a ajuda do alto comissário para os refugiados,
ou a benção dos imãs
e dos demais representantes de Deus na terra.(...)

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Guiné 61/74 - P27365: Humor de caserna (218): Análise interpretativa da história de Fernandino Vigário, "O jovem alferes graduado capelão, cheio de sangue na guelra, que queria ensinar o padre nosso ao...Vigário"



Cartoon: adaptação e edição por Chat Português (GPT-5 Thinking mini). Disponível em https://gptonline.ai/. Imagem original: Fernandino Vigário  / Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné  (2012)



1. Análise interpretativa da história “Um Alferes Capelão que queria ensinar o Padre Nosso... ao Vigário”, da autoria de Fernandino Vigário (*)

A narrativa do Fernandino Vigário, membro da nossa Tabancas Grande, insere-se num contexto histórico e cultural muito particular,  a Guerra Colonial Portuguesa, mais concretamente na então Guiné Portuguesa, no primeiro semestre de 1969. 

Apesar de decorrer num cenário de guerra (embora nos arredores de Bissau, na época uma zona  relativamente tranquilam a caminho de Safim, onde o capelão ia dizer a missa dominical),    o tom da história é ligeiro e humorístico, integrando-se, de acordo com o editor LG, na série “Humor de caserna”, género em que o quotidiano militar é visto com ironia, brejeirice e humanidade. 

Afinal, o humor ajuda a "climatizar os pesadelos". E até o absurdo das situações-limite, como o universo concentracionário dos quartéis, o isolamento no mato,  a guerra, a violência, a brutalidade, a morte.


(i) Contexto histórico e humano

Trata-se de uma pequena história do quotidiano de um soldado condutor,  onde apesar de tudo a guerra (operações, patrulhamentos, emboscadas, minas, etc.) fica entre parênteses. 

Era um quotidiano onde  havia também  lugar para  momentos de descontração,  convivência, "desopilanço", enfim,   episódios banais que serviam para aliviar o peso da guerra e a claustrofobia do arame farpado. Bissau  era um oásis de paz para quem vinha do mato... Chamavam-lhe, justa ou injustamente, a "guerra do ar condicionado", o "bem-bom"...

O protagonista, Fernandino Vigário, é um soldado condutor auto, da CCS / BCAÇ 1911 (1967/69),  conduz um jipe, enfim, uma função que o coloca frequentemente em contacto com figuras da hierarquia, como o alferes capelão (ou alferes graduado capelão), responsável por prestar assistência religiosa às tropas. 

Está em fim de comissão, à espera de regresayr à Metrópole (o que aconteceria em finais de maio de 1969, segundo informação do editor LG). É, portanto, um veterano, um "velhinho", em contraste com o capelão que, tudo o indica, é um "periquito", acabado de chegar da metrópole, e ainda desambientado. Ou seja, "não apanhado do clima".

O relato é uma memória pessoal, contada muitos anos depois (mais de 40), num tom simples, oral, quase confessional, revelando a vontade do autor de preservar a autenticidade da experiência vivida. 

Ele próprio reconhece que não escreve para acusar ou diabolizar ninguém,  nem para exaltar ou santificar, mas apenas para deixar um registo humano e bem-disposto. Tinha algumas dúvidas se devia / podia ou não ser publicado no blogue (não fosse interpretá-lo mal, os leitores, seus antigos camaradas).


(ii) O humor e a ironia

O cerne da história reside no contraste irónico entre o papel religioso do capelão e o seu comportamento, digamos,  “mundano”. 

O “jovem alferes capelão”, “cheio de sangue na guelra”, deixa transparecer a sua juventude e impulsos humanos,  elogiando de maneira desabrida,  para não  dizer  algo machista ou marialva (que era a cultura dominante na "caserna"),  mulheres cabo-verdianas, que passam na estrada. O vigor ou  entusiasmo com que o faz, choca o soldado Vigário, habituado a ver o clero com respeito, reverência, distância e reserva moral.

Há aqui uma dupla camada humorística:

  • por um lado, o apelido do soldado (“Vigário”) presta-se ao trocadilho, ao jogo de palavras com o termo eclesiástico (“vigário” = padre);
  • por outro, o próprio título, muito bem escolhido pelo autor (“Um Alferes Capelão que queria ensinar o Padre Nosso... ao Vigário")  é uma inversão cómica e simbólica: o padre que quer ensinar o “Padre-Nosso” a alguém chamado Vigário,  é, no fundo, o que menos parece cumprir o papel do “pastor" ou "guardião da doutrina e da moral".

Este jogo linguístico é típico do humor popular português, fundado na ironia, brejeirice e  irreverência, sem ultrapassar o limite do respeito, nem extravasar para a boçalidade.

(iii) O  retrato do capelão e a dimensão moral

Apesar do tom jocoso, ou até pícaro,  há uma dimensão moral implícita. O narrador não pretende “denegrir” a Igreja Católica, Apostólica Romana (com a qual de resto se identifica), como faz questão de sublinhar no "post scriptum" (PS).  Pelo contrário , parece querer humanizar e até desculpar  a figura ou as "bocas foleiras" do capelão (afinal "bastante jovem, devia ter a minha idade ou pouco mais").

 Em traços muito breves, mostra-nos um padre jovem, impulsivo e até mesmo algo ingénuo, que de algum modo quer "acamaradar" e "ser cúmplice" com o soldado que o conduz no jipe, utilizando a linguagem de caserna, para se pôr ao seu nível, talvez de maneira tosca e contraproducente. 

O paradoxo da situação é que o condutor está a levar o capelão, num domingo de manhã, até ao próximo quartel, Safim, onde irá dizer missa,  o "santo sacrifício da missa".  A viagem, relativamente curta (cerca de 20 km) deveria ser de recolhimento e contenção verbal, no entender do narrador.

O autor, Fernandino Vigário,  revela que, mesmo no contexto militar e religioso, as pessoas são falíveis, influenciáveis, permeáveis às tentações  do mundo, expostas à vida que gira à sua volta. Mais: são capazes de transgressão, ou muito simplesmente de "brincar com coisas sérias"... E, para mais, em África, em que todos os sentidos estão  à flor da pele, face a exuberância de cores, formas (a começar pelo corpo feminino), cheiros, sabores, ruídos, etc.

A reação do soldado é reveladora do seu carácter ponderado, respeitador, crente, senáo memso conservador: ele sente o desconforto da situação e do diálogo com o seu superior hierárquico,  mas não confronta o capelão que tem galões de alferes e que o pode teoricamente  "punir" (disciplinarmente falando)... Pelo contrário, responde-lhe com modéstia, ironia e diplomacia, mostrando-se fiel à hierarquia e à ética. 

É esse contraste, entre o alferes capelão, irreverente, "desbocado", e o soldado sereno, educado e contido, que sustenta a comicidade e o significado moral da narrativa.  Afinal, ele é que é o "Vigário" ( de apelido),  o que surpreende o capelão que, em tom brusco e deselegante, o interpela: " Vigário ou vigarista?!"...

(iv) Estilo e tom narrativo


A linguagem é coloquial, direta e oralizada, aproximando o leitor da voz do próprio narrador. O uso de expressões populares como:

  • “palonço”, 
  • “falava pelos cotovelos”,
  • "gaja boa", 
  • "jeitosa"
  •  "uff!", 
  •  “que brasa!”
  • "o gato comeu-te a língua"...

 reforça a autenticidade e o sabor local da história, projetando-a na tradição portuguesa das  conversas e anedotas de caserna.

O "post-scriptum" (PS) introduz uma nota reflexiva e conciliadora, típica de quem, ao olhar para o passado, o faz com compreensão e benevolência. A anedota deixa de ser apenas um episódio engraçado e passa a ser também um testemunho de humildade, tolerância,. reconciliação e humanidade:

(...) "Sou católico praticante, e nada me move contra a igreja e os padres, antes pelo contrário, porque sempre os respeitei e,  ao contar esta história, não pretendo denegrir nem esta, nem os padres, e estou convicto que aquele jovem capelão tenha dado um bom padre, para mim aqueles comentários sobre mulheres eram fruto da sua juventude." (...) (*)


(v) Síntese interpretativa

Em suma, esta história pode ser lida em três planos:

  • Histórico:  testemunho de uma vivência concreta da Guerra Colonial;
  • Humorístico:  episódio leve que satiriza as hierarquias e os comportamentos ( "Bem prega frei Tomás:  faz o que ele diz mas não o que ele faz");
  • Humano e moral:  reflexão sobre a juventude, a autoridade e a tolerância.

Mais do que uma simples “história brejeira”, o texto é um retrato vivo do quotidiano dos militares portugueses na Guiné: um microcosmo onde a fé, o humor, a informalidade e  a humanidade coexistem no meio da adversidade.

Resumo final:

A história de Fernandino Vigário revela-se uma crónica de costumes do tempo da Guerra Colonial,  divertida, humana e sem malícia (nem anticlericalismo...),  onde o autor transforma um encontro algo insólito num episódio de humor e reflexão moral sobre a condição humana, que é comum aos dois protagonistas, mesmo quando escondida sob a farda, de um, ou  sob a batina, de outro. (De qualquer modo, era  mais provável que o alferes graduado capelão fosse vestido de camuflado e com os seus galões dourados, contrariamente ao que o "cartoon", de traço classicizante,  deixa ver).

 Pesquisa: LG + Chat Português (GPT-5 Thinking mini). Disponível em https://gptonline.ai/.

(Condensação, revisão / fixação de texto: LG)
__________________

Nota do editor LG:

(*) Último poste da série > 29 de outubro de 2025 > Guiné 61/74 - P27362: Humor de caserna (217): O jovem alferes graduado capelão, cheio de sangue na guelra, que queria ensinar o padre nosso ao...Vigário (Fernandino Vigário, ex-sold cond auto, CCS/BCAÇ 1911, Teixeira Pinto, Pelundo, Có e Jolmete 1967/69)

( O título original é  "Um Alferes Capelão que queria ensinar o Pai-Nosso ao Vigário".)

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Guiné 61/74 - P27362: Humor de caserna (217): O jovem alferes graduado capelão, cheio de sangue na guelra, que queria ensinar o padre nosso ao...Vigário (Fernandino Vigário, ex-sold cond auto, CCS/BCAÇ 1911, Teixeira Pinto, Pelundo, Có e Jolmete, 1967/69)



Guiné > Região do Cacheu Teixeira Pinto (?)  CCS / BCAÇ 1911 (1967/69) O sold cond auto Fernandino Vigário, no seu jipe


Guiné >  Bissau > Café Bento / 5ª Rep (?) > s/d (c. 1967/69) >  "
Malta amiga, maiatos, num café de Bissau: a partir da esquerda:  (i) 1.º cabo op cripto/QG Domingos; (ii) Sousa, da CCAÇ 1743; (iii)  um militar náo identificado; (iv)  1.º cabo escriturário/QG;  e (v) eu, Fernandino Vigário
 

Fotos (e legendas): © Fernandino Vigário  (2012). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. O Fernandino Vigário foi soldado condutor auto,  CCS / BCAÇ 1911 (Teixeira Pinto, Pelundo, Có e Jolmete, mai 1967/ mai 69); é membro da Tabanca Grande desde 
112/12/2011; é autor da série "As Minhas Memórias" (de que infelizmente só se publicaram dois postes); é maiato, natural e residente em Nogueira da Maia, cidade da Maia, distrito do Porto.

Tem muita a honra no seu apelido, Vigário. E já aqui publicámos , em 2012, uma história divertida, que se passou com um alferes graduado capelão, num domingo, em que ele foi dizer missa a Safim e outros destacamentos do setor de Bissau, onde havia pelotões do BCAÇ 1911. O Vigário foi destacado para levar o capelão.

 Em mensagem enviada do nosso coeditor Carlos Vinhal, com data de  2 de janeiro de 2012, o Vigário deu os seguintes elementos importantes para se perceber o texto e o contexto:

(...) Aproveito para enviar uma história passada comigo e um alferes capelão que, creio, estava no QG/,CTIG, não sei o seu nome nem o conhecia. 

Entre missas e funerais eu conheci vários, havia um que, se não estou em erro, com o posto de tenente,  corpo franzino mas espírito de oficial militar, não dava grande confiança aos soldados.

Vai também duas fotos, uma sou eu no jipe, a outra sou eu mais três amigos e vizinhos da Maia que estavam no QG. O outro elemento não faço a mínima ideia quem seja. (...)

A história passa-se no 1º semestre de 1969, talvez no final do 1º trimestre / princípio do 2º trimestre. O Vigário regressa  à metrtópole, com o seu batalhão, em maio de 1969, juntamente com o capeláo, Abel Gonçalves, que ele conhecia. Por exclusão de partes, o protagionista da história não podia ser o padre Abel Gonçalves, já falecido (em 2019),   figura popular entre o pessoal do  BCAÇ 1911. 

Nessa altura, o capelão-chefe, que estava no QG/CTIG, em Santa Lusia. seria o padre Manuel Joaquim da Silva Capitão (17/1/1968 - 3/3/1970) que veio render o padre Bártolo Paiva Pereira (1966/68) (*).

Mas não é relevante tentar descobrir quem terá sido o "jovem alferes capelão", cheio de sangue na guelra, que queria dar uma lição ... ao Vigário. É mais uma história brejeira que fica bem na série "Humor de caserna" (**).



Um Alferes Capelão que queria ensinar o Padre Nosso...  ao Vigário

por Fernandino Vigário


Estou de volta, e às voltas com a minha memória: como não tenho nada escrito,  vou tentar reconstituir uma história passada comigo e um alferes capelão. Hesitei se a devo contar ou não, mas resolvi contar,  nem que seja para ficar em arquivo.

Eu, Fernandino Vigário, ex-soldado condutor auto, estava em Bissau no quartel conhecido por "600". Já no fim da comissão, numa manhã de domingo (não me recorda a data, mas deve ter sido num dos primeiros meses de 1969), fui escalado para transportar um alferes capelão, ainda bastante jovem,  a três ou quatro destacamentos limítrofes de Bissau, Safim e outros, onde estavam destacados Pelotões de Companhias do meu BCAÇ 1911.

Transportar um capelão, para ir celebrar a Eucaristia aos ditos destacamentos, foi serviço que eu fiz várias vezes, e nem sempre foi o mesmo. 

O que aconteceu nesse domingo, com um bastante jovem, devia ter a minha idade ou pouco mais, que eu não o conhecia, nem nunca soube o nome porque só fiz um único serviço com ele.

Nesse domingo de manhã, depois de darmos os bons dias e trocarmos algumas palavras de circunstância, iniciámos a viagem que nos iria levar aos ditos destacamentos. 

O capelão, além de jovem, era simpático e extrovertido, falava pelos cotovelos, e para espanto meu, ainda na estrada de Santa  Luzia,  ao cruzarmos com uma mulher ainda jovem, cabo-verdiana, por sinal bem jeitosa, atira a seguinte frase:

 
−  Ena,  pá! Que gaja boa. Uff, que brasa!

Percorridas mais umas dezenas de metros, e de novo ao avistar outra mulher cabo-verdiana, repete os comentários. Eu, perante este cenário e vindo de um padre, olhei-o de soslaio, meio petrificado e a pensar no que é que viria a seguir. Seria aquilo verdade?

Como eu falava pouco, na verdade sou um pouco introvertido e reservado, havia também a hierarquia, alferes e soldado, a separar-nos, o capelão resolve puxar por mim.

−  Então, condutor, não dizes nada, o gato comeu-te a língua ?!... Pra começar diz-me lá o teu nome?!

− Fernandino Vigário, meu Capelão, mas todos me tratam por Vigário.

−  Vigário? Oh, pá, mas és Vigário ou és vigarista?!

Hesitei um pouco, mas logo respondi:

−  Meu Capelão, eu sou Vigário de nome, mas sei que há por aí uns Vigários com obras feitas. Olhe, alguns até vieram parar a Bissau.

−  Pois é, condutor, para quem falava pouco já estás a falar de mais, eu vou ter que te ensinar o Pai-Nosso.

Tive que me fazer um pouco palonço, não senti a rigidez militar e respondi:

−  Meu Capelão, não é necessário! Eu na minha parvónia aprendi a Doutrina toda, foi o meu pai que me ensinou. Até fiz a comunhão solene!

−  O teu pai ensinou-te a Doutrina mas foi às avessas, agora quem te vai ensinar sou eu.

−  Meu Capelão, peço desculpa se o ofendi, mas não vejo onde o tenha feito, e longe de mim ofender quem quer que seja.

−  Bem condutor, aceito as tuas desculpas e não se fala mais nisso, afinal hoje é Domingo, é o dia do Senhor, e de ouvir a Santa missa.

PS - Sou católico praticante, e nada me move contra a igreja e os padres, antes pelo contrário, porque sempre os respeitei e,  ao contar esta história, não pretendo denegrir nem esta, nem os padres, e estou convicto que aquele jovem capelão tenha dado um bom padre, para mim aqueles comentários sobre mulheres eram fruto da sua juventude.

(Revisão/ fixação de texto, título: CV / L G)

 
2. Comentário do editor LG:

Fernandino, uma corrida de jipe, a caminho da missa, não dá para se ter grandes conversas e conhecer em profundidade as pessoas, muito menos um capelão (que é antes de tudo... um senhor oficial, militar, fardado, homem...). Havia, nessa época, uma atitude algo reverencial mas também ambivalente, para não dizer,  hipócrita,  em relação ao clero. 

Mas achei interessante as tuas observações e o teu humor, brincando com o teu apelido, Vigário...

"Ensinar o Padre Nosso ao Vigário" é , afinal, um dos  muitos, nossos, fabulosos provérbios populares... Tem muito que se lhe diga... Acho que se podem fazer várias leituras da tua pequena história...Mas deixemos isso aos leitores.

 O provérbio popular "Ensinar o padre nosso ao Vigário" significa tentar ensinar algo a alguém que já é "catedrático na matéria", tem autoridade, é especialista, sabe muito do assunto.

É usado, pois,  para descrever uma situação em que uma pessoa, muitas vezes com menos experiência, traquejo ou conhecimento, presume instruir outra que tem muito mais  autoridade na matéria em questão.

Neste caso, não é preciso recordar que o "Padre Nosso" (ou o Pai Nosso) é a oração mais básica e elementar do cristianismo, todo a gente a sabe de cor, do tempo da catequese (aqueles que foram batisados e andaram na catequese). 

O Vigário (padre adjunto a um pároco, "substituto do prior", do latim "vicarius", "aquele que age em lugar de outro"), sendo  um sacerdote católico, tem a obrigaçáo saber e ensinar o "padre nosso".  Portanto, tentar "ensinar o padre nosso ao vigário"  é uma ação completamente desnecessária, despropositada, redundante e até presunçosa.

A expressão é usada coloquialmente,   de forma crítica ou humorística, quando alguém está a dar conselhos óbvios ou a tentar explicar algo a quem claramente domina o tema. Em suma, é também uma crítica ironica à presunção ou ingenuidade de  tentar ensinar algo a quem já é mestre ou perito no assunto.

 Expressões equivalentes: "Ensinar a missa ao padre.", "Querer ensinar o peixe a nadar"; "Ensinar o gato a caçar ratos"; "Ensinar o pescador a pescar"; "Descobrir a pólvora".

PS - Vígário também pode querer dizer, no Brasil e nalgumas regiões de Portugal," a pessoa que mostra manha ou esperteza para enganar outrem" (vd. a expressão "conto-do-vigário").  A nossa língua é tramada, Fernandino ( e não Fernandinho)...

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Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 17 de setembro de 2018 > Guiné 61/74 - P19023: Os nossos capelães militares (9): segundo os dados disponíveis, serviram no CTIG 113 capelães, 90% pertenciam ao Exército, e eram na sua grande maioria oriundos do clero secular ou diocesano. Houve ainda 7 franciscanos, 3 jesuitas, 2 salesianos e 1 dominicano.

segunda-feira, 14 de julho de 2025

Guiné 61/74 - P27015: Contos com mural ao fundo (Luís Graça) (42): Nascido com o cu virado para a lua



"Da janela do meu quarto, na madrugada do dia 28 de setembro de 2015, por volta das 4h20, o firmamento celeste apresentava o tão esperado acontecimento astronómico do ano, a ocorrência de Super Lua em simultâneo com um Eclipse Total da Lua...

Peguei na máquina e obtive esta e outras imagens,  que quis partilhar com os nossos leitores... Já estava a meio o eclipse, eu devia ter-me levantado mais cedo...  

Dizem que os lobisomens é que uivam à lua cheia, mas também em luas negras, e provavelmente em noites de eclipse... Quando eu era puto, acreditava em lobisomens... Se acreditava!... E até me diziam que tinha um tio-avô que era lobisomem... Metiam-nos medo, aos putos, os safados dos graúdos, com essas histórias de lobisomens, bruxas, almas penadas e espíritos maus que cochichavam por detrás das paredes, portas e armários... Havia amuletos, gestos, rezas e mezinhas para nos defendermos do mau olhado e dos encontros funestos com estes seres do mundo das trevas."

Foto (e legenda): © Luís Graça (2015). Todos os direitos reservados. 


Contos com mural ao fundo > 
 Nascido com o cu virado para a lua

por Luís Graça


 "Nascer com o cu virado para a lua" é uma expressáo da chamada  sabedoria popular, aplicada a quem tem muita sorte na vida,  traduzida  em geral pelos sinais do sucesso,  do amor ao dinheiro, da saúde aos negócios. Sucesso obtido de maneira aparentemente natural,  fácil, quando não mesmo inesperada... Claro, as histórias de sucesso causam sempre inveja aos outros que se queixam de não ter tido sorte na vida. 

Pode ter sido o caso do Ulisses C..., ,  senhor embaixador, já falecido. Diziam na terra que ele nascera de um parto distócico. De costas, de barriga para baixo, de cu para o ar. E para mais em noite de luar de janeiro. E sobrevivera.  Contra todos os temores. O que a velha parteira interpretou como um sinal de que vinha ao mundo já abençoado. 

− Há gajos que nascem com o cu virado para a lua… Como o teu cunhado, por exemplo…

 Quem, o Ulisses?

  Sim, Jorge, só tens um,  que eu saiba.

  Já agora retifica: ex-cunhado, senão te importas... E,  se queres que te diga, nunca fomos muito à bola um com o outro.

O Fernando (Nando, para os amigos) aproveitou  então para esclarecer o seu interlocutor, o Jorge, que já não via o Ulisses desde 1974, a seguir ao 25 de Abril… 

Mal saiu a amnistia, da Junta de  Salvação Nacional, aos faltosos, refratários e desertores, o Ulisses voltou à sua terra para abraçar o "paizinho" e as manas e, claro, para limpar a caderneta militar.

Veio com pressa, o Nando mal conseguiu pôr-lhe a vista em cima. Mas ainda se lembrava dele na escola, ao ex-cunhado do Jorge, hoje o senhor embaixador, com nome de rua na terra, o doutor por extenso, Ulisses  C...

Foi um "puto mimado", confirmavam os dois interlocutores.  O pai, o senhor Anselmo, já era uma pessoa importante e rica. Ou rica e importante, como se queira .

Na escola, o Ulisses gostava de se armar em vítima quando as coisas não lhe corriam de feição, nomeadamente nos ditados de português (que eram à compita, para ver quem dava menos erros)... Mas também no recreio, nas jogatanas de futebol ou nas partidas do pião.

 Sou mais velho que vocês, já não vos apanhei na escola  acrescentou o Jorge.

 Foi um sortudo, o Ulisses!..,

 Se ele estivesse aqui responder-te-ia logo: “Sortudo, eu?!... A minha pobre mãezinha ia morrendo de parto. A dona Natércia é que nos salvou. A mim e a ela, à força de braço!... Eu nasci de cu para o ar."

 A dona Natércia?!...  exclamou o Nando.  A parteira que  nos aparou a todos. Era tão ou mais popular que o nosso velho mestre-escola, ou o nosso João Semana… Mas eu não sabia dessa história do parto que podia ter corrido mal.

 Há,  sim. Nasceu, de facto,  de cu para o ar. Podia não ter-se safado.  E a nossa terra não teria agora uma figura tão grada como o senhor embaixador Ulisses C...− atalhou o Jorge.

A mãe do Ulisses adorava contar essa história, aos netos e às visitas lá de casa, de como a velha parteira da terra a salvara,  a ela e ao seu menino…

− O "menino de sua mãe"..., estou a ver!

− A minha ex e as suas duas irmãs não escondiam a ciumeira que tinham dele   confidenciou o Jorge, uns bons anos mais velho do que o Nando. 

Nascera prematuro, e numa posição difícil... Mas safou-se. Naquele tempo foi, de facto,  um sortudo... 

− Morriam 125 crianças com menos de um ano de idade por cada mil nascimentos − interrompeu o Fernando (que era médico).

Naquele tempo, não havia cuidados neonatais, com exceção da Maternidade Alfredo da Costa, inaugurada em 1932, na capital.  Estamos em plena II Guerra Mundial,  em 1943, quando o Ulisses veio ao mundo, em casa, como o Jorge, o Nando e todos os demais da sua geração...

− Lembrava o pai que foi em plena batalha de Leninegrado, quando o Exército Vermelho conseguiu, pela primeira vez, abrir um corredor que levou a esperança aos sitiados −  acrescentou o Jorge.

− Nem as senhoras iam ter os filhos aos hospitais, que horror!− lembrou o Fernando.

De facto, o doente (sobretudo quem tinha algo de seu)  ficava acamado em casa, era tratado pelo João Semana ou por  alguma "curiosa" e, se era caso para morrer, morria em casa, rodeado de filhos e netos... , depois de receber a extrema-unção pelo padre da paróquia.

Em amena  cavaqueira com o Jorge, o "historiador da terra", o homem que mais sabia sobre as misérias e  as grandezas das famílias tradicionais da vila,  o Fernando veio  a descobrir que o Ulisses nunca mais voltara à "parvónia" depois da amnistia de 1974…

− Nem no funeral do pai… Ou do paizinho, como ele o tratava. O que se sempre achei uma ingratidão  comentava o Jorge.  No funeral da mãe, da querida mãezinha, entendia-se, ele estava fora do país, ilegal, exilado. 

− A mãe morreu cedo com cancro da mama, incurável na época, se bem me lembro − atalhou o Nando.

Claro, o paizinho, o senhor Anselmo,  visitava-o no estrangeiro, com alguma regularidade,  até ao dia em que as relações entre eles se azedaram quando o Ulisses e as manas  descobriram que o pai tinha arranjado... uma amante! 

− Vinte e tal anos mais nova, com casa posta num concelho vizinho − confidenciou o Jorge.

− A "Anselma", como diziam as más - línguas. Não a conheci...Mas era assim que os "industriais" faziam... para salvar as aparências...

− A "Anselma"!... Cheia de mordomias... A minha ex-mulher, que Deus também já lá tem, tinha-lhe um ódio de morte...

 − Mas... exilado, o Ulisses, dizes tu?!   − interroga-se o Fernando.

 É uma figura de estilo. Não foi por razões políticas. Como sabes, ele fugiu à tropa. Tão simples quanto isso.

Não, não era um desertor, mas um refratário... Não era a mesma coisa: legal e tecnicamente, o Ulisses não foi um "fujão", como se costumava dizer na época em relação aos desertores.  Foi refratário, com muitos outros… Refratário ou  desertor era, no entanto,  bem mais grave do que faltoso na época, em que o país estava em guerra.

Aqui o Jorge gracejou com o Fernando,  dizendo:

− Eras ainda um puto, não te deves lembrar...  Mas em 1961, e eu já em Angola,  não tenho ideia de Portugal ter declarado guerra contra nenhum Estado estrangeiro soberano:

− A não ser talvez a Índia que, no final desse ano,  vai ocupar e usurpar descaradamente...

− ... a nossa jóia da coroa!...− apressou-se o Jorge a completar a  frase do seu  amigo.

E depois elucidou-o:

− Afinal, lembras-te!... E, como os nossos homens capitularam, e não se bateram até a última gota do seu  sangue contra as tropas do 'Pandita' Nehru, Salazar tratou os nossos prisioneiros de guerra, no seu regresso à Pátria, com o mais profundo rancor e desprezo… 

− Só soube isso muito mais tarde... Mas também não sei de semelhante humilhação aos nossos militares,  na nossa história. 

− Sou dessa geração, tenho dois ou três colegas do tempo de escola e da tropa, naturais da vila,  que ficaram prisioneiros de guerra na Índia e que, quando regressaram, coitados, estiveram semanas e semanas sem sair à rua com vergonha... Vergonha de serem gozados ou escarnecidos  pelos vizinhos... por não terem morrido pela Pátria...

 Mas tu também te lixaste, Jorge, foste o primeiro ou dos primeiros da terra a marchar em 1961, para Angola, "rapidamente e em força"... 

− De pistola-metralhadora em punho, capacete de aço e farda amarela.  E as praças equipadas com mauser, estás a imaginar?!… A desfilar na marginal de Luanda. Mas tive uma sorte danada, uma hepatite recambiou-me cedo para o hospital das doenças infectocontagiosas, em Belém.

Foi então a ocasião para conhecer melhor a história do Ulisses, o Ulysses com y grego, como ele gostava de escrever, e do seu pai, o senhor Anselmo.  

Das suas origens do senhor Anselmo, sabia-se muito pouco ou nada.  Sabia-se que tinha vindo de fora. E, tal como outros que vieram de fora, tinha sido bem recebido na terra e tivera sorte, isto é,  sucesso, em termos  pessoais, familiares e profissionais. 

Tinha a vantagem de não ter passado. Não se lhe conheciam os "podres",  como diziam as alcoviteiras da terra. Mas também ninguém sabia se tinha nascido com o cu virado para a lua, como o filho...

A verdade é que aqui casou,  aqui teve filhos e aqui criou e desenvolveu os seus negócios. E ganhou muito dinheiro...

− Os "saloios" sempre trataram bem os "galegos", os que vinham de fora, do Norte...  − observou, com sarcasmo, o Jorge. 

Muito antes de Portugal ter aderido à EFTA, a Associação Europeia de Comércio Livre, já o Anselmo tinha um negócio de import-export (como gostava o filho de dizer aos palermas dos putos da escola)…  

Digamos, tinha alguns contactos, embora ainda tímidos, mas pioneiros e sobretudo  promissores, com países da Europa do Norte e Centro. Com uma ou outra representação de empresas escandinavas (e depois italianas), na área das alfaias e máquinas agrícolas.

Começara no tempo da Segunda Guerra Mundial, com uma pequena oficina metalúrgica, aventurando-se depois na reparação automóvel. Passou, entretanto, a ter uma bomba de gasolina da Shell. Uma novidade, já que ainda havia poucos carros. Havia poucos automóveis particulares, um ou outro carro de aluguer, uma meia dúzia de camionetas de transporte de mercadorias... 

O Jorge  ainda era do tempo em que só havia uma camioneta de passageiros por dia com destino à capital, e que parava em todas as terras... E a maior parte das estradas do concelho ainda não eram alcatroadas.

Os negócios do senhor Anselmo foram crescendo no pós-guerra, em condições de mercado muito mais favoráveis, e sobretudo ao longo da década de 1950, com a abertura da economia ao exterior, a eletrificação e a industrialização do país, etc., ao ponto de se ter tornado, à escala regional, um médio industrial. 

− Era dos poucos que tinha carro e, mais importante, era o único que já tinha ido a Roma ver o Papa e visitado os lugares santos na Palestina − acrescentou o Jorge sobre o currículo do seu ex-sogro.

Viajava com alguma frequência para a Europa do Norte, com destaque para a Holanda (hoje Países Baixos) e também para a Itália (onde tinha a representação de uma conhecida marca de motocultivadores e tratores). 

Quando se soube, por um dos diários da capital, o "Novidades" (jornal oficioso da  hierarquia da Igreja Católica portuguesa), que tinha sido recebido pelo Papa Pio XII, integrando um grupo de peregrinos católicos,  portugueses e brasileiros, o seu estatuto social na terra subiu mais uns dois ou três pontos. E calou de vez o coro das mulheres que, no lavadouro público, também lavavam a "roupa suja" dos ricos da terra...

Passou a ter lugar na primeira fila na igreja, ao lado dos notáveis locais, os " caciques", que tinham contribuído  com um "conto de réis ou mais" para o restauro da igreja matriz. Eram "poucos mas bons", e sobretudo "almas piedosas", esses beneméritos, como dizia publicamente o pároco, a quem os dos "reviralho" chamavam, entre dentes, o "sabujo dos ricos"; mas convenhamos, um conto de réis,  no início dos anos  50, não era uma fortuna, seriam a preços de hoje qualquer coisa como pouco mais de  550 euros, ou um mês de jornas de um "cavador de enxada"...

Nunca foi, ao que se saiba, um católico praticante. E até se dizia,  entre dentes, que era "maçon", coisa terrível e misteriosa que ninguém sabia o que era;  pior só jacobino,  mas muito pior ainda ser comunista...

O senhor Anselmo ia à missa ao domingo, mais para "ver e ser visto" e, naturalmente,  acompanhar a digníssima esposa. Claro, nunca o viram comungar, diziam as "cuscas" das beatas.

O Jorge achava que ele era mesmo "maçon" (a maçonaria estava proibida) e, claro, do "reviralho", do "contra"...Durante a II Guerra Mundial, dizia-se que era "anglófilo" (até por ter andado na marinha mercante inglesa e ter uma bomba da Shell). Terá sido dos primeiros a ter rádio e luz elétrica em casa. E constava que ouvia a BBC. E mais: dizia-se que era espião dos ingleses.

− Mas finório e cínico como ele sempre foi,  nunca falou de política  comigo: sabia que eu era do "contra" e até simpatizava comigo. Nunca o ouvi falar de política com os filhos.

Também é verdade, declinou em 1958, depois das eleições do Humberto Delgado,  o  convite para integrar a União Nacional (o partido do Estado Novo), alegando  a sua origem social modesta: era filho de operário, vinha de um sítio mal afamado (a Marinha Grande), tinha a 4.ª classe (em boa verdade,  tinha um curso técnico na área da mecânica fina, era autodidata e poliglota).

Ironicamente, insinuava que não podia competir com os doutores, médicos, advogados e magistrados da comarca pelos quais nutria, de resto, um profundo mas secreto desprezo.  

Recusou igualmente um  convite (esse menos lisonjeiro) para integrar o executivo camarário, mas aí tinha um argumento de peso, os seus múltiplos afazeres como empresário de quem já dependiam algumas dezenas de famílias da terra. 

Todavia, a  razão nem  era essa: ele já movimentava mais dinheiro e empregava mais gente que a câmara toda... A autarquia, pobretana, nessa época, dependia do "fundo para o desenvolvimento da mão-de-obra"  e das "esmolas" do senhor governador civil do distrito para poder construir um simples lavadouro público, abrir um estradão ou calcetar uma rua...

Com uma grande superioridade moral, elevação de espírito, e sobretudo inegável talento para os negócios e as relações públicas, deixou bem claro, à tacanha elite local, de agrários, comerciantes e "mangas de alpaca", que não precisava da política para subir na vida... 

Restaurou o melhor palacete da vila ( doado â esposa por morte da tia e madrinha),  para inveja de alguns senhores da terra. Acabou,   todavia, por se aproximar de alguns círculos da elite financeira e política do Estado Novo, quando encabeçou um grupo representativo das "forças vivas" locais que se "mexeram para trazer para a terra a primeira agência bancária".

Em contrapartida, sabia-se pouco ou nada da sua história de vida passada. Sabia-se, isso sim, que tinha vindo "de fora"... Insinuavam alguns dos seus poucos inimigos que tinha vindo "foragido" da Marinha Grande logo a seguir à revolta de 1934.

− O 18 de Janeiro de 1934 ?... − indagou o Fernando (que, como médico, conhecia a história  da Marinha Grande).

 Sim, mas ele recusava-se terminantemente falar desses tempos, pelo menos quando eu frequentava a  casa da família, depois de casado. 

O pai era operário vidreiro, desde miúdo, e terá morrido misteriosamente uns meses depois da revolta de 1934. Havia versões contraditórias, para uns o pai tinha morrido, de infeção, depois de baleado, num perna, pela tropa de Leiria; para outros, teria morrido, muito simplesmente de silicose, o que  parecia mais verossímil, aos olhos  do dr. Fernando ... 

A mãe, a avó paterna do Ulisses, era operária na Tomé Feteira. Era natural de  Vieira de Leiria. Terá morrido ainda mais cedo, de tuberculose. Lá em casa do Anselmo, só havia uma velha foto da família, dos anos de 1910, com os pais e os irmãos, pequenos. Estava na mesa do escritório onde ninguém entrava a não ser a criada para a limpeza semanal do pó...  

Sabe-se que o Anselmo só conheceu a futura terra dos seus filhos depois do casamento, na véspera da II Guerra Mundial. Conheceram-se, ele e a futura esposa,  ao que parece, num cruzeiro da Cunard-White Star. Ele fazia parte da tripulação do navio. E ela acompanhava a tia e madrinha que, além de viúva e sem filhos, era rica e tinha o bom gosto de viajar.  

O Anselmo era um sedutor e um "gentleman": depressa caiu nas boas graças da tia e da sobrinha.  O copo de água foi  na Figueira da Foz. A madrinha morreria no pós-guerra e deixaria o palacete à sobrinha e afilhada.

Lá em casa, garantia o Jorge, também nunca se falava do passado, não  havendo por isso  grande curiosidade em saber mais sobre a  vida desses obscuros (e, de algum modo, incómodos) antepassados do papá Anselmo. Afinal, todo a gente de bem tinha um ramo pobretana na família.

Das poucas vezes que ele,  a mulher e os filhos foram a Vieira de Leiria, em passeio, aproveitando para "revisitar o passado",  deu para perceber melhor a sua origem: os seus "parentes afastados" ainda viviam, como os pescadores, em "palheiros", casas de madeira, sob estacaria, construídas na duna e que na época balnear alugavam aos forasteiros.

− Apesar da distância, naquela época, o meu ex-sogro gostava de ir à Praia da Vieira, quanto mais fosse, alegadamente,  só para assistir ao espetáculo da  arte xávega  ( com "os bois a lavrar o mar")... No fundo, um pretexto para passar uns dias na "terra da sua querida mãe"...

Chegou a alugar um "palheiro" nos anos cinquenta... Mas a mulher e os filhos, o  Ulisses e as manas,  detestavam,  que horror!, preferindo de longe São Pedro de Moel, que já era chique nesse tempo, atraindo as poucas famílias burguesas, abastadas, da região...

Estamos, entretanto, a falar de uma época em que  o industrial, o empresário capitalista, era menos considerado socialmente do que o comerciante ou até o funcionário público.  O Salazar era um "rural".  O proprietário agrícola, de média ou grande dimensão, esse, sim, tinha mais estatuto. E o Estado Novo estava bem representado por algumas famílias tradicionais agrárias. Umas eram de tradição republicana, e outras não escondiam a seu amor à bandeira azul e branca da monarquia.

Com o 28 de Maio de 1926, e sobretudo com o salazarismo, clarificaram-se  as águas… Os agrários da região, absentistas nalguns casos, deram-se bem com o Deus, Pátria e Família, monárquicos e republicanos, mais conservadores,  reconciliaram-se, sentindo-se representados, mal ou bem, na União Nacional... 

A "praça da jorna" continuou a funcionar ao longo dos anos, fornecendo mão de obra dócil, barata e abundante, os "cavadores de enxada", às principais casas agrícolas. Até que veio, como uma enxurrada imparável, o êxodo rural, a emigração para as cidades e para França e a Alemanha, além da guerra colonial... e depois o 25 de Abril. 

Mas, também, ao fim de três ou quatro gerações, o património fundiário (e nomeadamente as quintas) dessas famílias já andava pelas ruas da amargura: nuns casos, hipotecado aos bancos, noutros expropriado por interesse público  (quando começaram a aparecer os planos de urbanização),  ou  vendido ao desbarato para a especulação imobiliária, ou, noutros casos ainda, mal entregue a caseiros ou a feitores que os roubavam "à grande e à francesa"... 

Poucos se modernizaram, inviabilizando as explorações agrícolas.  As máquinas já não vieram a tempo de suprir a falta de braços, Os netos ou os bisnetos já tiveram que mendigar um emprego "à mesa do Estado".

Foi, além disso, o Anselmo, um homem de visão, como então se dizia… Pôs os quatro filhos a estudar. As raparigas tinham o quinto ano ou tiraram um curso médio,  o rapaz foi mais longe, chegando a embaixador na então CEE, a  Comunidade Económica Europeia. Uma das raparigas foi professora primária, e outra,  assistente social. A mais velha, a ex-mulher do Jorge, ficou a trabalhar com o pai, no escritório da empresa.

O Anselmo nunca foi íntimo das famílias mais tradicionais da terra, mas acabou por ser um dos homens mais endinheirados da região. Investiu no bom tempo também no imobiliário, fez um bairro de casas "à Raul Lino", com o nome da esposa. E acabou por vender as moradias a seguir ao 25 de Abril, "antes que fossem ocupadas". 

Não se adaptou bem aos novos tempos, mas também não se colou aos partidos que, entretanto, nasceram com a liberdade. Não foi "vira-casacas", como muitos outros, logo a seguir ao 25 de Abril. Os democratas do 26 de Abril, nascidos como cogumelos.

Os negócios tiveram altos e baixos, com a descolonização, depois a crise económica e financeira dos anos 70 e 80. A integração na CEE já chegou tarde para ele. A fábrica teve de ser intervencionada. Antes da declaração de falência, e muito  por desgosto com a vida, e com o rumo que tomou o país, para além de problemas de saúde (era diabético), morreu nos princípios dos anos 90, com oitenta e tal anos. Tinha nascido com a República. E "morreu republicano", garantiu o Ulisses, num "in memoriam" que escreveu sobre o pai, e publicado no jornal da terra.

 O Ulisses não era propriamente um amigo do peito do Fernando. Eram apenas conterrâneos, vizinhos e colegas de escola...

− Três anos nos separavam (o que era muito naquele tempo!)...Eu sou da colheita de 1946.   Além dos seus "tiques de classe", quero eu dizer os seus trejeitos de "menino rico", o primeiro a ter uma  "vespa".

Ele já na 4.ª classe e sempre na primeira fila. De bibe, impecável, engomado e  passado a ferro pela criada.  Na altura juntavam-se os putos das várias classes. E ninguém entrava descalço. 

Ele tirou o 2.º ano (hoje o 6.º ano) no colégio da terra, que o Fernando nunca pôde frequentar (era filho de caseiro). 

Depois o pai mandou-o para Lisboa para seguir o liceu. Ficou na casa de uma tia materna, cujo marido trabalhava nas finanças. Tinha explicações particulares de francês e de inglês. E fez a sua primeira viagem ao estrangeiro, com o pai,  por ocasião da  Expo 58, em Bruxelas. Ganhou o gosto pelas viagens e pelas línguas estrangeiras. 

− É capaz vir desse tempo o sonho de enveredar pela carreira diplomática − interrompeu o Jorge. Estou a vê-lo, no regresso da Expo 58... Imagina, um luxo que não era para todos, ir de Lisboa a Bruxelas, de comboio… Um puto com 15 anos!... Eu já namorava com a irmã mais velha… Ofereceu-me um cartaz a cores com o ícone da Expo 58, o Atomium, se bem recordo.

Uns anos depois, estava a frequentar, na faculdade de letras de Lisboa, o curso de germânicas (seguramente por conselho ou imposição do pai)... Ainda apanhou a crise académica de 1962 mas o pai tratou de o ir buscar rapidamente, pondo-o a salvo, antes que as coisas dessem para o torto (como deram).  Nunca apanhou o "vírus" das greves estudantis...

Entretanto foi à inspeção com a malta do ano dele, a de 1943. O pai estava convencido que ele nunca seria apurado para o serviço militar. Tinha um problema no ouvido esquerdo devido a uma otite, mal curada, que apanhara em criança, na época balnear. 

Vinha munido de uma valente cunha e de um extenso relatório médico, passado por um conceituado otorrino, professor da faculdade de medicina de  Coimbra. O pai fez questão de entregar pessoalmente o documento ao presidente da junta médica militar, que por sinal era de Leiria e seu conhecido.

O melhor que o Ulisses conseguiu foi  uma ida ao Hospital Militar Principal, na Estrela, para uma consulta da especialidade. Ficou na lista de espera, tendo de voltar à inspeção militar no ano seguinte.  A gravidade do diagnóstico não foi confirmada. E o Ulisses viu-se apurado para todo o serviço militar, para grande desgosto dos papás.

Podia ter acabado o curso de germânicas, nas calmas (desde que não chumbasse), antes de ser chamado para a tropa,  mas, logo em 1964 numa viagem à Alemanha, numa "summer school" organizada pelo Instituto Goethe, ele arranjou maneira de ficar por lá, tendo-se fixado na Holanda, onde o pai tinha contactos e negócios. 

−  Tudo combinado com o pai, que mexeu todos os pauzinhos para o pôr a bom recato.   adiantou o Jorge.   Não foi uma decisão fácil para o meu ex-sogro: o Ulisses era o único rapaz da família, e era esperado que fosse o seu sucessor à frente dos negócios. 

Mas a vida (ou a guerra de África)  trocou-lhe as voltas. De facto, aqui contava muito a opinião da mãe que, segundo uma cena patética que terá feito lá em casa, "preferia mil vezes ir ver o seu filho a Amsterdão, terra de hereges, do que ir ao cemitério depositar-lhe uma coroa de flores, mesmo sabendo que ia para o céu". 

− A mãe, a minha ex-sogra,  era uma boa senhora, esbelta, viajada, culta, mas  conservadora,   beata, benfeitora e amiga dos pobres. Fundou uma creche que o Anselmo doaria mais tarde â santa casa da misericórdia local e que hoje tem o nome da esposa.

E o Anselmo não autorizava que se falasse de política  à hora das refeições.  De resto, não era hábito falar-se da  "porca da política" (sic) naquela época, muito menos nas casas das pessoas decentes. 

A senhora tinha ficado muito impressionada com a morte do Licas, o filho mais velho da empregada doméstica (na altura, dizia-se "criada"), que morrera em Angola, logo em 1961. Fora o primeiro soldado da terra a morrer na "guerra do ultramar". E o caixão nunca veio, "nem cheio de pedras".

A família era pobre de mais para pagar a urna de chumbo e o transporte marítimo... E o senhor Anselmo aqui também não abriu os cordões à bolsa...Doze  contos de réis era muito dinheiro naquele tempo de incerteza. Ele já tinha interesses no ultramar (em Angola, mais concretamente). E alguém tinha que os defender... Os filhos dos outros, devia ele pensar.

A verdade seja dita: o Ulisses não desperdiçou as oportunidades que lhe surgiram pela frente na sua nova terra... Formou-se em direito europeu em Maastricht, trabalhou no Parlamento Europeu e, talvez ainda mais importante, casou com uma holandesa, filha de um importante dirigente político, de um partido na área da social-democracia, filiado na Internacional Socialista. Abriram-se-lhe depois as portas da diplomacia europeia.

− Foi o Euromilhões do Ulisses, diríamos hoje! − comentou o seu ex-cunhado. 

Segundo ele, passou a ter uma reforma dourada e um vasto capital de relações sociais... Era agora livre de fazer os seus negócios na área do imobiliário, vivia entre  o Algarve  e a Holanda, a terra dos seus filhos e netos... Não se falavam desde que o Jorge se divorciara da irmã. Nem nunca mais aparecera pela santa terrinha. 

−  Nunca morremos de amores um pelo outro...Mas tem cá nome de rua, desde que passou a ser comendador...

− Em boa verdade, não sei o que é que ele fez pela nossa terra... O pai, sim,  mas esse nem nome de beco tem...

− De qualquer modo, ele  é mais holandês do que português!  − arrematou o Jorge. − Que é como quem diz, tem o melhor de dois mundos.  

E concluiu:

− Teve um bom padrinho... o sogro holandês.

− Neerlandês, como se diz agora... Mas eu diria antes:  melhor ainda do que um bom padrinho, é ter um bom paizinho − comentou, irónico,  o  Fernando.

− Foi tudo junto... Cumpriu-se, afinal,  a profecia da parteira, quem nasce de cu virado para a lua tem sempre sorte na puta da vida...


PS - O Ulisses C... morreu uns tempos depois desta conversa. De qualquer modo, o nome é fictício, mas a sua história de vida é real.

© Luís Graça (2022). Última revisão:  14 de julho de 2025.

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Nota do editor LG: