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sábado, 15 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28261: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (15): Os nossos provérbios pouco ou nada populares - Parte IV: Ainda o "Amor com amor se paga". E o ódio, camaradas?!







Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



1. É proibido o ódio no nosso blogue... O discurso do ódio...

Os editores reservam-se, naturalmente, o direito de não publicar textos e fotos (ou de  eliminar, "a posteriori", comentários) que violem as normas legais do nosso servidor (Blogger/Google), bem como as nossas regras de bom senso e bom gosto que devem vigorar numa comunidade de amigos e camaradas da Guiné... E mais concretamente mensagens com:

(i) conteúdo racista, xenófobo, sexista, supremacista,  homofóbico, etc.;

(ii) sexo explícito, material pornográfico (que é diferente de erótico), nu integral, etc.

(ii) carácter difamatório;

(iii) tom intimidatório, provocatório, insultuoso; 

(iv) acusações de natureza criminal ou violação segredos judiciais;

(v) violência, física e/ou verbal (apelo/incitação, uso);

(vi) assédio sexual e moral ("ciberbullying");

(vi) linguagem desbragada,  inapropriada, etc. (mas o bom humor é bem-vindo);

(vii) publicidade comercial ou propaganda claramente político-ideológica (ou "partidária");

(viii) informações/dados  do foro privado, sem autorização de uma das partes (nome completo, filiação, naturalidade, morada, nº de cidadão, nº de telemóvel, etc.);

(x) spam sob a forma de repetição em série de um mesmo comentário em diversos postes...


2. Mas, afinal, o que é o ódio, camaradas ?

No nosso blogue, Luís Graça & Camaradas da Guiné,  é proibido o ódio. O discurso do ódio. Tudo bem.

Mas também não temos que nos amar uns aos outros (combatentes e desertores, "tugas" e "turras",  colonialistas e anticolonialistas, benfiquistas, sportinguistas e portistas, ateus, crentes e agnósticos, brancos, azuis, verdes, vermelhos, amarelos...). 

Talvez por isso tenhamos chegado aos 22 anos de existência na Net. E aos 22 milhões de visualizações de páginas. 

Devemos desconfiar destes números. Sim, como manda a dúvida metódica de Descartes. Visualizações não são "visitas" ou "visitantes" Quem visita, pode visualizar mais do que uma página num dado momento (por exemplo  a esta hora em que eu estou a editar este poste).

Mas é do ódio que importa falar... Sim,  há muito ódio nas redes sociais. No blogue, acho que não tanto, estamos "vacinados"... Temos controlado os "outliers", os extremismos...  

Mas ódio,  ódio, sempre o houve, desde que o homem é homem, um animal mamífero, de sangue quente, territorial, social, omnívoro, predador...(nome científico: "Homo sapiens"; espécie classificada pelos zoólogos na Ordem dos Primatas, tal como o chimpanzé, o gorila, o  orangotanho...mas também o macaco-cão).

Mesmo não havendo  "redes sociais, digitais",  no passado,  sempre houve razões para nos odiarmos uns aos outros e, "in limine" nos matarmos uns aos outros, invocando até (ou quase sempre)  o "sagrado": Deus, Pátria, Família, as nossas crenças, os nossos valores, o nosso solo sagrado...

 Desde o princípio de todas as coisas. Sempre houve "violência" (física e verbal). 

3. A minha dúvida existencial, que levei para a Guiné: posso lutar numa guerra sem ódio ? Sem sentir ódio pelo inimigo, que nem sequer conheço nem sequer vejo muitas vejas ? Tenho mais chances de sobreviver se "odiar"  ou se "não odiar" ? 

O contrário de "amar", não é "odiar",  mas "não-amar", dizem os puristas da língua...

Em suma:  na guerra, tenho que sentir raiva  e ódio ? Ou posso também sentir piedade, compaixão ? Tenho que odiar quem me quer matar ? Quem me aponta uma RPG-7 à cabeça, emboscado, escondido atrás do "bagabaga" ou do grosso tronco do bissilão ? Ou antes, tenho que odiar quem me mandou para a guerra ? 

A "padeira de Aljubarrota" que há 641 anos atrás,  em 14 de de agosto de 1385,  matou (diz a lenda) sete castelhanos (ainda não eram espanhóis...) que se esconderam no seu forno..., só podia matar... por ódio. Os 6 mil e tal portugueses e ingleses que enfrentaram mais de 30 mil castelhanos nesse dia, mês e ano, não poderiam ter vencido essa batalha sem ter experimentado, nessa tarde,  um ódio intenso ao "invasor"... Ou seria "loucura" ? Talvez venha daí a expressão que os "nuestros hermanos" (sic) ainda hoje usam: "Portugueses, pocos pero locos" ("Portugueses, poucos mas loucos")...É verdade, sempre fomos poucos mas...loucos.

Tenho estado a refletir sobre o binómio amor-ódio (interpessoal, intragrupal, intergrupal, a nível nacional e internacional) (*)...  E até intrapessoal: há sempre uma parte de nós que odiamos..., do tamanho do penis ao nariz adunco....

Se não fora assim, os consultórios dos psiquiatras estariam às moscas... Os psiquiatras e demais "psis", os psicólogos, os psicoterapeutas, os médicos, os padres, os feiticeiros,  as bruxas, os astrólogos...

Também desconfio do "Amor com amor se paga"... Altruísmo 'versus' egoísmo ? A sociobiologia também é muito redutora e primária... 

Dei aulas de etologia e sociobiologia, em 1994, a alunos de licenciatura em sociologia,qu se estavam borrifando para o Hawkins, o Wilson, o Lorenzo, etc. Li muito e escrevi muito nesse ano sobre esses temas, incluindo a "pulsão da violènca" que nos leva a matar... 

Mas o que sei eu hoje sobre este campo tão controverso ? Sei que a minha pergunta toca em temas centrais da condição humana: o ódio, o amor, a guerra, a sobrevivência, a moral e até a biologia. 

(i) Afinal, o que é o ódio?

Diz o dicionário:

ódio
(ó-di-o)

substantivo masculino

(a) Sentimento de intensa animosidade relativamente a algo ou a alguém, geralmente motivado por antipatia, ofebsa, ressentimentro ou raiuva= Aversão, repulsa, ≠ Amizade, amor

(b) Objeto desse sentimento.

Etimologia: do latim otium, -ii (ódio, aversão, ressentimento, má vontade, animosidade, irritação, desagrado, insolência).

"ódio", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2026, https://dicionario.priberam.org/pt-br/%C3%B3dio.

O ódio é uma emoção intensa de aversão, hostilidade ou repulsa em relação a uma pessoa, grupo, etnia, classe social, nação, ideia, crença, objeto ou coisa (ex.: odeio o fulano de tal, os ciganos, os balantas, a Guiné, o populismo, os milionários, os comunas, os fascistas, os nazis, as claques de futebol, os "emigras"... mas também a bola, a lampreia, a IA, os tuk-tuk).

Não é apenas uma emoção individual: é também um fenómeno social, muitas vezes alimentado pelo medo, pelo desconhecimento, pela desumanização do outro, pela competição por recursos escassos,  ou pela necessidade de pertencer a um grupo (identidade vs. alteridade).

No contexto das redes sociais (e na guerra), o ódio amplifica-se, devido a a uma série de fatores, como, por exemplo:

  • o anonimato, a impunidade,  o grupo que reduz a responsabilidade individual; na guerra (e nas redes sociais), o "menino de coro" pode transformar-se num "monstro";

  • os algoritmos, que premeiam o conteúdo emocional (incluindo o ódio), pois gera mais interação, mais acessos,  mais visualizações; 
  • as câmaras de eco que  reforçam crenças extremas e demonizam o "outro" (o chamado fenómeno da polarização).

No nosso blogue, Luís Graça & Camaradas da Guiné, o facto de moderarmos os comentários (incluindo o "discurso de ódio") não é um acaso: é uma escolha ativa de preservar um espaço de diálogo, de tolerância, de convivilidade, de responsabilidade, de partilha ... Não é um espaço de censura, mas de abertura.

Os 22 anos e 22 milhões de visualizações são um sinal de que a ausência de ódio atrai mais do que repele. 

Afinal, não é caso para desconfiar desses números: são a prova de que a qualidade do debate,  dos conteúdos, a partilha de memórias (e emoções), a credibilidade, a transparência (toda a gente dá a cara, ninguém se esconde por detrás do "bagabaga" ou do "poilão")  pode ser um "valor de mercado", dá dividendos...

 
(ii) Posso lutar numa guerra sem ódio?

Em teoria, e por vivência pessoal, direi  que sim, é possível. A história está cheia de exemplos de soldados que lutaram por dever, por lealdade, por ideais (liberdade, justiça, proteção de civis, amor à pátria, etc. ) sem ter que odiar o inimigo. 

O ódio não é um pré-requisito para a guerra, mas é um catalisador que facilita a desumanização do outro, e o comportamento sobre-humano a que chamamos heroísmo. E isso, sim, aumenta a crueldade e a eficácia na destruição.

Estatisticamente, sabemos que o ódio pode aumentar a coesão do grupo e a disposição para matar, mas também faz aumentar o risco de trauma: soldados que odiavam o inimigo tinham mais dificuldade em reintegrar-se na família, na comnunidade, na sociedade depois da "peluda"... Além disso, reduz a resiliência (o ódio consome muita energia emocional).

O ódio é uma patologia. A longo prazo, o ódio acaba por esgotar e limitar a estratégia do indivíduo ou do grupo: o ódio oblitera o julgamento; a guerra é também um jogo de xadrez; o ódio faz-me jogar sem eu ver o tabuleiro todo. 

Conclusão: sobrevivo melhor sem ódio. A frieza, o profissionalismo, a inteligência emocional ou até a compaixão (sim, até na guerra, pode haver compaixão, que não é a mesma coisa que empatia, e muito menos amor) podem ser vantagens. 

O ódio é um luxo que muitos não podem pagar. Fiz prisioneiros (eu e a minha companhia, a CCAÇ 12); nunca odiei nenhum prisioneiro nem o torturei (mas outros fizeram-no por mim, em meu nome, em nome do grupo)...


(iii) Amor vs. ódio: altruísmo vs. egoísmo

A sociobiologia explica o altruísmo como uma estratégia evolutiva: cooperamos com quem partilha os nossos genes ou os nossos interesses. Mas isso é redutor. O ser humano é muito mais do que instintos, genoma, ADN, sexo, testosterona.. É mais do que o nosso gene egoísta que se quer reproduzir â viva força.

Sim, o amor pode ser um ato de resistência. Em contextos de guerra ou opressão, o amor (pela família, pela pátria, por um ideal, pela liberdade, pela justiça) é muitas vezes o que mantém as pessoas de pé.

"Amor com amor se paga": não é uma lei universal, mas é um contrato social. Se todos agirem com egoísmo puro, a sociedade colapsa. O altruísmo não é ingénuo: é racional a longo prazo. Também é,pois,  "interesseiro".
 
O ódio também é uma  ferramenta de manipulação e mobilização: o ódio pode ser útil para mobilizar massas (viu-se isso durante as guerras civis liberais, em 1828/34, na guerra colonial de 1961/74, no "verão quente de 1975", na ocupação indonésia de Timor Leste e na resistência dos timorenses aos ocupantes, etc.) mas é insustentável a longo prazo. 

Amílcar Cabral pregou o ódio ao colonialismo mas distinguiu os colonialistas e o povo português. Claro que o colonialismo não é uma coisa abstracta...

 As sociedades que duram são aquelas que conseguem gerir o ódio, não as que o celebram (como a Alemanha nazi). 

Dicas práticas para o meu dilema existencial, quando eu tiver/nós tivermos  que me/nos  envolver numa nova guerra (cruzes canhoto!... mas nunca se sabe nem onde nem quando podemos ser apanhados de novo por um conflito armado, nós, os nossos filhos, os nossos netos):
  • o ódio é uma escolha, não uma fatalidade: podes reconhecer a raiva, a injustiça, a dor, sem te deixares consumir por elas;
  • a guerra (metafórica ou real) ganha-se com inteligência, não com ódio;
  • o ódio cega; a estratégia, a empatia (até com o inimigo) e a resiliência são armas mais poderosas do que o ódio;
  • e se tivessemos conseguido  juntar,  numa mesma "seleção nacional",  Sarmento Rodrigues, Adriano Moreira,  Spínola, a "Cilinha" mas também... Amílcar Cabral e a "Maria Turra"?;
  • o altruísmo não é fraqueza;
  • a história mostra que as sociedades mais cooperativas são as mais resilientes; 
  • o egoísmo puro é um beco sem saída;
  • desconfiar dos extremismos (e de quem os defende) é um bom princípio; 
  • tanto o ódio cego como o amor ingénuo são perigosos ("Deus manda ser bom, mas não ser parvo", diz o provérbio);
  • o equilíbrio (dinâmico) está na difícil lucidez;
  • o ódio é fácil;
  • o amor é difícil;
  • ...mas  é o único que constrói algo que dura nas nossas relações (intragrupais, intergrupais, comunitárias, nacionais, internacionais).
(Continua) (**)
_________________

Notas do editor LG:

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28215: Nomadizações de um marginal secante (Luís Graça) (13): Os nossos provérbios pouco ou nada populares - Parte III: "Amor com amor se paga"





O Jaime, pagador de promessas... de outrém 

Prompt e orientação  editorial: Luís Graça
Texto: Jaime Silva (2026)
Geração gráfica assistida por IA:
Google (2026). Gemini (versão de 22 de julho de 2026) 
[Grande modelo de linguagem].


1. "Amor com amor se paga" (*)... Se paga ou... se apaga ? Porque amor é fogo... E o ódio, camaradas ? Como é que  puderam, como é que pudemos fazer uma guerra sem odiar ?  Será o ódio o oposto do amor ? Ou trata-se de um continuum ? 

Que leitura fazer, enfim,  deste provérbio português, dito popular ? Afinal, qual a sua origem ? Também se diz noutras línguas latinas (italiano, francês, espanhol...).

De facto, é daqueles provérbios que carrega séculos de sabedoria dita popular. Mas também ambiguidade. "Amor com amor se paga" é uma máxima que reflete uma lógica de reciprocidade positiva: o bem gera bem, a generosidade inspira generosidade...

Mas a pergunta que fazemos ("E o ódio, camaradas ?"), também é reveladora. A resposta popular, muitas vezes implícita, é que o ódio também se paga/apaga com ódio. Ódio gera o ódio, 

É a velha Lei de Talião disfarçada de senso comum: olho por olho, dente por dente. Uma espiral que a história e a psicologia humana conhecem bem.

Abramos um parênteses para dizer que  a Lei de Talião é um princípio jurídico e moral antigo que estabelece que a pena aplicada ao causador de um crime deve ser rigorosamente proporcional e equivalente ao dano por ele provocado. É popularmente sintetizada pela máxima: "Olho por olho, dente por dente."

A expressão deriva o latim lex talionis, vinda de talis, que significa "tal e qual", "igual" ou "semelhante".


2. Vejamos, numa abordagem mais crítica, este provérbio ("Amor com amor se paga"), aparentemente tão pacífico, neutro e  inocente:

(i) A reciprocidade como espelho social

O provérbio assume que as ações humanas são espelhadas: o que damos, recebemos. É a teoria do dom. 

Mas o ódio, ao contrário do amor, não se "(a)paga": multiplica-se, exponencialmente. Vejam-se as guerras, as guerras civis, o discurso de ódio nas redes sociais...A violência gera violência, o ressentimento alimenta mais ressentimento, a intolerância é um rio sem margens... 

É a lógica dos ciclos de vingança em sociedades sem Estado (ou pré-estatais), onde a justiça era privada, os mais fortes faziam-na pelas suas próprias mãos.. E, enfim, a honra lavava-se com sangue.

Exemplo: nas vendettas corsas ou nas rivalidades entre famílias em Trás-Os-Montes ou nas Beiras, o ódio não se "(a)paga", herda-se. Passa de pais para filhos.

(ii) Função social do provérbio

Estes ditos não são inocentes. Nunca o foram. Serviam (e servem) para controlar comportamentos: se o amor é recompensado, o ódio é castigado, não pela lei, mas pela própria dinâmica social. 

Era uma forma de reforçar a coesão em comunidades onde o braço do Estado (a polícia, os tribunais, o exército...) não chegava. Exemplos:  dos fulas aos balantas da Guiné, sem esquecer os habitantes das comunidades agropastoris de montanha, como Rio de Onor ou Vilarinho das Furnas que são mais antigas que o Estado Portuguès ou Espanhol...

Ironia: o mesmo provérbio que prega o amor como moeda de troca normaliza o ódio como resposta legítima.

(iii) O ódio como exceção

O provérbio omite o ódio porque, na cultura popular, ele é visto como força disruptiva, não como parte do ciclo "natural". O amor constrói; o ódio destrói. 

Mas a sua ausência na frase ("Amor com amor se paga"...) não significa que não exista: significa que é tabu. Fala-se do amor para incentivar, cala-se o ódio para o não legitimar.

(iv) Lusofonia e universalidade

Não é exclusivo da língua portuguesa. Aparece noutras línguas latinas (e nos crioulos de Cabo Verde e da Guiné-Bissau:
  • "Amor con amor se paga" (espanhol):
  • "L’amore si paga con l’amore" (italiano);
  • "L’amour se paie d’amour" (francês) (mas também existe: "La haine engendre la haine", "Ódio gera ódio");
  • "Amor amb amor es paga (Catalão);
  • "Amor con amor se paga" (Galaico-Português antigo);
  •  "Amor ku amor ta pagadu" ou "Amor ku amor ta pagá" (Crioulo de Cabo Verde) (kriolu);
  • "Amor ku amor ku ta pagadu" ou "Amor ku amor ta pagado" (Crioulo da Guiné-Bissau) (kriol)-
Nas línguas germânicas, a expressão costuma recorrer ao verbo "retribuir" (requite, vergelten) ou à metáfora do espelho/reflexo, mais do que à imagem do "pagamento":

  • Inglês: "Love is the reward of love" (O amor é a recompensa do amor) ou "Love begets love" (O amor gera o amor). No inglês arcaico/literário, encontra-se também "Love requites love".
  • Alemão: "Liebe wird mit Liebe vergolten" (O amor retribui-se com amor).
  • Neerlandês: "Liefde moet met liefde beantwoord worden" (O amor deve ser respondido com amor).

Nas línguas africana e asiáticas, a reciprocidade amorosa é muitas vezes expressa através de provérbios sobre a interdependência humana ou a colheita:

  • Umbundo (Angola): "Ohole iñgila k’ohole" (O amor entra pelo amor / O amor atrai o amor).
  • Suaíli (África Oriental): "Upendo hulipwa kwa upendo" (O amor é pago com amor) (decalque direto usado na tradição moral Swahili; há também o ditado "Upendo ni nusu ya uzima" (O amor é metade da vida).
  • Iorubá (Nigéria): "Aféfe rere l’o nfe’ni, á fẹ́ni l’á ń fẹ́" (Ama-se quem nos ama / O afeto retribui-se a quem o oferece).
  • Mandarim: 投桃報李 (Tóu táo bào lǐ), o que quer dizer à letrea: "Oferecer um pêssego e receber em troca uma ameixa" (usado para a reciprocidade na amizade e no afeto).
Conclusão: a reciprocidade do amor é universal, mas o ódio é tratado como exceção cultural. Em línguas germânicas,  a ideia é semelhante, mas menos poética.  Noutras línguas, com o mandarim, é mais metafórica-

(v) Origem do provérbio 

Tem raízes bíblicas e clássicas. A ideia de reciprocidade aparece na Bíblia (ex: "Tudo o que o homem semear, isso também ceifará", Gálatas 6:7) e em filósofos gregos como Aristóteles (ética da amizade em "Ética a Nicómaco").

Mas a formulação exata "Amor com amor se paga" é  portuguesa, medieval,  ligada à tradição oral. Surgiu num contexto rural, onde a solidariedade, a entreajuda. era essencial para a sobrevivência (serviçadas, vezada, ajuda entre vizinhos).

Primeiras ocorrências escritas enncontram-se no século XVI, em obras como "Proverbios que dizem os Antigos" (1555), de D. Francisco Manuel de Melo, ou em recolhas de Pêro de Magalhães Gândavo ("Diálogos de Vária História", 1575).

Curiosidade: em castelhano, aparece em "El Corbacho" (1398),  de Alfonso Martínez de Toledo, mas com foco na crítica aos vícios.

Alguns estudiosos (como Leite de Vasconcelos) sugerem que provérbios portugueses com estrutura paralela ("X com X se paga") podem ter origem em ditos árabes andalusinos, dado o contacto durante a chamada Reconquista. Exemplo: "Al-ḥubbu bi-l-ḥubbi yujzā"  (الحب بالحب يُجزى) ("O amor com amor é recompensado") em árabe clássico.

3. Porque é que, afinal,  o ódio não se "paga" (nem  se "apaga")?

Porque o ódio não é transação, é doença, é patologia.  O provérbio ("Amor com amor se paga")  pressupõe uma lógica de equilíbrio (dar/receber), mas o ódio é assimétrico.

O amor exige dois para existir. O ódio basta-se a si mesmo (odeio sozinho, um contyra todos, sem precisar de correspondência).

É por isso que, em muitas culturas, o ódio é associado a castigo divino ("Minha é a vingança,  diz o Senhor", Romanos 12:19)... A sociedade não consegue (ou não quer) gerir a sua reciprocidade.

Segundo a  sociobiologia, o ódio tem uma função evolutiva: proteger o grupo (odeio o inimigo que ameaça o meu grupo, a minha tribo, o meu povo, o meu país)

Mas também sabemos que, hoje, esse mesmo ódio destrói o grupo por dentro (guerras civis, polarização política).

O provérbio é bonito, mas incompleto. A versão completa seria: "Amor com amor se paga... e a cadeia de ódio, se não for interrompida, paga-se com a morte da humanidade em nós."

Numa altura em que Portugal (e o mundo) está tão dividido, será que este provérbio ainda serve para algo... ou é tão só o eco de um tempo em que a vida era realmente mais simples?

(Pesquisa: LG + IA (Vibe Mistral | Gemini Google)
(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos: LG)
________________


Vd. também 19 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28195: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (11): Os nossos provérbios pouco ou nada populares - Parte II: "O peixe e o hóspede ao fim de três dias fedem"

domingo, 19 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28195: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (11): Os nossos provérbios pouco ou nada populares - Parte II: "O peixe e o hóspede ao fim de três dias fedem"


Prompting e orientação editorial: Luís Graça
Texto: Luís Graça
Geração gráfica assistida por IA:
Google (2026). Gemini (versão de 19 de julho de 2026) [Grande modelo de linguagem].


1. Continuando a nossa viagem (exploratória e crítica) pelo mundo dos  provérbios populares da Língua Portuguesa, alguns dos quais são pouco ou nada populares, mas fazem parte do nosso "manual de sobrevivência" (*)...

 "O peixe e o hóspede ao fim de três dias fedem"  (**)... 

A hospitalidade tem limites: é isso que quer dizer o provérbio. Ou por outras palavras: "Deus manda ser bom, mas não manda ser parvo".

O provérbio compara o hóspede e o peixe: este  sem refrigeração,  estraga-se ao fim de 3 dias...Fede, cheira mal. O  mesmo se passa com o hóspede que abusa da tua hospitalidade: se ficar mais de 3 dias na tua casa, começa a ser um incómodo, um tropeço, um fardo.

Há aqui duas metáforas, a  da sobrecarga e a  do mau cheiro: em casas pobres, receber um hóspede era um fardo económico. A comida era escassa, as bocas eram muitas, um boca extra tornava-se um problema-

Por outro lado,  na proto-história da saúde pública, esta máxima pode ser tomado como um conselho higiénico: o peixe a feder, a cheirar mal,  era também uma referência à falta de condições sanitárias. 

No passado, antes da eletricidade e do frigorífico,   não havia forma de conservar a comida por mais de 2-3 dias. Daí o recurso a técnicas de conservação dos alimentos: o fumo, o sal, o sol... O peixe salgava-se e ia para a salgadeira como a carne de  porco. Ou então secava-se ao sol, como o bacalhau. (Também se  defumava: veja-se nosso famoso fumeiro...) 
. E comia-se no inverno com batatas e cebola, cozido, o peixe seco ( que agora é produto gourmet, a começar pelo bacalhau, cada vez mais arredio da mesa dos portugueses...).

É bom lembrar o contexto histórico: de facto, na nossa terra, em Portugal, até meados do século XX, a conservação dos alimentos era um desafio. O peixe seco (bacalhau, raia, safio, cação, carapau, etc. ) ou em salmoura (o atum de barrica, a sardinha, etc.) era a exceção; o peixe fresco apodrecia rapidamente, nomeadamente no verão. 

A hospitalidade era um dever cristão, uma obrigação moral, mas também um risco económico. Em tempos de fome ou carestia, alimentar um hóspede poderia significar menos comida para a família, incluindo os mais fracos, as crianças e os velhos. 

Ainda há gente da nossa geração que se lembra da "sardinha para três"... Não, não é miserabilismo. Vendiam-se os ovos (!) para se comprar sardinhas que já chegavam moídas, sem graça, às aldeias do interior, em carroças de burro!

Está implícita uma crítica social neste provérbio: o dilema é caridade ou  egoísmo ? Solidariedade ou sobrevivência?

 O provérbio defende  o "struggle for life", o salve-se quem puder...O provérbio parece cruel, mas é na realidade um retrato da escassez. Não é falta de generosidade, solidariedade ou até caridade, é o medo animal, fisiológica, ancestral,  da fome.

Aqui o "fedor" é também uma metáfora: o fedor não é só físico, mas também social. O hóspede que se demora, que abusa da tua hospitalidade,  passa a ser um peso, e a sua presença contamina o ambiente familiar.

Fedor vem do verbo feder, palavra que, por sua vez,  vem do latim foeteo, -ere, ter cheiro fétido, cheirar mal, repugnar, ser insuportável. (Fonte: "feder", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2026, https://dicionario.priberam.org/feder)

2. Curiosamente, hospital, hospício, hóspede, hotel... são palavras que estão próximas pela etimologia...

Etimologicamente, hospital (e hotel, do francês hôtel, e este por sua vez do francês antigo hostel) é um termo que vem do baixo latim hospitale (lugar onde se recebem pessoas que necessitam de cuidados, alojamento, hospedaria), do latim hospitalis (relativo a hospites ou hospes, hóspedes ou convidados) (**). 

A Europa medieval foi  profundamente marcada pela terrível fragilidade da condição humana,  pobreza absoluta e escatologia cristã. Ora, esses hóspedes eram originariamente não só os doentes pobres mas qualquer pessoa necessitada de qualquer outro tipo de cuidados (alojamento, alimentação, abrigo, protecção, ajuda, conforto, assistência, etc.): não só os enfermos, os incapacitados, os deficientes, os velhos, os pobres, os vagabundos como também os peregrinos e os viajantes.

Na Alta Idade Média (do séc. V ao séc.  XI), o hospital confundia-se com a albergaria ou o hospício (do latim hospitiu, alojamento, hospitalidade, também derivado de hospes). Em geral, ficava junto às catedrais ou aos mosteiros, em conformidade com as instruções dos concílios ecuménicos de Niceia (325) e de Cartago (398).

Tratar dos doentes (hóspedes) eram um dever de caridade, uma obra de misericórdia.

Ora este ditado (velho... e "os ditados velhos são evangelhos"!) vinha lembrar que, apesar do dever de caridade e de hospitalidade, "o hóspede e o peixe aos três dias fedem", isto é, cheiram mal, estão a mais, tornam-se um fardo. Em casa, na albergaria do convento, no hospicio ou no hospital.

Não haverá porventura nada de mais cruel, na literatura da administração hospitalar, do que esta insinuação de que, sendo o doente um "hóspede", ele é sempre um encargo e, em última análise, é indesejável. 

E também não há discurso sobre a humanização do hospital que possa resistir ao efeito corrosivo e perverso desta ideia da doença como punição e expiação ("Se Deus o marcou, algum mal lhe achou").

Para a generalidade dos doentes, a hospitalização é(era) sentida com um misto de culpa e de obrigação: culpa, por um lado, de estar doente, representando um encargo para os outros (a família, a comunidade, a empresa, a sociedade, o Estado, os médicos e os outros profissionais de saúde, o serviço nacional de saúde, etc.); obrigação, por outro, de se curar o mais rapidamente possível, de ser um doente colaborante, complacente, bem comportado, etc.

Estes dois sentimentos variam também em função da classe social e do sistema de saúde: quando o doente se sente, se reconhece e se assume como um utente, consumidor ou cliente,  naturalmente que ele está em melhores condições para negociar, numa base mais equitativa , ou seja, na base de uma relação menos assimétrica de poder e negociação. Mas há sempre um "terceiro pagador" no sistema de saúde: o seguro,  a segurança social,  o Estado (através dos impostos)...

De qualquer modo, o poder dos profissionais assenta(va), histórica e culturalmente, sobretudo neste duplo sentimento de obrigação e de dependência.

Outros provérbios podem aproximar-se desta ideia de hospitalidade e hospitalização (**):

  • "A mandar nunca ninguém foi ao hospital";
  • "Doente que inspirra, fora do hospital";
  • "Mal por mal, antes na cadeia do que no hospital";
  • "Mal por mal antes cadeia que hospital e antes justiça que misericórdia";
  • "Na cadeia e no hospital só os amigos verás";
  • "Na cadeia e no hospital todos temos um lugar";
  • "Na cadeia, no jogo e na doença se conhecem os amigos";
  • "Na prisão e no hospital vês quem te quer bem e quem te quer mal";
  • "Os hóspedes duas alegrias dão: quando chegam e quando se vão";
  • "Peregrinos, muitas pousadas, poucos amigos";
  • "Quando pobre come frango, um dos dois está doente";
  •  "Quem quiser comer arroz sem sal vá para o hospital".
 

sábado, 1 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27372: Manuscrito(s) (Luís Graça) (277): As andorinhas de Candoz na véspera da "grande viagem" para a África (subsariana, equatorial e até austral)


Vídeo. 0' 45''. Alojado em Luís Graça > You Tube



Vídeo: 2' 00'' . Alojado em Luís Graça > You Tube

Quinta de Candoz > Paredes de Viadores > Marco de Canveses > 11 de setembro de 2025. 15h40. Dia de vindimas. Tempo de trovoada. Calor e humidade. Milhões de insectos, centenas de andorinhas. Ambos, os insetos e as andorinhas, parece,  surgir do nada. Como na Guiné, no incío da época das chuvas. 

Antes de partirem para África, as andorinhas, com este festim, reforçam as suas reservas de proteína. Nunca nos tinhamos apercebido deste fenómeno.  

Vídeo: Luís Graça (2025)



Quinta de Candoz > 8 de abril de 2023



Quinta de Candoz > 6 de julho de 2023



Quinta de Candoz > 11 de setembro de 2024



Quinta de Candoz > 11 de abrul de 2025



Quinta de Candoz > 11 de setembro de 2025


 

Marco de Canaveses, Paredes de Viadores, Candoz, Quinta de Candoz > 23 de Agosto de 2012 > Fotograma de vídeo > Ninho de andorinha, insólito, construído à volta da lâmpada do hall exterior ou alpendre de uma das nossas casas (antiga "casa de caseiro", que deixou de ser habitada há muito)...

Aos 43 segundos vê-se uma andorinha entrar no ninho levando insetos para alimentar as crias, e 10 segundos depois a sair para mais uma "caçada" na (e ao redor da) Quinta de Candoz, que é rica em insectos... O ninho tinha sido recentemente reconstruído. As andorinhas caçam em círculo, num raio de 500 metros do ninho.

Vídeo (1' 07''): © Luís Graça (2012). Alojado em Luís Graça : You Tube

Fotos e vídeos (e legendas): © Luís Graça (2025). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné] 
 


 1. O vídeo, que eu fiz em 2012, comprovava a existência de um família de andorinhas, que vinham todos os anos do norte de África, imaginava eu, passar as férias de verão e reproduzir-se em Candoz, na nossa quinta... Acabei / acabámos por manter um especial carinho por este ninho... Nunca, que eu tivesse reparado, nenhuma andorinha tinha feito ninho na nossa terra...no séc. XX.  Estas, tal como eu, chegaram e gostaram, voltando sempre...   

Mais tarde, num qualquer mês de junho em que estive em Candoz,  para surpresa e desgosto meus, dei conta que a "abóboda" do industrioso ninho tinha caído, possivelmente sob o efeito de alguma intempérie. Voltei, dois meses depois, a sorrir, quando dois mneses depois, em agosto, verifiquei   que o ninho tinha sido reconstruído e tinha novos inquilinos, seguramente descentes dos primitivos construtores .

 Moral da história: as andorinhas, mesmo aquelas que são mais "desalinhadas", mostram aos seres humanos que todos podemos ser ao mesmo tempo iguais, diferentes e únicos, e que isso só nos enriquece como espécie... Ah, tem outras qualidades, importantes nos tempos que correm, de feroz individualismo, chauvinismo, xenofobia, racismo, populismo, intolerância, arrogância etnocêntrica, belicismo: é leal, gregária, solidária, corajosa, persistente, vai à luta, não desiste... Parafraseando o Evangelho de Jesus Cristo, segundo Mateus (6: 26), tomemos como exemplo as andorinhas e demais aves do céu...


2. Em Candoz temos andorinhas.  Todos os anos nidificam lá.  Em vinte e tal, talvez até trinta anos, já devem ter nascido muitas. Morrido algumas.Emigrado todas. Quantas, ao fim destes todos ? Não sei. Só conheço um ninho. 

Só sei que as andorinhas nidificam no Norte do país, na Quinta de Candoz, Paredes de Viadores, Marco de Canaveses... Quantas ? Só temos esse  ninho, e o povoamento é disperso.

Pergunta o leitor, leigo, curioso: e nessa "grande viagem", intercontinental, vão para onde e quando ?

As andorinhas funcionam como nós, se acordo com  aos ciclos da natureza. No nosso caso, podemos dividir o no em dois solstícios, o do inverno e o do veráo. Afetam a maneira como vestimos, nois alimentamos, trabalhamos, vivemos, passeamos,  etc. As andorinhas são, como toda a gente sabe, um dos sinais mais alegres, para nós seres humanos,  da chegada da primavera e do outono (neste caso, um sinal de tristeza, com a sua partida para outras paragens, o longínquo Sul, a África subsariana).
 
As andorinhas começam a chegar a Portugal em fevereiro e março. Nascidas as crias, partem durante o mês de setembro (na sua grande maioria), Daí a expressáo popular: “És como a andorinha: vens e vais com as estações.”

Em Portugal nidificam em Portugal, incluindo no Norte, na Quinta de Candoz. Migram depois viajam para África subsariana onde passam o inverno.

Claro que não chegtam de uma só vez, em bando. A sua chegada prolonga.se por várias semanas."Uma andorinha não faz a primavera", diz o provérbio. "Nem por morrer uma andorinha se acaba a primavera".

As primeiras a chegar podem ser logo observadas no sul do país, no Algarve, por  finais de janeiro e ao longo do o mês de fevereiro. Como diz o ditado, : "Pelo São Brás (3 de fevereiro), a andorinha verás".

À medida que o tempo aquece e a disponibilidade de insetos (que são o seu alimento) aumenta, elas progridem para Norte. Na nossa Quinta de Candoz, é vè-las, a começar a andar à volta do ninho  partir de março/abril. Quase todos os anos, há trabalhos de manutenão/reconstrução. Que podem levar mais de uma semana,,,

Elas vêm até nós para nidificar. O clima ameno da primavera e do verão no suld a Europa oferece as condições ideais: abundância de insetos,  dias mais compridos para alimentar as suas crias, etc.

A espécie mais comum que vemos a fazer os ninhos de barro nos nossos beirais é a Andorinha-das-chaminés (Hirundo rustica). Tem um peso médio que varia entre 16 e 25 gramas.  .

 As aves insetívoras, especialmente as que têm um voo tão ativo e acrobático como as andorinhas, possuem um metabolismo muito elevado e precisam de consumir uma grande quantidade de alimento para obter energia. A regra geral para muitas aves pequenas e ativas é que consomem uma quantidade de alimento próxima do seu próprio peso corporal por dia.

Com base em estudos de ornitologia e no metabolismo destas aves, um valor razoável para o consumo diário de uma única andorinha adulta é: entre 10 a 22 gramas de insetos por dia.

Este valor corresponde, aproximadamente, a 70-100% do seu peso corporal, o que é um feito energético extraordinário, mas biologicamente plausível.

confrontámos a nossa assistente de IA com este "dislate" ou "disparate"... A resposta, diplomática, veio logo a a sguir: "Onde a confusão pode ter surgido é ao considerar não o consumo individual, mas o esforço de caça de um casal para alimentar as suas crias"...

 É aqui que os números disparam:

(i) um casal: duas andorinhas adultas já consomem, juntas, entre 20 a 40 gramas de insetos por dia só para si;

(ii) as crias: uma ninhada típica tem entre 4 a 6 crias; nos primeiros dias de vida, as crias crescem a um ritmo alucinante e precisam de ser alimentadas constantemente; cada cria, essa sim, pode consumir uma quantidade de insetos equivalente ao seu próprio peso em desenvolvimento;

(iii) o esforço total: um casal de andorinhas tem de caçar o suficiente para se alimentar a si próprio de para alimentar as 4-6 crias famintas no ninho; o  esforço de caça do casal pode resultar na captura de uma massa total de insetos que pode facilmente ultrapassar as 80 ou 100 gramas por dia.

 Este esforço de caça traduz-se em centenas, ou mesmo milhares, de insetos (mosquitos, moscas, afídeos, etc.) capturados diariamente, o que faz das andorinhas um elemento fundamental e gratuito no controlo de populações de insetos e de eventuais pragas para o agricultor.

 Antes de partirem para o Sul, para a tal "grande viagem", há um processo de agrupamento curiosos:  a partir de finais de agosto e durante o mês de setembro, começa-se a a notar um comportamento diferente. As andorinhas, incluindo as crias já jovens e já capazes de voar, juntam-se em grandes bandos. É nessa altura que podemos vê-las pousadas em fios elétricos e de telefone, como que a preparar-se para a "grande viagem". Durante os meses anteriores, não têm um minuto para descansar. O seu ritmo de vida é alucinante!

No final do verão e início do outono, é comum observar a formação de enormes bandos de andorinhas. Estes aglomerados, que podem juntar milhares de indivíduos, têm como principal objetivo a alimentação intensiva. As aves aproveitam a abundância de insetos voadores para se alimentarem de forma contínua, voraz e eficiente, garantindo que acumulam a gordura corporal essencial para a travessia de milhares de quilómetros. 

Este comportamento gregário é uma estratégia de sobrevivência. Voar em grandes grupos oferece também proteção contra predadores e facilita a localização de áreas com maior concentração de alimento. Durante a própria migração, estes bandos fazem paragens estratégicas para descansar e reabastecer as suas reservas energéticas, continuando a sua jornada em busca de climas mais quentes e de alimento abundante.

A maioria destes bandos inicia a sua longa viagem para Sul durante o mês de setembro. Algumas aves podem partir um pouco mais tarde, mas em outubro já não vemos andorinhas em Candoz. 

 Todas elas têm o mesmo padrão migratório ancestral.O seu destino de inverno é a África subsariana. Atravessam Portual e a Espanha. A sua principal rota de saída  é através do Estreito de Gibraltar. Náo é preciso "dizer-lhes" que essa é a  mais curta  distância marítima entre o sul de Espanha e Marrocos. A partir daí, enfrentam outros obstáculos; a travessia do Saara até chegarem aos seus locais de invernada. De facto, elas não ficam no Norte de África. Atravessam o Deserto do Saara para chegar a zonas mais ricas em insetos, como a bacia do Congo e até mesmo a África do Sul. Absolutamente incrível!

É uma autêntica odisseia. É uma viagem duríssima e cheias de riscos.  de  milhares de quilómetros. É feita duas vezes por ano!...São guiadas pelo campo magnético da Terra, pela posição do sol e por outros instintos que a ciência ainda tenta compreender por completo.

 Quanto à sua alimentação....Claro, são insetos.  E quanto comem em média ? Não há estudos concludentes   sobre a quantidade média de gramas de insetos que uma andorinha come por dia em Portugal. No entanto, estudos gerais indicam que andorinhas, sendo aves insetívoras, consomem diariamente uma quantidade significativa de insetos para suprir suas necessidades energéticas, o que normalmente pode variar entre alguns gramas até cerca de 10 a 20 gramas de insetos por dia, dependendo do tamanho da ave, espécie e disponibilidade de alimento.

Para uma andorinha típica (que pesa entre 16 a 20 gramas), o consumo diário de insetos geralmente representa uma alta proporção do seu peso corporal, aproximadamente entre 10% a 20% do seu peso corporal diário, o que poderia equivaler, grosso modo, a cerca de 2 a 4 gramas de insetos por dia, em média.

Este valor é uma estimativa baseada em dados gerais de consumo alimentar de aves insetívoras de tamanho semelhante

3. O que podemos saber  mais sobre as andorinhas (ou como resumir o  que já dissemos atrás), recorrendo à nossa Wikipedia:

(...) As andorinhas são um grupo de aves passeriformes da família Hirundinidae. A família destaca-se dos restantes pássaros pelas adaptações desenvolvidas para a alimentação aérea. As andorinhas caçam insectos no ar e para tal desenvolveram um corpo fusiforme e asas relativamente longas e pontiagudas. Medem cerca de 13 cm (comprimento) e podem viver cerca de 8 anos. (...) 

"As fêmeas fazem uma postura de 4 ou 5 ovos, que depois são incubados durante cerca de 23 dias. Passado o tempo da incubação, nascem os jovens, cuja alimentação é feita por ambos os progenitores. 

"Quando a temperatura baixa, as andorinhas juntam-se em bando e vão à procura de locais da Europa mais quentes, indo também para o norte de África. Depois, quando a temperatura volta a subir, por volta da primavera, regressam novamente. Constroem as suas casas perto do calor, em pequenos ninhos normalmente colados ao tecto." (...)

(...) "Originalmente, a andorinha-dos-beirais [ 'Delichon urbicum'] construía os seus ninhos em falésias e cavernas. Ainda são encontradas algumas colónias em falésias, com o ninho construído sob uma rocha saliente, mas atualmente esta espécie usa sobretudo estruturas feitas pelo homem, como edifícios e pontes, de preferência junto à água. 

"Ao contrário da andorinha-das-chaminés, usa a parte exterior de edifícios abandonados em vez do interior de estábulos ou celeiros. Os ninhos são construídos na junção da parede com o beiral, ficando assim fortalecidos pela ligação a dois planos distintos.

"Regressa à Europa para nidificar entre abril e maio, e a construção dos ninhos ocorre entre o fim de março (no norte de África) e o meio de junho (na Lapónia). O ninho tem a forma de uma taça fechada com uma abertura estreita no topo e é feito com pedaços de lama colados com saliva, e forrado com palha, ervas, penas ou outros materiais macios. A sua construção demora até 10 dias e é levada a cabo tanto pelo pela fêmeacomo pelo macho.

"Frequentemente, o pardal-doméstico ('Passer domesticus') ocupa o ninho durante a sua construção, forçando a andorinha-dos-beirais a construir um novo. A abertura no topo do ninho completo é tão pequena que os pardais não conseguem ocupá-lo uma vez construído.(...)
 
"A andorinha-dos-beirais é mais gregária do que a andorinha-das-chaminés 
['Hirundo rustica'] estando habituada a viver e a migrar em bando, e tende a nidificar em colónias numerosas. Os ninhos podem inclusive ser construídos em contacto uns com os outros. Tipicamente, estas colónias têm menos de dez ninhos, mas há registos de colónias com milhares de ninhos. Cada postura possui habitualmente quatro ou cinco ovos brancos, com um tamanho médio de 1,9 x 1,33 cm e um peso médio de 1,7 g. A incubação dura geralmente de 14 a 16 dias, e é feita essencialmente pela fêmea. As crias recém-eclodidas são altriciais e necessitam de 22 a 32 dias, dependendo das condições atmosféricas, para abandonar o ninho" (...) (Fonte: Wikipédia)



4. Nenhuma assistente de IA (ChatGPT, Perplexity, Gemini...) conseguiu dizer-me  com segurança de que espécie era o ninho mostrado nas imagens e descrito na perguntei que lhes submeti.


Hirundo rustica
Cecropis daurica
Uma diz que é característico da espécie conhecida como andorinha-das-chaminés (Hirundo rustica), mas o formato e localização sugerem que pode pertencer à andorinha-dáurica (Cecropis daurica), também chamada de andorinha-dos-beirais ou andorinha-dos-arcos.​



  • Andorinha-das-chaminés (Hirundo rustica): costuma nidificar em locais abrigados como estábulos, garagens ou beirais, construindo ninhos de barro semicirculares abertos, normalmente apoiados numa saliência.​
  • Andorinha-dáurica (Cecropis daurica): nidifica frequentemente em estruturas humanas, como alpendres, mas o seu ninho tem forma de cabaça ou garrafa, com um longo túnel de entrada, como se observa nas imagens acima; utiliza barro misturado com saliva e prefere locais protegidos, frequentemente em habitações rurais pouco usadas (como é o caso do alpendre, na Quinat de Candoz).​

Reconstrução anual

Ambas as espécies costumam reconstruir e reutilizar os ninhos de barro todos os anos, especialmente se estes se mantêm estruturais e protegidos das intempéries e predadores.​ Mais recentemente verifiquei que o ninho de Quinta de Candoz  tinha sido "vandalizado" por um "ocupa", mais provavelmente uma "boeira"  ou ""lavandisca".

Por causa dos "ocupas", a andorinha tem de ter a liberddade criativa do arquiteto e o rigor milimétrico do engenheiro: o diâmetro do túnel de entrada do ninho tem de ser ajustado ao seu  corpo fusiforme... Elas entram no ninho em voo!... Mais nenhuma outra ave pode lá entrar, a não ser quando há ruína da construção devido, em geral, às intempéries. 

Conclusão

Com base na estrutura do ninho nas imagens, na localização (alpendre de casa não habitada) e no facto de ser reconstruído anualmente há quase 30 anos, trata-se muito provavelmente de um ninho de andorinha-dáurica (Cecropis daurica), espécie que tem vindo a expandir-se em Portugal nas últimas décadas, diferenciando-se da andorinha-das-chaminés pelo formato distintivo do ninho com túnel de entrada.


Pesquisa: LG + assistente de IA / ChatGPT, ​Perplexity, Gemini

Condensação, revisão / fixação de texto, negritos: LG


5. Excertos de poemas de Luís Graça, com referência às andorinhas de Candoz

(...) As andorinhas que por cá ficaram,
há mais de uma década,
parecem ser felizes.
São inteligentes, as andorinhas,
e fazem análises de custo-benefício,
como qualquer economista.
Passam todo o santo dia a caçar insetos
num raio de 500 metros à volta do ninho
que fizeram no alpendre de uma das casas
em redor do fio da lâmpada exterior.
É uma insólita construção,
herdada de geração em geração
e todos os anos retocada ou reconstruída.
Eu acho que já não voltam para o norte de África,
ficam por cá,
as andorinhas de Candoz.
Se calhar fogem de Alá,
do alvoroço do povo
e dos tiros das Kalash.
Afinal, a felicidade está onde nós a pomos,
mas nós nunca a pomos onde nós estamos.

Luís Graça (2014)


(...) Circadiana, a vida!...
E, se Deus quiser, a primavera há de chegar,
e com ela as cerejeiras em flor,
e os melros que vão pôr os seus ovos
nos arbustos de alecrim no caminho para a leira cimeira,
e as andorinhas que irão reconstruir o seu ninho
na varanda da casa de cima.

E trazem histórias de coragem,
as tuas andorinhas de torna-viagem,
vêm do norte de África, quiçá da Guiné,
e não precisam de passaporte,
nem de GPS, nem de código postal, nem de carimbo das alfândegas.
São heroínas, sobreviveram a mais um ano,
fogem da guerra, e das alterações climáticas,
sem o aval nem a ajuda do alto comissário para os refugiados,
ou a benção dos imãs
e dos demais representantes de Deus na terra.(...)