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terça-feira, 23 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28126 : III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte IX : semana de 1 a 7 de abril de 2019: há mais de 40 mil timorenses a pedir a nacionmalidade portuguesa


Timor-Leste > Liquiçá > Mantti > Boebau > Escola de Sáo Francisco de Assis (ESFA) > Crianças com t-shirts com o símbolo de Portugal. Foto da página do Facebook do Gaspar Sobral.


Portugal tunha um império, que ia do Minho a Timor.... Os donos do Império nunca vieram a Timor Lorosae que, em tétum, quer dizer "país do sol nascente"... Era muito longe e a viagem incómoda... Mas há quem goste de  viajar para Timor-Leste, agora país lusófono, da CPLP, onde o português é a segunda língua oficial e há mais 40 mil timorenses a tentar obter a nacionalidade portuguesa. A burocracia é muita, e pode levar anos a obter-se o tão almejado certificado, que abre portas para a Europa. Timor-Leste, com 14 870 km2, tem hoje uma população de 1,4 milhões de habitantes. 
 

De acordo com o Censo de População de 2022, a taxa de literacia e domínio da língua portuguesa atingiu os 40%, uma recuperação histórica impressionante em meio século, considerando que em 2002 (ano da restauração da independência) apenas cerca de 5% da população falava o idioma devido à proibição imposta durante a ocupação indonésia. (Fonte:  Observatório da Língua Portuguesa).


1. Continuamos a publicar e excertos das crónicas da III Viagem (2019) (*), de Rui Chamusco a Timor-Leste.

O nosso amigo (e membro da Tabanca Grande), Rui Chamusco, professor de música reformado, a viver na Lourinhã, vai a Timor Leste todos os anos (exceto na pandemia), desde 2016. É o lider (e um os fundadores, com Gaspar Sobral e Glória Sobral) de uma associação de solidarieddae com Timor Leste (ASTIL), que já montou, equipou e pôs a funcionar uma escola nas montanahs de Liquiçá (Manatti / Boebau), a Escola de São Francisco de Assis (ESFA), e faz o "apadrinhamento" de crianças em idade escolar.

São 3 dias de viagem até Dili!... Fica lá 3 ou 4 meses... Ele já tem 80 anos e há dias fez uma operação delicada cirúrgica, de que está a recuperar bem... Temos publicado as suas crónicas anuais no nosso blogue. Tem  uma  história de vida inspiradora. É um exemplo vivo de como a solidariedade portuguesa com Timor-Leste continua a ser concreta, persistente e transformadora, mesmo décadas após a independência (em 2002). É também  um exemplo vivo de amor à lusofonia que merece ser conhecido pelos nossos leitores.

Lendo as suas crónicas (que ele reuniu numa brochura em pdf, com cerca de 3 centenas de páginas), aprende-se muito sobre a história, a cultura, a geografia, a sociodemografia, a idiossincrasia dos nossos amigos timorenses.

Já aqui publicámos excertos das crónicas da I viagem (2016), II (2018) e VI (e última) (2025). Depois meteu-se a pandemia, e o Rui só voltou a Timor Leste em 2023 (IV viagem), e anos seguintes: 2024 (V viagem) e 2025 (VI viagem).

Este ano talvez lá volte, mas apenas pelo Natal, se Deus Nosso Senhor e a Senhora da Saúde o permitirem.

 Apesar da pandemia (e da "burocracia"...), o projeto da Escola São Francisco de Assis (ESFA), inauguradas em 19/3/2018, vai continuar a avançar com a construção da "casa do professor" e a aquisição de uma viatura todo-o-terreno ("pick up"), indispensável para se chegar a Boebau, na montanha. Nestas crónicas de 2019, há referência a dificuldades e limitações que, felizmente, já foram superadas. 

Em Díli costuma ficar na casa do irmão mais novo do Gaspar Sobral, o "Eustáquio" (João de Araújo Moniz de Oliveira Sobral). De 1975 a 1978, andou fugido dos indonésios nas montanhas de Liquiçá, com a irmã mais nova e a mãe. Tinha então 14 anos.


Rui Chamusco, professor de música, reformado, é cofundador e líder da ASTIL - Associação dos Amigos Solidários com Timor Leste: é natural ds Malcata, Sabugal; vive na Lourinhã; é membro da Tabanca Grande, tem 70 referèncias no blogue; a direita, o Sobral Gaspar, o luso-timorense, retornado de Angola, casado com a Glória, que o meteu nesta aventura.


III Viagem a Timor-Leste :  2019 (Rui Chamusco, ASTIL)


Parte VIII: semana de 1 a 6 de abril: 40 mil timorenses à espera de obter a nacionalidade portuguesa


01.04.2019, segunda feira - Receitas...mais uma

Suprami com folhas e flor de papaia foi a proposta que a Aurora me fez para a merenda de hoje. Suprami é talvez a comida mais fácil de preparar, constituída á base de massa fina com tempêros, que os indonésios introduziram e exportam para Timor Leste. Sobretudo nos meio urbanos, é das comidas mais consumidas.

Claro que já saboreei este produto por diversas vezes, e até nem é mau para o paladar.
Mas quando me falaram em suprami com folha e flor de papaia anui logo. Porque, segundo a cultura timorense, a flor e a folha de papaia são o melhor remédio para
prevenir e combater a malária. De sabor muito amargo, mas atenuado pelos temperos
da suprami, um remédio natural ao nosso alcance, capaz de nos curar das nossas
maleitas. Mais uma receita cuja essência é a folha e a flor da papaia.

Perguntarão: “Então e o fruto, a papaia, que é tão apreciado em todo o mundo? Claro que o fruto tem também as suas propriedades nutritivas e curativas. Diz-se que as suas sementes são benéficas para a função intestinal.

Mas, para completar esta informação, informo que há árvores de papaia (papaeiras?) que só dão flor, enquanto outras dão flor e fruto. A receita que aqui descrevo diz respeito às primeiras.

Como a natureza é rica em recursos e ensinamentos!...

01.04.2019 - Lição de partilha

Quando estamos atentos ao que se passa ao nosso redor, há sempre algo de novo, que nos faz refletir, que nos interpela.

Estando hoje à tarde no átrio da casa “Moniz”, que é a nossa morada, em horas de merenda ou de jantar para os galináceos já habituados a esta praxe de alguém atirar punhados de arroz para se banquetearem, vejo umas sete ou oito galinhas correndo apressadamente para o local. Perguntei à Aurora: “São todas vossas? - “Não!” - respondeu ela. “ Então como sabeis quais são as vossas?” - perguntei de novo. “Pelas cores.” - retorquiu ela.

Pois é! Aqui em Timor, desde que esteja a mesa posta, todo o que chega tem lugar. O repasto é repartido por todos. Uma partilha que, a nós ocidentais, em muitos casos para nós é estranha, habituados que estamos ao provérbio “ Quem parte e reparte, e não fica com a melhor parte, ou é burro ou não tem arte.”

Ainda há dias aqui chegou um vizinho, o Carlitos, para avisar o Eustáquio de que uma sua galinha fez ninho e estava a chocar os ovos no terreno da casa do Ti Beto. Sem qualquer problema de que a galinha do outro invada o seu terreno para fazer a criação.

Um grande respeito pela natureza que tanto nos dá; uma atitude de tolerância louvável; um sentimento de partilha incrível. Valores perdidos na maioria das sociedades e culturas ocidentais. Por aqui, casas amuralhadas ainda há poucas por enquanto. As pequenas separações são facilmente ultrapassáveis. As casas ou propriedades com sistema de alarme e câmaras de vigilância não abundam. Só algumas pessoas importantes ou serviços de estado se protegem com esses aretefatos.

Defender o quê, se a maioria das pessoas pouco ou nada têm? Mesmo assim, são estasn pessoas que tudo partilham, até “o pão (arroz) para a boca que todos os dias as sustenta. Como disse esta semana o Papa Francisco, depois da visita a Marrocos:“ aqueles que constroem os muros acabarão presos pelos muros que construíram. Mas aqueles que constroem pontes vão muito avante. A ponte é feita por Deus com as asas dos anjos para que os homens se comuniquem... para que os homens possam se
comunicar.”

01.04.2019 - Vale o que vale ... e mais nada!

Hoje de manhã eu e o Amali fomos ao Serviço de Fronteiras e Estrangeiros no intuito de confirmar a minha situação de estadia em Timor Leste. Que confusão de ideias nas cabeças daquela gente! 

Sendo eu portador de uma declaração da Embaixada de Timor Leste em Portugal, em que consta que para os efeitos julgados convenientes eu viajo até Timor Leste só com o bilhete de ida por tempo indeterminado para o cumprimento da conclusão do projeto de construção da escola para o pré-escolar e o ensino básico, no suco de Leotalá, município de Liquiçá, esta declaração parece que de pouco ou nada vale se não apresentar outros documentos por eles indicados: contrato de trabalho, protocolo de colaboração entre os governos de Timor Leste e de Portugal, prova do programa de cooperação dos professores portugueses com o ministério da educação, etc,etc... 

Todos sabem muito e ninguém sabe nada. Ou seja, saímos daquele edifício revoltados, sem resolução à vista. Cenários possíveis: regressar a Portugal nos fins deste mês de Abril, arranjar um dos documentos por eles(as) indicados, deixar-me estar como estou...

No regresso a casa ninguém queria acreditar. Até o Gaspar que sabe lidar com estes assuntos,  ficou furioso, e até se dispôs a prescindir de algumas aulas para, na próxim quarta feira, ir tratar do assunto.

Felizmente que, à noite, recebi um telefonema do amigo Ascenso, que domina estes assuntos como ninguém, a tranquilizar-me dizendo: 

“ Tu não precisas de ir a nemhum lado. A declaração da embaixada de Timor em Lisboa é mais que suficiente para justificar a tua estadia neste país. Os embaixadores são as pessoas mais importante dum país logo a seguir ao presidente da república.” 

E disse-me mais coisas que aqui não digo. Obrigado,  meu grande amigo, porque tudo o que me disseste me tranquilizou, aconteça o que acontecer.

Neste episódio, lamento que Timor Leste sendo um país que adoptou a língua portuguesa como segunga língua oficial, não tenha funcionários capazes de compreender e de falar o português em serviços tão importantes como este em causa.

Se não fora o Amali a tentar traduzir a confusão,  seria ainda maior.

Vale o que vale... Mais nada!

03.04.2019, quarta feira  - Galinha dos ovos de ouro


Já falei desta ave que, sem nenhum problema de consciência, invadiu o quintal (sem muros) do vizinho para lá fazer os seu ninho e ir pondo os seus ovos. 

Hoje, estando eu a trabalhar no computador, vejo à minha frente uma galinha com dez ou mais pintainhos saídos há pouco tempo da casca, a seguir os ensinamentos da mãe, depenicando as esgravatadelas que ela ia fazendo. Fui informar os donos da casa, a Aurora e o Eustáquio, que vieram confirmar a visita ao domicílio deste bando de galináceos. Em menos de um minuto sumiram-se de novo, e por lá andam à procura do seu sustento. Mas vão regressar, e toda agente sabe a quem pertencem.

Atónito perguntei ao Eustáquio: 

- Então vocês não apanham os ovos para consumo da casa?

Ao que ele prontamente respondeu:

 - Não,  Tiu Rui. Os ovos que as galinhas põem é para nascerem pintainhos.

Entendi. Os ovos que aqui comemos não são destas galinhas. Preferem, talvez por
uma quetão cultural, comprar os ovos de aviário que consumir os ovos caseiros.

Diremos que estes são ovos de oiro, enquanto os outros são ovos banais.

03.04.2019, quarta feira  -” Nobreza... a quanto obrigas!”


Estou a falar de burocracia, de papéis, de documentos a legalizar. Desde há uns tempos que os processos de pedido de nacionalidade portuguesa para o Amali (Zinigio Sávio Maliata Sobral) e para o Eustáquio (João de Araújo Moniz de Oliveira Sobral) nos vêm ocupando algum tempo. 

Em Timor e em Portugal as “démarches à faire” são aos montes. As exigências na Conservatória dos Registos Nacionais de Lisboa são cada vez maiores devido à deteção de documentos incompletos e até de documentos falsificados. 

O número de pedidos de cidadãos timorenses ultrapassa os 40.000, tornando cada vez mais difícil o deferimento dos processos, até pela falta de recursos humanos para tratar dos mesmos. Em Timor, como noutros países da CPLP, as certidões de nascimento são passadas pelos cartórios paroquiais, autenticadas pelo pároco, pela chancelaria eclesiástica e pelo
notário. 

Com a recente guerra de invasão e destruição que os indonésios infligiram a esta nação,  muitos documentos e livros de assentos foram destruidos e danificados.

Compreende-se a dificuldade que muitos cartórios têm em passar estes documentos,
sem lacunas. Alguns livros de assentos tiveram de ser refeitos, e nem sempre bem (troca de nomes, de datas, etc...) Os cartórios paroquiais que eu conheço estão sempre repletos de gente a solicitar os seus serviços.

A outra parte da questão prende-se com a Embaixada de Portugal em Timor Leste (Díli). Todos os documentos têm de ser legalizados na secção consular desta embaixada, como é óbvio, que depois são enviados em mala diplomática para os Registos Centrais de Lisboa. 

Quando há documentos incompletos ou inválidos são reenviados em mala diplomática para Dili, a fim de serem retificados ou de se obterem novos documentos. Depois, a seu tempo, a embaixada reenviá-los-à para Lisboa. São processos que demoram anos e anos, alguns até sem resolução à vista.

Perante isto, o Amali decidiu ir para Portugal, para casa dos tios Gaspar e Glória Sobral, a fim de melhor poder acompanhar e desenvolvimento do seu processo e do pai. Com os documentos devidamente legalizados pela embaixada de Portugal,
entregou nos Registos Centrais de Lisboa o seu processo e o processo do pai, aos
quais foram atribuidos os números respetivos. 

Mas como as certidões de batismo tinham falhas foi-me pedido que logo que regressasse a Timor Leste, o que aconteceu no dia 2 de fevereiro, tentasse resolver este problema pedindo nova certidão e fotocópias dos Registos de Assentos (assento original + assento refeito de cada um, com a autenticação do pároco, da chancelaria eclesiástica e do notário. 

É o que temos andado a fazer, e que neste momento já temos em mão. Mas falta a legalização dos Serviços Consulares da Embaixada. Através do amigo e primo Rui Pedro, que é conhecido e amigo do marido da Drª.Joana Pinheiro, a consul da Embaixada de Portugal em Díli, consegui um atendimento personalizado que serviu para apresentação de cumprimentos e breve exposição e justificação da nossa presença neste país. 

Agradeço à Drª. Joana a simpatia e a atenção que me dedicou, mais a mais sabendo eu de antemão que tinha uma agenda sobrecarregada de trabalho.

Claro que a proveitei a ocasião para lhe pedir um favor: a legalização dos seis documentos que levava comigo referentes ao Amali e ao pai. A doutora depois de lhes dar uma vista de olhos disse que iam legalizá-los e convidou-me a ir ao balcão para esse efeito, ficando uma funcionária de passar o recibo que para tal é cobrado. 

Como não tinha dinheiro suficiente comigo (140$),  pedi licença para ir ao BNU, aqui do
outro lado do edifício, levantar dinheiro que chegasse, o que me foi facilitado. De volta à embaixada, sentado à espera de ser chamado no espaço dos serviços consulares, veio ter comigo a DrªJoana que me entregou os documentos em causa sem estarem legalizados, dizendo-me que tinham de ser os próprios a pedir a marcação para a legalização, ou então um solicitador devidamente credenciado. 

Aconselhou-me a fazer as marcações online (aliás é o único processo admitido), coisa que fiz logo que cheguei a casa.

Senti uma grande frustração, e é escusado dizer que nada motivado para continuar nestas andanças de papeladas. “Nobreza...a quanto obrigas!”

Muitas mais coisas me apetecia dizer, mas vou ficar por aqui, para bem da minha
cabecinha pensadora.

06.04.2019, sexta feira  - “Quem vê caras não vê corações.”

Esta nem ao diabo lembra.

Em 2018, aquando da nossa estadia, fomos comprar uma tábua de engomar numa das muitas lojas que existem em Dili. A pensar que tínhamos adquirido uma grande coisa, afinal não passa de uma grande *... 

A tábua que, por princípio, deve ser direita para que o ferro deslize com facilidade, ao longo do seu uso mais parece um monte de pedregulhos, tornando quase impossível passar a ferro qualquer peça de roupa.. A curiosidade de saber o que se passava levou-nos a desmontar a dita cuja, que nos deixou de boca aberta ao vermos as suas entranhas. O que devia ser uma tábu homogénea, são sete bocados de madeira, mal agrafados, encavalitados uns nos outros. 

Quem teria sido o artista? Fica-nos a dúvida do “made in”: China, Indonésia, Timor-Leste, outras... Fosse quem fosse, não é coisa que se faça.. Isto é enganar os clientes.

E uma vez mais se aplica o ditado “ Quem vê caras não vê coraçôes”. Cuidado com as falsificações! Cuidado com os lobos disfarçados em pele de cordeiro! Cuidado com
os sepulcros bem caiados!

A tábua de engomar está já restaurada pelo artista da casa, Amali, com uma qualidade
bem superior à que nos foi impingida.

Bolas! È uma questão de qualidade comercial...

06.04.2019 - Sinais de mudança

Falo do tempo metereológico, e não de mudanças políticas ou outras.

Como já referi nestas crónicas, aqui só há duas estações no ano: O verão e o inverno.. A passagem de uma para a outra é marcada por dois ou três dias de temporal, com fortes ventos que se fazem sentir na terra, no mar e no ar. Já o ano passado podemos testemunhar esta transição do inverno para o verão, enquanto estivemos em Boebau.

Este ano estamos em Ailok Laran, onde decorre o mesmo fenómeno. Não há calendário que defina os dias certos deste mudança. Mas, pela experiência dos mais velhos, todos sabem que o verão está a chegar. Com ele chegarão também o pó dos caminhos, o tempo de seca,, mais calor, uma variedade de frutos apetecidos.

Que venha o verão! Que venha por bem!...

 
(Revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)

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terça-feira, 16 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28103: Timor-Leste: passado e presente (35): Barlaque: casamento tradicional e modernidade, o verso e o reverso (resumo analítico de artigo, publicado pelo Diligente, excelente jornal digital, feito em Díli)


Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

Texto: Luís Graça + Rui Chamusco

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.

Barlaque: ritual de união familiar ou ataque à igualdade de género?
Autoria: Equipa do Diligente
Fonte: Diligente (16 de julho de 2023)


1. Sobre a "Equipa do Diligente", convirá saber o seguinte:


“Sobre as pessoas. Para as pessoas”

Somos um grupo de jovens jornalistas timorenses ansiosos por melhorar a indústria dos media no nosso país. Queremos difundir informação imparcial que possa ajudar as pessoas a enfrentar todas as questões sociais e económicas com pensamento crítico.

Queremos que o povo timorense seja ouvido. Queremos que todos estejam conscientes do que se passa no nosso país.

Ambicionamos ser um projeto inovador, com uma aposta forte em trabalhos de investigação, reportagens, podcasts e outros conteúdos informativos.

Como primeiro website informativo totalmente em português, em Timor-Leste, temos a preocupação acrescida de produzir conteúdos de fácil compreensão e explicar assuntos complexos de forma simples.

Vamos dar voz aos cidadãos, promovendo debates sobre os direitos humanos e a defesa das minorias, ao mesmo tempo que mostramos ao mundo a riqueza cultural de Timor-Leste e os aspetos que o tornam único.


2. Aqui vai uma sinopse crítica do artigo supracitado, estruturada, para melhor legibilidade.   Inclui os pontos-chave, as tensões culturais e as vozes dissonantes, além de uma reflexão final que convida ao debate.

O barlaque (ou barlak, em tétum) é uma tradição ancestral timorense que formaliza o casamento através da negociação entre famílias, envolvendo a troca de bens (dinheiro, animais, adornos como belak ou kaebauk) como símbolo de união e respeito. 

Originário do termo indonésio berlaki (mulheres com companheiro para casamento), o ritual divide-se em três fases:

(i) Tuku odamantan (“bater à porta”): 

primeiro contacto entre famílias, a do pretendente e a da futura noiva, com troca de presentes simbólicos: cigarros, vinho, cabrito, noz-de-areca (equivalente à noz-de-cola africana).

(ii) Hamos dalan (“abrir o caminho”): 

cerimónia de reconhecimento mútuo, onde a mulher passa a integrar a família do homem (fetosán), e os homens da família da noiva se tornam umane (herdeiros da uma lisan, casa sagrada).

(iii) Kahe aitahan (“prenda”): 

casamento cultural, com troca de anéis e fios de ouro/p e prata; aqui, define-se se o sistema é patriarcal (kaben sai: a mulher e filhos passam à uma lisan do homem) ou matriarcal (habanin: o homem entra na uma lisan da mulher).

A Face oculta: violência, dívida e desigualdade

O artigo desmonta o mito da “união familiar” ao expor casos concretos de exploração económica e opressão de género (os nomes são fictícios, para proteger a privacidade das pessoas entrevistadas):

  • Martinha, mãe de duas filhas, recusa o barlaque por considerá-lo uma "venda de mulheres": os tios da noiva (figuras centrais no processo) decidem o valor e ficam com a maior parte, reduzindo a mulher a um objeto de transação. 

A recusa de Martinha em ser "barlaqueada" (sic) gerou conflitos familiares, mas a sua resistência expôs uma verdade incómoda: mulheres barlaqueadas são frequentemente vítimas de bullying, violência doméstica e controle excessivo por parte do marido e da família do marido.

“Se eu não fosse a um funeral ou não soubesse cozinhar, seria alvo de ofensas. Não quero ser propriedade de ninguém.”

  • Yane Maia, revisora linguística, viu o seu casamento desmoronar-se devido a conflitos entre sistemas matriarcais e patriarcais, na cultura Bunak (matriarcal), as mulheres barlaqueadas não podem pertencer à uma lisan do homem, sob pena de “maldição de morte” para si e para os filhos; a família do marido recusou um compromisso híbrido, demonstrando a rigidez de um sistema que nega autonomia às mulheres.

Mais de 50% das mulheres timorenses (15-49 anos) já sofreram violência física ou sexual por parceiros masculinos (fonte: CEDAW/ONU). 

O barlaque, segundo o artigo, agrava esta realidade: casais endividados para pagar o ritual (que pode ir até aos 20 mil dólares, num país em que os rendimentos médios mensais andam na casa dos 150 dólares) vivem sob stress extremo, gerando divórcios e agressões.
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O artigo opõe três perspetivas

Defensores
do Barlaque
Críticos
do Barlaque
Neutrais
(Antropólogos)

Eugénio Sarmento (lia-nain):

o barlaque é um fator de união familiar e respeito pela fertilidade da mulher.

 
A violência doméstica não é culpa da tradição, mas de “pessoas que não a compreendem”.
Berta Antonieta (ativista feminista):
´
o barlaque reduz a mulher a um bem material, equiparando-a a búfalos ou dinheiro.

A cultura é dinâmica e deve ser mudada.
Alessandro Boarccaech

o barlaque é um facto social com dois lados: união familiar vs. discriminação.

A violência doméstica está ligada a fatores estruturais (educação, hierarquias, álcool, políticas públicas).

Josh Trindade
(antropólogo): os objetos trocados não são para “comprar” a mulher, mas para valorizar a sua fertilidade.

Critica os “colonialistas” que julgam a cultura sem a conhecer.

Martinha/Yane Maia
:

o ritual perpetua a desigualdade e a violência, especialmente quando as famílias pobres usam as filhas como fonte de rendimento.
Paulino dos Santos (engenheiro):

propõe reduzir os custos do barlaque e de outros rituais (lia mate, lia moris) para evitar pobreza e divórcios.
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O Debate Central: Tradição vs. Direitos Humanos

O artigo levanta questões incómodas e urgentes:


(i) O barlaque é compatível com a igualdade de género?

  • Os defensores argumentam que o ritual simboliza respeito e consolida laços familiares.
  • Os críticos respondem que, na prática, a mulher perde autonomia: os tios decidem o seu valor, e ela passa a ser “propriedade” da família do marido (ou, no caso matriarcal, o homem é que se torna dependente).
(ii) O barlaque é a causa da violência doméstica?

  • Não diretamente, segundo os antropólogos: a violência tem raízes mais profundas (educação, poder, álcool).
  • Mas legitima-a: ao tratar a mulher como um bem transacionável, o ritual normaliza a sua subalternização, criando um ambiente propício ao abuso.

(ii) Pode o barlaque adaptar-se aos tempos modernos?

  • Josh Trindade sugere que o pagamento pode ser fracionado (em prestações), aliviando a pressão financeira.
  • Berta Antonieta propõe uma revolução cultural: “A cultura foi feita pelo homem, mas é dinâmica. Podemos mudá-la.”
  • Alessandro Boarccaech questiona: “Para que serve o barlaque hoje? É justo? Respeita a diversidade?

Reflexão final: um espelho para Portugal  ( e Guiné-Bissau) ?

O artigo do Diligente é um retrato cru de como a tradição pode ser ao mesmo tempo um pilar cultural e uma prisão

OkEm Timor-Leste, o barlaque é um sistema complexo, com nuances entre o matriarcal e o patriarcal, mas com um denominador comum: a mulher é o último elo da cadeia de decisão.

Paralelos com Portugal

  • A dote (ou enxoval ou bargal) em Portugal também já foi um símbolo de status e negociação familiar, mas evoluiu para um gesto simbólico.
  • A violência doméstica em Portugal (como em Timor-Leste) tem raízes culturais profundas, muitas vezes mascaradas por “tradições”.
  • A resistência de Martinha lembra as mulheres portuguesas que, nas décadas de 60/70, recusaram casamentos arranjados pelas famílias ou a submissão ao marido, "chefe da família.
  • A igualdade da mulher perante a lei em Portugal é um direito fundamental consagrado no Artigo 13.º da Constituição da República Portuguesa, que garante que todos os cidadãos são iguais e proíbe qualquer discriminação com base no sexo.A revisão do Código Civil, que entrou em vigor em abril de 1978, marcou uma revolução histórica nos direitos das mulheres em Portugal. Pela primeira vez, a lei instituiu a igualdade de género no casamento, abolindo o estatuto de dependência legal e económica da mulher face ao marido.
  • A revisão do Código Civil, que entrou em vigor em abril de 1978, marcou uma revolução histórica nos direitos das mulheres em Portugal. Pela primeira vez, a lei instituiu a igualdade de género no casamento, abolindo o estatuto de dependência legal e económica da mulher face ao marido.
  • As principais alterações introduzidas pelo Decreto-Lei n.º 496/77 incluíram: (a) fim da figura de "chefe de família": o poder de decisão exclusiva do marido sobre o agregado familiar foi eliminado; (b) gestão conjunta do património: o marido deixou de ser o único administrador dos bens do casal, passando a direção da família a pertencer a ambos os cônjuges.

Pergunta para os leitores do nosso blogue:

Até que ponto uma tradição (o "fanado", por exemplo, ou o "casamento infantil", na Guiné-Bissau) pode ser “respeitada” se ela perpetua desigualdades ou tem práticas que atentam contra os direitos humanos ?

 Será o barlaque um ritual de união… ou um mecanismo de controle social ? 

Veremos, em próximo poste, algumas semelhanças com o casamento tradicional na Guiné-Bissau.

Nota para citação: Sinopse crítica elaborada por LG +  IA  ( Vibe  / IA Mistral Medium 3.5) a partir do artigo “Barlaque: ritual de união familiar ou ataque à igualdade de género?”, publicado no Diligente, 16 de julho de 2023.

(Revisão / fixação de texto, negritos, links, título: LG)
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 11 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28012: Timor-Leste: passado e presente (34): a revolta de Manufai (dez 1911 / out 1912) - Parte I

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28089: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (6): quando a cultura reforça a desigualdade de género e a violência (física, psicológica, simbólica) sobre as mulheres: neste caso o barlaque em Timor-Leste ou o alambamento em Angola ou o "pidi noiva" na Guiné-Bissau




Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

Texto: LG + RC

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Na sua última crónica, da viagem e estadia de 2019, em Timor-Leste, o nosso grão-tabanqueiro Rui Chamusco escreveu o seguinte apontamento sobre a tradição (cultural) do Barlaque (*):


31.03.2019, sábado - “Barlak” (ou barlaque) e cultura timorense...

Hoje o Eustáquio [irmão mais novo do Gaspar Sobral, o luso-timorense, casado com a Glória Sobral, cofundadores da ASTIL, juntamente com o Rui Chamusco] foi fazer de negociador no “barlak”  [termo já grafado em português como "barlaque"] de um sobrinho. 

Quando chegou a casa, contou-nos como se tinha passado. Já não é a primeira vez que o Eustáquio faz este trabalho. As famílias dos noivos confiam nele porque, para além de ser um homem sensato, é um grande conhecedor e praticante da cultura e da tradição timorense.

Então, o que é o barlaque ?

 O  barlaque é uma festa, uma cerimónia entre as famílias dos noivos em que o “manefon” (o homem que pede a mão da noiva,  passando assim a fazer parte desta família) e particularmente a sua família negoceia com a família da noiva  os "dotes” para que se realize o casamento. [Em tétum, "manefon" quer dizer homem (mane) novo (foun, fon), o que passa a fazer parte de uma nova família ].

Os "dotes” envolvem dinheiro e bens. 

Neste barlaque  foram 2.500 dólares em dinheiro que o pai do noivo tem de dar à família da noiva, sendo que: 

  • 500 dólares para a compra de um “krau” (boi ou vaca) e temperos; 
  • mais 15 caixas de cervejas, 
  • 10 caixas de coca cola e outras bebidas.  [Um timorense ganha em média 125 dólares por mês, para economizar 2500 dólares tem de trabalhar e poupar muito; pode ser ruinoso casar um filho.]

A família da noiva (creio que duas irmãs) serão as cozinheiras. 

Oferecerá também um porco e uma saca de arroz de 30kg, que serão partilhados pelas famílias e pelo negociador que terá direito a,  mais ou menos, 3kg do animal abatido. 

Uma semana antes do casamento reunir-se-ão de novo as famílias para fazerem o balanço de como estão as responsabilidades atribuídas, e para acertarem os pormenores da festa de casamento que será no próximo mês de Junho.

A par desta tradição cultural, está a preparação que os noivos fazem através de cursos e reuniões de preparação para o casamento que cada paróquia organiza. Estou a falar, claro está,  de casamentos católicos.(*)

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)


 2. Enquanto aguardamos, por parte do Rui Chamusco,  mais esclarecimento sobre a prática do Barlaque, hoje, em Timor-Leste, passados já sete anos sobre aquela crónica, fizemos uma rápida pesquisa sobre o tema através de uma ferramenta de IA (a francesa Vibe,  da Mistral AI).

 Eis o que apurámos, muito sumariamente:

O barlaque é, de facto, uma cerimónia tradicional timorense central no processo de casamento, onde as famílias dos noivos negoceiam os dotes, como parte do acordo pré -matrimonial. (É uma pratica que também se faz no Ocidente...)

A descrição que o Rui Chamusco faz parece estar muito alinhada com o que se sabe sobre esta prática, que é uma das mais importantes e simbólicas nas comunidades timorenses, especialmente nas zonas rurais.

(i) Significado e contexto cultural

  • o barlaque é uma negociação formal entre as famílias do noivo (representado pelo  manefon ou manu-foun) e da noiva, onde se discutem os termos do casamento, incluindo os dotes (dinheiro, adornos, outros bens, animais, comida, bebidas) que a família do noivo deve oferecer à família da noiva; 
  • não é apenas uma transação económica: é um rito de aliança entre famílias, que reforça laços sociais e comunitários; 
  • o  valor e a composição do dote variam conforme a região, a situação económica das famílias, o estatuto social, etc.:
  • em muitas comunidades, o barlaque é também uma forma de "compensar", de algum modo, a família da noiva pela "perda" de um membro (a filha) e pelo seu contributo para a nova família (em sociedades camponesas é, antes de mais, a perda de "dois preciosos braços").

(ii) Composição típica do dote (barlaque)

A descrição do Rui Chamusco é muito detalhada e reflete práticas comuns ainda em vigor na sociedade timorense, mais de 50 anos depois da descolonização e mais de duas décadas depois da independência (em 20 de maio de 2002) (e com mais 2 décadas de ocupação indonésia, entre 1975 e 1999):
  • dinheiro: o valor pode variar muito, mas 2.500 dólares (ou mais) não é invulgar em casamentos mais abastados ou em zonas urbanas; 
  • em áreas rurais, os valores podem ser menores, mas a estrutura e o significado são semelhantes;
  • animais: o búfalo, o boi ou a vaca (krau) é um elemento central, muitas vezes abatido para a festa de casamento; 
  • o seu valor simbólico é enorme: representa fertilidade, riqueza e status; em algumas regiões, o número de bois pode ser negociado (por exemplo, 1, 3 ou até 5, dependendo da importância da família);
  • comida e bebidas: (a) arroz: uma saca de 30 kg (ou mais) é comum, e é partilhada entre as famílias e os mediadores; (ii) bebidas: cerveja (15 caixas ou mais), refrigerantes (como Coca-Cola, 10 caixas), e por vezes tuak / tuaque (vinho de palma, tradicional em Timor); (c) porco: outro animal frequente, abatido e partilhado durante a cerimónia;
  • outros bens: podem incluir tecidos (tais), joias (adornos, com o balaque, o carbauque), ou até eletrodomésticos, dependendo da modernização da prática.

(iii) O papel do negociador (em nome do pretendente ou noivo, manefon, "homem novo"):

  • o manefon (ou manu-foun) é o vem de fora, de outra família, que para pedir a mão da noiva precisa de um intermediário, um mediador, em  geralmente um familiar próximo (em geral, o tio);
  • o negociador tem um papel-chave na discussão do dote e na mediação entre as famílias, como referido pelo Rui,  recebe uma parte simbólica dos bens (como os 3 kg do porco), como reconhecimento pelo seu trabalho.

(iv) Festa e partilha:

  • a família da noiva (geralmente as mulheres, como as irmãs) é responsável por cozinhar a comida para a cerimónia, que pode durar vários dias;
  • a partilha dos bens (carne, arroz, bebidas) é um momento de união entre as famílias e a comunidade; 
  • em algumas regiões, a carne do boi, da vaca  ou do porco é distribuída pelos vizinhos como gesto de generosidade e de alegria.

(v) Variações regionais e modernização:
  • na capital  Díli ou outras zonas urbanas, o barlaque  pode ser mais simplificado, com menos ênfase em animais e mais em dinheiro ou bens modernos (eletrodomésticos, etc.);
  • em áreas rurais (como Aileu, Manatuto, Baucau ou Same), a tradição mantém-se mais forte, com negociações longas e dotes mais elaborados;
  • nos últimos anos, tem havido  um debate sobre o custo elevado do barlaque, que pode ser um fardo para famílias mais pobres, e que ficam endividadas;
  • algumas comunidades tentam adaptar a prática para a tornar mais acessível.

(vi) Comparação com outras culturas lusófonas:

  • o barlaque lembra outras tradições de dote na África lusófona (como o lobolo em Moçambique ou o alembamento / alambamento em Angola), onde também se negociam bens e dinheiro entre famílias; na Guin~e-Bissau,. o equivalemnte é o "pidi noiva"  ( k'mari, entre os papéis)
  • em Cabo Verde, por exemplo, não há uma prática idêntica, mas a cachupa é muitas vezes servida em casamentos como prato de união, um paralelo interessante com a partilha de comida no barlaque (sobre o casamento tradicional nas ilhas, vd. aqui aqui).
(vii) Fontes e aprofundamento

Infelizmente, não encontrámos fontes académicas recentes em português ou tetum que detalhassem o barlaque com a profundidade que merece. 

Há, todavia, um artigo relativamente recente do jornal digital "Divergente" que merece ser analisado num próximo poste, à parte.

No entanto, o apontamento feito pelo Rui Chamusco (em 2019) está totalmente alinhado com relatos de antropólogos e missionários que estudaram os costumes timorenses, como Armando Pinto Corrêa (autor de Gentio de Timor, 1935) ou Ruy Cinatti (que documentou tradições timorenses durante a época colonial).

Talvez o Rui Chamusco (e o Cherno Baldé, no caso da Guiné-Bissau)  nos possa ajudar a:

  • procurar mais informação e conhecimento sobre o barlaque em fontes históricas ou etnográficas;
  • comparar esta prática com outras formas de casamento tradicional na Ásia ou em África, e em especial na Guiné-Bissau;
  • explorar o papel da mulher nestas negociações (por exemplo, como as irmãs da noiva participam);
  • e, por fim, as implicações que estes "usos & costumes" (tal como o casamento infantil e o casamento  forçado na Guiné-Bissau) têm na persistência das desigualdades de género e da violência (física, psicológica e simbólica) sobre as mulheres. (**)

PS - Mandámos ao Rui Chamusco, que está recuperar de uma operação cirúrgica na sua casa na Lourinhã, a seguinte mensagem (com conhecimento ao João Crisóstomo, em Nova Iorque, também ele membro da ASTIL - Associação dos Amigos Solidários Com Timor-Leste, com sede em Coimbra):

Luís Graça <luis.graca.prof@gmail.com>
10 jun 2026, 19:36
para Rui, Joao

Rui: como é que vão, anos depois, estes "usos & costumes"  ? O barlaque cheira-me a "casamento forçado", como na Guiné do meu tempo (e ainda hoje)...

Ainda há "casamentos forçados", hoje, em Timor-Leste ? Parece que o barlaque é cada vez mais contestado, sobretudo pelas mulheres. E percebe-se porquê.

Tem havido casos de infanticídio e abandono de crianças. Como de resto, noutros países, como a Guiné -Bissau, sem esquecer o nosso querido Portugal (que no passado criou a famigerada "roda dos expostos", á porta dos conventos e hospitais das misericórdias).

Sabe-se que a igreja católica timorense é bastante conservadora. Pelo menos, em matéria de educação sexual nas escolas, planeamento familiar, contracepção, etc.

E a propósito, um jornal que merece ser lido, ajudado, divulgado é o "Diligente"...Parece um projeto fantástico! (...)


(Pesquisa: LG + Diligente + IA (Vibe / Mistral AI | ChatGPT / Open AI)
(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, parênteses retos, título: LG)

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28063: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte VII: semana de 18 a 24 de março: aqui não há andorinhas a anunciar a Primavera



Timor-Leste > s/l > c. março / abril de 2019 >  O Rui Chamusco 


Foto: © Rui Chamusco (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Rui Chamusco,  professor
de música, reformado, é cofundador e líder da ASTIL - Associação dos Amigos Solidários com Timor Leste: é natural ds Malcata, Sabugal; vive na Lourinhã; é membro da Tabanca Grande.



1. Continuação da publicação de excertos das crónicas da III Viagem (2019) (*), de Rui Chamusco a Timor-Leste.

Já aqui publicámos excertos das crónicas da I viagem (2016), II (2018) e VI (e última) (2025).

Depois meteu-se a pandemia, e o Rui só voltou a Timor Leste em 2023 (IV viagem), e anos seguintes: 2024 (V viagem) e 2025 (VI viagem).

Este ano talvez lá volte, mas apenas pelo natal, se a saúde o permitir. Natural da Malcata, Sabugal, vive na Lourinhã, onde é professor de música, reformado. Teve há dias alta do Hospital Curry Cabral, em Lisboa, estando a recuperar de uma delicada intervenção cirúrgica.  Daqui vai um abraço meu, de amizade fraterna,  com votos de rápida e efetiva recuperaçáo da saúde. Ruizinho, espero poder-te  abraçar de novo, dentro de dias, na Lourinhã.

O Rui Chamusco, o "abô" Rui, é juntamente com a família luso-timorense Sobral (Gaspar e Glória, e também o "Eustáquio", irmão do Gaspar)  um dos grandes pilares deste projeto de solidariedade com o povo timorense. 

É um exemplo inspirador, de amor à lusofonia e de solidariedade para com o povo de Timor-Leste, que merece ser conhecido pelos mossos leitores. Além disso, há aspetos da história, da geografia e da cultura timorenses que nos são totalmente desconhecidos. 

Apesar da pandemia (e da "burocracia"...), o projeto da Escola São Francisco de Assis (ESFA), inauguradas em 19/3/2018,  vai continhuar a avançar com a construção da "casa do professor" e a aquisição de uma viatura todo-o-terreno ("pick up"), indispensável para se chegar a Boebau, na montanha.  Nestas crónicas de 2019, há referência a dificuldades e limitações que, felizmente, já foram superadas.


III Viagem a Timor-Leste :  2019 (Rui Chamusco, ASTIL)

 Parte VII: semana de 18 a 24  de março: aqui não há andorinhas a anunciar a Primavera 



19.03.2019, segunda feira  - 1º aniversário da inauguração da Escola São Francisco de Assis


Projeto de Solidariedade em Timor Leste - ASTIL

Faz hoje, dia 19 de março, um ano que a Escola São Francisco de Assis (ESFA) em Boebau foi inaugurada. Apenas com um ano de existência, muito se tem feito para que a ESFA vá caminhando, com passos certos, rumo à sua sustentabilidade e
funcionamento. 

Embora sendo uma escola de ensino privado e particular, como definem os seus estatutos, a ESFA está registada no Ministério da Educação de Timor Leste, com o número 36 da rede de escolas da direção regional de educação do distrito
de Liquiçá.

Ainda sem capacidade de resposta para as 75 crianças inscritas inicialmente, a escola funciona com um grupo de 40 crianças que frequentam o ensino pre escolar, assistidas por duas auxiliares de educação com formação e estágios no “Mundo Mágico” de Dili, instituição credível que a educadora Diana Rebelo dirige, e que graciosamente nos apoia com toda a dedicação.

Ano após ano, iremos acrescentado as turmas de 1º, 2º, 3º e 4º anos de escolaridade, até atingirmos os nossos objetivos: uma escola de ensino pre escolar e primário, com eferências de ensino do programa do ministério, da língua portuguesa e da música.

A par da luta por estes objetivos, preocupa-nos a contratação e a fixação de
educador(a) de infância e de professores do 1º ciclo, a fim de garantirmos o
funcionamento pleno deste estabelecimento. Por isso vamos começar a campanha de angariação de fundos para a construção no local de uma casa para professores residentes, com as condições de habitabilidade necessárias, que nos permita motivar docentes a aqui exercerem as suas funções. 

Talvez que, no começo do próximo ano letivo (Janeiro/fevereiro) já possamos contar com esta infraestrutura.

Quero uma vez mais agradecer a colaboração de todos os amigos e pessoas de boa vontade que ao longo destes três anos nos têm apoiado. Queremos continuar a merecer a vossa confiança. Este projeto de solidariedade é obra de todos nós. Com a participação de todos, e sobretudo com a ajuda de Deus, havemos de conseguir um mundo um pouco melhor, particularmente para estas crianças esquecidas das montanhas de Luiºçã / Manatti / Boebau e das famílias pobres deste país irmão.

CONTAMOS CONVOSCO!...

Rui chamusco


20.03.2019, terça feira  - É primavera com certeza...

Esta é a estação do ano mais desejada. Porque a vida se renova na natureza, porque os rebentos, as flores e as folhas das árvores reaparecem, porque os dias vão crescendo, etc, etc... Assim, nós ocidentais, estamos acostumados a recomeçar de três em três meses cada uma das quatro estações do ano, e a sermos levados musicalmente por Vivaldi a ouvir “as quatro estações”, com destaque para “a sagração da Primavera”.

Pois é. Aqui por este extremo oriente, só contam duas estações: o verão e o inverno.
Da primavera e do outono nem sequer se fala. O que por cá marca a mudança é o
período das chuvas. De resto mal se nota se é inverno ou verão. No inverno como
chove quase todos os dias, são as enxurradas e os caminhos enlameados; no verão é a poeira e um pouco mais de calor. 

Aqui é raro encontrar árvores de folha caduca. Cada espécie, ao seu ritmo, vai florindo e dando frutos sem definir o tempo ou a estação que lhe pertence. Também não se vêm andorinhas que anunciem a primavera. 

Por isso sem sinais evidentes de mudança, esta gente não se apercebe de que já começou a pimavera. Resta-nos a primavera interior, onde a renovação das nossas vidas ganha mais significado e novas dimensões.

Em todo o caso, prefiro soletrar a canção que todos os anos e cantava para os meus
alunos:

 "É primavera com certeza / Vejo andorinhas a voar / Oh, como é linda a
primavera / Com o sol sempre a brilhar./

 Sinto alegria / Ao ver na terra / Como as flores / Ficam tão belas.”

21.03.2019, quarta feira  - “ Entendeu?”... “Não, não entende!”

Pode ser caricato, mas é assim mesmo.

A mãe da Mércia (afilhada do amigo José Escada) veio a meu pedido falar comigo
para esclarecimento de uma situação do programa de apadrinhamento. Depois do
cumprimento habitual, perguntei à senhora: 

− Fala português? 

Ao que ela respondeu:

 
− Sim. Um pouco.

E vai daí, toca a explicar o que realmente aconteceu, para que tudo ficasse bem claro, sem lugar a qualquer dúvida.

Pelo sim e pelo não voltei a perguntar-lhe: 

− Entendeu o que eu disse?

E respondeu-me prontamente: 

− Não! 

Fiquei embasbacado, e tive de recorrer ao amigo Eustáquio para que lhe traduzisse em tetum o que eu lhe tinha dito. Claro que tudo se resolveu, sem que de vez em quando a gente recorde este episódio com bastante riso à mistura.

É assim. Em terra estrangeira, sem o domínio da língua dos falantes, quando tu pensas que disseste alguma coisa, não disseste nada. Apenas falaste...

22.03.2019, quinta feira  - Tão longe e tão perto...

As novas tecnologias (computadores, telemóveis, facebooks, whatsapp,etc...) dão-nos possibilidades, mesmo aos mais velhos, de entrar em sintonia com os nossos amigos, independentemente da distância a que nos encontremos.

Vem isto a propósito do encontro do mês de Março que os professores aposentados do concelho de Sabugal organizam, percorrendo as terras deste território, e que inclui o almoço como alimento para o corpo e a visita cultural como alimento para o espírito.

Quis a organização que este mês fosse realizado em Malcata, terra que me viu nascer, crescer e viver intensamente ao longo deste setenta e dois anos que já conto.

Sendo eu um malcatanho ferrenho e um frequentador assíduo deste enconttros,
imaginem como vivi este acontecimento à distância. Tão longe e tão perto destes
meus amigos e de tudo o que neste dia por lá aconteceu. 

Sei que leram a mensagem que eu lhes mandei, sei que se lembraram de mim, sei que até cantaram a carquejinha”,  canção emblemática de Malcata, sei que o almoço foi espetacular, sei que gostaram muito das visitas que fizeram ao Largo da Torrinha, à sede da AMCF, à igreja paroquial, aos polos do Lar, et, etc... Mas o que mais me comoveu (malandrice) foi a fotografia que o grupo tirou frente à casa onde eu nasci. 

Obrigado,  colegas e amigos pelo carinho que demonstraram por mim; obrigado Zé Manel pela reportagem fotográfica que me enviaste; obrigado Quim pelas cantigas e guitarradas; obrigado lice por seres a porta-voz da minha mensagem; obrigado Carlos Almeida, pela feliz ideia de criar, concretizar e promover este tipo de encontros. Fiquem cientes que não irei esquecer facilmente este dia. E prometo-vos que, quando regressar, participarei no encontro organizado seja onde for... Até lá um grande e forte abraço, porque a distância não é prisão. A distância faz mais forte a nossa união...

22.03.2019 - Mensagem
Fundadores: Rui Chamusco,
Glória Sobral e Gaspar Sobral




Caros companheiros e amigos

Sei que hoje, terça feira, o almoço de convívio dos prof aposentados vai ser em
Malcata, na Tasca do Manel. Claro que, como grande apreciador destes almoços e
orgulhoso malcatanho, não poderia deixar de estar presente, ainda que ausente por grande distância. “Longe da vista, mas perto do coração.

Sei que, à semelhança da outra vez, a MariZé, a Isabel, o Manel e o Zé vão tudo fazer para que seja um almoço memorável. Eles são sempre assim: incansávéis em servir os seus clientes, e muito mais os amigos de sempre. Beijos e abraços para eles e, já agora, o vosso aplauso...

Eu por aqui vou lutando, neste momento com alguns problemas de saúde mas que estão a ser tratados. Como beirão genuíno, resisterei até que a carne os ossos
aguentem. Já lá vão 14 kg.

Neste momento temos lutado em várias frentes. Desculpai os termos “lutando”,
“lutado”, mais próprios de linguagem guerrilheira. Mas é assim que me sinto por aqui.

Somos os novos guerrilheiros, com outras armas, lutando por outras causas. A nossa grande arma é a solidariedade, que embora seja uma palavra desgastada, é a que melhor nos define. É para nós uma honra, e particularmente para mim, podermos contar com a vossa colaboração e sobretudo com a vossa amizade

No dia 19 próximo faz um ano que foi inaugurada a Escola São Francisco de Assis, em Boebau / Manati, nas montanhas de Liquiçá. Tem-nos sido difícil manter o seu funcionamento por diversas razões: 

1º - acesso muito difícil: mais ou menos 2 horas para fazer 10 km; 

2º- condições de habitabilidade inexistentes (para um ocidental); não há água corrente nem luz; 

3º- dificuldade em motivar docentes (educadores, professores do 1º ciclo) para lecionar na nossa escola.

Por isso já tomamos a decisão de, quanto antes, começarmos a construção de uma casa para professores residentes e voluntários, que orçamentamos + ou - em 20 mil  dólares. Talvez com esta infraestrutura a funcionar possamos resolver bastantes dos problemas que neste momento nos preocupam.

Está também em fase de construção, creio que em Maio estará concluída, a
reconstrução da casa de “família do Sr. Vitor” 
 [um antigo guerrilheiro da FRETILIN] . O Colega Carlos Almeida poderá, se assim o entender, dar-vos mais esclarecimentos sobre esta causa solidária.

Também o programa de apadrinhamento de crianças/Jovens necessitadas (à volta de 50), me têm ocupado bastante tempo. Tento a todo o custo que as motivações que levaram ao apadrinhamento não esmoreçam, criando laços e pontes para que as relações entre padrinhos e afilhados se solidifiquem. Obrigado a todos o padrinhos e madrinhas aí presentes.

Desculpai estar a ocupar-vos tanto tempo com “as minhas coisas”. Mas, como estais na minha terra, senti-me no direito de vos chatear.

Se aí estivesse, de certeza que vos tocaria e cantaria a canção “carquejinha”. Assim não sendo, despeço-me com um GRANDE ABRAÇO para cada um de vós, e até que um dia Deus queira.

Hoje, em Malcata,

Rui da Ti Laurentina


Obs - Confesso-vos que, enquanto vos escrevia estas linhas, por diversas vezes limpei as lágrimas... Saudades, amizades? Mas “as coisas vulgares que há navida não deixam audades”...


 (Revisão / fixação de texto, negritos, itálico, parènteses retos, título: LG)
________________________

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28032: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte VI: semana de 10 a 17 de março: a polícia e a pedagogia da chapada

 

Timor Leste > s/l > 2016 > O que seria o Rui sem o seu acordeão ? O Rui, à esquerda, e o seu acordeão, levando às montanhas de Liquiçá a alegria, a esperança e a solidariedade das gentes da Malcata/Sabugal,  e de outros lados de Portugal, de Coimbra à Lourinhã. A foto não traz legenda, mas é do Rui com a família Sobral, em Dili, no bairro Ailok Laran, em cuja casa ele fica quando vai a Timor-Leste.



Rui Chamusco, antigo professor
de música, reformado, é cofundador e líder da ASTIL - Associação dos Amigos Solidários com Timor Leste


1.  Continuação da publicação de excertos das crónicas da III Viagem (2019) (*), de Rui Chamusco a Timor-Leste.


Já publicámos excertos das crónicas da I viagem (2016), II (2018) e VI (e última) (2025). 

Depois meteu-se a pandemia, e o Rui só voltou a Timor Leste em 2023 (IV viagem), e anos seguintes: 2024 (V viagem) e 2025 (VI viagem).  

Este ano talvez lá volte, mas apenas pelo natal, se a saúde o permitir. Natural da Malcata, Sabugal, vive na Lourinhã  ( e, por estes dias, no Hospital Curry Cabral, em Lisboa, a recuperar de uma delicada intervenção cirúrgica).


Crónicas da III viagem a (e estadia em) Timor Leste (janeiro- abril 2019): semana de 10 a  a 17 de março

por Rui Chamusco


11.03.2019, segunda feira  - Assim se começa o dia

Hoje quase que ganhava aos galos cá do sítio. Levantei-me muito cedo, pelas cinco horas da manhã, porque não queria falhar à consulta médica que o Dr. Sérgio Lobo me marcou, para estar na sua casa, em Bemori, antes das sete. 

A continuação de dores neste físico que me suporta levou-me de novo a este médico, que até já foi em vários governos ministro da saúde. Na sua simplicidade trata os doentes com uma dedicação ímpar. 

Depois de devidamente observado prescreveu-me mais uma boa dose de remédios, receita que vou cumprir à risca. Não quero que me acusem de que sou um mau doente. De resto entrego-me aos cuidados de Deus, o melhor médico do
mundo. Estou certo de que tudo isto vai passar. É apenas uma prova nesta nossa terrena existência. Por isso, cara alegre,  “toca adelante!” Havemos de ter força e vencer esta pequenas dificuldades. Há por aqui muito que fazer, e não podemos dar-
nos ao luxo de andar ou de ficar doentes.


12.03.2019, terça feira - O bom filho à sua casa torna

Sem que estivéssemos à espera, o Amali, que há três meses e meio está em Portugal, decidiu voltar para Timor. Facto consumado, pois mostrou à tia Glória o bilhete que o irmão Zinon lhe mandou de Inglaterra. Embora tivesse de abdicar de alguns projetos de vida, o rapaz achou que seria melhor voltar à casa paterna.

A mãe, o pai, as irmãs Eza e Adobe até ficaram contentes, pois todos dizem que já tinham muitas saudades. Até eu fiquei contente, pois pensei logo aproveitar a boleia para o acordeão que ficou na Lourinhã, e que tanta falta aqui nos faz.

Hoje é o dia da partida: Lisboa / Munique / Bangkok / Bali / Timor.

Havemos de chegar eu bem sei... Entretanto, vão se contando por ordem decrescente os dias, as horas, os minutos e os segundos. No dia 15 a ansiedade aumenta, até que, pelas três horas da tarde, aparece o carro do vizinho Zé do Ti Beto, que estaciona no largo da casa e dá a mostrar os seus ocupantes e bagagem. 

Com abraços e beijos à istura, logo que pode o Amali começou a mostrar o conteúdo da bagagem. Claro que os meus olhos correram de imediato para a maleta onde vinha o acordeão. Os da casa comentaram logo: 

“ O tiu Rui está muito contente porque já tem o acordeão.”

Logo à noite já há ensaio das canções de reportório. E então vamos ouvir tocar e cantar: as notas (música no coração), abre a janela, ó rama da oliveira, o hino da alegria, a minha terra é linda, rosa enxertada, ó minha rosinha, Ti Anica, ao passar a
ribeirinha, etc, etc... Um serão, sem televisão, mas diferente...

13.03.2019 - Pedagogia timorense

Pois então!...

Hoje o Bartolomeu, que é o nosso chefe da aldeia, saiu-se com esta: “Aqui a polícia resolve à chapada.” Mas, resolve o quê?

A meio da manhã, ouvi falar e fui ver. Eram dois jovens que se predispunham para viajar de mota até à capital. Como aqui “os motores” são aos milhões, numa confusão de trânsito caótico onde ninguém cumpre as regras da boa condução e todos procuram desenrascar-se, os viajantes de motor têm obrigação de levar o capacete na cabeça.

Mas como um dos moços montou para a mota sem o devido aparelho, eu próprio chamei a atenção para o facto.

Foi então que o Bartolomeu explicou: “quando a polícia apanha alguém sem capacete não paga multa. Manda descer da mota e espeta um par de bofetadas no transgressor. Ou então vai passar a noite na esquadra”. 

Ora aqui está uma pedagogia à timorense.

Concordemos ou não com este processo a roçar a violência, parece que os resultados são animadores, porque nenhum jovem quer passar por essa vergonha.

A par do negócio dos capacetes, convenhamos que há por aqui muita cabecinha pensadora...

14.03.2019, quarta feira  - Carta aos amigos e sócios da Astil


Fundadores: Rui Chamusco,
Glória Sobral e Gaspar Sobral


Projeto de Solidariedade em Timor Leste
ASTIL ( Associação de Amigos Solidários com Timor Leste)

Estimados Sócios e Amigos

É sempre com prazer que me dirijo a vós dando notícias das nossas atividades, dos êxitos e dos fracassos, dos nossos anseios e esperanças na construção de um mundo melhor para estas crianças e estas gentes. 

Tudo o que temos conseguido em prole deste objetivo tem sido graças à vossa ajuda e colaboração. Ressalto a construção e inauguração da Escola São Francisco em Boebau / Manati, a criação do Programa de Apadrinhamento de crianças/jovens necessitadas (já estão apadrinhadas mais de 50), a reconstrução da casa de família do Sr. Vitor (com as obras em curso).

No próximo dia 19 de março é o 1º aniversário da inauguração da escola que construímos, com valências para o pré-escolar e para o 1º ciclo. Neste momento a escola funciona precariamente, com dois grupos de crianças do pré-escolar, assistidas por duas senhoras que, devidamente preparadas com estágios no jardim “Mundo Mágico”, em Dili, vão garantindo as atividades com as crianças e o funcionamento da escola.

Das 75 crianças matriculadas, apenas nos deixaram ficar as crianças do pré escolar, o que causou um grande desgosto e decepção às famílias aí residentes. As escolas próximas do ensino oficial não reagiram muito bem à criação da nossa escola, temendo que lhes faltassem alunos para as suas turmas. E então tudo fizeram para que os alunos da primária se matriculassem nas suas escolas. Mas tudo se vai resolver, ainda que não à velocidade que nós pretendemos.

Este e outros problemas têm-nos ocupado grande parte do nosso tempo. Trata-se de estabilizarmos o funcionamento da nossa escola, partindo do princípio de que somos a escola número 36 do distrito de Liquiçá, registada no ministério da educação de Timor Leste. 

Temos estatutos próprios aprovados que a definem como “Escola de Ensino Particular Privado”, com referência do ensino da música, do tetum e do português. Vamos tudo fazer para que os estatutos sejam cumpridos.

Permiti que vos fale da principal dificuldade: arranjar professores que queiram lecionar na nossa escola. Compreendemos plenamente as razões da recusa: os acessos (caminho, estradas) são muito difíceis, as condições de habitabilidade são poucas ou nenhumas, a luz prometida nunca mais chega, não há água corrente, etc, etc... 

Para os professores timorenses a gente desenrasca-se. Mas para os professores portugueses é muito difícil de motivar. É urgente criarmos no local uma infra estrutura - Uma Casa Residencial para professores e voluntários, com o mínimo de condições de habitabilidade que permita aí residir a quem aceite a difícil missão de aí ensinar.

Já pedimos informações sobre o orçamento para a construção. E foi-nos dito que mais ou menos 25.000 dólares.

Assim sendo, decidimos avançar a obra. Estamos esperançados que, no começo do novo ano escolar de 2020, já poderemos contar com a casa pronta.

Porque é um projeto solidário, fazemos um apelo a todos os amigos e sócios a espalharem esta notícia e nos ajudarem a angariar fundos económicos para concretizar a construção desta casa residencial. Convidem os vossos amigos (pessoas, empresas, instituições) a associarem-se a esta campanha solidária.

Estamos certos que com a vossa ajuda e colaboração iremos conseguir este grande objetivo. Deus, que é bom pagador, vos recompensará com as suas bençãos.

Com consideração por todos vós, e agradecendo desde já, em nome pessoal e da

ASTIL, um grande abraço

Rui Chamusco



17.03.2019, sábado  - Fora de horas...


O que a natureza nos ensina!... Nós que pensamos que já sabemos tudo, de repente vem um galináceo, dar-nos uma lição de inconformismo, de rebeldia...ou então, visto por outro lado, de cumprimento da missão para que foi destinado.

Ainda não era meia noite, quando o meu vizinho senhor galo se fez ouvir alto e em bom som. Enchendo bem o peito de ar, bate três ou quatro vezes as asas, e cheio de pujança grita: Có có ró có có!... E faz isto umas quantas vezes, sem que algum outro parceiro lhe responda. 

Por isso me questiono: será um galo com alguma missão especial?

 Lembro-me do galo que cantou três vezes quando Pedro negou que não conhecia Jesus; lembro-me do galo que anunciava o nascimento Menino Jesus ( meia noite dada / meia noite em pino / o galo cantando / nasceu o menino). 

Mas este galo timorense, por que canta fora de horas?... É um desalinhado, talvez por rebeldia ou até por contestação. Ora desde sempre ouvimos dizer que o cantar dos galos é o relógio ou o despertador natural, que indica mais ou menos a hora de levantar. E então, quando começa a desgarrada, é um “ver se te avias!”

Cá para mim, a eletricidade e o seu sistema de luz artificial, já trocaram as voltas a estas humildes criaturas. Dia e noite já não são o que era. Já não é quando Deus quer mas sempre que os homens queiram, acendendo ou apagando os interruptores. 

A confusão reinante deve-se à maldade humana e não a estes seres que amavelmente nos despertam, mesmo que fora de horas. Por isso irmão galo canta quando te apetecer, porque mais que não seja, o teu cantar será sempre um hino ao criador...

(Revisão / fixação de texto, negritos, itálicos, título: LG)
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Nota do editor LG:

(*) Último poste da série > 14 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28020: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte V: semana de 3 a 9 de março“: "Castelo de cinco quinas / Só há um em Portugal, / Que fica à beira do Coa, / Na cidade de Sabugal"