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terça-feira, 25 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28294: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte XII : Que futuro para os jovens que, dizem, são o futuro ?!


Timor-Leste > "Estudantes protestaram em frente ao Parlamento Nacional de Timor-Leste, exigindo o fim da lei da pensão vitalícia e pedindo mais investimento nos setores produtivos para criar oportunidades e desenvolver o país.

"Com poucas oportunidades de emprego e salários que muitos consideram insuficientes para construir uma vida estável, milhares de jovens timorenses continuam a olhar para o estrangeiro como uma oportunidade para mudar de vida. Outros preferem ficar e apostar no empreendedorismo, na agricultura ou em pequenos negócios.

"Timor-Leste é um dos países mais jovens da região. De acordo com os Censos de 2022, cerca de 65% da população tem menos de 30 anos. Esta geração representa uma enorme reserva de energia e potencial para impulsionar o desenvolvimento do país."

Entre partir e ficar: o futuro da juventude timorense (com a devida vénia...)

 

1. O nosso amigo (e membro da Tabanca Grande), Rui Chamusco, professor de música reformado, a viver na Lourinhã, vai a Timor Leste todos os anos desde 2016 (exceto na pandemia, 2020, 21 e 22).


São 3 dias de viagem até Díli!... Fica lá 3 ou 4 meses... Ele já tem 80 anos e fez recentemente uma operação cirúrgica, delicada, de que está a recuperar felizmente bem... Temos publicado as suas crónicas anuais no nosso blogue.

Ele é um exemplo vivo de amor à lusofonia. Ele e a associação que ajudou a fundar (a ASTIL), Essa história merece ser conhecido pelos nossos leitores, os amigos e camaradas da Guiné.

Já aqui publicámos excertos das crónicas da I viagem (2016), II (2018) e VI (e última) (2025). Depois da pandemia, o Rui voltou a Timor-Leste em 2023 (IV viagem), e anos seguintes: 2024 (V viagem) e 2025 (VI viagem). Estamos agora a publicar as do ano de 2019.



III Viagem a Timor-Leste : 2019 (Rui Chamusco, ASTIL) - Parte XII: semana de 21  a 27 de abril



21.04.2019, domingo  - Feliz Páscoa!...


O sol brilha. “ Ele é belo, radiante e com todo o esplendor: de Ti Altíssimo é a
imagem.” (Cântico das Criaturas)

E, se ontem à noite a lua quis associar-se ao evento da da vigília pascal, hoje o sol não quis ficar para trás, espalhando a notícia: ALELUIA! O SENHOR RESSUSCITOU!... FELIZ PÁSCOA!...  

E vêm à memória uma catadulpa de canções e músicas relacionadas com a Páscoa (...).

O Domingo de Páscoa aqui em Timor, para além das cerimónias religiosas/ missas dominicais em que muita gente participa, pouco ou nada se passa fora do normal.

Nada que se compare com a animação que se observa sobretudo no norte de Portugal, onde a visita pascal é a raínha. As procissões, as ruas com tapetes de flores, os folares, as amêndoas, os ovos de páscoa, etc fazem-nos alguma saudade e fazem crescer a água na boca. Paciência! Quem estiver mal que se mude (...).


Timor Leste > s/l > 2016 > O crvo vermelho e o acordeáo... O que seria o Rui sem eles, o carvo e o  acordeão ? O Rui, à esquerda, e o seu acordeão, levando às montanhas de Liquiçá a alegria, a esperança e a solidariedade das gentes da Malcata/Sabugal, e de outros lados de Portugal, de Coimbra à Lourinhã.  

O Rui com parte da  família Sobral, em Dili, no bairro Ailok Laran, em cuja casa ele fica quando vai a Timor-Leste.


Com a devida vénia à página do Facebook, Malcata.net, 21 de junho de 2016

 
22.04.2019, segunda feira  - Lições de acordeão

O acordeão é um instrumento pouco conhecido em terras do oriente, ainda que as suas origens mais remotas sejam na China. Era então um instrumento de sopro - o “Sheng” sendo o som produzido por palhetas numa das extremidades de cada tubo. 

Muitos anos mais tarde, fizeram diversas adaptações, sobretudo na Europa, sendo o ar produzido através de um fole que devidamente pressionado pelos braços faz vibrar as palhetas e tocar as notas da mão direita e da mão esquerda. Na Itália e na França situam-se as fábricas mais famosas da suas melhores marcas.

Aqui em Timor há quem toque (muito poucos instrumentistas) acordeão de teclado, mas acordeão de botões, acho que foi uma novidade quando eu apareci em 2016, tocando este estimado instrumento. Já explicarei a palavra “estimado'

Por isso há sempre alguma surpresa quando se ouve o toque do acordeão, que é um
timbre muito activo, e por isso impossível de lhe ser indiferente. Há dias lancei um repto à minha afilhada Adobe, que tem muito jeito para a música, sobretudo para cantar: 

- Não queres aprender a tocar acordeão? Eu ensino-te... 

Foi o que ela quis ouvir. Disse logo que sim, e a partir daí começamos já as lições. Hoje já foi a segunda e, digo-vos, a rapariga depressa vai aprender.

Porque é que referi “estimado” instrumento? Este acordeão é da Carolina, a filha mais nova do meu primo (irmão) Carlos, que Deus chamou para si na flor da idade, logo após fazer os dezassete anos. Tenho a certeza que ela lá no céu exulta quando eu, com carinho, me lembro dela e faço tocar o seu acordeão. O Carlos diz-me sempre: 

- Deixa-o estar que ele está em boas mãos.

 Terei todo o gosto do o estimar como se fosse meu. Mas não!... Ele é da Crolina e disso faço questão que o saibam.

A Adobe é uma menina com quase doze anos, que dentro de mais alguns terá a idade com que tu nos deixaste. Eu já lhe falei de ti, e tenho a certeza que nunca te irá esquecer, pois está a ter lições neste teu acordeão. Espero sinceramente que ela seja uma boa acordeonista e que, sempre que ela toque, a sua música chegue aos céus para júbilo de todos os que aí estão. Beijos meus e da Adobe. Sempre no coração!...

25.04.2019, quinta feira  - 25 de Abril...SEMPRE!...

Há quarenta e cinco anos. Aconteceu aquilo que muitos esparávamos: a libertação dos jugos de uma ditadura. Houve festa, houve flores, houve música e canções, houve alegria “ o povo saíu p’ra rua com alegria que (não) costumava ter”, manifestada em abraços e sorrisos rasgados; houve marchas, houve comícios e grandes concentrações.

Quem teve a sorte de viver este dia nunca mais poderá esquecer o que realmente se passou. Por isso, concordem ou não comigo, gritarei sempre, de peito bem erguido: 25 DE ABRIL ... SEMPRE!...

E não adianta que “os velhos do Restelo” ou “os profetas da desgraça” ostracizem esta comemoração, argumentando que isto está cada vez pior, clamando até pelo antigo regime, perguntando: “Foi para isto que foi feito o 25 de Abril?!” 

Claro que não!... A culpa dos males atuais não é do 25 d Abril. A culpa é de quem se serviu ou serve do poder, seja ele político ou económico, para escravizar os outros, para dominar e apropriar-se do que, por direito ou justiça não lhe não lhe pertence, para explorar e servir-se de esquemas de compadrio e corrupção. E, quem não se sente não é filho de boa gente. Mas até esta liberdade de nos podermos queixar é ao 25 de Abril que a devemos. (...)

E, sem ligar muito ao que irão dizer uns e outros, pois neste momento estou muito distante do local das operações, dir-vos-ei apenas que, à minha maneira, irei viver este dia com intensidade, pois nada nem ninguém poderá prender esta minha liberdade interior. 25 de Abril sempre!... VIVA O 25 DE ABRIL!....

25.04.2019 - Jovens timorenses... Que futuro?...

Já o afirmei noutros relatos: “a força de Timor Leste está nos seus jovens”.

É um chavão bem comum,  “os jovens são o futuro “. Mas não é por isso que eu estou escrevendo.

Esta manhã, ao ir dar um recado a casa do Anô, deparei-me com um grupo de jovens de 17 aos 30 anos (+ ou -) que, aparentemente,  nada faziam a não ser passar o tempo em amena cavaqueira. É frequente passarem por aqui durante o dia muitos jovens, individualmente ou em pequenos grupos,

A explosão demográfica aconteceu, consequência do incremento à natalidade que fizeram, depois da chacina feita pelas tropas indonésias e milícias timorenses (de 700.000 ficaram mais ou menos 500.00 habitantes).

 Famílias muito numerosas são a base atual desta sociedade timorense que, de um momento para o outro, se vê a rebentar pelas costuras, como soe dizer-se. Os diversos governos que têm exercido o poder, embora tenham já feito muita coisa, parecem impotentes de responder a todas as necessidades, particularmente às necessidades básicas de água, luz, saneamento. Há ainda muito a fazer neste domínio.

As escolas estão repletas de crianças que as frequentam. As universidades e institutos de ensino superior, idem. É uma alegria saber e verificar que a maioria das crianças vai à escola (exceção feita às crianças que vivem no interior, nas montanhas que, por dificuldades de deslocação, pais e crianças optam por ficar em casa). 

Nos dia de hoje, oitenta por cento da população timorense é alfabeta, resultado de um grande investimento na educação.

Chega?...É claro que não. Para além da quantidade, falta a qualidade. Mas é notório o esforço que todos vêm fazendo.

Então, qual é o problema? O problema é que estes jovens, muitos deles com cursos
superiores e universitários, não têm emprego. E trabalhar só para aquecer, sem o justo salário do seu trabalho, não dá. 

Muitos procuram trabalho no exterior, emigrando para a Coreia do Sul, para a Austrália, para a Inglaterra. Mas até neste sector já houve mais facilidades. Os processos de pedido de nacionalidade portuguesa, para depois poderem rumar para Inglaterra,  estão cada vez mais emperrados devido ao elevado número de pedidos e aos entraves da documentação incompleta ou falsificada.

A capacidade de resposta a esta juventude desempregada é insuficiente perante tantas solicitações. Eu não sei o que será de toda esta juventude que espera desesparada por uma resposta favorável. Até quando irão aguentar?

É compreensível que se houver um lider, venha ele de onde vier, que lhes prometa e responda aos seus anseios, possa rebentar esta bolha de ar comprimido que se está formando-

Mas o pior será se, para atingirem os fins em vista, esta matéria incandescente vira para a violência e outras coisas indesejadas. As memórias recentes das guerras e guerrilhas travadas pela independência, no último quarteirão do século passado, ainda estão muito presentes. Seria um castigo demasiado pesado para toda esta gente que, de alma e coração, é timorense. Oxalá que nunca mais!

Jovens, que futuro?... Incerto. Deus vos guie por bons caminhos!...

26.04.2019, sexta feira  - Lágrimas de alegria...

Quem espera sempre alcança. A Dílsia Rosa Oliveira, a Rosinha como carinhosamente lhe chamamos, foi das primeiras jovens a inscrever-se no programa de apadrinhamento que, há três anos, acabava de ser criado, integrado no Projeto de Solidariedade em Timor Leste. 

Quase todos os dias ela aparece por aqui, pois mora bem perto do local onde moramos, em Ailok Laran. Confesso que me dava pena sempre que chegava a notícia de algum apadrinhamento, ver a Rosinha ansiosa por saber se seria a sua vez.

Ontem, a meio da tarde, recebi um telefonema da educadora Mariana Gomes, que
trabalha na Escola Cafe de Taibessi, perguntando se era possível um encontro nesta tarde. De pronto respondi: 

- Claro que sim! Às horas que quiser...

Não demorou muito tempo, e já a Mariana e o seu “motor” davam entrada no pátio da família Sobral. Falamos de crianças, de música, da profissão, da vida neste país que agora nos acolhe. Por fim, a Mariana abordou o programa de apadrinhamento, pois já anteriormente tinha manifestado a vontade de apadrinhar uma criança /Jovem. 

Sendo sempre a decisão da responsabilidade de quem apadrinha, e depois de ser pedida a minha opinião uma vez que conheço todas as propostas, sugeri que fosse apadrinhada a Rosinha. Mais a mais a Rosinha pode vir aqui de imediato para que o conhecimento mútuo se estabeleça. A Mariana aceitou a minha sugestão e, em minutos, mandou-se chamar a afilhada que, surpreendida, perguntou várias vezes, sem querer acreditar:

- Ai?!... Vai ser minha madrinha?!... 

E, nervosa, levava as mãos ao seu rosto, chorando de alegria. A madrinha Mariana por sua vez repetia:

- Sim! Quero ser tua madrinha. 

E selaram este pacto com beijos e abraços bem apertados e lágrimas à mistura. Que cena de ternura que até faz inveja a quem faz de testemunha!...

A seguir será o preenchimento da ficha de apadrinhamento a incluir no processo.
Obrigado, Mariana,  em nome da Astil, por fazeres parte do nosso projeto de
solidariedade. Parabéns, Rosinha , pela madrinha que Deus te deu. Tens muita sorte de ter a Mariana como madrinha. Tenho a certeza que será uma relação muito eficaz.

27.04.2019, sábado  - As mães ... e os filhos

Vou falar-vos de mães e filhos galinhas e de mães e filhos teques (osgas) (náo confundir com as toqués). Ambas as mães na sua tarefa de ensinarem os seus filhotes a procurarem os alimentos que os sustentam e fazem crescer.

Ontem, uma galinha com os seus pintaínhos faziam aqui em frente uma demonstração de “ensinar para aprender” ou, por outras palavras, “aprender fazendo”. A mãe galinha esgravatava no chão e indicava o fruto do seu trabalho: um grão de arroz, um verme, um bicharoco, etc. Os pintaínhos, ainda mal saídos da casca, picavam também e aproveitavam as descobertas da mãe. Coisas da natureza...

Hoje, ainda mal se via, e estando à espera da luz do dia, vejo na parede do quarto uma mãe teque e a sua cria. A mãe estava ensinando a caçar mosquitos, uma verdadeira arte dos teques. Todas as noites presenciamos esta caça ao tesouro. Mas ver dar uma lição destas, de mãe ou de pai para o seu filho ou filha,  é um privilégio.

E eu, que tantos mosquitos tenho matado com a dita “raquete assassina”, começo a pensar que a natureza tem sempre surprezas para nos dar. Quem sabe se os mosquitos, estes seres tão odiados e perseguidos, não são mesmo necessários neste mundo em que vivemos. Pelo menos para alimentar esta ditas criaturas,  os teques que até dizem por cá darem sorte aos da casa. Que assim seja!...

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos: LG)
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terça-feira, 21 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28202: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte XI : semana de 14 a 20 de abril: tempo pascal, a importância da religião católica


Timor-Leste > Liquiçá > Manatti > Boebau > Placa da inauguração da Escola de Sáo Francisco de Assis, em 19 de março de 2018.

Foto: cortesia de página do Facebook da ASTIL 



1. O nosso amigo (e membro da Tabanca Grande), Rui Chamusco, professor de música reformado, a viver na Lourinhã, vai a Timor Leste todos os anos desde 2016 (exceto na pandemia, 2020, 21 e 22).

São 3 dias de viagem até Díli!... Fica lá 3 ou 4 meses... Ele já tem 80 anos e há dias fez uma operação cirúrgica,delicada, de que está a recuperar felizmente bem... Temos publicado as suas crónicas anuais no nosso blogue.

Ele é um exemplo vivo, o dele e da associação que ajudou a fundar (a ASTIL), de amor à lusofonia. Essa história merece ser conhecido pelos nossos leitores, os amigos e camaradas da Guiné.

Já aqui publicámos excertos das crónicas da I viagem (2016), II (2018) e VI (e última) (2025). Depois da pandemia, o Rui voltou a Timor-Leste em 2023 (IV viagem), e anos seguintes: 2024 (V viagem) e 2025 (VI viagem).

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Banda desenhada: Rui Gaspar, João Crisóstomo e Gaspar Sobral, membros da ASTIL

"Prompt e orientação editorial: Luís Graça | Imagem:  João Crisóstomo (2017) | Geração gráfica assistida por IA: Google (2026), Gemini (versão de 8 de julho de 2026) [Grande modelo de linguagem]. Disponível em: https://gemini.google.com/"



Continuamos a publicar e excertos das crónicas da III Viagem (2019) (*), realizada pelo Rui Chamusco a Timor-Leste, enquanto cofundador e dirigente da ASTIL, a associação portuguesa de solidariedade com Timor Leste (ASTIL).

Lendo as suas crónicas (que ele reuniu numa brochura em pdf, com cerca de 3 centenas de páginas), ficamos a saber muito mais sobre a história, a cultura, a geografia, a sociodemografia, a idiossincrasia daquele país, que nos é tão querido, membro da CPLP.

 Além da construção, organização e funcionamento da Escola, a par do "apadrinhamento de crianças em idade escolar", a pequena ASTIL (que tem sede em Coimbra e delegação no Sabugal) já construiu a "casa do professor" e adquiriu uma viatura todo-o-terreno ("pick up"), indispensável para se chegar a Boebau, na montanha. 


Nestas crónicas de 2019, há referência a dificuldades e limitações que, felizmente, já foram entretanhto superadas. Falta, finalmente, resolver o magno problema da colocação, definitiva, de professores de carreira. A escola continua a ser privada e inteiramente financiada pela ASTIL (e os pais dos alunos).

Em  
Ailok Laran, nos arredores de Díli, costuma ficar na casa do irmão mais novo do Gaspar Sobral (outro cofumdador e dirigente da ASTIL, luso-timoresne, retornado de Angola, onde foi topógrafo), o "Eustáquio" (João de Araújo Moniz de Oliveira Sobral) (que de 1975 a 1978, andou fugido dos indonésios nas montanhas de Liquiçá, com a irmã mais nova e a mãe, tinha então 14 anos!).


Rui Chamusco e Gaspar Sobral (2027)

Foto à direita: Rui Chamusco (à esquerda), professor de música, reformado, é cofundador e líder da ASTIL - Associação dos Amigos Solidários com Timor Leste: é natural ds Malcata, Sabugal; vive na Lourinhã; é membro da Tabanca Grande, tem 70 referências no blogue; à direita, o Gaspar Sobral, o luso-timorense, retornado de Angola, casado com a Glória Sobral, natural de Sabugal: foi este casal que meteu o Rui nesta aventura solidária (que, para todos, tem sido gratificante).


III Viagem a Timor-Leste : 2019 (Rui Chamusco, ASTIL) - Parte XI: semana de 14 a 20 de abril



15.04.2019, segunda feira  - Ambição humana ou recado de Deus?

Este dia ficará na história da humanidade como um marco indelével da perda de um património social, político e religioso ímpar, incapaz de ser reparado na totalidade.

O incêndio deflagrado na Catedral de Notre Dame de Paris deixou todo o mundo atónito. A tarde deste dia 15 de Abril de 2019 ficará registada na história de França com marcas de angústia, de tristeza, de pena e de lamentações. Oitocentos anos de vida que, de um momento para o outro, são postos à mercê das chamas, com obras dem arte reduzidas a cinzas. 

A notícia correu célere por todo o mundo. E até aqui em Timor, a tantos quilómetros de distância, é o tema de conversa, particularmente entre os ocidentais que por cá habitam e aqueles que alguma vez tiveram a sorte de visitar
este monumento de renome internacional.

Lembro-me, nos princípios dos anos oitenta, quando habitava Paris, das experiências e vivências que tive neste local: o espetáculo noturno, com raios laser, sobre a história de Notre Dame de Paris; o encontro com o escritor Pe. Jean Leclérc, que dispunha de um gabinete de atendimento na catedral por onde passavam pessoas desesperadas da vida e que, em última oportunidade, foram salvas do suicídio graças a estes encontros (o livro “Début sur le Soleil” escrito por este autor reflete muitos destes casos); o encontro de emigrantes portugueses que, numa tarde de domingo, encheu por completo este templo para uma celebração eucarística, e que depois se prolongou no “parvis de Notre Dame” com manifestações culturais e recreativas; as visitas ocasionais em que eu fiz de guia a alguns amigos que visitaram esta catedral durante a minha estadia nesta cidade da luz.

É impossível ficar indiferente a tal tragédia.

Mas, como nada acontece por acaso, e tal como outros já fizeram com certeza, questiono-me sobre o porquê deste e doutros acontecimentos similares. Como entender tais acontecimentos? Terão algo para nos dizer? Que a Torre de Babel se tenha desmoronado, até parece compreensível à luz da mensagem bíblica. Que as “torres gémeas” de New Work tenham sido abatidas por terroristas assassinos, até parece que se entende devido ao ódio instalado no mundo árabe contra os americanos.

Tudo o que é grande e se orgulha de si próprio como o maior de todos tem o seu fim à vista, sejam torres, aviões, barcos, pessoas, nações, etc... E até pode haver quem diga que isto é castigo de Deus, que são lições de vida, que é o que tem de ser...

Quando há muitos anos estudei teologia, um dos temas de estudo era a “Teofania dos Lugares Altos”. Aí aprendemos que, ao logo de toda a história da salvação, os homens sempre acreditaram que, estando Deus lá no céu, a melhor maneira de estar mais perto dele é subir o mais alto possível, na tentativa de Lhe tocar. Por isso tantos templos, tantas igrejas, tantas capelas no cimo dos montes e em toda a parte.

Mas será que Deus quer ser mesmo tocado (apanhado) desta maneira? Não será mais certo procurarmos cá em baixo o Deus que encarnou e habita connosco? Não será demasiada ambição querer ser igual ou superior a esse Deus criador do céu e da terra?

Quem sabe se o incêndio da catedral de Notre Dame de Paris, este e outros acontecimentos, não terão alguma pedagogia divina? Quem sabe se, em contexto de fé, não serão uma chamada de atenção?... Até já há quem relacione este acontecimento com as “profecias de Nostramus”, como um sinal de purificação nesta Europa que envelhece e perde muitos dos seus valores e referências.

E por aqui me fico, não vão apelidar-me de profeta da desgraça, de bruxo ou de outra coisa qualquer...

17.04.2019, quarta feira  - Ida e volta a Boebau

Era assim que estava combinado. A educadora Diana Rebelo, aproveitando as férias de Páscoa, dispôs-se a ir até Boebau, à Escola de São Francisco de Assis, para “in loco” orientar as duas estágiárias nas suas atividades com as crianças. 

Claro está que nós (o Eustáquio, o Gaspar, a Adobe, a Diana e eu) sentimo-nos na obrigação de a acompanhar e apoiar em todas as solicitações. Depois de três horas de caminho nada fácil, mesmo que viajando em jipe alugado para o efeito, lá chegamos ao destino, onde as crianças já nos esperavam. Depois da imposição do tais à educadora Diana, e feitos os cumprimentos habituais, fomos mostrando e explicando as instalações da escola. 

A Diana aproveitou logo para dar sugestões de trabalho para estes dois grupos de crianças: o Grupo A, de 3 e 4 anos, com 17; o Grupo B, de 5 e 6 anos, com 27 crianças. Ao todo frequentam neste momento a escola 44 alunos.

Verifiquei a avidez com que as senhoras Fátima e Adelina (estagiárias) ouviam e assimilavam as observações feitas pela professora educadora, bem como a preocupação de registarem as ideias de trabalho para cada um dos grupos. Tenho a certeza de que esta visita vai contribuir imenso para o bom funcionamento da escola São Francisco de Assis. À educadora Diana um grande obrigado pela ajuda que, desdeno primeiro momento, nos tem prestado. É para nós uma referência de solidariedade.

Apesar dos muitos afazeres, está sempre disposta a colaborar connosco. OBRIGADO!

Aproveitamos também esta curta estadia para tratarmos de alguns assuntos pendentes, nomeadamente da construção de uma casa residencial para professores e voluntários.

Estivemos no local previsto para a construção, e estamos agora à espera de negociar o terreno e a empreitada. Pedimos para que fossem rápidos a apresentarem as suas propostas e, se assim for, em breve começará a sua construção. Casa residencial é uma condição “sine qua non” para que possamos motivar alguém da classe docente a aceitar trabalhar na nossa escola. Por nossa vontade, a sua inauguração será no começo do ano 2020. Mas isso não depende inteiramente só de nós.

Eram 14 horas quando procedemos ao regresso. Pelas 17.30 horas estàvamos todos em casa, felizes desta jornada. Amanhã será outro dia...

19.04.2019 - Sexta Feira Santa: hábitos, usos e costumes...

A religião católica, a par de outras religiões, tem uma presença muito signicativa na sociedade timorense. A sua influência na vida deste povo é bem notória nos seus hábitos, usos e costumes.

Hoje, Sexta Feira Santa, segundo dia do tríduo pascal, “es dia de dolor / murió nuestro Señor / No se puede estudiar” (letra de uma canção espanhola). 

Pois, aqui em Timor, povo que alia a sua cultura animista ao culto e à prática religiosa, celebra-se com devoção o dia da morte do Senhor em cerimónias que, sobretudo a religião católica, organiza nas suas igrejas. A afluência dos fiés é enorme e, regra geral, todo o povo se orienta por regras e princípios que desde há muito existem ou existiram na maior parte do mundo católico. 

Sabemos que o mais importante está dentro de nós, observantes ou não observantes. Sabemos que há pessoas não alinhadas nestas práticas religiosas.

Sabemos que cada um é livre de seguir esta ou aquela religião. Mas há ainda nesta cultura timorense hábitos, regras, usos e costumes que no dia de hoje, Sexta Feira Santa, ninguém deve transgredir: não dar o bom dia, a boa tarde, a boa noite; não varrer a casa; não fazer barulho: não gritar, não assobiar e não cantar; não ver televisão, etc, etc...

Onde é que eu já vi isto há mais de cinquenta anos atràs?

A verdade é que aqui, em Ailok Laran, hoje não se tem ouvido a algazarra, a música do todos os dias: crianças que passam, jovens cantarolando e tocando guitarra, carretas carregadas de produtos alimentares que, em alta música, vão anunciando a sua chegada, etc... 

O único ruído que se vai ouvindo são as folhas das árvores que, sopradas por um vento suave, nos vão enchendo os pulmões de oxigénio. Nem mesmo o cantar dos galos ou o cacarejar das galinhas se faz ouvir. (Ops!... que agora cantou um galo três vezes e me alertou de que, tal como Pedro, vos estou a mentir.)

Seja como for, o melhor é respeitar a cultura deste povo e a suas manifestações religiosas. Sexta Feira Santa, um dia de respeito, de devoção, de silêncio interior, de purificação. Estamos a caminho da Páscoa da Ressurreição...


20.04.2019, sábado  - Vigília Pascal...em noite de lua cheia

Para os cristãos esta é a noite mais importante do seu calendário litúrgico. Como se lê ou canta no Precónio Pascal, também chamado de “Exultet”, esta é a noite ditosa em que o céu se une à terra para celebrar a Ressurreição de Jesus:

 “No esplendor desta noite / Que viu ressurgir Jesus / Do sepulcro. Exultemos / Pela vitória da Cruz.”

“Noite mil vezes feliz / Na noite clara como o dia / Na noite de Cristo glorioso / Exultemos de alegria.”

Não importa muito como se começa; importa é como se acaba. Ora, convenhamos que a ressurreição de Jesus é um acontecimento únco na história da humanidade, e é o auge de toda a vida terrena, de toda a vida cristã. Como diz a letra do cântico “Ressuscitou” de Kiko Arguello: “ Se com Ele morremos, com Ele vivemos, com Ele cantamos Aleluia!” Ou seja, também nós havemos de ressuscitar. É uma questão de fé. Temos de acreditar.

Em todo o mundo os cristãos celebram a Páscoa (do hebraico Pasha, que quer dizer passagem) com manifestações religiosas diversas: a Festa da Ressurreição, a Festa das Flores (talvez por ser o inívio da primavera): Para os não cristãos é também uma festa.

São as férias escolares, são os encontros de família e de amigos, são as provas desportivas, são os doces e as amêndoas, etc... Queiramos ou não todo o mundo está envolvido. É a Festa da Páscoa de 2019.4.21

Aqui em Timor, com uma maioria predominantemente católica, vive-se a Páscoa intensamente. A julgar pela afluência e participação dos fiéis nas cerimónias que as igrejas promovem. 

Em Ailok Laran, pelas dezanove horas passavam constantemente grupos de pessoas bem trajadas. Perguntei para onde ia toda aquela gente, e de pronto
me responderam: “vão para a catedral, para a vigília pascal. Com mais ou menos meia hora de caminhao para cada lado, quer dizer que só lá para a meia noite estarão de volta. A liturgia desta vigília é muito demorada, devido em parte à quantidade de leituras que são proclamadas. Mas esta gente é de ferro. Tudo suporta em nome daquilo em que acredita. É gente de uma fé inabalável, capaz de tudo. Que Deus os abençõe!

E eu, um ocidental aqui deslocado, que faço eu neste contexto? Às vezes tenho inveja da fé simples mas forte destes crentes. Nós escusamo-nos e defendemo-nos com a nossa racionalidade, mas eles dão-nos exemplos e lições do que é acreditar com o coração. Se calhar, eles é que têm razão.

Mas nesta noite santa de 20 de Abril de 2019, quis a natureza associar-se a esta vigília pascal, presenteando-nos com uma lua cheia espetacular. A noite estava inundada de luz, a preconizar a luz solar que iria colmatar este luar. 

Sentado na varanda mais alta desta casa, desfrutei por horas este cenário idílico, deixando-me embeber deste luar inebriante. E, contemplando a lua, pensei em tudo: no homem que lá se vê com um molho de silvas às costas (crendice de meninos); nas viagens lunares, na compra de terrenos e viagens para a lua, no fascínio e apetência dos homens por este astro através dos tempos. 

A lua feiticeira que a todos encanta e extasia. Contemplando o horizonte, cheio de luzinhas e penumbras provocadas pelo arvoredo circundante, termino louvando o criador com as palavras de São Francisco de Assis, no Cântico do Irmão Sol ou Cântico das Criaturas: “ Louvado sejas meu Senhor pela irmã lua e as
estrelas que no céu formaste claras. preciosas e belas.”

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos: LG)
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Nota do editor LG:

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28166 Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (10): Os nossos provérbios pouco ou nada populares - Parte I: Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é tolo, ou não tem arte







"Prompt e orientação editorial: Luís Graça | Imagem:  João Crisóstomo (2017) | Geração gráfica assistida por IA: Google (2026), Gemini (versão de 8 de julho de 2026) [Grande modelo de linguagem]. Disponível em: https://gemini.google.com/"




1. Rui, tu que és um homem bom, ecuménico, generoso, solidário, cristão, não vais por certo concordar com a colagem, como subtítulo da tua crónica (*), do provérbio popular português "Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é tolo ou não tem arte"...

Interpelo o Rui Chamusco, mas também podia evocar os nomes do João Crisóstomo, do Gaspar Sobral, da Glória Sobral,  do Eustáquio, e tantos outros, homens e mulheres da ASTIL - Associação dos Amigos Solidários Com Timor-Leste. Por certo, que nenhum deles se revê neste provérbio dito popular português.

Muitos destes provérbios são de origem fradesca, machistas, misóginos, racistas, e portanto anticristãos... 

E, pelo que nos contas, Rui, o barlaque timorense não tem a ver com "trocas & baldrocas"...Há negociação, há assimetria de poder, há desigualdades, mas há intermediação, há procura de soluções mutuamente satisfatórias, há uma lógica de "win-win" (ganhas tu, ganho eu, ganhamos todos).

Se bem entendi o essencial do barlaque timorense..., aplicar esse provérbio seria ignorar completamente a lógica do sistema. 

O barlaque não é um negócio de soma zero ou uma partilha de bens onde um tenta passar a perna ao outro; não é a simples e tradicional "caça ao dote" como no Portugal de antigamente ( e ainda hoje, em certos grupos sociais); é um intrincado tecido de alianças, reciprocidade, regulação, partilha e equilíbrio social entre famílias (umane e fetosan).

Estas duas palavras em tétum, fetosan e umane designam categorias de parentesco essenciais na estrutura social tradicional timorense. Elas definem a relação de aliança entre duas famílias unidas pelo casamento.
  • Fetosan: significa literalmente "as mulheres da casa" ou a família que recebe a esposa (a família do noivo).
  • Umane: significa a família que "doa" a esposa (a família da noiva).
Estas duas famílias estabelecem um vínculo de respeito e obrigações mútuas que se mantém ao longo de gerações. Quando há eventos importantes, como casamentos ou funerais, estas duas partes têm papéis rituais próprios, como a troca de gado, tecidos (tais),  arroz e dinheiro (prática conhecida como barlaque).
Não se trata, pois, de "levar a melhor parte", mas sim de selar um compromisso e garantir o respeito mútuo. 

Parece haver e prevalecer uma estratégia "win-win" (ganhas tu, ganho eu), pese embora a contestação deste "construto cultural" por parte da geração mais recente, escolarizada e crítica, e nomeadamente dos que defendem a "igualdade de oportunidades" para as mulheres numa sociedade que ainda é largamente "patriarcal e falocrática".

2. Rui, este provérbio é um daqueles que, à primeira vista, parece querer dar-nos um bom conselho de sabedoria popular sobre o tema da "astúcia e justiça"... 

Mas eu, como sociólogo, estou sempre de pé atrás, em relação à chamada "sabedoria popular" que muitas vezes esconde "minas & armadilhas" (ideológicas, morais, filosóficas, sociolinguísticas, políticas, etc.).

Que tal uma primeira análise, no sentido de o "desconstruir" ou "desmontar" ?!

(i) Vejamos um primeiro nível, mais superficial: a lógica do "ficar com o melhor", o melhor bocado (como acontece com os grupos de animais, predadores, dos leões aos chacais):

O provérbio sugere que quem divide algo (um bem, uma oportunidade, um recurso, uma informação, um "trunfo"...) e não consegue ficar com a melhor parte, é porque é tolo (falta de inteligência), ou não tem engenho & arte (habilidade, malícia, manha e outras ferramentas de poder). É "realismo político"...

Digamos que é, logo de caras, um elogio à esperteza (ou chico-esperteza, tão nossa, tão humana, tão universal mas também tão saloia, tão portuguesa) : quem não souber garantir a sua vantagem, o seu "bocado (ou bocadão"),  num contexto de crise e escassez é merecedor de desdém (o rótulo de "tolo", "coitadinho", "atrasado mental", "pobre-diabo"...).

Primeira questão crítica: este provérbio "naturaliza" a desigualdade. Parte do falso axioma de que a vida é um jogo de soma zero, onde uns, mais fortes e espertos, ganham inevitavelmente à custa de outros, mais fracos, com menos recursos, "bagagem", "cabedais", "trunfos"...

É a eterna questão: uns nascem em berços de ouro, outros são escumalha; há os pretos e os brancos; há os que nascem para mandar e os que nascem para serem mandados; há os ricos e os pobres; os soldados e os generais; os senhores e os escravos... Nasce-se mulher ou homem, num país atrasado ou desenvolvido; nasce-se já doente ou são; inteligente ou burro; etc. Ou citando a genial quadra do genial António Aleixo, "A rica tem nome fino / A pobre tem nome grosso / A rica teve um menino / A pobre pariu um moço".


São tantos os estereótipos a estigmatizar os homens e as mulheres que habitam a nossa "aldeia global" de Timor-Leste a Portugal...

Portanto, não há espaço para a cooperação, a solidariedade ou a equidade, o trabalho em equipa, a concertação, o consenso, a partilha, o dom, valores que, a ti, Rui, que és cristão, te são tão caros. E que pões à prova em Timor-Leste, de Díli a Boebau, nas montanhas de Liquiçá. Tu e tantos outros, anónimos, da ASTIL e de outros organizações.


(ii) A origem fradesca e o contexto histórico medieval

Muitos provérbios portugueses têm origem bíblica ou em sermões moralizantes da Idade Média, onde a Igreja (e os frades, em particular) usava a linguagem popular, chã, simplista, metafórica, para transmitir lições de obediência, hierarquia, resignação, submissão (e sublimação). 

 Este, em concreto, soa a uma justificação da fatalidade da desigualdade social, do determinismo fatalista e justiceiro..."Se Deus o marcou, é porque algum defeito lhe achou"; "Deus castiga sem pau nem pedra", etc.

"Ficar com a melhor parte" só pode ser então entendido lido como uma metáfora para justificar o poder, a aquisição e a manutenção dos lugares e do "aparelho" do poder: quem não souber manipular as regras (ou as pessoas e outros recursos) para beneficiar de privilégios, fica sempre na "mó de baixo", na cave, no piso zero do elevador social...(que neste caso só desce, não sobe para os pisos superiores).

"Não ter engenho e arte" pode ser uma crítica aos saloios, aos camponeses, aos pobres, aos marginais, aos "simples de espírito" (leia-se: os tolos, os idiotas), que não tinham acesso à educação, à "literacia", ao domínio da língua e da cultura e, portanto, à "malícia", à "manha", necessária para subverter um sistema que os oprimia.

É irónico, aliás, que muitos destes provérbios tenham sido criados pela Igreja (/enquanto "instituição e organização" com raízes na terra e antenas no céu) que, ela própria, ficava sempre com a melhor parte: em terras, em dízimos, em poder societal: social, económico, cultural, estético e político...

(iii) O machismo e a misoginia implícitos

Se olharmos para a estrutura do provérbio, há uma associação entre "arte" e "esperteza" que, em muitos contextos, era (e ainda é) "genderizada" (do inglês "gender", género).

Historicamente, a "arte" de negociar, de enganar ou de garantir vantagens era vista como uma qualidade "masculina", enquanto as mulheres eram incentivadas a ser passivas, obedientes, dóceis e "boas", resignando-se a não "ficar com a melhor parte", a não ter protagonismo, na casa, na rua, na cidade...

Um homem que não soubesse ser astuto era um tolo, não era um "cabra-macho", como se dizia na Guiné dos "libertadores da Pátria". 

Em contrapartida, uma mulher que tentasse sê-lo,  era logo apodada de feiticeira, bruxa, adúltera, prostituta,   "eva-serpente-tentadora" (acabando, não poucas vezes, na "fogueira", vítima dos "autos de fé" da Santa Inquisição).

Conclusão: o provérbio não só "naturaliza" ( ou dessocializa)  a desigualdade, como vem reforçar estereótipos de género (que ainda hoje persistem, e estão a ressuscitar por todo o lado, de Portugal aos EUA).

(iv) O individualismo e o "struggle for life" (=luta pela sobrevivência)

Este provérbio bem pode ser o título de "manual de sobrevivência", um desses manuais que enchem os escaparates das livrarias das grandes superfícies, de "desenvolvimento pessoal e autoajuda", onde cada um ("chacun",
francês) se governa, olha para si, para o seu umbigo, a sua barriga, e em que o sucesso individual é medido pela capacidade de explorar, aldrabar, submeter os outros ("Primeiro eu, segundo eu, terceiro eu, e o resto que se f*da!")...

É a lógica do "salve-se quem puder", que justifica as "bestas negras" das nossas democracias: 

  • a corrupção ("se não fores esperto, outros o serão, chegarão primeiro do que tu, como na corrida ao ouro no Faroeste, e ficarão com tudo"); 
  • a falta de solidariedade ("se partilhares, ficas sem nada"); 
  • a desconfiança generalizada ("todos querem enganar-te, então sê tu a enganar em primeiro lugar"); 
  • o dinheiro como medida de todas as coisas"; o cinismo ("Deus manda ser bom, mas não ser parvo");
  • a inveja social, a arrogância, a estupidez, a diabolização da ciência ( e nomeadamente das ciências sociais e humanas), etc.

É uma mentalidade que, infelizmente, ainda hoje alimenta o clientelismo, o compadrio. o oportunismo, a ganância, a falta de coesão social, as crescentes desigualdades... em Portugal, na Europa, no Mundo globalizado. E inclusive em Timor, jovem país independente, lusófono.

(v) O anticristianismo (ou o cristão de fachada)

Querido Rui, cronista dos "usos e costumes de Timor Lorosae... À primeira vista, o provérbio parece alinhado com uma moral cristã de justiça e merecimento, que te é cara, mas, na realidade, é o oposto. 

O cristianismo (pelo menos na sua versão idealizada, no teu franciscanismo) prega: "Amar o próximo como a ti mesmo" (nada de "ficar com a melhor parte"); "É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus" (ou seja, a acumulação e sobretudo a ostentação de riqueza, não é um valor intrinsecamente cristão)...

Mas a Igreja, como instituição e organização, usou e abusou destes provérbios para controlar as massas, dizendo-lhes: "Sê humilde, que o teu lugar é este"; "Se não tens, é porque não mereces", "A pobreza é virtuosa, mas a riqueza dos outros é sagrada", "Dar aos pobres é emprestar a Deus" (... e Deus paga-te com juros e dividendos, a ti que és rico e caridoso...), "Dou um chouriço a quem me der um porco"...

Ou seja: o provérbio é anticristão no fundo, mas cristão na forma, é uma ferramenta de mistificação, de dominação ideológica.

(vi) Alternativas: provérbios que combinam contigo, convosco Rui, João, Gaspar com a ASTIL (e connosco, aqui na Tabanca Grande)

Se queres um provérbio que reflita os teus valores (liberdade, dignidade, solidariedade, equidade), aqui ficam algumas sugestões reinterpretadas ou alternativas:

"Quem parte e reparte, e fica com a parte que cabe a cada um, esse tem arte e sabedoria." (A justiça não é ficar com o melhor, mas garantir que todos têm o suficiente.);

"A melhor parte é a que se partilha." (Um contraponto direto ao individualismo do provérbio original.);

"Quem não tem arte para partilhar, não tem arte nenhuma." (A verdadeira habilidade é criar abundância, riqueza, não escassez, e saber reparti-la, com equidade.)

(vii) Conclusão: um provérbio a "desconstruir", "desmistificar"...

Este provérbio, Rui (e demais leitores), é um espelho das contradições da sociedade portuguesa: 

  • fingimos ser humildes, mas adoramos os espertalhões, os populistas, os demagogos; 
  • fingimos ser cristãos, mas idolatramos quem "se safou", quem escapou à justiça,  quem está sob as luzes da ribalta;
  • fingimos ser racionais, mentalmente sãos, mas somos  bipolares, subindo aos céus em delírio com as vitórias dos nossos heróis, para logo cair nas labaredas do inferno do ressentimento, da imprecação, da demonização, quando eles falham;
  • fingimos ser solidários, mas desconfiamos, com inveja,  de quem partilha com generosidade.

É, em suma, um manual de sobrevivência num mundo injusto, mas não um guia para o tornar melhor (ou gradualmente melhor)... (**)

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(**) Último poste da série > 9 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28143: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (9): porque é que o PAIGC nunca afundou nenhuma embarcação no rio Geba Estreito (São Belchior e Mato Cão) - Parte I

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28163: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte X : semana de 7 a 13 de abril: Ainda sobre o "barlaque": quem parte e reparte e não leva a melhor parte, ou é tolo ou não sabe da arte ?!







... Não, em Timor-Leste não se pode aplicar, nas negociações do barlaque, o provérbio popular português: "Quem parte e reparte, e não leva a melhor parte, ou é tolo ou não tem arte". Aplicar esse provérbio seria ignorar completamente a lógica do sistema. O barlaque não é um negócio de soma zero ou uma partilha de bens onde um tenta passar a perna ao outro; não é asimples e tradicional "caça ao dote";  é um intrincado tecido de alianças, reciprocidade, regulação, partilha e equilíbrio social entre famílias (umane e fetosan). Não se trata de "levar a melhor parte", mas sim de selar um compromisso e garantir o respeito mútuo. Parece ser uma estratégia "win-win" (ganhas tu, ganho eu), pese embora a contestação deste "construto cultural" por parte da geraçáo mais recente, escolarizada e crítica, e nomeadamente dos que defendem a "igualdade de oportunidades" para as mulheres numa sociedade que ainda é "patriarcal e falocrática"...
 
"Prompt e orientação editorial: Luís Graça | Texto e imagem: Rui Chamusco (2019) | Geração gráfica assistida por IA: Google (2026), Gemini (versão de 7 de julho de 2026) [Grande modelo de linguagem]. Disponível em: https://gemini.google.com/"


1. Continuamos a publicar e excertos das crónicas da III Viagem (2019) (*),  realizada pelo Rui Chamusco a Timor-Leste, enquanto cofundador e dirigente da ASTIL, a associação portuguesa de solidariedade com Timor Leste (ASTIL), que já montou, equipou e pôs a funcionar uma escola nas montanahs de Liquiçá (Manatti / Boebau), a Escola de São Francisco de Assis (ESFA), e faz o "apadrinhamento" de crianças em idade escolar. 

O nosso amigo (e membro da Tabanca Grande), Rui Chamusco, professor de música reformado, a viver na Lourinhã, vai a Timor Leste todos os anos desde 2016 (exceto na pandemia, 2020, 21 e 22).

São 3 dias de viagem até Díli!... Fica lá 3 ou 4 meses... Ele já tem 80 anos e há dias fez uma operação cirúrgica,delicada,   de que está a recuperar felizmente bem... Temos publicado as suas crónicas anuais no nosso blogue. 

Tem uma história de vida inspiradora. É um exemplo vivo de como a solidariedade portuguesa com Timor-Leste continua a ser concreta, persistente e transformadora, mesmo décadas após a independência (em 2002). É também um exemplo vivo, o dele e da associação que ajudou a fubdar (a ASTIL),  de amor à lusofonia. Essa história merece ser conhecido pelos nossos leitores, os amigos e camaradas da Guiné.

Lendo as suas crónicas (que ele reuniu numa brochura em pdf, com cerca de 3 centenas de páginas), ficamos a saber muito mais  sobre a história, a cultura, a geografia, a sociodemografia, a idiossincrasia daquele país, que nos é tão querido, membro da CPLP.

Já aqui publicámos excertos das crónicas da I viagem (2016), II (2018) e VI (e última) (2025). Depois da pandemia,  o Rui voltou a Timor-Leste em 2023 (IV viagem), e anos seguintes: 2024 (V viagem) e 2025 (VI viagem).

Este ano talvez lá volte, mas apenas pelo Natal, se Deus Nosso Senhor e a Senhora da Saúde o permitirem. Sem esquecer, claro, o seu mentor,  São Francisco d' Assis, que ele cita amiúde.

Além da construção, organização e funcionamento da Escola, a par do "apadrinhamento de crianças em idade escolar", a pequena ASTIL (que tem sede em Coimbra e delegação no Sabugal)  já construiu a  "casa do professor" e adquiriu uma viatura todo-o-terreno ("pick up"), indispensável para se chegar a Boebau, na montanha. Nestas crónicas de 2019, há referência a dificuldades e limitações que, felizmente, já foram superadas. Falta, finalmente, resolver o problema da colocação, definitiva, de professores de carreira. A escola continua a ser privada e inteiramente financiada pela ASTIL (e os pais dos alunos).

Em Díli costuma ficar na casa do irmão mais novo do Gaspar Sobral (outro cofumdador e dirigente da ASTIL, luso-timoresne, retornado de Angola, onde foi topógrafo), o "Eustáquio" (João de Araújo Moniz de Oliveira Sobral) (que de 1975 a 1978, andou fugido dos indonésios nas montanhas de Liquiçá, com a irmã mais nova e a mãe, tinha então 14 anos!).



Rui Chamusco, professor de música, reformado, é cofundador e líder da ASTIL - Associação dos Amigos Solidários com Timor Leste: é natural ds Malcata, Sabugal; vive na Lourinhã; é membro da Tabanca Grande, tem 70 referências no blogue; à direita, o Gaspar Sobral, o luso-timorense, retornado de Angola, casado com a Glória Sobral, natural de Sabugal: foi este casal que meteu o Rui nesta aventura solidária (que, para todos, tem sido gratificante).


III Viagem a Timor-Leste :  2019 (Rui Chamusco, ASTIL)

Parte X:  semana de 7 a 13 de abril: ainda "a arte de negociar no barlaque"  


07.04.2019, domingo  - A alegria de dar e de receber...

Hoje foi dia de entregar os donativos que os padrinhos enviaram para os seus afilhados durante o mês de março.

Acredito que quem dá sente uma alegria enorme de poder partilhar com os outros aquilo que lhes faz falta. Mas gostava que imaginassem a grande alegria de quem recebe, de quem não tendo quase nada se vê com uma nota de dez ou vinte dólares na mão. Até os olhos brilham!... Esta gente agradece profundamente com sorrisos abertos e sinceros. Não há melhor paga para quem dá.

Desta vez, porque estava presente, quis fazer pequenos videos aos afilhados que, em
português, mandaram uma pequena mensagem às madrinhas e aos padrinhos. Espero
que todos os tenham recebido em boas condições.
E, como diz uma canção:

 “Dar do pouco que se tem / Ao que tem menos ainda /
Enriquece o doador / Faz sua alma ‘inda mais linda”. 

“ Fica sempre um pouco de perfume / Nas mãos que oferecem rosas / Nas mãos que sabem ser generosas.” 

Não há palavras mais certas para definir a ação de dar. Agora imaginem o nosso mundo se
cada um doasse um terço daquilo que lhe sobra. Tantas necessidades seriam resolvidas; tantas bocas famintas seriam saciadas.

“Ó Mestre, fazei que eu tenha mais prazer em dar do que em receber; em consolar do
que ser consolado; em amar do que ser amado. Porque é dando que recebemos; é
consolando que se é consolado; é amando que se é amado. E é morrendo que se vive
para a vida eterna.” (São Francisco de Assis)

08.04.2019, segunda feira  - Pontos nos iiis... O programa de "apadrinhamento"

O programa de apadrinhamento tem nos colocado algumas questões, por parte dos beneficiários dos donativos. Embora todos saibam que o dinheiro dos donativos deve ser aplicado no processo escolar das crianças/jovens apadrinhadas, nomeadamente no pagamento das despesas escolares ( material escolar, propinas, fardas, etc.), fica-nos a dúvida o que farão as famílias ao dinheiro remanescente. Será gasto em quê? Em necessidades básicas (alimentação)? Em gastos surperfulos?

Foi por isso que nesta entrega de março fizemos questão de lembrar uma vez mais a da boa aplicação dos donativos em dinheiro que os padrinhos/madrinhas lhes vão enviando, e da obrigação de darem sinal do aproveitamento escolar com a apresentação no final de cada período da caderneta.

Sugerimos-lhes também cada afilhado/a peça a abertura de uma conta jovem, na CGD / BNU, onde possa depositar o dinheiro não gasto, constituindo assim um fundo económico que lhe possa ser útil na sua vida de estudante. Nós próprios nos comprometemos em falar com a gerência da Caixa, a fim de serem criadas as condições para estas contas.

Oxalá que o esforço que todos estamos fazendo por melhorar as condições de vida desta crianças e jovens necessitados se traduzam em aproveitamento real e solução dos seus problemas e necessidades.

ASTIL - Projeto de Solidariedade em Timor Leste
Programa de Apadrinhamento de Crianças Necessitadas

Estimadas madrinhas e padrinhos

Esperamos que estejam todos bem. Nós, cá por Timor. também estamos bem. Antes de mais, queremos agradecer a cossa colaboração e generosidade neste Programa de Apadrinhamento. As(os) vossas(os) afilhadas(os) estão vos profundamente reconhecidos, e pena é que a distância não nos permita um encontro com todos eles. Valem-nos ao menos as novas tecnologias para que, de quando em quando, consigamos comunicar. De nossa parte tudo faremos para que a relação de amizade seja fomentada e fortificada.

Esta circular tem a finalidade de vos darmos conta de como este programa se está a desenvolver e de vos informar das medidas que estamos a tomar em relação aos vossos donativos.

Como sabem, os donativos depositados na conta da Astil, em Portugal / Agência de Sabugal, são transferidos da CGD para a conta solidária criada no BNU Timor /CGD. No final de cada mês é feita a folha mensal de donativos, cuja soma será levantada por quem de direito no BNU, a fim de ser entregue pessoalmente a cada beneficiado.

Podemos informar-vos de que, até hoje, já foram entregues 9.259 dólares.

Como está claramente explicado nas orientações deste programa que foram enviadas a cada madrinha e padrinho, estes donativos têm como prioridade ajudar as famílias nas despesas escolares dos seus filhos. Estamos a ser exigentes com essas famílias, explicando-lhes cada vez que vêm receber os donativos, que o dinheiro recebido deve ser aplicado na educação e material escolar dos apadrinhados. Como não temos meios de controlar essa aplicação, foi sugerido que o dinheiro remanescente dessas despesas seja depositado na conta jovem que a CGD/BNU dispõe, para que se constitua um fundo disponível de modo a permitir a continuidade dos estudos, inclusive os estudos universitários. 

Nós mesmos ficámos de nos encontrar com a gerência desta agência da CGD a fim de facilitarem a abertura da conta jovem para estas crianças/jovens.

Não queremos que fiquem dúvidas sobre a aplicação dos vossos donativos. Este programa foi criado de raíz, e portanto com muitas imperfeições. Mas continuaremos sempre a fazer como melhor sabemos, tentando sempre que a honestidade e transparência sejam o nosso guia.

Acreditem, que nem um cêntimo do dinheiro depositado será retirado ou desviado do fim em vista, sendo entregue na íntegra aos seus destinatários.

Queremos continuar a merecer a vossa confiança e, enquanto pudermos, tudo faremos para que o programa seja bem cumprido e obtenha os resultados esperados. Com estima e consideração por todos vós,
Rui Chamusco / João Moniz / Gaspar Sobral


09.04.2019, terça feira  - “ A ver os aviões!"... A despedida 
do comandante Rui Pedro

Tinha prometido ao amigo Rui Pedro que estaria ao meio dia no aeroporto de Díli para lhe dar um abraço. E assim foi. Sem nada mais combinarmos, chegámos ao mesmo tempo. Depois de eu e o Amali apearmos da mota, e preparando-nos para ir até às portas do chek-in, passa ao nosso lado o automóvel que transportava o nosso viajante. Encontro mais fácil não podia haver.

Passados alguns minutos a ver os aviões e a controlar o tráfego aéreo, chegou a hora de dizer adeus a este amigo que, para além de primo, é um “gajo porreiro”. Sei que este dias que irá passar em família serão bem aproveitados. Cá por mim, até começo já a ter inveja. As saudades já apertam e começam a fazer mossa. Quando será a minha vez? Ainda não sei. Mas sei que ela há-de chegar.

Boa viajem,  meu amigo! Que tudo se passe segundo os teus desejos.

Sei que em Lisboa ou no Algarve todos te esperam ansiosamente. Sei que vão ser muitos os beijos e os abraços: sei que a família e os amigos te vão cobrir de atenções.

Sei que será bom, muito bom.

Cá te esperamos de volta, a estas terras do oriente, a este Timor Lorosae que nos enfeitiçou de tal maneira que já não podemos viver sem ele.

Rui meu homónimo: Faz o favor de seres feliz!...

12.04.2019, sexta feira  - Ver para crer... Cinofagia, carnismo...

Que a carne de cão é consumida e apreciada em países asiáticos e do oriente, já não é novidade nenhuma. Nas II crónicas descrevi o que aconteceu aqui em 2018, em Ailok Laran, com a desgraçada Prety, a cadela cá de casa que, num abrir e fechar de olhos, desapareceu do mapa. Foi chorada a sua sorte como tendo sido vítima de um caçador e comerciante de carne de canídeo, cuja alcunha é “cara de cão”.

Hoje, o que vi, veio confirmar esta crença “ver para acreditar”.

A Umbelina, uma moça da montanha de Liquiçá que vive connosco para estudar na UNTL, veio chamar a atenção que estava ali um cão morto. Verificado o óbito do animal, depressa reconheceram que era o cão do Ti Carlos, um vizinho aqui ao lado, que prontamente o procurou e arrastou até à berma do caminho que passa junto a estas casas. Chamou um rapaz da vizinhança, e apontou para o bicho dizendo: "se vos interessa levai e comei.” 

E assim foi. O jovem pegou no animal e levou não sei para onde a fim de ser chamuscado, lavado e preparado para o petisco. Qual visto e carimbo de veterinário, qual quê?! Está morto, e o seu corpo foi levantado do local sem autorização do delegado de saúde. Sem autópsia que explique a causa da sua morte, sem qualquer outra justificação. Vai ser devorado por apetites desenfreados, que nem sequer pensam que o “cão é o animal mais fiel ao homem.”

E, perante a nossa repugnância por tal facto, ainda gozam connosco convidando-nos para saborear esta iguaria. 

- Ti Rui, quer comer que eu vou comprar?

Não! Não quero que a minha mente e o meu corpo se alimentem de tais afetos e sentimentos. Prefiro ementas saudáveis e sem escrúpulos de consciência. Prefiro guardar memórias daqueles animais de estimação que tanto nos ajudaram brincando connosco, fazendo-nos companhia durante anos, dias e horas. Boas lembranças destes amigos que, mesmo ausentes, nos detectam seja onde for, graças ao seu sentido apurado do olfato.

13.04.2019, sábado - Histórias e mais histórias... Ainda o barlaque

Hoje, ao pequeno almoço, tivemos um suplemento extra: histórias que são ou foram realidades, integradas no contexto cultural deste povo timorense. Ainda enquanto bebíamos o café, uma senhora chamou por alguém da casa, e coube ao Eustáquio atendê-la, pois estava próximo do chamamento. 

Era a mãe de um rapaz que lhe vinha pedir para ser negociador da família, no pedido de casamento. O Eustáquio como já referi noutros relatos, é muito solicitado para tal múnus, e tem por isso uma larga experiência nestas negociações. Não aceitou por sobrecarga de trabalhos em mãos, mas indicou alguém para o fazer.

Foi então que o Eustáquio e o Gaspar começaram a contar histórias e mais histórias
ligadas a este evento que antecede o “Barlak” (ou barlaque, em português). O Gaspar diz que, com 21 anos, foi o negociador do seu irmão Zé, o mais velho dos sete manos. Ele também sabe, mas nada que se compare com o Eustáquio. Dizem eles que nenhuma conversa se faz diretamente. É tudo por metáforas, o que exige do negociador uma agilidade mental vonsiderável. Ele tem de entender o que o outro negociador lhe diz por imagens, assim como o seu interlocutor tem de entender as que ele utiliza. 

Por exemplo: "estando eu a regressar de uma longa viajem, passei por aqui e encontrei uma árvore frondosa, carregada de mangas saborosas, etc, etc...” 

Tudo depende da imaginação e do sentido poético dos negociadores. Tudo podem dizer excepto insinuar ou ofender qualquer das partes envolvidas. É uma verdadeira obra de arte.

Os relatos destas negociações darão matéria suficiente para uma verdadeira obra literária. O Gaspar até disse que um dia iria tentar fazer uma gravação (com a devida autorização), tendo em vista uma publicação escrita.

Normalmente, chega-se sempre a bom termo nestas negociações. Como sempre, pede- se mais do que o que se vai receber. Mas o bom senso dos negociadores encontram sempre uma boa solução, que é o meio termo. O negócio envolve dinheiro e bens.

Aqui em Timor são os kraus (bois), os fahis (porcos), as bibis (cabras e cabritos) e os manus (galos). E muitas famílias criam estes animais quase exclusivamente para estas ocasiões. Há que evitar as multas que podem advir por má negociação, nomeadamente qualquer palavra ou atitude que ofenda a família da futura noiva, e que se podem traduzir no dobro do que têm de pagar ou de dar.

Quem sabe, sabe. E vivam os negociadores!...

(Revisão / fixação de texto, negritos, itálicos,  título: LG)
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Nota do editor LG:

(*) Último poste da série > 23 de junho de 2026 > 23 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28126 : III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte IX : semana de 1 a 7 de abril de 2019: há mais de 40 mil timorenses a pedir a nacionmalidade portuguesa