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domingo, 3 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P27983: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte III: semana de 17 a 23 de fevereiro: finalmente a caminho de Boebau... de "motor" (motorizada)


Timor Leste > Fevereiro de 2018 > Escola São Francisco de Assis (ESFA), em Boebau, Manati, Liquiçá, inaugurada em 19 de março de 2018. E os difíceis acessos a Boebau (na foto nº 2, o Rui Chamusco teve de se apear da moto, ei-lo em segundo plano, à frente da moto e do condutor). Sáo cerca de 50 km, de Dili até Boebau, na montanha, que podem demorar 4 a 5 horas, na época da monção. Entretanto foi comorada uma viatura com tração âs quatro rodas... E os melhores têm vindo a melhorar...

Foto da página do Facebook da ASTIL - Associação dos Amigos Solidários com Timor Leste (com a devida vénia...)


1. Estamos a publicar excertos das crónicas da III Viagem (2019) (*), de Rui Chamusco a Timor Leste (fazem parte de um ficheiro em pdf, de 273 páginas, com todas as suas crónicas de viagem àquele país lusófomo, desde 2016, e que ele disponibilizou aos membros da ASTIL e demais amigos, em 28 de maio de 2025).

Já publicámos excertos das crónicas da I viaggem (2016), II (2018) e VI (e última) (2025).   Depois meteu-se a pandemia, e o Rui só voltou a Timor Leste em 2023 (IV viagem), e anos seguintes: 2024 (V viagem) e 2025 (VI viagem). Este ano de 2026, irá por razões de saúde.

Fundadores: Rui Chamusco,
Glória Sobral e Gaspar Sobral


Entendam, caros leitores, a publicação desta série como uma pequena homenagem a Timor-Leste e ao nosso Dom Quixote lusitano que já fez perto de 250 mil quilómetros de avião, desde 2016, por solidariedade com o povo timorense e  as crianças de Boebau, nas montanhas de Liquiçá (um topónimo que tem uma carga emocional muito grande para os timorenses que sofreram a brutakl ocupação inmdonésia, de 1975 a 2002, mas também para os portugueses que lá estavam na II Guerra Mundial) (**)

É também uma forma de a gente não se esquecer dos timorenses..., para que os timorenses, por sua vez, não se esqueçam de nós. Ser solidário com quem é solidário é também uma das nossas formas de ser estar dos amigos e camaradas da Guiné, alguns dos quais também são amigos de Timor-Leste.

O Rui é membro da  Tabanca Grande ( nº 886), de 10 de maio de 2024. E preside à ASTIL - Associação dos Amigos Solidários com Timor-Leste. com sede em Coimbra. O João Crisóstomo,  o "nosso régulo" da Tabanca da Diáspora Lusófona, é também membro da ASTIL, fundada por Rui Chamusco, Gaspar Sobral e Glória Sobral.

O Rui tem tido problemas de saúde que o obrigaram a fazer uma intervenção cirúrgica, delicada, no Hospital Curry Cabral. Estava na Lourinhã a recuperar. Mas voltou a sentir-se mal e está de novo internado. O João Crisóstomo acaba de me telefonar de Nova Iorque, visivelmente preocupado. Fazemos votos para que o Rui recupere de novo, e rapidamente, de mais este susto. 


Crónicas da III viagem a (e estadia em) Timor Leste (janeiro- abril 2019): semana de 17 a 23 de fevereiro

por Rui Chamusco


Rui Chamusco,
Lourinhã (2017)

17.02.2019, domingo  - Do outro lado do mundo

Hoje, domingo, dou comigo a pensar no outro lado do mundo, mais concretamente nos territórios que frequento: Malcata, Sabugal, Lourinhã. A estas horas oiço os sinos a tocar, vejo as pessoas apressadas a caminho da igreja, espreito os homens na Torrinha pondo as conversas em dia. 

Dizem que no Sabugal, o domingo é o dia mais morto da semana, porque lhe falta a maioria da juventude das escolas, mas sei que por lá também os sinos tocam ao domingo e as pessoas são devotas e vão às igrejas.

Já na Lourinhã, ouço o ruído das ondas, vejo o frenesim da gente que enche os
supermercados para se aviar, sinto o prazer de tomar um café na praia e de curtir algum tempo ao sabor do sol e da brisa do mar.

Neste outro lado do mundo, em Ailok Laran-Dili, é um regalo ver quem passa, crianças, jovens e alguns adultos bem anafaiados porque vão à catequese e à missa.

Muita juventude que, crente nos ensinamentos que lhes transmitem, procura nas celebrações religiosas ocasião para manifestar a sua fé, rezando mas sobretudo cantando. E mesmo que a fé que temos não seja mola suficiente para nos levar a esses locais, muitas vezes por comodismo, vale bem a pena aproximarmo-nos para ouvir e saborear os seus cânticos, as suas melodias e harmonias.

E, porque hoje é domingo, estamos em sintonia e em sinfonia, graças à música, com os dois lados do mundo, com o universo...

17.02.2019 - Ai haunek e a malária

Esta tarde aprendi mais uma receita., para combater a malária. Mesmo em frente, de quem olha da varanda da casa (em construção) vê-se uma árvore de grande porte, que por isso mesmo ressalta aos nossos olhos. Quis saber que árvore é aquela. E entao o Eustáquio deu-me uma verdadeira lição sobre a mesma. Chama-se Ai haunek, e produz kerosina. 

Antigamente faziam-se pratos da sua madeira. Os rebentos novos das folhas cozem-se e podem ser acompanhadas com arroz. A casca do tronco é cozida e o chá daí resultante é bebido para combater a malária.

Tantos ensinamentos, a partir de uma boa utilização da natureza. E nós a pensar que já sabíamos tudo! Vai lá, vai...

18.02.2019, segunda feira  - Estes “pequenos heróis”!...

Esta tarde, junto ao Pateo, encontramos algo que aqui em Dili é habitual. Um senhor de pequena estatura, carregando aos ombros creio que dez frutos de kulo, tentando vender a sua mercadoria. Cada fruto pesa no mínimo uns seis quilos, que multiplicado por dez vai aproximadamente para os cinquenta quilos. 

Era impressionante olhar para esta figura franzina com tanto peso às costas. De modo que disse ao Gaspar para lhe comprarmos um fruto a fim de aliviarmos o homem. 

Pediu dez dólares, mas vendeu por cinco. Em curta conversa ficamos a saber de que, este “pequeno herói” veio assim carregado desde Dare, que fica a três-quatro quilómetros daqui, e assim tem passado o dia vergado ao peso deste apreciado fruto que mais parece uma grande pinha.

Despediu-se de nós profundamente reconhecido pelo nosso gesto, com pequenas vénias e palavras onde os seus olhos diziam tudo. Que sacrifícios esta gente passa para poder ter uns dólares no bolso...


Gaspar Sobral,
 Lourinhã (2017)

18.02.2019 - Dia de festa...

Faz hoje 69 anos que o Gaspar veio ao mundo, logo de madrugada, o segundo de sete irmãos desta grande família Sobral. E por morte do irmão mais velho, o José Sobral, Gaspar é neste momento respeitado como o chefe deste clã familiar.

Foi preciso que os outros, eu incluído, se lembrassem desta efeméride, porque o
Gaspar nem se lembrava que fazia anos. Então logo de manhã, ao sair do seu quarto,
lá estava eu a cantar-lhe os parabéns e a dar-lhe um abraço apertado.

 Não sei se durante o dia se lembrou mais alguma vez de que faz anos no dia 18 de Fevereiro. Aparentemente não. Mal sabia ele o que lhe estava preparado logo à noite, após a nossa chegada de Dili. Um bolo de anos personificado, também com as velas 69, com champanhe e tudo, 
e boa parte da família a festejar o homenageado. 

Durante a tarde, eu,  o Eustáquio e a Adobe (sua mulher),  fomos às compras e, mesmo viajando connosco, o Gaspar de nada desconfiou. Por isso nada estranho a sua euforia quando, em direto para Portugal, mostrava à Glória (mulher) e à Bene (filha) o ambiente festivo que aqui se estava a viver.

Pois é meu amigo! Os amigos são para as ocasiões. E fazer 69 anos de vida só acontece uma vez. Muitas felicidades e muitos anos de vida!...

18.02.2019 - a fúria da Ribeira Malôa

Em tempo de inverno, quase todos os dias chove em Timor. Esta tarde foi mais uma das chuvadas habituais. Mas eis que sou alertado para ir ver a ribeira Malôa que passa aqui mesmo ao lado.

Impressionante! Como é que, com mais ou menos uma hora de chuva, se acumulou tanta água no leito desra ribeira, que está quase sempre seca? Mas a prova estava à vista. Dos lados de Dare, vinha correndo com tanta força, aos turbilhões, que ninguém ousava qualquer desafio ou brincadeira. Era perigoso demais. De modo que todos nos limitávamos a ver e a comentar. Por acaso consegui documentar a situação fazendo pequenos videos no meu iphone. 

À noite, vimos a ribeira que atravessa a cidade de Dili, já com o seu caudal mais suave, mas mesmo assim impressionante. E se há males que vêm por bem, esta enxurrada de hoje teve o condão de limpar todo o leito desta ribeira, que normalmente está cheio de porcaria, nomeadamente plásticos e latas.

Claro que todo este lixo teve que ser despejado nalgum lado. E está-se mesmo a ver que esta lixeira foi para o mar. Infelizmente continuamos a entupir os oceanos. Tão mal que tratamos o mar!...

18.02.2019 - Encontro de amigos

Pela segunda vez combinamos encontrar-nos: eu, o Rui Pedro [comandante de fragata Rui Pedro Ferreira, destacado em Timor-Leste, em serviço durante um ano, e que tem ascendentes com origem em Malcata, Sabugal],  o Gaspar, o Eustáquio num pequeno restaurante à beira mar, em jantar (peixe assado, claro está!) e sobretudo em amena conversa que nos une e motiva a nossa presença neste canto do mundo.

Tudo veio à baila: histórias de família, ligações com Malcata, andanças de cada um, sobretudo do Gaspar. Perguntou-lhe o Rui Pedro "como é que foi a ter a Malcata?” E então o Gaspar, que nasceu em Timor, percorreu uma boa parte do mundo para tentar explicar a sua aterragem em Malcata, Sabugal: Lisboa, Angola, Lisboa, Castelo Branco, Fundão, Sabugal, Malcata, Coimbra... Claro que o Gaspar demorou muito mais tempo a explicar.

E para não faltar nada, uma chamada de Portugal para o iphone do Rui Pedro: A
Susana, sua namorada. Tivemos o prazer de nos conhecermos a tantos quilómetros de distância. Desejo-vos todo o bem do mundo porque, pelo que me apercebi, vocês são duas pessoas extraordinárias.

É de salientar, sempre que nos encontramos, a paixão e o entusiasmo com que todos falamos de Timor, das suas gentes, e dos projetos que cada um tem em mãos e tenta pôr em ação. Aprendemos sempre muito uns com os outros. Por isso tenho a certeza de que estes pequenos encontros irão continuar.



19.02.2019, terça feira  - As obras da casa do Vitor

Hoje poderemos dizer que é o princípio da reconstrução da casa do Sr. Vitor, ainda
que os primeiros trabalhos sejam de destruição. Com efeito, depois de uma visita ao local, onde podemos falar com os principais intervenientes, os filhos do Vitor (o
Francisco até é pedreiro), chegou-se à conclusão de que a primeira coisa a fazer seria abater uma árvore, a manga que ocupa boa parte do terreno destinado à reconstrução.

Feito o negócio com um cortador profissional, procedeu-se de imediato ao corte,
A seguir virão as carradas de pedra e de areia que lhes permitirá fazer a base. Então
para que se saiba, o acordo ficou assim: a Astil, através de doações de alguns sócios e outros amigos mais sensabilizados que contribuiram expressamente para esta obra, suportará as despesas dos materiais, e os filhos e amigos da família Vitor oferecem a mão de obra. 

Foi-nos dito pelo filho Francisco que, se os materiais não faltarem, mais ou menos daqui a três meses a casa estará pronta, em condições de ser habitada.

Neste momento uma grande chuvada, com trovoada e tudo, está descarregando aqui, em Ailok Laran. Mas a grande árvore já está no chão, e acredito que a boa vontade dos que estão envolvidos neste caso irá fazer com que a obra avance. De todas as formas, cá estarei eu para impulsionar esta obra solidária e para vos transmitir as notícias relativas à mesma.

20.02.2019, quarta feira  - Notícias matinais

Depois da chuvada torrencial de ontem à tarde ficamos com alguma apreensão do que teria sucedido por este país fora. Logo de manhã, não tardaram algumas notíciasarrasadoras. Na estrada entre Tibar e Liquiçá, um avião bimotor, talvez um taxi do governo pois ostenta na sua cauda a bandeira timorense, está, aparentemente sem consequências trágicas, embatido, notando-se bem os estragos nas suas asas depois de uma aterragem forçada.

Em Comoro, na zona circundante da praia, um bis / bus ( pequeno autocarro que
transporta pessoas e bens para as terras mais distantes) foi arrastada pela corrente da ribeira Maloa, causando o pânico nos seus ocupantes e em todos os que de fora
presenciavam o acontecimento. A preocupação e a curiosidade de todos era saber se tinha havido vítimas e quantas. E perante tanta ansiedade o jornalista que comentava a reportagem informou: “não houve vítimas.” Houve, sim, um grande susto, e possivelmente a perda de alguns bens que, como bem sabemos, são transportados sem o mínimo de condições de segurança.

Pois é! Ninguém brinca com as forças da natureza... E todo o cuidado é pouco...


23.02.2019, sábado - A caminho de Boebau

Sempre que se toma a decisão de ir a Boebau há um certo frenesim e um nervoso
miudinho em preparar as mochilas e o meio de viajar. O mais comum é o “motor”
(motorizada). Mas tudo serve: motor, carreta, anguna... Só de avião ou de barco não se pode lá chegar.

Hoje a partida de Ailok Laran  [o  bairro de Díli onde o Eustáquio e a Adobe, e onde o Rui fica], pelas 16.00 horas, foi em três “motores”  [motorizadas];

Bartolo + Gaspar, Venâncio + Rui, Akesu + Adobe. 

Chegamos às 18.30 horas. Tivemos muita sorte, porque durante a viagem não choveu, coisa que aconteceu cinco minutos depois de arrivarmos. Tudo bem, embora convenhamos que, com setenta e dois anos em cima, esta viagens deixem as suas marcas e mazelas corporais. Vale-nos ao menos a boa vontade, mas vamos lá a ver até quando esta massa corporal suportará estas agruras.


Timor Leste > Liquiçá > Manati > Boebau > 2024 > Escola de São Francisco de Assis (ESFA) , que celebrou o  seu 6º aniversário (e o acesso, desde Díli também já melhorou)... Mas erguer paredes é sempre o mais fácil... É preciso agora assegurar o seu futuro... e essa tem sido a preocupação maior do Rui Chamusco e dos demais membros da ASTIL que apoiam e financiam o projeto (incluindo o pagamento do pessoal docente e auxiliar), bem da ASTILMB. Em 2019 ainda não havia a casa dos professores, o que já há.
 
Foto (e legenda): © Rui Chamusco (2024). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


23.02.2019 - Sabores e dissabores

O dia de hoje foi destinado particularmente a inteirar-nos da situação da escola, ouvindo alguns dos seus agentes para podermos tirar algumas conclusões que ajudem a resolver alguns conflitos. 

Não tem sido fácil tomar decisões, pois uma das partes não apareceu na reunião previamente convocada. Temos muitas questões a esclarecer, mas estou convencido que com a boa fé e a vontade de todos tudo se resolverá.

Neste momento, das 75 crianças inscritas só 40 crianças do ensino pré escolar frequentam a escola São Francisco. Todas as outras foram matriculadas na escola de Kilo, que é a escola mais próxima. Há uma certa revolta dos pais destas crianças porque se sentem enganadas. Disseram-lhes que esta escola era para os seus filhos, e afinal têm que frequentar a outra escola. Claro que a solução não está nas nossas mãos, ainda que procuremos junto de instituições e particularmente junto do ministério de educação timorense, ajuda e resolução destes problemas. 

Mas neste momento, a ASTILMB (ASTIL Manati / Boebau,  a ASTIL local) não tem capacidade para motivar e pagar a professores que queiram lecionar em Boebau. Ainda não podemos oferecer condições mínimas de habitabilidade a professores voluntários ou contratados

. A Escola de São Francisco de Assis tem o estatuto de ensino privado / particular. E embora estatutariamente contemple o ensino pré-escolar e o ensino primário (ensino básico), ainda não temos capacidade de resposta para todas as necessidades desta famílias e destes alunos.

Por outro lado, custa-nos a entender alguma ingerência do ensino público, na pessoa da professora Rita, no nosso ensino que é particular / privado. Ainda não percebemos porque aparece esta professora como coordenadora da nossa escola. Vamos tudo fazer por esclarecer esta situação.

Como se vê, há problemas em todo o lado. Compete-nos tudo fazer por resolvê-los... e encontrarmos soluções adequadas.

23.02.2019 - Amanhã é dia de festa...

Esta tarde há alguma azáfema em preparar a receção aos visitantes. Uma visita pré- anunciada e muito esperada: o Padre frei Fernando Alberto, provincial dos missionários capuchinhos em Portugal, o frei Tinoco, da fraternidade dos capuchinhos de Tíbar, e o Rui Pedro, comandante de fragata em serviço em Timor Leste,  vêm cumprir a promessa que me fizeram: visitar a Escola de São Francisco em Manati/ Boebau (ESFAMB).

Do programa consta a celebração da missa dominical, que aqui, por sorte, tem lugar uma vez por ano. Também a igreja abandona os seus fiéis. Porque o acesso é difícil; porque não há padre; porque... Razões esfarrapadas a quererem justificar atitudes comodistas.

Por isso amanhã será dia de festa, e tudo se prepara para que assim seja. Não há igreja, não há sinos a badalar, mas esta gente já espalhou a notícia por todo o ladoUm bom grupo de voluntãrios estão preparando devidamente o local. As canas enormes de bambú e as lonas que as sobrepôem já são visíveis. E amanhã de manhã se fará o resto.

(Continua)

(Revisão / fixação de texto, negritos, parênteses retos: LG)
______________

Notas do editor LG:

(**) Liquiçã, um topónimo doloroso: carrega uma forte carga simbólica e emocional para dois grupos diferentes: para os timorenses, como lugar de violência extrema no final da ocupação indonésia; para os portugueses, como um dos cenários da experiência traumática da ocupação japonesa durante a II Guerra Mundial.

(i) Para os timorenses (ocupação indonésia, 1975–2002)

Liquiçá (cidade e sede e município) tornou-se um símbolo de sofrimento sobretudo por causa do que aconteceu em 1999, já no fim da ocupação indonésia. A chamada Massacre de Liquiçá ocorreu em abril desse ano, quando milícias pró-indonésias, com apoio ou tolerância de setores das forças de segurança, atacaram civis que se tinham refugiado numa igreja. Houve dezenas de mortos (o número exato continua debatido, há quem fale em duas centenas), e o episódio ficou como um dos mais marcantes da violência que antecedeu o referendo de independência organizado pela ONU.

Esse período insere-se na mais vasta ocupação indonésia de Timor-Leste, que causou enorme destruição, deslocamentos forçados e perda de vidas. Por isso, Liquiçá permanece um lugar de memória dolorosa para muitos timorenses.

(ii) Para os portugueses (II Guerra Mundial, 1942-1945):

Durante a Segunda Guerra Mundial, Timor, terriotório sob administração portuguesa, foi invadido pelo Japão em 1942, apesar da neutralidade de Portugal. Em consequência da ocupação japonesa de Timor, militares portugueses e civis foram capturados e internados.

Liquiçá foi um dos locais onde existiram campos de internamento e onde passaram prisioneiros portugueses (e também outros, incluindo timorenses e aliados). As condições eram duríssimas ( fome, doença e trabalho forçado) e muitos não sobreviveram. Embora não seja o único local associado a esse sofrimento (Aileu é também lembrado pelo massacre de 1/10/1942, perpretado pelas "colunas negras"),

 Liquiçá também faz parte das nossas geografias emocionais.

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27959: Notas de leitura (1917): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (5) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
Bem distintos foram os itinerários de João Corte-Real de Araújo Pereira e o de Rogério Pereira. O primeiro embarcou para Timor em 1959, era capitão, na viagem no navio Índia, descobre empatia com Luísa, haverá namoro e depois casamento, o casal ficou quatro anos em Timor. Seguem-se novas comissões, vão aparecendo mais filhos. As comissões são em Moçambique, Angola e Guiné. Os mais velhos irão frequentar o colégio militar. A mãe sofre de surdez, mas nada abalou o bom relacionamento entre a mãe e os filhos. Dá por vezes pormenores do que faz nas suas comissões, sobretudo na Guiné. Rogério Pereira foi furriel miliciano em Angola entre 1969 e 1971. Publicou a sua correspondência num livro que intitulou de Almas que não foram fardadas. No seu casamento com Teresa surgiram três filhas, duas das quais já existem quando ele está em Angola. Sente-se do seu depoimento que a guerra lhe trouxe mudanças profundas, deu-lhe um grande sentimento de solidariedade com gente tão carenciada. Sofreu muito com a morte da mulher e está bastante arrependido de ter destruído a correspondência que lhe enviou dos sítios onde viveu em Angola.

Um abraço do
Mário



Olhe que o pai faz muita falta. Foi com a sua comissão que eu aprendi o quanto custa o estar longe e só e para nós o sofrimento não se compara com o seu – 5

Mário Beja Santos

Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975, por Ana Vargas e Joana Pontes, Tinta da China, 2025, é um livro arrebatador, profundamente terno, e, tanto quanto me é dado de saber, preenche uma lacuna no campo da investigação.

João Corte-Real de Araújo Pereira era capitão quando embarcou para Timor, no final do mês de setembro de 1959. Acontece que naquele navio, no Índia seguia também Luísa e a família. O pai da Luísa tinha sido nomeado para Comandante Militar em Timor. Aqui chegados, houve namoro e casamento, em Baucau, 1962. Observa João que Timor era uma colónia desgraçada, abandonada, não tinha luz, não tinha água, nada. Houvera uma sublevação em Viqueque contra as autoridades portuguesas em junho de 1959, rapidamente sufocada. Sabe-se que na sua origem estavam catorze indonésios que se encontravam exilados em Timor. O sogro de João fez um relatório da sublevação, aí escreveu: “O problema da subalimentação e definhamento das populações nativas, já referido pelo antigo Governador Álvaro de Fontoura no seu livro "O trabalho dos indígenas de Timor" é hoje verdadeiramente angustiante.”

João ficou quatro anos em Timor, Luísa regressa e dá à luz gémeos. Seis meses passados deste nascimento, João parte para a segunda comissão, em Moçambique, a família fica em Lourenço Marques. Um ano e pouco depois João é promovido a major. Mandaram-no então para Angola, Luísa regressa a Lisboa com os gémeos, nasce agora o terceiro filho. Quando João regressa de Angola voltará a ser mobilizado de novo para esta colónia como oficial de operações do Batalhão de Artilharia 2864. Entretanto nasce o quarto filho, Luís, João tinha metido férias e assistiu ao nascimento do filho. Aerogramas não faltaram. Em dezembro de 1972, João parte para a Guiné, é tenente-coronel e comanda o Batalhão de Artilharia 6522. Tinham sido desembarcados em Bolama e foram recebidos com foguetões 122. João comanda o Batalhão em Ingoré, trata-se do Sector 06, a zona de atuação tinha uma superfície aproximada de 1500 km2, a dimensão da fronteira norte com a República do Senegal era de cerca de 100 km.

Todo este relato será feito por João, assistiu ao aparecimento dos misseis terra-ar. O Batalhão ficou neste setor cerca de vinte meses. Luísa destruiu a correspondência que escreveu e recebeu do marido. Guardou cuidadosa e separadamente a que João trocou com cada um dos quatro filhos. João iniciava a sua correspondência com os filhos dizendo “Meus queridos filhos”, “Meus queridos rapazes” ou “Meus queridos homenzinhos”. Luísa sofria com a surdez, desenvolveu com a família uma linguagem própria. Quando se dá o encontro com as autoras do livro, é o filho mais novo que serve de intérprete. Guardam na memória a morte do tio Joãozinho, um estúpido acidente na Guiné. A memória dos anos da ausência do pai está muito relacionada com a passagem no Colégio Militar. A adaptação às regras da instituição não foi fácil.

João escreve aos filhos a sua rotina, por vezes fala aos filhos dos rapazes que vai encontrando à sua volta e também dos adultos:
“As mulheres andam nuas da cintura para cima. Andam à vontade, sem vergonha. É nelas natural. Olha, agora os miúdos vieram pedir esferográficas porque não têm. Todos estes rapazes têm um grande desejo em aprender para poderem ter uma vida melhor. Quase só comem arroz. É uma alimentação muito incompleta e por isso têm uma barriga enorme. Os rapazes fazem brinquedos com caixas de papelão, tampas das garrafas, etc. Com pouca coisa conseguem fazer trabalhos bem feitos.”

Chegou a hora da independência, entregou o território ao PAIGC. E deu-se uma viragem que para ele foi muito chocante: “Em Bissau, entregámos as armas, atirando-as para o monte, no cais, o monte de G3, nós passávamos e atirávamos a G3.

No fim da conversa os filhos de João disseram às autoras: “Nosso pai nunca falou da guerra nem nós perguntámos. Diz-se que uma guerra só acaba quando o último participante morrer. Enquanto houver um que viva, esta guerra ainda não acabou.”

Vejamos agora a história de Rogério Pereira, nascido em 1945, casou com Teresa em 1966, mobilizado como furriel miliciano enfermeiro para Angola entre 1969 e 1971. Quando Rogério parte, Teresa fica em Lisboa com duas filhas. Teresa trabalhava na área dos seguros. Rogério escreve às filhas no verso de fotografias que envia à mulher, às vezes escrevia poemas e quadras, Rogério dirá na entrevista às autoras que cada fotografia era um referencial daquele momento. A correspondência serviu-lhe para escrever um livro a que chamou Almas que não foram fardadas. Destruiu a correspondência depois da morte de Teresa e considera que foi uma coisa estúpida. Mas teve uma surpresa quando a filha mais velha, de nome Maria João, lhe trouxe uma embalagem castanha, a caixa de uma ração de combate, o conteúdo eram cartas, aerogramas e fotografias que escrevera em Angola.

Partiu para Angola em 12 de julho de 1969, com a Companhia de Cavalaria 2562, começou na região de Maquela do Zombo, na Fazenda Costa. Escreve à filha mais velha, fala-lhe das casas, da pobreza, das ruas, os meninos que não têm brinquedos, os meninos não têm areia, só terra. A maioria não fala português, havia os que falavam Quimbundo e o Quioco. Envia desenhos nas cartas. A meio da comissão, a companhia foi transferida para a zona centro para locais na Província do Bié, refere à mulher o meio em que vive, não lhe parece que haja comportamentos racistas, há cantineiros que casam com negras ou mulatas, mas é notório que os fazendeiros exploram as populações nas roças de café e do algodão, assistiu ao trabalho forçado.

No final da conversa com as autoras, João diz-lhes:
“A guerra humanizou-me muito. Relacionei-me com outras formas de ser, de estar, de conviver, com outras culturas. Quando aquela gente soube que os tratava bem, logo de manhã eu tinha filas à porta do posto de socorros, e isso, digamos, é uma experiência muito difícil de explicar. Porque o que nos produz são sentimentos. Eu, ao perceber aquela dependência, aquela vivência, e aquela forma de estar, percebi que, de facto, nós, enquanto potência colonial, fizemos muito mal o nosso trabalho de casa.”

Iremos seguidamente ouvir falar de João António Gonçalves Serôdio, militar do quadro permanente e de João Menino Vargas, aqui, uma das autoras, Ana Vargas, tem laços familiares apertados. É a penúltima viagem por este tão intimista e esplendente Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra, 1961-1975.

Ana Vargas e Joana Pontes

(continua)
_____________

Notas do editor:

Vd. post de 20 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27935: Notas de leitura (1915): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (4) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 24 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27946: Notas de leitura (1916): "A Partilha de África", por Conde de Penha Garcia; Lisboa, 1901 (2) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P27957: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte II: semana de 10 a 16 de fevereiro: a promiscuidade do... jardim do Éden


Timor Leste > Liquiçá > Manati > Boebau > 2024 > Escola de 
São Francisco de Assis (ESFA) , que celebrou o  seu 6º aniversário (e o ace4sso, desde Díli também já melhorou)... Mas erguer paredes é sempre o mais fácil... É preciso agora assegurar o seu futuro... e essa tem sido a preocupação maior do Rui Chamusco e dos demais membros da ASTIL que apoiam e financiam o projeto (incluindo o pagamento do pessoal docente e auxiliar)
 
Foto (e legenda): © Rui Chamusco (2024). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Lourinhã > Praia da Areia Branca > 2 de dezembro de 2017 >  Rui Chamusco e Gaspar Sobral, cofundadores e líderes da ASTIL 

O Rui Chamusco começou por ser membro da Tabanca de Porto Dinheiro: natural de Malcata, Sabugal, vive na Lourinhã há 3 décadas, sendo  professor reformado de Educação Musical no ensino oficial,   e de Português, Filosofia e Latim no ensino Particular. 

Desde há mais de uma década, que ele passou a ser um grande amigo do povo Timor-Leste, liderando um projeto  (luso-timorense),  já concretizado, em 2017, de construção de uma escola, privada, nas montanhas de Timor Lorosa'e, a par do  apadrinhamento de crianças em idade escolar.

A partir de  10 de maio de 2024, tornou-se novo membro da Tabanca Grande ( nº 886). Foi-me apresentado pelo nosso saudoso Eduardo Jorge Ferreira. Eu, por minha vez, apresentei o João Crisóstomo ao Eduardo, que era o régulo da Tabanca de Porto Dinheiro. E o Eduardo apresentou o Rui ao João, que passou a ser logo  um apoiante entusiasta do projeto da ASTIL.

Foto (e legenda): © Luís Graça (2017). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. O nosso amigo Rui Chamusco já foi a Timor-Leste seis vezes,  desde 2016, em missão de cooperação  e solidariedade. Sempre pagando  do seu bolso, este "malae" (estrangeiro) tem autorização para ficar lá  três meses

Dessas viagens e estadias há crónicas que ele escreve a pensar nos sócios da ASTIL e demais amigos da Escola de São Francisco e de Timor-Leste.

 Já aqui publicámos excertos das crónicas da I viagem  (2016), II (2018) e VI (e última) (2025). Começamos há dias  a publicar as da III viagem (2019). (Depois meteu-se a pandemia, e o Rui só voltou a Timor Leste em 2023/IV viagem), 2024 /V viagem) e 2025 /VI viagem.)

Costuma viajar com o seu amigo, luso-timorense, Gaspar Sobral, mentor do projeto. A sua família (mãe e irmãos mais novos, incluindo o Eustáquio, ainda adolescente)  resistiram, espantosamente (!),  durante 3 anos (!) nas montanhas de Liquiçá, a seguir à invasão e ocupação dos indonésios (em 1975). Uma verdadeira odisseia. Inimaginável para os nossos filhos, que por enquanto ainda não sabem o que é a guerra á porta de casa.

Este projeto (a construção da Escola São Francisco de Assis, ESFA,  em Boebau, Manati, Liquiçá, Timor Leste),   nasceu de um conversa entre dois amigos, em 2015: Gaspar Sobral (timorense residente em Portugal, topógrafo, retornado de Angola, em 1975) e o Rui Chamusco. 

O Gaspar "manifestou-me o seu grande desejo de construir uma escola na terra dos seus ascendentes, em Boebau, pois na visita que lhes fizera em 2000 verificara que havia muitas crianças sem escolaridade. De imediato, eu como professor aposentado e livre de obrigações, anui ao seu desejo, respondendo prontamente: 'conta comigo'  "(...)

Em fevereiro de 2016, o Rui e o Gaspar foram  a Timor Leste visitar a localidade de Boebau (município de Liquiçá) e avaliar as necessidades no terreno: 

"O Chefe de Suco informou-nos, através dos cadernos de registo, do número de crianças que aí viviam. Mais ou menos 400, das quais só 111 iam às escolas mais próximas. Por consulta presencial, o povo pediu que fosse construída uma escola. E assim fizemos."

A construção Escola São Francisco de Assis – Paz e Bem foi inteiramente financiada por fundos recolhidos pela ASTIL. A organização e o funcionamento da ESFA continuam a ser assegurados pela ASTIL.  
Foi inaugurada em 19 de março de 2018. Mas a sua oficialização ainda está por conseguir.


Crónicas da III viagem a (e estadia em) Timor Leste (janeiro- abril 2019) - Parte II: semana de 10 a 16 de fevereiro

por Rui Chamusco

10.02.2019, domingo - Bendita promiscuidade!...

Será que o jardim do Eden era assim?...Passo a descrever o que me rodeia enquanto escrevo: pardais, galinhas, pintaínhos e galos, cães, porcos (javalis), peixes, teques e toquês, papaeiras, bananeiras, coqueiros, palapeiras, goiabeiras, árvores que dão mangas, inhames (talas), casas em blocos, telhados de zinco, pessoas, crianças,etc...

Tudo isto tendo como banda sonora o cantar dos galos ao desafio, o piar dos pintaínhos, e uma luz solar que dá cor e brilho a tanta criatura. 

Não fora alguns maus odores provenientes de infraestruturas debéis ou quase inexistentes e de lixos acumulados,  diríamos que estávamos no paraíso. A natureza no seu melhor e o progresso no seu pior com este maldito império dos plásticos e outras porcarias que infestam o ambiente. É assim a ação humana: ao querer arranjar muitas vezes estraga.

São as consequências nefastas da civilização e do progresso.

10.02.2019 - Carga d’água

Mais uma demonstração de força da natureza.. Talvez a maior chuvada que eu já vi em Timor. Pelas dezassete horas, um ruído crescente vindo de longe, se foi aproximando. Era a chuva que, batendo nas folhas das árvores e nos telhados de zinco, anunciava a sua chegada. E choveu tanto, tanto, tanto que não ficou um palmo de terreno seco. Uma benção, dizem uns: uma desgraça dizem outros. Imagino como terá ficado o caminho de acesso a Boebau...

Aqui, em Ailok Laran, Dili, cada vez que chove, mesmo que seja muito, é uma festa. Todos saem à rua gritando e brincando com a água. Com roupa ou quase sem ela, todos encharcados até ao tutano ósseo, divertem-se com brincadeiras de criança que a todos nos fazem inveja. Então o Gaspar, prevendo já o que vai acontecer sempre que estas cargas de água nos visitam, vai apressado buscar a máquina de filmar para registar estes felizes acontecimentos.

“E a chuva ouviu e calou seu segredo à cidade. E eis que ela bate no vidro, trazendo a saudade”.

11.02.2019, segunda feira  - Deus nos dê paciência!...

Isto é que vai uma crise!..É já a quinta vez que o Eustáquio e eu vamos à paróquia de Motael para que um registo de Batismo seja assinado pelo pároco. E ainda não foi desta. Enchem-se de razões para justificarem o padre: “o amo (padre) está doente”, “o amo está em reunião”, o “amo está a dormir a sesta”, patati-patatá, patati-patata. 

que é certo é que a certidão de Batismo ainda não está assinada. E depois de assinada ainda tem que se ir à chancelaria diocesana para carimbar. Será que o processo é o mesmo? Por quanto tempo temos de esperar?

Custa-me ver como estes serviços ligados à igreja (a certidão de batismo consta como registo oficial da certidão de nascimento) não têm uma resolução mais célere e mais eficaz.

Sei que os timorenses são um poço de paciência, mas quanto tempo não se ganharia com um serviço mais pronto e eficaz. Deus nos dê paciência!

11.02.2019 - Um encontro franciscano-capuchinho

Já não é a primeira vez que por aqui nos encontramos. O frei Fernando, superior provincial dos franciscanos-capuchinhos em Portugal, veio de visita canónica às fraternidades de Tibar e Laleia.

 O frei Miguel, que conheci pela primeira vez, é o superior e pároco da comunidade de Laleia. À hora marcada e connosco já esperando no Páteo, apareceram trajados com o hábito dos capuchinhos, dando assim testemunho da sua condição de frades menores. Gostei da imagem simples com que apareceram.

A mesa completou-se assim: o frei Fernando e o frei Miguel, o Eustáquio e o Gaspar Sobral, e eu próprio. Enquanto saboreávamos um café à portuguesa, pusemos a conversa em dia, particularmente eu e o Fernando, pois muitas coisas nos unem desde os tempos da sua adolescência (fui diretor dele no seminário).

Serviu também este encontro para combinarmos uma visita à Escola de São Francisco de Assis em Boebau. Com certeza que todo aquele povo e especialmente as crianças vão gostar de ver o São Francisco de Assis, hoje em carne e osso, e irão cantar com toda a alma “ São Francisco lá na glória / Lá nesse formoso céu / Protege a nossa escola / Protege este povo teu “ (letra do hino da escola). 

Como sempre o Fernando desfaz-se em atenções para comigo, o que muito lhe agradeço. Mas ele sabe bem que estamos em sintonia, no mesmo barco, em projetos de solidariedade de “Paz e Bem”.

11.02.2019 - Farwest made in Ailok Laran

Quem diria do que esta gente se lembra?!... Durante a tarde, sob uma grande chuvada, ouvimos um enorme alarido de bandos de pessoas que corriam numa determinada direção. O que é?... O que não é?... E todos aguçavam a sua curiosidade. 

Soubemos que um jovem agrediu outro, e que as claques se juntavam e incitavam o seu protegido. E até já sabíamos o nomes dos protogonistas desta batalha. Diziam até que já lá estava a polícia.

Foi então que o Chefe da aldeia Bartolomeu Pinto passou por aqui e nos explicou o que verdadeiramente se passava. Trata-se de cenas montadas previamente de lutas para serem gravadas e publicitadas no youtube. Por cada visualização esses jovens irão receber a sua recompensa em dinheiro, fazendo desta atividade uma forma de ganharem a vida.

Não sei não, mas se a moda pega vai haver uma grande batatada!...

13.02.2019, quarta feira - filosofia oriental

Estamos sempre a aprender com esta gente. Então não é que o Eustáquio, constatando que eu e o Gaspar andamos meio adoentados com forte tosse e expetoração profunda, nos dá uma lição de vida!

 Segundo ele e os entendidos deste canto do mundo, somosnós que criamos as nossas próprias enfermidades. Tal e qual! E explica: “se tem qualquer coisa na cabeça, sobretudo maus pensamentos, tem que deitar fora, falar. (...)  Não pensar nem guardar só para si. É o que guardamos dentro que nos faz mal, e provoca a dores no nosso corpo. Não precisa de médico...” 

Isto dito assim até nem parece errado. Aliás é o fundamento de todas as técnicas de psicoterapia. Mas será que chega? Não será melhor atacar logo com um produto farmacêutico recorrer a terapias disponíveis e a processos mais rápidos e eficazes?

Pelo sim e pelo não esta tarde vou consultar um médico. E pode ser que, com culturas e conhecimentos orientais, possam curar este corpo ocidental.

E de repente vem me à ideia o título do livro de Roger Garaudy “Parole d’homme -Ocident ou Acident?”,  onde se pode concluir que a salvação vem do oriente.

Estejamos portanto muito atentos...

13.02.2019 - Cobardia!...

Falo de mosquitos, de melgas... Então não é que mordem a gente à traição, pois estamos a dormir, enchem a barriga do nosso sangue e depois abandonam o local do crime.

Depois de verificar o estrago que me fizeram, busquei furioso a raquete assassina para me vingar destes dráculas. Querem lá saber... Nem um sequer apanhei! E por aqui andamos nós ao sabor desta bicharada que teima em dar cabo de nós â ferroada.

Cobardes, cobardes, cobardes!... Eles que se deixem apanhar para verem os que lhes acontece. Nem os ossos se lhes vão aproveitar!...

14.02.2019, quinta feira  - Rumo a Liquiçá

Com várias tarefas em mente, mas sobretudo o encontro com o diretor distrital de educação dr. Zito (?), a fim de nos esclarecer em pormenor o apoio que estão a dar à Escola de São Francisco de Assis em Boebau. Muito bem recebidos pelo senhor diretor e por um seu colega, depressa mos deram conta da situação. 

Ficamos então a saber que a escola de São Francisco de Assis está registada no ministério de educação timorense com o número 36 do distrito de Liquiçá, e que irá usufruir dos apoioslogísticos ao dispor. Este ano letivo conta com duas salas de ensino pré-escolar, e é frequentada por 40 crianças. O professor Luís, no cargo de inspetor do ensino pré-escolar, garantiu-nos que todas as ações de formação destinadas a este ensino, promovidas por esta direção escolar seriam comunicadas a tempo de modo a poderem ser frequentadas pelas trabalhadoras da nossa escola. O resto: apoios económicos, destacamentos e outras coisas mais explicaram que dependiam do que o ministério da educação lhes afetasse.

Por fim, e em jeito de remate, ouvimos da parte do senhor diretor o mais importante desta nossa visita de cordialidade: “Com a vossa colaboração e o nosso apoio a Escola de São Francisco vai fazer o seu caminho, a pouco e pouco; vai funcionar para bem de todas as crianças que a frequentam”.

14.02.2019 - Enxurrada inesperada

Estamos de volta. Na estrada Liquiçá-Dili, constantemente em obras, e que mais parece solo lunar devido ao pó e às crateras, um pouco antes do cruzamento para Tibar acontece o inesperado. Uma grande enxurrada corre precipitadamente edesemboca mais ou menos a dez metros do mar. Cada um safa-se como pode.

Motores e karretas procuram o melhor sítio para passar.

Também o Eustáquio deu o seu melhor para que o carro em que viajávamos chegasse são e salvo ao outro lado. Azar!... O motor parou e , de tentativa em tentativa, negava-sde sempre a pegar. Uma confusão danada. Apita daqui, apita dali. Uma microlete ainda parou para tentar ajudar, mas ninguém tinha corda para atrelar. O Gaspar bem tentou telefonar ao Quino para que fosse ao nosso encontro munido da cordanecessária, mas nada conseguiu.

E no meio desta ansiedade onde até já se rezava, um sinal de esperança surgiu, A mais uma tentativa de ver se pega, o motor arrancou e com muita dificuldade lá foi andando devagarinho, ganhando ânimo e acelerando, apreensivos até ao fim. Só em casa ficamos descansados. Está claro que o êxito desta expedição deve-se inteiramente ao Eustáquio, homem persistente e desenrascado. E à proteção divina.

14.022019 - O amor anda no ar

Anunciado e festejado em todo o mundo (o amor é universal), o dia de São Valentim tem o condão de avivar sentimentos, de despertar paixões, de combinar arranjos, de suscitar gestos, mensagens, telefonemas, cartas... e tudo o mais que seja preciso para que o mundo pule e avance “ como bola colorida nas mãos de uma criança”. 

Há quem tente esquivar-se deste dia, tentando dar a entender que tudo isto é uma fantochada. Mas Cupido, com a sua flecha amorosa, a todos atinge, queiramos ou não. Porque, “o amor anda no ar”. Basta abrir os olhos para o ver, abrir as narinas para sentir o seu odor, abrir os ouvidos para escutar os seus segredos. E, como diz a letra de uma canção espanhola, “Cinco sentidos tenemos / De todos necessitamos / Pero los cinco perdemos / Quando nos enamoramos”.

Hoje mesmo, aqui em Ailok Laran, pude compreender que este dia pode ser importante para alguém. O namorado da Eza, cumprindo o ritual de São Valentim, veio namorar à noitinha. E mais uma vez associei a letra da canção do rio Douro “conta a lenda / Que a namorar à noitinha / Foram encontradas as ninfas / com o rio Douro ao luar!”

Sim, a força do amor (que não só o amor físico) move montanhas. “Sapete perché il mondo va? Perché in torno al mondo gira l’amore...” E, embora com um dia especial,  14 de Fevereiro - que São Valentim seja todos os dias.

16.02.2019, sábado - ADHAN: o chamado para a oração

Aqui, em Timor, a religião mulçumana tem uma grande adesão, ainda que não comparável com a religião cristã, com destaque para a religião católica. 

Cada religião desenvolveu uma maneira de chamar os seus fiéis para o momento do culto: os judeus utilizavam uma corneta, os budistas uma trombeta, os cristãos os sinos das suas igrejas...

Já não é a primeira vez que, entre as cinco e cinco e meia da manhã, oiço o uma voz que percorre este ambiente. No princípio algo estranho, mas depois facilmente compreensível. Trata-se da chamada para a oração mulçumana - o Adhan - que é pronunciado em tom melodioso pelo Muazzin, do alto dos minaretes das mesquitas de todo o mundo.

Não percebendo nada do que se dizia cantando, fiz uma pesquisa na net sobre o conteúdo deste anúncio. E então deparei com o original e a sua tradução, que transcrevo:

Allahu Akbar | Deus é Maior !

Ach hadu an la ilaha ill- Allah | Testemunho de que não há outra divindade além de Deus.

Haiyá alas-salat |! Vinde para a Oração

Haiyá alal-falah Vinde para a salvação

Allahu AkbarDeus é o Maior !

Lá ilaha ill Allah | Não há outra divindade além de Deus !

Somente na oração da alvorada o Muezzin deve pronunciar depois de
Haiya alal-falah o seguinte 2 vezes:

 As-salatu Kairun minan-naumA oração é melhor do que o sono.

Quando houver terminado o Adhan, devemos suplicar à Deus as suas
Bênçãos ao profeta Muhammad (que a Paz e a Bênção de Deus
estejam sobre ele):

Allahuma rabba hadh-hid da' wa-tam mati

was-sálatil qai-mati muhammad anil wasilata wal fadi lata wad-
darajatar-rafi' ata


wab' ath-hu maqam-mahmuda-nil ladhi wa' at-tahu

 war zuqna sha fá' tahu yaum-al-qiyamah in naka la-tukh liful
mia'd. | Ó Deus, Senhor deste chamado perfeito e desta oração, ora anunciada,
dá a Muhammad meios para se aproximar de Ti, assim como a distinção
no bem, e fá-lo ressuscitar no lugar louvável que lhe prometeste.

Concede-nos a sua intercessão; Tu jamais faltas às Tuas promessas".

Nota: Esta é a minha homenagem à religião mulçumana e a todos os fiéis que a professam.

(Revisão / transcrição de texto, título, negritos: LG)

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Nota do editor LG:

Último poste da série >  20 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27934: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte I: semana de 31/1 a 9/2: santa paciência e ajudas...divinas

domingo, 26 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27955: Foi há... (10): 80 anos: teias que o império tecia: em 25 de abril de 1946, o N/M Quanza que "deu a volta ao mundo", regressou a Lisboa, trazendo tropas expedicionárias de Timor... e os dois netos, menores, órfãos, do heróico "liurai" Dom Aleixo Corte-Real (1886-1943), que foram entregues à Casa Pia

 








Fonte: Excerto da 1ª página do "Diário de Lisboa" | Número: 8409 | Ano: 26 | Data: Quinta, 25 de Abril de 1946 | Directores: Director: Joaquim Manso

(1946), "Diário de Lisboa", nº 8409, Ano 26, Quinta, 25 de Abril de 1946, Fundação Mário Soares / DRR - Documentos Ruella Ramos, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_22887 (2026-4-26)



1. Portugal, "graças a Salazar e a Nossa Senhora de Fátima", dizia-se na minha terra, quando eu era menino e moço, na catequese e na escola primária, escapara aos horrores da II Guerra Mundial... 

Só muito mais tarde é que vim a saber da imensa tragédia que se abateu sobre Timor-Leste nesse período hediondo da história da humanidade.

 Também ainda  sou do tempo em que Portugal ia do Minho...  a Timor. (Timor-Leste tem 155 referências no nosso blogue.)

O impacto da ocupação japonesa em Timor durante a II Guerra Mundial foi devastador, e infelizmente é ainda  pouco conhecido dos portugueses,  fora da historiografia especializada. (De resto, os portugueses não gostam de história.)

Recorde-se que durante a Segunda Guerra Mundial, a ilha de Timor (então dividida em duas partes, o Timor Português e o Timor Holandês) foi invadido pelo Império do Japão em no início de 1942. 

Curiosamente, antes disso, forças australianas e holandesas tinham desembarcado em Timor português, em finais de 1941, sem autorização formal de Portugal, temendo uma invasão japonesa, o que acabou por precipitar o ataque nipónico, dois meses depois,

Após a invasão, comandos australianos (a chamada “Sparrow Force”) conduziram uma guerra de guerrilha nas montanhas, com forte apoio dos timorenses. Essa colaboração teve consequências terríveis:
  • os japoneses retaliaram brutalmente contra a população civil;
  • armaram e protegeram as "famigeradas colunas negras";
  • aldeias inteiras foram destruídas;
  • houve execuções, trabalhos forçados e deslocações em massa;
  • Dili  (e o resto do território) ficou sem comunicações com Lisboa até ao fim da guerra.
As estimativas variam, mas são geralmente aceites números muito elevados: entre 40.000 e 70.000 timorenses morreram, numa população relativamente pequena. Isso representava  algo como 10% a 15% da população da época.

As causas principais estão, direta ou indiretamente, relacionadas com a invasão e ocupação japonesas: v
iolência direta (massacres e execuções); fome (colapso da agricultura e pecuária e requisições forçadas); doenças (e falta de cuidados médicos, agravada pela guerra).

A população timorense teve um papel ativo na luta contra o ocupante: muitos serviram como guias, carregadores e combatentes auxiliares; e esse apoio foi crucial para a resistência australiana, mas custou-lhes caro.

Após a rendição do Japão em 1945, no seguimento dos bombardeamentos atómicos (Hiroshima e Nagasaqui) e da derrota total do Japão,  Timor voltou ao controlo português.  

No entanto, as infraestruturas estavam devastadas; a cidade de Díli destruída; a  economia rural em colapso; a população profundamente traumatizada.

2. Memória histórica:  este episódio é hoje reconhecido como um dos maiores sacrifícios da população timorense; na Austrália, há um reconhecimento crescente da “dívida de sangue” para com Timor; em Timor-Leste, a memória da ocupação japonesa é parte integrante da identidade histórica nacional; em Portugal, houve quem acusasse o regime de Salazar de abandono dos portugueses e timorenses que lá ficaram, indefesos e incomunicáveis. E até de um "silenciamento cínico".

Haveria, porém,  uma exceção: o  caso de Dom Aleixo Corte-Real, um dos episódios mais marcantes e também mais complexos dessa época. Foi glorificado pelo Estado Novo.



Timor Leste > s/d (c. 1936/40) > O "liurai" Dom Aleixo Corte-Real (1886-1943), régulo de Ainaro e Suro, um dos heróis luso-timorenses da resistência contra os ocupantes japoneses na II Guerra Mundial.

Fotos do Arquivo de História Social > Álbum Fontoura. Imagens do domínio público, de acordo coma Wikimedia Commons.


2.1. Quem foi Dom Aleixo?

Dom Aleixo, de quem já aqui temos falado,  era liurai (régulo, chefe tradicional) de Ainaro, em Timor-Leste. O "Diário de Lisboa" chama-lhe "príncipe".

 Quando os japoneses invadiram o território durante a Segunda Guerra Mundial, ele tornou-se um dos principais líderes locais da resistência: apoiou as forças australianas na guerrilha contra o Império do Japão; mobilizou combatentes timorenses; recusou colaborar com os ocupantes.
 
Em 1943, após campanhas de repressão japonesa, Dom Aleixo foi capturado e foi executado,  de forma brutal. Grande parte da sua família também foi morta.

Este tipo de represália não era incomum: os japoneses visavam destruir redes locais de apoio à resistência. Sem dó nem piedade.

O regime português transformou Dom Aleixo numa figura heróica...  O Estado Novo apropriou-se da sua história para exaltar a lealdade dos “indígenas” ao império português, reforçar a ideia de unidade imperial, criar uma narrativa de fidelidade a Portugal.

Ou seja, ele foi apresentado como um chefe tradicional que morreu fiel à bandeira portuguesa. O que só em parte era verdade.

2.2. O outro lado da história

A historiografia mais recente tende a ver Dom Aleixo de forma mais autónoma: lutava contra uma ocupação estrangeira violenta, e não apenas “por Portugal"; a  sua liderança baseava-se em estruturas locais timorenses; a  resistência tinha motivações próprias (defesa da terra, da comunidade, da autonomia).

 O mesmo se passou, aliás, noutros territórios, já na guerra colonial:  caso dos fulas, dos manjacos, dos felupes e outros, na Guiné.

Além disso, sabe-se que muitos timorenses resistiram sem qualquer ligação direta ao poder colonial. Outros foram forçados a colaborar com os japoneses... Portan
to,  a realidade era muito mais complexa do que a narrativa oficial. 

Hoje, Dom Aleixo é lembrado como herói nacional em Timor-Leste, mas com um significado diferente: símbolo de resistência timorense; mártir da luta contra a ocupação estrangeira;  figura da identidade nacional, não apenas colonial. 
 
Não é errado dizer que houve uma  “transformação em herói” por parte do Estado Novo... mas isso foi uma reinterpretação política de uma figura cuja importância histórica é real e anterior a essa propaganda.

3. A ideia de um “silenciamento cínico” não é totalmente descabida, mas convém enquadrá-la com algum cuidado histórico.

Durante o regime do Estado Novo, a informação era fortemente controlada e a narrativa oficial sobre o império tendia a ser seletiva. No caso de Timor, houve de facto pouca visibilidade pública do que aconteceu entre 1942 e 1945.

Há várias razões, mais pragmáticas do que necessariamente conspirativas:

(i) neutralidade portuguesa na guerra:  Portugal manteve-se, como é sabido,  oficialmente neutro na Segunda Guerra Mundial, pelo que dar demasiado destaque à invasão japonesa de território português, e à presença prévia de tropas australianas sem autorização poderia expor fragilidades dessa neutralidade, e fazer perigar outras posições territoriais na Ásia (como Macau);

(ii) dois pesos, duas medidas:  Salazar é muito mais comedido na denúncia e protesto contra o ataque japonês do que contra a a invasão de holandeses e australianos;

(iii) embaraço político e militar: a  ocupação mostrou que Portugal não tinha, de facto, capacidade real de defender Timor (que ficava a 20 mil km de distância de Lisboa)  e que perdeu totalmente o controlo do território durante esses anos (1942-1945), incluindo as telecomunicações; ora, isso colidia com a imagem de um “império forte e indivisível” que a propaganda do  regime promovia;

(iv) narrativa colonial: o Estado Novo evitava dar protagonismo excessivo às populações coloniais e aos seus líderes tradicionais como agentes históricos; ora, em Timor os timorenses foram decisivos na resistência contra o ocupante nipónico, mas pagaram caro o seu amor à sua terra, á liberdade e à sua identidade; reconhecer isso plenamente implicaria admitir dependência e vulnerabilidade e... "pôr em risco a neutralidade";

(v) ce
nsura e prioridades internas; a  imprensa portuguesa era fortemente censurada, e o foco estava sobretudo na Europa e nas ilhas atlântica s; Timor era um território, remoto e periférico;   para a opinião pública metropolitana era apenas um local de desterro...

Não se pode, todavia,  falar em "silêncio total": houve relatórios oficiais, correspondência e algum reconhecimento interno. Após a guerra, Portugal retomou a administração e fez esforços (limitados, embora) de reconstrução.

Mas não houve uma grande narrativa pública ou memorialização proporcional à dimensão da tragédia.
 
Hoje, muitos historiadores consideram que houve subvalorização e apagamento relativo da tragédia de Timor, mais por conveniência política e ideológicos de do regime do que por um plano deliberado de negar os factos.

Durante décadas, o sacrifício timorense ficou pouco conhecido em Portugal até ao 25 de Abril de 1974.

4. Qual o destino dos  dois menores, órfãos, Benjamim Corte-Real e José Corte-Real, netos do Dom Aleixo Corte-Real, que  vieram para Portugal, no navio Quanza, desembarcaram em Lisboa em 25/4/1946, e foram entregues à Casa Pia ?  

O destino posterior dos dois netos de Dom Aleixo Corte-Real é muito menos claro e mal documentado. Não há um registo público amplamente divulgado ou consensual sobre o percurso completo das suas vidas adultas. Algumas investigações e relatos indicam que terão sido educados em Portugal continental,  podendo ter sido integrados na sociedade portuguesa ou regressado à sua terra natal, quando atingiram a maioridade.

Mas os detalhes (profissões, regresso ou não a Timor, descendência, etc.) não estão bem estabelecidos na historiografia acessível.

Por que é tão difícil saber mais? Há várias razões:

(i) arquivos dispersos ou pouco estudados: registos da Casa Pia de Lisboa e da administração colonial nem sempre estão totalmente investigados ou cruzados;

(ii) invisibilidade social: ao contrário da figura de Dom Aleixo, os netos não foram figuras públicas, não entraram na narrativa oficial com o mesmo destaque, embora tivessem nomes portugueses;

(iii) descontinuidade histórica: o próprio passado colonial de Portugal só começou a ser mais profundamente estudado após o 25 de Abril, e muitos casos individuais ficaram por reconstruir.

PS - Há um linguista, professor doutor Benjamim de Araújo e Corte-Real (mais conhecido como Benjamim Corte-Real),  nascido em 1961, que pode ser desta família. Mas não temos mais informação, a não ser a que vem na sua entrada na Wikipedia. Foi o primeiro reitor, eleito em 2001, da UNTL - Universidade Nacional de Timor Lorosa'e.

Embora tenha feito os estudos superiores na Austrália (mestradoo e doutoramento), tem-se empenhado na "prossecução de uma política linguística que salvaguarde a cultura e identidade nacional timorense, através da promoção das duas línguas oficiais, português e tétum, contra correntes alienantes incentivadas por interesses estrangeiros".

(Investigação: LG + ChatGPT)
(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos: LG)
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