sábado, 8 de dezembro de 2007

Guiné 63/74 - P2335: A trágica morte do Cap Rui Romero: 10 de Julho de 1966, dia de correio (Artur Conceição)

1. Em meados deste ano, apresentou-se o soldado de Transmissões de Infantaria da CART 730/BART 733, Artur Conceição. Soldado de Transmissões de Infantaria numa Companhia de Artilharia ? Interrogou-se o nosso editor Carlos Vinhal.

Recordemos a resposta do Artur:

Caros Luís Graça e Carlos Vinhal,

Sou o Artur António da Conceição. Estive na Guiné de 65 a 67. O Carlos Vinhal perguntava-me no mail de boas vindas “o que fazia um militar que tinha duas especialidades: ser condutor e ainda exercer a especialidade de transmissões, devia ser complicado.”

Aqui vai a minha resposta: O que fazia um soldado de Transmissões de Infantaria Condutor Auto, numa Companhia de Artilharia, na Guiné nos anos de 65/67?

Fui incorporado no CICA4 em Coimbra em 21 de Outubro de 1963. Em 1963 começava a Guerra na Guiné, em Angola já ia com dois anos e em Moçambique ainda não tinha começado.

Quem nesta fase tinha conhecimentos práticos da guerra que nos esperava ? É nesta época que aparecem umas especialidades meio esquisitas, ou seja, faziam moda sem se pensar na sua utilidade prática.

Eu nunca vi nenhum condutor a conduzir com um AN/PRC-10 às costas!!!...Tal como muitas modas também esta não pegou!!! Mas no 4º turno de 63 e no primeiro de 64, penso que não houve mais, saíram: Transmissões Inf Condutor Auto, Radiotelegrafista Condutor Auto, Ponteneiro Condutor Auto e Auxiliar de Serviço Religioso Condutor Auto.

As duas últimas ainda teriam alguma razão de existir, agora as duas primeiras não me parece que fizessem muito sentido. Deveria ser muito interessante ir a conduzir com uma mão e com uma chave de Morse na outra, ou debaixo de fogo a tremer como varas verdes e a comunicar em Morse. Havia de sair uma coisa jeitosa!...

Na Guiné tanto eu como os restantes Transmissões Condutor Auto fazíamos parte da Secção de Transmissões, que era composta por um Furriel, um 1º Cabo Cripto, dois 1ºs Cabos Radiotelegrafistas, dois 1ºs Cabos Radiotelegrafistas condutor auto, um 1º Cabo de Transmissões, um soldado de Transmissões, e dois soldados de Transmissões condutor auto.

Em termos de funções, fazíamos todos a mesma coisa, inclusive cripto quando era necessário. Como eu era de 1963, e todos os restantes eram de 1964, ainda me calhou em sorte fazer a escala e tomar conta do material. Prémio de especialidade, era só para os radiotelegrafistas.

A minha Companhia chegou à Guiné em Outubro de 64, eu só cheguei em Fevereiro de 65, e fui logo direitinho a Bissorã em coluna militar com os primeiros tiros pelo caminho, entre Mansoa e Bissorã.

Depois de algumas operações com emboscadas e alguns ataques durante dois meses, fomos parar a Jumbembem. Em Jumbembem a estadia não foi muito má em termos de operações com emboscadas ou ataques ao aquartelamento.

Nessa altura a zona Norte era calma, dado que fazia fronteira com o Senegal. Quando em coluna para ir a Farim gastar uns pesos, ou ficar a manter a segurança junto ao rio Lamel, ou ir a Canjambari, utilizava-se um AN/GRC-9 instalado num Unimog com fundo em sacos de areia e paredes de chapas de bidon recheadas de areia; mas o condutor ia no lugar do morto.

Em Agosto de 1966 a minha Companhia regressou com 22 meses de comissão, e até essa data quem tivesse 16 meses de Guiné vinha também embora. Acontece que nesta data chegou directiva no sentido de que quem não tivesse ido de início teria de ficar até completar 24 meses. Como eu era um rapaz cheio de sorte e como ainda tinha pouco tempo de tropa, tive de gramar mais 6 meses.

Fiquei dois meses no QG (Quartel General) onde tinha como tarefa uma vez por dia e cerca das 18 horas, apanhar a Press Lusitana. Todos os dias ouvia sermão do então Capitão Garcia dos Santos (2) porque só apanhava as notícias desportivas e pouco mais.

Eu estava demasiado cansado e depois de 18 meses de mato não era o mais indicado para aquela tarefa, e fui substituído por um fresquinho acabado de chegar de Lisboa.

Os últimos quatro meses fiz serviço na PIDE em Bissau. Nessa altura os postos da PIDE estavam equipados com Emissores/Receptores de capacidade muito superior aos das NT, que eram na altura o AN/GRC-9.

Se acontecesse um ataque numa unidade do mato que precisasse de pedir socorro e o seu rádio não fosse suficiente, recorria ao posto da PIDE para comunicar com Bissau. Era minha missão fazer a ponte para o QG. Nunca aconteceu...

Como tinha de estar oito horas de serviço por dia em sistema de turnos, com uma folga no final, tinha de ter qualquer coisa para entreter. Quando o turno era de dia batia-se à máquina tudo o que era dito pela Rádio Argel e pela Rádio Moscovo, que tinha sido previamente gravado numa fita magnética. Quando era de noite, fazia o meu trabalho e o do operador da PIDE, e ainda dava para passar pelas brasas.

Como era minha intenção não voltar para a mesma actividade que tinha antes do serviço militar, fui-me valorizando profissionalmente, e no fim de quatro meses utilizava bem uma máquina de escrever e uma chave de Morse, porque protegido como estava a mão não me tremia.

Fui convidado para ficar, mas eu agradeci muito e fugi a sete pés. Também não eram esses os meus planos. Em Jumbembem utilizava-se só Fonia, porque para transmitir grafia não se pode tremer, e eu tremia em permanência. O meu amigo Saramago chamava-me o gelatina.
E era mais ou menos isto o que fazia um soldado de Transmissões Condutor Auto.

2. O Artur Conceição esteve num Batalhão que, como muitos outros, passou por Brá numa primeira fase. Dispersou as companhias pela intervenção, até lhe ser atribuída a zona de Farim e distribuiu-as por Farim (sede do Batalhão), Jumbembem e Cuntima (Colina do Norte).
Foi um Batalhão que deixou história, com muito para contar. E o Artur voltou, estes meses depois, a enviar-nos nova mensagem.

Meus Caros Luís Graça, Carlos Vinhal e Virgínio Briote

Se entenderem que o conteúdo possa ter implicações, de ordem afectiva ou outras por parte dos familiares, não incluam no blogue.

Um abraço,
Artur Conceição

Era domingo, dia 10 de Julho de 1966, um dia como tantos outros
por Artur Conceição

Pela manhã realizou-se a habitual ida a Farim para levar o correio com destino à Metrópole. Já se encontrava em Jumbembem a Companhia que iria render a CART 730, e cujo número não me recordo.

O correio com destino à CART 730 havia sido entregue como habitual, dois dias antes, a partir de uma avioneta que largava os sacos, mas como a Companhia de rendição ainda não tinha assentado arraiais, o seu correio tinha ficado em Farim, onde era preciso ir buscá-lo para distribuição.

A Companhia que ia render a CART 730 tinha chegado cerca de uma semana antes e foi recebida sem qualquer euforia, que seria mais do que natural, mas talvez tivesse havido um grande respeito por quem chegava e que tinha ainda 2 anos de Guiné pela frente. Pairava no ambiente um certo desalento face ao comando da Companhia entre os homens que nos iam render.

Eu próprio tive uma situação bem complicada, ao ser advertido por estar a colocar água nas baterias que alimentavam o posto de rádio e que se encontravam ligadas em série e depois em paralelo de modo a garantirem 12 volts no terminal, que era a voltagem a que trabalhavam os AN/GRC-9. No entender de quem me dirigia tal advertência o que deveria ser colocado nas baterias seria petróleo e não água, para não enferrujar as baterias. Pelo que estaria a danificar o material intencionalmente.

Era habitual na distribuição de correio ser feita uma separação prévia por classes. O correio dos Oficiais ia para um lado, o dos Sargentos para o outro e finalmente o das praças era distribuído através de chamada pelo 1º Cabo escriturário ou pelo Sargento dia.

A distribuição do correio ocorria na parada quando, subitamente, se ouviu um disparo. Eu estava de serviço no posto de rádio e, a dois metros do local do disparo, que havia acontecido no gabinete mesmo ao lado.

O Capitão Rui António Nuno Romero tinha sido vítima de acidente mortal com arma de fogo. No chão estavam espalhadas várias cartas e também muitas fotos.

Perante o cenário, a minha reacção foi de fuga. Não me perguntem porquê. Porque ainda hoje não consigo explicar. Como estava de serviço tive de regressar rapidamente ao meu posto para enviar o pedido de evacuação. Foi a única vez que enviei uma mensagem com grau de urgência Zulu.
A foto recorda o momento da evacuação, onde se pode ver uma das nossas enfermeiras páraquedistas, e que, nesse tempo na Guiné, não seriam uma dezena. Foto de Artur Conceição. Direitos reservados.
4. No mesmo dia respondemos:

Artur, Caro Camarada,

Compreende-se o cuidado que pões na tua mensagem. E, no entanto, o facto ocorreu, estavas lá, foste testemunha. Também ouvi falar do caso, embora as minhas memórias já não sejam muito precisas. Que não foi caso único.

Os nossos Camaradas têm estado calados sobre casos idênticos, mas enquanto lá estive, tive conhecimento de um ou outro acidente desse género. Tinha-se-me varrido o caso do Cap Rui Romero e, ao ler a tua mensagem, num instante, veio-me à memória.(...)
Se pertenceste ao BART 733 tens muito para contar. O vosso Batalhão andou por quase toda a Guiné, esteve uns tempos baseado em Brá, com as companhias em intervenção, até renderem o BCAV 490 (o do Como) em Farim, Jumbembem e Cuntima. As minhas memórias estão correctas?
Quanto á publicação do sucedido com o nosso infeliz Camarada Rui Romero e, tal com tem acontecido com tantos outros casos (a guerra também foi feita de casos desses), não vejo impedimento em apresentar um testemunho público. E a família teve certamente conhecimento da forma como ocorreu.
Um abraço, Camarada Artur. Se quiseres tens muito para contar, porque o teu Batalhão foi um actor muito interveniente naqueles tempos.
vb

5. Na volta, responde o Artur Conceição

Caro Camarada V. Briote

Todas as tuas memórias estão correctas. Já lá vai tanto tempo que por vezes até nos interrogamos se terá sido mesmo assim.

O BART 733 havia partido para a Guiné em Outubro de 1964, e era comandado pelo Tenente-Coronel Glória Alves, que já tinha sido meu comandante no RI 11 em Setúbal, tendo sido substituído pelo então Major Carvalho Fernandes e que era o segundo comandante.
Só cheguei à Guiné no dia 17 de Fevereiro de 1965, e nesse mesmo dia fui levado para Brá onde se encontrava a CCS do BART 733.
O Artur com o Capelão que celebrou a missa, em Brá no dia 18 de Abril de 1965, Domingo de Páscoa

Três dias depois 20 de Fevereiro (sábado) passava por cima de Brá a caminho do Hospital um helicóptero que transportava o Baleizão (Manuel Graça Bexiga Troncão, era o seu nome), atingido mortalmente, e mais dois camaradas feridos, pertencentes à CArt 730 que nesse dia andava em intervenção na zona do Olossato.
Dois dias depois, segunda-feira segui em coluna para Bissorã onde se encontrava a minha companhia e que partilhava as instalações locais com uma Companhia do BCAV 645 (*), Águias Negras, comandado pelo Tenente-Coronel Henrique Calado.
No sábado a seguir, quando já tudo se preparava para ir dormir, houve ordem para preparar para uma saída para o mato. Foi toda a noite a andar sem saber muito bem por onde, uma vez fomos enganados pelos guias, e acabámos por envolver ao amanhecer um objectivo que não era o desejado. O João Parreira não achou piada nenhuma...

Fomos esperados no caminho de regresso onde levamos porrada e cerca das duas da manhã foram fazer-nos uma visita a Bissorã. Este ataque a Bissorã aconteceu de Domingo de Carnaval, dia 28 de Fevereiro, para segunda-feira.
Depois de participar em mais algumas operações de risco descontrolei o sistema nervoso e entrei em estado de hipotermia. Quem diria... Com um calor daqueles!...

O Dr. Afonso perante tal situação mandou-me em consulta externa para o Hospital de Bissau. Durante algum tempo estive em Brá onde se encontrava a CCS do Bart 733.
Lembro-me muito bem dos três grupos de Comandos que partilhavam o mesmo refeitório, em horários diferentes, e que ficava do lado direito quando se entrava no aquartelamento. Era um luxo…! Até comíamos em pratos….!
Também me lembro de um protesto dos Comandos por causa da alimentação que pôs tudo em sentido. Já lá estarias nesta altura? Deve ter acontecido em Abril de 1965. De camaradas dos Comandos, só me lembro do Furriel Joaquim Carlos Morais, que namorava uma enfermeira pára-quedista, vitimado numa sexta-feira pela manhã, no dia 7 de Maio de 1965, e do Vila Franca, por ter assistido a um episódio com ele que me deixou incrédulo.
Na consulta externa era assistido por um psiquiatra de seu nome Pimenta, natural de Coimbra, e que foi de facto extraordinário.

Num dia em que tinha consulta, quando cheguei ao Hospital estavam a chegar feridos graves, e um deles necessitava de uma transfusão directa porque os médicos iam ter de lhe cortar uma das pernas. Aceitei o desafio com coragem embora não tivesse sido fácil.
Não sei o seu nome nem o seu posto porque nunca mais voltei a entrar no Hospital, mas sei que era um camarada nosso que estava muito pior do que eu.
Estava na maca quando o Dr Pimenta deu por mim. Deu-me alguma coragem e disse que depois me esperava quando eu saísse do bloco.
Tivemos uma conversa prolongada e ele perguntou-me se eu já me sentia em condições de voltar para o mato sem ter problemas.
Entretanto a CCS já tinha ido para Farim, e em Brá só tinham ficado dois quarteleiros para tomar conta de algum material, e deixaram-me órfão. A CART 730 tinha partido de Bissorã rumo a Jumbembem. As alternativas eram poucas, e nestas condições aceitei ir-me embora.
Dois ou três dias depois enfiaram-me num caixote voador rumo a Farim. Fiquei alguns dias em Farim, e quando pedi alojamento mandaram-me para um grande armazém que nem portas tinha, onde havia umas camas e uns colchões empilhados. Montei uma cama com um colchão em cima, e tentei dormir. Não tinha lençóis, nem manta nem mosquiteiro e durante a noite acordava para matar os percevejos com uma tábua de uma caixa de batatas, antes que me furassem a roupa que tinha vestida.
Quando veio coluna da CART 730 a Farim, lá fui rumo a Jumbembem onde estive durante cerca de 15 meses sem problemas de maior.



Missa celebrada pelo Capelão do 733, no refeitório da CART 730, em Jumbembem

Em Jumbembem em cima de um barracão que serviu de caserna nos primeiros tempos, que ficava logo a seguir ao aquartelamento do lado direito, na estrada que dava para Cuntima. Eu sou o que está de boina e camuflado, do meu lado direito está o Norberto que era do Pelotão de Camjambari e que tinham vindo para Jumbembem por troca de um pelotão da CART 730, para recuperar fôlego. Do meu lado esquerdo está o Cabo cripto Florival Fernandes Pires, natural de Portalegre e que era Sabatista. Mais ao lado o Morais Castela que era natural de Viseu. Na queda o meu grande amigo Guilherme Augusto LEAL Chagas que é natural de Elvas.

Menciono aqui o nome do Major Carvalho Fernandes, e quero deixar a promessa de que um dia falarei deste grande amigo, porque entre os militares do Q.P. também havia homens muito bons, que não podemos nem devemos esquecer.

O dia hoje não está famoso, mas prometo que na próxima contarei coisas mais divertidas.

Um grande abraço,
Artur António da Conceição
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Nota de vb: vd posts:

(1) Sobre o Artur Conceição vd. posts.
Guiné 63/74 - P2291: Convívios (36): XII Convívio dos combatentes da Freguesia de Campia, no dia 10 de Novembro de 2007 (Artur Conceição)
Guiné 63/74 - P1989: Homenagem ao António da Silva Batista (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)
Guiné 63/74 - P1824: O Aeroporto de Jumbembem e os ecologistas 'avant la lettre' (Artur Conceição)
Guiné 63/74 - P1772: Tabanca Grande (5): Também quero estar ao lado dos que não permitem o virar da página (Artur Conceição, CART 730, 1965/67)

(2) Tenente coronel na altura do 25 de Abrild e 1974, fez parte, com Otelo Saraiva de Carvalho, do Estdao Maior do MFA (Movimento das Forças Armadas), sendo o responsável pelo plano de transmissões. Hoje é general na reforma. É o presidente da Assembleia Geral da Associação 25 de Abril.
(*) Deve ler-se: "...com a Cart 643, comandada pelo Cap Ricardo Lopes da Silveira, e que pertencia ao BART 645 'Águias Negras'."Agradecemos ao Abreu dos Santos a correcção.

Guiné 63/74 - P2334: Encontro de ex-combatentes, em Lisboa, no Pelicano Dourado (A.Marques Lopes)

Foto 1> Restaurante Pelicano Dourado de Joaquim Djassi, ontem combatente do PAIGC e hoje imigrante integrado na sociedade portuguesa.


1. Mensagem do camarada Marques Lopes (1) do dia 4 de Dezembro, dando-nos conta de um jantar, de ex-combatentes da Guiné, em Lisboa, no Restaurante Pelicano Dourado.

No dia 1 de Dezembro passado estivemos no Pelicano Dourado, restaurante que o Joaquim Djassi tem na Zona J de Chelas, em Lisboa.


Foto 2> Os presentes: Marques Lopes, o António Pimentel, o Xico Allen, o Braima Baldé, o Hugo Moura Ferreira e, claro, o Joaquim Djassi.



Foto 3> António Pimentel, Marques Lopes, Braima Baldé (de pé) e Joaquim Djassi


Foto 4> O Xico Allen, à direita em conversa com o António Pimentel, Marques Lopes e Joaquim Djassi.


Uns já são conhecidos, mas há que dizer quem são os desconhecidos: o fula Braima Baldé, que foi ferido em combate em Buba, foi soldado na CCAÇ 763, que foi substituída pela CCAÇ 1621 onde esteve o Hugo Moura Ferreira; o beafada Joaquim Djassi foi um guerrilheiro do PAIGC, sob o comando do Gazela, e foi um dos que entrou em Guiledje depois de nós sairmos.

Diz ele que encontraram manga de cervejas, whisky e latas de conservas.

O Braima Baldé continua com ligações à Guiné-Bissau, para onde se desloca com frequência.

O Joaquim Djassi não. É doente renal (tinha regressado de uma sessão de hemodiálise quando nós chegámos) e diz com mágoa que se estivesse no seu país já tinha morrido certamente...

Falámos de mais coisas, naturalmente.


Foto 5> Para quem não sabe (eu também não sabia) este peixe chama-se "bentana".

A D. Leontina Pontes (natural de Catió), mulher do Joaquim Djassi, explicou-nos que é um peixe que é apanhado nas bolanhas da Guiné-Bissau e vem para cá de avião.
O prato é acompanhado com banana verde e mandioca. Mas foi o aperitivo, pois o prato forte foi chabéu de frango.

Fotos © de Xico Allen, Braima Baldé, Marques Lopes e Hugo M. Ferreira (2007)

Abraços
A. Marques Lopes
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Nota de CV:

(1) Vd. post de 5 de Dezembro de 2007> Guiné 63/74 - P2329: O Hino de Gandembel cantado ao vivo na já famosa Casa Teresa, em Matosinhos, sede da delegação Norte da Tabanca Grande

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Guiné 63/74 - P2333: Exibição do filme As Duas Faces da Guerra, em Coimbra (Fernando Barata)

1. Mensagem do Fernando Barata:

Luís,

Apetece-me dizer: "foi bonita a festa, pá".

Em relação ao documentário pouco devo acrescentar por duas razões. Primeiro, tu tiveste o privilégio de o ver e sabes a obra-prima que ali está, até pelo facto de, finalmente, termos a visão do outro lado, lado esse que, por vezes, tinha tanto de comum com o nosso: o inimigo, que dava pelo nome de obstinação salazarenta e que não teve visão para acompanhar os ventos da História.

Depois, sinto-me pequenino para analisar tamanha obra. Mas se me pedirem para numa palavra a definir direi: WIKIPÉDIA, porque nela tu encontras tudo sobre a Guerra Colonial na Guiné.

Foi, também, agradável ver aquele anfiteatro compostinho essencialmente por gente jovem, alunos daquela instituição da qual me orgulho ter pertencido, mesclado por aproximadamente 20 cinquentões, nos quais eu via Luíses Graças.

Conhecidos ou que se apresentaram como tabanquistas: o Vítor David,o Carlos Oliveira Santos (sempre com as suas intervenções polémicas e inflamadas), o Martins Julião, o Idálio Reis (intervenção comovida e comovente), o Delfim Rodrigues e o Carlos M. Santos.

Tivemos o privilégio de, no debate coordenado pelo Professor José Manuel Pureza, terem participado a Diana Andringa, que pôs todo o enlevo na obra que criou – e como ela se deve sentir orgulhosa, juntamente com o Flora Gomes; o Major-General Pezarat Correia, com uma exposição académica enriquecida pelo facto de conhecer in loco o terreno que estava em discussão; Sílvia Roque, doutoranda em Política Internacional e Resolução de Conflitos, numa análise do conceito de paz centrada na realidade que estava, de momento, a ser discutida e Julião Sousa, também doutorando, que se debruçou sobre a figura ímpar de Amílcar Cabral.

Pela forma como tudo decorreu está de parabéns o Núcleo de Estudos para a Paz.

A Diana estava feliz. Diz o poeta que Coimbra é uma lição, só que desta vez a lição foi a Diana quem a deu, mas em Coimbra, valha-nos isso (1).

Aquele abraço,

Fernando Barata
___________

Nota de vb:

(1) vd posts de:

Guiné 63/74 - P2314: Exibição do filme As Duas Faces da Guerra (2): Coimbra, 4 de Dezembro, 14h30, auditório da FE/UC (Fernando Barata)

13 de Novembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2262: Exibição do filme As Duas Faces da Guerra (1): Castro Verde (16/11) e Coimbra (4/12) (Diana Andringa / Fernando Barata)

Guiné 63/74 - P2332: O Hino da Guiné-Bissau: letra de Amílcar Cabral e música de Xiao He (Virgínio Briote)

Depois de doze anos de luta encarniçada, o Furriel Magalhães Ribeiro arreia a bandeira de Portugal em Set 1974, em Mansoa. Foto de Magalhães Ribeiro.


Diz-se que, em 1963, aquando de uma visita de uma delegação do PAIGC à República Popular da China, Amílcar Cabral (2), depois de ter ouvido uma canção de Xiao He, terá dito que gostaria que fosse ele, Xiao He, o compositor a fazer uma música similar para inspirar a população da Guiné a alcançar a independência.

Um guerrilheiro hasteia a bandeira da Guiné-Bissau, em Mansoa. Foto de Magalhães Ribeiro.

Usando música africana como inspiração, Xiao He compôs a música, que depois da Independência em 1974, se viria a tornar o Hino da Guiné-Bissau.


Sol, suor e o verde e mar,
Séculos de dor e esperança:
Esta é a terra dos nossos avós!
Fruto das nossa mãos,
Da flor do nosso sangue:
Esta é a nossa pátria amada.

CORO

Viva a pátria gloriosa!
Floriu nos céus a bandeira da luta.
Avante, contra o jugo estrangeiro!
Nós vamos construir
Na pátria imortal
A paz e o progresso!
Nós vamos construir
Na pátria imortal
A paz e o progresso!
Paz e o progresso!

Ramos do mesmo tronco,
Olhos na mesma luz:
Esta é a força da nossa união!
Cantem o mar e a terra
A madrugada e o sol
Que a nossa luta fecundou.

CORO

Viva a pátria gloriosa (...)
(1)

__________´

Nota de vb:

(1) Fonte: World Statesmen.org

Letra de Amílcar Lopes Cabral
Musica de Xiao He

(2)No seu livro Crónica da Libertação, Luís Cabral atribui a si a paternidade de tal iniciativa descrevendo em pormenor os passos que deu para obter de Xiao He "as propostas de partituras para o Hino do Partido e para o Hino dos Trabalhadores, acompanhadas de uma fita magnética com o registo das respectivas interpretações" (pgs 225, 226)

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Guiné 63/74 - P2331: Operação Macaréu à Vista - Parte II (Beja santos) (12): Um Adeus a Missirá, e um poema de Ruy Cinatti a M. Caetano e M. Soares


Guiné > Zona Letse > Sector L1 > Bambadinca > Natal de 1969 > "Este disco foi uma das prendas do Natal de 1969, enviado pelo Ruy Cinatti. Recebeu o consenso do Abel e do Moreira, os meus colegas de quarto. Dvorak e a sua Sinfonia do Novo Mundo comportam a alegria, o deslumbramento e o exotismo, tudo em doses moderadas, e com a vantagem do ouvido assimilar bem. Fez-me muita companhia, sobretudo antes de partir e regressar das operações. As sinfonias de Dvorak estão hoje muito longe das minhas preferências, mas respeito a boa companhia que me trouxeram. E nunca esqueci o sorriso desta criança, que ainda hoje me lembram os Soncó e os Mané [que deixei em Missirá]".





Guiné > Zona Leste > Sector L1 )Bambadinca) > Cuor > Missirá > 1969 > "Um belo documento histórico-artístico, que estava à minha espera, quando regressei a Missirá, após tratamento em Bissau, depois da mina anticarro de 16 de Outubro de 1969. O Ruy Cinatti dá-me conta do regresso do Contra-almirante Teixeira da mota a Portugal e fala-me dos seus poemas à volta das eleições de 1969. Vou reproduzir parte deste conteúdo na Operação Macaréu à Vista, com muito orgulho".

Fotose legendas © Beja Santos (2007). Direitos reservados.


Texto enviado, em 25 de Outubro último, pelo Beja Santos (ex-alf mil, comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70).


Operação Macaréu à Vista - Parte II (Beja Santos) (12): As minhas últimas flagelações em Missirá

por Beja Santos


(i) Duas flagelações... e uma simulação (cómica) em onze dias

Reza a história da CCAÇ 12 que “de 1 a 15 de Novembro de 1969, a 2ª Secção do 3º Gr Comb esteve de reforço ao aquartelamento de Missirá, na altura em que o Pel Caç Nat 54 veio render o 52. Durante este período, Missirá sofreria três flagelações, sem consequências, a última das quais, a 14, por grupo estimado entre 20/30 homens que utilizou Mort 82 e 60, RGP2 e armas ligeiras”.

Também a história do BCAÇ 2852 refere três flagelações, uma a 3 de Novembro, pelas 18h30, que durou cerca de vinte minutos, outra a 8, pelas 10h45, e a 14, pelas 17h30, que durou cerca de cinco minutos. Manda a verdade dos factos que se pormenorize o que se passou à volta dessas flagelações.

Não tínhamos ilusões que em Madina era bem conhecida a situação de pré-calamidade que se vivia neste canto do Cuor. Quando regressei de Bissau, na última semana do mês de Outubro, tinha quase metade do Pel Caç Nat 52 e dos pelotões de milícias inactivos, acamados, palúdicos, depauperados, incapazes de dar um passo. O David Payne apoiou a ideia do major Cunha Ribeiro em reforçar Missirá, onde as tropas disponíveis estavam confinadas às idas diárias a Mato de Cão, à emboscada, aos reforços e às lides diárias, com a agravante de se contar só com o burrinho operacional.

As gentes de Madina/Belel utilizavam praticamente os mesmos itinerários, sabedoras que as nossas deslocações passavam de Missirá a Caranquecunda, daqui pelos palmares até Flaque Dulo, depois Canturé, Chicri e Mato de Cão: eles contornavam o rio Biassa, flanqueavam o trilho de Morocunda, posicionavam-se junto a Cancumba, despejando a metralha sobre a área do aquartelamento e limítrofes.

Eram flagelações cirúrgicas, quase indolores, como se fossem certificados de presença, aliviando-se a carga de trotil antes do regresso às bases. Na flagelação de 3 de Novembro, algum do fogo dos morteiros caiu dentro da tabanca, havendo mesmo uma morança bastante atingida. Era a hora que antecedia o jantar e os banhos, os primeiros momentos instalavam pânico, mas a qualidade da tropa vinha imediatamente ao de cima, até o professor já pegava em armas, era um acto trivial, complementar da docência. Ficaram duas crianças ligeiramente estilhaçadas e a mãe do Quebá, o nosso picador, voltou a fracturar uma perna. Quem teve mais trabalho foi o maqueiro Adão, escoriados não faltaram até madrugada.

A 8 de Novembro, não houve flagelação nenhuma. Tinha vindo a insistir com o capitão Manuel Figueiras, do BCAÇ 2852, para que ele visitasse Finete e Missirá antes da chegada do Pel Caç Nat 54, havia obras em curso, não se tinha encontrado nenhuma solução para trazer o gerador até Missirá, faltava a renovação de dois abrigos, impunham-se obras na fonte de Cancumba, entregara-lhe uma proposta para um edifício onde podia funcionar a escola, em Finete era indispensável fazer obras em vários abrigos, e por aí adiante. Fui buscá-lo pelas 6h da manhã ao Geba, viu as obras e as mais prementes carências em Finete, rumámos para Missirá, exactamente quando lhe mostrava os trabalhos num abrigo começou uma carga de fogo de costureirinhas, temi uma emboscada ao grupo que tinha ido buscar água à fonte. O pesado tiroteio desnorteava-me, angustiava-me, era como se os nossos soldados não pudessem reagir, estivessem todos massacrados. O capitão Figueiras pedia para eu reagir com morteiros, expliquei-lhe que era impossível, numa outra fonte estavam lá metade das mulheres de Missirá a lavar, na outra as morteiradas não iriam escolher entre “eles” e “nós”.

Extinto subitamente o tiroteio, aquele estranho tiroteio só de costureirinhas, toda a gente disponível saiu em auxílio dos emboscados. Não tínhamos percorrido 1 km quando vimos uma tropa bem disposta a rolar os bidões cheios de água, havia risada e cantarolice. Sem disfarçar a ansiedade, quis saber tudo, a dimensão da emboscada, a nossa resposta, porque é que não se tinha ouvido o nosso potencial de fogo. Durante alguns minutos, recorrendo à mímica e ao crioulo, o Domingos e o Nhaga, que sempre falaram um português impecável, davam respostas fora do contexto das perguntas. Indignado com tanta parvoíce, exigi que fôssemos ao local de tanto tiro de costureirinha.

O que vi nos palmares de Cancumba deixou-me sem fôlego: as palmeiras descascadas, brutalmente atingidas pelas balas. A resposta impunha-se: os cafajestes dos meus soldados tinham procurado praxar o capitão Figueiras, o tiroteio de G3 em cima das palmeiras soava exactamente como fogo de custureirinha. Atado de pés e mãos pela manhosise destes soldados ladinos, que souberam semear o pânico e divertir-se à grande, lá ataviei uma explicação ao capitão Figueiras que me aguardava ansioso na porta de armas. Nasceu assim a flagelação que nunca existiu...


(ii) Cristina, agora tenho que passar a ir aos Nhabijões...

Quanto aos acontecimentos de 14 de Novembro, a flagelação aconteceu, teve alguns aspectos duríssimos, era verdadeiramente para intimidar, e ao longo de todos estes anos interrogo-me sobre as informações existentes em Madina/Belel acerca da transferência que se operou nesse dia do Pel Caç Nat 52 para Bambadinca e do Pel Caç Nat 54 para Missirá.

A 13, escrevo à noite à Cristina:

O nosso almoço hoje foi feijões com chouriço. Como só iria partir para Mato de Cão pelas 15 horas, estava a ler o julgamento do capitão Dreyfus e o texto J’accuse, de Zola, da biografia de Jaime Brasil, quando chegou a mensagem: “rendição em 1406h30. monte segurança região Gã Gémeos.

Começou o rebuliço dos espólios, pagamento de dívidas entre civis e militares, as crianças interromperam a escola, foi preciso gritar bem alto que Mato de Cão tinha a precedência, quem cá ficasse desse atenção a toda a logística da partida. Podes imaginar o que vão ser as viagens amanhã com mulheres e crianças, baús, galinhas e cabras. Malã voltou a dizer-me que não está satisfeito com a solução, na noite da flagelação que praticamente destruiu Missirá, em Dezembro de 1966, o Pel Caç Nat 54 só cá esteve três dias, saiu castigado para o Xime, acho que a sua reacção à flagelação foi nula...


A 21, já instalado em Bambadinca, volto a escrever à Cristina:

Logo no dia da chegada do Pel Caç Nat 54, houve uma flagelação com morteiros e roquetes, isto com o quartel meio vazio, o novo contigente sem saber onde estavam os abrigos, a ripostar atarantados. Salvou a situação a secção de milícias que respondeu prontamente com espingardas e metralhadoras, felizmente tinha lá comigo o Queirós, respondemos com o morteiro 81 começou logo a cuspir fogo sobre Cancumba.

Pela primeira vez, ouvi os insultos dos rebeldes fora do arame farpado, acertaram em dois abrigos, caiu uma morteirada perto do paiol dos combustíveis, nada aconteceu. Desta vez arderam duas moranças, perderam-se os tectos e os haveres dos civis. Foi a minha despedida com fogo, mas dois dias depois ainda fiz uma nova patrulha de reconhecimento, com todo o pelotão de milícias e parte do 54. Depois te conto, agora tenho que ir aos Nhabijões, onde se está a proceder a um reordenamento das populações.



(iii) Notas de leitura: os filhos de Casamansa, portugueses do coração

Entreguei no comando de Bambadinca propostas de louvor para os cabos Benjamim Lopes da Costa, Domingos da Silva e António Ribeiro Teixeira. O primeiro, pelo seu desembaraço e entusiasmo na reconstrução de Missirá, o segundo pela sua inexcedível capacidade de colaboração, incluindo no ensino das crianças e dos milícias de Missirá e Finete, o terceiro pela dedicação nos melhoramentos dos dois aquartelamentos e o zelo sem mácula nas suas funções de cabo de transmissões. Foi com grande satisfação que soube mais tarde que o comandante de Bafatá chamara a si estes louvores. Com o auxílio do Pires, preparei novas propostas de louvor para o Barbosa, Casanova e o Adão.

Mesmo sabendo que o Jovelino Corte Real [, cmdt do BCAÇ 2852,] não irá apreciar a iniciativa, enviei um memorando sobre as últimas flagelações:

Os rebeldes dispõem de informações sobre as nossas fraquezas. Não se pode ir ao rio Gambiel com trinta soldados, todos aqueles campos estão lavrados e defendidos. De Sinchã Corubal para Madina sabemos que aumentaram os patrulhamentos, as picadas estão minadas, só os podemos intimidar nas emboscadas da nossa iniciativa, usar a técnica do “bate e foge”. As repetidas flagelações de há dois meses para cá são pequenas escaramuças que têm a vantagem de ficarmos a saber que eles trazem pequenos grupos que retiram cedo, usando sempre os mesmos itinerários. Talvez seja conveniente intensificar os patrulhamentos a mais de dois grupos de combate, mantendo em Missirá dois pelotões intactos. Aqui não se vive só a desmotivação pela doença e o extremo cansaço. Aqui sabe-se que o inimigo está reforçado e nós não podemos responder com os meios existentes.

Do mal o menos, a 16 de Novembro o pelotão de milícias de Missirá voltou a estar reunido, ao menos atenderam a esta súplica.

Não tenho coragem para repegar na ideia de escrever sobre os Soncó. Passei a limpo algumas das notas que coligi nas pesquisas feitas na biblioteca do Centro de Estudo da Guiné Portuguesa. Há documentos que me impressionaram muito. Por exemplo, a comunicação de Francisco António Marques Geraldes à Sociedade de Geografia de Lisboa datada de 1887:

Vivi três anos em Zeguichor, e por vezes percorri vários pontos do Casamansa. Não há gentio na Guiné que mais amor mostre pela nação portuguesa que o que habita nas margens deste rio. Desde a sua embocadura até Selho é o dialecto crioulo-português que se ouve falar, tanto aos banhuns como felupes e balantas. Com franqueza o digo: via-me vexado perante as contínuas representações das tribos gentílicas a França, não se pode negar que os filhos de Casamansa não são portugueses de coração e séculos hão-de passar sem que o nosso nome se apague da memória desta pobre gente que ainda hoje pergunta com toda a ingenuidade como é que os brancos proibindo a escravatura vendem uns aos outros tantas tribos independentes entre si. Que precisão tinha Portugal para vender à França aquele rio? Se precisava de dinheiro porque não impunha contribuições que todos pagariam?

Tomo nota que o professor Armando Zuzarte Cortesão, que plantou palmeiras de Samatra no Gambiel, escreveu A Guiné como Colónia de Comércio e Plantação, em 1928, boletim 37 da Agência Geral das Colónias. Tomo igualmente nota de mais um trabalho do Padre Marcelino Marques de Barros: Guiné Portuguesa. Breve notícia sobre alguns dos usos, costumes, línguas e origens dos seus povos, publicado em 1882 no boletim série 3ª, XII, da Sociedade de Geografia de Lisboa.

Depois descubro uma referência que interessa aos Soncó e ao Cuor, vem no relatório da Província da Guiné Portuguesa, elaborado no ano económico de 1888-1889 pelo governador interino Joaquim da Graça Correia Lança, a páginas 17:

Se a cultura se for desenvolvendo no rio Geba, como é de esperar num futuro muito próximo, devido ao estabelecimento de muitas famílias mandingas desde Malafo até Sambel-Nhanta, a prosperidade da província fica de vez assegurada.

Escrevo também nos meus apontamentos:

É importante ler tudo sobre Honório Pereira Barreto, Teixeira Pinto e Senna Barcelos, sobretudo os Subsídios para a História de Cabo Verde e Guiné.

Não voltarei a pegar nestes apontamentos antes de 1972, mas mesmo assim o Cuor, a saga dos Soncó, as guerras de pacificação, tudo se ia esfumando como se de um encadeado de epifenómenos se tratasse. Felizmente, eu estava completamente enganado.

Com o Pires, com o Barbosa, o Domingos e o Queirós, revemos a contabilidade, os autos de abate, as existências de lençóis e fronhas, a comida que fica, os combustíveis; com o apoio do Varanda, um apontador de morteiro 81 que chegou recentemente e, claro está, com a intervenção directa do condutor Xabregas passa-se em revista o material auto. Sem nos apercebermos, chegou o Ramadão, civis e militares pedem uma coluna de reabastecimento para que os fiéis tenham sal, cola e mafé para os jejuns.

Febril, parece que quero deixar o correio todo em dia, disparo aerogramas para Lisboa, São Miguel, Moçambique, Angola, impus-me tréguas sobre o correio em chamas que me tem sido enviado pela família e que praticamente ignoro. Prossigo cuidadosamente a minha correspondência com o Sr. Jesuíno Jorge, pai do falecido condutor Manuel Guerreiro Jorge. Recebo grandes alegrias como a que de o Eduardo Canto e Castro, uma amizade que começou nos nossos onze anos, se acaba de licenciar em engenharia com alta classificação, e já foi colocado na Junta de Energia Nuclear.

E mesmo a ultimar preparativos, as idas a Mato de Cão são uma constante. A 11 escrevo à Cristina:

Ontem fui a Mato de Cão ver passar dois barcos de guerra que transportavam a nova companhia para Mansambo. Este ano o jejum do Ramadão não trouxe problemas como no ano passado, Malã e Lânsana falaram previamente com os nossos soldados, o jejum está atenuado. O Ruy Cinatti mandou-me um volume de líricas portuguesas, de Maria Alberta Menéres a Gastão Cruz.

E termino assim: Dá-me um beijo e um pouco das tuas mãos, dorme bem, em breve estaremos juntos.


(iv) Ruy Cinatti e as eleições de 1969: um poema alegórico para Narcello Caetano e Mário Soares


Com a data de 1 de Novembro, recebo uma belíssima carta de Ruy Cinatti. Depois de ficar a saber que o Teixeira da Mota já não voltará à Guiné, ele escreve sobre as eleições havidas em Portugal. Diz ele:

As eleições acabaram. Fiz no decorrer 35 poemas alegóricos que serão publicados em edição fora do mercado sobre o título “O Borda d’Alma”. Aqui vão três:

OPÇÃO

Para Marcello Caetano e Mário Soares

Com o impossível fazem-se milagres.
Com o possível há milagres a menos.
Vamos, decidamos
aquilo que queremos,
somente com as linhas
com que nos cozemos.

Aleluia!

VOTAÇÃO

Já ganhei o dia
porque fui autêntico.
Atingi o mínimo
sem me disfarçar.
A história não tem
nada de maior.
É um dia na vida.
Chego a acreditar

BORDA D’ALMA

O calendário foi cumprido
à risca - saiu certo.
Tive um tubérculo, por junto,
entumescido,
mas saiu certo.
A culpa foi minha, que não soube
adubar bem.
Foi propício o clima.
A culpa é minha,
de mais ninguém.
Vou experimentar novas mézinhas.
Talvez cultive.
Com anos de pousio, um homem cresce.
Talvez me salve.


Com esforço e dispersão, leio tudo o que posso, oiço cantatas de Bach, sinfonias de Mahler, o eterno companheiro Beethoven. Tenho consciência que se aproxima o adeus a Missirá, a hora de me despedir dos Soncó e dos Mané, dos soldados milícias a quem devemos inúmeras atenções, dos soldados aqui destacados como o Varanda e o Xabregas.

Continuo a ler as novelas de Somerset Maugham, comecei O Cavalo Espantado, de Alves Redol, estou a acabar Ladrões de Raparigas, de Mickey Spillane, trouxe o Arco do Triunfo, do Erich Maria Remarque, este chamou-me a atenção em Bissau, vi-o nas estantes da minha Mãe, gosto de Remarque, lembro-me de A Oeste Nada de Novo, vi, vai para cinco anos o filme de Lewis Milestone Arco do Triunfo com soberbas interpretações de Ingrid Bergman, Charles Boyer e sobretudo Charles Laughton. Vamos então até Paris nas vésperas da Segunda Guerra Mundial. É madrugada, fiz a ronda pelos postos de sentinela, é uma madrugada quente de plena época seca. Olho bem os céus para não me esquecer deste Cuor tão amado, tão sofrido nos encontros e desencontros, o Cuor onde me fiz homem.

__________

Nota de L.G.:

(1) Vd. post anterior desta série > 30 de Novembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2317: Operação Macaréu à Vista - Parte II (Beja Santos) (11): O fantasma de Infali Soncó

Guiné 63/74 - P2330: A Marinha e a Força Aérea nas terras do Cantanhês (Mário Fitas, CCAÇ 763)

1. Mensagem do Camarada Mário Fitas, de 2 de Dezembro

Assunto - Os Marinheiros e os seus Navios

Caro Luís,

Corpo di bó, tá bom?

É verdade, há já alguns dias que tenho andado desenfiado. Mas só em termos de escrita, pois o trabalho de pesquisa e contactos continuam.

Como ainda sou "blufo" no Blogue, tenho andado a ver coisas para trasmente e tem sido de grande utilidade.

Vou ver se consigo falar com o Benito, para se fazer o levantamento das operações em conjunto das CCAÇ 763 e 1484.

Ao ler o Post Guiné 63/74 – DCCXC: Os marinheiros e os seus navios (1), vi a correspondência trocada entre o Moura Ferreira da CCAÇ 1621 – substitutos da CCAÇ 763 em Cufar - e o Lema Santos sobre um ataque ao Orion ao largo de Cadique, em 8 de Maio de 1966.



Orion com as marcas da Guerra assinaladas. Foto de M. Lema Santos.

Fui aos meus canhenhos, e lá está: “O 2º. Grupo de combate (o meu) montou segurança a um comboio naval no Cais de Impungueda e o Pel Art a pedido das F.N. flagelou Cafal”.



O 2º Gr Comb da CCAÇ 763 em Impungueda no dia em que o Lema Santos descreve o ataque ao Orion. O chefe dos Vagabundos (Mário Fitas, o 1º da esquerda) com o Manuel Ferreira (o homem que fazia tiro instintivo com a MG42, e que foi evacuado com hepatite, nunca mais soube deste meu maravilhoso companheiro). Do lado direito, o meu Cabo Piçarra, cacimbado de Beja, grande amigo. Foto de Mário Fitas.

A narração da verdadeira Guerra vai-se completando. Não há hipóteses de engano, o cruzamento está feito.

Assim sendo, aqui vai mais uma aventura dos Lassas de Cufar, na esperança, que o Lema Santos saiba alguma coisa sobre quais foram as LDM e a LFG que safaram o enrascanço. Porque da parte da F. Aérea, o Victor Barata já me deu uma boa pista, sobre os pilotos respectivamente do T6 que aterrou de emergência em Cufar, Alf. Pilav. Ribeiro e o parelha Ten. Cor. Pilav. Lopes Pereira.

Narra assim, a História da CCAÇ 763:

17 de Setembro de 1965 – A Companhia a 3 Gr Comb colaborou na operação Retorno, planeada para aniquilar o IN referenciado no novo acampamento localizado em Flaque Injã, tendo embarcado pelas 24h00 no cais de Impungueda em 2 LDM.

Pelas 1h25 a Companhia desembarcou na bolanha imediatamente a oeste de Caboxanque, rapidamente progredindo e ultrapassando esta tabanca e a de Flaque Injã internando-se na mata a leste desta. Era intuito da Companhia dirigir-se ao antigo acampamento, destruído no decorrer da operação Satã, que constituiria o 1º objectivo a alcançar.

Durante a progressão dentro da mata foram emboscados 5 elementos IN, dos quais 2 foram aprisionados, indicando a existência do novo acampamento. Este foi imediatamente detectado e quando a Companhia montava o dispositivo para atacar, o IN rompeu fogo com armas ligeiras fazendo uso de cartuchos com bala tracejante. Apesar da forte resistência oposta, as NT conquistaram o acampamento repelindo o IN que atacou imediatamente e a quem causaram 6 baixas e apreenderam diverso material.

Depois de batido o local a Companhia dirigiu-se em direcção a Caboxanque surpreendendo um numeroso grupo IN que atacou imediatamente causando-lhe mais 2 mortos e apreendendo uma ML, uma pistola e munições. Posteriormente, quando junto ao rio e aguardando reembarque, a Companhia foi atacada por um grupo entre 100 a 200 IN que tentaram a aproximação fazendo uso de armas ligeiras MP e LGF. As nossas tropas ripostaram. Considerado, porém, o elevado número de elementos IN foi pedido o apoio da FAP que flagelou duramente as posições do adversário.

Um dos T6 foi atingido com 17 impactos, pelo que teve de aterrar de emergência em Cufar. Após um demorado contacto, e com reforço de 2 LDM e da vedeta que entretanto chegaram ao local, o IN foi reduzido ao silêncio e repelido, permitindo desta forma o reembarque da Companhia.


Nota:

Segundo os nossos informadores, seria uma Companhia do Exército Popular (FARP), comandada pelo Comandante Nino. Seria? Aqui já não pode haver informações. Só do outro lado.

Continuando:

Ontem, dia 1 de Dezembro, estive num almoço tradicional rememorando Vila Fernando, a minha pequenina mas bela aldeia do Alentejo. Não me é possível deixar de escrever aqui um momento que me comoveu, mas que me encheu de orgulho, quando o capitão Rui Baixa, meu companheiro de brincadeiras de criança, me descreveu, como - ainda primeiro sargento - com o seu cabo escriturário, em Guidaje, limparam as campas dos Páras ali sepultados, e de tábuas dos caixotes do bacalhau fizeram cruzes para assinalar que os Portugueses nunca seriam esquecidos. Orgulho-me deste Homem Grande da Planície.

Como na Pami, o formigueiro vai abrindo novos caminhos.

Quem quiser que saiba beber desta inesgotável fonte que é a Tabanca Grande.
Do tamanho do Cumbijã, o abraço de sempre.

Mário Fitas

2. Nova mensagem do Mário Fitas, em 3 Dezembro:

Olá, Briote,

(...) É verdade, toda a operação por mim transcrita da História da CCAÇ 763, tem a ver com o T6 e o envolvimento do Dakota.

Não há nada escrito na História da Companhia, mas as descrições nos dias seguintes demonstram, de facto, a grande actividade da CCaç 763. Pois, a mata de Cufar Nalu, as tabancas a Sul e estrada e cruzamento para Catió eram patrulhadas, pelo que está escrito com dois grupos de combate sempre fora, e o Pelotão de Artilharia a flagelar Flaque Injã, Caboxanque, Cadique Iála e Cadique Nalu.

Mas eu vou tentar descrever o que a memória vai buscar. Recordo perfeitamente que o Dakota ia levar um motor para o T6 e o equipamento necessário para a sua colocação. Só que em Setembro ainda é época de chuvas na Guiné. A pista de Cufar era na altura a melhor pista de todo o Sul, mandada fazer pelo Sr. Camacho, dono da quinta de Cufar e terá sido inaugurada pelo Gen Craveiro Lopes em 1955. Em terra batida, tinha uma certa consistência.

O Dakota fez-se à pista de poente para nascente, ou seja sobre o ilhéu de Cantone para Cufar, mais propriamente do fim da pista para a porta do aquartelamento rolando naturalmente. A determinada altura a roda esquerda do trem de aterragem foi deixando um rasto e enterrando-se na pista, até que a aeronave adornou um pouco e afocinhando, enterrou as hélices no chão.

O Dakota enterrado na pista de Cufar (o Mário Fitas é o 1º da direita). Foto do Mário Fitas.

Isto tudo poderá ser confirmado com mais pormenores por algum camarada ou, inclusive, pessoal da FAP que, pertencente à BA12, se deslocou para Cufar, para reparar tudo.

Pelo exposto, as fotos do T6 e do Dakota estão de facto relacionadas com a operação Retorno, de 17 de Setembro de 1965. E acho que têm cabimento na descrição.

Estou à espera que o Carlos Filipe me forneça mais alguns dados sobre os cães, pois ele é que chefiava a secção de cães. Assim que tiver o material envio.

Um abraço do tamanho do Cumbijã,
Mário Fitas

PS - O assunto também inclui agora a malta da FAP. Era tudo boa gente, e para nós extraordinário sabermos que havia sempre alguém que dava uma ajuda quando havia enrascanço.
__________

Notas de vb:

(1) Vd.posts do Manuel Lema Santos:

25 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCXC: Os marinheiros e os seus navios (Lema Santos)

13 de Junho de 2007 > Guiné 63/74 - P1842: 10 de Junho: Nós também estivemos lá (A. Marques Lopes / Lema Santos)

21 de Abril de 2006 > Guiné 63/74 - DCCXXIII: Apresenta-se o Imediato da NRP Orion (1966/68) e 1º tenente da reserva naval Lema Santos

16 de Abril de 2007 > Guiné 63/74 - P1665: Operação Larga Agora, Tancroal, Cacheu, local maldito para a Marinha (Parte I) (Lema Santos)

13 de Março de 2007 > Guiné 63/74 - P1586: Debates da nossa tertúlia (I): Nós e os desertores (2): Lema

7 de Março de 2007 > Guiné 63/74 - P1571: A Operação Larga Agora, o Tancroal / Porto Batu e as cartas náuticas do Instituto Hidrográfico (Lema Santos)

11 de Janeiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1420: O cruzeiro das nossas vidas (5): A viagem do TT Niassa que em Maio de 1969 levou a CCAÇ 2590/CCAÇ 12 (Manuel Lema Santos)

21 de Abril de 2006 > Guiné 63/74 - DCCXXIII: Apresenta-se o Imediato da NRP Orion (1966/68) e 1º tenente da reserva naval Lema Santos

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Guiné 63/74 - P2329: O Hino de Gandembel cantado ao vivo na já famosa Casa Teresa, em Matosinhos, sede da delegação Norte da Tabanca Grande



1. Mensagem de ontem do A. Marques Lopes, tendo em anexo este vídeo supra:

Foi na quarta-feira passada, 28 de Novembro, na Casa Teresa (1), em Matosinhos: o Álvaro Basto trouxe a máquina de filmar e a viola e o Almeida cantou o Hino de Gandembel (2) A assistência era: eu, José Teixeira, Rocha, Xico Allen, António Pimentel, Barroso, Custóias, Álvaro Bastos e seu pai. O Álvaro Bastos acompanhou à viola.

Havia mais gente (paisanos, como diz o Idálio Reis) noutra mesa ao lado... e os que estavam no rés-do-chão também ouviram, claro. Gostaram e não nos chamaram pimbas (3).


A. Marques Lopes


2. Comentário de L.G.:

António: Já cá chegou... Fico grato ao cineasta, Álvaro Basto, nosso querido camarada do Xitole... E a ti, que inseriste o vídeo no You Tube, na tua conta Cantacunda

A Casa Teresa já é famosa... na Internet. É a sede - todas as quartas feiras ao almoço - da vossa tertúlia de Matosinhos & Arredores (sem ofensa para os do Porto, Vila Nova de Gaia, Maia...). Como está a crescer, é melhor é chamar-lhe Delegação Norte da Tabanca Grande.

O pessoal estava divertido, mas já é altura de saberem a letra de cor... Para a próxima, toca a cantar o refrão como deve ser, senão chamo os... críticos musicais! ... Ou, em último caso, a ASAE! (Não faço isso, senão nunca mais poderia saborear aquela marvilhosa feijoada de búzios que lá comi da outra vez!!!)...

Bom, vocês são gente de poucos galões e de muitas estrelas!... Gente, maravilhosa, que tem sempre uma resposta na ponta da língua, e um grande sentido de amizade, camaradagem, hospitalidadade... e humor... Enfim, vocês não param de nos surpreender! São uma delegação de referência da nossa Tabanca Grande!

Os meus respeitosos cumprimentos à Teresa, dona da casa...

PS - António:

Amanhã, 5ª feira, dia 6, vou estar no Porto, às 23h, no Contagiarte, para assistir a um concerto da banda de música klezmer Melech Mechaya onde toca (violino) o meu filho, João... A iniciativa integra-se no Festival Etnias... A entrada é de borla, ou tem um preço simbólico, julgo eu ... Se alguém (dsa Delegação Norte da Tabanca Grande) quiser lá aparecer, beberemos um copo juntos!...

O Bar Contagiarte fica na Rua Álvares Cabral, 372, 4050- 040 PORTO... Fica perto da Praça da República.


Vê o sítio do Contagiarte :

Não é um simples bar, é muito mais do que isso… é um espaço de sensibilização, formação e dinâmica cultural. Situado numa zona classificada no centro da cidade do Porto, o Contagiarte foi inaugurado em 11 de Dezembro de 2003 e tem-se vindo a tornar como espaço focal de divertimento e entretenimento na cidade do Porto frequentado diariamente por centenas de pessoas desta cidade e de cidades circundantes.
________

Notas de L.G.:

(1) Vd. referências no nosso blogue à Casa Teresa, que já faz parte obrigatória do roteiro gastronómico, cultural, sentimental e convival da nossa tertúlia ou Tabanca Grande:

9 de Janeiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1412: A minitertúlia de Matosinhos e... Leça da Palmeira (Carlos Vinhal / Xico Allen)

29 de Dezembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1393: Saudações tertulianas na chegada do novo ano de 2007 (1) : Luís Graça / Pedro Lauret

(2) Sobre o Hino de Gandembel, vd post de 1 de Dezembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2319: Hino de Gandembel: interpretação de António Almeida (CCAÇ 2317, Gandembel/Balana, 1968/69)

Vd. ainda os posts de:


3 de Dezembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2326: O Hino de Gandembel e a iconografia do soldado atormentado pelo desassossego (Idálio Reis)


22 de Novembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2295: Hino de Gandembel, cantado no almoço da mini-tertúlia de Matosinhos (A. Marques Lopes / Carlos Vinhal)


4 de Outubro de 2007 > Guiné 63/74 - P2153: Hino de Gandembel: talvez a mais popular canção entre as NT no ano de 1969 (José Teixeira)


4 de Outubro de 2007 > Guiné 63/74 - P2152: Hino de Gandembel, hoje um hino de alegria (Idálio Reis / Gabriel Gonçalves)


3 de Outubro de 2007 > Guiné 63/74 - P2150: O Hino de Gandembel, cantado pelo GG [Gabriel Gonçalves], o baladeiro da CCAÇ 12 (Bambadinca, 1969/71)


3 de Outubro de 2007 > Guiné 63/74 - P2149: Hino de Gandembel: Quem foi o autor da letra ? (José Teixeira / Idálio Reis)


26 de Setembro de 2006> Guiné 63/74 - P2133: Guileje: Simpósio Internacional (1-7 de Março de 2008)(4): Hino de Gandembel, quem se lembra da música ? (Pepito / Luís Graça)


(3) Vd. posts de:

1 de Dezembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2321: Humor de caserna (3): Hino de Gandembel: hino de guerra ou música pimba ? (Manuel Trindade)

2 de Dezembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2323: Um insulto aos heróis de Gandembel (Zé Teixeira)

2 de Dezembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2324: (Ex)citações (1): Um pouco de humor de vez em quando também nos faz bem (Henrique Matos)

Guiné 63/74 - P2328: Pami Na Dondo, a Guerrilheira, de Mário Vicente (4) - Parte III: O amor em tempo de guerrilha (Mário Fitas)



Guiné > Região de Tombali > Catió > Álbum fotográfico de Benito Neves, bancário, reformado, residente em Abrantes, ex-Fur Mil da CCAV 1484 (Nhacra e Catió, 1965/67) (1)

Foto 27 > "Catió, 1967. Tenente João Bacar Jaló (ou Djaló), comandante da Companhia de Milícia 13, à porta da sua casa em Priame... Pela presença da viatura, provavelmente ia deslocar-se ao Comando do Batalhão para participar em mais um planeamento de uma operação, era normal pedirem a sua presença e atenderem as suas recomendações. Com o seu saber e a sua experiência no terreno, a ele se deveram por certo o êxito de muitas operações e o reduzido número de baixas sofridas. Nesta altura já lhe tinham sido atribuídas duas Cruzes de Guerra, um em 1964 e outra em 1965; em 1970, já ao serviço dos Comandos, é-lhe atribuída a Torre Espada". (BN) (2)

Foto e legenda: © Benito Neves (2007). Direitos reservados



Guiné > PAIGC > Manual escolar, O Nosso Livro - 2ª Classe, editado em 1970 (Upsala, Suécia). Exemplar cedido pelo Paulo Santiago, Águeda (ex-Alf Mil, comandante do Pel Caç Nat 53, Saltinho , 1970/72), a quem desejamos boa saúde e boa viagem até Santiago de Compostela (4). Lição nº 7: O que a Brinsam faz durante o dia... Parágrafo final: "A Brinsam é uma menina estudiosa e amiga da família. Quando ela for crescida, ela vai ser uma boa militante do nosso Partido".

Foto: © Luís Graça & Camaradas da Guiné (2007). Direitos reservados.


PAMI NA DONDO, A GUERRILHEIRA (5)
por Mário Vicente
Prefácio: Carlos da Costa Campos, Cor
Capa: Filipa Barradas
Edição de autor
Impressão: Cercica, Estoril, 2005
Patrocínio da Junta de Freguesia do Estoril
Nº de páginas: 112
Edição no blogue: Revisão do texto, resumo e subtítulos: Luís Graça.


Parte III - O amor em tempo de guerrilha e contra-guerrilha (pp. 29-35)

Resumo do episódio anterior (5):

De etnia balanta, educada na missão católica, Pami Na Dondo, aos catorze anos, torna-se guerrilheira do PAIGC. Fugiu de Catió, com a família, que se instala no Cantanhês, em Cafal Balanta. O pai, Pan Na Ufna entra na instrução da Milícia Popular. Pami parte, com um grupo de jovens, para a vizinha República da Guiné-Conacri para receber formação político-militar, na base de Sambise. O pai, agora guerrilheiro, na região sul (que é comandada por João Bernardo Vieira 'Nino') , encontra-se muito esporadicamente com a filha. Num desses encontros, o pai informa a filha de que a mãe está gravemente doente. Pami fica muito preocupada e quer levá-la clandestinamente a Catió, enquanto sonha com o dia em que se tornará companheira do pai na Guerrilha Popular.

Entretanto, o destino prega-lhe uma partida cruel: na instrução, na carreira de tiro, tem um grave acidente, a sua mão esquerda fica decepada. No hospital, conhece Malan Cassamá, companheiro de guerrilha de seu pai, que recupera de um estilhaço de morteiro, que o atingiu na perna, no decurso da Batalha do Como, em Janeiro de 1964 (Op Tridente, Janeiro-Março de 1964, levada a cabo pelas NT) (3). Malan fala a Pami da coragem e bravura com quem seu pai se bateu contra os tugas.

Pami é destacada para dar aulas ao pessoal do Exército Popular e da Milícia Popular, em Flaque Injã, Cantanhês. No dia da despedida, canta, emocionada, o hino do Partido, 'Esta é a Nossa Pátria Amada', escrito e composto por Amílcar Cabral. Segue para Flaque Injã, com o coração em alvoroço, apaixonda por Malan Cassamá. De regresso à guerrilha, a Cansalá, Malan fala com o pai da jovem, e de acordo com os costumes gentílicos, Pami torna-se sua mulher.


(i) A deserção dO filho de Luís Ramos, furriel miliciano do Exército Português, e a morte da mãe de Pami Na Dondo


Entretanto a guerrilha vai aumentando. Mas, do outro lado, as coisas também não estão paradas, antes pelo contrário. O Governo Português começa a enviar tropas em massa para a Guiné. Num desses contingentes o furriel miliciano Ramos, filho do empregado da Casa Brandoa, deserta, e ingressa na guerrilha. Numa passagem por Cadique Iála, para visitar sua mulher Sanhá já muito debilitada, Pan Na Ufna passa por Flaque Injã e, delirante, conta a sua filha todos os pormenores da deserção do filho de Luís Ramos.

Na zona, as coisas começam a complicar-se. A Catió chegam reforços significativos após a intervenção na ilha do Como. O Cantanhês, zona libertada, começa a assustar o governo Português. Em contrapartida, no PAIGC, Nino manda reforçar os acampamentos instalados nas matas de Cufar Nalu e Cabolol.

Fins de 1964, Sanhá dá o último suspiro na sua morança na povoação de Cadique Iála. Seguindo a tradição, Pan, acompanhado de sua filha, faz o choro de sua mulher para que o espírito desta se volatilize em paz, mandando matar o melhor boi e adquirindo uns bons litros de aguardente de cana.


(ii) Em Março de 1965, os Lassas [CCAÇ 763] (6) instalam-se em Cufar, numa antiga fábrica de descasque de arroz


A Quinta de Cufar com a sua bela pista de aterragem em terra batida - inaugurada pelo General Craveiro Lopes quando ainda presidente da República Portuguesa -, depois de fortemente bombardeada, é ocupada pelo exército português. A população de Cufar, Cufar Nalu e Cufar Novo é obrigada a fugir para norte. Algumas famílias instalam-se nas povoações a sul de Cufar.

Ao Cafal chegam informações de que o exército português se prepara para instalar um aquartelamento na antiga Quinta. São feitas várias tentativas de assalto à velha fábrica de descasque de arroz, mas os militares portugueses, embora sofrendo algumas baixas, resistem, acompanhados pelo antigo cipaio João Bacar Jaló - agora alferes de segunda linha -, comandando uma Companhia de milícia nativa que colabora com o inimigo português. Os comités das tabancas a sul de Cufar informam dos movimentos do exército português.

Princípios de 1965: é confirmada a intenção da instalação do aquartelamento de Cufar na antiga Quinta. Nino manda mais reforços para a mata de Cufar Nalu e pede atenção sobre a psicossocial das povoações a sul, que vão sofrer a pressão do inimigo. É reforçado o apoio e controlo das tabancas de Iusse, Impungueda, Mato Farroba e Cantone. Pan Na Ufna com o seu grupo, conhecedor perfeito da zona, entra nos reforços cedidos a Cufar Nalu.

Março de 1965: as informações são mais precisas. Chega a Cufar uma companhia do exército colonial, com os fins de combater a guerrilha e construir um aquartelamento. Segundo as informações, irão tentar fazer um tampão sobre a população a sul, e a respectiva acção psicossocial. Há que preparar a resposta, a qual como veremos, não será nada fácil.

(iii) Pami e Malan vivem a sua estória de amor, em plena guerra


Sempre que tem oportunidade, Malan Cassamá desce até Flaque Injã para passar alguns momentos com sua mulher. Quando não é possível, é a professora que se desloca até mais a Norte para se encontrar com o seu companheiro.

À sombra das mafumeiras, poilões enormes ou nos mangais junto ao rio, corpos unidos, suados pela força do desejo, dão largas ao seu amor. Compreendem que fazem parte da própria natureza que os envolve, o seu dualismo é um mundo só. São uma existência única. O exterior e interior é nuvem que os envolve, e se transmuta em tornado de prazer. Dois corpos, dois seres que se transformam, entrelaçando-se num só. São belos os momentos de Pami e Malan; mas... a realidade é bem diferente! A guerra tem de separá-los e ficam as promessas e os desejos de que seja muito próximo o novo encontro.

No intervalo das suas aulas em Flaque Injã, a professora vai conversando com os seus companheiros da guerrilha. Os sucessos e insucessos são comentados, e a moralização e fortificação do ideal independentista e anti-colonialista são temas imprescindíveis nessas mini-conferências.

(iv) Donde se fala do renegado cipaio João Bacar Jaló e da contra-ofensiva dos Lassas


As informações vindas do outro lado do Cumbijã não são muito agradáveis. Em Cufar estariam instalados aproximadamente duzentos homens, incluindo uns vinte a trinta traidores da milícia, do antigo cipaio João Bacar Jaló, que andariam a dar conhecimentos sobre o terreno e populações da zona, bem como a adaptação aos militares chegados que, embora não pertencendo a tropas especiais, estariam muito bem enquadrados, parecendo ser muito activos, e até um pouco sabedores da matéria, pois já teriam começado a acção psicossocial intensamente sobre as populações do lado sul de Cufar e, nos poucos contactos com a guerrilha, estacionada em Cufar Nalu, não se teriam intimidado, antes pelo contrário, reagindo com envolvimentos perigosos e rápidos.

Vamos ter problemas com esta gente, não lhe poderemos dar facilidades. A guerrilha tem de cair em cima deles e dar-lhe um ensinamento. Qualquer aproximação da mata de Cufar Nalu ou das populações tem de ser anulada, e fortemente castigada. São as orientações emanadas do Cafal. Mas, não será muito bem assim! As tropas instaladas em Cufar cheiram as coisas, e não têm medo. Com um comando experiente, bem estruturadas, a sorte a fortalecer-lhe a moral. Há que ter cuidado.

Verdade! A 15 de Maio de 1965, a casa de mato - acampamento - instalada na mata de Cufar Nalu é assaltada e destruída. A guerrilha sofre baixas mas, durante a noite, consegue escapar com o equipamento para Cabolol. Na semana seguinte, os militares de Cufar tentam romper a estrada para Cobumba. Embrenham-se na mata de Cabolol, destruem várias tabancas na zona, e não se furtam ao contacto.

Em princípios de Junho [de 1965] o atrevimento é maior, o PAIGC vê o seu acampamento de Cabolol assaltado, e é obrigado a abandonar, no chão, vários guerrilheiros mortos e diverso equipamento. Estes colonialistas são mesmo como as abelhas Lassas. Dê-se-lhes daqui para a frente o nome de Lassas.

Os chefes do Cafal estão furiosos. Os Lassas começam a conquistar a população menos politizada. As milícias e guerrilha começam a ter dificuldades com estes militares que, para além de não darem descanso, conseguem construir um aquartelamento, ocupando agora toda a Quinta.


(v) Pami chora de dor, raiva e revolta ao ver a sua escola destruída, em Flaque Injã


Em Julho o descaramento é demasiado. Desembarcam debaixo de fogo, passam para o outro lado do Cumbijã e assaltam Flaque Injã e Caboxanque. O acampamento de Flaque Injã é destruído, e a sua escola, completamente arrasada. Grande quantidade de material desaparece ou fica queimado. As casas de Flaque Injã ficam reduzidas a cinzas.

É o caos. Ao regressar da mata onde se tinha refugiado, Pami NJa Dondo não quer acreditar no que vê! Fica petrificada. Não!... Não pode ser!?... Um nó aperta-lhe a garganta... Os alvos dentes cravam-se-lhe nos lábios carnudos até doer e o sangue aparecer. Como um riacho de pedra em pedra, as lágrimas rolam-lhe pelo magro e esguio rosto. Não é dor!... É revolta!

Porquê? A sua escola!? O seu encanto!?... Ah guerra!... Horrível flagelo do relacionamento humano!

Pami olha para o coto do seu braço esquerdo e sente a antítese. Na guerra mata-se para não se morrer, destrói-se para se não ser destruído. Mas a professora, neste momento, sente que seria preferível sentir a sua própria destruição e morte, do que ver aquele dantesco espectáculo. Da garganta a sufocar - em perfeito português - sai-lhe um grito de dor e revolta:
- Monstros!...

Não vale a pena!... Senta-se no solo e encosta-se de encontro ao tronco seco de um velho poilão, inclina a cabeça sobre o peito. Escorrendo sobre a cara e queixo, as lágrimas correm-lhe por entre os pequenos e desnudados seios. Com a destra, e única mão que lhe resta, tenta limpar os lacrimejantes olhos que, embaciados, não deixam ver o céu que agora procura, e pergunta ao Deus do padre Francelino o porquê de tudo isto?

Parece ouvir num sussurro uma voz muito ao longe:
- Os homens!... Pami!... os homens! Também eu morri na cruz por eles! Para quê?!...

Em puro acto de regressão, sente a necessidade do leite quente materno, mas a realidade é o frio cortante, de uma noite sem estrelas. Levanta-se e tenta encontrar a foto do comandante Nino, tirada na China, que Malan lhe tinha oferecido. Em vão! O que não foi destruído, foi levado. O velho dicionário é monte de cinza negra no chão. Toca-lhe, e o adorado amigo transforma-se em nuvem de negras borboletas esvoaçando.

Dirige-se para o acampamento, e tenta ajudar no tratamento dos feridos e no enterramento dos mortos.

Uma semana depois, novamente a notícia: os Lassas voltaram a Cabolol, e fizeram grandes estragos!


(vi) Notícias moralizadoras para a guerrilha: uma delegação da OUA vista as regiões libertadas


Os chefes da guerrilha mandam os seus grupos fugir ao contacto, e entrar no desgaste do bate e foge. Há ordens para enfrentar os militares de Cufar, apenas quando se tiver a certeza de poderem ser emboscados, e cair com força em cima deles. Utilize-se a emboscada com abelhas.

Psiquicamente recuperada, a população começa a reconstrução de Flaque Injã e Caboxanque. A guerrilha recebe mais reforços e armamento novo. Mais uma vez, Pami entra voluntariamente numa coluna de reabastecimento, que a leva à República da Guiné. Segue o corredor de Guilege, e sobe de Mejo para Salancaur, daqui para o Xuguê, terra de seus avós paternos. Desce até Cansalá, onde se encontra com seu marido. Não encontra seu pai, pois este fora transferido para o Cafal, e ali integrado numa companhia do Exército Popular.

Meados de Agosto, [Pami] desce com Malan até Cobumba. Malan e o seu grupo exectutam várias emboscadas e ataques ao pessoal do quartel de Bedanda, causando várias baixas ao exército português, entre as quais se conta a morte de um sargento. O grupo de guerrilha regressa à sua base em Cansalá, mas Malan consegue autorização para ficar dois dias com a sua mulher.

As notícias são mobilizadoras para o esforço da guerrilha. E a visita de uma delegação da Organização de Unidade Africana (OUA) a zonas libertadas, a convite do PAIGC, é bastante moralizadora para os combatentes pela Independência.

(Continua)

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Notas de L. G.:


(1) Vd. posts de:

15 de Novembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2268: A falsificação da história da CCAV 1484 (Nhacra e Catió, 1965/67)(Benito Neves)

18 de Abril de 2007 > Guiné 63/74 - P1673: O blogue do nosso contentamento (Benito Neves, CCAV 1484, Nhacra e Catió, 1965/67)

2 de Março de 2007 > Guiné 63/74 - P1559: Ex-Alf Mil Avilez, da CCAV 1484, hoje professor de arte, foi o autor do mural de Catió (Benito Neves)

(2) Morreu em combate, com o posto de capitão graduado, comandante da 1ª Companhia de Comandos Africanos, sediada em Fá Mandinga (Sector L1, Bambadinca), em 16 de Abril de 1971. Participou na Op Mar Verde (invasão de Conacri), em 22 de Novembro de 1970.

Vd. posts de:

30 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCCXIX: Do Porto a Bissau (23): Os restos mais dolorosos do resto do Império (A. Marques Lopes)

20 de Maio de 2007 > Guiné 63/74 - P1769: Estórias do Gabu (4): O Capitão Comando João Bacar Jaló pondo em sentido um major de operações (Tino Neves)

(3) Vd. posts do Mário Dias:

15 de Dezembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCCLXXII: Op Tridente (Ilha do Como, 1964): Parte I (Mário Dias)

16 de Dezembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCCLXXV: Op Tridente (Ilha do Como, 1964): II Parte (Mário Dias)

17 de Dezembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCCLXXX: Op Tridente (Ilha do Como, 1964): III Parte (Mário Dias)

(4) Vd. post de 27 de Outubro de 2007 > Guiné 63/74 - P2221: PAIGC: O Nosso Livro da 2ª Classe (1): Bandêra di Strela Negro (Luís Graça / Paulo Santiago)

(5) Vd. posts anteriores desta série:

28 de Novembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2307: Pami Na Dondo, a Guerrilheira, de Mário Vicente (3) - Parte II: A formação político-militar (Mário Fitas)

23 de Novembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2298: Pami Na Dondo, a Guerrilheira, de Mário Vicente (2) - Parte I: O balanta Pan Na Ufna e a sua filha (Mário Fitas)

Resumo:

A acção decorrer no sul da Guiné, entre os anos de 1963 e 1966, coincidindo em grande parte com a colocação da CCAÇ 763, como unidade de quadrícula, em Cufar (Março de 1965/Novembro de 1966)…

No início da guerra, em 1963 Pan Na Ufna, de etnia, balanta, trabalha na Casa Brandoa, que pertence à empresa União Fabricante [leia-se: Casa Gouveia, pertencente à CUF]. A produção de arroz, na região de Tombali, é comprada pela Casa Brandoa. Luís Ramos, caboverdiano, é o encarregado. Paga melhor do que a concorrência. Vamos ficar a saber que é um militante do PAIGC e que é através da sua influência que Pan Na Ufna saiu de Catió para se juntar à guerrilha, levando com ele a sua filha Pami Na Dono, uma jovem de 14 anos, educada das missão católica do Padre Francelino, italiano.

O missionário quer mandar Pami para um colégio de freiras em Itália mas, entretanto, é expulso pelas autoridades portugueses, por suspeita de ligações ao PAIGC (deduz-se do contexto). Luís Ramos, por sua vez, regressa a Bissau, perturbado com a notícia de que seu filho, a estudar em Lisboa, fora chamado para fazer a tropa.

É neste contexto que Pan Na Una decide passar à clandestinidade, refugiando-se no Cantanhês, região considerada já então libertada.



Vd. também posts de:

21 de Novembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2293: Pami Na Dondo, a Guerrilheira, de Mário Vicente (1): Os bastidores de um romance (Luís Graça / Mário Fitas)

29 de Novembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2315: Catió: A morança que poderá ter sido a da nossa Pami Na Dondo, a Guerrilheira (Victor Condeço)

(6) Lassas era a alcunha por que eram conhecidos os militares da CCAÇ 763, de que fazia parte o Mário Vicente, Fur Mil Fitas. No seu primeiro livro (Putos, Gandulos e Guerra, edição de autor, Cucujães, 2000, p. 75), pode ler-se:

"Por informações recebidas, a C.C. será conhecida no PAIGC com a alcunha de Lassas. Pelo que se veio a saber, lassa era "uma espécie de abelha existente na Guiné que, não sendo molestada, não tem problemas, mas se for atacada é terrivelmente perigosa quando enraivecida. Esta alcunha resultaria, portanto, da actuação da C.C. pois, quando chegava a uma povoação em que a população estivesse e não fugisse, não haveria problemas, pois falava-se com essa população e tentava-se resolver os problemas que houvesse. Se, caso contrário, a população fugisse e abandonasse as suas moranças, as mesmas eram literalmente destruídas" (...) .

O termo crioulo que ouvi, muitas vezes, aos meus soldados, quando fugíamos das terríveis abelhas africanas era Bagera, bagera!!! (LG)

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Guiné 63/74 - P2327: PAIGC - Instrução, táctica e logística (6): Supintrep nº 32, Junho de 1971 (VI Parte): Minas I (A. Marques Lopes)

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Guiné > Região do Oio > Mansabá > CART 2732 ( 1970/72) > Estrada (asfaltada) Mansabá-Farim > O Carlos Vinhal e o Sousa à sua esquerda, segurando uma mina anticarro detectada a tempo e levantada. Em Moçambique, chamavam-se marmitas às minas A/C, devido à sua forma redonda: veja-se a letra do Turra das Minas , um dos mais célebres fados do Cancioneiro do Niassa (1). Carlos Vinhal, nosso mui estimado e valioso co-editor, foi Furriel Miliciano de Artilharia, com a especialidade de Minas e Armadilhas, CART 2732, Mansabá (1970/72).

Foto: © Carlos Vinhal (2006). Direitos reservados.

Foto editada por L.G., alojada no álbum de Luís Graça > Guinea-Bissau: Colonial War. Copyright © 2003-2006 Photobucket Inc. All rights reserved.


Mensagem de 14 de Setembro de 2007, do A. Marques Lopes (natural de Lisboa, hoje coronel DFA, na reforma, e residente em Matosinhos), com mais um texto extraído do Supintrep, nº 32, de Junho de 1971:


As terríveis minas (e eu que o diga...) e outros engenhos explosivos. Fico-me por aqui esta semana. Na próxima há mais. Bom fim-de-semana
A. Marques Lopes


Comentário de L.G.:


Muitos de nós fomos vítimas de minas, armadilhas, fornilhos e outros engenhos explosivos. Eu fui, o Marques Lopes foi, o Beja Santos foi, o Luís Moreira foi, só para dar três ou quatro exemplos. Outros camaradas, por seu turno, como o Carlos Vinhal e o David Guimarães eram especialistas em minas e armadilhas... O David viu morrer um amigo seu e outro ficou cego, ao manipular um engenho explosivo (1).

Há muitas histórias trágicas destas, passadas no TO da Guiné. Todos tínhamos (e continuamos a ter) muito respeitinho por estes artefactos de morte... E somos a favor da sua proibição absoluta... É a arma dos pobres produzida pelos países ricos...

Por razões de segurança, vamos omitir alguns pormenores técnicos relativos à composição (química) de minas, nesta parte do Supintrep: não queremos que ninguém se ponha, nem a sério nem a brincar, a tentar fabricar um engenho explosivo no sótão ou na garagem... Muito embora na Net haja centenas de sítios sobre essa matéria, com instruções muito específicas, de A a Z, sobre o fabrico caseiro de minas e outros engenhos explosivos...

A nós interessa-nos apenas saber como os guerrilheiros do PAIGC aprendiam a utilizar as minas (ou marmitas, em Moçambique) e como utilizavam esses engenhos explosivos que mataram e feriram gravemente muitos camaradas nossos. Sem esquecer, obviamente, as armilhas que as NT punham à volta dos seus aquartelamentos e destacamentos, ou nos trilhos usados pela guerrilha e pelas populações sobre o seu controlo... ou ainda nas moranças que deixávamos intactas, nas zonas controladas pelo PAIGC .. A nossa guerra (de nós contra o PAIGC e do PAIGC contra nós...) teve muitas faces, não apenas duas, como dizia há tempos o Jorge Cabral: esta seguramente é uma das mais ignóbeis e horrendas...

PS - A qualidade das imagens, sobre engenhos explosivos, que constam do exemplar do Supintrep que chegou às mãos do A. Marques Lopes, é muito má. Ele e eu tentámos fazer o nosso melhor para que se tornassem minimamente legíveis...


PAIGC - Instrução, táctica e logística (6): Supintrep nº 32, Junho de 1971 (VI) > UTILIZAÇÃO DE ENGENHOS EXPLOSIVOS (2)


[Revisão e fixação do texto: A.M.L. / L.G.]


(1) Generalidades

Dum modo geral, o IN executa este tipo de forma de combate com três finalidades distintas: (i) interdição de itinerários ou de acessos a zonas controladas pelo IN; (ii) protecção de reacção em zonas de emboscadas; (iii) substituição de outras actividades não realizadas.

Para esse fim, usa indiscriminadamente armadilhas, fornilhos ou minas A/C e A/P, com maior preponderância destas. Muitas vezes conjuga o emprego de minas com o uso e granadas ou petardos de trotil em reforçamento da acção explosiva. Toda a gama de armadilhas, muitas delas expeditas, é conseguida pelo factor comum granada de mão descavilhada, a qual será accionada pelo deslocamento ou de arame de tropeçar ou de quaisquer ramos ou pedras que retêm a alavanca. Têm sido também verificados accionamentos eléctricos com comando à distância.

Na esperança de obtenção de bons resultados, é normal conjugarem o emprego de uma mina com outra próxima, razão da vulgaridade em se detectarem minas implantadas próximo das accionadas.

Como técnicos que são de camuflagem e dissimulação, utilizam todos os meios possíveis para procurarem esconder as minas implantadas, furtando-as assim à intensa actividade de detecção desenvolvida pelas NT.

Nos itinerários asfaltados procuram as bermas para a implantação dos explosivos e, se possível, também falhas de asfalto ou buracos para conseguirem os efeitos pretendidos.

(2) Técnicas de fabricação e implantação de minas

(a) Extractos de apontamentos de cursos frequentados no estrangeiro por elementos do PAIGC (cópia)

1. Meios de instalação e fabricação de minas

Fabricação de minas

A mina é um obstáculo explosivo.

Uma mina compõe-se de invólucro, de embalagem e instalação de fogo. Há minas anti-pessoal, anti-cavalos, anti-tanque, anti-carros blindados e as que podem destruir construções. Pode-se utilizar materiais em madeira, panela em porcelana, garrafa de vidro, caixa de ferro e bocados de pedras e de ferro para envolver minas.

Embalagem de explosivo

Mete-se 5 a 10 Kgs de explosivo nas minas anti-tanques e 50 a 200 grs na mina anti-pessoal e cavalo. Pode-se meter a pólvora negra na mina anti-pessoal e cavalo aumentando 0,5 de quantidade desejada.

Instalação de fogo

Incendiada pela pressão, pelo atropelo num fio, pela electricidade e pela instalação retardadora de minas a pressão.






(...) O contacto desta mistura [clorato de potássio e acúcar] com o ácido sulfúrico produz o fogo para explodir o detonador e explosivo.

Mina anti-tanque eléctrica e pressão


Pode-se aproveitar uma granada para fazer mina, instalando-a como o desenho indica.





Mina retardadora (...)

Minas a pressão anti-pessoa: enterra-se ao mesmo nível da terra ou entre ervas.

Mina em armadilha anti-pessoa: enterra entre as ervas. O comprimento do fio ligado a esta mina à estaca ou árvore atinge 5 a 7 m.

Mina retardadora (enganadora): enterra-se nas casas e nos sítios onde o inimigo frequenta muitas vezes. Pode-se adaptar muitas formas para instalar as minas enganadoras – sobretudo com o fim de excitar e seduzir e desorientar os inimigos.


2. Cuidados a ter quando se enterra as minas

(i) É preciso pôr alguém de guarda.

(ii) É preciso guardar silêncio; não deixar nenhum sinal ou instrumento.

(iii) Estabelecer sinais conhecidos por nóa ao lado das minas.

(iv) É precisio camuflar as minas o mais possível conforma as cores do terreno. Pode-se fazer uma camuflagem falsa.

(v) Depois de ter enterrado as minas antes da chegada dos inimigos, deve-se enviar alguém para vigiar esta zona com o fim de não ferir os nossos próprios camaradas.

(vi) Quando se chegar ao ponto para enterrar minas não se deve mudar de lugar nem mexer enquanto não acabar o serviço.

(vii) Conforme as diferentes categorias e de tarefa deve-se organizar um grupo composto por 1 a 3 homens para cumprir a missão de enterrar minas. Não se deve agir comodamente na zona da mina com o fim de camuflar bem.


3. A aplicação de guerra de minas


O fim da aplicação: garantir a vitória de combate e a segurança na acção dos partidários.

Realiza-se a guerra de destruição e de minas para fazer obstáculo atrás dos inimigos, para aniquilar as suas armas modernas, atacá-los por surpresa, fazendo-lhes uma grande ameaça e paralizando-os.

Os meios da aplicação na guerra subversiva são os seguintes:

As minas devem ser instaladas numa zona possível a ser utilizada pelo inimigo na ofensiva: o pequeno caminho da floresta e da aldeia, a construção no campo de batalha, a construção importante nas aldeias, depósitos, armazéns e os sítios próximos das pontes sabotadas por nós, é mais provável impedir ou matar os inimigos se se instalar as minas nas estradas e nas florestas.

O emprego da guerra de minas:

(i) Quando o inimigo se esgota nós o batemos: trava-se a guerra de minas no lugar onde está o inimigo.

(ii) Quando o inimigo se imobiliza nós o importunamos. Pode-se enterrar minas ao lado do campo militar dos inimigos, na entrada que dá para o campo militar.

(iii) Quando o inimigo foge nós o perseguimos: pode-se enterrar minas nas estradas e todas as linhas principais de comunicação por onde o inimigo foge.

As necessidades de emprego de minas isoladas e em grupo:

As minas isoladas e em grupo dispõem das seguintes vantagens: instalação simples, prática, económica, não são limitáveis pelos caracteres do terreno.

Utiliza-se pouca mina alcançando grande vitória.

Conforme as necessidades de combate pode-se transferir facilmente as minas por toda a parte.

Deve-se escolher estradas indispensáveis à passagem dos inimigos passam e os objectos que os inimigos devem tocar para aí instalar ou enterrar as minas.

Enterra-se as minas sem que os inimigos saibam, isto é, defíceis a serem descobertas e liquidadas pelos inimigos.

Resumo:

Deve-se utilizar as minas com eficácia com o fim de aniquilar um grande número de inimigos.

(Continua)

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Notas de L.G.:

(1) Vd. alguns posts sobre este tópico (minas e armadilhas) (lista meramente indicativa):

25 de Novembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2303: Tabanca Grande (42): Francisco Palma, Soldado Condutor Auto da CCAV 2748/BCAV 2922 (Canquelifá, 1970/72)

18 de Novembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2278: Estórias do Xitole (1): A triste sorte do sapador Quaresma... morto por aquela maldita granada vermelha (David Guimarães)

16 de Novembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2270: Operação Macaréu à Vista - Parte II (Beja Santos) (9): E de súbito uma explosão, uma emboscada, um caos...

18 de Setembro de 2007>Guiné 63/74 - P2117: Fotobiografia da CCAÇ 2317 (1968/70) (Idálio Reis) (10): O terror das colunas no corredor da morte (Gandembel, Guileje)

21 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1540: Os paraquedistas também choram: Operação Pato Azul ou a tragédia de Gamparà (Victor Tavares, CCP 121)

15 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1529: Belmiro dos Santos João, de Miranda do Douro, vítima de mina antipessoal em Catió (Fernando Chapouto / A. Marques Lopes)

29 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1325: Mansabá: o comandante do COP6, Correia de Campos, e as Minas na Bolanha de Manhau (Carlos Vinhal)

16 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1284: A Intendência também foi à guerra (Fernando Franco / António Baia)

31 de Outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1231: Estórias avulsas (5): Rio Cacheu: uma mina aquática muito especial (Pedro Lauret)

26 de Junho de 2006 > Guiné 63/74 - P911: Uma mina para o 'tigre de Missirá' (Luís Graça)

24 de Junho de 2006 > Guiné 63/74 - P905: A morte na estrada Finete-Missirá ou um homem com a cabeça a prémio (Luís Graça)

19 de Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCXLI: Ponta do Inglês, Janeiro de 1970 (CCAÇ 12 e CART 2520): capturados 15 elementos da população e um guerrilheiro armado (Luís Graça)

19 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDLIX: Cancioneiro de Mansoa (6): O pesadelo das minas (Eduardo Magalhães Ribeiro)

2 de Dezembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCCXXIX: E de súbito uma explosão (Luís Graça)

23 de Setembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCV: 1 morto e 6 feridos graves aos 20 meses (CCAÇ 12, Janeiro de 1971) (Luís Graça)

11 de Agosto de 2005 > Guiné 63/74 - CLXX: As heróicas GMC e os malucos dos seus condutores (CCAÇ 12, Septembro de 1969) (Luís Graça)

10 de Julho de 2005 > Guiné 69/71 - XCIX: Estórias do Xitole: 'Com minas e armadilhas, só te enganas um vez' (David Guimarães)

23 de Junho de 2005 > Guiné 69/71 - LXXV: Minas e armadilhas (David Guimarães)

20 de Maio de 2005 > Guiné 69/71 - XXII: O inferno das colunas logísticas na estrada Bambadinca-Mansambo-Xitole-Saltinho) (Luís Graça)


(2) Vd. último post desta série > 29 de Outubro de 2007 > Guiné 63/74 - P2228: PAIGC - Instrução, táctica e logística (5): Supintrep nº 32, Junho de 1971 (V Parte): Flagelações (A. Marques Lopes)