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domingo, 6 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28325: Humor de caserna (268): Afinal, tão básicos que nós éramos... (Alberto Branquinho)



Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Alberto Branquinho  (2010)

Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné


O escritor Alberto Branquinho


1.  Não haverá muitos postes no nosso blogue (já com mais de 22 anos de existência, na Net, quase uma eternidade!) com cerca de 4 dezenas de comentários e tantos comentadores...

Foi há 16 anos, alguns dos comentadores já não estão cá entre nós (Carlos Cordeiro, Jorge Cabral, Torcato Mendonça, José Manuel Dinis)...

Talvez valha a pena a gente tentar obter uma explicação para esta quantidade, diversidade e até riqueza de comentários a um texto de humor de caserna, publicado pelo Alberto Branquinho, na sua série "Contraponto" (*)...

O título nem sequer era apelativo ou chamativo, "Assinatura ilegível"... Mas o texto do nosso camarada Alberto Branquinho (ex-alf mil op esp, CART 1689, Fá, Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69) tinha uma coisa que talvez explique tudo: era uma pequena bomba-relógio humorística.

Começava por parecer uma simples caricatura de um “soldado básico” que trocava os "bês" pelos "vês" (pronúncia típica do Norte, ou melhor, do Porto / Região do Porto).  

Este texto (humorístico), de um soldado básico, na guerra da Guiné (c. 1967/69), era delirante e acabava por abrir uma dúzia de portas e janelas: os básicos, os oficiais (do QP e milicianos), as lavadeiras, as cuecas, os sotaques, os nortenhos, os sulistas, as memórias da Guiné, a linguagem popular, o humor de caserna, a própria identidade dos comentadores (alguns dis quais se escudaram no anonimato)...

E há uma coisa extraordinariamente reveladora nos comentários: a história não ficou encerrada no texto do Branquinho. Cada comentador pegou numa ponta e puxou por ela.

Achamos que o mais interessante neste poste é a qualidade, a diversidade e, sobretudo, a progressiva transformação do próprio poste num acontecimento coletivo.

Vamos republicar o poste P7144 (*) e repescar, em prõximo poste, o essencial dos comentários, alguns dos quais não assinados (mas cuja identidade foi reconhecida e recuperada).

Vamos republicar o poste P7144 e repescar, em prõximo poste,  o essencial dos comentários, alguns dos quais  não assinados (mas cuja identidade foi reconhecida e recuperada).


2. Mensagem de Alberto Branquinho (ex-Alf Mil de Op Esp da CART 1689, 1968/70),  

Data - 17 de outubro de 2010
Assunto - Contraponto

Caro Carlos Vinhal

Estou a reenviar um texto que te é dirigido e que caiu na minha caixa de correio... Pensei várias vezes se deveria enviá-lo para o blogue ou não.

Sinceramente, se entenderes que pode vir a ferir alguém devido ao tipo de escrita e à ortografia (apesar do 'post-.scriotum' que vai no final), não publiques.

Um abraço
Alberto Branquinho


 3. Sobre o autor:

Para os leitores "mais novos no blogue:  o Alberto Branquinho (n. 1944, Vila Foz Coa), advogado a viver em Lisboa desde 1970, foi alf mil, CART 1689 / BART 1913, Fá, Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69).  Foi jurista na TAP, está reformado.

"Por Portugal, um por todos, todos por um", era a divisa do seu batalhão. Chegaram a Bissau a 1 de maio de 1967 e regressaram a casa em 2 de março de 1969. Portanto, ainda "trabalharam" com o Spínola nove meses... Tem 170 referências no nosso blogue, é autor das notáveis séries "Contraponto" e "Não venho falar de mim... nem do meu umbigo".  

Escritor, especialista no contom (e microcconto), tem uma dúzia de títulos publicados.


Contraponto (16) > Assinatura ilegível

por Alberto Branquinho

Senhor Carlos Binhal

Eu era o soldado básico que tratava das cóisas dos ufissiais da nossa Cumpanhia.

Bossemessê num creia em tudo o qum ufissial da nossa Cumpanhia escrébe prái. Ele num é de cunfiar de todo. Não era má pessua mas aí faz muntas inbenções. Olhe que rasgaba o musquiteiro de raiba à noute e despois dezia quera eu. Andaba sempre a précurar pelas cuecas que faltabam as cuécas que faltabam as cuécas que faltabam as cuécas. Inté tinha alguma razão porqueu um dia puchei o pano pra baicho à labadeira e a gaija tinha umas cuécas dele bestidas.

Embora tibesse alguma razõm às bêses ele num é de cunfiar de todo. Sou eu que o está a abisar. Sabe lá cuantas beses eu tibe capanhar os cacos das cerbeijas quêle partia contrá parede do quarto. Dábamle aquelas ráibas e despois dezia que lhe faltabam os cumpremidos pra durmir que lhe roubavam os compremidos pra durmir. Cal comprimidos pra durmir aquilo era prá doudice. Gastábaos êle e num fazia contas a eles.

Mas olhe cus outros ufissiais tamém não eram milhores. Eram cuase todos das ilhas. Esses nunca os bi aí do seu computador.

Um um dia disse que cando chegasse da operação queria um copo de leite cum milho. Sabe lá bossemessê o queu passei prá arranjar o milho no quartel e quêle ficasse molinho pra pôr dentro do leite. Despois chateou-se comigo cu quêle queria era o leite com um pó castanho que tinha dentro duma lata chamada MILO.(**)

Outro tinha à cabeceira futugrafias da namurada ou da mulher ou lá o que era e cando eu entrava era de arrecuas porquêle se chateava se eu olhasse prás futugrafias.

O outro deles às bêses berrava comigo e quando eu lhe précuraba alguma coisa ou falaba cum ele nem oubia passaba o tempo a olhar pró chão ápertar o cinto dos calções a dezapertar o cinto dos calções e só dezia carássas carássas carássas.

Talbez estibessem apanhados du clima mas eu é que num tinha culpa nenhuma disso. O que me balia era o nosso capitão quéra munto bôa pessôa.

Nunca fui pró mato mas sabe deus o queu passei por causa deles.

Com muntos comprimentos pra bossemessê e para toda a sua família mas num creia em tudo o que esse ufissial escrebe prài porque é quase tudo inbenções.

Assinasse este que num manda as futugrafias que bossemessê pede sempre queu num quero quê-les saibam.

(assinatura ilegível)


***************

Alberto Branquinho

PS – Não se entenda o texto acima como sendo de menos consideração pelo soldado “imaginado” ou pela “sua” escrita. É só um ensaio para fazer um retrato.

(Seleção, revisão / fixação de texto, itálicos, negritos, título: CV/LG) (***)

 ______________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 18 de outubro de 2010 > Guiné 63/74 - P7144: Contraponto (Alberto Branquinho) (16): Assinatura ilegível


(**) Vd. página do Facebook > Portugal Antigo, de Isabel Antunes Mourinho > 6 de janeiro de 2024 ·

(...) Milo, leite achocolatado, que fazia as delícias dos nossos pequenos-almoços, antes da corrida para a escola primária. Claro que nem todos, pois, apesar de tudo, nos anos 70 tomar Milo era um luxo, ao alcance de poucas famílias.
 
Milo é um produto da conhecida marca Nestlé, mas teve origem na Austrália (onde ainda se fabrica e é extremamente popular), desenvolvido por Thomas Mayne, em 1934. O nome deriva do lendário Milo de Creta. (...) 

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28272: Casos: A verdade sobre... (76): O soldado básico que era médico, e que eu conheci no Campo Militar de Santa Margarida, entre 23 de fevereiro e 24 de abril de 1970 (António Tavares, ex-fur mil SAM, CCS/BCAÇ 2912, 1970/72)









Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: António Tavares (2010)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


 1.   É uma daquelas histórias de caserna que, à primeira vista, parecem quase anedóticas. Mas talvez não o sejam. 

O caso já aqui foi contado, pelo nosso estimado camarada António Tavares, ex-fur mil SAM, vagomestre, CCS/BCAÇ 2912 (Galomaro, 1970/72), que vive na Foz do Douro, Porto.

É a história de um soldado básico que terá chegado (?) a integrar o BCAÇ 2912, em formação, a decorrer no Campo Militar  de Santa Margarida (CMSM), entre 23 de fevereiro e 24 de abril de 1970, e que era médico (ou licenciado em medicina) (*)

O caso merece ser de novo trazido à baila (**). 

António Tavares  contou-a no blogue em 2010, quarenta anos depois dos acontecimentos. Um licenciado, médico, alegadamente por razões políticas, foi incorporado como simples soldado básico. Um “Senhor Doutor” sem galões de aspirante a oficial miliciano médico, que os camaradas (e nomeadamente as praças e os 1ºs cabos milicianos do BCAÇ 2912) procuravam quando precisavam dos seus conhecimentos.

Vale a pena recuperar esta memória,  não apenas pela personagem, cuja identidade foi preservada mas também porque ela nos obriga a olhar para uma realidade pouco conhecida da tropa no tempo do Estado Novo: a distância que podia existir entre a formação, a competência profissional e o lugar que o aparelho militar atribuía a cada homem.

Quanto aos pormenores, alguns poderão exigir confirmação documental. Mas a história, no essencial, é perfeitamente plausível. 

E tem uma ironia que salta à vista: um médico transformado em “soldado básico” pelos homens que mandavam; e reconhecido como médico pelos homens que com ele conviviam, os seus camaradaplls. E que, contrariamente aos outros soldados básicos, era tratado com deferência, respeito e cumplicidade  como "senhor doutor", comendo  na messe de sargentos e dormindo com os 1º cabos milicianos...


O soldado básico que era médico no Campo Militar de Santa Margarida

 por António Tavares

Na lista dos nossos Marcadores/Descritores (badana do lado esquerdo do blogue), no tag ”Os Nossos Médicos”, li o nome de um médico, nosso camarada durante a formação do Batalhão, de que por razões óbvias omito o nome, mas recordo com saudade.

Na formação do BCAÇ 2912, iniciada a 23 de fevereiro de 1970, no Campo Militar de Santa Margarida (CMSM), tivemos um soldado básico que era licenciado em... medicina!

Era soldado básico por motivos políticos,  com o único mal de ter ideias diferentes daqueles que nos mandavam ir matar e morrer… a bem da riqueza de alguns!

Tinha estado no Presídio Militar de Penamacor onde passou dificuldades de vária ordem e até económicas.

Homem de fino trato,  sempre pronto a ajudar quem precisasse dos seus serviços médicos com a sua mala triangular, estetoscópio, antipiréticos, anti-inflamatórios, ligaduras, etc. … Um autêntico João Semana!

Sentia-se útil em ajudar e os milicianos agradeciam a sua cooperação que era muito solicitada naquela frigidíssima terra do CMSM.

O frio era tanto que os camaradas roubavam mantas uns aos outros para não dormirem gelados na caserna!

Eu fui uma das vítimas, mas confesso que também roubei uma! Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão… Logo, fui perdoado. Se o não fui, a penitência foi cumprida logo a seguir no teatro de guerra: Guiné!

No fim da IAO, em Santa Margarida, não faltou nenhuma manta!

Sem o conhecimento da hierraquia militar,  o soldado básico, médico  (ou, pelo menos, licenciado em medicina), dormia na caserna dos cabos milicianos e comia na messe dos sargentos!

O BCAÇ 2912 partiu, em 24 de abril de 1970, da gare marítima de Alcântara, no T/T Carvalho de Araújo, rumo ao CTI da Guiné, com os alf mil médicos Vítor Veloso,  José Alberto Martins Faria e Eduardo Teixeira Sousa.

O Dr. Vítor Veloso, em 1971,  foi para Bafatá como Delegado de Saúde, sendo substituído pelo alf mil médico José Guedes, ex-Otorrino no Hospital Geral de Santo António do Porto.

O médico, já com C
édula Profissional, soldado básico na tropa, esse, continuou no CMSM. Em 1971 ou 1972 encontrei-o na Guiné, tenho a ideia já como alf mil médico.

Os seus bons serviços e competência técnica foram precisos naquela macabra guerra de guerrilha, onde se matava para não morrer!

Quarenta anos passados é o que recordo do "Senhor Doutor" ... Assim era conhecido e tratado pelos milicianos!

Os ex-combatentes conhecem bem histórias de repressão política, com intervenções da PIDE, nos anos de 1961 a 1974,  contra  vários cidadãos de pensamento contrário ao regime vigente de então.

A juventude do após 25 de Abril de 1974,  por muito que leia, veja e ouça,
 não tem felizmente a noção e a vivência de uma guerra de  guerrilha que visava a conquista das populações nativas segundo a propaganda da época.


Com um abraço do 

António Tavares

Ex-Fur Mil SAM, CCS/BCAÇ 2912 (Galomaro, 1970/72)

Foz do Douro, 23-02-2010

(Revisão / fixação de texto, título: LG)


2. Comentátrio do editor LG:

É pena é que o nosso camarada António Tavares tenha omitido o nome do "senhor doutor" do Campo Militar de Santa Margarida (ou, pelo menos, não o tenha partilhado com os editores do blogue).

É uma história perfeitamente verosímil no essencial, mas há nela alguns pontos que importa separar: (i) o que é historicamente plausível; (ii) o que precisa de confirmação documental; e (iii) aquilo que provavelmente resulta de memórias com 4 dezenas de anos.

O que há de verdade nesta história ?

Bem, a figura do soldado básico licenciado em Medicina não deveria ser vulgar, antes pelo contrário. Em princípio, as NT não podiam dar-se ao luxo de perder um médico, com tanta falta deles (quer na metrópole, quer no ultramar). 

Mesmo que o médico não estivesse alinhado política e ideologicamente com o regime que sustentava a guerra. Guerra que, afinal, foi feita por tantos "desalinhados", nomeadamente milicianos, médicos e não médicos, obrigados a cumprir o serviço militar como qualquer um de nós. 

Havia uma enorme penúria de médicos, no início da década de 1960, quando "rebentou a guerra de Angola"... Em contrapartida, não  faltava "carne para canhão", como se costuma dizer...

Hoje (dados de 2025), temos mais de 65 mil médicos, dez vezes mais do que em 1960, sendo quase 60% mulheres. Em 1960, o número de médicos era da ordem dos 6,7 mil (com uma taxa de feminização muito baixa, c. 3% a 5%). Dez anos, no início de 1970, o total de médicos, não ultrapassava os 8,2 mil (taxa de feminização: 15%). 

Era de todo impossível ter 3 ou 4 médicos por batalhão, 1 por companhia!... ( O BCAÇ 2912 teria sido mais a exceção do que a regra.)

 Durante a guerra colonial (1961/74),  só o Exército mobilizou cerca de 1.100 médicos milicianos. 

Portanto, era dramaticamente escasso o número de médicos em Portugal. Com o início da guerra colonial, as Forças Armadas (Exército, Marinha e Força Aérea) tiveram que competir com a sociedade civil e o sistema de saúde (público e privado) por este recurso escasso. (Ainda não havia o Serviço Nacional de Saúde, criado apenas em 1979.)

 Não deve ter sido caso único, durante a guerra colonial, o deste soldado básico, com habilitações literárias superiores,  alegadamente licenciado em medicina...

A ser verdade, conviria encontrar documentação (nomeadamente no Arquivo Histórico-Militar) que confirmasse ou infirmasse a existência deste médico que não passava de soldado básico (entre fevereiro e abril de 1970), no CMSM,  alegadamente "por razões políticas"... E que depois,  beneficiando talvez de uma amnistia, terá sido reclassificado, reabilitado e terá feito  o COM, acabando  por ser mobilizado como alf mil médico...

O pomo da discórdia pode ser este: 

 (i) ser licenciado em medicina não chegava para se ser médico, era preciso estar inscrito em (reconhecido por) a Ordem dos Médicos; 

e, por outro lado, (ii) nada obrigava o Exército a que o indivíduo, médico,  fosse incorporado como aspirante ou alferes miliciano médico.

Um médico convocado para o serviço militar podia, por razões administrativas, disciplinares ou políticas, não ser aproveitado como médico militar, por ter, por exemplo, chumbado no COM (Curso de Oficiais Milicianos).

A explicação dada pelo António Tavares (“soldado básico por motivos políticos”) é elucidativa.

Não havia a categoria de furriéis milicianos médicos nem soldados médicos, muito menos soldados básicos médicos. (Em contrapartida, havia furriéis milicianos enfermeiros, 1ºs cabos auxiliares de enfermeiro e soldados maqueiros.)

O que provavelmente aconteceu, pelo menos neste caso relatado acima, é que  um cidadão português,  apesar de ter uma licenciatura em medicina e ter cédula profissional emitida pela Ordem dos Médicos, foi  incorporado como "soldado básico"...

A passagem pelo Presídio Militar de Penamacor é o elemento que gostaríamos de poder confirmar documentalmente. 

Se esse nosso camarada esteve efectivamente preso por razões políticas (em Peniche, Caxias ou até Tarrafal, para os ultramarinos) ou disciplinares (em Penamacor ou em Elvas) e depois foi colocado como soldado básico no CMSM,  a narrativa ganha uma coerência muito forte.

E há um pormenor delicioso: “Homem de fino trato,  sempre pronto a ajudar quem precisasse dos seus serviços médicos…”

Isto é exactamente o tipo de coisa que acontece numa organização militar: (i) a instituição podia não o reconhecer formalmente como médico; (ii) os camaradas, pelo menos no CSMS, reconheciam-no imediatamente como tal.

Ele tinha conhecimentos médicos, sabia diagnosticar, tinha provavelmente a sua maleta de médico, e as praças e os milicianos recorriam naturalmente a ele. Daí a expressão, cerimoniosa e respeitadora, “Senhor Doutor".

Todavia, a referência à “maleta triangular” merece alguma cautela:  a descrição de uma maleta / estojo médico (com estetoscópio, ligaduras, antipiréticos, anti-inflamatórios etc.) é perfeitamente plausível; mas não se deve tomar esse objeto como prova de que ele tinha oficialmente equipamento médico militar; pode ter sido material pessoal ou obtido informalmente.

 A parte mais saborosa da história (mas que deve ser tratada com cautela ou prudência) é o facto de o "senhor doutor" dormir com os cabos milicianos e comer na Messe de Sargentos. 

E mais: à revelia da hierarquia militar:  “Sem o conhecimento dos Comandos Militares"...

É perfeitamente possível como arranjo informal tolerado localmente.  Até porque o Campo Militar de Santa Margarida não era/é um simples quartel, era/é uma base gigantesca (hoje uma das maiores instalações militares da Europa, a maior instalação militar portuguesa em termos de guarnição e a segunda maior em termos de área ocupada, com 6,7 mil hectares de área ocupada, sendo 350 ha de área da zona de aquartelamentos!).

De qualquer modo, a  expressão “sem o conhecimento dos Comandos Militares” deve ser uma ficção ou uma memória truncada  do narrador. 

É difícil imaginar que ninguém na cadeia de comando, no CMSM,  soubesse que um homem estava a dormir e a comer fora do lugar que formalmente lhe correspondia. (Pelo menos, o comando do batalhão em formação, o BCAÇ 2912.)

O ponto que merece mesmo confirmação: quando ele reaparece como alferes médico no CTIG. Diz o Tavares: “Em 1971 ou 1972 encontrei-o na Guiné, tenho a ideia como Alf Mil Médico".

Isto escritio em 2010, tem de ser lido com reservas. O Tavares podia ter sido atraiçoado pela memória. Bastaria haver aqui uma confusão de identidade, de posto ou de função.

A ser verdade, teríamos uma transformação extraordinariamente interessante: licenciado em Medicina / médico com cédula profisisonal da OM  → soldado básico  (no CMSM)→ médico informal dos camaradas na caserna → finalmente alferes miliciano médico (no CTIG).

E isso levanta uma pergunta histórica muito interessante: o que é que aconteceu entretanto? Foi reintegrado? Voltou  a fazer o COM ? Mudou a sua situação militar? Foi reconhecida a sua  licenciatura? Foi simplesmente mobilizado posteriormente como médico?
 
A história deve ser recuperada não apenas como uma "anedota de caserna" ou uma simples "fait-divers" da história de vida de  um médico,  durante a guerra colonial,  que, hoje, a estar vivo (como esperamos), será octogenário e estará seguramente  reformado.

Ela diz muito sobre a extraordinária capacidade da tropa para criar soluções informais. De facto, o protagonista era "formalmente" um soldado básico, mas na realidade as praças do contngente geral e os milicianos tratavam-no como médico ( “Senhor Doutor").

A instituição militar podia desqualificá-lo ou subalternizá-lo; os homens à sua volta faziam exactamente o contrário: reconheciam-lhe a competência e recorriam a ela.

 E há ainda uma segunda história dentro desta história: descobrir quem era o médico. Não para necessariamente revelar o seu nome mas para tentar reconstruir documentalmente, a partir dos arquivos.  como é que um licenciado em medicina acabou como soldado básico em no Campo Militar de Santa Margarida e, eventualmente, como alferes miliciano médico na Guiné. (**).

Não deve ter sido caso único, durante a guerra colonial, a deste soldado básico, com habilitações literárias superiores,  alegadamente licenciado em medicina...

A ser verdade, conviria encontrar documentação que confirmasse ou infirmasse a existência deste médico que não passava de soldado básico (entre fevereiro e abril de 1970), no CMSM,  "por razões políticas"... E que depois,  beneficiando talvez de uma amnistia, terá sido reclassificado, reabilitado e terá feito  o COM, acabando  por ser mobilizado como alf mil médico...

Todavia, temos  de ser cautelosos: esta não devia (nem podia) ser uma prática corrente. Temos evidência de um caso. Não temos ainda evidência de uma prática generalizada por parte do Exército.

Recordo-me de, também há muitos anos, ter lido uma história parecida: haveria um soldado, que julgo que seria básico, que esteve em Bambadinca, nos primeiros anos de guerra, e que era médico, ou estudante de medicina... Será que alguém se recorda também desde caso ?

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28258: Humor de caserna (287): Era uma vez um soldado básico (o "Espanhol"), um alferes ("Sá de Miranda") e uma madrinha de paz (a "Borboleta") (Jorge Cabral, 1943-2021)


Lisboa > Belém > 10 de junho de 2009 > Dia de Portugal > Encontro Nacional de Combatentes, em Belém, junto ao Forte de Bom Sucesso > J. L. Vacas de Carvalho à direita da foto, Jorge Cabral deliciosamente "cercado" (ou levado preso" ?)  pelas camaradas da Polícia do Exército (PE).

Foto: © Mário Fitas (2009). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
 

1. Confesso que já tinha saudades de reler esta  prosa "cabraliana", oral, telegráfica, seca, cúmplice, com as suas elipses e outras figuras de estilo...

E este "microconto", que se reproduz a seguir, é mesmo uma “estória cabraliana”

(i) começa como uma anedota de caserna, com um soldado básico, o "Espanhol", um tigre de Antequera e uma “Borboleta” (travestida de "madrinha de paz");

(ii) dá uma volta inesperada pela Lisboa da Praça  do Chile e das suas clandestinas "casas das mariquinhas" (“Casas de Pouca Permanência”,  uma subliteza do autor que nunca diz asneiras nem é ordinário...); 

(iii) e acaba, uns 40  anos depois, num encontro quase cinematográfico na avenida Almirante Reis, junto à incontornável igreja dos Anjos.

O que é espantoso é que, nas "estórias cabrialianas" (estão publicadas quase um centena, no nosso blogue) o  humor nunca destrói a ternura. 

O "Espanhol" desta história é apresentado como uma figura pícara mas no fim percebemos que,  por baixo da máscara da caricatura do "soldado básico", está um homem com uma vida triste, agarrado ainda ao sonho de ganhar o euromilhões e de encontrar a mãe na Argentina. 

E o "alfero Cabral", em vez de explorar isso de maneira piegas ou sentimental ou de carregar no traço da caricatura, resolve a história com a promessa de uma rua cor de rosa de Buenos Aires e da "Borboleta" a dançar o tango. 

É um final que é um achado e que toca o leitor: a  "Borboleta", "madrinha de paz" (e não de "guerra"), que nasceu numa carta lida há décadas numa mesa suja do rancho do destacamento  de Missirá, reaparece no fim como promessa romântica de um tango em Buenos Aires. 

Há ainda três achados que são tipicamente fruto do génio do "alfero Cabral":

  • “Nem a falta dos dedos o safou...” ( uma frase seca que diz muito, ou tudo, sobre a crescente falta de "carne para canhão", e em que um mancebo, mesmo sem très dedos do pé, era apurado para os serviços auxiliares, como soldado básico):
  • “Meu Alferes, carta da Borboleta!”  (excelente esta "boca" de caserna);
  • "É o  alferes Cabral, não é?!... Ou devo chamar-lhe alferes Sá de Miranda?! (aqui o leitor percebe a cumplicidade entre os dois, sem ser preciso explicar absolutamente nada).

E o título original, “O Espanhol, o Alferes Sá de Miranda e a Borboleta”, está muito bem escolhido: parece anunciar três personagens diferentes, mas são afinal três fios condutores da mesma história.

Enfim, é mais uma história de encontros e desencontros, nas margens do rio da vida... 

Ninguém como o "alfero Cabral", na nossa Tabanca Grande, sabia evocar, com delicadeza, compaixão e empatia, estas figuras de gente humilde que eram os nossos camaradas, ditos "soldados básicos", remetidos quase sempre para funções de "faxineiros" ou auxiliares de cozinheiro, e cujos nomes se nos varreram da memória... 

Todas as companhias tinham um ou mais "soldados básicos"... Muitos deles já levavam, para o CTIG uma cruz às costas: ou "nasceram tortos", ou a curta vida de 20 anos já lhes era madrasta... 

Tenho a imagem de um, que foi comigo no T/T Niassa; "ia a ferros", preso, no fundo do porão, por ser desertor, segundo se dizia...

Recorde-se que o Jorge Cabral (1943-2021) foi alf mil art, Pel Caç Nat 63, Guiné, zona leste, setor L1 (Bambadinca), tendo comandado destacamentos como Fá Mandinga e Missirá, 1969/71; especialista em direito penal , professor do ensino superior universitário, reformado, é autor da série, "estórias cabralianas" (que ainda conseguiu em vida reunir  em livro, e publicar um primeiro volume).

Tem mais de 260 referências no nosso blogue.


Era uma vez um  soldado básico (o " Espanhol), um  alferes ("Sá de Miranda") e  uma  madrinha de paz (a "Borboleta") 

por Jorge Cabral (1943-2021)


Em Missirá, jantávamos cedo. Éramos apenas onze brancos e rapidamente despachávamos o pé de porco com arroz ou a cavala com batatas. 

Depois ficávamos à mesa conversando. Alguns,  mais resistentes,  permaneciam noite dentro. Um deles era o novo cozinheiro, o "Espanhol", soldado básico, que mancava. 

Segundo ele, fora um tigre que lhe comera três dedos do pé esquerdo, num circo de Antequera [ município de Espanha, província de Málaga, comunidade autónoma da Andaluzia].

Contava que a mãe fugira de Lisboa com um palhaço e o levara ainda bebé, mas que quando fizera dezoito anos regressara para procurar o pai, o qual nunca chegara a encontrar. 

Incorporado, nem a falta dos dedos o safou... Na altura tinha uma correspondente, que se intitulava "Madrinha de Paz". 

Escrevia bem e às vezes naqueles serões eu citava pequenos trechos das cartas. Uma noite li, que ela escrevera: 

”Hoje sonhei que era Borboleta. Mas não serei eu uma Borboleta que está a sonhar que é rapariga?” 

 – A gaja é maluca!   – foi a opinião unânime.

A partir de então, quem ía buscar o correio, vinha logo ter comigo, satisfeito:

 – Meu Alferes, carta da "Borboleta"!. 

A comissão acabou. Voltei e nunca mais me lembrei nem do "Espanhol" nem da "Borboleta"... Porém há muitos anos, frequentei com alguma assiduidade uma “Casa de Pouca Permanência”, hoje Hostel, ali para os lados da Praça do Chile. 

Tudo lá era discreto, quase secreto. Tocava-se à campainha, subia-se e as portas da casa e do quarto já estavam abertas. 

Ninguém via a dama, mas o cavalheiro tinha que dar a cara, junto da recepcionista, uma velhota que não pedia qualquer identificação. Pagava-se e escrevia-se o nome num caderno já gasto. 

Por mim fui Gil Vicente, Bernardim Ribeiro e até Luiz Vaz de Camões... 

Ora uma vez, para minha surpresa, a recepcionista fora substituída. E adivinhem, por quem? Pelo "Espanhol". Eu reconheci-o e senti que ele também me reconheceu. Mas não dissemos nada. Paguei e assinei. Desta vez... Sá de Miranda

Ainda lá voltei mas a velha senhora retomara o seu posto. Foi há um mês, descia a Almirante Reis, quando, mesmo em frente à Igreja dos Anjos, deparei com o "Espanhol": 

– É o alferes Cabral, não é?!... Ou devo chamar-lhe alferes Sá de Miranda?!

– Malandro... vamos almoçar! 

À mesa, diante de um arroz de tomate com joaquinzinhos, conversámos. Lembrava-se bem de Missirá e perguntou logo:

 – Então, e a "Borboleta"? 

Foi no entanto parco em informações sobre como lhe correra a vida. Todas as vidas têm altos e baixos, mas deu para entender que a do "Espanhol", só teve baixos. 

Regressado da Guiné, ainda foi a Antequera, mas o palhaço morrera e a mãe emigrara para a Argentina. Durante estes mais de quarenta anos, sonhou ir visitá–la. E ainda sonha... 

–Ah! Alferes Cabral,  se eu ganhasse o euromilhões... 

Adeus, "Espanhol", mas olha não há duas sem três. Vais ver que o nosso próximo encontro será em Buenos Aires. E até vou levar uma "Borboleta", a fingir de rapariga, para dançar o tango. 

Jorge Cabral

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, itálicos, parênteses retos, título: LG)

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Notas do editor LG:

(*) Vd, poste de 18 de junho de 2015 > Guiné 63/74 - P14761: Estórias cabralianas (87): O Espanhol, o alferes Sá de Miranda e a Borboleta que sonhava que era rapariga (Jorge Cabral)

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28253: (De) Caras (251): Manuel Raposo Marques, natural de Mértola, um "básico" que foi... Prémio Governador da Guiné (Mário Pinto, 1945-2019, ex-fur mil at art, CART 2519, Bula, Aldeia Formosa e Mampatá, 1969/71)




Manuel Raposo Marques, natural de Mértola, ex-soldado básico,  CART 2519 (Bula, Aldeia Formosa e Mampatá, 1969/71), "Prémio Governador da Guiné" (1970). Foto: cortesia do portal Ultramar TerraWeb - Dos Veteranos da Guerra do Ultramar





lustração: "Jornal do Exército" (c. 1970) (Adapt. com a devida vénia)



1. A propósito do "soldado básico", tão maltratado na caserna (e nas nossas memórias...): o Mário Gualter Rodrigues Pinto (1945-2019), ex-fur mil art,  CART 2519, "Os Morcegos de Mampatá" (Buba, Aldeia Formosa e Mampatá - 1969/71), já contou aqui a história do Manuel Raposo Marques, sold básico nº 18757368, promovido depois a soldado atirador de artilharia,  e que foi, por feitos em combate, Prémio Governador da Guiné em 1970. Como tantas outras histórias já aqui partilhadas,  passou na altura despercebida do leitor...

Escreveu o nosso saudoso Mário Pinto (foto à esquerda):

 "Um homem, o Manuel Raposo Marques,  que apesar de ter sido classificado como 'básico', foi uma das nossas maiores e melhores referências em combate, tornando-se num exemplo de abnegação e de heroísmo, dignificando sobremodo o soldado Português".


Um básico que foi... Prémio Governador da Guiné (1970)

por Mário Pinto (1945-2019)


Para quem não sabe ou não se lembra já, básicos eram todos os soldados que não conseguiam qualificação ou aptidão, para serem enquadrados em qualquer outra das muitas especialidades existentes no Exército.

Eram assim a modos que uma espécie de proscritos, de mão-de-obra não especializada, que a tropa não dispensava e empregava no cumprimento de todo o tipo de tarefas indiferenciadas (tarefeiros, faxinas, auxiliares de pequenos serviços, etc.), normalmente apenas dentro das áreas delimitadas dos aquartelamentos.

Eles, tal como todos os outros especializados, iam, igualmente, “malhar” com os “ossinhos”em África. Nessa altura o que estava em causa era a quantidade de homens a enviar para a guerra e não a desejada e necessária qualidade, porque, no fundo, éramos massa destinada a “carne para canhão”.

Básico era então o carimbo com que eram marcados os incapazes e inábeis.  E esta designação fez escola, tendo-se o termo generalizado a todos os sectores da sociedade portuguesa. O “nabo” foi substituído pelo “básico”!

O Manuel Raposo Marques, conhecido na CART 2519 pelo "Básico", tal como qualquer outro homem, tinha uma deficiência psíquica (vulgo “pancada”), daí ele ter reprovado, intencionalmente, na especialidade de cozinheiro.

Dizia ele que não tinha nascido para andar de avental, de tamancos e de gorro na cabeça, e o que ele queria ser mesmo era atirador.

– Que grande maluco! – pensei eu.

Acabou por ser reclassificado em básico, após ter sido considerado pronto na instrução e apto para desempenhar qualquer função de segundo plano, compatibilizando-se as suas capacidades humanas com as necessidades da Companhia.

Assim, o Manuel Raposo Marques, chegado à CART 2519, pediu ao alf mil Claudino, comandante do 4º Grupo de Combate, para o integrar na sua equipa. O alferes falou ao capitão e este consentiu, numa fase experimental, que assim fosse. Mais tarde, em função do seu excelente comportamento activo e combativo no grupo, decidiu elevar este básico, por mérito próprio, à categoria de soldado atirador.

Nos primeiros tempos, os seus camaradas olhavam-no com desconfiança, porque receavam que o 4º Grupo de Combate viesse a ser apelidado, na generalidade, de "básico", mas tal não aconteceu e o Marques veio a revelar-se como um dos melhores soldados da Companhia, com predicados de combatente acima da média e tiques de herói, tendo inclusive sido agraciado com o prémio "Governador da Guiné".

Pois é, o nosso básico, ao ser confrontado com a “roleta da morte”, foi suficientemente corajoso e audaz para ter abatido dois combatentes IN, e conseguir salvar a vida do seu comandante de secção, que se encontrava em situação difícil e ferido numa perna, numa acção em que o seu grupo de combate interceptou um grupo do PAIGC.

O "Básico" passou a ser uma referência da CART 2519 e respeitado por todos os seus camaradas e superiores hierárquicos. (**)

Nota -  Estes dados foram retirados da História da Unidade e do livro “Há Sangue na Picada”, de Jacinto Manuel Barrelas, cor art ref,  ex-cap art, cmdt da CART 2519. (1969/71)

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, links, edição de imagem: LG)

sábado, 8 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28248: As nossas geografias emocionais (68): Bambadinca, meu amor ! (Torcato Mendonça, 1944 - 2021)


1. O Torcato Mondonça  (1944- 2021) vivia debaixo de terra, num "bunker", em Mansambo, um quartel construido de raiz, a pá e pica, pelos valentes "Viriatos", da CART 2339 (Mansambo, 1968/69).

Ir "desopilar" a Bambadinca, a 30 km de distância, a norte, sede do batalhão, BCAÇ 2852 (1968/70), era uma dos poucos luxos que se podiam permitir os graduados da CART 2339. Só se viajava em coluna. E podia haver maus encontros pelo caminho.

Em Mansambo não havia população, a não ser meia dúzia de civis, guias das NT, e suas famílias. Não havia bajudas, para distrair a vista. Nem casas comerciais p'ra gastar o patacão da guerra . Não havia rio, para a gente se lembrar do rio da nossa aldeia. Não havia a tasca do Zé Maria. Não havia a delegação do Bataclã de Bafatá. Toda a gente vivia como as toupeiras: debaixo de terra.

 Mansambo era um "campo fortificado" dos tugas, dizia a Maria Turra. Havia uma fonte manhosa e perigosa, fora  do perímetro do arame farpado. Para se ir á água e á lenha era conveniente levar a G3... Havia 3 obuzes 10,5, marca Krupp, do tempo da II Guerra Mundial. 

Em Mansambo um gajo ficava mais "cacimbado" do que em Bambadinca ou Bafatá. Aqui sempre havia um "cheirinho de civilização". E até se podia fingir que hoje era domingo, e brincar aos dias santos em que "fechava" a guerrra e a malta vestia um par de jeans  e um camisola Lacoste de contrafacção, e até calçava o sapatinho de pala para se ir comer um bife com batatas fritas e ovo a cavalo por 20 pesos, na Transmontana (!), em Bafatá. 

É interessante reler este excerto, da autoria do saudoso Torcato Mendonça, e ver como Bambadinca. é descrito, ou recordado: a crer no cronista de Mansambo, havia lá tudo, como se fossse uma cidadezinha do "faroeste" das Américas. Havia correio todos os dias, bebidas frescas, e até a "casa da Mariquinhas"... onde um tuga podia sonhar que dormia com a sua amada em lençóis de linho. Mm pósz 

O Humberto Reis chamava ao nosso quarto em Bambadinca o quarto das putas e com muita propriedade: não por que a gente as levasse para lá, mas sim por que levámos vida de putas: trabalhávamos de noite e dormíamos de dia... 

O melhor de Bambadinca, a 30 metros acima do mar ? Eram as vistas... 

Via-se quilómetros em redor, o que na Guiné, chata, plana, encharcada, opressiva,  era um luxo...Via-se e ouvia-se: quando Mansambo era atacado, à noite, sem a gente lhe poder valer...

Cidade, dizes tu, saudoso camarada ?! Ilusão de ótica, a tua... Algumas centenas de militares (tugas e guineenses), em Bambadinca, com 20 ou pouco mais anos, patacão no bolso, muita testosterona e ganas de viver ( e nenhuma de morrer), tinham necessariamente que animar a economia local e regional...

Ainda hoje te dizem, com alguma nostalgia e sinceridade, sem acinte, sem rancor, quando por lá passas, armado em turista, máquina de filmar ou fotografar a tiracolo: "Tuga, pai di nós"...

Coitado do Amílcar, daria voltas no panteão nacional da Amura se ouvisse tal heresia. 

Retenho algumas frases tuas, Torcato, foi bom rever a tua prosa,  castiça, tu que eras meio alentejano e meio algarvia, e que foste viver para o Fundão, por amor.

(...) " a cidade mais desejada"
(...) "Só a agora soube da existência da mestre-escola,  professora D. Violete"
(...) "Nessa morança pernotei algumas noites"
(...) "Dormia-se bem, mais fresco, mais... melhor"
(...) "a minha pouca roupa civil estava guardada (...) numa arrecadação que a companhia tinha no batalhão (...)
(...) "bem guardada por um soldado básico e esperto como um rato" ;
(...) "porquê Bambadinca, meu amor? Pois, porque, além de se fazer o dito, era local de boa cama e boa mesa, bar de bebida fresca".





Guiné > Região de Baftá > Setor L1 > Bambadinca > 1970 > CCS/BCAÇ 2852 (1968/70) Vista aérea do aquartelamento e posto administrativo de Bambadinca (que pertencia ao município de Bafatá) > Vista aérea, obtida de helicóptero: em primeiro plano o edifício do comando e as instalações de oficiais e sargentos. 

Bambadinca (em mandinga, "cova do lagarto") ficava numa pequena elevação ou morro, sobranceiro à extensa bolanha (a leste, à direita da imagem) e ao rio Geba (a norte), e de que vê uma nesga, ao fundo do lado esquerdo. 

Nesta altura, por volta do 1º trimestre de 1970, Bambadinca albergava mais de 400 militares (incluindo a CCS/BCAÇ 2852, prestes a terminar a sua comissão, mais um companhia de intervenção, a CCAÇ 12, 1 pelotão de morteiros, 1 pel rec daimler, 1 pel caç nat, mais 1 pelotão de intendência (embora este tivesse instalações próprias, junto ao porto fluvial de Bambadinca, na margem esquerda do Rio Geba Estreito).  

Bambadinca tinha 2 tabancas (Bambadinca e Bambadincazinho), com um total de 2 mil habitantes, sem contar com as tabancas, ribeirinhas, em redor. Um militar para cada 5 civis.

Nos arredores, estava em curso o grande reordenamemto de Nhabijões (c. 300 casas/moranças e equipamentos sociais: escola, posto sanitário,  mercado, baloba, mesquista, lavouro, fontenário...

Bambadinca tinha 7 casas comerciais e um porto fluvial (onde chegavam os " barcos turras"), destacamento da intendência, escola, posto administrativo, igreja, missa,  estação dos CTT, posto sanitário...  A nordeste, a 30 km, por estradas alcatroada, ficava Bafatá (sede de concelho), que será pouco depois elevada a cidade.

O Humberto Reis tem as melhores fotos aéres  da zona leste, região de Bafatá (incluindo Bambadinca, e os seus subsectores: Xime, Mamsambo, Xitole)  





 
Guiné > Zona leste > Setor L1 (Bambadinca) > Mansambo>  1970 > Foto aérea de Mansambo a que o PAIGC "campo fortificado de Mansambo"... O aquartelamento foi construído de raiz pelos bravos da CART 2339 (1968/69), "Os Viriatos", ao tempo do BCAÇ 2852 (1968/70)... Deixaram apenas de pé, uma árvore, um poilão, para servir de mira aos artilheiros do PAIGC.

Sobre Mansambo temos de 370 centenas de referências... e 2 centenas das quais sobre a CART 2339. Sobtre Bambadinca, temoso dobro (c. 740)

Fotos do arquivo do nosso "cartógrafo-mor", o Humberto Reis (ex-fur mil  op esp,  CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71)

Fotos: ©  Humberto Reis (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legemdagem: Blogue Luís Graça & camaradas da Guine]


Bambadinca, Meu Amor

por Torcato Mendonça (1944-2021)


(...)   Sem dúvida era para mim a cidade mais desejada. Curiosamente, hoje olho para uma foto aérea e, se não tem legenda, de pouco me lembro. O pequeno aeródromo ali, as messes, bares e quartos de oficiais e sargentos acolá, mais um ou outro edifício e pronto.

A igreja... fui lá uma vez assistir à colocação do Bessa no caixão. Escola, o posto administrativo, a tasca de A ou B, não sei. Memórias perdidas. Só agora soube da existência do mestre-escola, Professora D. Violete.

Recordo a tabanca e uma morança, à direita de quem desce a rampa da estrada na direcção do porto, Missirá, Fá ou Bafatá – essa,  a grande cidade.

Nessa morança pernoitei algumas noites. Certamente por lotação esgotada nas instalações dos oficiais. Dormia-se bem, mais fresco, mais... melhor.

Mas é bonito ver hoje fotos de militares à civil. Calças, camisas brancas e, pasme-se, sapatos reluzentes. 

Deus meu e por todas as virgens, não me recordava! 

Creio que a minha pouca roupa civil devia estar na arrecadação que a Companhia [a CART 2339,Mansambo, 1968/69] tinha no Batalhão, em Bambadinca [o BCAÇ 2852, 1968/70].  Estava bem guardada por um soldado básico e esperto como um rato. Bela especialidade: básico !

Para que queria eu roupa civil em Mansambo e por outros lados onde me aquartelava? 

Claro que tinha botas, vários tipos e formatos, umas quantas t-hirts brancas (brancas?), chinelos de plástico e panos de fulas e outras peças de vestuário para alguma falta. O resto era verde ou camuflado. Bem bom.

Mas porquê Bambadinca, eu, amor? Pois, porque, além de se fazer o dito, era local de boa cama e boa mesa, bar de bebida fresca. 

Por vezes o líquido era tão fresco, deslizava tão docemente goela abaixo, que, no regresso a Mansambo, os olhos viravam detectores de minas e ala que é sempre em frente. (...)

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, itálicos: LG)

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Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 10 de dezembro de 2008 > Guiné 63/74 - P3592: Do Fundão, com insónias: Bambadinca, meu amor... (Torcato Mendonça)

(**) Último poste da série > 24 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28130: As nossas geografias emocionais (67): o monumental depósito de água de Bolama (conhecido localmente como "castelo")

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28240: Nomadizações de um marginal secante (Luís Graça) (14): as alucinações do soldado básico de Bambadinca que, em pânico, jurou ter visto uma manada de elefantes junto ao arame farpado











O "básico de Bambadinca" que  viu elefantes junto ao  arame farpado

Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



1. Esta é uma das histórias pícaras que trago da Guiné, e mais exatamente de Bambadinca, onde comecei por estar adido ao BCAÇ 2852...O quartel sofreu um ataque em força na noite de 28  de maio 
de 1969, âs 00h25, que ficou na memória dos seus militares (e em especial da CCS - Companhia de Comando e Serviços). 

 Eu e os meus camaradas da CCAÇ 2590 / CCAÇ 12, ainda não estávamos lá, estávamos a bordo do T/T Niassa, já no estuário do rio Geba,  à espera de desembarcar no dia seguinte, em Bissau. 

Mas dias depois, em 2 de junho, passaríamos por lá, a caminho do CIM de Contuboel... Ainda "cheirava a pólvora". E o pessoal andava com os "nervos à flor da pele"... 

Em meados de junho tinha havido um falso alarme: em resposta a um alegado novo ataque dos "turras", gastaram-se milhares de munições...

Nenhum de nós, antigos combatentes da Guiné, alguma vez pôs a vista em cima de um elefante, solitário ou em manada, durante a guerra... 

Nem sequer a malta que esteve em Gandembel e Ponte Balana, entre abril de 1968 e janeiro de 1969. A malta da CCAÇ 2317 (Gandembel, Ponte Balana, Buba e Nova Lamego, 1968/69), os "Gandembéis", de que fizeram parte o Idálio Reis, o Joaquim Gomes Soares, o João Barge, o Júlio Madaleno ... 

Eles  bem como outros camaradas de outras subunidades (o Hugo Guerra, o Alberto Branquinho,  o José Ferreira da Silva, o José Teixeira,  o Mário Gaspar, etc.) que, direta ou indiretamente,  foram bravos atores e/ou testemunhas desta   "odisseia", a vida e morte de Gandembel e  Ponte Balana (sem esquecer os páras do BCP 12). 

Mas,  nessa altura,  se ainda havia elefantes na Guiné, que iam e vinham banhar-se no rio Balana, devem ter sido "desalojados" e corridos para a Guiné-Conacri pelas tropas do 'Nino' Vieira  e pelas NT,  que travaram combates violentos no decorrer da  Op Bola de Fogo (8 a 14 de abril de 1968) e depois,  ao longo da ocupação, construção, defesa e abandono do aquartelamento de Gandembel e do destacamento de Ponte Balana, que se saldou por 372 ataques e flagelações do IN, em menos de nove meses (**).

 O elefante, tal como nós, não gosta de tiros. E tem, como nós,  um medo que se pela  das minas e armadilhas... Fugiu da Guiné, fugiu de Angola, fugiu de Moçambique...

Na história não-oficial da guerra da Guiné (1961/74), o único tuga que garantidamente  viu elefantes com "os dois olhos que a terra há de comer" foi...o "básico de Bambadinca", em junho de 1969.

É uma história que não é para rir. Não a ponho na série "Humor de caserna". A mim, inspira-me pena e compaixão. E é nesse sentido que orientei, editorialmente, a BD que encomendei ao meu artista gráfico de serviço.

O "básico de Bambadinca" não pode ser alvo de piada, chacota  ou risota na caserna; já não bastava ele ser gozado por toda a gente, até pelos "djubis", faxinas da cozinha  que o ajudavam nas tarefas mais sujas em troca dos restos do rancho. Não, não é o "bobo" da caserna, é apenas a personagem de uma pequena tragédia. 

Eu próprio comecei por sorrir, na altura,  em junho de 1969, perante a ideia absurda de uma manada de elefantes junto ao arame farpado do quartel de Bambadinca... 

Hoje acabo por reconhecer que aquele meu pobre camarada (cujo nome nunca fixei) estava simplesmente aterrorizado, com os nervos feitos num oito. É aí que reside a força da história (que, de resto, já aqui tinha contado).

O seu nome não fica para a história, mas, tanto quanto me lembro, pertencia à da CCS/BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70), e para mais numa altura em que ainda havia o receio do "turra" voltar a atacar o aquartelamento...

Dele  se contava que,  um dia, quando estava de sentinela, acordou às tantas da noite todo o quartel e as tabancas à volta (Bambadincazinho e Bambadinca), aos tiros de G3 em posição de rajada...

Perante o estremunhado oficial de dia (ou  sargento de dia, a quem competia fazer a ronda pelos postos de sentinela do vasto perímetro do quartel),   jurou, em pânico, que tinha visto uma manada de elefantes junto ao arame farpado...

Feito o reconhecimento do local, pela manhã, ninguém encontrou (nem podia encontrar) vestígios da manada de elefantes ao serviço dos "turras"...

Como explicar estas "alucinações"  do pobre do soldado "básico de Bambadinca" ?


2. Sabemos que, em contexto de guerra, mum quartel do mato, às tantas da noite, em África, é possível ter "alucinações" destas.. 

Para mais, tratando-se de um "soldado básico" que , por definição, não era operacional, suponho até quer era um simples ajudante de cozinha... Mas que tinha apanhado um cagaço do caraças aquando do ataque de 28 de maio de 1969...

É um  tema fascinante e complexo, que não tem sido abordado no blogue:  em 
contextos extremos, ou situações-limite, em ambientes de alta tensão, como a guerra, o isolamento, o cansaço, a insolação, a desidratação ou  até a subnutrição, prolongadas, enfim, em situações de  exaustão física e mental, ou de privação sensorial (como a escuridão total do mato à noite),   etc.,  o cérebro humano pode gerar alucinações hipnagógicas (na transição para o sono) ou hipnopômpicas (ao acordar), ou até alucinações sensoriais completas.

Estes fenómenos não teriam sido incomuns no nosso tempo, no CTIG. Estão documentados (e estudados) noutros teatros de operações, sendo comuns, por exemplo, em  soldados envolvidos em missões prolongadas:
 combatentes em guerras (como a do Vietname ou os conflitos modernos no Médio Oriente) relatam casos de alucinações visuais e auditivas, especialmente em ambientes de isolamento, combates prolongados, falta de sono, grande sofrimento físico e psíquico, promiscuidade, desconforto e vulnerabilidade  dos  "bunkers", etc.

Outra situação comum é a privação sensorial: no mato, à noite, a ausência de estímulos visuais claros pode levar o cérebro a "preencher lacunas" com imagens ou sons imaginários: o som do vento, a trovoada, os relâmpagos, a chuva, o piar de "aves agoirentas", os ruídos provocados por animais noturnos, ou a simples fadiga... podem distorcer a perceção da realidade.

O stress agudo e  o pânico fizeram o resto: o "básico de Bambadinca" (possivelmente castigado com umas noites nos postes de sentinela) estava em estado de hipervigilância. Nessa situação,   qualquer estímulo ambíguo (um ruído, uma sombra) pode ser amplificado pelo cérebro como uma ameaça real; a G3 em rajada sugere uma reação de pânico instintivo, onde a mente, já em alerta máximo, "vê" o que teme (neste caso, elefantes, que na Guiné-Bissau eram nativos e simbolizavam um perigo real, ainda que totalmente improvável naquele contexto, na zona leste, em Bambadinca).

No ambiente estranho e hostil da Guiné, eram frequentes relatos de soldados (nomeadamente metropolitanos) que confundiam sons de animais com movimentos inimigos, ou que viam figuras humanas em sombras. 

Sabe-se que o cérebro "em modo de sobrevivência" dá prioridade, atenção máxima, à deteção de ameaças, mesmo que isso implique... "falsos positivos", falsos alarmes ..

Eu próprio experimentei (eu e todos os demais camaradas que me acompanharam),  durante a Op Tigre Vadio (3 dias, 30/3-1/4/1970, na península de Madina /Belel, regulado do Cuor, no regresso ao Enxalé), uma situação de desidratação extrema, e com ela o conhecido fenómeno (ótico) da "miragem do deserto"  que rapidamente se transformou em alucinação psicológica real...

E porquê o pobre do "básico", pergunta o leitor  ?

O facto de ser um ajudante de cozinha (e não um operacional, e que, para mais, a cumprir um "castigo"
) é revelador: tinha menor preparação (física e psicológica) para lidar com a tensão de uma sentinela, na noite de África; estava menos familiarizado com a G3; não saía para o mato, não estava integrado em nenhum grupo de combate, etc. 

 Recorde- que o soldado básico era o que só tinha feito a recruta , não tirara qualquer especialidade   por falta de aptidões, físicas ou intelectuais ( ou por qualquer outra razão : saúde,  disciplina, etc. ). 

Não servindo para "atirador", era colocado nos "serviços de apoio" de uma subunidade (alimentação, material, etc.)
 
Nestas circunstâncias, o seu cérebro poderia estar mais suscetível a distorções, por falta de interação ou validação da realidade com outros.
 
Recorde-se que, mesmo numa CCS (Companhia de Comandos e Serviços), em quartéis do mato, como Bambadinca, sede de batalhão, os não-operacionais (escriturários, mecânicos, etc.)  estavam escaladas para, regularmente, fazer o serviço de guarda (e os graduados, as respetivas rondas). E havia sempre escassez de efetivos, daí também o recurso aos "básicos".

Elefantes em Bambadinca ? A Guiné-Bissau tinha (e ainda tem) elefantes, embora em números muito  reduzidos , e apenas num corredor transfronteiriço,  na região de Tombali, que hoje faz parte do Complexo Dulombi-Boé-Tchetche. (**)

 Durante a guerra, avistamentos esporádicos destes paquidermes não eram, teoricamente, de todo impossíveis, mas uma manada junto ao arame farpado de um quartel como Bambadinca, na zona leste, seria de todo improvável. 

Esta evidência vem  reforçar a hipótese de alucinação.

A experiência extrassensorial do nosso "básico" também terá a ver com a "expectativa cultural":  tal como muitos outros militares metropolitanos, ele ouviu, desde a escola, contar histórias sobre elefantes, lesões e  outros animais emblemáticos de África. Todavia, e a menos que já tivesse visitado o Jardim Zoológico de Lisboa, nunca tinha vista ao vivo e a cores um elefante, um leão, um leopardo, um jagudi. Nem sequer um macaco!

A G3 em rajada é outro detalhe crucial. É uma resposta automática,  resultante do  treino militar. E a reação a uma ameaça percebida é imediata. Se o "básico" acreditou que via elefantes (ou "turras"), o instinto de disparar para alertar o quartel seria natural.

Por outro lado, sabemos que o pânico é contagioso em grupo ou multidão: o som dos tiros, às tantas da noite, acordava o pessoal todo.

  Já não me recordo dos pormenores da história, mas tudo indica que,  nessa noite, houve quem puxasse da G3 e desatasse aos tiros para o arame farpado...  

Esta história terá acontecido em junho de 1969, em que  ainda se vivia sob o medo  de um novo ataque ao quartel.  Bambadinca nunca seria atacada ou flagelada no meu tempo (julho de 1969 / março de 1971). Mas os ataques e flagelações aos aquartelamentos e destacamentos no sector L1,  num raio de 30 ou mais quilómetros,  eram audíveis (e até visíveis ) à noite.

Também não é preciso recordar que estávamos num conflito armado, onde a tensão se fazia sentir.   
O cansaço, a monotonia e a sensação de isolamento (a Guiné ficava a 4 mil  km de Lisboa) criavam um terreno fértil para a síndrome do combatente, e inclusive para o que hoje chamaríamos de PTSD - Perturbação de Stress Pós-Traumático ( em português ), podendo-se manifestar sob a forma de ansiedade, insónias e alucinações. "Estar apanhado do clima" era a expressão de caserna equivalente...

Na Guiné, havia pouca mobilidade: o nosso soldado "básico" permaneceu quase dois anos no mesmo sítio. Enfim , este é um caso clássico de alucinação induzida pelo stress.

 De qualquer modo, justiça se lhe faça: o "básico de Bambadinca" não mentiu nem inventou,  o seu cérebro, em condições extremas, criou uma perceção falsa, mas para ele, naquele momento, era 100% real.  

Em conclusão, em estado de fadiga e de hipervigilância, o cérebro pode "projetar" os nossos  medos.  O barulho de galhos partidos ou o vento a mover a vegetação, os cães vadios ou até uma simples hiena à cata de comida podiam ser interpretados como o deslocar de animais de grande porte como uma manada de elefantes. (***)
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Notas do editor LG: