Foi há 16 anos, alguns dos comentadores já não estão cá entre nós (Carlos Cordeiro, Jorge Cabral, Torcato Mendonça, José Manuel Dinis)...
Talvez valha a pena a gente tentar obter uma explicação para esta quantidade, diversidade e até riqueza de comentários a um texto de humor de caserna, publicado pelo Alberto Branquinho, na sua série "Contraponto" (*)...
O título nem sequer era apelativo ou chamativo, "Assinatura ilegível"... Mas o texto do nosso camarada Alberto Branquinho (ex-alf mil op esp, CART 1689, Fá, Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69) tinha uma coisa que talvez explique tudo: era uma pequena bomba-relógio humorística.
Começava por parecer uma simples caricatura de um “soldado básico” que trocava os "bês" pelos "vês" (pronúncia típica do Norte, ou melhor, do Porto / Região do Porto).
E há uma coisa extraordinariamente reveladora nos comentários: a história não ficou encerrada no texto do Branquinho. Cada comentador pegou numa ponta e puxou por ela.
Achamos que o mais interessante neste poste é a qualidade, a diversidade e, sobretudo, a progressiva transformação do próprio poste num acontecimento coletivo.
Vamos republicar o poste P7144 (*) e repescar, em prõximo poste, o essencial dos comentários, alguns dos quais não assinados (mas cuja identidade foi reconhecida e recuperada).
2. Mensagem de Alberto Branquinho (ex-Alf Mil de Op Esp da CART 1689, 1968/70),
Um abraço
Alberto Branquinho
3. Sobre o autor:
Senhor Carlos Binhal
Eu era o soldado básico que tratava das cóisas dos ufissiais da nossa Cumpanhia.
Bossemessê num creia em tudo o qum ufissial da nossa Cumpanhia escrébe prái. Ele num é de cunfiar de todo. Não era má pessua mas aí faz muntas inbenções. Olhe que rasgaba o musquiteiro de raiba à noute e despois dezia quera eu. Andaba sempre a précurar pelas cuecas que faltabam as cuécas que faltabam as cuécas que faltabam as cuécas. Inté tinha alguma razão porqueu um dia puchei o pano pra baicho à labadeira e a gaija tinha umas cuécas dele bestidas.
Embora tibesse alguma razõm às bêses ele num é de cunfiar de todo. Sou eu que o está a abisar. Sabe lá cuantas beses eu tibe capanhar os cacos das cerbeijas quêle partia contrá parede do quarto. Dábamle aquelas ráibas e despois dezia que lhe faltabam os cumpremidos pra durmir que lhe roubavam os compremidos pra durmir. Cal comprimidos pra durmir aquilo era prá doudice. Gastábaos êle e num fazia contas a eles.
Mas olhe cus outros ufissiais tamém não eram milhores. Eram cuase todos das ilhas. Esses nunca os bi aí do seu computador.
Um um dia disse que cando chegasse da operação queria um copo de leite cum milho. Sabe lá bossemessê o queu passei prá arranjar o milho no quartel e quêle ficasse molinho pra pôr dentro do leite. Despois chateou-se comigo cu quêle queria era o leite com um pó castanho que tinha dentro duma lata chamada MILO.(**)
Outro tinha à cabeceira futugrafias da namurada ou da mulher ou lá o que era e cando eu entrava era de arrecuas porquêle se chateava se eu olhasse prás futugrafias.
O outro deles às bêses berrava comigo e quando eu lhe précuraba alguma coisa ou falaba cum ele nem oubia passaba o tempo a olhar pró chão ápertar o cinto dos calções a dezapertar o cinto dos calções e só dezia carássas carássas carássas.
Talbez estibessem apanhados du clima mas eu é que num tinha culpa nenhuma disso. O que me balia era o nosso capitão quéra munto bôa pessôa.
Nunca fui pró mato mas sabe deus o queu passei por causa deles.
Com muntos comprimentos pra bossemessê e para toda a sua família mas num creia em tudo o que esse ufissial escrebe prài porque é quase tudo inbenções.
Assinasse este que num manda as futugrafias que bossemessê pede sempre queu num quero quê-les saibam.
(assinatura ilegível)
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Alberto Branquinho
PS – Não se entenda o texto acima como sendo de menos consideração pelo soldado “imaginado” ou pela “sua” escrita. É só um ensaio para fazer um retrato.
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(...) Milo, leite achocolatado, que fazia as delícias dos nossos pequenos-almoços, antes da corrida para a escola primária. Claro que nem todos, pois, apesar de tudo, nos anos 70 tomar Milo era um luxo, ao alcance de poucas famílias.
Milo é um produto da conhecida marca Nestlé, mas teve origem na Austrália (onde ainda se fabrica e é extremamente popular), desenvolvido por Thomas Mayne, em 1934. O nome deriva do lendário Milo de Creta. (...)



























