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terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27765: As nossas geografias emocionais (61): Boé, do Cheche a Lugajole: uma missão de três meses dos Médicos Sem Fronteira, em 1987 (Ramiro Figueira, ex-alf mil op esp, 2ª CART/BART 6520/72, Nova Sintra, 1972/74)


Foto nº 1 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé > 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé > Cheche > "Cambança" do rio Coruba, ao fundo a margem norte (direita), com a estrada seguindo depois para Canjadude e Gabu



Foto nº 2A e 2 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé > 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé > Cheche > "Cambança" do rio Corubal: em primeiro, o médico Ramiro Figueira, acompanhado por um dos médicos, o Dr. João Luís Baptista. (Partimos de Lisboa num dia que não recordo, em Setembro de 1987 com uma equipa de 4 médicos, um enfermeiro e um encarregado da logística.)



Foto nº 3A e 3 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé > 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé > Cheche >  "Cambança" do rio Corubal em jangada



Foto nº 4A e 4 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé> 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé >  Cheche > Rio Corubal > O ministro que nos acompanhou, decidiu tomar um banho...


Foto nº 5  > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé  > 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé > Cheche >Os "djubis", sempre curiosos



Foto nº 6 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Canjadude> 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé > Partimos de Gabu (antiga Nova Lamego), passando por Canjadude, a caminho do Cheche (ponto de "cambamça" do rio Corubal"), Béli e Lugajole  (destino final)



Foto nº 7A e 2 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé> 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé > Tabanca perto do Cheche (antes ou depois da cambança?)



Foto nº 8A e 8 > Guiné-Bissau > Região de Gabu >  Boé > 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiros ao Boé > A paisagem árida, semidesértica, perto de Béli, a caminho de Lugajole.  Estas formações são "bagabagas", num paisagem algo lunar.



Foto nº 9A e 9 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé > 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé > Pequena tabanca, a caminho de Lugajole. A Missão não passou por Madina do Boé (em 1987 ainda minada!)



Foto nº 10A  e 10 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé > 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiros ao Boé > Lugajole >  Orre Fello > A morança que teria pertencido ao Amílcar Cabral. Fello, em fula, quer dizer montanha, colina ( que na região andam pela cota  50,  100, 150, máximo  200/300 metros; Orre Fello tem 200 metros).


Foto nº 11A e 11 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé > 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé > Lugajole > Orre Fello > Palanque onde teria sido proclamada a independència da Guiné -Bissau em 24 de setembro de 1973, segundo o guia local.

Fotos (e legendas): © Ramiro Figueira (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Guiné > Antigo mapa geral (1961) (Esacala 1/500 mil) > Percurso a amarelo seguido pela missão dos MSF, em setembro de 1987 (Gabu - Canjadude - Cheche - Béli - Lugajole). O rio Corubal corre no sentido nordeste-sudoeste. A estrela a vermelho assinala o ponto Orre Fello (cota 200 metros). Vd. carta de Béli (1959).

Infografia: Ramiro Figueira / Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)


Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé >  Posição relativa de Cheche (no rio Corubal), Madina do Boé, Tiankoye (já na Guiné-Conacri, corredor do ataque a Madina do Boé em 10/11/1966 em que morreram Domingos Ramos e muitos outros combatentes do PAIGC), Beli, Lugajole, Vendu Leidi (e perto de Lugajole, Orre Fello) e, por fim, Lela, também já do outro lado da fronteira. 

Infografia. Jorge Araújo / Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026).  



Ramiro Figueira, médico aposentado, foi alf mil op esp, 2ª CART/BART 6520/72 (Nova Sintra, 1972/74); membro da Tabanca Grande desde 23 de junho de 2022, tendo 10 referências no blogue; em 1987, cumpriu uma missão de 3 meses em Lugajole, Boé, Guiné-Bissau, como membro dos Médicos Sem Fronteiras (MSF).


1. Mensagem de Ramiro Figueira:

Data -  Data: 23 de fevereiro de 2026, 16h35
Assunto -  Boé

Boa tarde

Como de costume, espreito diariamente o blogue da  Tabanca Grande, virou um hábito curioso mas certamente saudável.

Tenho seguido essas últimas crónicas que lentamente vão juntando a história (triste) da aposentadoria do Boé em 1969. 

Foi cerca de três anos antes da minha chegada à Guiné, em junho de 1972. E fui para um lugar ainda distante do Boé, Nova Sintra, no região de Quínara. Mas todos fomos ouvindo as histórias daquele desastre, que  constavam da memória de toda a gente na Guiné.

Quis o destino que, 13 anos depois de ter voltado para casa (em setembro de 1974), fosse enviado para a Guiné (agora Guiné-Bissau), mais propriamente para o Boé (*), e mais especificamente para a tabanca de Lugajole (ou Lugadjole), perto de fronteira com a Guiné-Conacri.

Essa circunstância se deveu ao facto de pertencer aos Médicos Sem Fronteiras que ali iam abrir uma missão junto às populações fronteiriças.

Assim seguimos para Bissau e depois para Gabu (Nova Lamego) onde ficámos um dia instalados na casa de um tal Paulo, governador da região que, pelo que percebi, era um antigo combatente do PAIGC, o que se notava bem já que era notória a deficiência que apresentava coxeando da perna direita (durante a estadia em Gabu viemos a saber que era por ter uma prótese, dado ter sido amputado por uma mina). 

De lá seguimos no dia seguinte, passando por Canjadude, até a margem do Corubal para a passagem do jipe ​​​​e caminhão de material em que transportávamos todo o material necessário.

Pelo caminho de Canjadude a Chche, ainda havia vários destroços de veículos, provavelmente militares, abandonados. Era a tristemente cambança do Cheche, de que eu tanto ouvira falar durante a guerra.

Assim atravessámos na jangada o Corubal até à margem seguinte, confesso que me recordo bem, passados ​​​​estes anos de ter sentido um arrepio ao pensar que, naquele mesmo local, vinte anos antes ali tinham ficado quarenta e tal camaradas. 

No que não fiquei sozinho, comigo na equipa ia outro médico que, na mesma época que eu, tinha sido fuzileiro  e conversámos na altura várias vezes sobre o assunto.

Na chegada a Lugadjole, depois de uma viagem atribuladíssima e demorada, nos deparámos com uma tabanca razoavelmente organizada com bastante gente e muitos prédios em bom estado, mas abandonados. 

Ficámos sabendo que se tratava de prédios construídos pela União Soviética que estivera ali explorando bauxite mas que se mostrou não ser viável depois de alguns anos de exploração Eles deixaram o local deixando algum material, inclusive um grande gerador. 

Foi num desses prédios que instalámos a nossa base logística para dormir, um modesto refeitório e o depósito de medicamentos.

Iniciámos nosso trabalho, começando por instalar um hospital de campanha que nos fora fornecido pelas Forças Armadas, após o que abrimos as consultas e os tratamentos.

Durante a minha estada em Lugadjole, também tivemos a oportunidade de viajar, acompanhados pelo administrador local, Kassifo N'Kabo, ao mítico local da declaração de independência em 1973
 [Orre Fello]. (**)

Foi uma viagem também bastante conturbada por trilhos terríveis e subidas íngremes, mas você acaba chegando lá. 

Era uma colina de onde se disfrutava uma vista extensa, onde havia uma espécie de palanque coberto e relativamente bem arranjado e, ao lado uma bonita palhota em cimento que o  Kassifo garantia como tendo sido a morança  de Amílcar Cabral. 

Pessoalmente não acredito que fosse assim e também não acredito que aquele era o local da declaração de independência, mas isso são outras discussões. 

Ainda tentei que me levassem ao [antigo] quartel de Madina do  Boé, mas a recusa foi peremptória: “Terreno com muita mina”. 

Não sei se era assim ou não, mas lá tinha que ser.

Foram três meses de missão num país que ficou para sempre gravado em minha memória.

(Revisão / fixação de texto, parênteses retos, negritos;  LG)


2. Comentário do editor LG:

Obrigado, Ramiro. Se tiveres mais fotos do tempo desta tua missão ao serviço dos MSF, iniciada em setembro de 1987 (e que se prolongou até dezembro, não?!), e achares de interesse divulgar, manda, podemos depois fazer um dossiê.

Poucos de nós, antigos combatentes, conhecemos o Boé (Béli foi retirado em meados de 1968, Madina do Boé e Cheche em 6/2/1969). A sul do rio Corubal, no Boé, deixa de flutuar a bandeira verde-rubra.

E, de facto, continuamos sem saber onde foi extamente o "berço da Nação" (guineense)... Duvido que algum dia as coordenadas corretas apareçam. Não havia GPS. Nem o PAIGC tinha cartas. Nem se guiava por elas. Nem sei ainda há testemunhas  diretas ou atores desse evento, os "históricos" já terão morrido todos (com exceção de algum cabo-verdiano ou outro, Manecas dos Santos, Pedro Pires; a Amélia Araújo, a "Maria Turra", essa, acaba de morrer).

E a IA hoje  só lança ainda mais confusão, quando a gente lhe pergunta onde foi o "berço da Nação". Como sabes, a IA não faz pesquisa em primeira mão, muito o menos em arquivos.  
Só trabalha com a "papinha feita" pelos humanos. Documentos em acesso livre. Nós sabemos muito mais que ela, que tem a mania que sabe tudo... Mas não, não sabe tudo, "canibaliza" o que os humanos produzem, e só atrapalha as vezes. E recorre muito ao nosso blogue, quando se fala da guerra na Guiné. Enfim, pode ser (ou é) útil, desde que usada com... inteligência humana.

O assunto ainda é polémico. Ou talvez não, afinal estamos a discutir o "sexo dos anjos". O nosso blogue levantou a questão pelo menos em 2009: o Patrício Ribeiro esteve lá, em Lugajole, em 2005, com a equipa da televisão (SIC). E levantou a dúvida: os historiógrafos (a começar pelos "tugas") replicam a propaganda do PAIGC. O que é feio, ou pelo menos não é bonito para um historiógrafo (que não é exatamente a mesma coisa que um historiador).

Passados mais de 50 anos, ainda há muita boa gente a aceitar, acriticamente, que a independência da Guiné-Bissau foi proclamada em "Madina do Boé". Para muitos guineenses (e cabo-verdianos) que nunca foram em visita ao "berço da Nação", Boé e Madina do Boé é tudo igual. É como o "Pulo do Lobo" no "Alentejo profundo": nunca ninguém lá tinha ido, exceto o prof Cavaco Silva, em 1994 (se não erro). (Por acaso já lá fui, tive curiosidade, e não queria morrer estupido: fica no limite do concelho de Mértola com o de Serpa no Parque Natural do Vale do Guadiana.)

Já temos muita documentação sobre o Boé, mas é preciso colocá-la, em dossiês temáticos, em pdf, formato mais facilmente pesquisável na Net.

Temos, nós, ex-combatentes (e sobretudo nós, portugueses desta geração) a obrigação de deixar pistas para esclarecer esses e outros pontos, mais ou menos obscuros, da história recente da Guiné-Bissau, que também é parte da nossa história. Tudo com calma, mas credível, com o rigor possível de quem não é investigador encartado.

A ignorância é muita, a incultura geral ainda mais. E nem tudo o que vem à rede é peixe. Duvido até que os jovens guineenses saibam onde fica(va) a mítica Madina do Boé... Hoje, sim, uma pequena tabanca, reconstituída na picada que segue do Cheche até à fronteira (sul).

Há umas semanas, conversando com jovens guineenses (homens e mulheres) que fazem parte da segurança privada de um hospital público, e que estão aqui em Portugal há 10 anos ou mais, constatei que eu conhecia muito muito melhor a geografia e a história do seu país do que eles.  Já nasceram em Bissau e de lá só saíram para emigrar para Portugal. O toca-toca não vai até Cheche, Béli, Lugajole, Vendu Leidi, Madina do Boé. E se for,  leva uma pequena fortuna.

É gente, estes netos  de Amilcar Cabral,  com alguma escolaridade, a suficiente para poderem  trabalhar doze horas por dia como "seguranças", à noite e por turnos, no departamento de psiquiatria e saúde mental de um hospital na Europa.

Quanto a ti, Ramiro, és sempre bem aparecido. 
Um alfabravo. 
Luis

PS - Ramiro, recordo (para os nossos leitores) o que escreveste em comentário em 14/7/2022 (**):
(...) Conforme o mapa, o local  [Orre Fellositua-se muito perto da fronteira mas antes de Vendu Leide, portanto dentro da Guiné Bissau.
(...) Sobre o desfile militar na cerimónia da independência, nada sei. O local tem um espaço relativamente grande e plano em frente à construção pelo que é possível ter feito ali um "ronco" com desfile de tropas. A construção (suspeito, sem certezas nenhumas) será de depois mas, dado que a fotografia foi feita em 1987 (14 anos depois da declaração), eventualmente já existiria.

Como já se publicou tanta coisa sobre este local vamos, ver se aparece alguém com indicações precisas sobre o assunto. (...)


quinta-feira, 14 de julho de 2022 às 17:40:29 WEST

(Revisão / fixação de texto: LG)
________________

Notas do editor LG:

(*) Último poste da série : 29 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27475: As nossas geografias emocionais (60): Cape of Good Hope / Cabo da Boa Esperança, South Africa / África do Sul (António Graça de Abreu, Portugal)


(...) Chegámos a Lugadjole já ao anoitecer e ainda tivemos de descarregar a camioneta para termos camas onde dormir, dado que a casa onde fomos alojados nada mais tinha do que paredes, eram casas construídas pelos soviéticos quando tentaram explorar bauxite naquele local, o que acabou por não se revelar rentável e o local foi abandonado.

Os dias foram-se passando entre as consultas e trabalhos para nos instalarmos e um belo dia conseguimos convencer o responsável local, um homem de poucas falas, chamado Kassifo N’ Kabo, a levar-nos ao local onde fora declarada a independência.

No jipe dele e ainda no jipe que nos tinha sido cedido pelo governo guineense, saímos a caminho da fronteira com a Guiné Conacri e, pouco antes da tabanca de Vendu Leidi,  subimos a um ponto um pouco mais alto, que na crónica da Tina Kramer fiquei a saber que se chamava Orre Fello, onde uma estrutura meio abandonada nos foi indicada como tendo sido o local da declaração da independência.

Na verdade, não sei se realmente terá sido ali que se deu o acontecimento, mas dada a proximidade da fronteira (Vendu Leidi situa-se praticamente nela) e o local meio perdido nos confins do Boé, admito que terá sido esse o tal local.

Por agora é só, as descrições do trabalho em Lugadjole são longas e provavelmente fastidiosas. Resta dizer que montámos o hospital de campanha que tinha bloco operatório e que esteve a funcionar creio que cinco ou seis anos. (...)

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27728: Fotos à procura de... uma legenda (198): Restos da "batalha de Madina do Boé"...




Guiné-Bissau > Região de Gabu > Picada de Cheche-Gabu > 1998 > Trinta anos depois ainda eram vísiveis (e chocantes) os sinais das emboscadas e das minas que fizeram do triângulo do Boé (Cheche, Beli e Madina) um verdadeiro cemitério para os homens e as suas máquinas...

No dia 6 de fevereiro de 1969, ficaram lá, sepultados para sempre, pelo menos 47 camaradas nossos, 19 da CCAÇ 2405 e 28 da CCAÇ 1790.

Fotos (e legenda): © Francisco Allen / Albano M. Costa (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Guiné > Região de Gabu > Picada Cheche - Madina do Boé > Op Mabecos Bravios > A caminho de Madina do Boé > 3 de fevereiro de 1969 > Viaturas das NT  (Mercedes), abandonadas em colunas anteriores.


Guiné > Região de Gabu > *Picada Cheche. Madina do Boé > Op Mabecos Bravios > A caminho de Madina do Boé > 3 de fevereiro de 1969 > Viaturas das NT  (Mercedes), 
abandonadas em colunas anteriores.


Guiné > Região de Gabu > Picada Cheche. Madina do Boé  > Op Mabecos Bravios > A caminho de Madina do Boé >  3 de fevereiro de 1969 > Viatura das NT abandonada (Berliet)

Fotos do álbum do cor inf ref Hilário Peixeiro, que foi capitão no CTIG, cmdt da CCAÇ 2403 / BCAÇ 2851 (Nova Lamego, Piche, Fá Mandinga, Olossato e Mansabá, 1968/70), e que participou na Op Mabecos Bravios (retirada de Madina doo Boé, 2-7 de fevereiro de 1969).

Fotos (e legendas): © Hilário Peixeiro (2011). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Guiné-Bissau > Região de Gabu > Sector de Boé > 1 de julho de 2018 > Caminhos do Boé, com colinas ao fundo, no regresso a Canjadude e a Gabu (antiga Nova Lamego). Para o Cherno Baldé, "a região, com as suas mil e uma colinas, é simplesmente, a região mais bonita do pais" (**) 

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2018) Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. A estrada Nova Lamego - Canjadude - Cheche - Madina do Boé foi um cemitério de viaturas das NT. Não sabemos quantas lá ficaram abandondas. Talvez duas ou mais dezenas, 

Enquanto houve guarnições nossas no triângulo Béli, Cheche e Madina do Boé, faziam-se em geral 2 colunas por mês, durante a época seca, para abastecer o pessoal que defendia aquelas posições a sudeste, junto à fronteira com a Guiné-Conacri (**).

Minas, emboscadas, flagelações, ataques... eram frequentes. Tornou-se um pesadelo aguentar aquelas três guarnições. Praticamente desde o início da guerra.

Até que foi dada ordem para desactivar e retirar Beli (logo em meados de 1968) e depois Madina do Boé e Cheche (em 6/2/1969). 

Canjadude (CCAÇ 5, "Gatos Pretos", 1968/70), a sul de Nova Lamego, passou a ser a guarnição no Sector L3, a par de Cabuca (a leste), mais próxima da nova linha de fronteira, o rio Corubal.

Quem fez esta estrada, e sobretudo o troço Cheche-Madina do Boé, no âmbito da Op  Mabecos Bravios, como os nossos camaradas e grão-tabanqueiros Hilário Peixeiro (CCAÇ 2403) e Paulo Raposo (CCAÇ 2405), é que pôde  testemunhar, para a posteridade, que a zona do Boé era nessa altura um "pequeno" emitério de viaturas.  O Paulo Raposo contou 15.  O Hilário Peixeiro  fotografou algumas viaturas abandonadas na bermas da picada.  

O nosso saudoso Xico Allen (1950-2022), quando por lá andou em 1998, ainda apanhou algum do "ferro-velho" da guerra.

2. A retirada de Madina do Boé era inevitável?, perguntarão alguns leitores.  Já estava prevista: a sua defesa era, a prazo, insustentável do ponto de vista sobretudo logístico, financeiro, humano, psicológico e até militar (***).  

A alternantiva era construir-se uma "grande base" no Cheche, na margem norte (direita) do rio Corubal... Mas depois deste desastre, toda a gente, a começar pelo próprio Com-Chefe e Governador, António Spínola, ainda brigadeiro, quis esquecer o desastre de Cheche e ultrapassar o trauma...

Em último caso, continuaria a fazer-se a "retração do dispositivo"... E, para defender as "joias da coroa" (que eram Angola e Moçambique), o chefe do Governo, Marcelo Caetano, estaria na disposição de lançar aos cães o "osso" da Guiné.

Deu-se o "ouro ao bandido"?... O PAIGC, sem ter dado um único tiro em 6/2/1969, foi um "claro vencedor" da "batalha de Madina do Boé".  

Batalha que, acrescente-se, não tem qualquer paralelismo, nem de longe nem de perto, com a batalha Dien-Bien-Phu (na guerra da Indochina, de 13 de março a 7 de maio de 1954: recorde-se que após oito semanas de duros combates, as tropas do Viet Minh, com cerca de 80 mil homens, apoiados pela China, cercaram o campo fortificado de Dien-Bien-Phu, sofrendo 7,9 mil 900 mortos e 15 mil feridos, mas vencendo as tropas da União Francesa; entre os franceses, houve 2293 mortos e 5193 feridos, além de 11 721 soldados feitos prisioneiros (a maioria dos quais não sobreviveu a um brutal cativeiro, tendo sido repatriados apenas 3290 homens) (Fonte: Wikipedia).

Habilmente, e como seria de esperar, o PAIGC declarou o Boé como "área libertada", mesmo sem qualquer população, a não ser as escassas centenas de chimpazés e uns tantos solitários e sazonais elefantes, que utilizavam um corredor transfronteiriço...  

E passou a usar o Boé  como trunfo propagandístico, diplomático e até militar.  Em contrapartida, não havendo quartéis portugueses, o Amílcar Cabral perdeu porventura uma fonte dos seus belos prazeres, que era ver de binóculos, da sua colina favorita, o ataque à canhoada a Madina do Boé.

Morto o líder histórico, o PAIGC iria proclamar a independência unilateral da Guiné-Bissau,  quatro anos e meio depois, alegadamente em 24 de setembro de 1973, ainda em plena época das chuvas, e "algures" no Boé ou "nenhures" (mais provavelmente já no território da Guiné-Conacri, embora não haja ainda "provas concludentes", mas a fronteira era porosa, como se sabe).

Mais tarde, o PAIGC arranjaria outros topónimos menos polémicos,  ou mais "exóticos" mas "pacíficos": Lugaloje,  Vendu Leidi, Orre Fello... (que ninguém sabe,  mesmo na Guiné-Bissau, e a começar pela gente de Bissau, onde ficam, tirando talvez alguns "tugas", Médicos Sem Fronteiras, etc...). 

É  de notar: o PAIGC, ao que se saiba, não convidou nenhum jornalista independente (tirando uma equipa de cinema sueca). Não há "provas concludentes" de que o local onde onde nasceu a nova pátria, tenha sido o coração do  Boé. Nessa época não havia georreferenciação. Mas nem eram precisas as coordenadas do GPS, para as Nações Unidas aceitarem como "mais do que credível" e consumado o "facto histórico", e carimbarem o nascimento da nova Nação lusófona...

Em Madina do Boé é que nunca foi, apesar da narrativa algo triunfalista e mistificadora do PAIGC na época. 

Durante décadas muita boa gente, portuguesa e estrangeira, aceitou de "boa fé" (como eu, em 1973...) este embuste do partido de Luís Cabral, Aristides Pereira e 'Nino' Vieira.

Pena é que estas  e outras fotos não pudessem circular livremente pelas mãos dos portugueses, nessa época... As nossas mãezinhas, que nos pariram, deviam ter pelo menos o direito de saber por onde é que os desgraçados dos filhos andavam, na Guiné...
_______________

Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 7 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27711: Fotos à procura de... uma legenda (197): Qual o comprimento e o peso desta píton-africana (ou "irã-cego") apanhada na região de Quínara ? (Boaventura Alves Videira, CCS/BCAÇ 1861, Buba, 1965/67)

(**) Vd. poste de 21 de julho de 2018 > Guiné 61/74 - P18863: Bom dia, desde Bissau (Patrício Ribeiro) (8): Os meus passeios pelo Boé - Parte II: 1 de julho de 2018: Béli (e a Fundação Chimbo Daribó), Dandum, Madina do Boé, Canjadude...

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27707: Foi há... (7): 57 anos, o desastre do Cheche, na retirada de Madina do Boé (Op Mabecos Bravios, 6/2/1969)... Só em 19 foi decidido realizar uma operação com fuzileiros especiais e mergulhadores-sapadores da Armada para resgatar os corpos... O brigadeiro António Spínola fez questão de estar presente pessoalmente, com um capelão e coroas de flores com a frase "A Pátria agradecida"






Guiné > Região de Gabu > Cheche > Rio Corubal > "A jangada da morte">  s/d 

© Foto de José Azevedo Oliveira, com a devida vénia / Ediçã0: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné



1. O maior número de vítimas, de uma só vez, no TO da Guiné, aconteceu em 6 de fevereiro de 1969 (*), na sequência da Op Mabecos Bravios. 

Temos cerca de 4 dezenas referências com este descritor, o desastre de Cheche. Morreram 2 furriéis milicianos, 7 cabos, 37 soldados e 1 civil, pertencentes a duas subunidades, a CCAÇ 1790 e a CCAÇ 2405 (**).

Desastre na Guiné": a  notícia chegou tarde às redações dos jornais. O "Diário de Lisboa", que era vespertino, conotado com a "oposiçáo democrática", deu-a em título de caixa alta só na 2ª edição, dia 8 de fevereiro de 1969, que era um sábado. Fez ainda uma 3ª edição.  E limitou-se a reproduzir a "peça" transmitida pela agência oficiosa L [Lusitânia], com proveniência de Bissau e data  8 de fevereiro... 

(...) "Na passagem do rio Corubal, na estrada para Nova Lamego, afundou-se a jangada que transportava uma força militar, havendo a lamentar, em consequência deste acidente, a morte, por afogamento, de 47 militares.(...) 


2. Já "quase tudo" se disse mas ainda fomos descobrir, nos livro da CECA (2015), mais algumas referências ao "desastre do Cheche", que transcrevemos:


(...) Dispositivo (Zona Sul)

Em 08Jun68 é elaborada a Directiva n° 1/68 com vista à remodelação do dispositivo na região do Boé. 

Determina a transferência do aquartelamento de Madina do Boé para local mais adequado, na região do Ché Che. 

Ordena a recolha imediata a Madina do Boé do Destacamento de Béli, devendo ser destruídas as instalações e material que não fosse recuperável. 

No ponto nº 3 refere:

"O CTIG e o CZACVG procederão imediatamente a um reconhecimento da região do Ché Che, em ordem a escolher o local do novo aquartelamento; deverá satisfazer às seguintes condições:

- Situar-se em "área-chave" da região de Ché Che, que permita o lançamento de acções dinâmicas na região do Boé e na margem norte do rio Corubal, e, se possível, que dê garantias de segurança à passagem deste rio no Ché Che (jangada);

- ter uma boa pista de aterragem para aviões "Dakota";

- oferecer boas condições de defesa do aquartelamento, que deve ser planeada com vista a transformar-se numa grande base operacional. "


 CECA (2015), 
pag. 175


(...) Operação "Mabecos Bravios" - 02 a 07Fev69

Forças da CCaç 1790, CArt 2338 (-), CCaç 2383, 2403, 2405 e 2436, CArt 2440, 1 GComb/CCaç 5, Pel Mil 161, Pel AMetr "Daimler" 1258 (...), Pel Sap do BCaç 2835, com APAR (apoio aéreo), efectuaram uma escolta no itinerário Nova Lamego - Madina do Boé - Nova Lamego, L3.

Accionada min a A/C  no cruzamento de Beli, sem consequências; detectadas e destruídas 2 minas A/C  entre Ché Che e Canjadude. Durante a operação, Madina foi flagelada 4 vezes sem consequências. No regresso, na travessia do rio Corubal, um acidente com a  jangada que transportava forças de segurança da retaguarda provocou a morte de 47 militares das NT (2 sargentos, 43 praças e 2 Milícias).



CECA (2015), pág. 353

(...) Em 19fev69, através de Directiva n.º 16/69, foi entregue ao CDMG e ao CZAGCV a realização da Operação no rio Corubal:

"1. Confirmando a ordem verbal dada em reunião de Comandos, determino a realização de uma operação no rio Corubal, com o fim de recuperar os corpos dos militares mortos no trágico acidente de 6fev69, que se encontram à superfície das águas.

2. A operação deve realizar-se na base do helitransporte de uma vaga de "Fuzileiros Especiais",  fortemente apoiada por meios aéreos.

3. Os corpos devem ser agrupados e enterrados no local, devendo as campas ser assinaladas com cruzes de ferro.

4. Desejo ser helitransportado ao local, conjuntamente com um capelão para assistir à cerimónia fúnebre, e colocar nas campas e lançar ao rio coroas de flores com a legenda "A Pátria agradecida". [...]". (***)

CECA (2015), pag. 317


Fonte: Excertos de: CECA - Comissão para Estudo das Campanhas de África: Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974) : 6.º Volume - Aspectos da Actividade Operacional: Tomo II - Guiné - Livro I (1.ª edição, Lisboa, Estado Maior do Exército, 2014), pp. 175, 317, 353.



2. Falta-nos, entretanto, o  testemunho do ex-alf mil José Luís Dumas Dinis, da CCAÇ 2338, então comandante da força que guarnecia o destacamento de Cheche.


Recorde-se aqui um excerto do testemunho do então cap inf José Aparício, hoje cor inf ref, na altura cmdt da infortunada CCAÇ 1790, que sofreu o maior número de vítimas:

(... ) Chegados à margem direita, ao proceder-se à contagem constatou-se a falta de 47 militares das duas Companhias.

O Comandante da Operação 
[, cor inf Hélio Felgas,] não permitiu que as duas Companhias [, CCAÇ 1790 e CCAÇ 2405, ] permanecessem no Ché Che para tentarem recuperar o maior número de corpos possíveis, seguindo por isso logo para Nova Lamego.

O acidente em causa deu origem de imediato a um Auto de Corpo de Delito, e a longas e complexas averiguações, incluindo todos os aspectos da operação, que em 1970 terminaram em julgamento em Lisboa no 3.° Tribunal Militar Territorial, que durou várias sessões e que terminou com a absolvição do único réu, o alferes miliciano comandante do Destacamento estacionado no Ché Che [pertencente à CART 2338, Fá Mandinga, Nova Lamego, Canjadude, Buruntuma, Pirada, 1968/69] ". (...) (****)


Ainda continua por realizar o prometido encontro, há anos, do nosso editor Luís Graça com o ex-alf mil José Luís Dumas Diniz (da CART 2338), responsável pela segurança da jangada que fazia a travessia do rio Corubal, em Cheche, aquando da retirada de Madina do Boé.

Uma peça fundamental para eventual encontro será ou seria o ex-alf mil trms, Fernando Calado, da CCS/BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70), membro da nossa Tabanca Grande, e meu contemporâneo da Guiné (estivemos juntos, em Bambadinca, entre julho de 1969 e maio de 1970), e amigo do Dumas Diniz.

Foi o Fernando Calado que me pôs em contacto com o José Luís Dumas Diniz, que vivia a maior parte do tempo em Coruche. Infelizmente o Fernando morreu o ano passado, em 24 de junho.

Guiné > Região de Gabu > Carta de Jábia (1961) > Escala 1/50 mil > Posição relativa de Ché Ché, na margem esquerda do Rio Corubal.

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2025)

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Notas do editor LG:


(**) Vd. poste de  6 de fevereiro de 2022 > Guiné 61/74 - P22974: In Memoriam (426): Paz para a alma de todos os nossos camaradas que morreram no desastre de Cheche, faz hoje 53 anos...Foram 47 vidas ceifadas na flor da idade... Estupidamente!... (Virgílio Teixeira, ex-alf mil SAM, CCS / BCAÇ 1933, Nova Lamego e São Domingos, 1967/69)(*) 

(***) No dia 20 de fevereiro de 1969, uma equipa de mergulhadores-sapadores da armada, após várias operações de busca, a cerca de 400 m a  jusante do local do acidente,  conseguir resgatar  os restos mortais de 11 militares (irreconhecíveis), seguidamente helitransportados para Bissau e sepultados no cemitério municipal, no talhão dos combatentes.

Náo sabemos se o comandante-chefe chegou a estar presente, como era sua intenção.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

Guiné 61/74 - P24043: Fauna & flora (22): Algumas boas notícias para os mais de 700 chimpanzés (ou "daris") do Boé, graças ao fantástico trabalho de conservação da Chimbo Fundation & Daridibo, com sede em Béli


Um pequeno documentário baseado em vários vídeos, obtidos por câmaras de vigilância,  de chimpanzés no Boé, Guiné-Bissau.  Narração, em fula, por Bacari Camará, que vive em Béli, e é gestor de projeto. Legendas em inglês.

Vídeo (12' 30''), da Foundation Chimbo, alojado no You Tube.  Aqui reproduzido com a devida vénia.


1. Temos dado aqui  alguma atenção à fauna & flora" da Guiné-Bissau, e em particular aos chimpanzés do Boé e do Cantanhez (temos 11 referências ao nosso "dari"),  

No tempo da guerra, entre 1961 e 1974, provavelmente nenhum de nós, antigos combatentes portugueses, deve ter visto um chimpanzé, a não ser infelizmente em cativeiro. São animais, primatas como nós, territoriais e sociais (e os mais próximos de nós, em termos genéticos e evolutivos) mas de difícil observação na natureza...

Oxalá o visionamento deste vídeo (falado em fula, com legendas em inglês) contribua também para sensibilizar os nossos leitores para a problemática da proteção do chimpanzé e da preservação do seu habitat. 

O chimpanzé da África Ocidental (Pan troglodytes)  é considerada uma espécie ameaçada, "criticamente em perigo".

Como diz um provérbio fula, uma única árvore não poder fazer uma floresta... Daí ser fundamental trabalhar em rede, envolver outras organizações, regiões, a sociedade civil e  o Estado da Guiné-Bissau, bem como empresas mineiras, parcerias (caso da ASI - Aluminium Stewardship Initiative) e países vizinhos, mas sobretudo a população local, que, no caso do Boé, é maioritariamente fula. 

A caça ilegal, a pressão demográfica humana, a construção de estradas e os projetos de mineração são alguns dos factores de risco para a preservação desta espécie.

Felizmente, ao que parece, têm  sido bem sucedidos os projetos da Chimbo Foundation and Daridibo no domínio da conservação desta e doutras espécies animais, emblemáticas da Guiné-Bissau, como por exemplo o leopardo (predador do chimpanzé).

Na primavera de 2022, 178 locais sagrados do Boé, que já estavam registados como ICCA (Áreas Indígenas e Comunitárias Conservadas), foram aceites como áreas protegidas de categoria III da IUCN (International Union for Conservation of Nature / União Internacional para a Conservação da Natureza) na WDPA (World Database on Protected Areas / Base de Dados Mundial sobre as Áreas Protegidas) (Ler mais sobre isto, no boletim informativo da Fundação, de maio de 2022.)

Mais de 50 estudantes e cientistas da Holanda, Alemanha, França, Bélgica, Índia, Brasil, Itália, Suíça, Portugal, Espanha, Senegal, Guiné-Bissau e Canadá, já realizaram pesquisas que contribuíram para a conservação do Boé.  


Doações são bem vindas:

Conta bancária

Stichting Chimbo

IBAN: NL05INGB0002734651

BIC: INGBNL2A

Contactos:

Telef +31-6-17280797 (The Netherlands)
E-mail: info@chimbo.org


2. Reprodução de uma notícia da Lusa / Porto Canal, 2/1/2015 (com a devida vénia...)

Câmaras revelam um dos últimos recantos de chimpanzés 
em terras lusófonas

Béli, Guiné-Bissau, 02 dez (Lusa) - Chimpanzés a tomar banho num lago, a encestar pedras como num "afundanço" de basquete entre ramos de uma árvore ou simplesmente em passeio.

São animais em vias de extinção a nível global, mas há horas e horas de vídeo a mostrar a intimidade destes primatas que habitam nas florestas do Boé, sudeste da Guiné-Bissau.

Nestes filmes há também leopardos a desfilar como numa passarela, imagens de búfalos, gazelas, javalis e o que parece ser a cauda de um leão - do qual já foram encontradas pegadas.

Os membros da fundação Chimbo ficam ansiosos de cada vez que penetram na densa vegetação para ler os cartões de memória das câmaras de vigilância: sabe-se lá que animais vão ver.

Alguns, como o leão, eram dados como extintos na Guiné-Bissau desde a guerra pela independência, na década de 60 e até 1974.

Há que aguçar os sentidos: "os chimpanzés gritam quando se deitam e quanto se levantam", explica Piet Wit, ecologista, especialista em Agronomia e Gestão de Recursos Naturais, um dos responsáveis pela Chimbo.

Assim, quando a noite cai é possível saber aproximadamente em que árvores fazem os ninhos para dormir, para de manhã a busca avançar até perto desses locais e esperar que acordem.

A sede da Chimbo está montada na aldeia de Béli e dali parte a maioria das saídas de campo, mas é difícil deitar olho aos chimpanzés.

"Aqui no Boé, por cada cinco saídas, há talvez duas em que os consigo observar. E por vezes só ao longe", descreve Piet.

Daí a extrema utilidade da rede de câmaras de vigilância. A rede foi montada há cinco anos, primeiro em dez locais, hoje abrange 25 e com outras tantas câmaras prontas a entrar em ação, se necessário.

"Não as usamos todas em simultâneo porque não teríamos capacidade para as gerir", explica. Só com o conjunto que está ativo "já há muitas centenas de horas de vídeos acumuladas para ver".

Esta história de observação e preservação da natureza começa com um momento trágico na vida de Piet e da esposa, Annemarie Goedmakers.

David, filho do casal holandês, faleceu inesperadamente em 2006, aos 18 anos, devido a um problema vascular na aorta. Juntos já tinham passado férias na Guiné-Bissau. Annemarie, presidente da Chimbo, bioquímica e ecologista, ainda hoje mostra a foto de David a dormir num ninho de chimpanzé quando tinha 10 anos.

"Já tínhamos a ideia de fazer algo pelo Boé, mas depois de ele morrer, isso ganhou outra força".

Um dos primeiros trabalhos da Chimbo, com financiamento da MAVA -- Fundação para a Natureza, e outros doadores, consistiu num levantamento que permitiu chegar à estimativa de que haja cerca de 700 chimpanzés no Boé.

Nos últimos dois anos, o trabalho tem sido financiado por um dos institutos Max Planck, no caso, o Instituto Para a Matemática nas Ciências, com sede em Leipzig, Alemanha.

A Chimbo está incluída no grupo de pesquisa dedicado exclusivamente aos chimpanzés. "O nosso foco é o chimpanzé. Vemo-lo como uma espécie que é o símbolo de todo um meio-ambiente importante e com benefícios para as pessoas que aqui vivem", conclui Piet.

LFO // EL
Lusa/fim

[ Seleção / revisão e fixação de texto / negritos, para efeitos de publicação neste blogue: LG]
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