Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52
1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 30 de Setembro de 2025:
Queridos amigos,
Se bem que ainda com a separação de Governador de Comandante-Chefe, o Boletim Oficial não escamoteia novas realidades advindas da luta armada. São cada vez mais existentes os créditos extraordinários e o reforço de verbas, o elenco de louvores atribuídos por Vasco Rodrigues revelam a intensidade da luta armada, sobretudo no sul, mas também no norte. Quanto ao mais, crescem os serviços, o Boletim Oficial não para de engordar pois a legislação promulgada pelo Ministério do Ultramar contempla todas as parcelas, há concursos, nomeações de autoridades gentílicas e outras mais, a produção de mancarra passa a ser mais vigiada, intensifica-se o controlo policial dos hotéis às casas de pasto, cresce igualmente a vigilância nas migrações, o estado de sobressalto é enorme. Procurei através da leitura do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa ver se encontrava alguma explicação cabal para a partida de Vasco Rodrigues, que governou a Guiné durante 16 meses. Lê-se nos discursos de despedida que os quadros da administração, o setor comercial e outros ficaram surpresos com a decisão de Lisboa, a pequena elite guineense sentia-se bem com Vasco Rodrigues, porventura o conflito com o Comandante-Chefe passava-lhes à margem.
Um abraço do
Mário
Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1964, 1.º semestre (79)
Mário Beja Santos
1963 é o primeiro ano da luta armada, a economia e o sistema financeiro da Guiné revelam debilidades que ninguém suspeitava. Para colmatar défices sucessivos, o Boletim Oficial refere com frequência o reforço de verbas, créditos especiais e o II Plano de Fomento inclui tabelas extraordinárias que constituem recursos para financiamento de programas: verbas para projetos de agricultura, silvicultura e pecuária, eletricidade e indústrias, comunicações e transportes, instrução, equipamento dos serviços públicos.
O Boletim Oficial n.º 1, de 4 de janeiro, insere a Portaria n.º 1609, prende-se com a necessidade de adensar a ocupação administrativa, são criados postos administrativos. No concelho de Catió em Tombali, com sede na povoação do mesmo nome; Como, com sede na povoação de Cauane, abrangendo todo o território da ilha do Como; Cabedú, com sede na povoação do mesmo nome, desintegrado da área do posto administrativo do Bedanda; Guileje, com sede na povoação do mesmo nome, desintegrado da área do posto administrativo do Bedanda. Na Circunscrição de Fulacunda: em Forreá, com sede na povoação da Aldeia Formosa, desintegrada da área do posto administrativo de Buba; Darsalane, com sede na povoação do mesmo nome, abrangendo parte do território da península de Cubisseco, desintegrado da área do posto administrativo de Cubisseco. Como se vê as decisões políticas já aparecem marcadas pela ilusão da ocupação do território.
Em 11 de abril, constante do Boletim Oficial n.º 15, anuncia-se a chegada de um chefe de Brigada da PIDE e da apresentação de dois radiotelegrafistas da mesma corporação. É patente o poder de que o Governador dispõe de nomear ou promover autoridades gentílicas, nesse mesmo Boletim Oficial são nomeados José de Sá, Regedor de Bissá, do regulado de Biombo, alferes de 2.ª linha e Amadu Baldé, alferes de 2.ª linha, promovidos a tenentes de 2.ª linha. Também é nomeado o chefe geral dos Mancanhas de Bissau, Cambanco Sanca, natural de Có, e residente nesta cidade nomeado alferes de 2.ª linha.
No Boletim Oficial n.º 17, de 25 de abril, atenda-se ao significado da Portaria n.º 1639, onde se diz que se encontrava dispersa a legislação que regulava o funcionamento dos hotéis, pensões, restaurantes, tabernas e casas de pasto. E diz-se que na previsão do constante acréscimo populacional da província, nomeadamente da cidade de Bissau, se venha a criar atividades comerciais, estas devem ficar sujeitas ao controlo policial. É assim aprovado o Regulamento Policial da Província da Guiné e pode ler-se que nenhum estabelecimento poderá abrir ao público ou funcionar sem que se tenha munido de uma licença passada pelo Comando do Corpo da Polícia de Segurança Pública, quando situado no concelho de Bissau ou pela autoridade policial respetivamente quando situado nos restantes concelhos.
Vejamos agora o Boletim Oficial n.º 17, de 29 de abril, o Governador, em vias de o deixar de ser louva gente com comprovada bravura e atos de heroísmo:
“Cumprida a sua missão na marinha privativa da Guiné, recolheu à metrópole o marinheiro fogueiro-motorista António da Silva Barroso. Como encarregado do navio-motor Corubal, cujas obras-vivas se achavam em estado deficiente, navegou em más condições de tempo e esteve sob acção de fogo intenso de grupos de terroristas, emboscados nas margens dos rios e canais do sul; nunca hesitou, contudo, em cumprir pronta e pontualmente todos os serviços que lhe foram determinados, dando exemplo vivo de como se enfrenta o perigo com simplicidade, valentia e decisão, e contribuindo valorosamente para que pudessem ser mantidas as carreiras regulares de navegação nas águas da província.” E recebe louvor.
Novo louvor: “No dia 17 de dezembro de 1963, quando conduzia a vedeta J dos Serviços da Marinha da província em operações de cooperação com as forças armadas, o patrão n.º 68 dos mesmos serviços, António da Silva, teve procedimento que se considera merecedor do relevo adequado. Devido a circunstâncias fortuitas a referida embarcação encalhou próximo do desembarcadouro de Fulacunda, ficando sujeita a nutrido tiroteio parte dos terroristas emboscados nas margens; foi, por isto, evacuada pelo pessoal que transportava, a fim deste procurar melhor abrigo. Todavia, o patrão manteve-se a bordo sozinho, em situação extremamente crítica e enfrentando graves riscos.” E recebe louvor.
Terceiro louvor: “No dia 21 de fevereiro de 1963, quando comandava uma diligência policial, foi mortalmente atingido, perto da povoação de Branol, área da circunscrição de S. Domingos, pelo fogo de um grupo de bandoleiros vindos do território vizinho, o Cabo da polícia administrativa Mamadu Conté.
Condecorado com a medalha de cobre de dedicação e mérito pela conduta que teve durante os acontecimentos de Ingorei, em 1949, o Cabo Mamadu Conté foi sempre um elemento de grande valor, cumprindo com acerto, decisão e lealdade todas as missões que lhe foram confiadas. É louvado e promovido a título póstumo ao posto de alferes de 2º linha.”
Quarto louvor: “No dia 21 de fevereiro de 1963, quando tomava parte numa diligência policial, foi mortalmente atingido, perto da povoação de Branol, área da circunscrição de S. Domingos, pelo fogo de um grupo de bandoleiros vindos do território vizinho, o guarda da polícia administrativa João Manjaco.
Considerado que o guarda João Manjaco, embora de recente nomeação, foi sempre activo, leal, cumpridor e disciplinado, e atendendo a que se declarou voluntário para o serviço em que viria a perder a vida, é louvado e promovido a título póstumo ao posto de Cabo.”
Quinto louvor: “A povoação de Fulacunda tem sido alvo de ataque de grupos terroristas na reacção aos quais é de salientar o comportamento da polícia administrativa, que vem atuando com firmeza, valentia e decisão. O Governador manda louvar os Cabos Artur Lamine Sané e Fodé Turé e os guardas de 2.ª classe Bucari Baldé, Abdulai Camará, Mamadu Candé, Mamadu Sera e Amadu Baldé, todos da polícia administrativa e em serviço da circunscrição de Fulacunda, pela firmeza, valentia e decisão que têm demonstrado no cumprimento dos seus deveres, revelando, de baixo de fogo, grande coragem, iniciativa e espírito de disciplina.”
Sexto louvor: “O administrador de posto Fernando Rodrigues Barragão vem exercendo, por substituição, as funções de administrador do concelho de Catió, em cujo desempenho evidenciou qualidades e prestou serviços que merecem ser destacados. Conhecendo bem todos os aspectos da função administrativa, da qual possui larga experiência, servido por inteligência lúcida, coragem, energia, decisão e desassombro, o administrador Barragão, a despeito das dificuldades decorrentes das condições de insegurança reinantes na sua área, desenvolveu actividade incansável na colheita e prestação de informações, na recuperação de populações, na salvaguarda de vidas e bens, na preparação e execução de medidas conducentes à melhoria da situação económica social do concelho que lhe está confiado.” E recebe louvor.
Sétimo louvor: “No dia 18 de julho de 1963, cerca da meia-noite, quando um numeroso grupo de terroristas atacou a sede do posto administrativo de Encheia, o respectivo administrador, José Avelino de Sousa, teve conduta corajosa pois, apenas coadjuvado por empregado comercial e por um guarda administrativo, repeliu pelo fogo os assaltantes, tendo capturado uma pistola metralhadora, além de outro armamento e munições, e causando ao inimigo um morto e vários feridos.” É louvado pelas notáveis qualidades de valentia.
Oitavo e último louvor: “O adjunto de administrador de posto Carlos Augusto da Cunha desempenhou, em grau de interinidade, por longo período e por forma que merce relevo o cargo de administrador do posto de Cubisseco.
Embora em condições extremamente difíceis, decorrentes da insegurança reinante na área que lhe esteve confiada, no cumprimento dos seus deveres, sendo muito de salientar o trabalho realizado para a protecção e recuperação das populações e as providências tomadas para alojamento e manutenção de quantos se acolheram à sede do posto. Os melhoramentos públicos tiveram nele um esforçado realizador, destacando-se o novo cais e respectivo acesso, a iluminação eléctrica de Empada, o prolongamento da avenida principal e a construção de casas para abrigar os que perderam as suas por acção dos terroristas.” Louvor pela muita competência profissional, coragem e espírito de sacrifício.
Pelo Boletim Oficial n.º 22, de 30 de maio, foi aprovado o Regulamento para a atribuição do Prémio Revelador da Guiné, para galardoar os cidadãos portugueses que se distingam por atos de abnegação ou heroísmo, praticados na Guiné em defesa da integridade da Nação.
Ficamos em maio, juntamos junho ao 2.º semestre.
Partida do Governador Vasco Rodrigues, esteve na Guiné cerca de 16 meses
Chegada do novo Governador, Brigadeiro Arnaldo Schulz
Mancebo Felupe com um dos seus penteados característicos: cabelo empastado em azeite de palma e lama, formando uma carapuça, guarnecida de discos metálicos em cruz; no topo, um carro vazio de linhaDançarino com a máscara Nimba
Rapariga Felupe com a dentadura limada
Armadura do tubarão serra
Mulher Pajadinca
Estas cinco imagens foram retiradas de números da Revista do Centro Cultural da Guiné Portuguesa, 1964
(continua)
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Nota do editor
Último post da série de 11 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27812: Historiografia da presença portuguesa em África (520): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1963, 2.º semestre (78) (Mário Beja Santos)








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