
Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52
1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 5 de Março de 2026:
Queridos amigos,
Não sei que preguiça me deu para não ter oportunamente dado uma notícia útil sobre este acontecimento cultural de gabarito que foi a exposição dedicada a Rogério Ribeiro e o neorrealismo intitulada Fazer Crescer a Vida, que estava patente no Museu de Vila Franca de junho a outubro do ano passado. Mais absurdo ainda é o meu comportamento por ter voltado mais duas vezes para desfrutar da arte do mestre que tanto venero. O Museu contou com o património em poder dos herdeiros de Rogério Ribeiro onde está este labor de sua juventude e que comprovam que o artista plástico só tinha por cânone as representações de um povo. O seu ativismo social assim se exprimiu, ele é um companheiro de ideias neste período de comunistas e homens sem partido que agitavam a bandeira do realismo social. Vendo estes trabalhos, sente-se já a sua grande abertura a experiências, tudo o que se irá metamorfosear na cerâmica, na litografia e linogravura, nas artes da gravura, no desenho de ilustração, algo culminará num projeto maravilhoso que ele dirigiu no Almada velho, a Casa da Cerca.
Um abraço do
Mário
Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (248):
Notícia póstuma de uma notável exposição dedicada a Rogério Ribeiro - 1
Mário Beja Santos
Tenho uma profunda admiração por todo o legado artístico e poder criador de Rogério Ribeiro (1930-2008). Quando era responsável por uma página inteira do Jornal de Notícias, nos tempos do grande formato, havia uma secção dedicada a eventos artísticos e culturais a quem eu reconhecia confluência para os arquétipos da sociedade de consumo de massas; entrevistei então Rogério Ribeiro que dirigia a Casa da Cerca, hoje um património cultural de onde se tem, a partir do Almada velho, a mais bela vista de Lisboa fora de Lisboa. Mestre Rogério Ribeiro distinguia-se pela construção de um património artístico, onde primava uma importantíssima coleção de desenho contemporâneo, a realização de exposições envolvendo grandes figuras da arquitetura e das artes plásticas, isto num ambiente envolvido pelo chão das artes, isto é, uma natureza viva onde está implantada alguma da matéria-prima com que os artistas plásticos trabalham, enfim, uma originalidade na articulação da natureza com a arte feita pelo homem.
Decorreu no Museu do Neorrealismo uma exposição intitulada Fazer Crescer a Vida, Rogério Ribeiro e o neorrealismo, aconteceu entre finais de maio e outubro do ano passado. A tudo assisti na inauguração, uma apaixonante apresentação feita por David Santos, o diretor científico da casa, lá voltei duas vezes, e sabe-se lá por que negligência ou inércia fui demorando a intenção de pôr por escrito a chamada de atenção para este acontecimento cultural de gabarito, ainda por cima acompanhado de um catálogo de referência. Penitencio-me da minha falta, o que se segue não passa de uma tentativa de redenção.
Naqueles anos de 1950, eram múltiplas e divergentes as vanguardas artísticas, os princípios ideológicos primavam ou eram contestados. Houvera a rotura com o figurativismo graças ao cubismo, ao futurismo, ao construtivismo, ao expressionismo e o abstracionismo; entrar em cena uma estética figurativa assente num outro modo de ver o realismo, aí assentaram artistas do comunismo e do socialismo, ou não comprometidos explicitamente, mas companheiros de ideias. Um realismo social que conheceu debate interno, aconteceu em Portugal no fim da década com a chamada polémica interna do neorrealismo, isto numa altura em que também se impunham novas correntes estéticas, caso do surrealismo e as expressões abstratas. Rogério Ribeiro era então um jovem artista que irá abraçar o real, será tocado do trabalho dos sargaceiros e das sargaceiras.
Como se escreve no catálogo, ele cumpre em 1951 e em 1952 serviço na Administração Militar da Póvoa de Varzim. Nas praias da região observa a recolha do sargaço, trabalho duro que do mar recupera algas e limos para fertilizar as terras agrícolas. Tais atividades irão preencher um dos módulos da exposição intitulado Mar e Sargaço. A imagem da capa do catálogo é exatamente uma sargaceira, olha-nos de frente, como se tivesse interrompido o trabalho árduo, exibe umas mãos quase másculas, excessivas, o que nos remete para a dimensão dos volumes físicos desproporcionados, caso de O Gadanheiro, pintura de Júlio Pomar.
O que podemos apreciar é que o artista não está confinado a um só cânone, o conteúdo, a grande mensagem é o trabalho e em que condições, ele não se limitará ao óleo ou ao desenho, espraia-se pela cerâmica, pelas ilustrações, será um grande animador da gravura, um apaixonado pela linogravura e litografia, um eterno experimentador da ilustração. O conteúdo é sempre o povo, acrescenta-se aos gestos quotidianos do trabalho o lazer, há uma linha poética constante, entre a vitalidade desses trabalhos duros, como ele revela com as debulhadoras, os construtores de naus, a apanha da azeitona. Pois bem vamos entrar num território de mar e sargaço.
Texto sobre o módulo Mar e Sargaço
Temos pescadores, mulheres cosendo redes, sargaço e sargaceiras, naus, e falando de naus veja-se a agilidade das formas, é uma plasticidade que nos remete para um traço que torce e retorce e distorce, mas que não nos deixa olhar hesitante, são mesmo barcos.Falando sobre o seu pai, e quanto ao período de 1947-1953, a filha, Ana Isabel Ribeiro, revela documentos do pai sobre este período. Retenho só um parágrafo:
“A convicção da possibilidade de a pintura poder, em determinados momentos, como os revolucionários, ser portador de um sentido aglutinador e mobilizador de vontades, foi algo que o meu pai jamais esqueceu. Foram dezenas os murais que pintou com outros artistas, um pouco por todo o país, após a revolução do 25 de abril. Lembro-me bem dos baldes de água que lhes levava para poderem lavar os pincéis, ou de quando perguntava ao meu pai o que podia fazer, e ele me passava uma trincha para as mãos e dizia: ‘Enche isso aí de azul!’.” Retive este parágrafo porque acho que há qualquer coisa de muralista nas debulhadoras acima, como iremos depois ver em pastores e podadores e mondadeiras, é uma verdadeira épica pastoril onde não se esconde a apologética do social.
Texto que abre a secção Terra e Campesinato
(continua)
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Nota do editor
Último post da série de 14 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27821: Os nossos seres, saberes e lazeres (726): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (247): A câmara clara e a câmara escura de manhã ao anoitecer: Acasos e descasos de exultação do fotógrafo remendão (Mário Beja Santos)














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