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sábado, 6 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28075: Guiné-Bissau, hoje: factos e números (9): caju, a nova "semente do diabo" ? - Parte III


1. Na sua página do Facebook, Tita Pipoka (ativista e empreendedora social,a viver em Bissau,  e que tem mais de 200 mil seguidores!), esvreveu em 24 de março de 2026, 16:15:

Eu sou Tita Pipoka… filha da terra. Cresci numa família de agricultores, onde o som da campanha de caju não é apenas trabalho, é sobrevivência.

A castanha de caju representa cerca de 90% das exportações do país. Um saco de caju… por um saco de arroz. E assim passa mais um ano.

Mas será justo? Como é que um país que exporta quase toda a sua riqueza agrícola… continua dependente para se alimentar? Como é que quem produz tanto… vive com tão pouco?

A verdade é dura: o agricultor é a base de tudo… mas é quem menos ganha.

2. Recordemos aqui alguns dados económicos e fianneeiros respeotantes ao caju (ou castanha de caju) na Guiné-Bissau

É, reconhecidamente, e de há muito (há 30/40 anos) a principal riqueza da Guiné-Bissau E ttem um forte potencial de desenvolvimento. Com esceção do arquipélago dos Bijagós e demais ilhas,  o caju é produzido em todas as regiões do país, e muito em esepcial presente em todas as terras secas. 

  • Podução: c. 300 mil toneladas (2021) de castanha "in natura";
  • Área: c. 513,5 mil hectares;
  • Nº de produtores: mais de 650 mil (2,5% dos quais são mulheres);
  • Produtividade (baixa): entre 500 e 600 kg/ha. 
  • A grande maioria dos agricultores da Guiné-Bissau está envolvida e vive na produção de caju;
  • O país exportou um volume de 231 2 mil toneladas em 2021 e 235 mil  toneladas em 2022;
  • 14 unidades de processamento estão registadas em 2022, das quais 12 unidades estão operacionais para uma média de 20.000 toneladas de castanhas "in natura"  processadas, ou menos de 10% da produção;
  • constitui a maior fonte de receitas fiscais do Estado;
  • funciona como  principal motor da balança comercial e da entrada de divisas.
De acordo com dados da Agência Nacional do Caju da Guiné-Bissau, citados pelo Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa (Macau) a produção (=200 mil toneladas, em 2022) repartiu-se assim pelas zonas do país:

  • Zona Norte (regiões de Biombo, Cacheu e Oio) > 54,6%
  • Zona Leste (regiões de Bafatá e Gabu) > 28,5%
  • Zona Sul (regiões de Quínara, Bolama e Tombali) > 16,9 %
Total= 100,0%

A Guiné-Bissau exporta praticamente toda a produção de caju em casca, por que não tem capacidade para o processar. O ano de 2022 foi favorável. O preço médio pago aos produtores  variou entre 450 e 600 Francos CFA por kg (1 EUR ≈ 655 FCFA em 2022; isso equivale a aproximadamente 0,69 a 0,92 EUR/kg).


(1) Impacto económico e financeiro: o caju representa:
  • 18% do PIB;
  • 90% das receitas de exportação;
  •  33% do rendimento familiar;
  • a  taxa de utilização das unidades instaladas no país gira em torno de 25%;
  • o preço ao produtor das nozes cruas está entre 375 e 500 farncos CFA/kg em 2022;
  •  o valor dos impostos de exportação é de 15 FCFA/kg para nozes cruas e 8 FCFA/kg para amêndoas.


(2)  
Já ouvimos  chamar ao caju, ou melhor, à castanha de caju, o "petróleo" ou
o "ouro branco" da Guiné-Bissau. É uma metáfora, que tem diferentes leituras. 

Toda a economia (cabeça, tronco e membros) depende um único corpo, que é produção e a comercialização deste produto. 

Poucos países do mundo dependem tanto de um único produto agrícola, que ainda por cima não fazia  propriamente parte da dieta tradicional dos guineenses.

Será o caju uma nova "semente do diabo", tal como a "mancarra", deixada pelos "tugas" antes de se irem embora ? Uma nova "maldição" ?


(3) Em termos sociais, estima-se que:

  • mais de 80% da população ativa rural esteja ligada direta ou indiretamente à fileira do caju;
  • e que cerca de  40% a 50%  das pessoas dependam dele para sobreviver, num país com pouco mais de dois milhões de habitantes.

(4) A campanha do caju é, na prática, “a estação económica” do país. 

Quando a campanha corre bem:
  • há mais circulação de dinheiro nos tabancas e mercados;
  • aumenta o comércio informal;
  • sobem as importações de arroz e bens de consumo;
  • o Estado respira melhor financeiramente.

Quando a campanha corre mal (c0mo vai acontecer provavelmente este ano): 
  • toda a economia guineense abana;
  • sendo isso devido sobretudo a factores exógenos,  portanto fora do contro dos produtores (como o caso das secas, chuvas fora de tempo, pragas, crise política ou queda do preço internacional) 

Há muito que o próprio Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial insistem na necessidade urgente de diversificação económica, precisamente por causa desta btrutal dependência extrema.

Há ainda um problema estrutural importante: a Guiné-Bissau exporta sobretudo castanha em bruto, praticamemnte sem qualquer transformação industrial local. 

Quem ganha com o negócio0mais dinheiro são os países que a processam (a Índia e o Vietname)   transformando-a em amêndoa de caju para exportação mundial. E, claro, os intermediários locais.

Ou seja: o camponês guineense produz a matéria-prima; mas o maior valor acrescentado, emprego industrial e lucro ficam fora do país.

É um velho problema de economia colonial ou neoextrativa: exportar produto bruto e importar quase tudo o resto.

(5) Apesar disso, o cajueiro tem uma importância "quase civilizacional"  na Guiné-Bissau contemporânea:

  • fixa populações no interior;
  • gera rendimento monetário onde há pouco emprego no sector formal;
  • permite pagar escola, arroz, roupa, medicamentos, telecomunicações;
  • e sustenta grande parte da economia informal das “bideras”, comerciantes e pequenos transportadores.

Curiosamente, o “falso fruto” do caju (a maçã de caju) continua subaproveitado. Há produção artesanal de vinho, sumos e aguardente (“cana de caju”), mas em escala reduzida. O "ouro" económico continua a ser a castanha com casca!

E há, de facto,  um paradoxo desconcertante, como diz a Tita Pipoka, troca-se caju por arroz... Até quando ? A 
Guiné-Bissau é um dos maiores produtores mundiais de castanha de caju "per capita"… mas continua entre os países mais pobres do mundo. E pior: depende dos outros para se alimnentar...

Isso mostra bem como produzir uma mercadoria  agrícola não basta para criar desenvolvimento sólido sem:
  • transformação industrial;
  • infraestruturas (incluindo rede rodoviária);
  • crédito;
  • apoio técnico;
  • estabilidade política;
  • e capacidade do Estado.

(Pesquisa: LG +   Fórum Macau +  ChaGPT / Open AI + Vibe / Mistral AI)
(Condensação, revisão/ fixação de texto, negritos, links, título: LG)

___________________

Nota do editor LG:

Último poste da série >  3 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28067: Guine-Bissau, hoje: factos e números (8): caju, a nova "semente do diabo" ? - Parte II

2 comentários:

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Este é o mundo em que vivemos... E não há volta a dar ?

Na Guiné-Bissau, o preço da castanha de caju é fixado pelo governo. Na campanha oficial, o valor mínimo garantido ao produtor ronda os 410 francos CFA por quilo (cerca de 0,63 euros).

Na Europa, o preço do caju para o consumidor final varia, mas atinge frequentemente ou ultrapassa os €30 por quilo, dependendo de diversos fatores, mas também do "valora crescentado" e do tipo de produto à disposição do consumidor (caju natural, com sal, torrado, biológico...).

Os preços médios por quilo em Portugal e no mercado europeu oscilam da seguinte forma:

Caju Cru/Natural: varia geralmente entre os €12 e os €18.
Caju Torrado e Salgado: situa-se habitualmente entre os €20 e os €25.
Caju Premium, Selecionado ou Bio (Biológico): pode facilmente atingir ou ultrapassar os €30.

Estamos a falar de 25 a 50 vezes mais! Esta diferença colossal entre a matéria-prima e o produto final deve-se a vários fatores. O valor acrescentado ocorre maioritariamente nos países consumidores. O caju é colhido nos países de origem (maioritariamente em África e no Brasil) e, posteriormente, exportado em bruto. A subida de preço até à nossa mesa justifica-se por:

(i) Processamento complexo: a castanha é colhida com casca (castanha bruta) e passa por um processo industrial complexo e maioritariamente manual para extrair o miolo; secagem e torrefação.

(ii) Logística e intermediários: a castanha com casca (em bruto) é quase toda exportada (sobretudo para a Índia e Vietname), implicando custos de frete, contentores e margens de lucro para vários intermediários até chegar à Europa;

(iii) Embalagem e retalho: o produto vendido em Portugal já está embalado e fracionado em pequenas porções, o que encarece o preço ao consumidor final.

Há lojas em Lisboa do "fair trade" / "preço justo", como a Muka (passe a publicidade), onde se pode comprar o caju biológico e certificado aparentemente mais em conta...e beneficiando, teoricamente, o produtor.

(...) Certificação Bio e Faitrade (comércio justo).

Origem: África (Guiné Bissau/Burkina Faso).

Escolhemos esta origem pois para nós era importante que:

- o caju tivesse a certificação fairtrade (para além de bio), pela qual pagamos um preço acrescido, de forma a garantir salários dignos, segurança física dos trabalhadores e não utilização de trabalho infantil;

- origem em pequenos produtores e processado localmente.

Grande parte do caju que chega à Europa, "made in" Vietname e na Índia é, na verdade, cultivado em África e depois enviado para esses países para ser processado/embalado.

Preferimos encurtar estas distâncias e garantir que fica uma maior parcela do valor de venda no país que o cultiva e junto dos seus produtores.

O caju é embalado em vácuo para uma melhor preservação. Validade: 12 meses. (...)

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Infelizmente, a situação não é única: passa-se o mesmo com a nossa agricultura, as nossas pescas... O preço dos nossos vinhos são escandalosamente altos nos restaurantes, mas o mesmo se passa com o peixe, o marisco, os produtos fruto-hortícolas...