Pesquisar neste blogue

Mostrar mensagens com a etiqueta Balenguerez. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Balenguerez. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28216: (De) Caras (250): Luís Mário da Silva e Sá (c. 1948-1970), alf mil 'cmd', 26ª CCmds (Brá, 1970/72), cruz de guerra de 2ª classe a título põstumo: peço ao escritor Angelino Santos Silva que nos fale dele e das circunstâncias da sua morte (José Macedo, EUA)


Flâmula da 26ª CCmds. O único representante desta subunidade na Tabanca Grande é, até agora, o Angelino Santos Silva, ex-fur mil 'cmd', escritor,  autor de "Geração Afro" (sob o pseudónimo Reboredo) (2026)



1. Mensagem de José Macedo ( ten fuzileiro especial,  DFE 21, Cacheu e Bolama, 1973/74); natural da Praia, Cabo Verde, vive nos EUA desde 1977; é jurista):




O Zeca Macedo, em 1971, quando frequentava o 1º ano da  Escola Naval (que não completou), tendo ingressado nos fuzileiros.



1.1. Data - quarta, 17/06/2026, 21:22
Assunto - Informações sobre um camarada morto em combate


Luis, mantenhas. Estive com um amigo e camarada da Escola Naval, engenheiro construtor naval, que me contou que o irmão mais velho, Luís Mário da Silva e Sá, alferes 'comando', foi morto em combate em 1970, na zona de Cacheu (*). 

Ele disse-me que o irmão pertencia à 26ª Companhia de Comandos.  (...)

Peço a tua ajuda para me dares os dados que haja sobre sobre a morte do Luís e o contacto de algum camarada que o conheceu na Guiné.

Um muito obrigado.


PS - Em breve te enviarei um pequeno post sobre a Eugénia Espirito Santos que conheci na Guiné
.


1.2. Nova mensagem do José Macedo (ou Zeca, conhecemo-nos desde 1971):

Data - 29/06/2026, 19:19

No nosso blogue "encontrei" o nome de um membro da 26ª Companhia de Comandos, à qual pertencia o alferes Luis Mário, irmão do meu camarada. Trata-se do escritor Angelino dos Santos Silva. Agradeço-te que, se possível, me des dês as informações para que o possa contactar.

2. Resposta do editor LG:

Zeca: como tu, de resto, já tinhas entretanto  dado conta,  há uma justa homenagem ao ex-alf mil inf 'cmd'  Luís Mário da Silva e Sá no portal UTW - Ultramar TerraWeb. Dos Veteranos da Guerra do Ultramar, na série "Honra e Glória". Entretanto, já te pus em contacto  com o Angelino.

Eis alguns dados biográficos Luís Mário Silva e Sá (que deve ter nascido em 1948, tal como o Angelino): 

(i) natural de Panóias de Cima, Guarda; infelizmente não temos nenhuma foto dele (**):

(ii) foi alf mil 'cmd', tendo pertencido, de facto, à 26a. CCmds (1970/72), comandada pelo cap mil inf 'cmd' Alberto Freire de Matos:

(iii) com apenas 6 meses após a sua chegada ao CTIG, faleceu no dia 24 de setembro de 1970, no Hospital Militar 241, em Bissau, em consequência de ferimentos graves adquiridos em combate na mata de  Balenguerez, na região do Cacheu:

(iv) louvado e agraciado, a título póstumo, em 1971, coma  medalha de cruz de guerra de 2ª classe por feitos em combate; excerto do teor do louvor:

(...) "Porque, no dia 24 de setembro de 1970, na Província da Guiné, quando a força que comandava caiu debaixo de intenso fogo inimigo, conseguiu, a peito descoberto, manobrar e instigar o seu Grupo de Combate, estando sempre presente onde a sua acção era mais necessária, a ponto de, ao ver a urgência do uso de fogo de morteiro, não hesitou em colocá-lo em campo aberto, protegendo destemidamente com o corpo e sacrifício da própria vida a arma e o apontador, contribuindo, grandemente, para fazer gorar os intentos do adversário e que não resultassem mais perdas para as nossas tropas.

"Combatente de eleição e chefe estimado pelos superiores, camaradas e subordinados, evidenciou sempre o alferes Sá, em todos os contactos com o inimigo, dotes de excepcional coragem, sangue-frio, serena energia debaixo de fogo e gosto pelo risco, muito honrando os Comandos a que pertenceu e o Exército que tão devotadamente serviu."

Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 5.° volume: Condecorações Militares Atribuídas, Tomo VI: Cruz de Guerra (1970-1971). Lisboa, 1994, pp. 540/541.

___________________

Notas do editor:


(**) Último poste da série : 8 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27999: (De) Caras (249): Duas referências na história da capelania militar no CTIG: Bártolo Pereira (QG/CTIG, Bissau, 1965/67) e Arsénio Puim (CCS/BART 2917, Bambadinca, 1970/71)

quinta-feira, 6 de março de 2014

Guiné 63/74 - P12802: Acordar memórias (Joaquim Luís Fernandes) (1): Monte Real, 8 de Junho de 2013, o primeiro contacto com a Tertúlia

1. Em mensagem do dia 24 de Fevereiro de 2014, o nosso camarada Joaquim Luís Fernandes (ex-Alf Mil da CCAÇ 3461/BCAÇ 3863, Teixeira Pinto, 1973 e Depósito de Adidos, Brá, 1974), enviou-nos o primeiro texto para a sua série Acordar memórias:


ACORDAR MEMÓRIAS

1 - O PRIMEIRO CONTACTO COM A TERTÚLIA

Depois de há quase 40 anos ter deixado para trás a Guiné e o serviço militar obrigatório, com o sentimento de um esforço inglório e vão (que me tinha sido exigido em favor da Pátria, por um regime político e um governo que deplorava), enlevado no sonho de um país renovado, livre, democrático e feliz, que a “Revolução de 25 de Abril” prometia e ter optado pelo afastamento e esquecimento de tudo o que se relacionasse com a tropa e me recordasse a minha condição de ex-combatente na Guiné, talvez porque as desilusões tenham chegado a um ponto nunca esperado, iria estar pela primeira vez num encontro convívio de ex-combatentes da Guiné, que faziam parte de um Blogue que descobrira recentemente.

Se, há alguns meses, me dissessem que isto iria acontecer, eu negaria. Não estava nos meus interesses e planos.
O que se passara entretanto para mudar de atitude? Mais à frente explicarei.


Bissau, Maio de 1974 – Zona dos edifícios comerciais da baixa, perto da UDIB. Após os acontecimentos de 26 de Abril de 1974 em Bissau, principalmente após a chegada do Brigadeiro Carlos Fabião, as manifestações anticoloniais começaram a tomar expressões bem visíveis, fazendo-nos sentir que estávamos a mais e deveríamos regressar quanto antes à nossa terra. Era um sentimento que se contagiava.


8 de Junho de 2013, aqui estava eu agora em Monte Real, timidamente, como é o meu padrão de comportamento quando entre estranhos. Para melhor me integrar, tinha decidido que iria participar na missa planeada para início do encontro na pequena capela das Termas. Neste ambiente não me iria sentir tão deslocado. Já conhecia duas das pessoas presentes: o Joaquim Mexia Alves e o jovem padre Manuel Henriques. Depois, havia o sentimento de que naquela Assembleia seriamos irmãos em Cristo, reunidos, para na comunhão da mesma fé, celebrarmos a Eucaristia de Ação de Graças pelo dom da vida, da nossa, da dos ausentes e sufragando a daqueles que já partiram. Foi uma boa opção. E foi um bom começo! 


Capela de Sta. Rita de Cássia –Termas de Monte Real – (Com a devida vénia ao seu autor, Joaquim Mexia Alves) 

Monte Real, 8 de Junho de 2013 - VIII Encontro da Tertúlia - Joaquim Luís Fernandes à direita da foto
Foto: Rui Silva

E mais uma surpreendente coincidência desse dia, veio adensar (ou iluminar) o meu espírito: - A Igreja celebrava, nessa data, o Memorial do Imaculado Coração de Maria, que relacionei com alguns dos postes lidos na véspera: (P7059 ; P8964; P10030), do camarada José da Câmara, que me impressionaram, recordando-me “A Senhora que nunca nos abandonou” e que, por sua vez, tinha relacionado com uma experiência sensorial/emotiva, vivida há uns 5 anos, que me “transportou” às matas do Balenguerez – um dia escreverei sobre isso.

(Quando as vivências pessoais se tornam quase evidências e sustentam o sentimento da Fé)


Maio de 1973- Orla sul da Península do Balenguerez, próximo de Bamoial, entre Teixeira Pinto e Cacheu. A intensa atividade operacional que nos era exigida, em perigosas e duríssimas missões, levou-nos algumas vezes ao quase limite das forças, próximos da exaustão e da loucura.


O que se seguiu não irei descrever com minúcia. Assisti a efusivos cumprimentos e abraços entre camaradas de tertúlia ou de armas, que deixavam transparecer boa disposição, grande camaradagem e amizade. Também me senti bem acolhido pela simpatia que me dispensavam, mas eu ainda não era daquela guerra; tinha caído ali um pouco de paraquedas e a razão principal que aí me levara estava a ser defraudada.

O que me tinha atraído a Monte Real era a possibilidade de poder encontrar algum ex-camarada, que me desse notícias daqueles rapazes com quem tinha partilhado, há 40 anos, medos e sacrifícios, nessas sofridas, perigosas e infindáveis caminhadas, nas matas da Guiné, da assombrosa Península do Balenguerez até às “barbas” da tenebrosa Caboiana.

Sentia e sinto a necessidade de saber deles, de os encontrar e estar com eles, para lhes manifestar o meu apreço e sentimento de gratidão, pela forma respeitosa com que me aceitaram no grupo (“os Americanos” 4.º Pel/CCaç 3461), se submeteram ao meu comando, sendo eu mais novo e inexperiente e me ajudaram a crescer. Tanto que haveria para falarmos e celebrarmos... Mas nem um encontrei.


Teixeira Pinto – 24 de Julho de 1973 – Desfile de continência aos ilustres Comandantes e Chefes na Tribuna de Honra, no dia da elevação da vila à categoria de cidade. (A função faz o órgão... e o figurão) – O meu Pelotão. 


Perante esta circunstância, limitei-me a indagar nos presentes os que tivessem estado em Teixeira Pinto e me falassem das suas vivências nesse local, mas também pouco consegui. Porém, o ambiente foi-me agradável. Boa comida e bebida, os convivas da mesa foram próximos, como se sempre nos conhecêssemos e tudo acabou bem. Este encontro foi para mim uma imersão e uma aprendizagem e vim carregado de livros.
Iria levar por diante uma nova etapa, depois de 40 anos de esquecimento. Iria acordar as minhas memórias e predispor-me a reviver a Guiné daquele tempo, onde muito sofrera, mas onde também fora feliz.

Depois de 10 meses de Teixeira Pinto, onde fui usado como carne para canhão e me atribuíram as mais perigosas missões, para as quais não tinha sido preparado, mas que “cumpri” bem, fui agraciado pela sorte e cumpri 10 meses em Bissau, como oficial de justiça, nos Adidos em Brá. Quase civil e com a companhias da minha mulher.

(Continua)

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Guiné 63/74 - P10030: Memórias e histórias minhas (José da Câmara) (31): Operação Sempre Alerta: a morte de um amigo diferente

1. Mensagem de José da Câmara* (ex-Fur Mil da CCAÇ 3327 e Pel Caç Nat 56, Brá, Bachile e Teixeira Pinto, 1971/73), com data de 6 de Junho de 2012:

Caro amigo Carlos Vinhal,
Junto encontrarás mais uma pequena história sobre as minhas memórias lá para os lados da Mata dos Madeiros.
Como sempre fica ao teu dispor fazer com ela o que bem entenderes.

Para ti, para os nossos camaradas, votos de muita saúde e de um bom verão.

Um abraço fraterno,
José


MEMÓRIAS E HISTÓRIAS MINHAS (31)

Operação Sempre Alerta: a morte de um amigo diferente

Era então o dia 25 de Junho de 1971. Os dois grupos de combate da CCaç 3327, que tinham estado a fazer segurança ao acampamento na Mata dos Madeiros, regressaram na manhã daquele dia. Sem o pessoal das transmissões, o que avolumava as suspeitas de que estava eminente uma operação de grande envergadura.

Como acontecia muitas vezes, durante a tarde fui ajudar na Secretaria. Gostava de o fazer. Para além de ser útil, mantinha alguma actividade que me ajudava a passar o tempo.

Ao cair do dia, o Sr. Cap. Rogério Alves entrou na secretaria. Vinha tenso e o seu semblante denotava preocupação. Carregava um punhado de papéis e mapas nas mãos que chapou, esse é o termo, em cima da secretária e à qual se sentou. Colocou os cotovelos no tampo e a cabeça entre as mãos. Era a imagem completa do desalento num homem que, pela sua dinâmica e trato fino, transmitia confiança e algum à-vontade. O que o levara àquele estado tinha que ser muito sério.

Pressentindo que estava ali a mais, levantei-me e dirigi-me para a saída. Ao passar junto da secretária do Capitão Alves, este, com um pequeno gesto, empurrou os mapas na minha direção.

Estaquei! Durante semanas andara com eles na Mata dos Madeiros. A diferença, a grande diferença, eram as linhas vermelhas estampadas nos mapas, que partiam em paralelo do nosso último acampamento da Mata dos Madeiros até ao fundo da Mata do Balenguerez.

Ali, pela confiança depositada em mim por aquele homem bom, tomei conhecimento antecipado da enormidade e dos perigos que aquela operação acarretava. Estava em marcha a operação “Sempre Alerta”.

Senti um calafrio enorme. Não pela operação que já todos esperávamos, mas pela forma como ia ser executada, para um sítio que desconhecíamos completamente. Com a duração de cerca de nove horas, seria executada por toda a Companhia, dividida em dois bigrupos em progressão paralela, com as duas linhas de penetração muito perto uma da outra. Não me recordo de alguma vez termos praticado esse tipo de progressão, daí a minha grande apreensão.

Conjeturando com os meus próprios pensamentos, decidi dar uma volta pelos arredores. Na parada, encontrei o Fur Mil André Manuel Lourenço Fernandes, do 3.° GComb, em amena brincadeira com o seu amigo predileto, o Piriquito. Este, um tecelão amarelo ainda jovem, tinha sido apanhado pelo André, que o alimentou e matou a sede. Enquanto um corria o outro voava. Ao chamamento do André, lá vinha o passarito que pousava no seu ombro e aguardava pacientemente que o André lhe reconfortasse o bico com algum acepipe. Eram inseparáveis! Aquela cena enternecedora contrastava com o turbilhão de desencontros que me ia na alma.

Os meus passos levaram-me até à porta de armas, subi a avenida principal de Teixeira Pinto e entrei num bar muito frequentado pelas nossas tropas. Era a primeira vez que ali ia. Não dei pelo fumo dos cigarros, tão pouco pelo cheiro do álcool e muito menos pelo barulho ensurdecedor que se fazia ouvir. Tudo isso era-me indiferente. Estava ali para beber uns copos, eu que não conseguia beber duas cervejas seguidas.

Foi então que aquela voz chegou até mim, melhor, estalou no meu cérebro, de tal forma que ainda hoje não esqueci:
 - Eh Furriel, manga de ronco no Balenguerez!

Na penumbra do estabelecimento tentei descobrir quem era aquele guineense alto, vestido à civil, que já sabia do que me ia na alma. Talvez devido à surpresa do momento, saí muito mais lesto daquele estabelecimento do que quando entrei. Fui para o meu quarto que, entretanto, tinha sido distribuído. O dia acabava repleto de emoções.

 
A Senhora que nunca nos abandonou

Três dias depois, na madrugada do dia 28 de Junho, cerca das três da manhã, estavam em pleno os últimos preparativos para o começo da Operação. Dada a ordem de partida, a coluna deixou Teixeira Pinto em direção ao nosso último acampamento na Mata dos Madeiros. Ainda era noite quando lá chegámos.

Como previamente ficara estabelecido, os 1.° e 2.° Grupos de Combate sob o comando dos Alferes Ferraz e Neves, respetivamente, seguiriam a linha da esquerda. Os 3.° e 4.° Grupos de combate sob o comando dos Alferes Almeida e Magalhães seguiriam a linha da direita. O nosso Cap. Alves iria integrado no 4.° Grupo.

O Alferes Magalhães, comandante do meu grupo, aproximou-se de mim e entregou-me o Mapa da Operação e a bússola. Era um gesto normal. Acontecera tantas vezes antes. Já não foi normal quando o Cap. Alves nos informou que ia integrado na minha Secção. Tentámos, eu e o Alferes Magalhães, dissuadi-lo, sem o conseguirmos. Mais uma vez admirei a sua coragem e compreensão ao permitir-me dar-lhe uma posição na Secção, que também me obrigou a mudar o dispositivo que normalmente usava. Não tanto por ele, mas por causa do homem das Transmissões, que queria suficientemente perto de mim, sem ficar muito longe do Capitão e não perder potencial de reação. A nossa missão, reconhecer o terreno, encontrar e destruir o inimigo, independentemente dos imponderáveis, só poderia ser bem sucedida à custa de muita disciplina, sacrifício, alguma inteligência e, acima de tudo, muita proteção divina. O inimigo, os guerrilheiros do PAIGC, estava à nossa espera algures na Mata do Balenguerez. Para isso se espalhou a notícia desta operação com três dias de antecedência.

Com os primeiros alvores do dia, partimos rumo ao nosso destino! Para trás ficava o acampamento e a Mata dos Madeiros. Atravessámos a estrada antiga que ligava o Bachile a Cacheu e entramos naquele mundo desconhecido, a Mata do Balenguerez. Esta não tinha sofrido queimadas durante os últimos tempos e não recebera visita de tropas há alguns meses.

Apanhada que foi a ponta do trilho marcado no mapa, de imediato mandei obliquar à direita, saindo por completo daquele. Assim fomos progredindo em ziguezague à ilharga do trilho. Apercebi-me que o avanço seria muito penoso e mais lento do que o calculado. O arvoredo e palmeiral muito denso e baixo impediam o avanço rápido, obrigando-nos, muitas vezes, quase a rastejar em alguns sítios. Mas o trilho, prometera a mim mesmo, não seria acariciado pelas solas das nossas botas. Com cerca de três horas de progressão, deparámos com a primeira grande clareira. Apenas capim de altura média Por ventura um antigo terreno de cultivo. Dividia-se pelos dois lados do trilho. Um campo de morte com cerca de oitenta metros, local ideal para uma emboscada.

José Câmara bem protegido pelo soldado Alberto Teixeira Dutra

Estávamos afastados do trilho. Numa breve análise visual ao terreno à nossa volta e pelo mapa, pressenti que a melhor solução seria mesmo atravessar a clareira, até porque a partir daí iríamos encontrar situações muito semelhantes. Mandei avançar. O meu homem de ponta, carregando a HK21, olhou para mim. O seu olhar pareceu-me angustiado. Aquele não era o local para hesitações, coloquei-me ao seu lado, atravessámos a clareira rapidamente. Os outros seguiram-nos.

Do outro lado da clareira, embrenhados no arvoredo, fomos ao encontro do trilho. Não me enganara. Ali tinha estado gente e as suas intenções não seriam certamente dar-nos as boas vindas com foguetes, como era costume fazermos aos forasteiros ilustres que chegavam às nossas terrinhas açorianas. A prová-lo estava um pequeno jarro de barro partido, a água empapando o trilho, alguns rastos de pegadas de calçado.

Foi dada ordem para ninguém pisar o trilho ou tocar nos estilhaços.

Rapidamente, afastámo-nos daquele local e do trilho. Minutos depois, uma avioneta transportando o comandante do CAOP 1, Sr. Ten. Cor. Paraquedista Durão, fazia algumas passagens sobre o local onde tínhamos estado antes. De lá de cima não nos via, bom sinal. Perante a insistência de contacto, demos-lhe a nossa indicação.

Segundos depois passava à nossa perpendicular.

Na sua passagem indicou-nos que estávamos a afastar-nos do nosso objetivo. Foi informado do nosso contacto visual com o jarro, sinal irrefutável da presença do inimigo e que não era aconselhável a nossa progressão nas imediações do trilho. Aos poucos, o barulho dos motores da avioneta foi desaparecendo.

Cerca das onze horas da manhã estávamos nós a atingir o nosso objetivo. Mais uma vez a avioneta a sobrevoar-nos. Desta vez com uma boa notícia, regressar ao acampamento. Cansados, algo esfarrapados, famintos, mas não podíamos descurar a disciplina e os cuidados no nosso regresso. A nossa missão ainda não tinha terminado.

Só começamos a sentir algum alívio quando finalmente atravessámos a antiga estrada e voltámos a pisar a Mata dos Madeiros. Aqui tínhamos feito grandes amigos ao longo dos dias, das semanas, dos meses. Conhecíamos as formigas pelos seus nomes próprios e aprendemos a cantar canções de amor com os pombos verdes. Os mosquitos, nos seus voos picantes, lembravam-nos constantemente do zumbido dos aviões que vindo das Américas passavam pelas nossas terrinhas açorianas. Os tecelões, lindos que eram, davam-se ao luxo de gozarem connosco, chamando-se a si próprios canários de peito amarelo, avezinhas que um dia se enamoraram dos rochedos plantados entre a Europa e as Américas e por ali ficaram. Tudo isso ficava ali, cada passo nosso uma recordação.

No acampamento desmanchavam-se as antenas de transmissões, o morteiro 107 e carregavam-se as viaturas que já estavam à nossa espera. A tarde avançava e havia que chegar a Teixeira Pinto antes do anoitecer.

Finalmente foi dada a ordem de partida e um último olhar ao acampamento que tinha sido a nossa casa durante oitenta e três dias. Pelo caminho passámos junto ao local onde o nosso Manuel Veríssimo Oliveira sofreu o acidente que o vitimou. Muitos braços estendidos naquela direção. Nas circunstâncias era o único gesto possível de homenagem ao nosso amigo e companheiro de luta.

Outros continuariam a estrada que deixamos aberta até ao cruzamento com a estrada antiga

Para trás ficava a Mata dos Madeiros e uma estrada que outros continuariam e concluiriam. Ali, a história foi escrita no barro vermelho com o sangue de muitos combatentes e o suor de muitos mais. De nativos também. Para os guineenses, em paz, ficou uma excelente obra alcatroada para que um dia pudessem ter uma vida melhor. Finalmente chegámos a Teixeira Pinto. Em paz. Missão cumprida. Dirigimo-nos aos nossos quartos. Ali, uma desagradável surpresa nos esperava.

O Fur Mil André Fernandes, com as lágrimas nos olhos e o seu amigo entre mãos, balbuciou:
- O Piriquito morreu!

 A avezinha, que ficara fechada no quarto, sucumbira ao calor, sede e saudade. Também ela fora uma vítima de uma guerra que cada um sentia à sua maneira. Naquele momento o André era o espelho de um desses sentimentos. Para ele, depois de uma operação com aquele perigo e envergadura, ainda houve tempo para chorar a morte de um amigo especial, certo que diferente dos demais, mas amigo da mesma maneira.

No dia seguinte, 29 de Junho de 1971, a CCaç3327 seguiria para os Destacamentos de Teixeira Pinto.

******

Notas soltas:

Nos 72 dias que a CCaç 3327 esteve toda na Mata dos Madeiros, diariamente saíam dois grupos que permaneciam fora do acampamento por 24 horas a fazer a segurança afastada da estrada e do acampamento.
Dos outros dois grupos um fazia a picagem do traçado da estrada e a segurança próxima às máquinas e capinadores durante 12 horas diárias.
O Outro mantinha a segurança do destacamento e realizava as escoltas ao Bachile para abastecimento de pão, água e correio. A segurança imediata noturna do acampamento era garantida por estes dois grupos. Cada posto de sentinela era reforçado por 3 elementos.
Cada Secção, na ausência de imprevistos, tinha um descanso de 12 horas a cada 13 dias.
Acções: 72
Emboscadas: 72
Escoltas a Teixeira Pinto e Bissau: 24
Operações a nível de Companhia: 1 (Sempre Alerta)
Mortos: Manuel Veríssimo de Oliveira, Sold At. Inf. NM 09624870, natural da Ilha de São Miguel.
____________

Nota de CV:

Vd. último poste da série de 26 de Fevereiro de 2012 > Guiné 63/74 - P9537: Memórias e histórias minhas (José da Câmara) (30): Velhice, uma aprendizagem dos sinais dos homens e da guerra

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Guiné 63/74 - P6484: Memórias e histórias minhas (José da Câmara) (19): Baptismo de fogo adiado

1. Mensagem de José Câmara (ex-Fur Mil da CCAÇ 3327 e Pel Caç Nat 56, Guiné, 1971/73), com data de 15 de Abril de 2010:

Caro Carlos Vinhal,
Em anexo encontrarás mais uma pequena história do meu roteiro pela Mata dos Madeiros.

Votos de boa saúde para ti e para todos os camaradas.

Um abraço amigo do tamanho do oceano que nos une.
José Câmara



Memórias e histórias minhas (19)
Baptismo de fogo adiado


A estrada desventrava, com prazer sádico, a virgindade da Mata dos Madeiros. Esta não mais seria a mesma. Cem metros de desmatação, abertura, leito e alcatroamento eram conseguidos, diariamente, em nome do progresso social e de uma estratégia militar que facilitava a comunicação terrestre Bissau/Cacheu, via Teixeira Pinto, e separava as míticas matas do Balenguerez e da Caboiana.

Ali mandávamos nós, embora soubéssemos que o perigo rondava por perto. O tempo se encarregaria de o comprovar.

O acampamento já era então visível a mais de um quilómetro na longitunital da estrada em relação ao corte da desmatação. Isso trazia-nos apreensivos na medida em que as nossas defesas contra flagelações eram bastante exíguas, e os nossos movimentos podiam ser seguidos à distância.

As nossas saídas diárias para o mato também tiveram que se adaptar à nova realidade. Muitas delas eram feitas pela estrada, e virando à esquerda no extremo frontal da descapinação. Este tipo de saída era o que mais temíamos. O avanço, a decoberto, era feito até atingirmos o corte da desmatação e não podíamos penetrar na mata, já que essa zona pertencia a outra força de intervenção. Assim, não nos restava outra alternativa que não fosse prosseguir ao longo do corte, zona ideal para uma emboscada. Pior, a possibilidade de uma infiltração IN no meio das duas forças de intervenção também não era de desprezar.

Na noite do dia 22 de Abril de 1971, um dos sentinelas no acampamento apercebeu-se de uma fogueira na orla frontal da desmatação a cerca de um quilómetro de distância. Dado o alarme, de imediato foi accionado todo o dispositivo de defesa do acampamento, ao mesmo tempo que os dois grupos de combate que se encontravam fora e a outra força de intervenção, neste caso a 26.ª CCmds, eram avisados. E foi desta última força que recebemos a mensagem para que não nos preocupássemos, pois que a fogueira tinha sido ateada por descapinadores que, possívelmente, teriam falhado a hora de recolher ao acampamento.

Relaxámos, é certo, mas ninguém saíu da vala. Até porque a fogueira ardeu toda a noite...

Elementos da CCaç 3327 em progressão nas matas da Guiné. Na frente o Soldado At. António S. Júnior da minha Secção. A seguir o Soldado Trms António Almeida.

Com o amanhacer os dois grupos da CCaç 3327 que estavam de saída ultimavam os preparativos. O intinerário desse dia seria feito pela estrada, passando junto do sítio onde ardera a fogueira.

Eu, a mando do capitão, segui na escolta para o Bachile. Neste quartel estava a secretaria da Companhia onde, sempre que possível, ajudava nos trabalhos da mesma. Era um trabalho que me agradava fazer. Nessa altura eu mantinha boas relações com o 1.° Sargento João Augusto da Fonseca, que mais tarde viria a ser transferido para a Companhia Terminal.

Foi à entrada do ramal para o Bachile que o Soldado das Transmissões, ao comunicar a nossa posição e aproximação àquele quartel, se apercebeu que algo de anormal se estava a passar.

Para horror nosso, sem precisar os dados, saíu-lhe mais ou menos estas palavras:

- A malta está a embrulhar e há feridos!

Foi já dentro do quartel do Bachile que tomámos conhecimento mais aprofundado do que se passara junto do acampamento.

A força da 26.ª CCmds ao levantar a sua emboscada nocturna resolveu fazer a sua aproximação ao local onde iria ser rendida, ao mesmo tempo que os capinadores davam início à sua tarefa diária. Para o efeito seguiu a zona da orla da desmatação fazendo o percurso inverso que estava programado para os grupos da CCaç 3327 e passando junto ao local onde a fogueira ardera toda a noite.

Foi nesse trajecto, através da orla da mata, que se deu a emboscada. Os Comandos, homens experientes por muitos meses de comissão, detectaram a emboscada e foram os primeiros a disparar sobre os elementos IN que haviam infiltrado a zona vestidos de simples capinadores. Foram eles que, despreocupadamente, tinham feito a fogueira para se aquecerem durante a noite. Não contaram, isso sim, que os grupos da CCaç 3327 iriam atrasar a sua saída e, muito menos, contaram com os Comandos a surgiriem naquela zona.

Foi assim que descrevi este episódio à minha madrinha de guerra.

Aerograma de 24 de Abril de 1971:

"...Voltando à realidade da vida aqui, ontem houve barulho a sério a cerca de 1 km do meu acampamento. Dois comandos e três civis ficaram feridos e tiveram que ser evacuados. A minha Companhia não estava presente, e eu nem estava no acampamento. Tinha ido ao Bachile. Nem cheguei a ouvir o barulho.

Amanhã devo ir para o mato, só regressando na segunda-feira. Tudo irá correr bem se Deus quiser
."

Recentemente, em troca de emails com o nosso ex-Fur Mil Enfermeiro Rui Esteves, a quem coube a responsabilidade de prestar os primeiros socorros aos feridos, pedi-lhe que me ajudasse a reconstituir o que então se passou no seu mister. Foi assim que ele descreveu o episódio:

"O ataque do PAIGC à 26.ª Companhia de Comandos

Este ataque devia estar-nos destinado, os nossos IN é que não reparam bem no armamento dos nossos camaradas Comandos (se bem me lembro, ninguém usava G3) e atacaram.

O ataque dos PAIGC's à 26.ª Companhia de Comandos no local do nosso primeiro acampamento - houve vários feridos, entre os quais alguns do IN que, por estarem mais feridos, tiveram prioridade na evacuação de helicóptero (prioridade estabelecida por mim). Tive até que meter na ordem um dos meus cabos enfermeiros que não queria tratar os feridos do IN.

De entre os nossos feridos estava um Furriel Comando que era muito porreiraço e já era a segunda ou terceira vez que apanhava uns estilhaços. Desta vez, tinha as costas com uns poucos de buracos superficiais, que tratei com pouco mais que betadine, gaze e adesivo. Quando esta Companhia acabou a comissão, este furriel fez-me herdeiro de alguns bens - ofereceu-me uma ventoínha eléctrica e um caixote para guardar as minhas coisas
."

Essa emboscada acarretou outro tipo de problema. Os capinadores tentaram aproveitar este episódio para abandonar os trabalhos da estrada. Para os aguentar foram necessários alguns tiros para o ar e o aprisionamento de dois indivíduos que pareciam ser os chefes desta nova postura. Até aí nunca houvera qualquer problema com os civis. Sanado o incidente, a vida no acampamento voltou à normalidade, mas com uma preocupação acrescentada. Agora tínhamos a certeza que o IN estava na zona e que iria dificultar a nossa missão.

Por enquanto, a guerra passara ao nosso lado. O nosso baptismo de fogo ficara adiado.

José Câmara
__________

Nota de CV:

Vd. último poste da série de 24 de Abril de 2010 > Guiné 63/74 - P6237: Memórias e histórias minhas (José da Câmara) (18): Estados de alma, aerograma de 20 de Abril de 1971