
O "whisky" (em inglês, sem aspas) "preferido por quem sabe" (sic)...Anúncio do "Diário de Lisboa", no tempo em que se começou a fazer grande publicidade ao "Scotch Whisky", bebida até então seleta mas a partir daí cada vez mais popular entre os combatentes da guerra do Ultramar (e dos "colonos" de África)... Era um dos "presentes" mais cobiçados na época, entre amigos e familiares... Traziam-se caixotes de garrafas de uísque de Guiné, de Angola, de Moçambique, no regresso das comissões de serviço militar. Algumas, as últimas, vamo-las esvaziando ainda hoje nas efemérides mais importantes que celebramos: a partida do T/T Niassa ou do T/T Uíge, os cinquenta anos da "peluda", as bodas de ouro, os 75 ou 80 anos de vida, os almocos-convívio da Tabanca da Linha...
Nos bares de "alterne", da grande Lisboa, da Reboleira aos Cais do Sodré, mas também seguramente na "noite do Porto" bebia-se muito uísque marado, "batizado", que ficou popularmentre conhecido como "whisky de Sacavém"... Lembro-me ainda na tropa, nas Caldas da Rainha ou em Tavira, ter conhecido o "capitão Vat 69"...
1. "Uísque de Sacavém" e "vinho a martelo" são duas das expressões mais castiças e conhecidas do calão português para designar bebidas alcoólicas falsificadas, adulteradas ou de péssima qualidade, muitas vezes associadas ao mercado negro e à vivência popular das décadas de 1960 e 1970.
A elas junta-se frequentemente a "água de Lisboa", uma expressão mais antiga, de que falaremos em próximo poste. Há testemunhos de antigos combatentes recordando os soldados fulas (que eram abstémios, por imposição da sua cultura e religião) a dizerem, com bastante graça, “água de Lisboa, manga de cabeça grande!”, isto é, uma bebida que embriagava (como o vinho de palma, consumido pelos "cristãos" / grumetes e "animistas" / balantas, papéis, etc....) e que não era necessariamente de má qualidade ("água de Lisboa manga de sabi").
O que poucos sabem é a origem e o significado da expressão "uísque de Sacavém", apesar de ter estado muito em voga durante a guerra colonial em que os portugueses começaram a ter acesso, em África, ao bom uísque escocês, bebida até então só para ricos e estrangeirados.
2. E porque não "uísque do Beato" ?
No Beato, Poço do Bispo, Marvila, na margem direita do estuário do rio Tejo, havia grandes armazéns de vinho, onde se dizia que o vinho era "batizado" com a água do Tejo, e daí talvez a origem da expressão "água de Lisboa", como chamavam os nossos camaradas guineenses ao vinho da Intendência...
Mas a origem desta última expressão deve ser mais antiga, relacionada com o abastecimento de água a Lisboa, no início do séc. XVIII e com os impostos que eram cobrados sobre o vinho e os gnéneros alimentícios para financiar a construção e o funcionamento do Aqueduto das Águas Livres.
A verdade é que também se dizia, em Portugal, nessa época (anos 60/70) que "da água também se fazia vinho"... A frase, injustamente, era atribuída ao grande agricultor e empresário Abel Pereira da Fonseca, com vinhas no Bombarral e armazéns no Beato
O Beato/Poço do Bispo/Marvila era efectivamente uma extensa zona ribeirinha de Lisboa, onde os grandes armazenistas e comerciantes de vinho a granel eram "reis". E o nome de Abel Pereira da Fonseca aparece inevitavelmente nesta história. Na memória popular ficou uma frase que provavelmente nunca saiu da boca do Abel Pereira da Fonseca, em versões diferentes: “Enquanto houver água no Tejo, nunca há-de faltar vinho a Lisboa.” Ou: “Lembrem-se, meus filhos, que até da água se faz vinho.”
Não encontrámos fonte histórica suficientemente sólida para afirmar que ele tenha realmente pronunciado essas palavras, e muito menos à hora da morte. Elas pertencem às "anedotas popular" criadas em torno dos grandes armazenistas de vinho de Lisboa.
Mas essa anedota ganhou uma segunda vida entre os militares que passaram pela guerra colonial / guerra do ultramar. No caso da Guiné, aparece documentada a expressão “água de Lisboa” para designar depreciativamente o vinho fornecido pela Intendência. Ou seja, como sinónimo de vinho "batizado" (e, pior ainda, a "saber a cânfora", que era para tirar a tusa aos combatentes do mato: excesso de testosterona afetava o moral da tropa, suspeitavam os senhores da guerra).
“Água de Lisboa” e “vinho de Sacavém” são duas alcunhas com geografias diferentes. Não é fácil, na ausência de investigação séria sobre estes tópicos, de encontrar o fio à meada...Há. contuda, uma pequena histórias de 1966 que liga Sacavém ao uísque falsificado...
3. Uísque de Sacavém: a falsificação lendária
De facto, o "produto" até tem certidão de nascimento. Ou melhor, a expressão. Terá nascido a 5 de fevereiro de 1966, quando o jornal Diário Popular noticiou o desmantelamento da primeira fábrica de uísque falsificado em Portugal, localizada justamente num armazém em Sacavém.
Quando a guerra do Ultramar, já ia a meio, acrescentamos hoje nós (que sabemos que ela acabou em 1974, mas em 1966 todos já pensávamos que ia ser a guerra dos 100 anos, e que iria sobrar para toda a nossa geração).
O esquema era engenhoso: os falsificadores compravam garrafas vazias de marcas escocesas conceituadas (como Johnnie Walker ou Vat 69) e enchiam-nas com uma mistura bombástica de álcool etílico puro, um cheirinho de uísque verdadeiro e pastilhas corantes para imitar a cor original. O álcool puro era comprado, ao garrafão, dia sim dia não, numa farmácia próxima na "fábrica clandestina" onde se martelava a mistela...
O produto era vendido clandestinamente a bares, buates e cabarés de Lisboa e arredores. O caso gerou tanta troça popular que a gíria "uísque de Sacavém" passou a designar qualquer bebida alcoólica contrafeita, barata ou que causasse uma ressaca terrível no dia seguinte. Portanto, o “uísque de Sacavém” tem uma origem histórica muito concreta e datável — a falsificação descoberta em 1966. Alguns apreciadores (?) desta bebida consideravam até ser difícil distinguir esta falsificação do produto original... O problema não era a cópia ser melhor do que o original, mas sim a inexistência de um tradiçáo de consumo de uísque escocês em Portugal.
Este acontecimento teve grande repercussão, dando origem a muitas piadas. Havia quem pedisse, na brincadeira, um “whisky de Sacavém”, nome pelo qual ficou popularmente conhecida esta falsificação que apresentava rótulos de consagradas marcas escocesas.
Já a “água de Lisboa” parece ser uma alcunha popular muito mais antiga e difusa, alimentada pelos impposto ssobre o vinho, pela fama dos grandes armazéns vinícolas lisboetas e pela proverbial suspeita de que o vinho destinado aosmercados africanos ("o vinho p'ró preto") (isto é, para o branco de 2ª, o colono, e o preto de 1ª, o assimilado) era de qualidade inferior.
E há ainda uma deliciosa inversão colonial: o soldado português ia para África e descobria o "Scotch whisky" genuino (importado exclusivamente para as Forças Armadas Portuguesas e fornecidas, sem impostos, pela Intendência aosl "heróis de Portugal" que combatiam pela Pátria em África, enquanto o guineense olhava para a garrafa de vinho que vinha de Lisboa e chamava-lhe, entre deliciado e desconfiado, "água de Lisboa.”
Estas expressões ajudam-nos a reconstituir a história através de três bebidas: o “Scotch” genuíno, o “uísque de Sacavém”, marado, e a “água de Lisboa” / "vinho a martelo", três expressões que dizem muito sobre a sociedade portuguesa dos anos 60/70 e sobre a experiência colonial / ultramarina / africanista de todos nós. (vd. Sons de Abril da RTP/Antena 1).
Acrescente-se que, na altura, nos famigerados anos 60/70 (em que já se avolumavam os sinais premonitórios do fim de uma época e do regime de Salazar), era frequente aparecer no mercado vinho de proveniência duvidosa, popularmente conhecido por "vinho a martelo". Porém, segundo as autoridades da época, parece ter sido a primeira vez que uma fábrica de whisky falsificado, como a de Sacavém em 1966, foi descoberta em Portugal.
E em 1972 rebenta o escândalo da adição de aguardentes não vínicas ao vinho do Porto, um dos mais sérios golpes na qualidade e na fama deste vinho generoso que chegou a constituir, até fiansi do séc. XIX, o principal produto de exportaçáo do país. O "vinho a martelo" feito no Oeste e no Ribatejo em muito contribuiu para essa prática fraudulenta.
4. Símbolo de "status" da classe média
Importa ainda acrescentar, para melhor contextualizar o problema, que o "Scotch" (por antonomásia, o nome para o uísque) vai tornar-se em Portugal nos anos 60/70 do séc. XX um símbolo de "status" e de ostentação, associado ao novo riquismo e à emergência de uma nova classe média na época marcelista e no pós-25 de Abril.
Este fenómeno sociocultural coincidiu com uma fase de transição económica e política no país, refletindo as mudanças profundas da sociedade portuguesa da época. Durante os anos 60 e princípios de 70, Portugal viveu um período de "boom", de crescimento económico industrial e o surgimento de uma nova burguesia (muitas vezes associada a fortunas rápidas feitas na metrópole ou em África). Beber "Scotch" era "fino", era a forma perfeita de este grupo exibir o seu recém-adquirido poder de compra.
Num país como o nosso, sujeito a uma ditadura de 4 décadas, fechado, tradicionalista, conservador, consumir um produto importado e caro (devido às taxas alfandegárias e fiscais) como o "whisky" escocês funcionava como um passaporte de sofisticação, modernidade, cosmopolitismo e ligação à Europa (o novo o"eldorado", depois da poerda do império...).
O vinho e o "bagaço", pelo contrário, eram vistos como produtos da taberna e das casas de comida de bairro, as bebidas das classes populares e do mundo rural. Quem queria distanciar-se dessas origens e afirmar-se na elite urbana adotava o "whisky".
Ter então um espaventoso "bar de sala" em casa, com garrafas de "Scotch" bem visíveis (como o Johnnie Walker, J&B ou Vat 69), passou a ser obrigatório na nova classe média... Era chique servir um "whisky" às visitas!
Para estas mudanças operadas no consumo de bebidas alcoólicas muito contribuiu, como já o dissemos acima, a nossa experiência de África (os 13/14 anos de guerra), sem esquecer o "regresso das caravelas", fluxo de mais de meio milhão de retornados vítimas da "descolonização".
Após o 25 de Abril, o prestígio do "Scotch" manteve-se, se bem o que perfil do consumo tenha mudado ligeiramente com a democratização do acesso a novos bens importados. Coincidindo com a adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia (CEE), em 1986, o panorama das superfícies comerciais no país sofreu uma revolução sem precedentes. O forte crescimento económico, as ajudas europeias, o investimento estrangeiro e o aumento do poder de compra ditaram a transição do comércio tradicional e pulverizado (a mercearias de bairro) para os formatos modernos de hipermercados, grandes centros comerciais, etc.
Em resumo, hoje provavelmente, passados 60 anos, já ninguém se lembra do "uísque de Sacavém".
Confesso que não sei se chegou a haver, na Intendência, casos notórios de falsificação, em grande escala, do precioso líquido que vinha, da Escócia para a Guiné, "with love", para dessedentar a tropa portuguesa e retemperar o ânimo dos combatentes...
Ainda bebi algum do bom na Guiné (para não dizer "manga de garrafas"...), com "auguinha" de Perrier. Hoje raramente bebo um "visquinho"... Tal como já não fumo há mais de 3 décadas e meia...Hábitos que trouxemos da guerra que nos calhou em sorte...
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6 comentários:
E curioso esta garrafa da VAT69!
Quando eu embarquei para a Guiné no DC6 de Figo Maduro em 20set67, fizemos a primeira escala em Las Palmas, Ficamos apenas no aeroporto. Era o Comando do Batalhão, 7 pessoas que seguiram à frente.
No Bar, vi lá a garrafa de Vat69, nunca tinha antes provado uisque. E comprei por muito pouco dinheiro...
Depois de me instalar em Nova Lamego, bebeu-se a garrafa toda, não me lembro do sabor,
Depois serviu, como muitos outros fizeram, de candeeiro com vela, e assim durou. Até que os meus amigos da ferrugem, arranjaram forma de electrificar aquilo e já tinha um candeeiro electrico...
Somos um povo de desenrasca...
Não sei o que aconteceu depois, ainda foi comigo para São Domingos, mas não sei mais nada.
Hoje era uma reliquia, na feira de Vandoma no Porto, ou da Ladra em Lisboa, vendia por bom preço para coleccionadores destas inutilidades.
Sinais do tempo.
Virgilio Teixeira
Vinho e têxteis, escoamento exclusivo para as colónias com protecionismo total.
O vinho por fim já ia a granel como se fosse petróleo, já não se usava mais aqueles barris de
de 100 litros com aduelas de madeira.
Não sendo consumidor de vinho, sei que nunca faltava vinho em Angola e vizinhos.
No caso de Angola e no que às bebidas diz respeito, havia uma clara diferença entre o que bebiam os civis (brancos, mestiços e negros "assimilados") e o que bebiam os militares. O vinho que os civis de Angola consumiam ia da Metrópole a granel, nos porões dos navios, e só em Angola é que ele era engarrafado. Como diz o Antº Rosinha, não faltava vinho da Metrópole em Angola, mas quanto à qualidade... valha-me Deus! Por aquilo que me foi dado provar, aquilo era uma zurrapa completamente intragável, mas era o que quase todos os civis consumiam, porque o vinho de marca da Metrópole era caríssimo. Se bem me recordo, o vinho "civil" que provei em Angola era de uma marca chamada Castelo e tinha sido engarrafado na cidade do Lobito.
Já na minha qualidade de oficial do Exército (alferes miliciano), pelo contrário, eu consumia na messe (do batalhão, da companhia ou do pelotão) vinho Casal Garcia branco ou Grão Vasco tinto (quando não estava em operações bebendo água podre, bem entendido), cujo fornecimento era garantido pelo sempre diligente furriel vagomestre.
Já quanto aos whiskies, a diferença entre militares e civis era equivalente. Enquanto os oficiais e sargentos do Exército eram regularmente abastecidos, a preços imbatíveis, de whisky escocês autêntico (com selo de garantia intacto e tudo) das marcas Johnny Walker, White Horse, Dewar's (o meu preferido), Dimple, Monks e outras, os civis só podiam beber um whisky produzido em Angola da marca Sbell, nome este que mais não é do que o acrónimo do nome "Sociedade de Bebidas Espirituosas do Lobito Limitada".
Um "scotch" verdadeiro comprado numa loja custava os olhos da cara a um civil; era uma bebida que estava completamente fora do alcance da sua carteira. Já o whisky Sbell era um whisky verdadeiro, mas com a diferença de ser produzido em Angola e não nas Highlands escocesas. O whisky Sbell não era o mesmo que um "scotch"? Claro que não era e nunca poderia sê-lo. Mas era um whisky que os civis serviam aos seus convidados com toda a boa vontade, acompanhado de água mineral gaseificada Pedra de Água e ainda uns cubos de gelo, porque a hospitalidade era uma tradição sagrada em Angola. Sou testemunha do facto que os civis em Angola faziam sempre gala em receber bem as visitas.
Pesquisei na internet e encontrei uma imagem de uma garrafa de whisky Sbell. O conteúdo da garrafa é que parece já estar um tanto ou quanto putrefacto... Tenho a certeza absoluta de que em Angola o Antº Rosinha também tinha uma garrafa igual a esta lá em casa, mas com o conteúdo em bom estado:
https://www.garrafeiranacional.com/media/catalog/product/cache/e37fd98e323045f31cb97da19fc50468/2/9/2990007-0.jpg
Fernando Ribeiro, fui um razoável consumidor de cerveja a copo, o fino geladinho.
Mas em especial aos fins de semana, pois durante anos passei a minha vida profissional de segunda a sexta, nos interiores em tendas de campanha sem frigorificos.
Dizia um colega velho que eramos camelos, só se bebia ao fim de semana.
Mas para a tropa não era só o Wiskie era também um bacalhau especial, vinhos de marca, e até pronto a vestir e mercearias que a intendência fornecia em Luanda tipo hipermercado para as unidades militares, mas também para as familias de militares, que eram imensas a residir em Luanda.
Apareceu então um enorme contrabando de sargentos e alguns cabos e oficiais que podiam sacar para amigos e vizinhos produtos a preços "especiais", aqueles luxuosos produtos.
Claro que muitos desses contrabandistas levavam um lucrozinho extra no fim da comissão.
Vidas do caraças!
Todas as guerras têm o seu "ventre"... O da nossa (ou das nossas, de Cabo Verde a Timor, passando por Guiné, Angola, Moçambique) também foi grande... Como é se construiram as Reboleiras, as Torraltas, as Quarteiras ?...
Enfim, tudo à nossa escala...liliputiana.
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