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domingo, 28 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28139: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (8): ainda e sempre os nossos (e)ternos "barcos turras"




Guiné > s/d > s/ l > A embarcação "Bubaque", ostentando a bandeira portuguesa... Antiga LP 4 (Lancha de Patrulha 4, da nossa Marinha, no ativo entre 1963 e 1964), terá sido anteriormente uma traineira de pesca, algarvia... Depois de abatida ao efetivo, foi comprada pelo pai do nosso camarada Manuel Amante da Rosa (embaixador da República de Cabo Verde, reformado) (*).

Foto: © Manuel Amante da Rosa (2014). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar; Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].


Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Contuboel > CART 2479 / CART 11 (1969/70) > 21 de julho de 1969, dia em que o homem chegou à lua... O Valdemar, sentado num saco, em farda nº 2,  vai a caminho de Bissau, num barco civil, daqueles a que chamávamos, depreciativamente, "barco turra" (**). 

Foto (e legenda): © Valdemar Queiroz (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís GRaça & Camaradas da Guiné]



Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Sector L1 (Bambadinca) > O Rio Geba... o estreito (do Xime para montante) e o largo (do Xime para jusante)... c. 1970, no tempo seco... O rio era navegável de Bissau até Bafatá!... Mas normalmente, as embarcações civis (os "barcos turras") iam até Bambadinca... As LDG ficavam pelo Xime, mas chegavam a Bambadinca, pelo menos até a 1968... Dois pontos vulneráveis do percurso eram a Ponta Varela (na margem esquerda do Rio, entre a Foz do Corubal/Ponta do Inglês e o Xime), e o Mato Cão (entre o Xime e Bambadinca, no troço serpenteante do Geba Estreito).

Foto do álbum do Humberto Reis, ex-fur mil op esp (CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71)

Foto: © Humberto Reis (2006). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça &vCamaradas da Guiné]


1. Os ataques e flagelações à navegação no rio Geba, entre Bissau, Xime e Bambadinca não eram sistemáticos nem sequer regulares. Mas ficaram na memória da malta que passou pela Zona Leste (***). 

Em geral, o PAIGC não se metia com a malta da Marinha (as LDG, as LDM que eram "caça grossa"). Preferia a "caça miúda", indefesa, as embarcações civis ( a que nós chamávamos os "barcos turras", por, erradamente ou não, acharmos que os "patrões" pagavam "imposto revolucionário" ao partido do Amílcar Cabral, e que só eram atacados os barcos com as "quotas em atraso")... 

Havia dois ou três pontos críticos: Ponta Varela, Mato de Cão e São Belchior. E em geral, esses ataques ataques e flagelações eram ao fim da tarde ou à noite. A guerrilha sabia que, a essas horas, não seria perseguida pela aviação (e muito menos por forças terrestres de aquartelamentos e destacamentos nas proximidades: Xime, Bambadinca, Enxalé, Finete, Missirá...)

Foi o caso, por exemplo, do ataque à 1 hora e meia da noite, do dia 1 de junho de 1973, ao barco civil, "Bubaque", no Geba Estreito, no troço entre Bambadinca e o Xime, em São Belchior, antes do Mato Cão (que nesta altura já tinha um destacamento permanente das NT); ia a bordo o proprietário e capitão do barco, o Amante da Rosa, pai do nosso camarada (e diplomata, cabo-verdiano, hoje reformado) Manuel Amante.

Uma semana e tal depois, a 10 de junho, ao cair da tarde, há novo ataque, desta vez em Ponta Varela, a oeste do Xime, a um comboio de 3 barcos civis.


2. Pelo pouco que sabemos, a  partir das histórias das unidades e  dos testemunhos e das memórias dos militares e civis que navegaram no Geba, não há indícios de que o PAIGC tivesse desenvolvido uma campanha sistemática para interditar toda a navegação no rio Geba, como aconteceu, por exemplo, em certos troços do Cacheu ou do Corubal em determinadas fases da guerra. 

O que existia eram emboscadas oportunistas, concentradas em alguns locais onde o rio estreitava, obrigando as embarcações a reduzir velocidade ou a aproximar-se das margens.

Esses pontos  críticos eram Ponta Varela (quando o rio começava a estreitar, antes do Xime) e depois no rio Geba Estreito, entre o Xime e Bambadinca: Mato Cão e São Belchior.

Quem serviu no Sector L1 (nos subsetores de Bambadinca,  Xime, Mansambo e Xitole)  fala repetidamente destes locais como "zonas perigosas", embora houvesse longos períodos sem qualquer incidente.

Quanto ao "Bubaque", os registos conhecidos são muito claros.

Na História do BART 3873 surge registado o ataque da madrugada de 1 de junho de 1973, cerca da 01h30, em São Belchior, no troço entre Bambadinca e o Xime, antes do Mato Cão. O barco era propriedade de Amante da Rosa, que seguia a bordo como patrão e comandante. Houve 2 feridos graves na tripulação e o ataque foi suficientemente importante para merecer destaque na história da unidade.

Poucos dias depois, em 10 de junho de 1973, ao fim da tarde, encontra-se registado um novo ataque, desta vez contra um comboio de três embarcações civis, em Ponta Varela. Também este episódio figura na mesma documentação militar. (***)

Há outro aspeto muito interessante, que ajuda a desfazer um mito que muitos de nós ouvimos na época.

O próprio Manuel Amante da Rosa, filho do proprietário do "Bubaque", escreveu anos depois que o pai nunca pagou qualquer "imposto revolucionário" ao PAIGC, nem existiria um acordo de imunidade. 

Segundo ele, o barco fazia simplesmente um serviço público essencial, utilizado indistintamente por população civil, comerciantes, familiares de guerrilheiros, e até guerrilheiros e simpatizantes do PAIGC, além de militares portugueses em deslocação, e sempre desarmados: ninguém levava G3, quando seguia para Bissau, para apanhar o avião da TAP, ir ao dentista, tratar de algum assunto da sua tropa,  ou simplesmente para "desopilar" (o chamado "desenfianço").

Na memória do Manuel Amante da Eosa, o "Bubaque" navegou cerca de dez anos naquela carreira e foi atacado apenas uma vez, precisamente nessa madrugada de 1 de junho de 1973, o que ele considera ter resultado de um erro de identificação.

Enfim, esta explicação parece-nos  bastante plausível e aceitável, mesmo sabendo da ligação do Manuel Amante da Rosa ao PAIGC.

O PAIGC tinha pouco interesse estratégico em destruir barcos (incluindo os da "odiada" Casa G0uveia ou da Sociedade Ultramarina, pertencente ao BNU) que abasteciam populações sob a sua própria influência, transportavam familiares dos combatentes, asseguravam o comércio local (mas também abastecia a tropa...) e que, na prática, o único meio regular de transporte entre Bissau, Xime e Bambadinca, já que a estrada Bafatá-Mansoa- Bissau estava interdita em diversos troços.

3. Atacar uma LDG ou uma LDM era uma operação muito mais difícil e arriscada. As unidades da Marinha navegavam armadas, tinham treino específico, resposta de fogo muito superior e podiam desencadear rapidamente operações de retaliação. 

Daí que, quando havia ataques, estes incidissem sobretudo sobre embarcações civis desprotegidas ou sobre ocasiões em que se julgava haver militares transportados em número reduzido.

Além disso, os grupos do PAIGC especializados em atacar  embarcações no rios eram poucos e náo tinham o dom da ubiquidade.

A nossa observação sobre a evolução da situação em Mato Cão também faz sentido. Em 1972, com a instalação de um destacamento permanente das NT, o local tornou-se menos favorável para emboscadas prolongadas, o que poderá explicar a deslocação de alguns ataques para zonas como São Belchior (ou a jusante, ou Ponta Varela), onde continuavam a existir boas condições para abrir fogo a partir das margens, embora na mira dos 3 obuses 10,5 cm do Xime.


4. Ao tempo do BART 3873 (Bambadinca, 1972/74), já tinha ocorrido, em 10 de outubro de 1972, às 1h15 da noite, no final das chuvas, e ao fim de dez meses de comissão, o primeiro ataque a um barco civil, o "Mampatá", no Rio Geba Estreito, de que resultaram 4 feridos, 1 militar e 3 civis (um dos quais grave) (***)

Na leitura do comando do batalhão, o ataque do PAIGC ao "Mampatá" inseria-se na estratégia de criar dificuldades ao abastecimento das NT no Leste.

O In voltaria, no mês de julho de 197, a fazer outro ataque ataque, no Rio Geba Estreito, em São Belchior, a seguir ao Mato Cão, desta vez à embarcação "Manuel Barbosa" (ligada a uma comercial de Bissau,); o barco, civil, conseguiu chegar a Bambadinca com um ferido;

5. Talvez valesse a pena  tentar responder à pergunta: quantos ataques houve realmente à navegação no Geba entre 1963 e 1974?

Foram seguramente mais do que aqueles que ficaram na nossa memória, mas certamente muito menos numerosos do que a fama do Geba Estreito poderia fazer supor.  Nalguns casos terima sido "flagelações" ou "tiros sobre embarcações", sem vítimas ou danos importantes, e esses episódios nunca entraram nas cronologias gerais da guerra 8e muito menos no relato da actividade operacional feita nos livros da CECA - Comissão para o Estudo das Campanhas de África).

Para fazer a  cronologia completa dos ataques e flagelações à navegação no rio Geba (1963-1974), seria preciso cruzando as histórias das unidades que passaram pelo Sector L1, relatórios da Marinha, testemunhos dos antigos tripulantes dos chamados "barcos turras" (que ninguém sabe quem eram, com exceção do Manuel Amante e do seu filho, que viajava muitas vezes com opai durante as férias escolares, o hoje embaixador Manuel Amante da Rosa).

Penso que esse levantamento mostraria, com bastante rigor histórico, que a navegação no Geba viveu num equilíbrio muito peculiar: 

(i) perigosa o suficiente para nunca deixar ninguém completamente tranquilo;

(ii)  mas suficientemente segura para que, durante anos, centenas de pessoas continuassem a fazer regularmente a viagem entre Bissau, Xime e Bambadinca. 

Isso ajuda a compreender porque esses barcos ficaram tão profundamente gravados na memória de quem serviu na Zona Leste, como eu, o Carlos Marques dos Santos, o Valdemar Queiroz, o Joaquim Mexia Alves, o Humberto Reis, e tantos outros (*****).

_______________



(***) Vd. poste de 27 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28137: As nossas geografias emocionais (68): o temível Mato Cão, no rio Geba Estreito

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Guiné 61/74 - P19818: (Ex)citações (354): A navegação fluvial no Geba e os "barcos turras" (Manuel Amante da Rosa / Arsénio Puim)


Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá >  Sector L1 > 1969 > O sortilégio e a beleza do Rio Geba, entre o Xime e e Bambadinca, o chamado Geba Estreito, numa das fotos aéreas magníficas do Humberto Reis, ex- Fur Mil Op Esp, CCA 12 (Contuboel e Bambadinca, 1969/71). nosso querido amigo e camarada Humberto que é também aniversariante este mês. (LG)


Foto (e legenda): © Humberto Reis (2005). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné > Região de Bafatá > Setor L1 > Bambadinca > c. 1973/74 > Rio Geba Estreito e porto fluvial, em Bambadinca, na margem esquerda.


Foto (e legenda): © Luís Mourato Oliveira (2016). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].


Guiné > Bissau > Cais do Pidjiguiti > 1967 >  "Barcos turras", tripulantes, passageiros e esivadores


Foto (e legenda(: © João José Alves Martins (2012). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar:  Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].


Guiné > Região de Bafatá > Setor L1 > Bambadinca > CCS/BCAÇ 2852 (1968/70) > O alferes mil cav, cmdt Pel Rec Daimler 2046 (1968/70), Jaime Machado, num "barco turra" (que fazia ligação Bambadinca-Bissau-Bambadinca)

Foto (e legenda): ©Jaime Machado  (2015). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Recorde-se aqui três  excelentes nacos de prosa sobre a navegação fluvila na Guine e os "heróicos barcos turras", do nosso tempo (*).

 Dois são  comentários de Manuel Amante da Rosa, e o outro um excerto das memórias do Arsénio Puim.

"Barco turra", e não no "barco dos turras"... Chamavam-se assim as embarcações civis que faziam a carreira Bissau-Xime-Bissau ou Bisssau-Bambadinca-Bissau... O pai do Manuel Amante da Rosa tinha uma carreira diária para o Xime, com o "Bubaque"... É possível que elementos do PAIGC, militantes ou simpatizantes, também utilizassem este meio de transporte... Não havia outros, a não a ser aéreos. A avioneta (civil ou militar) era um luxo... Muitos de nós, quando íamos a Bissau, utilizávamos o "barco turra"... Fardados, mas desarmados... Sem escolta, confiando na segurança que se fazia no Mato Cão e na Pona Varela...

O nosso ex-alf mil capelão Arsénio Puim (CCS/BART 2917, Bambadinca, 1970/72) escreveu num das suas crónicas, sobre  "cruzeiro turístico" pelo Rio Geba abaixo... Vale a pena relembrar. Não sei se também se aplicava ao "Bubaque" o epíteto de "barco turra"... O Manuel Amante da Rosa já veio dizer aqui que o pai não tinha nenhum acordo com o PAIGC. Ele prestava um serviço público, de que todos beneficiavam de um lado e do outro (população, militantes e simpatizantes do PAIGC, militares portugueses...). Em 10 anos de navegação pelo Geba acima Geba abaixo, o "Bubaque" terá sido atacado uma vez, "por engano", em 1/6/1973, à uma e tal da manhã, em São Belchior, antes de chegar a Bambadinaca



O embaixador Manuel Amante da Rota, 2013.  Cortesia  da RTC - Radiotelevisão Caboverdiana].


Manuel Amante da Rosa (**)


[ex-fur mil, QG/CTIG, Bissau,1973/74 (embaixador plenipotenciário da República de Cabo Verde em Itália entre 2013 e 2018; membro da nossa Tabanca Grande; o pai, antes de se tormar empresário de transportes fluviais, tinha sido, até ao início da guerra, comerciante em Belim, Fulacunda.]


(...) a navegação fluvual e costeira na Guiné era complexa e sempre dependente do ciclo das marés. Fazia-se muito pelos canais, à vista, com pontos de referência, e de forma impírica. 

Muito raros eram os arrais, motoristas e marinheiros que sabiam ler ou escrever. Mesmo assim tornavam-se pela prática experientes navegadores e exímios maquinistas. Muitos deles eram ainda do tempo das lanchas à vela. Muitos bebiam é certo o que em certas épocas se tornava um perigo. Metê-los no porão era a melhor opção. Pude cconstatar isso por diversas vezes. Dessa vez com o meu Pai ausente e com uma tripulação quase toda bêbada de cerveja, porque os excursionistas apesar de avisados deram-lhes à vontade de beber, sem restrições, tive de ir para o leme à partida de Bubaque. 

Era um bom navio. De ferro. Dois pisos. Um antigo e batido cacilheiro, "O Amanhã" . Dotado de um potente e excelente Caterpillar que lhe fazia bater entre 10 a 12 nós em viagem. 

O meu Velho comprara-o anos antes ao Sr. Fausto, português de Setúbal, opositor do regime de Salazar, desterrado para a Guiné, nos anos 40, e que ali se tornará um reconhecido madeireiro. Era ligado ou pelo menos tinha ligações a alguns dirigentes do PAIGC. Teria sido ele a transportar Luis Cabral, durante uma noite, até à fronteira com o Senegal para que não fosse preso pela PIDE que lhe estava no encalço. Era pessoa conhecida e ter levado para Bissau uma boa embarcação e colocado o nome de "O Amanhã" diz muito. (****)

Na realidade existe muita semelhança com a navegação fluvial do Brasil. Lembro-me que a primeira coisa que fiz ao chegar um dia a Manaus foi ir para o Hotel e apanhar um táxi para o porto/mercado, revivi o Pidjiguiti tal às semelhanças. Pontão, navios no lodo, grande amplitude das marés, mesmos cheiros, gentes, embarcações parecidas e até mercadorias. Umas boas horas somente a observar, a conversar e a passar de um navio para o outro. 

Anos mais tarde em Amapá, norte do Brasil, foi a mesma constatação e subir o Amazonas de lancha ronceira até Afuá. Pormenores inesperados que refluem na memória que julgavámos há muito desgarrados. (...)



Arsénio Puim (***)




Arsénio Puim, ilha de São Miguel, Açores, 2019.
Foto: Arsénio Puim

[ açoriano, da Ilha de São Jorge, ex-alf mil capelão; foi expulso do seu Batalhão, o BART 2917, e do CTIG em maio de 1971, apenas com um ano de comissão; no final da década de 1970 deixou o sacerdócio, formou-se em enfermagem, casou-se, teve 2 filhos; vive na Ilha de São Miguel; está reformado; é membro da nossa Tabanca Grande; tem cerca de 40 referências no nosso blogue; é autor da série "Memórias de um alferes capelão", de que se publicaram doze postes]



(...) Mas as embarcações que circulavam no Geba Estreito são também barcos a motor, para transporte de pessoas e de carga, que faziam viagens regulares e prestavam um importante serviço entre a capital do território e Bafatá.

Vim, uma vez, num destes barcos da carreira civil desde Bambadinca até Bissau, numa longa e pitoresca viagem que hoje ainda recordo.

Alguns militares usavam, uma vez ou outra, este meio de transporte para se deslocarem à capital. Penso que o grande Machadinho e meu grande amigo [alf mil Abílio Machado, nosso grã-tabanqueiro, e que pertencia igualmente à CCS/BART 2917] também ia nesta viagem, mas não tenho a certeza.

No «Bubaque», apinhado de pessoas – muitos africanos e africanas e alguns soldados portugueses –, galinhas, porcos, cabras, (tudo em muita paz), navegámos ao longo do Geba Estreito, ladeado de mato denso e misterioso e cheio de curvas muito apertadas que obrigavam o barco a manobrar bastante próximo das margens. 

Depois entrámos no Geba largo, cada vez mais espaçoso e aberto aos nossos olhos curiosos, de margens arborizadas e baixas, ponteado com os seus quarteis militares estrategicamente disseminados dum lado e outro do território.

Sete horas depois, agradavelmente vividas em conversação amena e, sobretudo, a olhar, profundamente, a terra da Guiné e desfrutar da sua natureza, o «Bubaque» havia passado a grande ria do Geba e entrava no porto de Bissau, quando eram cinco horas da tarde do dia 8 de Março de 1971.

Fácil se tornou para nós pensar que, não obstante serem alvo de um ou outro ataque esporádico, não seria possível estes pequenos barcos civis, indefesos e para mais trasportando elementos do exército português, circularem regularmente numa tão extensa e recôndita área fluvial se não existisse um acordo secreto entre a empresa e a guerrilha, como aliás era voz corrente.

Mas além deste possível e mais ou menos controlado obstáculo humano, todo o movimento de barcos no Geba é condicionado por um interessante fenómeno natural que dá pelo nome de macaréu.
É, em linguagem simples, uma onda, provocada pelo choque da maré com a corrente fluvial, que avança rio acima, impetuosa e com grande ruído, operando à sua passagem a transição brusca e imediata da baixamar para a preiamar, numa amplitude que pode atingir dois metros ou mais.
Neste interior da Guiné, a mais de 100 quilómetros de Bissau, várias vezes me detive junto do grande Geba para ver passar o macaréu, poderoso e cheio de mistério, admirável e sempre benvindo. (...)


 Manuel Amante da Rosa (***)


(...) Caro Arsénio Puim, alegrou-me muito saber que fez uma viagem no "Bubaque" de Bambadinca para Bissau. Muito provavelmente, se a sua jornada foi num fim-de-semana, eu deveria estar a bordo. Se assim foi, deveremos ter saído do sempre atulhado e improvisado cais de Bambadinca às 11 da manhã. Uma a duas horas antes da vazante. Factor regular (horário das marés) que muito nos preocupava para não ficarmos em seco no meio do Mato Cão. 

O "Bubaque" era do meu Pai que o adquirira à Marinha Portuguesa e o transformara em barco de passageiro com capacidade para 140 ou 180 passageiros, após ter sido abatido à carga. 

Teria sido antes uma traineira algarvia que foi transformada ainda em Portugal em Lancha Patrulha (o LP4) com uma pesada casamata blindada, em ferro, a meia nau e enviada para a Guiné em principios de 1960. 

Muito patrulhou os rios da Guiné tendo inclusivamente participado na batalha do Como. Com a chegada regular das LDM e LDP as 4 LP  tornaram absoletas e foram abatidas por Decreto do Ministro da Marinha. Eram robustas, aguentavam bem o mar e todas possuiam bons motores. 

O "Bubaque" era muito conhecido na região do Leste. Era a carreira mais regular entre Bissau e Bambadinca e exclusivamente destinada ao transporte de passageiros e suas cargas. Era também conhecido por “Djanta Kú cia” pela sua rapidez na jornada. Significava que se podia almoçar em casa e chegar ao seu destino ainda a tempo de jantar. 

Fiz muitas e muitas viagens nesse navio, mais de dia que de noite, algumas com acidentes e avarias graves no percurso mas, estando a bordo, nunca fomos vítimas de ataque. Meu Pai sim, numa madrugada em pleno Mato Cão, por erro de identificação. 

Não me parece que tivesse havido alguma vez um acordo ou pagamento de passagem. Era sabido que só transportavámos passageiros e muitos deles seriam familiares próximos de quem estava na luta quando não fossem mesmo guerrilheiros ou mensageiros a caminho de Bissau e vice-versa. 

Transportei muitas vezes militares que demandavam e/ou outro porto Sentiam-se seguros no "Bubaque". A viagem directa Bambadinca-Bissau demorava em média de 5 a 6 horas, duas das quais na “auto-estrada” do Mato Cão, a parte que mais encanto me dava. A subir era sempre menos.

No Geba largo, no tempo das chuvas e tornados, a preocupação era evidente devido às vagas curtas, sempre de través e instabilidade da massa humana a fugir da chuva ou a agachar-se do vento a sotavento dele. 

Nessas ocasiões aproximavamo-nos da margem oposta passando por Jabadá e Enxudé até cortar directo para oeste de Cumeré, passar entre a ponte cais e o ilhéu do Rei e atracar no Pidjiguiti. 

No outro dia, a favor da mare, lá se iniciava uma outra jornada. Tenho ainda vivas as mesmas imagens que tão bem descreveu das margens do Geba apertado. (...) (*****)

 ____________

Notas do editor

(*) Vd. poste de 22 de maio de 2019 > Guiné 61/74 - P19815: Álbum fotográfico de Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (São Domingos e Nova Lamego, 1967/69) - Parte LXX: Viagem, de regresso, do Gabu a Bissau, em 26/2/1968: no 'barco turra', a partir de Bambadinca (II)



(**) Vd.comentário ao poste  17 de março de  2015 > Guiné 63/74 - P14377: O nosso blogue como fonte de informação e conhecimento (29): A Ilha das Galinhas que eu conheci e a nostalgia da "prisão" com que o Zé Carlos Schwarz ou Zé Cabalo (, no meu tempo de liceu), nos surpreende, na letra e música de "Djiu di Galinha" (Manuel Amante da Rosa)

(***) Vd. psote de 12 de dezembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5453: Memórias de um alferes capelão (Arsénio Puim, BART 2917. Dez 69/Mai 71) (5): O grande Rio Geba


(****) Vd. poste de 20 de junho de 2017 > Guiné 61/74 - P17489: (De) Caras (85): o testemunho de Manuel Amante da Rosa, embaixador plenipotenciário de Cabo Verde em Itália, sobre o Fausto Teixeira: "era uma figura distinta, opositor ao regime de Salazar, vigiado pela PIDE/DGS, amigo do meu pai que lhe comprou, no início dos anos 70, o último navio que ele levou para a Guiné, um antigo cacilheiro que fazia carreiras regulares para o Xime e para os Bijagós ...Morreu depois do 25 de Abril em Portugal".

Vd. também postes de:

18 de novembro de 2014 > Guiné 63/74 - P13912: (Ex)citações (247): A embarcação "Bubaque", da carreira Bissau-Bambadinca-Bissau (Manuel Amante / Jorge Araújo / J. F. Santos Ribeiro)