Pesquisar neste blogue

Mostrar mensagens com a etiqueta Holanda. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Holanda. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28341: Notas de leitura (1959): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (5) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 20 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
O comércio negreiro despertou uma grande apetência a um conjunto de países como a Espanha, a França, a Inglaterra e a Holanda. Ver-se-á neste texto como tais países procuraram implantar-se pelas Américas, a importância que irão adquirir Barbados, o sonho holandês de criar a Companhia das Índias Ocidentais para construir um sistema comercial monopolista no hemisfério ocidental, um tanto à imagem do que já tinha conseguido alcançar na Ásia; temos a América britânica que formou a Companhia de Aventureiros Reais em África, o ponto de partida foi encontrar uma forma de se impor no comércio do ouro na África Ocidental, seguiu-se o objetivo de fornecer escravos a Barbados. O autor dá-nos um quadro das lutas entre estas potências e enfatiza o enfraquecimento das posições portuguesas nos tempos da União Ibérica; e seguidamente vamos assistir a novas disputas, já não é só o comércio açucareiro o grande objetivo, surgiram o algodão e os metais preciosos.

Um abraço do
Mário



África, os africanos e a criação do mundo moderno, de meados do século XV à Segunda Guerra Mundial - 5

Mário Beja Santos

Se tentássemos contabilizar a proveniência dos autores que escreveram relatos, fizeram investigações, orientaram ou orientam estudos académicos sobre o continente africano, o número mais expressivo iria recair certamente nos europeus, seguido dos norte-americanos. No seu livro Origem: África, o jornalista, escritor e académico Howard W. French, Bertrand Editora, 2022, releva que os relatos tradicionais têm o seu foco na era dos Descobrimentos europeus do século XV, não escondendo os reais interesses de quem e para quê impulsionava estas viagens e a instalação de feitorias e fortalezas: sonhava-se descobrir mundo, encontrar o lendário rei Preste João, ter acesso ao ouro, levar a crença cristã e sempre que necessário, combater a crença muçulmana, encontrara a ligação entre os rios Níger e o Nilo – e parece que mais nada aconteceu. Já se falou da importância da fortaleza de S. Jorge da Mina, era um posto avançado de onde chegavam muitos quilos de ouro. O tesouro do reino era conhecido nos primeiros tempos como Casa da Guiné, título que foi substituído por Casa da Mina. Como escreve o autor, o comércio com Elmina levou a que as receitas reais portuguesas quase duplicassem nos últimos 20 anos do século XV. Em 1506, Elmina ainda constituía ¼ das receitas da Coroa, traduziram-se num dos sinais da modernidade e de um outro relacionamento entre Portugal e a demais Europa e a multiplicidade de contactos com povos africanos. A importância de Elmina irá desviar-se a favor do tráfico negreiro.

Como escreve Howard French, a escravatura era uma prática antiga embora não tivesse quase nenhuma semelhança com o modelo de escravo-mercadoria que estava prestes a surgir nas plantações de açúcar. Aproveitando os bons contactos, os portugueses encontraram uma ótima recensão do Benim. Um escravo vendido aos portugueses em 1500 teria rendido entre 12 e 15 manilhas; a arte beninense irá projetar a imagem de um português com os seus longos cabelos e barbas e narizes exageradamente pontiagudos. Em Elmina clamava-se por mais escravos, a coroa portuguesa enviou mais navios; mas por volta de 1514, o Benim começou a restringir o comércio de escravos, teve que se fechar aa feitoria e procurar novos circuitos. Escreve o autor:
“Usando uma plataforma de lançamento como Cabo Verde, Portugal percebeu que se poderia operar um comércio lucrativo de escravos nas zonas costeiras próximas do continente. Dentro deste novo circuito, São Tomé ganhou importância na produção de açúcar. Começou-se a olhar para o Congo com outros olhos, os líderes do Congo queriam cooperar politicamente com os portugueses – estava aberta uma nova rota que podia passar por São Tomé, Elmina e Atlântico sul".


Ao nível da produção de açúcar, São Tomé ganhou a liderança da produção, substituindo a ilha da Madeira, tornou-se uma colónia de escravos, depois foi ultrapassada pelo Brasil açucareiro. Nas Caraíbas foi crescendo a agricultura esclavagista, caso de Barbados. A América do Norte recebeu os seus primeiros negros na Carolina do Sul. E o autor dá-nos uma interpretação para o nascimento do crioulo. Esta língua constituiu-se como um compósito do que era falado pelos europeus e africanos, primeiramente nas feitorias onde se negociavam escravos. Formou-se o crioulo em Cabo Verde, tal como no Senegal ou em São Tomé. O crioulo vai também ser a língua veicular inicialmente no Novo Mundo entre os escravos. “Mais do que qualquer outra coisa, foram estes contactos e a consequente fusão, ou mistura, cultural, racial, social, económica, através de deslocações, uniões e trauma, que fizeram das Américas um verdadeiro Novo Mundo.” Obviamente que todos estes acentos se irão diluindo com a hegemonia das línguas predominantes, o inglês e o espanhol.

Todo o novo circuito comercial esclavagista vai ser um poderoso combate entre potências em todo o Atlântico Sul, chegando às Caraíbas, vão entrar em cena ingleses, franceses, holandeses e espanhóis, todos querem plantar cana-de-açúcar, mais tarde algodão, cada Governo estabelece a tua estratégia para se apoderar no território. O autor dá-nos o quadro das lutas entre os portugueses e os holandeses no Brasil e em África; os holandeses sonham em ter um predomínio tanto nas Índias Ocidentais e Orientais. A seguir à Restauração, a Coroa portuguesa deu importância primordial à recuperação de São Tomé e Luanda, era fundamental o escravo angolano para que o Brasil fosse uma potência açucareira.


Há que ter em atenção o que acontecera em termos demográficos no Brasil. Novamente a palavra ao autor: “A chegada dos caçadores de fortunas, soldados, comerciantes e colonos da Península ibérica desencadeou um período de morte maciça entre os povos nativos do Brasil. Para os portugueses, a população indígena tinha inicialmente parecido quase que inesgotável. Contudo, as doenças transmitidas pelos recém-chegados europeus causaram uma rotação espantosamente elevada nas plantações de açúcar devido ao aumento das taxas de mortalidade entre os escravos indígenas e os trabalhadores assalariados.” Foram epidemias devastadoras, uma longa lista de doenças que incluíam varíola, sarampo, tosse convulsa, varicela, peste bubónica, tifo, febre tifoide, difteria, cólera, escarlatina e gripe; até a constipação, recém-chegada à América do Sul abordo dos países europeus, era mortal.

Em suma, registou-se um declínio dramático da população nativa, houve que a substituir por escravos. Esta decisão política foi crucial: Portugal calculou que um Brasil laborado por escravos valia substancialmente mais para o reino do que as suas explorações no Oriente. O período filipino em Portugal (1580-1640), como já foi sublinhado, foi tremendamente ruinoso para o Império Português: Portugal perdeu Elmina e Luanda; no Oriente perdeu Malaca, Colombo, portos essenciais na Índia no comércio das especiarias. Seguir-se-ão com a Restauração tremendas guerras no Brasil e Angola, no Oriente não foi nada parecido, perderam-se irremediavelmente posições outrora estratégicas.

Na continuação, o autor dá-nos o quadro do comércio negreiro em territórios conquistados pela Espanha. “No século XVI aproximadamente 277.000 africanos foram levados acorrentados através do Atlântico, sendo que quase 90 porcento deles foram para os territórios americanos recentemente conquistados por Espanha, liderados por Cartagena, Nova Espanha e Vera Cruz. Ao longo do seu extenso percurso, este tráfico humano traria cerca de 2,07 milhões de pessoas para as Américas Espanholas, quer por embarque direto através do Atlântico, quer através de um comércio interamericano intenso, traficado a partir de lugares como a Curaçau holandesa ou a Jamaica inglesa. Isto fez das Américas Espanholas a segunda zona mais importante de migração africana permanente e forçada, depois do Brasil.”

Vamos dar continuidade ao trabalho de Howard W. French falando da corrida aos escravos.
Professor Howard W. French

(continua)
_____________

Notas do editor

Vd. post anterior de 4 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28320: Notas de leitura (1957): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (4) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 7 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28329: Notas de leitura (1958): “Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida”, por Catarina Gomes; Matéria Prima Edições, 2014 (3) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28320: Notas de leitura (1957): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (4) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
Não é por especial deferência que Howard French destaca o papel dos portugueses na descoberta de África e no comércio negreiro, como temos vindo a apreciar. A historiografia do Estado Novo, quanto a esta matéria, dava ressonância a uma alegada missão civilizadora, exportação da fé e cristianização de gente que ou trilhava os ideais de Mafoma ou adorava ídolos, e, por simpatia, faziam-se trocas que tornavam a economia portuguesa um tanto respeitável na cena europeia. O primeiro verdadeiro contraponto foi dado pelos importantíssimos trabalhos de Vitorino Magalhães Godinho, ele pôs o foco no que os Descobrimentos portugueses e de outros tinham introduzido na economia mundial. Ora este autor dá mesmo conta de que por razões estratégicas, pelo pesado constrangimento imposto pela União Ibérica e pelo esforço exigido pelas guerras da Restauração e recuperação colonial, o comércio de escravos pesou na pouca defesa que se fez do que restava do império português no oriente. Brasil e Angola eram as jóias da Coroa que urgia fazer luzir, como aconteceu com o ouro, os diamantes, o comércio negreiro e a agricultura de plantação.

Um abraço do
Mário



África, os africanos e a criação do mundo moderno, de meados do século XV à Segunda Guerra Mundial - 4

Mário Beja Santos

Se tentássemos contabilizar a proveniência dos autores que escreveram relatos, fizeram investigações, orientaram ou orientam estudos académicos sobre o continente africano, o número mais expressivo iria recair certamente nos europeus, seguido dos norte-americanos. No seu livro Origem: África, o jornalista, escritor e académico Howard W. French, Bertrand Editora, 2022, releva que os relatos tradicionais têm o seu foco na era dos Descobrimentos europeus do século XV, não escondendo os reais interesses de quem e para quê impulsionava estas viagens e a instalação de feitorias e fortalezas: sonhava-se descobrir mundo, encontrar o lendário rei Preste João, ter acesso ao ouro, levar a crença cristã e sempre que necessário, combater a crença muçulmana, encontrara a ligação entre os rios Níger e o Nilo – e parece que mais nada aconteceu. Prosseguindo a sua narrativa, dissecará a evolução do comércio negreiro, destacando o papel da fortaleza de São Jorge da Mina, a criação de uma agricultura de plantação onde o escravo teve desempenho fundamental, a riqueza daí adveniente foi contributo decisivo para seis séculos de desenvolvimento mundial.

Estamos agora na corrida a África ou na partilha de África, entraram em cena velhos atores como Portugal, Espanha, França, Inglaterra, Holanda e novos como a Bélgica e a Alemanha. Os velhos andaram em guerras entre si, caso da Grã-Bretanha e da França pelo vale do rio Ohio fazia parte da competição deles nas Caraíbas e no Canadá, tentavam o controlo da América do Norte, a França queria consolidar as Índias Ocidentais francesas, a mesma França que tinha centros de escravatura no Senegal; no século XVIII, os britânicos disputam a primazia francesa, passaram a ser o primeiro comprador de escravos e em 1761 o império britânico seguia atrás da França nas exportações de açúcar, algodão, rum e café.

A industrialização da Grã-Bretanha e a sua ascensão a potência mundial ficaram indissociavelmente ligadas às colónias de plantação de açúcar, ao trabalho escravo. “A ascensão de Liverpool, a prosperidade do Império Britânico, o triunfo da Marinha inglesa, a riqueza das famílias bancárias britânicas e o sucesso dos engenhos de algodão ingleses, tudo dependia do comércio de escravos e das mercadorias produzidas pelos escravos.” É neste contexto que se pode analisar o conflito entre países por causa das pessoas transportadas acorrentadas através do Atlântico como ouro negro, estes escravos farão parte da competição global e a Conferência de Berlim será também o sinal de que os lugares tropicais ganhavam realce como agricultura de plantação e oportunidades comerciais, aqui, os povos cativos, dentro desta lógica, podiam ser utilizados com maior produtividade. Portugal foi um perdedor, sobretudo por estar ligado ao império espanhol durante a União Ibérica. A Holanda derrotou Portugal em 1637, tomou o controlo da Costa do Ouro, já tinham atingido São Jorge da Mina, irão tomar São Paulo de Luanda, lançarão um ataque contra o Brasil português, também tomaram São Tomé, o império português parecia totalmente perdido, irá parcialmente ressuscitar com a Restauração.

O autor irá focar-se na revolução introduzida pelos engenhos de açúcar no Brasil. Tornou-se imperioso trazer escravos, os índios e toda a classe de indígenas começaram a morrer em massa; sabemos hoje que os culpados foram os agentes patogénicos, uma longa lista que incluía varíola, sarampo, tosse convulsa, varicela, peste bubónica, tifo, febre tifoide, difteria, corola, escarlatina e gripe, tudo trazido do Velho Mundo. Sem os africanos o Novo Mundo não teria sido viabilizado nem de perto nem de longe na extensão em que o foi. Sem os africanos jamais os europeus teriam conseguido ocupar e colonizar os vastos territórios do Novo Mundo com a velocidade com que acabaram por conseguir fazer. O enfoque do autor sobre a indústria açucareira no Brasil irá ser um polo de atração para todas as outras potências competidoras. Entretanto Portugal abriu uma nova frente no comércio negreiro, o Congo, estabelecer-se-ão relações cordiais entre as respetivas coroas. Observa o autor que Portugal calculou que o Brasil laborado por escravos valia substancialmente mais para o reino do que as suas explorações no Oriente. Com a Restauração, Portugal atirou-se à reconquista das duas joias gémeas do império: Brasil e Angola.

Howard French disseca ao pormenor a instalação de plantações francesas e britânicas no Novo Mundo, dá o exemplo de Barbados e também da Jamaica; descobriu-se que as exportações para África não podiam incluir lanifícios pesados, a indústria do algodão ganhou velocidade; deslocou-se o açúcar para as Américas, dá-se a explosão da prata espanhola. Atenda-se aa uma nova observação do autor: “Os mercados africanos desempenhariam um papel vital no crescimento da produção inglesa em geral. Isto incluía de tudo, desde armas a navios, e desde cordas a velas. Porém, à medida que o seu recém-criado império nas Caraíbas crescia alimentado por mão de obra africana, os ingleses descobriram novos mercados especialmente importantes para a próxima grande indústria do futuro, os têxteis, sob a forma de vestuário para escravos.”

Deram-se grandes mudanças na Europa com a chegada do açúcar do café e do chá, produtos que irão ter um valor civilizacional e até contributivo para a história das ideias, produtos que se servirão em novos estabelecimentos que oferecem sociabilidade, os cafés, produtos presentes nas reuniões tanto da corte e do salão onde se discute a política, lá longe, onde se produzem e exportam esses produtos está a mão de obra africana.

Mas voltemos a um sonho antigo, o ouro, que nunca deixou de ser um grande negócio em paragens africanas. Só que teve de estar eclipsado por outra mercadoria, o comércio transatlântico de escravos. E o autor recorda o papel desempenhado por Portugal:
“Quando o comércio de escravos começou a aumentar na primeira metade do século XVI, o seu volume inicial era maioritariamente proveniente de uma área a que os europeus chamavam Cabo Verde, uma área continental que se estende desde os matagais do Senegal e Gâmbia até À Guiné-Bissau e as florestas tropicais e pântanos da Serra Leoa. Em grande medida, esta escolha refletia conveniência por estar mais próxima das Europas e das Américas e por isso começou a integrar-se no emergente mundo atlântico. (…) À medida que outras nações europeias se lançavam no comércio de escravos africanos, o endurecimento da concorrência levou os portugueses cada vez mais longe na costa africana.”

Vamos agora ver os itinerários destes escravos até chegar ao Novo Mundo.
Professor Howard W. French

(continua)
_____________

Notas do editor

Vd. post de 28 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28303: Notas de leitura (1955): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (3) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 31 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28309: Notas de leitura (1956): “Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida”, por Catarina Gomes; Matéria Prima Edições, 2014 (2) (Mário Beja Santos)

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27943: Armamento (31): Armalite AR 10, que foi a espingarda automática usada pelo BCP 21 em Angola (1961/75)

 

Angola > Leste > O alf mil paraquedista Jaime Silva, do BCP 21 (1970/72), em 1970, a norte do Rio Cassai, empunhando uma espingarda automática Armalite AR-10.

Foto do álbum de Jaime Silva (ex-alf mil pqdt, cmdt 3ª Pel /1ª CCP / BCP 21, Angola, 1970/72, membro da nossa Tabanca Grande, nº 643, desde 31/1/2014, tendo já 130 de referências, no nosso blogue; reside na Lourinhã, é professor de educação física, reformado, foi autarca em Fafe, com o pelouro de "Desporto e Cultura"; residiu lá durante cerca de 4 décadas; tem página pessoal no Facebook).

Foto (e legenda): © Jaime Bonifácio Marques da Silva (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



ArmaLite AR-10, modelo português. Fonte: Wikipedia (com a devida vénia...)



1. A G3 foi a arma-padrão do Exército Português durante a guerra do ultramar / guerra colonial. Mas, em Angola, o BCP 21 usou, desde o início (1961) e até ao fim, a Armalite AR 10, uma espingarda automática, de assalto, de origem norte-americana, que teve uma vida efémera e uma história atribulada.

 Principais características técnicas:

Criador  > Eugene Stoner
Data de criação >  1955/56
Fabricante(s) >  ArmaLite  | Artillerie Inrichtingen (AI) | Colt's Manufacturing Company
Período de produção > 1956-presente
Quantidade produzida >  9.900

Especificações:

Peso >  3,29–4,05 kg c/carregador
Comprimento >  1050 mm
Cartucho  > 7,62×51mm NATO
Ação > Operado a gás, parafuso giratório
Cadência de tiro >  700 tpm
Velocidade de saída 820 m/s
Alcance efetivo >  630 m
Sistema de suprimento 20 tiros carregador de caixa destacável
Mira > Mira traseiro com abertura ajustável, mira frontal fixa. 

 O design final da empresa Artillerie Inrichtingen (um fabricante dos Países Baixos) ficou conhecido como o modelo português AR-10. 

 Esta versão final incorporou uma série de inovações e melhorias técnicas. Foram produzidas cerca de 4 a 5 mil exemplares do "modelo português" e quase todos foram vendidos ao Ministério da Defesa Nacional de Portugal pelo negociador de armas com sede em Bruxelas, SIDEM International, em 1960. 

 A AR-10 foi oficialmente adotada pelos batalhões de caçadores paraquedistas portugueses, e entrou na guerra de contrassubversão em Angola, logo em 1961, ao serviço do BCP 21.

 Tornou-se uma "arma de culto" devido às suas características inovadoras para a época: era mais leve que as concorrentes, graças ao uso de ligas de alumínio, e destacava-se pela precisão e confiabilidade em combate, mesmo em condições adversas de selva e savana. A variante portuguesa incluía melhorias como um regulador de gás simplificado e um extrator mais robusto. 

Os paraquedistas portugueses consideravam o AR-10 uma arma precisa e fiável, mas o seu uso acabou por ser limitado a algumas unidades aerotransportadas, mantendo-se em serviço até 1975, inclusive durante a descolonização de Timor Português. 

 A AR-10 foi preterida pela Heckler & Koch G3 por razões principalmente políticas e logísticas, e não tanto técnicas. 

A AR-10 era uma arma concebida nos EUA e produzida na Holanda, países críticos da política colonial portuguesa, o que dificultou a sua adoção generalizada. 

Além disso, a Holanda acabou por embargar novas remessas para Portugal, impedindo a expansão do seu uso. 

 Por outro lado, a G3, de origem alemã, beneficiou de um contexto de maior facilidade de aquisição e de produção sob licença em Portugal, além de se enquadrar na tendência de padronização de calibres dentro da NATO (7,62x51mm). 

 A G3 também se revelou mais robusta em condições de combate prolongado e permitia uma maior interoperabilidade com outros países da aliança. 

Estes factores, combinaddos, foram decisivos para a sua adoção pelas Forças Armadas Portuguesas como arma-padrão.

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Guiné 61/74 - P27303: A nossa guerra em números (39): E os "retornados" de outros impérios coloniais (França, Holanda, Grã-Bretanha, etc.) quantos foram ?


Bandeira da França, "vandalizada" com o emblema representativos dos "pieds-noirs" da Argélia.   Imagem do domínio público

Fobte: Cortesia de Wikimedia Commons



1. O "boneco" do nosso António Rosinha (*), "tuga", "colon", "retornado", leva-nos a fazer a seguinte pergunta: quantos "retornados" houve, no séc. XX, nos outros países europeus, para além de Portugal, com colónias ou protetorados que acederam à independência política ?  Casos nomeadamente da França, da Holanda, Grão-Bretanha...

Como termo de comparação, partimos da estimativa mais consensual do total geral de “retornados” (1974/76), oriundos de Angola e Moçambique: c. 500 mil / 520 mil pessoas.

Aproximadamente menos de 2/3 vieram de Angola, e pouco mais de 1/3 de Moçambique; das restantes colónias (Cabo Verde, Guiné, São Tomé) os números são residuais (**).


O caso mais notório seria, de entre os colonizadores europeus, o da França, que manteve na Argélia uma guerra prolongada e violentíssima, entre 1954 e 1962. 


 Tal como de resto não o é o termo "retornado" entre nós: de facto, havia  portugueses,  cabo-verdianos, guineenses, angolanos, moçambicanos,  goeses, e até chineses, etc., nascidos em África e para quem Portugal era o "Puto",  um país europeu, estrangeiro, distante, física, cultural e afetivamente. 

De facto, havia quem tivesse nascido em Angola ou Moçambique, de pais, avós e até bisavós oriundos de Portugal, continental e ilhas atlânticas (Madeira, Açores, Cabo-Verde) mas também de outras proveniências, e que se consideravam, a si próprios, depreciativamente, como "portugueses de 2ª"

 Em todo o caso, vinham cá de férias ou de licença graciosa ( os funcionários públicos),  vinham cá consultar o médico, ou estudar cá, etc. A universidade só tardiamente chegou a Luanda,  Nova Lisboa, Lourenço Marques... A formação das elites tinha que ter o "carimbo" de Lisboa...

Esses angolanos e moçambicanos não aceitavam ser tratados como "retornados".  Mas o "Puto" acabou por ser felizmente uma pátria de acolhimento para eles. Seriam hoje apátridas. É verdade que nem todos viajar para a antiga metrópole. Não sabemos quantos foram para  o Brasil, a África do Sul, a Venezuela...
 

A. Quantos foram os "pieds-noirs" que  sairam da Argélia, com a independência em 1962 ? (***)


É arriscado avançar com números, por causa das fontes, das metodologias, dos enviesamentos, etc.  Mas os números são necessários para termos uma noção mais aproximada das realidades complexas. É verdade que também servem para mentir, ocultar, branquear, etc.

A assistente de IA que rapa o tacho aqui e acolá, vasculha o lixo da Net, não tem espírito crítico nem muito menos empatia e compaixão, assim de rajada diz-nos logo que os "pieds-noirs" terão sido entre 650 mil e  1 milhão.  

Pés-negros ? Parece ter um sentido pejorativo, tal como "tuga" (no tempo da guerra colonial).. O nosso "retornado", apesar de tudo, parece ser mais "neutro", mas não é menos impreciso e redutor... A língua tem sempre estas limitações, e a realidade é sempre mais dinâmica, espessa e complexa.

Entenda-se: "pieds-noirs" = colonos europeus, principalmente franceses, que  saíram da Argélia após a independência em 1962, buscando refúgio sobretudo na França. 

Mesmo o termo "colono"  é impreciso: o missionário, o professor, o topógrafo, o médico,  etc., são colonos ?

O número exato varia conforme a fonte:

(i) vários relatos históricos estabelecem que cerca de 800 mil foram evacuados para França e aproximadamente 200 mil  permaneceram temporariamente na Argélia, sendo que o número dos que permaneceram foi se reduzindo rapidamente; 

(ii) algumas fontes falam em “quase 1 milhão” de refugiados (outro termo que também não é "neutro");

(iii) registros administrativos (de 1962)  apontam para  cerca de 650 mil a  680 mil os recém-chegados à França só nesse ano;

(iv) considerando também os judeus argelinos (alguns, seguramente sefarditas, de origem ibérica, c. 130 mil), bem como outros europeus, estima-se que até 1.050.000 pessoas de origem europeia viviam na Argélia no início da década de 1960; 

(v) sabe-se que a esmagadora maioria partiu com a independência, depois de uma guerra que foi uma tragédia.

O êxodo ocorreu de forma acelerada, em poucos meses, tal como em Angola e Moçambique, fruto do temor de represálias e das mudanças políticas, económicas e sociais radicais após o fim do domínio francês.

Claro que a saída dos "pieds-noirs" teve profundas consequências sociais e políticas tanto na Argélia como na França, marcando o pós-colonialismo no Mediterrâneo ocidental.


B. Quanto a holandeses (ou neerlandeses, como se diz hoje), saídos das ex-colónias dos Países Baixos...

O número de "retornados holandeses"  variaram bastante conforme o contexto histórico de cada território. 

Não houve um êxodo tão em massa e tão concentrado como no caso dos "pieds-noirs" da Argélia, nem do "ultramar português" (Angola, Moçambique...).

 Vejamos caso a caso:

(i) Índias Orientais Holandesas (Indonésia): 

após a independência (1949), cerca de 300 /350  mil "colonos" emigraram para a Holanda entre as décadas de 1940 e 1960; mas nesse número não estão  apenas holandeses "puros" (de sangue),  mas também mestiços euro-asiáticos (os chamados "indos"), judeus, chineses e outros grupos ligados à administração colonial; os tais "indos " que migraram para a Holanda, serão estimados em 200 mil;

(ii) Suriname: 

com a independência em 1975,  quase metade da população original (estimada entre 100/150 mil pessoas) mudou-se para a Holanda, numa corrida migratória antes do encerramento das fronteiras (foram sobretudo descendentes de holandeses e outros grupos ligados à administração colonial);

(iii) Antilhas Holandesas: 

houve um  fluxo menor, mas constante, das ex-colónias caribenhas (Curaçao, Aruba, Sint Maarten) para a Holanda, especialmente em contextos de crise, totalizando hoje cerca de 200 mil descendentes de caribenhos holandeses  a viver  nos Países Baixos;

(iv) África do Sul: 

após o fim da dominação holandesa no Cabo (1815), muitos dos bóeres (palavra de origem neerlandesa, quer dizer isso mesmo, colono, descendente de holandeses) permaneceram na região e formaram comunidades que deram origem aos atuais africâneres; neste caso,  não houve uma saída massiva para a Holanda.

Mais especificamente os africâneres 
são um grupo étnico  sul-africano descendente de colonos, protestantes calvinistas,  europeus, principalmente holandeses, alemães e franceses (huguenotes), que chegaram ao Cabo da Boa Esperança a partir do século XVII. 

Eles falam africâner, uma língua germânica, que evoluiu do dialeto holandês dessa época;  desempenharam um papel central na história da África do Sul, incluindo o regime do apartheid (que vigorou de 1948 a 1994); historicamente, eles dominavam  setores como a política, o comércio  e a agricultura, mas a minoria branca, incluindo os africâneres,  é hoje uma pequena percentagem da população. 

Em resumo: a saída dos holandeses das ex-colónias foi significativa na Indonésia (após 1949) e em Suriname (após 1975), mas comparativamente menos dramática que a dos "pieds-noirs" na Argélia. ou das colónias / províncias ultramarinas portuguesas (há quem não goste do termo "colónias),

A diáspora holandesa mundial contemporânea reflete essas migrações, com estimativa de até 15 milhões de pessoas de origem holandesa/neerlandesa e seus descendentes vivendo fora da Holanda, incluindo grandes comunidades vindas das antigas colónias.  

C. Quanto aos britânicos, não há um número consolidado ou uma estimativa global de “retornados”, na sequência  das várias independências dos territórios do império onde o sol nunca se punha no tempo da Raínha Vitória...

Os retornos existiram, mas dispersos, com destaque para expulsões pontuais (ex: Uganda, 1972,  cerca de 27.000).

O fenómeno é amplamente documentado no caso português, mas não tem equivalente em escala ou identificação no caso britânico.


D. Os espanhóis, por sua vez,  não tiveram um fenómeno de "retornados" semelhante ao caso português.

A descolonização espanhola  (grande potência imperial) ocorreu maioritariamente nas Américas no século XIX, com processos de independência que resultaram na formação de vários países novos entre 1810 e 1824, e não no século XX como nos impérios britânico, francês ou português; esses processos de independência foram guerras e movimentos políticos e sociais que levaram à saída da Espanha das colónias americanas, mas não provocaram um retorno em massa de colonos espanhóis para a Espanha equivalente ao nosso caso no pós-25 de Abril.

Ainda há os casos residuais dos italianos, alemães, belgas... E até dos suecos, que, ao que parece,  também tiveram colónias.

(Pesquisa: LG + Assistente de IA / Perplexity, ChatGPT, Gemini...)

(Condensação, revisão / fixação de texto: LG)

____________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 6 de outubro de 2025 > Guiné 61/74 - P27288: Humor de caserna (214): O dono daquilo tudo, do Cuanza ao Cunene, o "colón", o retornado", o "coronel" e o "grão-tabanqueiro" António Rosinha

(**) Vd. poste de 12 de agosto de 2025 > Guiné 61/74 - P27113: A nossa guerra em números (31): Angola e Moçambique: População europeia total: ~535 mil / 600 mil | Total geral de "retornados" (incluindo os restantes territórios): c. 500 mil / 520 mil pessoas

(***) Último poste da série > 7 de setembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27191: A nossa guerra em números (38): Em 27 de maio de 1974, existiriam no CTIG 1960 "bombas de napalm" (1170 de 350 litros e 790 de 100 litros)... ou apenas os invólucros

domingo, 3 de agosto de 2025

Guiné 61/74 - P27085: Felizmente ainda há verão em 2025 (8): Santiago de Compostela não é apenas uma questão de bike...terapia (Paulo Santiago, caminheiro e amante dos desportos radicais...)



Caminheiros ou "pelingrinos" de Santiago. Infografia sobre foto de LG (2006)



1. Esta é uma faceta, menos conhecida, dos antigos combatentes da Guiné, a de  caminheiros (e devotos) de Santiago (Paulo Santiago, Abílio Machado, Virgílio Teixeira, Luís Graça... e outros que ainda não deram aqui a cara, mans vão a tempo enquanto durar o nosso querido mês de agosto) (*)...

Alguns perguntarão: "Mas, que raio!, qual é a relação entre a Guiné e a Santiago de Compostela ?!"... 

Pois é, o Paulo Abrantes  Santiago (que tem o apelido  do santo, Santiago "Mata-Mouros"), já lá foi, de "bike" e a pé, uma meia dúzia de vezes... E eu acho que não é só... "bike...terapia".

É verdade que ele é, ou sempre foi, um amante dos "desportos radicais" (râguebi, "bike", paraquedismo, cicloturismo, viagens de saudade à Guiné, "camiño" de Santiago...). Toda a gente o conhece como um "durão", com o coração ao pé da boca...

No poste P1904, de 30 de junho de 2007, escreveu o Paulo Santiago (**)

Mais uma vez, confirmei que uma das coisas que a guerra me deu foi uma grande rusticidade e grande capacidade de sofrimento físico. Mesmo com frio bebia sempre mais de 3 litros de água.

Para terminar, digo que fiquei satisfeito com esta aventura, emocionei-me quando cheguei ao fim dos 255 km, em Santiago, e espero entrar noutra, numa próxima oportunidade. Apesar de sexagenários, com calma, nós conseguimos.(...)



2. Pode-se perguntar (e as perguntas não ofendem): 

" Qual é a ligação, mesmo longínqua, entre a guerra colonial na Guiné (1961/74) e a peregrinação a Santiago de Compostela, hoje e no passado ? Por que razão há antigos combatentes a ir a Santiago, a pé, de "bike" ou de automóvel, a Santiago, 30, 40, 50 anos depois do fim da guerra colonial ? Como o Paulo Santiago ou ou o Abílio Machado (que já fez os caminhos todos e escreveu um livro com os seus diários)...

" A Fátima, ainda se compreende, no cumprimento de promessas, logo a seguir ao regresso da Guiné... mas Santiago, o "Mata-mouros",  remete para a "reconquista cristã", e o ódio histórico, patológico, entre cristãos e muçulmanos, na península ibérica... Faz algum sentido hoje, este culto a Santiago?"


2.1. Resposta do meu assistente de IA, o "Sabe-Tudo" (ChatGPT):

(...) Uma excelente pergunta, complexa e cheia de camadas históricas, espirituais e até psicológicas.

(i)  A Guerra Colonial e a Guiné como "ferida espiritual"

A guerra na Guiné (1961-1974) foi talvez o mais traumático dos três teatros coloniais (Angola, Moçambique e Guiné). Ednvolveu um confronto particularmente duro, em selva fechada, com grande sofrimento físico e psicológico. Muitos antigos combatentes guardam até hoje feridas emocionais profundas – stress pós-traumático de guerra, sentimentos de culpa, desilusão política ou espiritual.

(ii) Peregrinação como processo de cura

A peregrinação a Santiago de Compostela, muito mais do que um ato de fé convencional, tem-se tornado (hoje em dia) num caminho de introspeção, cura e reconciliação interior. 

Para muitos antigos combatentes, o Caminho é sobretudo um:
  • ritual de reconciliação com o passado, longe dos símbolos militares ou religiosos tradicionais (como Fátima);
  • percurso de silêncio e esforço físico que espelha o sofrimento passado, mas agora com propósito positivo;
  • reencontro com outros caminheiros, onde a partilha de experiências pode ajudar, trai como no passado,  a aliviar a dor e a solidão acumuladas durante décadas.
(iii) Porquê Santiago e não Fátima?

Embora Fátima tenha um papel importante no imaginário católico português, ela está ligada sobretudo à fé mariana e à devoção passiva. Santiago, pelo contrário:

  • evoca a ação, a caminhada, o movimento, a superação, mais próximos, portanto,  da vivência dos ex-combatentes;
  • tem um simbolismo de missão, caminho, espada (metafórica ou real), que pode ressoar com a memória militar;
  • hoje é vivido como universal e não exclusivo dos cristãos: muitos não-crentes ou "crentes à sua maneira" percorrem-no sem dogmas.
(iv) Reconquista, cristãos e muçulmanos: uma questão 
ainda relevante?


É verdade que o Santiago "Mata-mouros" (o apóstolo guerreiro) foi símbolo da "Reconquista cristã"  e do combate aos muçulmanos (os "infiéis"). No entanto:

  • esse significado perdeu força nos dias de hoje, muitos peregrinos nem conhecem esse passado;
  • a atual peregrinação a Santiago é mais espiritual e existencial do que religiosa ou ideológica;
  • antigos combatentes procuram cura e não conquista, redenção e não vingança.

Conclusão

Sim, faz sentido. Santiago representa, para muitos, um espaço simbólico onde se pode fazer as pazes com o passado, em especial com um passado tão duro como o vivido na Guiné. 

Não é um símbolo de guerra religiosa, mas um santuário de reencontro com o eu profundo.


2.2. Por outro lado, ó "Sabe-Tudo", não é por demais lembrar que a 'expansão marítima (e territorial)" de Portugal, começou, no Norte de África, com a conquista de Ceuta, en 1415...

Dito pelo ChatGPT:


Muito bem observado: é uma ligação histórica e simbolicamente rica, que merece ser trazida para o centro da reflexão.  
.
(i) Ceuta, 1415: o início da Expansão e da Continuação da "Reconquista"

A conquista de Ceuta em 1415 é geralmente vista como o pontapé de saída da expansão ultramarina portuguesa.

Mas não se pode esquecer que, na mente dos contemporâneos (e da nobreza guerreira portuguesa), ela era ainda uma extensão da "Reconquista". A luta contra os muçulmanos não tinha terminado com a expulsão do Islão da Península,   transferia-se agora para o norte de África.

Este espírito "cruzado" e expansionista sobreviveu durante séculos, mesmo quando os objetivos se tornaram mais económicos ou políticos. 

Em certo sentido, a guerra colonial, séculos mais tarde, pode ser vista como um eco distorcido e tardio dessa lógica expansionista.

(ii) A longa sombra da Reconquista

A mentalidade da Reconquista deixou marcas duradouras:
  • uma cultura de missão e sacrifício patriótico;
  • a glorificação da conquista  (e do império) como "desígnio nacional";
  • a ideia de que a identidade portuguesa se constrói no confronto e na fronteira.
É precisamente por isso que a ligação à peregrinação a Santiago, embora possa parecer deslocada a partir de um olhar moderno e racional, ressoa no fundo de uma matriz cultural onde guerra, fé e caminho / viagem (por terra ou mar) se entrelaçam.
 
(iii) Os ex-combatentes e a busca de sentido

Se pensarmos nos antigos combatentes da Guiné e doutros teatros de operações da guerrra colonial,.  a peregrinação a Santiago pode representar:
  • um ato simbólico de encerramento de um ciclo histórico e pessoal (da conquista ao recolhimento) (e de "exorcismo dos fantasmas", como diz o nosso editor LG);
  • uma tentativa de purificar espiritualmente uma missão sentida como ambígua ou mal resolvida;
  • um regresso às origens identitárias, mas agora com um olhar mais interior e pacificador.
(iv)  A ironia e a reconciliação

É profundamente irónico (e, talvez por isso mesmo, profundamente humano) que os antigos combatentes de uma guerra colonial (em território maioritariamente muçulmano como a Guiné) acabem por caminhar até ao santuário de um santo guerreiro da Reconquista cristã. 

Mas talvez esse caminho simbolize não tanto um prolongamento (impossível bem desejável) da guerra, como sobretudo uma forma de a ultrapassar.

No fundo, o Caminho de Santiago funciona como um espelho de longa duração da história portuguesa: começa na luta (Reconquista), passa pela conquista (Ceuta e além-mar), afunda-se no trauma (Guerra Colonial) e hoje oferece um trilho de redenção pessoal e coletiva.

(Pesquisa: assistente de IA / ChatGPT e LG / Revisão e fixação de texto, negritos: LG)



3. Dpois comentários do Paulo Santiago sobre o "Camiño":


3.1. A primeira ida a Santiago de Compostela foi em setembro de 2000 com partida de Ponte de Lima. Organização do Batotas, clube de BTT, nascido naquela Vila, a mais antiga do País, que não quis ser cidade.

Era um grupo grande onde ía também o meu filho. Três dias até entrar na Praça de Obradoiro.

Voltei em 2006 a pé, em pleno agosto, um calor sufocante.A ideia era fazer Astorga-Santiago, errei os cálculos, duas semanas de férias, parei em Portomarin. Concluí o restante entre 1e 5 de dezembro desse ano.

Em 2007 repeti o Camiño, Astorga-Santiago,  de bike, na companhia de uma amiga e colega. Terrível subir o Cebreiro, em 6 km ir de 550 metros de altitude para 1300.

No mesmo ano, 1 a 5 de dezembro, Santiago-Finisterra.

Em 2009 Caminho Inglês com saída de Ferrol.

Em 2010, com a minha mulher,Valença-Santiago.

Em 2015 com um grupo de colegas do Rugby, Valença-Santiago

Em 2016,com duas amigas, Caminho Inglês com saída de Corunha.

Em 2013, confiei, em Pontevedra, fui almoçar, o albergue ainda estava fechado, deixei a mochila encostada ao portão...fiquei com a roupa que tinha vestida.

Paulo Santiago

domingo, 3 de agosto de 2025, 00:07


3.2. Camaradas: lembrei-me de um encontro que tive há 16 anos no Caminho Francês. Em 9 de agosto de 2006, saí de Astorga com destino a Santiago. No dia 11, pelas 8.00 horas, parei, a comer uma maçã, à saida de Ponferada. Aproximou-se um peregrino.também sózinho,e iniciámos uma conversa em francês.Tinha 60 anos.estava reformado, era Holandês.

Perguntei-lhe onde iniciara o caminho,Roncesvales ou St.Jean Pied de Port ?

Respondeu-me: começara a caminhar em Amsterdão no dia 4 de abril. 

Devo ter ficado de boca aberta.

Passados dias, jantamos juntos em Tricastela.Durante a conversa disse-me que ía ficar mais um dia naquela localidade porque estava adiantado.

Explicou-me a razão.A mulher vinda da Holanda,via aérea,aterrava em Santiago numa determinada data,e ele chegaria nesse mesmo dia.Feitas as contas havia que parar durante um dia.

Iria estar com ela durante três dias,ao fim dos quais,ela seguiria ara a Holanda,de avião,e ele prosseguia para Finisterra.Voltaria à Holanda por via terrestre, avião era muito rápido para quem caminhava desde abril.

Abraços

Paulo Santiago

sexta, 1/08/2025 20:35

(Revisão / fixação de texto: LG)

_______________

Notas do editor LG:

segunda-feira, 14 de julho de 2025

Guiné 61/74 - P27015: Contos com mural ao fundo (Luís Graça) (42): Nascido com o cu virado para a lua



"Da janela do meu quarto, na madrugada do dia 28 de setembro de 2015, por volta das 4h20, o firmamento celeste apresentava o tão esperado acontecimento astronómico do ano, a ocorrência de Super Lua em simultâneo com um Eclipse Total da Lua...

Peguei na máquina e obtive esta e outras imagens,  que quis partilhar com os nossos leitores... Já estava a meio o eclipse, eu devia ter-me levantado mais cedo...  

Dizem que os lobisomens é que uivam à lua cheia, mas também em luas negras, e provavelmente em noites de eclipse... Quando eu era puto, acreditava em lobisomens... Se acreditava!... E até me diziam que tinha um tio-avô que era lobisomem... Metiam-nos medo, aos putos, os safados dos graúdos, com essas histórias de lobisomens, bruxas, almas penadas e espíritos maus que cochichavam por detrás das paredes, portas e armários... Havia amuletos, gestos, rezas e mezinhas para nos defendermos do mau olhado e dos encontros funestos com estes seres do mundo das trevas."

Foto (e legenda): © Luís Graça (2015). Todos os direitos reservados. 


Contos com mural ao fundo > 
 Nascido com o cu virado para a lua

por Luís Graça


 "Nascer com o cu virado para a lua" é uma expressáo da chamada  sabedoria popular, aplicada a quem tem muita sorte na vida,  traduzida  em geral pelos sinais do sucesso,  do amor ao dinheiro, da saúde aos negócios. Sucesso obtido de maneira aparentemente natural,  fácil, quando não mesmo inesperada... Claro, as histórias de sucesso causam sempre inveja aos outros que se queixam de não ter tido sorte na vida. 

Pode ter sido o caso do Ulisses C..., ,  senhor embaixador, já falecido. Diziam na terra que ele nascera de um parto distócico. De costas, de barriga para baixo, de cu para o ar. E para mais em noite de luar de janeiro. E sobrevivera.  Contra todos os temores. O que a velha parteira interpretou como um sinal de que vinha ao mundo já abençoado. 

− Há gajos que nascem com o cu virado para a lua… Como o teu cunhado, por exemplo…

− Quem, o Ulisses?

−  Sim, Jorge, só tens um,  que eu saiba.

−  Já agora retifica: ex-cunhado, senão te importas... E,  se queres que te diga, nunca fomos muito à bola um com o outro.

O Fernando (Nando, para os amigos) aproveitou  então para esclarecer o seu interlocutor, o Jorge, que já não via o Ulisses desde 1974, a seguir ao 25 de Abril… 

Mal saiu a amnistia, da Junta de  Salvação Nacional, aos faltosos, refratários e desertores, o Ulisses voltou à sua terra para abraçar o "paizinho" e as manas e, claro, para limpar a caderneta militar.

Veio com pressa, o Nando mal conseguiu pôr-lhe a vista em cima. Mas ainda se lembrava dele na escola, ao ex-cunhado do Jorge, hoje o senhor embaixador, com nome de rua na terra, o doutor por extenso, Ulisses  C...

Foi um "puto mimado", confirmavam os dois interlocutores.  O pai, o senhor Anselmo, já era uma pessoa importante e rica. Ou rica e importante, como se queira .

Na escola, o Ulisses gostava de se armar em vítima quando as coisas não lhe corriam de feição, nomeadamente nos ditados de português (que eram à compita, para ver quem dava menos erros)... Mas também no recreio, nas jogatanas de futebol ou nas partidas do pião.

− Sou mais velho que vocês, já não vos apanhei na escola – acrescentou o Jorge.

− Foi um sortudo, o Ulisses!..,

− Se ele estivesse aqui responder-te-ia logo: “Sortudo, eu?!... A minha pobre mãezinha ia morrendo de parto. A dona Natércia é que nos salvou. A mim e a ela, à força de braço!... Eu nasci de cu para o ar."

− A dona Natércia?!... – exclamou o Nando. − A parteira que  nos aparou a todos. Era tão ou mais popular que o nosso velho mestre-escola, ou o nosso João Semana… Mas eu não sabia dessa história do parto que podia ter corrido mal.

− Há,  sim. Nasceu, de facto,  de cu para o ar. Podia não ter-se safado.  E a nossa terra não teria agora uma figura tão grada como o senhor embaixador Ulisses C...− atalhou o Jorge.

A mãe do Ulisses adorava contar essa história, aos netos e às visitas lá de casa, de como a velha parteira da terra a salvara,  a ela e ao seu menino…

− O "menino de sua mãe"..., estou a ver!

− A minha ex e as suas duas irmãs não escondiam a ciumeira que tinham dele −  confidenciou o Jorge, uns bons anos mais velho do que o Nando. 

Nascera prematuro, e numa posição difícil... Mas safou-se. Naquele tempo foi, de facto,  um sortudo... 

− Morriam 125 crianças com menos de um ano de idade por cada mil nascimentos − interrompeu o Fernando (que era médico).

Naquele tempo, não havia cuidados neonatais, com exceção da Maternidade Alfredo da Costa, inaugurada em 1932, na capital.  Estamos em plena II Guerra Mundial,  em 1943, quando o Ulisses veio ao mundo, em casa, como o Jorge, o Nando e todos os demais da sua geração...

− Lembrava o pai que foi em plena batalha de Leninegrado, quando o Exército Vermelho conseguiu, pela primeira vez, abrir um corredor que levou a esperança aos sitiados −  acrescentou o Jorge.

− Nem as senhoras iam ter os filhos aos hospitais, que horror!− lembrou o Fernando.

De facto, o doente (sobretudo quem tinha algo de seu)  ficava acamado em casa, era tratado pelo João Semana ou por  alguma "curiosa" e, se era caso para morrer, morria em casa, rodeado de filhos e netos... , depois de receber a extrema-unção pelo padre da paróquia.

Em amena  cavaqueira com o Jorge, o "historiador da terra", o homem que mais sabia sobre as misérias e  as grandezas das famílias tradicionais da vila,  o Fernando veio  a descobrir que o Ulisses nunca mais voltara à "parvónia" depois da amnistia de 1974…

− Nem no funeral do pai… Ou do paizinho, como ele o tratava. O que se sempre achei uma ingratidão − comentava o Jorge.−  No funeral da mãe, da querida mãezinha, entendia-se, ele estava fora do país, ilegal, exilado. 

− A mãe morreu cedo com cancro da mama, incurável na época, se bem me lembro − atalhou o Nando.

Claro, o paizinho, o senhor Anselmo,  visitava-o no estrangeiro, com alguma regularidade,  até ao dia em que as relações entre eles se azedaram quando o Ulisses e as manas  descobriram que o pai tinha arranjado... uma amante! 

− Vinte e tal anos mais nova, com casa posta num concelho vizinho − confidenciou o Jorge.

− A "Anselma", como diziam as más - línguas. Não a conheci...Mas era assim que os "industriais" faziam... para salvar as aparências...

− A "Anselma"!... Cheia de mordomias... A minha ex-mulher, que Deus também já lá tem, tinha-lhe um ódio de morte...

 − Mas... exilado, o Ulisses, dizes tu?!   − interroga-se o Fernando.

− É uma figura de estilo. Não foi por razões políticas. Como sabes, ele fugiu à tropa. Tão simples quanto isso.

Não, não era um desertor, mas um refratário... Não era a mesma coisa: legal e tecnicamente, o Ulisses não foi um "fujão", como se costumava dizer na época em relação aos desertores.  Foi refratário, com muitos outros… Refratário ou  desertor era, no entanto,  bem mais grave do que faltoso na época, em que o país estava em guerra.

Aqui o Jorge gracejou com o Fernando,  dizendo:

− Eras ainda um puto, não te deves lembrar...  Mas em 1961, e eu já em Angola,  não tenho ideia de Portugal ter declarado guerra contra nenhum Estado estrangeiro soberano:

− A não ser talvez a Índia que, no final desse ano,  vai ocupar e usurpar descaradamente...

− ... a nossa jóia da coroa!...− apressou-se o Jorge a completar a  frase do seu  amigo.

E depois elucidou-o:

− Afinal, lembras-te!... E, como os nossos homens capitularam, e não se bateram até a última gota do seu  sangue contra as tropas do 'Pandita' Nehru, Salazar tratou os nossos prisioneiros de guerra, no seu regresso à Pátria, com o mais profundo rancor e desprezo… 

− Só soube isso muito mais tarde... Mas também não sei de semelhante humilhação aos nossos militares,  na nossa história. 

− Sou dessa geração, tenho dois ou três colegas do tempo de escola e da tropa, naturais da vila,  que ficaram prisioneiros de guerra na Índia e que, quando regressaram, coitados, estiveram semanas e semanas sem sair à rua com vergonha... Vergonha de serem gozados ou escarnecidos  pelos vizinhos... por não terem morrido pela Pátria...

− Mas tu também te lixaste, Jorge, foste o primeiro ou dos primeiros da terra a marchar em 1961, para Angola, "rapidamente e em força"... 

− De pistola-metralhadora em punho, capacete de aço e farda amarela.  E as praças equipadas com mauser, estás a imaginar?!… A desfilar na marginal de Luanda. Mas tive uma sorte danada, uma hepatite recambiou-me cedo para o hospital das doenças infectocontagiosas, em Belém.

Foi então a ocasião para conhecer melhor a história do Ulisses, o Ulysses com y grego, como ele gostava de escrever, e do seu pai, o senhor Anselmo.  

Das suas origens do senhor Anselmo, sabia-se muito pouco ou nada.  Sabia-se que tinha vindo de fora. E, tal como outros que vieram de fora, tinha sido bem recebido na terra e tivera sorte, isto é,  sucesso, em termos  pessoais, familiares e profissionais. 

Tinha a vantagem de não ter passado. Não se lhe conheciam os "podres",  como diziam as alcoviteiras da terra. Mas também ninguém sabia se tinha nascido com o cu virado para a lua, como o filho...

A verdade é que aqui casou,  aqui teve filhos e aqui criou e desenvolveu os seus negócios. E ganhou muito dinheiro...

− Os "saloios" sempre trataram bem os "galegos", os que vinham de fora, do Norte...  − observou, com sarcasmo, o Jorge. 

Muito antes de Portugal ter aderido à EFTA, a Associação Europeia de Comércio Livre, já o Anselmo tinha um negócio de import-export (como gostava o filho de dizer aos palermas dos putos da escola)…  

Digamos, tinha alguns contactos, embora ainda tímidos, mas pioneiros e sobretudo  promissores, com países da Europa do Norte e Centro. Com uma ou outra representação de empresas escandinavas (e depois italianas), na área das alfaias e máquinas agrícolas.

Começara no tempo da Segunda Guerra Mundial, com uma pequena oficina metalúrgica, aventurando-se depois na reparação automóvel. Passou, entretanto, a ter uma bomba de gasolina da Shell. Uma novidade, já que ainda havia poucos carros. Havia poucos automóveis particulares, um ou outro carro de aluguer, uma meia dúzia de camionetas de transporte de mercadorias... 

O Jorge  ainda era do tempo em que só havia uma camioneta de passageiros por dia com destino à capital, e que parava em todas as terras... E a maior parte das estradas do concelho ainda não eram alcatroadas.

Os negócios do senhor Anselmo foram crescendo no pós-guerra, em condições de mercado muito mais favoráveis, e sobretudo ao longo da década de 1950, com a abertura da economia ao exterior, a eletrificação e a industrialização do país, etc., ao ponto de se ter tornado, à escala regional, um médio industrial. 

− Era dos poucos que tinha carro e, mais importante, era o único que já tinha ido a Roma ver o Papa e visitado os lugares santos na Palestina − acrescentou o Jorge sobre o currículo do seu ex-sogro.

Viajava com alguma frequência para a Europa do Norte, com destaque para a Holanda (hoje Países Baixos) e também para a Itália (onde tinha a representação de uma conhecida marca de motocultivadores e tratores). 

Quando se soube, por um dos diários da capital, o "Novidades" (jornal oficioso da  hierarquia da Igreja Católica portuguesa), que tinha sido recebido pelo Papa Pio XII, integrando um grupo de peregrinos católicos,  portugueses e brasileiros, o seu estatuto social na terra subiu mais uns dois ou três pontos. E calou de vez o coro das mulheres que, no lavadouro público, também lavavam a "roupa suja" dos ricos da terra...

Passou a ter lugar na primeira fila na igreja, ao lado dos notáveis locais, os " caciques", que tinham contribuído  com um "conto de réis ou mais" para o restauro da igreja matriz. Eram "poucos mas bons", e sobretudo "almas piedosas", esses beneméritos, como dizia publicamente o pároco, a quem os dos "reviralho" chamavam, entre dentes, o "sabujo dos ricos"; mas convenhamos, um conto de réis,  no início dos anos  50, não era uma fortuna, seriam a preços de hoje qualquer coisa como pouco mais de  550 euros, ou um mês de jornas de um "cavador de enxada"...

Nunca foi, ao que se saiba, um católico praticante. E até se dizia,  entre dentes, que era "maçon", coisa terrível e misteriosa que ninguém sabia o que era;  pior só jacobino,  mas muito pior ainda ser comunista...

O senhor Anselmo ia à missa ao domingo, mais para "ver e ser visto" e, naturalmente,  acompanhar a digníssima esposa. Claro, nunca o viram comungar, diziam as "cuscas" das beatas.

O Jorge achava que ele era mesmo "maçon" (a maçonaria estava proibida) e, claro, do "reviralho", do "contra"...Durante a II Guerra Mundial, dizia-se que era "anglófilo" (até por ter andado na marinha mercante inglesa e ter uma bomba da Shell). Terá sido dos primeiros a ter rádio e luz elétrica em casa. E constava que ouvia a BBC. E mais: dizia-se que era espião dos ingleses.

− Mas finório e cínico como ele sempre foi,  nunca falou de política  comigo: sabia que eu era do "contra" e até simpatizava comigo. Nunca o ouvi falar de política com os filhos.

Também é verdade, declinou em 1958, depois das eleições do Humberto Delgado,  o  convite para integrar a União Nacional (o partido do Estado Novo), alegando  a sua origem social modesta: era filho de operário, vinha de um sítio mal afamado (a Marinha Grande), tinha a 4.ª classe (em boa verdade,  tinha um curso técnico na área da mecânica fina, era autodidata e poliglota).

Ironicamente, insinuava que não podia competir com os doutores, médicos, advogados e magistrados da comarca pelos quais nutria, de resto, um profundo mas secreto desprezo.  

Recusou igualmente um  convite (esse menos lisonjeiro) para integrar o executivo camarário, mas aí tinha um argumento de peso, os seus múltiplos afazeres como empresário de quem já dependiam algumas dezenas de famílias da terra. 

Todavia, a  razão nem  era essa: ele já movimentava mais dinheiro e empregava mais gente que a câmara toda... A autarquia, pobretana, nessa época, dependia do "fundo para o desenvolvimento da mão-de-obra"  e das "esmolas" do senhor governador civil do distrito para poder construir um simples lavadouro público, abrir um estradão ou calcetar uma rua...

Com uma grande superioridade moral, elevação de espírito, e sobretudo inegável talento para os negócios e as relações públicas, deixou bem claro, à tacanha elite local, de agrários, comerciantes e "mangas de alpaca", que não precisava da política para subir na vida... 

Restaurou o melhor palacete da vila ( doado â esposa por morte da tia e madrinha),  para inveja de alguns senhores da terra. Acabou,   todavia, por se aproximar de alguns círculos da elite financeira e política do Estado Novo, quando encabeçou um grupo representativo das "forças vivas" locais que se "mexeram para trazer para a terra a primeira agência bancária".

Em contrapartida, sabia-se pouco ou nada da sua história de vida passada. Sabia-se, isso sim, que tinha vindo "de fora"... Insinuavam alguns dos seus poucos inimigos que tinha vindo "foragido" da Marinha Grande logo a seguir à revolta de 1934.

− O 18 de Janeiro de 1934 ?... − indagou o Fernando (que, como médico, conhecia a história  da Marinha Grande).

− Sim, mas ele recusava-se terminantemente falar desses tempos, pelo menos quando eu frequentava a  casa da família, depois de casado. 

O pai era operário vidreiro, desde miúdo, e terá morrido misteriosamente uns meses depois da revolta de 1934. Havia versões contraditórias, para uns o pai tinha morrido, de infeção, depois de baleado, num perna, pela tropa de Leiria; para outros, teria morrido, muito simplesmente de silicose, o que  parecia mais verossímil, aos olhos  do dr. Fernando ... 

A mãe, a avó paterna do Ulisses, era operária na Tomé Feteira. Era natural de  Vieira de Leiria. Terá morrido ainda mais cedo, de tuberculose. Lá em casa do Anselmo, só havia uma velha foto da família, dos anos de 1910, com os pais e os irmãos, pequenos. Estava na mesa do escritório onde ninguém entrava a não ser a criada para a limpeza semanal do pó...  

Sabe-se que o Anselmo só conheceu a futura terra dos seus filhos depois do casamento, na véspera da II Guerra Mundial. Conheceram-se, ele e a futura esposa,  ao que parece, num cruzeiro da Cunard-White Star. Ele fazia parte da tripulação do navio. E ela acompanhava a tia e madrinha que, além de viúva e sem filhos, era rica e tinha o bom gosto de viajar.  

O Anselmo era um sedutor e um "gentleman": depressa caiu nas boas graças da tia e da sobrinha.  O copo de água foi  na Figueira da Foz. A madrinha morreria no pós-guerra e deixaria o palacete à sobrinha e afilhada.

Lá em casa, garantia o Jorge, também nunca se falava do passado, não  havendo por isso  grande curiosidade em saber mais sobre a  vida desses obscuros (e, de algum modo, incómodos) antepassados do papá Anselmo. Afinal, todo a gente de bem tinha um ramo pobretana na família.

Das poucas vezes que ele,  a mulher e os filhos foram a Vieira de Leiria, em passeio, aproveitando para "revisitar o passado",  deu para perceber melhor a sua origem: os seus "parentes afastados" ainda viviam, como os pescadores, em "palheiros", casas de madeira, sob estacaria, construídas na duna e que na época balnear alugavam aos forasteiros.

− Apesar da distância, naquela época, o meu ex-sogro gostava de ir à Praia da Vieira, quanto mais fosse, alegadamente,  só para assistir ao espetáculo da  arte xávega  ( com "os bois a lavrar o mar")... No fundo, um pretexto para passar uns dias na "terra da sua querida mãe"...

Chegou a alugar um "palheiro" nos anos cinquenta... Mas a mulher e os filhos, o  Ulisses e as manas,  detestavam,  que horror!, preferindo de longe São Pedro de Moel, que já era chique nesse tempo, atraindo as poucas famílias burguesas, abastadas, da região...

Estamos, entretanto, a falar de uma época em que  o industrial, o empresário capitalista, era menos considerado socialmente do que o comerciante ou até o funcionário público.  O Salazar era um "rural".  O proprietário agrícola, de média ou grande dimensão, esse, sim, tinha mais estatuto. E o Estado Novo estava bem representado por algumas famílias tradicionais agrárias. Umas eram de tradição republicana, e outras não escondiam a seu amor à bandeira azul e branca da monarquia.

Com o 28 de Maio de 1926, e sobretudo com o salazarismo, clarificaram-se  as águas… Os agrários da região, absentistas nalguns casos, deram-se bem com o Deus, Pátria e Família, monárquicos e republicanos, mais conservadores,  reconciliaram-se, sentindo-se representados, mal ou bem, na União Nacional... 

A "praça da jorna" continuou a funcionar ao longo dos anos, fornecendo mão de obra dócil, barata e abundante, os "cavadores de enxada", às principais casas agrícolas. Até que veio, como uma enxurrada imparável, o êxodo rural, a emigração para as cidades e para França e a Alemanha, além da guerra colonial... e depois o 25 de Abril. 

Mas, também, ao fim de três ou quatro gerações, o património fundiário (e nomeadamente as quintas) dessas famílias já andava pelas ruas da amargura: nuns casos, hipotecado aos bancos, noutros expropriado por interesse público  (quando começaram a aparecer os planos de urbanização),  ou  vendido ao desbarato para a especulação imobiliária, ou, noutros casos ainda, mal entregue a caseiros ou a feitores que os roubavam "à grande e à francesa"... 

Poucos se modernizaram, inviabilizando as explorações agrícolas.  As máquinas já não vieram a tempo de suprir a falta de braços, Os netos ou os bisnetos já tiveram que mendigar um emprego "à mesa do Estado".

Foi, além disso, o Anselmo, um homem de visão, como então se dizia… Pôs os quatro filhos a estudar. As raparigas tinham o quinto ano ou tiraram um curso médio,  o rapaz foi mais longe, chegando a embaixador na então CEE, a  Comunidade Económica Europeia. Uma das raparigas foi professora primária, e outra,  assistente social. A mais velha, a ex-mulher do Jorge, ficou a trabalhar com o pai, no escritório da empresa.

O Anselmo nunca foi íntimo das famílias mais tradicionais da terra, mas acabou por ser um dos homens mais endinheirados da região. Investiu no bom tempo também no imobiliário, fez um bairro de casas "à Raul Lino", com o nome da esposa. E acabou por vender as moradias a seguir ao 25 de Abril, "antes que fossem ocupadas". 

Não se adaptou bem aos novos tempos, mas também não se colou aos partidos que, entretanto, nasceram com a liberdade. Não foi "vira-casacas", como muitos outros, logo a seguir ao 25 de Abril. Os democratas do 26 de Abril, nascidos como cogumelos.

Os negócios tiveram altos e baixos, com a descolonização, depois a crise económica e financeira dos anos 70 e 80. A integração na CEE já chegou tarde para ele. A fábrica teve de ser intervencionada. Antes da declaração de falência, e muito  por desgosto com a vida, e com o rumo que tomou o país, para além de problemas de saúde (era diabético), morreu nos princípios dos anos 90, com oitenta e tal anos. Tinha nascido com a República. E "morreu republicano", garantiu o Ulisses, num "in memoriam" que escreveu sobre o pai, e publicado no jornal da terra.

 O Ulisses não era propriamente um amigo do peito do Fernando. Eram apenas conterrâneos, vizinhos e colegas de escola...

− Três anos nos separavam (o que era muito naquele tempo!)...Eu sou da colheita de 1946.   Além dos seus "tiques de classe", quero eu dizer os seus trejeitos de "menino rico", o primeiro a ter uma  "vespa".

Ele já na 4.ª classe e sempre na primeira fila. De bibe, impecável, engomado e  passado a ferro pela criada.  Na altura juntavam-se os putos das várias classes. E ninguém entrava descalço. 

Ele tirou o 2.º ano (hoje o 6.º ano) no colégio da terra, que o Fernando nunca pôde frequentar (era filho de caseiro). 

Depois o pai mandou-o para Lisboa para seguir o liceu. Ficou na casa de uma tia materna, cujo marido trabalhava nas finanças. Tinha explicações particulares de francês e de inglês. E fez a sua primeira viagem ao estrangeiro, com o pai,  por ocasião da  Expo 58, em Bruxelas. Ganhou o gosto pelas viagens e pelas línguas estrangeiras. 

− É capaz vir desse tempo o sonho de enveredar pela carreira diplomática − interrompeu o Jorge.− Estou a vê-lo, no regresso da Expo 58... Imagina, um luxo que não era para todos, ir de Lisboa a Bruxelas, de comboio… Um puto com 15 anos!... Eu já namorava com a irmã mais velha… Ofereceu-me um cartaz a cores com o ícone da Expo 58, o Atomium, se bem recordo.

Uns anos depois, estava a frequentar, na faculdade de letras de Lisboa, o curso de germânicas (seguramente por conselho ou imposição do pai)... Ainda apanhou a crise académica de 1962 mas o pai tratou de o ir buscar rapidamente, pondo-o a salvo, antes que as coisas dessem para o torto (como deram).  Nunca apanhou o "vírus" das greves estudantis...

Entretanto foi à inspeção com a malta do ano dele, a de 1943. O pai estava convencido que ele nunca seria apurado para o serviço militar. Tinha um problema no ouvido esquerdo devido a uma otite, mal curada, que apanhara em criança, na época balnear. 

Vinha munido de uma valente cunha e de um extenso relatório médico, passado por um conceituado otorrino, professor da faculdade de medicina de  Coimbra. O pai fez questão de entregar pessoalmente o documento ao presidente da junta médica militar, que por sinal era de Leiria e seu conhecido.

O melhor que o Ulisses conseguiu foi  uma ida ao Hospital Militar Principal, na Estrela, para uma consulta da especialidade. Ficou na lista de espera, tendo de voltar à inspeção militar no ano seguinte.  A gravidade do diagnóstico não foi confirmada. E o Ulisses viu-se apurado para todo o serviço militar, para grande desgosto dos papás.

Podia ter acabado o curso de germânicas, nas calmas (desde que não chumbasse), antes de ser chamado para a tropa,  mas, logo em 1964 numa viagem à Alemanha, numa "summer school" organizada pelo Instituto Goethe, ele arranjou maneira de ficar por lá, tendo-se fixado na Holanda, onde o pai tinha contactos e negócios. 

−  Tudo combinado com o pai, que mexeu todos os pauzinhos para o pôr a bom recato. −  adiantou o Jorge. −  Não foi uma decisão fácil para o meu ex-sogro: o Ulisses era o único rapaz da família, e era esperado que fosse o seu sucessor à frente dos negócios. 

Mas a vida (ou a guerra de África)  trocou-lhe as voltas. De facto, aqui contava muito a opinião da mãe que, segundo uma cena patética que terá feito lá em casa, "preferia mil vezes ir ver o seu filho a Amsterdão, terra de hereges, do que ir ao cemitério depositar-lhe uma coroa de flores, mesmo sabendo que ia para o céu". 

− A mãe, a minha ex-sogra,  era uma boa senhora, esbelta, viajada, culta, mas  conservadora,   beata, benfeitora e amiga dos pobres. Fundou uma creche que o Anselmo doaria mais tarde â santa casa da misericórdia local e que hoje tem o nome da esposa.

E o Anselmo não autorizava que se falasse de política  à hora das refeições.  De resto, não era hábito falar-se da  "porca da política" (sic) naquela época, muito menos nas casas das pessoas decentes. 

A senhora tinha ficado muito impressionada com a morte do Licas, o filho mais velho da empregada doméstica (na altura, dizia-se "criada"), que morrera em Angola, logo em 1961. Fora o primeiro soldado da terra a morrer na "guerra do ultramar". E o caixão nunca veio, "nem cheio de pedras".

A família era pobre de mais para pagar a urna de chumbo e o transporte marítimo... E o senhor Anselmo aqui também não abriu os cordões à bolsa...Doze  contos de réis era muito dinheiro naquele tempo de incerteza. Ele já tinha interesses no ultramar (em Angola, mais concretamente). E alguém tinha que os defender... Os filhos dos outros, devia ele pensar.

A verdade seja dita: o Ulisses não desperdiçou as oportunidades que lhe surgiram pela frente na sua nova terra... Formou-se em direito europeu em Maastricht, trabalhou no Parlamento Europeu e, talvez ainda mais importante, casou com uma holandesa, filha de um importante dirigente político, de um partido na área da social-democracia, filiado na Internacional Socialista. Abriram-se-lhe depois as portas da diplomacia europeia.

− Foi o Euromilhões do Ulisses, diríamos hoje! − comentou o seu ex-cunhado. 

Segundo ele, passou a ter uma reforma dourada e um vasto capital de relações sociais... Era agora livre de fazer os seus negócios na área do imobiliário, vivia entre  o Algarve  e a Holanda, a terra dos seus filhos e netos... Não se falavam desde que o Jorge se divorciara da irmã. Nem nunca mais aparecera pela santa terrinha. 

−  Nunca morremos de amores um pelo outro...Mas tem cá nome de rua, desde que passou a ser comendador...

− Em boa verdade, não sei o que é que ele fez pela nossa terra... O pai, sim,  mas esse nem nome de beco tem...

− De qualquer modo, ele  é mais holandês do que português!  − arrematou o Jorge. − Que é como quem diz, tem o melhor de dois mundos.  

E concluiu:

− Teve um bom padrinho... o sogro holandês.

− Neerlandês, como se diz agora... Mas eu diria antes:  melhor ainda do que um bom padrinho, é ter um bom paizinho − comentou, irónico,  o  Fernando.

− Foi tudo junto... Cumpriu-se, afinal,  a profecia da parteira, quem nasce de cu virado para a lua tem sempre sorte na puta da vida...


PS - O Ulisses C... morreu uns tempos depois desta conversa. De qualquer modo, o nome é fictício, mas a sua história de vida é real.

© Luís Graça (2022). Última revisão:  14 de julho de 2025.

________________________

Nota do editor LG: