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sexta-feira, 8 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28001: Notas de leitura (1920): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (1): I - À guisa de apresentação do ex-combatente e II - Foi assim que cheguei ao Cuor (Mário Beja Santos)

CONGRESSO INTERNACIONAL
DAS GUERRAS AO PÓS-25 DE ABRIL
Os Militares em Territórios em Conflito
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
De 2 a 4 de abril de 2025


A biografia de um combatente:
O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História

Mário Beja Santos

I - À guisa de apresentação do ex-combatente

Permitam que me apresente. Toda a minha vida profissional andou à volta do serviço público, nela incluo dois períodos em que tive ligação ao Exército: de abril de 1967 a agosto de 1970, em que me preparei e vivi na então Guiné Portuguesa, comandando tropa africana, caçadores nativos e milícias; no intuito de concluir as minhas habilitações universitárias, fiz um contrato com o Ministério do Exército, voltei a Mafra, à Escola Prática de Infantaria, dei recrutas a soldados cadetes, muitos deles partiram como oficiais para os teatros de operações da Guiné, Angola e Moçambique, colocado em Lisboa, tive condições de fazer o bacharelato e a licenciatura.

A minha vida profissional parecia destinada ao ensino, fui mesmo colocado num liceu para dar História de Arte, acabei no Ministério de Economia e passei quase quatro décadas ligado à política dos consumidores, por essa via fui autor e apresentador de programas televisivos e radiofónicos, tive uma prolongada participação cívica e associativa e pude colaborar na política a favor dos consumidores tanto em Portugal como a nível europeu.


Um acaso, um reencontro com um antigo camarada da Guiné, que tinha criado um blog, hoje sem qualquer dúvida o mais influente blog constituído por antigos combatentes da Guiné (Luís Graça & Camaradas da Guiné) levou-me e ainda em plena vida ativa a começar a escrever sobre a minha experiência, depois a investigar tanto a História da Guiné Portuguesa como a História da Guiné-Bissau. Em 2008, publiquei os dois volumes do meu diário, nunca mais parei, no ano passado publiquei o tomo I de Guiné, Bilhete de Identidade, tudo somado são mais de dez livros, uma imensa vontade de continuar, já tenho projetos de entrar em domínios que carecem ser desbravados, caso do Boletim Oficial da Guiné e começar a inventariar os olhares estrangeiros, sobretudo a partir do último quartel do século XIX até meados do século XX (diga-se em abono da verdade que há já um bom levantamento dos olhares estrangeiros sobre a Guiné nos tempos de luta armada, no que toca à investigação portuguesa continua a faltar um trabalho em profundidade sobre o período da governação do General Arnaldo Schulz (1964-1968). Direi mesmo que continua para mim a ser um mistério a falta de estudos sobre alguns intervenientes da guerra colonial, recordo, a título meramente exemplificativo, que não há nenhuma investigação sobre o relacionamento diplomático entre Portugal e Cuba, nos tempos da guerra colonial, Cuba tinha embaixada em Portugal enquanto dava apoio técnico-militar à Guiné e a Angola; o mesmo poderei dizer da cooperação entre Portugal e Israel, este país foi nosso fornecedor de armas e durante anos foi discreto apoiante da política externa do Estado Novo.

Estando feita a minha apresentação, passo para a guerra que vivi, depois ainda tenho algumas coisas a dizer sobre os meus retornos à Guiné, então já República da Guiné-Bissau, e pretendo dar-vos conta dos trabalhos de investigação e livros publicados aproximadamente há duas décadas.


II - Foi assim que cheguei ao Cuor

Cheguei à Guiné em 29 de julho de 1968, aqui vivi até aos inícios de agosto de 1970, fui colocado no início de agosto de 1968 no regulado do Cuor, no Centro-Leste do território, com responsabilidades em dois destacamentos: Finete, uma povoação com Mandingas e Balantas, vivendo a cerca de 4Km da margem direita do rio Geba, dispondo de uma fértil bolanha e bons terrenos agrícolas, encontrei um aquartelamento com escassa segurança e armamento diminuto, a força militar era o Pelotão de Milícias n.º 102, cerca de 40 homens, predominantemente Fulas e Mandingas; Missirá, a sensivelmente 16Km de Finete, com Mandingas e Fulas, residência do régulo, igualmente um aquartelamento com muitas vulnerabilidades, armamento inapropriado, com um largo histórico de flagelações, emboscadas e minas anticarro, a força militar era o Pelotão de Caçadores Nativos n.º 52, homens que tinham feito a sua instrução em Bolama em 1966, muitos deles provenientes de forças de milícias, e o Pelotão de Milícias n.º 101, a que se juntavam alguns elementos provenientes da Companhia de Comandos e Serviços do Batalhão de Artilharia 1904, em vésperas de partida, virá a ser substituído pelo Batalhão de Caçadores n.º 2852, chegará em setembro desse ano. Tenho que me deter sobre a minha chegada a locais onde viviam misturados militares e civis, rodeados de arame farpado, cultivando à volta a sua sobrevivência.

O embate foi terrível, a adaptação custosa, a iniciação para conhecer a envolvente foi-me facilitada por um furriel experiente, Zacarias Saiegh, que colaborará comigo alguns meses, irá pertencer à 1.ª Companhia de Comandos Africana, que se formou perto do meu território, em Fá. Logo me apercebi que havia obras inevitáveis a implementar, para as quais eu não tinha a mínima preparação, e também me fizeram sentir que faltavam os materiais necessários: rolos de arame farpado, estacas, tesouras corta-arame, isto no tocante à segurança básica da tropa ali instalada e da população civil; os abrigos estavam envelhecidos, o madeirame apodrecido e sem a devida cobertura de cimento; o balneário não possuía os requisitos para uma boa higiene, não havia sanitários, só umas valas para defecar e urinar; a chamada messe era um casinhoto em tijolo com uma simples cobertura de chapa ondulada, uma mesa e uns bancos mal amanhados, tendo ao lado uma cozinha, tudo num completo desconforto; conversando com os meus colaboradores, apurei que a criançada não dispunha de uma escola, ia-se ao médico ou à enfermaria de Bambadinca só em situações de força maior e não havia tradição da visita de médico, Missirá e Finete dispunham de um cabo maqueiro em cada uma das localidades.

Em Bambadinca, na véspera de eu partir para Missirá, portanto em 3 de agosto, o oficial de operações do batalhão deu-me nota dos aspetos primordiais da minha missão: acima de tudo, e com a regularidade necessária, devia montar segurança num local chamado Mato de Cão, a sensivelmente 12,5Km de Missirá, para garantir a navegabilidade no rio Geba, já que tinha deixado de ter uso o itinerário por terra Jugudul – Porto Gole – Enxalé – Cancumba/Missirá – Gambiel – Bafatá (também no norte não havia circulação por terra entre Mansabá e Bafatá); se não fosse mantida a circulação pelo rio Geba toda a região do Leste ficaria gravemente afetada. Eu ainda não tinha conhecimento do planeamento de uma instalação portuária na localidade de Xime, que passou a ser operacional a partir de outubro de 1969, e que veio permitir a todas as unidades de Leste circularem entre Bafatá e Xime em termos de abastecimento de víveres, equipamentos e armamentos, materiais de construção civil, transporte de militares e civis, etc.

Este era o trabalho irrecusável, não obstante eu devia não só patrulhar regularmente todo o território à minha guarda e procurar manter os guerrilheiros em respeito; em nenhuma circunstância me foi sugerido que demarcasse a área ocupada pelo destacamento militar da povoação civil. No entanto, virei a ser bastante criticado pelo então Brigadeiro Spínola que quando visitou Missirá, achou que eu já devia ter iniciado a área do destacamento militar da área civil (fiz orelhas moucas, considerei sempre inaceitável, ainda por cima vivendo com soldados africanos e suas famílias, e com acesso limitadíssimo a materiais de construção, entrar numa operação de demarcação onde não via qualquer tipo de utilidade, sabendo de antemão que não haveria compreensão nem de militares nem de civis, seria sempre entendida como uma operação de discriminação).


Sendo as idas a Mato de Cão o aspeto primordial da minha missão, procurei aperceber-me como viajar sempre a pé e acautelando emboscadas e minas antipessoal. Demorou meses a pôr em prática a seleção de sete itinerários diferentes, numa lógica de corta-mato, o que me compensou não termos tido baixas nem emboscadas, pedi mesmo aos elementos guineenses que divulgassem no mercado de Bambadinca (onde circulavam informadores do PAIGC) que as nossas idas a Mato de Cão tinham itinerários imprevisíveis, quer a partir de Missirá quer a partir de Finete.

Logo no dia seguinte à minha chegada comecei a fazer o reconhecimento do terreno, dois meses depois conhecia o essencial do regulado do Cuor à exceção dos acampamentos do PAIGC sitos em dois pontos no termo no regulado, Madina e Belel, destes dois pontos só lá fui em operações com o reforço de duas companhias, uma vez um desastre completo, outra vez com o resultado da destruição do acampamento de Belel.

Referi acima que houve choque no confronto de um terreno para o qual eu não possuía nenhuma informação, uma boa parte do meu efetivo militar ou só falava crioulo ou um português mascavado, cheguei mesmo a ter necessidade de me socorrer de um intérprete em todas as situações em que era crucial perceber o que pretendia o chefe da tabanca, cabos ou soldados que me vinham fazer pedidos da mais diferente índole, mas acima de tudo adiantamentos da soldada. Conversando com os meus colaboradores diretos, concluí que se devia fazer um documento expondo a situação da segurança militar, a necessidade de ter apoios em engenharia para melhorar ou mesmo criar de raiz abrigos para proteger militares e civis.

Foi nesse contexto que o cabo quarteleiro de Missirá me chamou a atenção que o material que tinha a carga havia faltas clamorosas, tinham desaparecido camas de ferro, colchões de espuma, capacetes, e muito mais, impunha-se fazer um auto de abate e entregá-lo na sede do batalhão. Quando quis tratar do assunto com o então comandante da companhia, ele informou-me que contava comigo para incorporar nas minhas faltas as dele, entretanto iria obsequiar-me com material em excesso, bom jeito nos deu meter nas canoas com que atravessávamos o Geba cadeiras, pratos, talheres e copos. Estava a descobrir o desenrascanço.


O PAIGC brindou-me com uma flagelação em 6 de setembro, perto da meia-noite. Houve resposta rápida, enérgica, incendiaram-se duas moranças e um soldado milícia acidentou-se com um tiro no pé. Entre Finete e Missirá, Madina e Belel, é uma terra de ninguém; uma terra de ninguém, em cenário de guerrilha e contraguerrilha, significa que ninguém possui o domínio do território, e se houver um encontro é para abater o outro, o chamado inimigo; quando ainda hoje leio e vejo escrito que o PAIGC dominava uma parte importantíssima do território, eram as terras libertadas, a propaganda dizia umas vezes que se tratava de metade outras vezes de dois terços do território, posso perceber o peso da mentira, para a guerrilha era fácil chegar a estes dois quartéis, iluminados à noite, eu entretanto podia percorrer cerca de quatro quintos do regulado com 25-30 homens, quanto muito ouvia tiros longínquos, em poucos meses tive o entendimento que guerrilheiros e civis do PAIGC cambavam (atravessavam) o rio Geba em duas direções, para se abastecerem, possivelmente colher informações, aproveitavam sobretudo a noite para transferir gente de um acampamento para o outro, na margem esquerda do Geba, acima do Xime, o PAIGC estava fortemente implantado, tinha um domínio que direi quase total no curso principal do rio Corubal, até à região do Xitole.

Chegou o novo batalhão, senti-me à vontade para apresentar com mais tempo e critério as exigências de apoio médico, professor, de material de engenharia, de minas e armadilhas, um morteiro 81, uma viatura, um barco a motor que me salvaguardasse o abastecimento na época das chuvas, estava informado do alagamento seja da bolanha de Finete seja de um percurso de cerca de 6Km a partir de Canturé até à região de Sansão, já perto de Missirá, o percurso ficava praticamente intransitável. Fui pedinchando, ganhei uma manhã para levar os doentes à consulta médica, apareceu dinheiro para pagar a um professor, pedi dois, não podia ter só um professor em Missirá e não ter em Finete, lá apareceu dinheiro para o segundo professor; um de cada vez, os cozinheiros de Missirá foram estagiar na messe de Bambadinca, o resultado foi positivo, o rancho melhorou, mesmo sendo monótono: arroz, esparguete, carne enlatada, uma completa ausência de frutas e legumes, embora pudéssemos comer fruta enlatada, o resto podiam ser as compras locais, gazela, porco do mato, papaias, galinhas e ovos.

Muitas vezes aproveitava as boleias dos barcos que navegavam em direção a Bambadinca para ir fazer as minhas reivindicações ou abastecimentos. Em outubro, o novo oficial de operações adverte-me que me devo apresentar no dia tal às tantas horas pois irei participar numa operação. E nesse dia tal vou encontrar-me com outros oficiais, entramos numa sala de operações e vamos saber para onde vamos e o que se pretende. A intenção é chegarmos a uma base do PAIGC que terá dois pequenos acampamentos, Baio e Burontoni, a uma distância do Xime, eles também distantes de uma zona chave do PAIGC chamada Poidom, nessa altura as forças portuguesas já tinham abandonado um destacamento chamado Ponta do Inglês, ou seja, o regulado do Xime era mais outra terra de ninguém, mas aqui o dispositivo da guerrilha era incontestavelmente superior àquele com que eu me confrontava. Pouco há a dizer desta operação, andámos praticamente um dia inteiro às voltas dentro de matas, houve que fazer um alto noturno com todos os ruídos que a mata oferece, incluindo a surpresa seja da passagem de um porco do mato ou as ferroadas das formigas. Lembro-me perfeitamente que o regresso que fizemos do Xime para Bambadinca pensei seriamente que havia muita displicência na preparação destas operações, com resultados moralmente devastadores e desmobilizadores.


(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 4 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27987: Notas de leitura (1919): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (6) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P27977: Efemérides (389): O 15.º Encontro do Núcleo de Mar dos Ex-Combatentes do Ultramar reuniu camaradas em S. Bartolomeu do Mar, Concelho de Esposende, no passado dia 26 de Abril (Fernando Cepa, ex-Fur Mil Art)

Fernando Cepa, (ex-Fur Mil Art da CART 1689 / BART 1913, Catió, Cabedú, Gandembel e Canquelifá, 1967/69) cidadão do Concelho de Esposende, é uma pessoa activa, ligado aos assuntos que interessam aos Antigos Combatentes e à Cultura e Desporto na sua freguesia de S. Bartolomeu do Mar


15.º Encontro do Núcleo de Mar dos Ex-Combatentes do Ultramar reuniu camaradas em S. Bartolomeu do Mar

Realizou-se no passado dia 26 de abril, na freguesia de S. Bartolomeu do Mar, o 15.º Encontro do Núcleo de Mar dos Ex-Combatentes do Ultramar, uma iniciativa já marcante no concelho de Esposende e que voltou a reunir antigos combatentes, familiares, amigos e diversas entidades locais, num ambiente de grande confraternização, memória e homenagem.

O programa, diversificado e cuidadosamente preparado, proporcionou vários momentos de convívio entre os participantes, fortalecendo os laços de amizade e companheirismo que permanecem vivos ao longo dos anos. Para além do espírito de união, este encontro ficou igualmente assinalado pela recordação emocionada de todos aqueles que já partiram, homenageando os antigos camaradas que deixaram a sua marca na história e na memória coletiva, tendo sido efetuada a habitual romagem ao cemitério, onde foi prestada a homenagem de todos os que já faleceram, tendo sido depositada uma coroa de flores num ato de valor simbólico e de saudade, bem como uma missa presidida pelo senhor padre Armindo Patrão.

A cerimónia contou com a presença de várias entidades oficiais, nomeadamente do Presidente da Câmara Municipal de Esposende, Dr. Carlos Silva, do Presidente da Assembleia Municipal de Esposende, senhor Alberto Figueiredo, da Vereadora da Cultura, Dr.ª Paula Cepa, do Presidente da Junta de Freguesia de Mar, Eng.º Carlos Lima, e do Presidente do Centro Social da Juventude de Mar, Estevão Abreu.

Durante a iniciativa, foi ainda destacada a dificuldade que este núcleo enfrenta para poder dispor de uma sede própria. Nesse sentido, o Presidente da Junta de Freguesia de Mar, Eng.º Carlos Lima, manifestou total disponibilidade para ceder o edifício da Junta de Freguesia, permitindo que o núcleo ali possa reunir sempre que necessário.

Foi igualmente transmitida pelo Senhor Presidente da Câmara Municipal de Esposende, a informação de que o Município está fortemente empenhado para que, num futuro próximo, o Núcleo de Mar dos Ex-Combatentes do Ultramar possa finalmente dispor de uma sede condigna, num gesto de justiça, reconhecimento e gratidão que a sociedade portuguesa deve a todos aqueles que, durante muitos anos, lutaram em nome da Pátria.

A presença destas individualidades veio enaltecer a importância deste encontro, que representa não só um momento de reencontro entre antigos combatentes, mas também uma justa homenagem a todos quantos serviram o país em tempos exigentes.

Mais uma vez, o Encontro dos Ex-Combatentes do Ultramar afirmou-se como uma jornada de partilha, respeito e preservação da memória, reforçando valores de amizade, solidariedade e reconhecimento.

Deposição de uma coroa de flores no monumento aos Ex-Combatentes
Ex- Combatentes e familiares junto ao monumento
Homenagem aos Ex-Combatentes falecidos em combate
Homenagem aos Ex-Combatentes falecidos em combate
Presidente da Câmara Dr. Carlos Silva no uso da palavra
Almoço-convívio
Presidente do Núcleo de Mar no uso da palavra
Bolo de aniversário
Cantando os Parabéns
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Nota do editor

Último post da série de30 de Abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27972: Efemérides (388): Memórias de Abril (1970/71/72) (José Câmara, ex-Fur Mil Inf)

terça-feira, 31 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27875: Tabanca Grande (580): Joaquim Gregório, ex-sold at art, apontador de morteiro 60, 4º Pel / CART 2715 / BART 2917 (Xime, 1970/72), sobrevivente da emboscada de 26/11/1970 (Op Abencerragem Candente): vive em Onzain, França; senta-se à sombra do nosso poilão, sob o lugar nº 914




Joaquim Rocha Gregório,  sold at art, nº 17150669 
(segundo a HU, BART 2917, Bambadinca, 1970/72)

Nascido em 10/2/1948, foi soldado apontador do morteiro 60, 4º Pel /CART 2715 / BART 2917, "Os Fantasmas do Xime" (Xime, 1970/72)...  Vive em Onzain, no Vale do Loire (capital: Orléans). Passa integrar a Tabanca Grande, desde hoje. Senta-se à sombra do nosso poilão, sob o nº 914


Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)


1. O Joaquim Rocha Gregório  vive em Onzain, Centre-Val deLoire, France. Tem página no Facebook, e apenas duas ou três fotos da Guiné. Pertenceu à CART 2715 / BART 2917 (Xime, 1970/72).

A CART 2715 / BART 2917 (Xime, 1970/72), e a CCAÇ 12, ambas a 3 Gr Comb  participaram  na Op Abencerragem Candente, no subsetor do Xime, em 25 e 26 de novembro de 1970, a par da CART 2714(Mansambo), formando 3 destacamentos.

Uma operação de trágica memória, que se saldou por um dos maiores desastres das NT, naquele subsetor do sector L1 (Bambadinca), região de Bafatá, em toda a guerra: 6 mortes, 9 feridos graves, com sequelas tremendas no "moral" do pessoal da CART 2715 ("Os Fantasmas do Xime") que, dentro de mês e meio, iria perder o seu comandante, evacuado para o HM 241, com baixa psiquiátrica, o cap art Vitor Manuel Amaro dos Santos (1944-2014) (membro da Tabanca Grande, nº 781, a título póstumo, entrado em 26/11/2018, 48 anos depois da  Op Abencerragem Candente, sobre a qual temos cerca de 3 dezenas de referências no nosso blogue).

 Ficámos a saber que o nosso camarada Rocha também foi fazia parte da força que foi embosacada em 26/4/1970 (Os Destacamentis  A e B) e, mais concretamente, fazia parte do 4º Pelotão / CART 23715, o do fur mil mec Cunha.

2. Em novembro de 2022,  recebemos várias mensagens, pelo formulário de contacto do Blogger, da parte do Joaquim  Gregório:

sexta, 4/11/2022, 22:58

A todo os ex-combatentes da Guiné, uma boa noite.

Eu sou um ex-combatente, fiz a minha comissão no Xime, CART 2715 (1970/72).



domingo, 27/11/2022, 21:14

Obrigado pelo teu poema verdadeiro, passado perto da Ponta do Inglês. Eu fazia parte do 4º pelotão, o mesmo do malogrado furriel Cunha. Que descanse em paz.


domingo, 27/11/2022, 21:18

Eu pertencia ao pelotão do furriel Cunha. E ia nessa operação.

domingo, 27/11/2022, 21:44

Caro amigo,   gostava imenso de ser membro da Tabanca Grande. Eu estive no Xime de 70 a 72. E assisti à operação  da Ponta do Inglês.  Um grande abraço.

 3. Em 4/12/2022, 12:31, o nosso coeditor Carlos Vinhal mandou-lhe, em resposta, a seguinte mensagem:

Caro Joaquim Gregório:

Para te juntares à nossa tertúlia, manda-nos uma foto tua actual e outra do nosso tempo de Guiné, fardado, que permitam fazer fotos tipo passe para os nossos arquivos.

Queremos saber o teu posto, especialidade, Companhia e Batalhão (se for o caso), datas de ida e volta da Guiné, localidades por onde andaste, etc.

Podes, caso queiras, mandar-nos uma pequena história que te tenha marcado particularmente, com fotos legendadas, ou texto onde fales de ti para te conhecermos melhor. Caso queiras ver anunciado o teu aniversário, manda a tua data de nascimento para publicarmos o postalinho natalício.

Aqui podes inteirar-te dos objectivos do nosso blogue.

Ficamos na expectativa das tuas novas notícias. Em nome da tertúlia e dos editores em particular, deixo-te um abraço e votos de boa saúde.

O camarada e amigo, Carlos Vinhal


4. Já este ano voltou a contactar-nos e não podemos ficar indiferente à sua insistência em pedir-nos "hospedagem" na Tabanca Grande. 

terça, 24/02/2026, 22:24

Eu sou o ex soldado Gregório,  fiz parte do BART 2917,  estive no Xime e no Enxalé. Gostava de saber-se se temos direito a 100 porcento na assistência méedica. (...)  



terça, 24/03/2026, 22:56

Eu pertencia ao 4º pelotão,  ia na operação Abencerragem Candente, escapei por milagre, pertencia à secção do morteiro e várias balas furaram-me o cantil. Um abraço para todos os colegas do Batalhão 2917


terça, 24/03/2026, 23:11

Eu sou o ex-soldado Gregório, era do quarto pelotão, estava na emboscada da
Abencerrarragem Candente. Escapei por pouco, várias balas furaram me o cantil, Fiquuei para contar. Era apotador do morteiro 60. Um abraço para todos os colegas da companhia 2715 e tambem da  CCAÇ 12 e para todo o BART 2917,  são os votos sinceros do soldado Gregório



5. O Joaquim Rocha Gregório não chegou a mandar as fotos da praxe, que o Carlos Vinhal lhe pediu, mas nós acabámos por arranjá-las na sua página do Facebook (*). Por isso, ele  passa a integrar, de pleno direito, a nossa Tabanca Grande a partir de hoje (**). É mais um camarada da diáspora lusófona.

Dele sabemos mais o seguinte:
  • tem  página do Facebook (Joaquim Gregório Rocha) (desde 17/4/2016); 
  • tem endereço de email;
  • temos 3 amigos em comum no Facebook (três camaradas da Guiné: Benjamim Durães, Jorge Silva e Vicente Pinto;
  • nasceu em 10 de fevereiro de 1948 (mas não sabemos a terra da naturalidade);
  • vive em Onzain, França (Onzain foi uma comuna francesa na região administrativa do Centre, Val de Loire, departamento Loir-et-Cher; estendia-se por uma área de 29,9 km²; em 2010 a comuna tinha 3584 habitantes (densidade: 119,9 hab./km²); em 1 de janeiro de 2017, passou a formar parte da comuna de Veuzain-sur-Loire;
  • gosta de jogar às damas e de dançar;
  • deve estar reformado, vem a Portugal de vez em quando.
Espero, Joaquim, que  ajudes a abrir a porta da Tabanca Grande a mais camaradas da CART 2715. És o único representante de "Os Fantasmas do Xime", para além do teu 1º capitão, já falecido, com o posto cor art ref, o Vitor Manuel Amaro dos Santos (1944-2014).

Sentas-te à sombra do nosso poilão sob o nº 914. Esclarece-me os seguintes pontos: 

(i) és natural de Pernes, Santarém, é isso ?!; 

(ii) em França és tratado como Joaquim-Gregório Rocha (Rochá), é  isso ?!|; 

(iii) aqui serás o Joaquim Gregório (como eras conhecido no teu/nosso Xime de boas e más memórias).

Quanto ao pedido de informação que nos fazes, sobre teres ou não direito, a 100% dos medicamentos, precisamos de saber onde tens a morada atual oficial, em França ou em Portugal, e em que sistema és pensionista. Vê aqui no Balcão Único da Defesa:

Os antigos combatentes pensionistas passam a ter direito, a partir de 1 de janeiro de 2026,  a um apoio de 100% da parte não comparticipada dos medicamentos pelo SNS (Serviço Nacional de Saúde). Quando falamos de pensionistas, em Portugal, falamos da Caixa Geral de Aposentações ou da Segurança Social. Que não dever ser o teu caso, uma vez que fizeste todos os teus descontos, em França, para a Securité Sociale. 


domingo, 8 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27805: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (3): O beijo, tardio, da Pátria: para o António Lobo Antunes que ontem se despediu da Terra da Alegria...

Capa, à direita da edição do semanário Visão, de 27 de setembro de 2007, em que o escritor António Lobo Antunes (1942-2026) deu uma notável entrevista a Sara Bela Luís sobre "A Vida Depois do Cancro" (Vd. a antiga página, não oficial, do escritor, recuperada pelo Arquivo.pt: https://arquivo.pt/wayback/20081023014032/http://ala.nletras.com/)


1. Comentários dos nossos leitores aos postes P27802 e P3003 (*):

(i) Joaquim Costa
Subscrevo. Esta geração vai a chegar ao fim sem o tal beijo!
sábado, 7 de março de 2026 às 16:05:39 WET

(ii) Hélder Sousa

Muito oportuna esta repescagem. E que bem escrito! E que comovente! Só não se comoverá quem não conseguir "sentir" os ambientes. E, sim, a geração vai seguir o seu destino sem "beijos de despedida" pelo Poder. Mas talvez até seja bem melhor assim, sem falsidades, sem hipocrisia.
saábado, 7 de março de 2026 às 16:38:55 WET

(iii) Alberto Branquinho
(...) Vamos ver se conseguimos saber o número do micro-ondas para verificar se ainda mora lá alguém? (...)
sábado, 7 de março de 2026 às 17:37:37 WET

(iv) Abilio Duarte
Simplesmente bonito...que este camarada Lobo Antunes, descanse em paz.
sábado, 7 de março de 2026 às 18:15:38 WET

(v) Santos Oliveira
Também me correm algumas lágrimas, Graça Abreu, de alguma raiva e muita desilusão, pela minha impotência de não ver a minha Pátria, em nome de quem lutámos e morremos, ter dignidade para reconhecer, sem panaceias, o que é de plena justiça. Grato, Graça Abreu, por nos trazeres ao de cima as palavras do A.Lobo Antunes. No fundo, são uma âncora que nos amarra a uma esperança, e que, para nós, será a última a morrer.
segunda-feira, 30 de junho de 2008 às 18:49:00 WEST 

(vi) Hélder Sousa
Muito obrigado amigo A. Graça Abreu por teres tido a lembrança de colocares à disposição de todos (assim o entenderam, e bem, os nossos editores) este belo, duro e comovente artigo do Lobo Antunes. O raio do homem escreve mesmo bem e, quanto a entender estes sentimentos de quem andou "a batê-las lá longe", no mato, "onde o sol castiga mais",  é duma sensibilidade e acutilância, envolvida na crueza das situações, que é mesmo como se ainda estivesse tudo fresco.
terça-feira, 1 de julho de 2008 às 00:11:00 WEST 



2. Nenhum de nós, aqui, no blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, seria levado a sério se escrevesse o que António Lobo Antunes escreveu, na sua crónica habitual na revista 
Visão, edição de 19 de Junho de 2008, a propósito dos antigos combatentes,  e que o nosso António Graça de Abreu em boa hora repescou, replicou e nos pediu para publicar (*):

"Que o País os beije antes de os deitar fora, e lhes peça desculpa!"...

O antigo alferes miliciano médico do BART 3835 (Angola, 1971/73) e em 2008 já famoso, aquém e além fronteiras, como escritor, põe o dedo na ferida da guerra colonial, ainda longe de ter sarado. 

Aliás, mesmo mais de meio século depois, é uma ferida que custa a sarar. O país espera que morramos todos, uns atrás dos outros ou então em massa, na próxima pandemia que há de vir: quando morre o bicho, morre a peçonha. 

Mas é aqui que o António Lobo Antunes, que também andou pelo "cu de Judas", volta bater na tecla do abandono e da ingratidão da Pátria em relação aos seus antigos combatentes. 

Para além do que o António Graça de Abreu, oportunamente acrescentou (*), apraz-nos registar mais o seguinte, podendo todavia esse mais parecer se redundante e até irritante (**).

2. Esta crónica do Lobo Antunes, já com 18 anos, não perdeu atualidade e também não passou despercebida a alguns de nós. 

Para além da sua beleza literária,  há aqui mágoa e dor que só quem viveu a guerra colonial pode compreender na sua plenitude. Não importa por onde passou (Angola, Guiné, Moçambique, Índia Portuguesa, Timor...). (Dor e mágoa que outros portugueses de antanho também sentiram e expressaram, com ironia ou sarcasmo,  de Camões ao padre António Vieira.)

Em homenagem ao camarada e ao escritor que ontem se despediu da Terra da Alegria (e que em vida sobreviveu a 3 cancros), permitam-me,  os nossos caros  leitores,  que destaque alguns pontos-fortes do texto (ou dos excertos que foram republicados) (*):

(i) A fraternidade dos "irmãos de armas"

Lobo Antunes não idealiza a guerra, mas também não nega a fraternidade que ela cria (ou criou, no seu/nosso caso) entre homens que, de outra forma, nunca se teriam cruzado em África 

A expressão "irmãos de armas" não é uma figura de retórica: é literal. E é talvez até vez mais do que irmãos de sangue, diz ele. 

O texto aca por ser um hino a esses laços de camaradagem que sobrevivem ao regresso a casa, à "peluda", à solidão, e até à miséria, à doença, ao esquecimento.

 O Cabo Sota, o "Pontinha", o Zé Jorge... são todos heróis anónimos, cujas vidas o país esqueceu, mas cujas histórias o Lobo Antunes (e nós, aqui, no Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné) nos recusamos a deixar apagar.

Quem passou pelos vários teatros de operações (Angola, Guiné, Moçambique, mas também Índia Portugues, Timor-Leste...) sabe bem o que é essa fraternidade forjada no fogo e, em muitos casos, no abandono. 

A guerra não escolheu lados, escolheu vítimas, e os que sobreviveram, carregam, de algum modo, a marca dessa irmandade até hoje.

(ii) O humor não como arma de arremesso como escudo protetor:

A cena do "Pontinha" e do microondas é de uma comicidade trágica. O "Pontinha" não tem telemóvel... "Não meu furriel, mas a minha mulher tem um microondas."

É o humor (desconcertante) dos que não têm nada, dos que sobrevivem à custa de muito pouco, incluindo os que entretanto morreram precocemente, sem abrigo, sem saúde, e que mesmo assim encontra(ra)m forma de rir. 

 Os antigos combatentes dão provas, nos seus convívios, nos seus testemunhos (orais e escritos) da notável capacidade, própria do ser humano, que é de rir do absurdo, muitas vezes para não chorar.

Lobo Antunes usa o humor, a ironia, o sarcasmo para "desarmar a dorm", para exorcizar os pesadelos... Não é por acaso que o texto termina com a piada do microondas: é uma forma de dizer que, apesar de tudo, a vida continua, mesmo que seja à custa de um electrodoméstico (empresta)dado. Afinal, hoje quem não é o pobre diabo que não tenha um telemóvel?!


(iii) A crítica ao abandono

"Que o País os beije antes de os deitar fora, e lhes peça desculpa."

Esta frase é um murro no estômago. É a denúncia de um país que usou os seus filhos como moeda de troca numa guerra sem sentido, que as elites, o poder político (e militar), sabiam (ou tinham a obrigação de saber) que estava a ser feita no "beco sem saída da História" ) e depois os atirou para o caixote do lixo quando já não serviam ou chegavam ao fim do prazo de validade.

Sabemos do que fala Lobo Antunes, explícita ou implicitamente: a falta de liderança política, de lucidez histórica, de visão estratégica da guerra., mas também de "genuino amor" pelos seus soldados portugueses, guineenses, cabo-verdianos, angolanos, moçambicanos, etc., que, na guerra, deram o seu melhor (e,  mais de 10 mil, a vida). 

 Quem lá esteve, sabia, de maneira mais lúcida ou mais confusa, o que era esse beco sem saída em que nos atolámos.

Mas não posso deixar de destacar o comentário final do nosso António Graça de Abreu, quando também evoca (e exorta) os combatentes da Guiné-Bissau que estiveram nos dois lados da barricada:

(...) "Camaradas de Portugal e da Guiné, depois de ler este texto, duas grossas lágrimas correram-me pelo rosto. Que o nosso País nos 'beije antes de nos deitar fora e nos peça desculpa'. Que a vossa Guiné-Bissau vos beije também, 'antes de vos deitar fora e vos peça desculpa.'

Sem complexos nem traumas de colonialista, sem complexos, sem traumas de colonizado, vamos ler outra vez o texto do António Lobo Antunes". (...)


E conclui: "Depois, vamos adormecer em paz."

Obrigado, Lobo Antunes, obrigado, Graça de Abreu. É uma frase que reconhece que a dor não foi só de um lado.  Quantos guineenses, fulas, balantas, mandingas, biafadas, papéis, manjacos, etc., de um lado e do outro, não foram usados e deitados fora!

Em muitos casos, o "beijo da Pátria" já virá tarde, se algum dia chegar a vir...

(iv) Nem santos nem heróis

Lobo Antunes recusa a glorificação da guerra. Aqui não há heróis aqui. Há apenas homens. "Eram duros"; eis o maior elogio que se pode fazer.  Não há medalhas, não há discursos pomposos, não há paradas do 10 de junho. Há apenas a resistência silenciosa de quem aguentou o que ninguém deveria ter aguentado, ao longo de tanto tempo...

Para ele, que era médico e, de algum modo, um marginal-secante, a guerra é um absurdo, e aquela guerra um absurdo prolongado. A verdadeira coragem não estava, por isso, nos feitos de guerra, mas na capacidade de sobreviver a ela sem perder o rosto humano, a  humanidade. Lobo Antunes sabia que a guerra não cria santos,  cria homens quebrados, mas também homens que, apesar de tudo, se recusam a deixar de ser humanos.
 
(v) O legado de Lobo Antunes 

Lobo Antunes, nesta crónica (e noutras ocasiões) (***),  deu voz aos que a não tinham. Lobo Antunes, com a sua prosa poética, polifónica, cortante e genial,  faz o que nós aqui fazemos (ou procuramos fazer), discretamente, sem o talento dele.  que é impedir que o esquecimento apague o que não pode ser apagado, é recusar a "vala comum do esquecimento", é reivindicar o direito à memória, é exercer o direito de memória.

No final, apetece-me, sem imodéstia, repescar e refrescar o meu velho poema "Quando o Niassa apitou três vezes" (que remonta a 24-29 de maio de 1969)...Tanto este poema como a crónica do Lobo Antunes aqui citada falam da mesma coisa: da partida, do regresso, e dos que ficaram pelo caminho, mas também dos que voltaram, sem nunca terem realmente regressado (nesta, como de resto em todas as guerras, é bom que se diga!).
 _______________


Vd. também poste de 30 de junho de 2008 > Guiné 63/74 - P3003: Blogoterapia (58): Que o País os beije antes de os deitar fora, e lhes peça desculpa (António Lobo Antunes / A. Graça de Abreu)

(***) Vd. por exemplo poste de 9 de outubro de 2007 > Guiné 63/74 - P2169: Antologia (63): Zé, meu camarada, eras um dos nossos e cada um de nós um dos teus (António Lobo Antunes, Visão, 4 Out 2007)

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27768: Paz & Guerra: memórias de um Tigre do Cumbijã (Joaquim Costa, ex-Furriel mil arm pes inf, CCAV 8351, 1972/74) - Parte XXIX: amigos, camaradas e "camarigos"


Gondomar > Biblioteca Municipal > 9 de novembro de 2024 > Sessão de apresentação do livro "Crónicas de Paz e Guerra" (Rio Tinto, Lugar da Palavra Editora, 2024, 221 pp.)

Três tigres do Cumbijã, três amigos, três camaradas, três camarigos: ao centro, o Joaquim Costa, o autor do livro, ex-fur mil da CCAV 8351 (Cumbijã, 1973/74); à esquerda, o João Melo, ex-1º cabo cripto; à direita, o Mendes (que veio de propósito da zona onde vive, na Serra da Estrela); um quarto "tigre", o Gouveia, não ficou nesta foto...




Viana do Castelo > 2009 > "Foi com uma alegria imensa que organizei um dos encontros dos Tigres do Cumbijã, na linda cidade de Viana do Castelo,  com visita e missa em Santa Luzia e o repasto abrilhantado pelo Rancho Folclórico de Perre".

Fotos (e legendas) © Joaquim Costa (2026). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Guiné 61/74 - P27354: Paz & Guerra: memórias de um Tigre do Cumbijã (Joaquim Costa, ex-furriel mil arm pes inf, CCAV 8351, 1972/74) - Parte XXIX:  

Amigos, camaradas e  "camarigos"

Diz o povo, com a sua sabedoria: que amigos são a família que escolhemos. Dizia a minha saudosa Isabel que “os amigos são flores que florescem no jardim da vida”

Não podia estar mais de acordo. Ao longo de toda esta minha caminhada, de norte a sul do país (a minha nacional n.º 2) muitas amizades criei e mantenho, porque cuidadas como as flores do jardim.

Mas o que me traz aqui hoje não são os meus amigos mas sim os meus “camarigos”. Todos os dias nos entra em casa, através dos órgãos de comunicação social, relatos que me entristecem, pela forma como os ex-combatentes são "esquecidos" (para ser simpático) pelo poder político e pela dita sociedade civil, ou são "apresentados" pela comunicação social;

(i) porque entopem os Centros de Saúde e Hospitais (alguns com alta mas ali ficam já que ninguém aparece para os levar); 

(ii) como "sem-abrigo", escorraçados pelos comerciantes pela manhá,  já que dormem durante a noite junto da suas montras; 

(iii) e até como suspeitos ou  acusados de serem  os principais responsáveis pelos incêndios de verão.

A Guerra acabou, mas para muitos dos ex-combatentes, apanhados nas malhas do stress pós- traumático, dela nunca saíram transformando a sua vida e a das sua famílias num inferno, com as consequências já referidas.

Para muitos destes ex-combatentes o seu único porto de abrigo são os seus camaradas dos tempos de guerra que, dentro das suas possibilidades, lhes fazem visitas regulares e os ajudam como podem.

Não sei explicar (deixo essa tarefa para os especialistas) mas de todas as amizades, as que se criaram durante os dois de anos guerra ultrapassam os limites do compreensível.

Já várias vezes me aconteceu num passeio de fim de tarde passar por um amigo que se encontra num grupo familiar, que por respeito cumprimento fugazmente ou com um simples gesto.

Se por um acaso esse amigo for um meu antigo companheiro guerra, sai do grupo, abraça-me quase ao sufoco e diz aos familiares: “Vão indo, que eu já vou lá ter”... Com um mensageiro, chegando uma hora depois, a dizer que está na hora de partir! 

Não tem explicação.

Há dias (ou será regularmente!?) passei pelo programa mais visto da RTP1 ("Preço Certo") e vejo um velho a desejar beijos aos familiares e amigos e um efusivo abraço aos seus companheiros da guerra no ultramar com as lágrimas a correr-lhe pelas faces tisnadas e mostrando orgulhosamente a sua boina de militar com  o crachá da sua companhia.

Aos nossos amigos perdoamos qualquer arrufo, mas não esquecemos. Aos amigos da guerra não perdoamos, porque simplesmente esquecemos, limpamos da memória.

Uma vez esquecidos por quem tinha o dever de cuidar, vamos cuidando uns dos outros, criando blogues (do qual destaco o  “Luís Graça & Camaradas da Guiné” no qual participo regularmente), criando “Tabancas” (grupos de ex-combatentes da mesma região com encontros, almoços ou jantares quase todos os meses).

Mas o que nunca pode faltar é o encontro anual que todas as companhias promovem. Podem crer que,  para todos os ex-combatentes, a seguir ao casamento de um filho, é a festa mais esperada, capaz de fazer alterar a data do casamento já que é impensável faltar ao encontro dos camaradas de guerra.

Eu só faltei a um encontro por causa de um casamento, embora tentasse mudar a data, sem sucesso.

A minha companhia é constituída, literalmente, por elementos de todo o país, do Alto Minho ao Algarve, pelo que os encontros percorrem também todas as regiões em função de quem organiza.

Todos os organizadores primam por nos dar um cheirinho da sua região, particularmente no prato escolhido para o repasto.

Foi com uma alegria imensa que organizei um destes encontros na linda cidade de Viana do Castelo, no ano de 2009, com visita e missa em Santa Luzia e o repasto abrilhantado pelo Rancho Folclórico de Perre.

Estes encontros não são só um almoço de amigos, são um dia de festa, que começa pelas 8 da manhã e termina já noite. Depois das apresentações, segue-se a obrigatória missa onde lembramos os camaradas mortos em combate bem como todos os que a vida já levou. É sempre um momento muito emotivo.

Depois segue-se a festa, contando as mesmas histórias de sempre pele enésima vez mas com o entusiasmo como que fosse a primeira

Contudo, estes encontros já não são só o encontro anual dos ex-combatentes, mas também das suas famílias já que dela fazem parte as esposas, os filhos, os netos e já alguns bisnetos. Os familiares chegam a ultrapassam os 70% dos presentes. 

Não há explicação!


Um forte abraço para todos os "camarigos"  (camarada + amigo).

(Revisão / fixação de texto, título: LG)

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27703: Foi há... (6): 68 anos... Em 1958 realizaram-se as últimas eleições presidenciais por voto direto e universal: votou menos de um milhão de portugueses, numa população de c. 8,9 milhóes; a grande maioria dos que irão fazer a "guerra do utramar" só irão votar em 25 de abril de 1975 (eleições para a Assembleia Constituinte)


´
Cortesia de Panteão Nacional

1. A memória dos povos é curta. Já ninguém se lembrava do ciclone de 15 de fevereiro de 1941 (*). 

Muito menos da invasão e ocupação de Timor em 20 de fevereiro de 1942 (**).

Nem das grandes cheias de 26/27 de novembro de 1967 que mataram mais de 700 portugueses (***) (A censura não deixou que se falassem em mais de 200 mortes...). 

A memória dos portugueses é curta... A memórias dos povos, em geral, é curta.  Quem ainda se lembra da invasão e ocupação da Índia Portuguesa em 18 de dezembro de 1961 ? (****). 

Ou do início do "terrorismo" (sic) em Angola, em 4 de fevereiro também desse ano, um "annus horribilis" para Salazar e para todos nós. 

Já ninguém se lembra dos massacres do Norte de Angola, do assalto ao "Santa Maria" (Op Dulcineia, por dois antigas  salazaristas e defensores do colonialismo, Henrique Galvão e Humberto Delgado)... e por aí fora.

Nem da morte de Salazar. Na cama de um hospital. Nem até já do 25 de Abril de 1974... Quem ainda se lembra? Memória coletiva? É coisa que não existe... A nossa memória coletiva? É como a cebola, tem muitas camadas. 

A memória coletiva que me inculcaram na catequese e na escola primária, de 1954 a 1958, já não é a mesma que eu tenho ou partilho hoje.  Uma certa representação do que fomos, do que somos, do que imaginamos ser, do que projetamos ser  no futuro enquanto povo, grei, nação.

E recuando a esse tempo: por que razão nos haveríamos de lembrar das eleições de 1958?... Eu lembro-me, porque, nos bancos da catequese e da escola, me mandaram "ter medo"... E o diácono, à beira de ser ordenado padre, Horácio Fernandes, ainda se lembrava, trinta anos depois, porque o seu patrono, o São Francisco de Assis (ou o seu representante em Portugal) mandou-o duas vezes votar, uma de manhã e outra de tarde na mesma junta de freguesia, de Carnide, onde se situava o convento. 

2. Rebobinando o filme do tempo da nossa infância e adolescência, foram as últimas eleições em que o Presidente da República Portuguesa foi eleito através do chamado sufrágio direto (pelo menos no papel, dentro das restrições da época): havia portugueses de 1ª classe e 2ª classe...

Numa população total (Portugal Continental e Ilhas) que se estimavam em c. 8,9 milhões de habitantes, os eleitores (inscritos nos cadernos eleitorais) não chegavam aos 1,3 milhões (15%!). E terão votado menos de um milhão.

Após o "terramoto político" causado pela candidatura de Humberto Delgado, Salazar mudou as regras do jogo para garantir que o susto (para ele, o regime do Estado Novo e a sua restrita elite) nunca mais se repetisse.

O número de recenseados era extremamente baixo (15%) porque o recenseamento não era automático nem obrigatório, dependendo de inscrição ativa nas juntas de freguesia. Os filtros eram muitos- O direito de voto era restrito a cidadãos alfabetizados, chefes de família ou contribuintes, maioritariamente homens, excluindo uma grande parte da população adulta.

A eleição foi "disputada" com regras viciadas entre Américo Tomás (regime) e Humberto Delgado (oposição), tendo este último obtido uma votação expressiva, apesar do controlo dos cadernos eleitorais pelo regime e da  generalizada fraude eleitoral.

A abstenção oficial foi de cerca de 20,7%. Segundo os dados do regime (logo  contestados pela oposição devido a relatos de fraude generalizada), Américo Thomaz venceu com cerca de 76% dos votos, enquanto Humberto Delgado obteve 24% (em Angola e em Moçambique, 31,7% e 38,7% dos votos, respetivamente;  nula ou inexpressiva, nos outros territórios ultramarinos: Cabo Verde, 2,3%; Guiné, 20,9%; São Tomé e Prímcipe, Macau e Timor, 0,0%).

Recorde-se alguns pontos (e contrapontos) do que se passou nas eleições (já esquecidas) desse ano longínquo em quer ainda éramos, a maior parte de nós, crianças ou adololescentes:


(i) O fenómeno Humberto Delgado

Até 1958, a oposição ao Estado Novo era frequentemente fragmentada e sobretudo frustrante. A oposiçãpo era o "reviralho"... No entanto, o general da força aérea Humberto Delgado, o "General Sem Medo" (que veio da extrema-direita, convertendo-se à democracia liberal apenas no após-guerra, depois de uma prolongada missão militar nos EUA, enquanto representante português na NATO, entre 1952 e 1957 ), conseguiu  abanar o regime e galvanizar um país narcotizado (pela propaganda do "Deus, Pátria e Família, e pela generalizada pobreza e analfabetismo). 

O Humberto Delgado apresentou-se como "candidato independente", apoiado por uma coligação de oposição (a "Oposição Democrática"), com apoio (relutante) de última hora do partido comunista, clandestino. 

A sua candidatura terá representado, no plano político e eleitoral, a primeira contestação séria ao regime desde a instauração do Estado Novo.

A sua famosa (e inconveniente) frase sobre Salazar ("Obviamente, demito-o!") galvanizou os portugueses que queriam mudar a "situação". Não era por acaso, que a PIDE chamava "antissituacionistas" a todos os opositores de Salazar.

Apesar da censura e da violência policial, Delgado conseguiu mobilizar multidões em comícios por todo o país, algo inédito até então. O regime reagiu com forte repressão, prisões, intimidação e manipulação dos resultados.
 
Apesar da fraude eleitoral massiva que deu a vitória ao candidato do regime, o Almirante Américo Thomaz (3/4 dos votos), a mobilização popular foi tão intensa que Salazar percebeu que o voto direto era um risco demasiado alto para a sobrevivência da ditadura.


(ii) Revisão constitucional de 1959

Como reação direta ao desafio de Delgado, o regime promoveu uma alteração da Constituição de 1933. O objetivo era "blindar" a Presidência e evitar o golpe de Estado constitucional: com o fim do voto direto, a eleição do Presidente deixou de ser feita pelos cidadãos, passou a passou a ser "cozinhada" num  "colégio eleitoral", restrito, composto por deputados da Assembleia Nacional e membros da Câmara Corporativa, todos, na prática, controlados por (ou alinhados com) o regime.


(iii) O mito do "sufrágio universal"

É importante acrescentar um detalhe técnico: embora se use o termo "direto", o sufrágio não era verdadeiramente universal, bem longe disso:
  • as mulheres tinham restrições severas para votar (baseadas no nível de escolaridade ou pagamento de impostos), a menos que fossem "chefes de família";
  • muitos opositores, os do "reviralho", ou os "antissituacionistas", referenciados pela polícia política, pela Legião Portuguesa, pelos presidentes dos municípios, etc., eram impedidos de se recensear;
  • era preciso saber ler e escrever e ser contribuinte; 
  • o analfabetismo e misogenia foram usados como barreira para excluir a grande maioria da população portuguesa (masculina e feminina).
1958 foi o "canto do cisne" da participação direta (mesmo que reduzida e condicionada) nas presidenciais do Estado Novo.  

Salazar "meteu o povo na gaveta". Deu-lhe jeito, o povo, depois da II Guerra Mundial, e da derrota das potências do Eixo, para mostrar aos seus aliados da NATO que Portugal era um "democracia orgânica" e um "baluarte contra o comunismo".

Salazar, que esperava uma vitória esmagadora e tranquila nas eleições de 1958, viu-se obrigado a reagir: aumentou a repressão, mas também iniciou algumas reformas cosméticas para tentar acalmar a opinião pública e os reformistas. Nem a ala dura (Santos Costa) nem a ala reformista (Marcello Caetano, Craveiro Lopes, Botelho Moniz). 

Por outro lado, o regime teve que recorrer deliberadamente à intimação, à repressão, ao terror e à fraude para derrotar Humberto Delgado e suster as ondas de choque pós-eleitorais. São os primeiros sinais das ditaduras quando começam a ter medo... 

Salazar preferiu retirar o povo da equação a ter de enfrentar a ameaça de ser corrido do poder por um candidato carismático (e populista, na época não se usava o termo).

É hoje pacífico, entre os historiadores portugueses e estrangeiros, que as eleições presidenciais de 1958 em Portugal não foram livres nem democrátricas... Mas o regime de Salazar, que era uma ditadura, apanhou um susto e começou aí o seu fim...
  
Salazar viu a sua "base de apoio" (e "legitimidade") abalada e posta em causa: pela primeira vez, o regime era forçado a reconhecer (mesmo que de forma distorcida) que existia uma oposição real, popular, organizada...

Humberto Delgado, como se sabe, acabou por ser assassinado pela PIDE em 1965, num episódio que marcou definitivamente a violência, a amoralidade e o desespero do regime.

 
2. Já estamos esquecidos... Ou nem sequer soubemos disso... As denúncias de fraude nas eleições presidenciais de 1958 em Portugal foram um dos aspectos mais marcantes e controversos daquele processo eleitoral. A campanha de Humberto Delgado e a oposição democrática acusaram o regime de Salazar de manipular os resultados de várias formas, tanto antes como durante e depois da votação. 

A título de exemplo, eis aqui algumas das muitas das denúncias e das irregularidades (documentadas, são hoje factos históricos).

(i) Manipulação do recenseamento eleitoral

Exclusão de eleitores: muitos cidadãos foram arbitrariamente excluídos dos cadernos eleitorais, especialmente em zonas rurais e urbanas e entre a população mais pobre e operária,  onde o apoio a Delgado poderia ser mais forte.

Recenseamento enviesado: o regime controlava o processo de recenseamento, o que permitia a exclusão de potenciais eleitores oposicionistas e a inclusão de apoiantes do regime, mesmo que não cumprissem os requisitos legais.

(ii) Censura e controle da informação / silenciamento da oposição 

A campanha de Delgado foi alvo de censura nos meios de comunicação social (os principais jornais diários, a rádio, a televisão que acabava de nascer, etc.), e que estavam sob controle do regime. Além disso, o  regime usou os recursos do Estado para promover o candidato oficial, incluindo a distribuição de panfletos e cartazes pagos com dinheiro público.

(iii)  Intimidação e violência / pressão sobre eleitores

Há relatos de pressões diretas sobre eleitores, especialmente funcionários públicos e trabalhadores de empresas estatais, mas também de empresas privadas, que foram ameaçados de despedimento ou represálias se votassem em Delgado. Por outro lado, durante os comícios de Delgado, a polícia política e as forças de segurança intervinham com violência, dispersando manifestantes e prendendo apoiantes.

(iv) Fraude no dia da votação / urnas controladas

Muitas mesas de voto eram controladas por apoiantes do regime, que manipulavam as urnas ou impediam a fiscalização por parte da oposição. Votos em branco e nulos: testemunhos da época indicam que votos em Delgado eram frequentemente anulados ou contabilizados como votos em branco ou nulos. Transporte de urnas: houve denúncias de que urnas foram transportadas para locais secretos, onde os votos eram alterados antes da contagem oficial.

(v) Resultados inverosímeis / disparidades regionais

Em algumas zonas, como no Alentejo, no Ribatejo, no Porto, e em Lisboa, onde o apoio a Delgado era conhecido, os resultados oficiais mostraram, em muitos concelhos,  vitórias esmagadoras de Américo Tomás, o que foi considerado sociológica e estatisticamente improvável. Vários observadores independentes e até alguns membros de mesas eleitorais admitiram, anos mais tarde, que os resultados foram manipulados para garantir a vitória do candidato do regime.

(vii) Reação internacional / críticas da imprensa estrangeira

Jornais europeus, norte-amerticanos e brasileiros denunciaram a falta de transparência e as irregularidades do processo eleitoral. Algumas organizações de direitos humanos e observadores internacionais questionaram a legitimidade das eleições, embora o regime tenha pura e simplesmente ignorado essas críticas.

Após as eleições, o regime intensificou a repressão, com a  perseguição aos apoiantes de Delgado, prisões, demissões e exílios forçados, etc. Delgado foi demitido de todos os cargos e teve de se refugiar na embaixada do Brasil em janeiro de 1959.

As eleições de 1958 (as "eleições de Humberto Delgado", como ainda hoje se diz) deixaram uma marca profunda na sociedade portuguesa, alimentando o descontentamento que viria a explodir em 25 de Abril de 1974... 

Mas haveria ainda um longo período de 16 anos (!) marcado pela guerra colonial (que em rigor já tinha começado, "surda e muda", na joia da coroa que era a Índia Portuguesa...).

Mas a guerra colonial irá ter um duplo efeito, contraditório: por um lado, afastada a hierarquia reformista das Forças Armadas (vd. Botelho Moniz e a "Abrilada de 1961"...), reposto o controlo político de Salazar sobre os militares, o regime ganha um segundo e derradeiro fôlego; mas, a prazo, sem um solução política à vista para um conflito que nunca poderia uma solução imposta pelas armas, acaba por ditar o fim da ditadura, não obstante o tardio e inconsequente ensaio de liberalização protagonizado pelo Marcello Caetano,

 (Pesquisa: LG + Bibliografia +  Internet)

(Condensação, revisão/ fixação de texto, negritos: LG)
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Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 8 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27679: Foi há... (4): 85 anos, o ciclone de 15 de fevereiro de 1941 que deixou um rasto de morte e destruição por todo o país

(**) Vd. poste de 26 de julho de 2024 > Guiné 61/74 - P25778: Timor-Leste: passado e presente (14): Notas de leitura do livro do médico José dos Santos Carvalho, "Vida e Morte em Timor durante a Segunda Guerra Mundial" (1972, 208 pp.) - Parte VI: Díli, 20 de fevereiro de 1942: a invasão e a ocupação japonesas

(***) Vd. poste de 20 de julho de 2015 > Guiné 63/74 - P14905: Nas férias do verão de 2015, mandem-nos um bate-estradas (10): Não, nunca percebi para que serviam os CTT no CTIG... Notícias de Alhandra, da minha família, por ocasião da tragédia, as grandes inundações, de 25 para 26 de novembro de 1967, que atingiram a Grande Lisboa, recebi-as através de telegrama militar... (Mário Gaspar, ex-fur mil at art, MA, CART 1659, Gadamael e Ganturé, 1967/68)

(****) Vd. poste de 28 de outubro de 2018 > Guiné 61/74 - P19142: Manuscrito(s) (Luís Graça) 147): Tinha 14 anos em 1961, o "annus horribilis" de Salazar e da Nação... Depois do desastre da Índia, em 18-19 de dezembro de 1961 e de cinco meses de cativeiro, o general Vassalo e Silva e outros oficiais foram expulsos das Forças Armadas, em 22 de março de 1963... Era um aviso sério para os que combatiam em África.

(*****) Úlltimo poste da série > 4 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27700: Foi há... (5): 65 anos: duas "negas" aos americanos, Fidel Castro e António de Oliveira Salazar (António Rosinha, que tinha então 22 anos, e vivia feliz em Angola)

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27675: O nosso blogue como fonte de informação e conhecimento (115): Comparticipação adicional de 100% da parte não comparticipada pelo SNS nos medicamentos adquiridos pelos Antigos Combatentes Reformados

1. Como vi publicado no Blogue da Tabanca do Centro, a Circular n.º 0008-2026 da ANF (Associação Nacional de Farmácias), com a devida vénia aos camaradas Joaquim Mexia Alves e Miguel Pessoa, copiamo-la para o nosso Blogue, acrescentando algumas notas no sentido de ajudarmos a esclarecer qualquer dúvida entre a tertúlia.

Nas redes sociais aparecem muitas dúvidas sobre a comparticipação dos 100% 
da parte não comparticipada pelo SNS, nos medicamentos adquiridos com receita médica pelos Antigos Combatentes.

 Esta medida entrou em vigor neste mês de Janeiro.

Como se pode ler na Circular abaixo, o cálculo da comparticipação é feito sobre o Preço de Referência (PRef) do medicamento, sendo que sempre que o Preço de Venda ao Público (PVP) for superior ao Preço de Referância (PRef), o combatente pagará a diferença. Na maioria dos casos o custo reduz-se a alguns cêntimos e não justifica os insultos dirigidos às entidades públicas. Há alternativas que podem anular estas diferenças, como por exemplo a escolha de Medicamentos Genéricos (MG), tão eficazes como os medicamentos de marca.

Circular com a devida vénia à Associação Nacional de Farmácias
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Nota do editor

Último post da série de 18 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27436: O nosso blogue como fonte de informação e conhecimento (114): a tábua corânica de Galugada Mandinga (subsetor de Contuboel)