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domingo, 13 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28343: (In)citações (290): Eventos de iniciativa de Antigos Combatentes (Artur Conceição da CART 730)

1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS de Inf e Condutor Auto, da CART 730 / BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 31 de Agosto de 2026:


Eventos de iniciativa de Antigos Combatentes

No princípio da década de 90 começaram a ter lugar os primeiros convívios de Antigos Combatentes pertencentes à mesma companhia e/ou ao mesmo batalhão. Esta iniciativa partia sempre da boa vontade de alguns antigos combatentes. Por meados da década de 90, quando os convívios já eram moda, apareceu uma nova modalidade, mas sempre com os mesmos objectivos.

Esta nova modalidade consistia de um convívio entre todos os naturais de uma mesma freguesia, que tivessem participado na guerra do ultramar. Convívios desta natureza reuniam sempre um número de presenças muito elevado, porque eram abertos a residentes e não residentes. Na freguesia de Campia, com 182 antigos combatentes, as presenças eram sempre superiores à centena. Muitas foram as freguesias que aderiram a esta modalidade, havendo mesmo casos de algumas onde à falta de iniciativa por parte de antigos combatente era a própria junta da freguesia a tomar a seu cargo a organização de um convívio, como era o caso da Freguesia de Cacia no Concelho de Aveiro.

Muitas associações de antigos combatentes como é o caso da “Tabanca Grande” tiveram e muitas ainda tem, os seus convívios anuais.

O número de convívios atingiu no ano de 2014 o valor 360, publicitados, estando esse valor reduzido para o ano 2026 a 70 convívios aproximadamente. Tudo terá um fim no dia em que todos os antigos combatentes façam parte das hostes celestes da Paz e do Amor.

O nosso camarada da Tabanca Grande, Victor Barata, alfacinha, nascido na cidade de Lisboa foi encontrar noiva na aldeia onde eu nasci. Casou com uma filha da Amélia da Laja e do padeiro de Caveirós, neta materna da Senhora Dália Campos, segunda prima direita da minha avó.

A encosta norte da serra do Caramulo é riquíssima em granitos de alta qualidade. Só para o pavimento do IP5 foram destruídos milhares de toneladas de granito azul transformadas em gravilha, sem que alguém gritasse, não destruam o património.

A Victor Barata procedeu à instalação de uma fábrica de serração de granitos e não de mármores como aparece num comentário do blogue. Só não está sepultado no cemitério de Campia por ter sido cremado na cidade de Viseu.

Nunca consegui que o camarada Victor Barata participasse nos convívios dos combatentes da freguesia de Campia. Uma divergência entre o Victor Barata e um dos quatro elementos da Comissão Organizadora de primeiro convívio realizado em Campia, Mário dos Santos Ferreira, Furriel de Transmissões da Companhia que estava sediada em Ingoré no ano de 1965.
O Mário dos Santos Ferreira, meu companheiro de carteira da primeira, dois anos, até à quarta classe não era pessoa fácil.

A divergência teve origem na aquisição de duas placas em granito, com a inscrição, “Ditosa Pátria que tais filhos tem” para serem colocadas nas campas dos dois mortos em combate, que estão sepultados no cemitério de Campia. Sendo amigo dos dois, tentei por mais que uma vez, sempre que me cabia a organização do próximo convívio, a reconciliação, mas sem resultados.

Sinto cada vez mais dificuldade em aceitar que amizades com mais de 30, 40, 50 anos, possam desaparecer por uma pequena quezília que não vale umas míseras cascas de alhos.

Como consequência destes convívios surgiu também a iniciativa do levantamento de Marcos Históricos aos antigos combatentes. Estes pequenos monumentos foram erguidos a nível de freguesia, como é o caso Campia, a nível de concelho e também a nível nacional como é o caso do Bom Sucesso em Lisboa. Também estes monumentos foram patrocinados pelos antigos combatentes como é o caso de Campia, por Autarquias Locais e também por outras entidades.


Este Monumento aos Antigos Combatentes, naturais da freguesia de Campia foi custeado pelos próprios Combatentes. A Junta de Freguesia de Campia cedeu o terreno e a Câmara Municipal de Vouzela honrou-nos com uma presença no dia da inauguração (13-11-1999).

Quase ao virar da esquina como nos indica a gíria popular, já no ano de 2025 surge uma iniciativa de um antigo combatente, Alferes Miliciano em Angola, natural de Macieira-a-Velha, freguesia de Macieira de Cambra do concelho de Vale de Cambra, de seu nome Martinho Tavares de Almeida, Professor de Educação Física Aposentado. A cidade de Vale Cambra faz parte da Área Metropolitana do Porto.

Com a colaboração de um Grupo de patrocinadores encabeçado pela Câmara Municipal de Vale de Cambra, este antigo combatente decidiu levar a cabo a seguinte tarefa:
Fazer uma recolha ao nível do Concelho de Vale Cambra de dados relativos a todos os naturais que tivessem participado na Guerra do Ultramar. Para além dos dados pessoais também foram recolhidos dados relativos ao Posto e à frente de combate onde teve lugar a sua participação.

À semelhança do que é pedido na adesão à Tabanca Grande também aqui foi usado o mesmo critério em relação à entrega de fotos.
A partir da recolha efectuada, foi feita a edição de um livro em formato A4 com uma primeira tiragem de 1500 exemplares, com 512 páginas e um peso superior a 2 quilos.

Cada um dos Antigos Combatentes ainda vivos, recebeu um exemplar de forma gratuita. Todos os familiares dos Antigos Combatentes já falecidos, que colaboraram com a iniciativa receberam do mesmo modo um exemplar de forma gratuita como é o meu caso.

As duas imagens a seguir mostram a frente e o verso da obra que foi feita a partir desta brilhante iniciativa.

Frente do livro dedicado aos Antigos Combatente do Concelho de Vale de Cambra
Contracapa do livro dedicado aos Antigos Combatente do Concelho de Vale de Cambra

A todos os antigos combatentes a quem foi concedido o privilégio de regressar à sua origem sem ser dentro de um caixote, lutaram para serem os melhores, para terem o reconhecimento daquilo por que passaram em defesa dos ideais da época.
De nada lhes valeu, cada vez valem menos e a cada vez que aparece algo de benesse para antigos combatentes logo aparecem as discórdias a gritarem que os antigos combatentes não são pessoas de bem.

É público de que os antigos combatentes não pagam medicamentos. Não é verdade porque apesar de existir na Constituição um Artigo 13.º que diz que somos todos iguais. Há a possibilidade de serem produzidos medicamentos para pobres e para ricos. O antigo combatente não paga medicamentos se apenas usar os medicamentos para pobres. Em caso contrário paga como pagam os outros.[1]

O livro faz referência a todas as figuras do Estado Novo que durante 13 anos conduziram a Guerra, às grandes operações, tais como a tomada da Pedra Verde e a Operação Mar Verde, às grandes catástrofes como afundamento de uma jangada que vitimou mais de uma centena[2], e a tragédia do Chão Manjaco. É de igual modo feita uma referência a todos os intervenientes do lado oposto.

Tenho muita pena que não exista em todos os restantes concelhos deste país um Alferes Martinho Tavares de Almeida com capacidade para levar a bom porto uma nau com tanta carga. Até à página 225 este livro é de uma enorme riqueza para quem gosta de História.

Nas primeiras 225 páginas há espaço para:

- 1. O Império Ultramarino e o Estado Novo
- 2. Factos que antecederam o Conflito Armado
- 3. Período anterior ao início do Conflito Armado
- 4. Início do Conflito Armado em Angola
- 5. Principais protagonistas
- 6. Teatros de operações
- 7. Movimentos independentistas
- 8. Grandes operações
- 9. Meios terrestres aéreos e navais
- 10. Quarteis e aquartelamentos
- 11. Armas de combate. Perfeita elencagem de todas as armas com ilustração de todas as armas usadas de ambos os lados.
- 12. Minas. A chamada guerra subterrânea
- 13. Alguns números da Guerra do Ultramar
- 14. As grandes tragédias
- 15. As nossas Enfermeiras na Guerra do Ultramar
- 16. A missão do movimento nacional feminino
- 17. O papel da Igreja no conflito
- 18. Factos relevantes
- 19. Personalidades que exerceram funções de chefia e comando envolvidas na guerra do ultramar
- Da página 226 até à página 463 foram colocadas todas as fotos acompanhadas de um pequeno perfil de todos os antigos combatentes do concelho de Vale de Cambra.

O segundo da última fila é o autor desta brilhante obra (Alferes Mil Martinho Tavares de Almeida)

- Da página 464 em diante estão transcritos os louvores atribuídos a todos antigos combatentes naturais de Vale de Cambra.
- Uma lista de todos os falecidos.
- Lista de feridos graves acompanhada de alguns depoimentos.
- Notícias publicadas em alguns jornais da época.


Para terminar deixar um grande abraço com elevado reconhecimento ao Autor
Os meus mais sinceros parabéns Dr. Martinho Almeida.


Artur Conceição
SPM 2578


******************************
2 . Notas do editor Carlos Vinhal:

[1] - Peço desculpa ao amigo Artur Conceição, mas por uma questão de justiça, venho afirmar que é incorrecto dizer-se que os Antigos Combatentes só têm direito a medicamentos para pobres. Em Portugal não há medicamentos para pobres e para ricos. Uma vez que há muita falta de informação e desinformação a mais, esclareço, a título pessoal, que o Estado comparticipa os Antigos Combatentes a 100% o preço de referência de todos e quaisquer medicamentos receitados e comparticipados pelo SNS, genéricos ou de marca.
Os utentes do SNS, em geral, não saberão, nem se aperceberão, de que há medicamentos cujo PVP (preço de venda ao público) é superior ao PR (preço de referência). O SNS, nestes medicamentos, só comparticipa o PR, ficando a diferença a cargo do utente. Nunca dei conta de ver no balcão da farmácia alguém perguntar porque está a pagar aquela importância e não menos.
Com os Antigos Combatentes passa-se o mesmo, às vezes pagamos uns cêntimos por causa da tal diferença, mas porque se intuiu que nos comparticipam (sempre) 100% do preço dos medicamentos, reclamamos por falta de conhecimento.
Um exemplo prático: o reumatologista receitou-me Lepicortinolo (um medicamento de marca, não genérico), cujo preço de venda ao público é 3,82€ e o preço de referência é 2,80€. Perante isso, paguei a diferença, 1,02€, sendo comparticipado a 100% do preço de referência.
Também não é justo dizer-se que os Medicamentos Genéricos têm uma eficácia inferior aos de marca. Está provado cientificamente que é mentira. Eu sou um dos que opta sempre pelos genéricos. O SNS não nada em dinheiro, cabendo a cada um de nós zelar pela sua sobrevivência.
Aconselho a leitura atenta do nosso Poste de 6 de Janeiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26354: O nosso blogue como fonte de informação e conhecimento (109): Portaria n.º 372-C/2024/1, de 31 de Dezembro que estabelece as condições de acesso dos Antigos Combatentes a uma percentagem adicional de comparticipação sobre a parcela não comparticipada dos medicamentos pelo SNS

[2] - Aqui não sei se o nosso amigo Artur se se está a referir ao desastre da jangada durante a travessia do rio Corubal. Se sim, e se considerarmos vítimas os camaradas falecidos, foram 43.

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Nota do editor

Último post da série de 8 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28250: (In)citações (289): Hoje estou triste, embora seja grato por cada nascer do sol... (Tony Borié, ex-1.º Cabo Op Cripto)

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28161: Notas de leitura (1934): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (3) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 4 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Se já estava afeiçoado ao que Catarina Gomes nos oferecera na 1.ª edição deste livro, em 2018, consolidei que esta edição de 2026 comprova como esta investigadora intensifica o vigor e a luminosidade que põe nas suas reportagens, a ponto de a dor sentida por estes filhos de tuga mexerem connosco. É uma nova dimensão dos estudos da história da guerra colonial que Catarina Gomes abriu as portas. Estamos perante factos consumados, não se podem fazer contas a quantos filhos de tuga, uns se resignaram ao abandono, outros buscam a identidade, e a única coisa certa que conhecemos é que tanto o Estado português como Angola, Guiné e Moçambique não se prepararam para reconhecer a dimensão desta realidade que a autora tão meritoriamente veio desvelar, escancarando os tabus, não deixando de nos alertar para as suscetibilidades que envolvem antigos combatentes que não têm coragem de dizer às suas famílias que há "restos de branco", carne da sua carne, a pedir identidade no clamor lá longe.

Um abraço do
Mário



Filhos do inimigo, restos dos portugueses, seres humanos à procura de identidade – 3

Mário Beja Santos

A 1.ª edição de "Furriel não é Nome de Pai, os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes, data de 2016, a escritora e investigadora foi-se afeiçoando a este tema e esta terceira edição, já publicada em 2026, está substancialmente aumentada, mantém um vigoroso discurso narrativo, muitas vezes pungente, é uma tocante viagem à dignidade humana naqueles territórios onde houve Guerra Colonial e apareceram meninos e meninas tantas vezes repudiados, sujeitos às mais ignóbeis humilhações e que não desistem de lutar pelo direito à identidade.

Depois da história de Óscar Albuquerque e da sua tia Filomena, uma narrativa sublime, onde se cruzam a dedicação, onde subjaz sempre uma forma de ternura e há um pai biológico que se põe a milhas da vida desse filho, tudo entremeado por uma burocracia infernal, temos agora os manos Celestina e Celestino, irmãos gémeos, há também um jovem branco que é o pai destes dois adultos mestiços, por acaso oficial do quadro permanente, saberemos pela narrativa que há um major reformado que tem uma filha chamada Emília, que não ficará indiferente a estes dois filhos de tuga, seus irmãos, residentes em Bambadinca.

A história começa com uma fotografia do pai dos gémeos, que está emoldurada por decisão de Celestino, este escreveu muitas vezes ao pai, não obteve resposta. Os irmãos guineenses entraram em contacto com a irmã branca através de uma carta endereçada à Excelentíssima Mana Emília Martins Prado, pediram-lhe algum dinheiro para os ajudar a viver um pouco melhor e também a fotografia do pai dos três. Emília apresentou-se, professora de Geografia, com três filhas adolescentes, vivendo numa cidade no norte de Portugal. Em nova carta Emília foi muito clara: “Sou só eu que desejo contactar convosco. Como compreendes, não posso enviar uma fotografia de uma pessoa que se recusa a estabelecer contacto convosco.” Um início de história pouco promissor.

Contudo Emília não está propriamente sozinha nesta história, tem a mais improvável das aliadas, a sua mãe, Sara Martins Prado, 82 anos, também professora – a suposta mulher traída pelo militar que já era casado quando fez os filhos gémeos na guerra. Sara sempre desconfiou de qualquer coisa. Aliás, muito interpelado por Sara, o oficial contou a verdade, deixara crianças na Guiné. Em comissões anteriores, Sara e Emília, e depois uma outra irmã, acompanharam o militar em Moçambique e Angola. Ele esteve sozinho depois na Guiné, numa geografia inventada por um qualquer estratega chamada Setor L1, o pai de Emília esteve em Bambadinca, as crianças nasceram de uma relação com a lavadeira.

A história agora ganha intensidade, Celestino corresponde-se com a tia Emília, cada um dos gémeos tem um descendente. A situação de Celestino preocupa Emília. “Celestino é carpinteiro sem carpintaria. O que consegue construir fá-lo usar ferramentas emprestadas por um vizinho, a bancada improvisada debaixo de uma árvore carregada de mangas. Portas e janelas são o que mais sai, mas ele tem competências também para montar tetos falsos. E não só. Um baú de madeira em casa de uma tia está protegido por um pano que Celestino afasta, como uma cortina que protege um quadro numa exposição, para que se veja como o alindou com trevos de quatro folhas gravados na tábua; noutra das arcas da sua lavra cunhou palmeiras, numa terceira um pelicano.”

Vamos conhecendo a família, a discreta Celestina, o seu filho Nadu, o filho de Celestino chama-se Geovane, os gémeos mudam de nome, fazem desaparecer os apelidos da mãe, Gomes Correia, para os substituir por Machado Prado, o nome do pai. Emília vai sabendo de tudo, como funcionam as creches e as escolas, uma parente afastada dos gémeos que vive em Portugal, de nome Carla, aconselha Emília quanto aos critérios da distribuição de dinheiro.

Emília fica atónita quando sabe que Celestina e Nadu estão em Portugal, o rapaz tem um problema nos olhos, toca de ensinar português a Nadu, o português de Celestina também vai melhorando. Nadu vai para uma instituição chamada Casa do Gaiato, em Miranda do Corvo, estuda com aproveitamento, a tia estimula-o. A relação entre irmãos é permanente, Celestino envia um SMS à mana, a mulher dera à luz uma menina, o seu nome é Emília Carla. Emília manda sistematicamente roupa infantil para a afilhada e não só.

E o pai dos gémeos, continua indiferente? A história termina, sabendo nós que tudo irá continuar com as preocupações da mana Emília e os sucessivos percalços na vida dos gémeos, assim:
“Emília e o pai vivem perto e são próximos, ainda há pouco ele saiu de sua casa. Há, dobradas pelos cantos, roupinhas de menina pequena. Não tem qualquer preocupação em escondê-las, pelo contrário, inconscientemente talvez as queira expor, como quando a mãe quis deixar o artigo do jornal no caminho do olhar do pai.
É impossível que o pai não repare nas saiinhas espalhadas pela casa, como uma com galo e galinha bordados em tecido de xadrez colorido. É impossível que não se tenha apercebido da acumulação de meiazinhas, sapatinhos, e que isso não lhe cause estranheza. Não há crianças pequenas na família. ‘Ele vê.’ Emília soa a criança travessa quando diz, algo sonsamente, que cumpre o que o pai lhe pediu. ‘Não falo disso’.”


A saga de Catarina Gomes vai prosseguir, temos seguidamente pais procuráveis, provavelmente não resistiremos às saudades do pai Monteiro, que a televisão se encarregou também de difundir, e a autora irá despedir-se com uma listagem de filhos que procuram pais portugueses, do género:
“António Urbino Gonçalves Brito. O pai seria 2.º grumete, originário de Câmara de Lobos, na Madeira, nascido a 11 de junho de 1951. Consta que até tentou raptar o filho pequeno para o levar para Portugal, mas que os familiares da mãe o impediram. Vive em Bissau.”
E também:
“Erasmo Fonseca. Engenheiro mecânico agrícola, nasceu em 1969. Os seus estudos levaram-no até Cuba. A sua mãe, Maria Geralda Soares Cassamá, era professora primária em Quinhamel, perto de Bissau. O furriel, de quem usa o apelido, esteve colocado no quartel de Binar, onde conheceu a mãe, numa festa em casa de familiares.”


(continua)
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Notas do editor:

Vd. post de 29 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28144: Notas de leitura (1932): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (2) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 3 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28152: Notas de leitura (1933): "Retratos de Guerra", desenhos de Cristina Sampaio a partir da obra de Neves e Sousa, uma exposição a não perder na Livraria Municipal Verney, Oeiras, patente ao público até 14 de Novembro (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28144: Notas de leitura (1932): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 2 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
É, indiscutivelmente, uma reportagem em dó maior, a Guiné tornou-se um palco de eleição, foi aqui que começou a investigação de Catarina Gomes para o jornal Público, houve depois livro que deu origem ao documentário Filhos de Tuga, emitido pela RTP. Tudo começou com a história de Fernando, vergastado pelo padrasto por ter nascido com a pele mais clara, Fernando não se rendeu e criou um movimento associativo, sendo motorista foi descobrindo filhos de tuga por todo o país, o nome Fernando Hedgar da Silva é o nome que muitos soletram na Guiné-Bissau, uma luz acesa para filhos de guerra, crianças que ficaram para trás em Angola, Moçambique e na Guiné-Bissau, muita gente a buscar uma identidade perdida. São relatos por vezes pungentes, em que a busca da identidade negada se acompanha de uma tocante busca de dignidade. O mais estranho de tudo, como a autora observa, é que nem o Estado nem nenhum de nós se interessa pela dimensão desta realidade.

Um abraço do
Mário



Filhos do inimigo, restos dos portugueses, seres humanos à procura de identidade – 2

Mário Beja Santos

A 1.ª edição de "Furriel não é Nome de Pai, os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes, data de 2016, a escritora e investigadora foi-se afeiçoando a este tema e esta terceira edição, já publicada em 2026, está substancialmente aumentada, mantém um vigoroso discurso narrativo, muitas vezes pungente, é uma tocante viagem à dignidade humana naqueles territórios onde houve Guerra Colonial e apareceram meninos e meninas tantas vezes repudiados, sujeitos às mais ignóbeis humilhações e que não desistem de lutar pelo direito à identidade.

Quero recordar ao leitor que estamos perante um livro de procuras, tanto há encontros como desencontros, luminosidade e negrume, não falta a mediação de Catarina Gomes, a sua tentativa que pôs filhos e pais em comunicação, os falhanços são mais que muitos, estes velhos antigos combatentes devem entrar em pânico só com a ideia de informar a família constituída que chegou a hora de receber outros descendentes até então completamente desconhecidos. O que a autora nos vai contar sobre Óscar Albuquerque e a sua tia Filomena deixa o leitor estarrecido, a ânsia de Óscar ser recebido pelo pai e a tia Filomena que acaba por fazer as vezes desse pai que não quer sair das suas tamanquinhas.

O relato começa no Instituto de Medicina Legal, é ali que se vão fazer os testes de paternidade, a tia não tem dúvidas, para ela o irmão e o sobrinho são iguais no andar, têm as pernas arqueadas. Pai e filho fazem o teste sem trocar uma palavra. “A verdade vai ser extraída do interior de dois líquidos. Em menos de 1mm de sangue e saliva, retirado aos dois homens, está contida uma resposta.” Antes de ser Óscar, chamava-se Abdulai Seidi, assim que a família descobriu que a mãe estava grávida de um militar português casou-a de urgência. Os pais separaram-se, a mãe seguiu para outro marido, Abdulai ficou a cargo do padrasto, foi educado com mais quatro irmãos por um padrasto que o maltratava. Um dia uma vizinha não resistiu contar que ele era filho de um tropa português.

Ele começou a olhar para o antigo quartel português de Ingoré como o quartel do pai. Um guineense ex-camarada de armas do pai que agora era jornalista da Rádio Nacional, confirmou a versão da vizinha, e veio a revelação do nome do pai, Manuel Albuquerque, começaram as pesquisas sobre o pai tuga. Mudou de nome. Na escola tinha ouvido falar em Afonso Albuquerque, um vice-rei da Índia destemido, Abdulai converteu-se em Óscar, processo moroso. No novo registo de nascimento preencheu o campo do pai com Manuel Albuquerque. Inevitavelmente, surgiram as trapalhadas nas datas de nascimento, no novo documento pôs-se a data de nascimento em 1978, não fazia sentido, o pai tinha andado pelo Ingoré em 1972.

Óscar começou a bater às portas: a embaixada de Portugal na Guiné-Bissau, depois o Arquivo Geral do Exército, por portas e travessas, conseguiu a morada da casa do pai, seguiu carta, e depois outra, nada de resposta. Telefonou ao pai: “Lembra de Maimuna Djau? Eu sou filho de Maimuna, o filho que você deixou na barriga. Está a falar com o seu filho, Óscar.” E veio a resposta: “Não leve a mal, não sei de nada, amigo.” Seguiram-se outros telefonemas, inúteis, e assim se passaram dez anos sem Óscar voltar a escrever ou a telefonar. A foto de Maimuna chegou ao conhecimento de Filomena Viegas, a história da existência de uma criança vinha do passado, quando o militar chegou deu notícia à mãe que terá respondido: “manda vir o menino que eu crio-te”.

Filomena herdou os álbuns de família quando a mãe morreu. O irmão de Filomena casou e assim se esqueceu o feto na barriga da adolescente negra. Foi no jornal Público que ela viu a reportagem sobre os restos de Tuga e havia lá a fotografia em meio-corpo de alguém que se chamava Óscar Albuquerque. A partir daí Filomena não parou, conversa com Catarina Gomes, depois escreveu ao rapaz da reportagem, informa o alegado sobrinho de que a data do nascimento não pode ser 1972 pois a comissão do irmão fora em 1967-1968. Impunha-se fazer um teste de paternidade, Filomena traçou os seus planos, pagaria o bilhete de avião e os testes genéticos, o rapaz ficaria em sua casa, pessoas da família acham que ela se está a exceder. No Facebook, Filomena e Óscar conversam intensamente, Óscar tem 44 anos, os problemas de família não preocupam Filomena, a sua mãe era filha de um carpinteiro de Salvaterra de Magos e uma são-tomense; também o seu pai era filho de um beirão de Vouzela e de uma são-tomense.

Filomena anda empolgada: “Sou avó, sou mãe, sou educadora de infância reformada. Se eu ajudo pessoas de fora porque é que não hei de ajudar o meu sobrinho, o meu rapaz". Filomena envia fotos da família a Óscar. Filomena gosta muito do irmão, teme que a relação dos dois possa sofrer com a vinda de Óscar. Problemas não faltam: há sempre dificuldades em obter visto na Guiné para Portugal, foram precisos muitos meses de insistência para que Óscar aterrasse no aeroporto de Lisboa numa noite chuvosa de janeiro, Filomena espera-o com um saco cheio de roupa quente, os seus diálogos são um rico manancial de ternura, e assim se chega à convocatória do Instituto Nacional de Medicina Legal para a colheita de material biológico. O encontro de pai e filho é marcado por distâncias, é uma conversa de circunstância, o pai bem lhe perguntou o que fazia, não se furtou a responder que fazia biscates em pintura.

Há uma espera de semanas, Óscar vai conhecer Lisboa, recebe ternura da tia Filomena, esta não esconde a sua euforia nas redes sociais, o sobrinho nunca tinha provado grão nem frutos secos, engordou dois quilos, depois quatro, a tia ofereceu-lhe um dicionário de português, vestiu-o com aprumo, chega o resultado, o grau de probabilidade de Óscar Albuquerque ser filho do homem que no ofício ainda é identificado como pretenso pai é de 99,999997%. No primeiro aniversário de Óscar com a família portuguesa, Filomena cozinhou bacalhau no forno, comprou champanhe do bom e um bolo de chocolate rodeado de framboesas. O pai de Óscar mantém-se distante, mas acedeu ao pedido da irmã para irem à Conservatória do Registo Civil, mais um imbróglio, o pai esteve na Guiné em 1968, mas a documentação guineense diz que Óscar nasceu em 1978, os papéis têm de voltar para a Guiné. Tudo parecia estar resolvido quando o pai disse à funcionária que era o pai do Óscar. Mas surgiu novo obstáculo, o mais inesperado: Óscar não podia ser perfilhado pelo seu pai biológico porque já estava nos seus documentos. Enfim o que servia na Guiné não servia em Portugal.

Na continuação da saga, enquanto se aguarda a chegada dos documentos corrigidos da Guiné, a tia ensinou-o a cozinhar, o sobrinho arranjou um quarto, foi-lhe recomendado que não andasse na rua a partir das dez da noite para não ser apanhado por uma rusga do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. Óscar continua a ser assíduo nas reuniões de família que Filomena organiza, o pai nunca comparece. “Filomena diz que aprendeu a gostar de Óscar desde que ele nasceu. O irmão diz que não sente nada por ele, que o rapaz foi um acidente, Filomena suspira que os pais tenham partido, eles poriam aquele filho na ordem.” Óscar pôs-se a trabalhar, ora ajuda a fazer as instalações elétricas ora a rebocar ou a pintar paredes. “Já passou tempo suficiente para se perceber que Óscar e o pai não vão estar unidos sem ser em papel, são dois nomes escritos na mesma folha de papel guineense, onde o grau de parentesco que os deviam unir não os uniu ainda, e talvez nunca os venha a unir.”

Uma história dura de ler pela intensidade a que levou o encontro, os ziguezagues da burocracia, aquela tia que às vezes é tomada de desalento, Óscar está na família portuguesa e não está, quando fala com a tia já não diz “o meu pai”. Os dias e os meses passam, o papel que ainda acalenta a esperança de Óscar é o teste do ADN. “Se for apanhado numa rusga por estar ilegal, só tem aquela folha para mostrar e, se lhe derem tempo, pode contar a sua vida. Óscar bem sabe que o valor legal do papel e da sua história são nulos. Pode ser expulso, apesar deles. Mas foi o que conseguiu, o papel e a tia.”

Que o leitor se prepare, há outras histórias empolgantes ainda para citar.

(continua)

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Notas do editor:

Vd. post de 22 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28122: Notas de leitura (1930): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (1) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 26 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28134: Notas de leitura (1931): "Morrer no Cacheu", um trabalho do jornalista Rui Araújo, publicado na Revista do Semanário Expresso do dia 31 de Março de 2001 (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28122: Notas de leitura (1930): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 28 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
"Furriel não é Nome de Pai", de Catarina Gomes, é de leitura obrigatória, é uma longa viagem sobre tema sobre o qual se manteve discrição ao longo de décadas, os filhos dos militares portugueses deixados na Guiné, Angola e Moçambique, crianças sovadas, discriminadas, continuam a buscar uma identidade perdida, as autoridades dos países independentes e as de Portugal nem tentam reconhecer a dimensão do problema, parecem ser coisas do destino, ainda por cima os ex-combatentes é uma categoria em vias de extinção, e as crianças deixadas nas antigas colónias, hoje homens e mulheres com mais de 50 anos nem são tema para conversas nos almoços anuais que eles fazem. É uma bela edição revista e aumentada, a narrativa é primorosa, e momentos há, caso do encontro entre Óscar Albuquerque e a sua tia Filomena que temos a convicção do poder radial e luminescente desta moderna literatura portuguesa.

Abraço do
Mário



Filhos do inimigo, restos dos portugueses, seres humanos à procura de identidade – 1

Mário Beja Santos

A 1.ª edição de "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes, data de 2016, a escritora e investigadora foi-se afeiçoando a este tema e esta terceira edição, já publicada em 2026, está substancialmente aumentada, mantém um vigoroso discurso narrativo, muitas vezes pungente, é uma tocante viagem à dignidade humana naqueles territórios onde houve Guerra Colonial e apareceram meninos e meninas tantas vezes repudiados, sujeitos às mais ignóbeis humilhações e que não desistem de lutar pelo direito à identidade.

Na introdução, a autora dá-nos conta de outras histórias de filhos de militares, não deixa de impressionar a lista de filhos de guerra, noutras paragens. A momentosa questão dos “filhos de tuga” parece não sensibilizar a sociedade portuguesa, quando os meios de comunicação social afloram esta dolorosa realidade, é o discreto silêncio que prevalece, parece ser praga ou vicissitude dos tempos de guerra sem remédio.

Esta investigação foi iniciada em 2013, na Guiné-Bissau, a própria autora ficou surpreendida pelo dilúvio da procura, partira com quatro contactos de supostos filhos de ex-militares portugueses, a receção foi turbilhonante: “Um passa-palavra descontrolado colocou ao nosso dispor uma torrente de vidas que era impossível recolher no tempo que tínhamos. Alguns filhos tinham de esperar horas para os ouvirmos, as suas histórias eram as mensagens que nunca tinham conseguido enviar aos pais. Os primeiros dias emocionaram-me, mas houve momentos em que me senti como se estivesse num guichê de repartição pública, a preencher folhas e folhas de relatos que, a certa altura, se repetiam no essencial – eu fazia ali as vezes de Portugal.”
Haverá um testemunho, o de Fernando Hedgar da Silva, que a empurrará a escrever este livro, a história da associação que ele criou é qualquer coisa de sublime nos seus percursos de dramatismo que a autora traz ao leitor. Mais adiante, ouviremos falar de Óscar Albuquerque e da sua tia Filomena, creio que são espantosas páginas antológicas que ultrapassam a linha da investigação, é um dos mais luminescentes encontros que a literatura portuguesa nos proporciona.

Ninguém conhece ao certo a dimensão do universo dos “filhos de tuga”, se são centenas ou milhares, na Guiné, Angola ou Moçambique e, francamente, é difícil fazer comparações com estimativas do Vietname ou outros locais de outras presenças coloniais, onde houve belicismos. Atenda-se ao que Catarina Gomes escreve na introdução: “Todos os dias morrem metades desta história. Os pais portugueses estão nas fases finais das suas vidas, e estes filhos, na casa dos 40-50 anos, também podem estrar perto do fim das suas. A esperança de vida dos três países africanos ronda os 30 anos. Se continua a haver todos os anos almoços-convívios de ex-combatentes é porque a guerra ainda vive nestes homens.”

Fernando Hedgar da Silva, como se disse, é um dos fios condutores desta trama. Lembra na sua meninice os fuzilamentos havidos em Canchungo de quem tinha colaborado com as tropas portuguesas, o PAIGC apodava-os de serem “traidores da Guiné”, a população fora obrigada a assistir aos fuzilamentos e do mesmo modo teve de comparecer a um baile noturno, era obrigatório celebrar – mesmo quem acabava de perder familiares. A vida de Fernando mudou no dia em que o vizinho o admoestou dizendo que ele não tinha direito à opinião, era um resto de tuga. Pôs-se nu diante do espelho, ali estava no seu tom de pele a razão pela qual a mãe o chamava em casa “branco” e “tuga”. Assim se iniciou a sua saga à procura de identidade, Fernando pensava que o pai se chamava Furriel, bateu a portas, mesmo à da Embaixada de Portugal, não encontrou saída, um dia tomou a decisão de criar uma associação “os filhos de tuga”.

Como era camionista, ia percorrendo o país à procura de “filhos de tuga”, passados os inúmeros encontros, ganhou corpo a Associação de Solidariedade dos Filhos e Amigos dos Ex-Combatentes Portugueses na Guiné-Bissau – Fidju di Tuga. As primeiras reuniões acabavam em longos convívios. E Catarina Gomes faz entrar em cena outros personagens, retornamos à vida nos quartéis, aos restos de comida dados a mulheres, e de repelão surge-nos a história de Nenedjo Djaló, ela não procurou, foi encontrada. “Foi por acaso: dois ex-combatentes portugueses, em romagem nostálgica à Guiné, cruzaram-se com um primo de Nenedjo, que aproveitou para chamar a atenção para a filha que o capitão Lopes tinha deixado. Conheciam-no e aceitaram levar-lhe a novidade. A primeira vez que Nenedjo e o pai falaram ao telefone choraram, e ele deu-lhe a escolher: ‘Queres vir cá ou vou eu aí?’. Ela não teve dúvidas, era a oportunidade de se vingar: ‘Preciso que você venha cá, as pessoas que me discriminaram, quero que elas o vejam’.” O pai veio, Nenedjo foi até Portugal, mas a relação não teve sequência, o pai gosta, mas não a reconhece.

Acompanharemos outras viagens de Fernando, iremos mesmo ao cemitério de Bissau. “Alguns filhos da Associação já choraram ao ler os nomes que se deixam ler. Os que não sabem bem como se chama o pai, como Fernando, também já se perguntaram se nalgumas daquelas sepulturas estará o pai. E se ele for um dos homens apagados? Nesse sentir há uma tristeza, mas, simultaneamente, uma esperança porque assim o abandono dos filhos não o seria. Os pais não vieram ter com eles porque nunca saíram dali, morreram na Guiné, coitados, tão jovens, pouco depois de os terem feito.”

Discutem-se nomes hipotéticos para os pais desconhecidos, fazem-se aditamentos nas certidões de nascimento, e assim se criou a ilusão de se ganhar uma vida própria. Fernando não para de investigar. Consultou os registos paroquiais na igreja de Canchungo. Encontrou-se a ser batizado na folha 59, certidão n.º 106. Existia há mais tempo do que pensava. Em vez de ter nascido a 24 de dezembro de 1971, como vinha no seu bilhete de identidade, ele era, afinal, de 5 de janeiro de 1968. Na certidão nada da identidade do pai nem dos avós paternos. Mas vinha lá o nome dos padrinhos de batismo, um português que então vivia em Teixeira Pinto, um comerciante que já tinha morrido. A madrinha era parteira, viera para Portugal há muitos anos. O seu nome era Ermelinda Félix Tavares. A autora, depois de longos meses de pesquisa, encontrou-a. Mostrou-lhe a fotografia de Fernando adulto, não se lembrava dele nem da mãe, Sabadozinha Mendes. Houve conversa de mulheres: “São coisas que aconteceram durante a guerra. Se elas precisavam de alguma coisa davam-se aos militares. Não era amor, não, coitadas.”

Vamos ver seguidamente um dos episódios espantosos (senão o mais espantoso, pelo nível de ternura e meandros de encontros e desencontros) desta pesquisa, Óscar Albuquerque e a sua tia Filomena, prestem atenção.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 19 de Junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28115: Notas de leitura (1929): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (4): VII - A Viagem do Tangomau e VIII - As investigações sobre a Senegâmbia e algo mais (Mário Beja Santos)

domingo, 14 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28099: Facebook...ando (97): A Bandeira continua a mesma, mas existe uma enorme diferença de tratamento (Tony Borie, ex-1.º Cabo Op Cripto do CMD AGR 16, Mansoa, 1964/66)


Companheiros ex-combatentes,
O avião que trazia a seleção de futebol de Portugal, já aterrou próximo do local onde vivemos e…, nós quando ainda jovens, também oriundos da Europa, com uma educação de aldeia, onde os princípios honestos de família vinham de há séculos, vendo todo este cenário de jovens milionários vestidos a rigor com o emblema da bandeira nacional, carregando luxuosas malas, desembarcando sorridentes, alguns até faziam “caretas” e acenavam querendo talvez “pôr faladura”, fez-nos mais uma vez compreender que todos os sacrifícios que passamos defendendo esta mesma bandeira mas em cenário de guerra, infelizmente, foram em vão.

…Porquê? Porque “sem qualquer inveja de velho rabujento”, na verdade existe uma enorme diferença de tratamento. Nós e vós também, também desembarcámos em África, saindo dos porões dos navios da guerra colonial, com um saco contendo as roupas de combate às costas e vestidos de camuflado, com uns míseros trocados no bolso e…, sem qualquer futuro, porque em qualquer momento, uma bala ou um fornilho, faziam com que a família lá na Europa, fosse informada por uma simples carta de que…, já não fazíamos parte da lista de pessoas vivas.

…Também compreendemos que eram outros tempos mas…, a bandeira continua a mesma e…, qual a razão porque o governo tanto nos ignora?

Por favor, protejam-se.

Tony Borie

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Nota do editor

Último post da série de 16 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27536: Facebook...ando (96): No Star Club, Reeeperbahn, Hamburgo, fevereiro de 1967... (António Graça de Abreu)

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28001: Notas de leitura (1920): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (1): I - À guisa de apresentação do ex-combatente e II - Foi assim que cheguei ao Cuor (Mário Beja Santos)

CONGRESSO INTERNACIONAL
DAS GUERRAS AO PÓS-25 DE ABRIL
Os Militares em Territórios em Conflito
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
De 2 a 4 de abril de 2025


A biografia de um combatente:
O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História

Mário Beja Santos

I - À guisa de apresentação do ex-combatente

Permitam que me apresente. Toda a minha vida profissional andou à volta do serviço público, nela incluo dois períodos em que tive ligação ao Exército: de abril de 1967 a agosto de 1970, em que me preparei e vivi na então Guiné Portuguesa, comandando tropa africana, caçadores nativos e milícias; no intuito de concluir as minhas habilitações universitárias, fiz um contrato com o Ministério do Exército, voltei a Mafra, à Escola Prática de Infantaria, dei recrutas a soldados cadetes, muitos deles partiram como oficiais para os teatros de operações da Guiné, Angola e Moçambique, colocado em Lisboa, tive condições de fazer o bacharelato e a licenciatura.

A minha vida profissional parecia destinada ao ensino, fui mesmo colocado num liceu para dar História de Arte, acabei no Ministério de Economia e passei quase quatro décadas ligado à política dos consumidores, por essa via fui autor e apresentador de programas televisivos e radiofónicos, tive uma prolongada participação cívica e associativa e pude colaborar na política a favor dos consumidores tanto em Portugal como a nível europeu.


Um acaso, um reencontro com um antigo camarada da Guiné, que tinha criado um blog, hoje sem qualquer dúvida o mais influente blog constituído por antigos combatentes da Guiné (Luís Graça & Camaradas da Guiné) levou-me e ainda em plena vida ativa a começar a escrever sobre a minha experiência, depois a investigar tanto a História da Guiné Portuguesa como a História da Guiné-Bissau. Em 2008, publiquei os dois volumes do meu diário, nunca mais parei, no ano passado publiquei o tomo I de Guiné, Bilhete de Identidade, tudo somado são mais de dez livros, uma imensa vontade de continuar, já tenho projetos de entrar em domínios que carecem ser desbravados, caso do Boletim Oficial da Guiné e começar a inventariar os olhares estrangeiros, sobretudo a partir do último quartel do século XIX até meados do século XX (diga-se em abono da verdade que há já um bom levantamento dos olhares estrangeiros sobre a Guiné nos tempos de luta armada, no que toca à investigação portuguesa continua a faltar um trabalho em profundidade sobre o período da governação do General Arnaldo Schulz (1964-1968). Direi mesmo que continua para mim a ser um mistério a falta de estudos sobre alguns intervenientes da guerra colonial, recordo, a título meramente exemplificativo, que não há nenhuma investigação sobre o relacionamento diplomático entre Portugal e Cuba, nos tempos da guerra colonial, Cuba tinha embaixada em Portugal enquanto dava apoio técnico-militar à Guiné e a Angola; o mesmo poderei dizer da cooperação entre Portugal e Israel, este país foi nosso fornecedor de armas e durante anos foi discreto apoiante da política externa do Estado Novo.

Estando feita a minha apresentação, passo para a guerra que vivi, depois ainda tenho algumas coisas a dizer sobre os meus retornos à Guiné, então já República da Guiné-Bissau, e pretendo dar-vos conta dos trabalhos de investigação e livros publicados aproximadamente há duas décadas.


II - Foi assim que cheguei ao Cuor

Cheguei à Guiné em 29 de julho de 1968, aqui vivi até aos inícios de agosto de 1970, fui colocado no início de agosto de 1968 no regulado do Cuor, no Centro-Leste do território, com responsabilidades em dois destacamentos: Finete, uma povoação com Mandingas e Balantas, vivendo a cerca de 4Km da margem direita do rio Geba, dispondo de uma fértil bolanha e bons terrenos agrícolas, encontrei um aquartelamento com escassa segurança e armamento diminuto, a força militar era o Pelotão de Milícias n.º 102, cerca de 40 homens, predominantemente Fulas e Mandingas; Missirá, a sensivelmente 16Km de Finete, com Mandingas e Fulas, residência do régulo, igualmente um aquartelamento com muitas vulnerabilidades, armamento inapropriado, com um largo histórico de flagelações, emboscadas e minas anticarro, a força militar era o Pelotão de Caçadores Nativos n.º 52, homens que tinham feito a sua instrução em Bolama em 1966, muitos deles provenientes de forças de milícias, e o Pelotão de Milícias n.º 101, a que se juntavam alguns elementos provenientes da Companhia de Comandos e Serviços do Batalhão de Artilharia 1904, em vésperas de partida, virá a ser substituído pelo Batalhão de Caçadores n.º 2852, chegará em setembro desse ano. Tenho que me deter sobre a minha chegada a locais onde viviam misturados militares e civis, rodeados de arame farpado, cultivando à volta a sua sobrevivência.

O embate foi terrível, a adaptação custosa, a iniciação para conhecer a envolvente foi-me facilitada por um furriel experiente, Zacarias Saiegh, que colaborará comigo alguns meses, irá pertencer à 1.ª Companhia de Comandos Africana, que se formou perto do meu território, em Fá. Logo me apercebi que havia obras inevitáveis a implementar, para as quais eu não tinha a mínima preparação, e também me fizeram sentir que faltavam os materiais necessários: rolos de arame farpado, estacas, tesouras corta-arame, isto no tocante à segurança básica da tropa ali instalada e da população civil; os abrigos estavam envelhecidos, o madeirame apodrecido e sem a devida cobertura de cimento; o balneário não possuía os requisitos para uma boa higiene, não havia sanitários, só umas valas para defecar e urinar; a chamada messe era um casinhoto em tijolo com uma simples cobertura de chapa ondulada, uma mesa e uns bancos mal amanhados, tendo ao lado uma cozinha, tudo num completo desconforto; conversando com os meus colaboradores, apurei que a criançada não dispunha de uma escola, ia-se ao médico ou à enfermaria de Bambadinca só em situações de força maior e não havia tradição da visita de médico, Missirá e Finete dispunham de um cabo maqueiro em cada uma das localidades.

Em Bambadinca, na véspera de eu partir para Missirá, portanto em 3 de agosto, o oficial de operações do batalhão deu-me nota dos aspetos primordiais da minha missão: acima de tudo, e com a regularidade necessária, devia montar segurança num local chamado Mato de Cão, a sensivelmente 12,5Km de Missirá, para garantir a navegabilidade no rio Geba, já que tinha deixado de ter uso o itinerário por terra Jugudul – Porto Gole – Enxalé – Cancumba/Missirá – Gambiel – Bafatá (também no norte não havia circulação por terra entre Mansabá e Bafatá); se não fosse mantida a circulação pelo rio Geba toda a região do Leste ficaria gravemente afetada. Eu ainda não tinha conhecimento do planeamento de uma instalação portuária na localidade de Xime, que passou a ser operacional a partir de outubro de 1969, e que veio permitir a todas as unidades de Leste circularem entre Bafatá e Xime em termos de abastecimento de víveres, equipamentos e armamentos, materiais de construção civil, transporte de militares e civis, etc.

Este era o trabalho irrecusável, não obstante eu devia não só patrulhar regularmente todo o território à minha guarda e procurar manter os guerrilheiros em respeito; em nenhuma circunstância me foi sugerido que demarcasse a área ocupada pelo destacamento militar da povoação civil. No entanto, virei a ser bastante criticado pelo então Brigadeiro Spínola que quando visitou Missirá, achou que eu já devia ter iniciado a área do destacamento militar da área civil (fiz orelhas moucas, considerei sempre inaceitável, ainda por cima vivendo com soldados africanos e suas famílias, e com acesso limitadíssimo a materiais de construção, entrar numa operação de demarcação onde não via qualquer tipo de utilidade, sabendo de antemão que não haveria compreensão nem de militares nem de civis, seria sempre entendida como uma operação de discriminação).


Sendo as idas a Mato de Cão o aspeto primordial da minha missão, procurei aperceber-me como viajar sempre a pé e acautelando emboscadas e minas antipessoal. Demorou meses a pôr em prática a seleção de sete itinerários diferentes, numa lógica de corta-mato, o que me compensou não termos tido baixas nem emboscadas, pedi mesmo aos elementos guineenses que divulgassem no mercado de Bambadinca (onde circulavam informadores do PAIGC) que as nossas idas a Mato de Cão tinham itinerários imprevisíveis, quer a partir de Missirá quer a partir de Finete.

Logo no dia seguinte à minha chegada comecei a fazer o reconhecimento do terreno, dois meses depois conhecia o essencial do regulado do Cuor à exceção dos acampamentos do PAIGC sitos em dois pontos no termo no regulado, Madina e Belel, destes dois pontos só lá fui em operações com o reforço de duas companhias, uma vez um desastre completo, outra vez com o resultado da destruição do acampamento de Belel.

Referi acima que houve choque no confronto de um terreno para o qual eu não possuía nenhuma informação, uma boa parte do meu efetivo militar ou só falava crioulo ou um português mascavado, cheguei mesmo a ter necessidade de me socorrer de um intérprete em todas as situações em que era crucial perceber o que pretendia o chefe da tabanca, cabos ou soldados que me vinham fazer pedidos da mais diferente índole, mas acima de tudo adiantamentos da soldada. Conversando com os meus colaboradores diretos, concluí que se devia fazer um documento expondo a situação da segurança militar, a necessidade de ter apoios em engenharia para melhorar ou mesmo criar de raiz abrigos para proteger militares e civis.

Foi nesse contexto que o cabo quarteleiro de Missirá me chamou a atenção que o material que tinha a carga havia faltas clamorosas, tinham desaparecido camas de ferro, colchões de espuma, capacetes, e muito mais, impunha-se fazer um auto de abate e entregá-lo na sede do batalhão. Quando quis tratar do assunto com o então comandante da companhia, ele informou-me que contava comigo para incorporar nas minhas faltas as dele, entretanto iria obsequiar-me com material em excesso, bom jeito nos deu meter nas canoas com que atravessávamos o Geba cadeiras, pratos, talheres e copos. Estava a descobrir o desenrascanço.


O PAIGC brindou-me com uma flagelação em 6 de setembro, perto da meia-noite. Houve resposta rápida, enérgica, incendiaram-se duas moranças e um soldado milícia acidentou-se com um tiro no pé. Entre Finete e Missirá, Madina e Belel, é uma terra de ninguém; uma terra de ninguém, em cenário de guerrilha e contraguerrilha, significa que ninguém possui o domínio do território, e se houver um encontro é para abater o outro, o chamado inimigo; quando ainda hoje leio e vejo escrito que o PAIGC dominava uma parte importantíssima do território, eram as terras libertadas, a propaganda dizia umas vezes que se tratava de metade outras vezes de dois terços do território, posso perceber o peso da mentira, para a guerrilha era fácil chegar a estes dois quartéis, iluminados à noite, eu entretanto podia percorrer cerca de quatro quintos do regulado com 25-30 homens, quanto muito ouvia tiros longínquos, em poucos meses tive o entendimento que guerrilheiros e civis do PAIGC cambavam (atravessavam) o rio Geba em duas direções, para se abastecerem, possivelmente colher informações, aproveitavam sobretudo a noite para transferir gente de um acampamento para o outro, na margem esquerda do Geba, acima do Xime, o PAIGC estava fortemente implantado, tinha um domínio que direi quase total no curso principal do rio Corubal, até à região do Xitole.

Chegou o novo batalhão, senti-me à vontade para apresentar com mais tempo e critério as exigências de apoio médico, professor, de material de engenharia, de minas e armadilhas, um morteiro 81, uma viatura, um barco a motor que me salvaguardasse o abastecimento na época das chuvas, estava informado do alagamento seja da bolanha de Finete seja de um percurso de cerca de 6Km a partir de Canturé até à região de Sansão, já perto de Missirá, o percurso ficava praticamente intransitável. Fui pedinchando, ganhei uma manhã para levar os doentes à consulta médica, apareceu dinheiro para pagar a um professor, pedi dois, não podia ter só um professor em Missirá e não ter em Finete, lá apareceu dinheiro para o segundo professor; um de cada vez, os cozinheiros de Missirá foram estagiar na messe de Bambadinca, o resultado foi positivo, o rancho melhorou, mesmo sendo monótono: arroz, esparguete, carne enlatada, uma completa ausência de frutas e legumes, embora pudéssemos comer fruta enlatada, o resto podiam ser as compras locais, gazela, porco do mato, papaias, galinhas e ovos.

Muitas vezes aproveitava as boleias dos barcos que navegavam em direção a Bambadinca para ir fazer as minhas reivindicações ou abastecimentos. Em outubro, o novo oficial de operações adverte-me que me devo apresentar no dia tal às tantas horas pois irei participar numa operação. E nesse dia tal vou encontrar-me com outros oficiais, entramos numa sala de operações e vamos saber para onde vamos e o que se pretende. A intenção é chegarmos a uma base do PAIGC que terá dois pequenos acampamentos, Baio e Burontoni, a uma distância do Xime, eles também distantes de uma zona chave do PAIGC chamada Poidom, nessa altura as forças portuguesas já tinham abandonado um destacamento chamado Ponta do Inglês, ou seja, o regulado do Xime era mais outra terra de ninguém, mas aqui o dispositivo da guerrilha era incontestavelmente superior àquele com que eu me confrontava. Pouco há a dizer desta operação, andámos praticamente um dia inteiro às voltas dentro de matas, houve que fazer um alto noturno com todos os ruídos que a mata oferece, incluindo a surpresa seja da passagem de um porco do mato ou as ferroadas das formigas. Lembro-me perfeitamente que o regresso que fizemos do Xime para Bambadinca pensei seriamente que havia muita displicência na preparação destas operações, com resultados moralmente devastadores e desmobilizadores.


(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 4 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27987: Notas de leitura (1919): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (6) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P27977: Efemérides (389): O 15.º Encontro do Núcleo de Mar dos Ex-Combatentes do Ultramar reuniu camaradas em S. Bartolomeu do Mar, Concelho de Esposende, no passado dia 26 de Abril (Fernando Cepa, ex-Fur Mil Art)

Fernando Cepa, (ex-Fur Mil Art da CART 1689 / BART 1913, Catió, Cabedú, Gandembel e Canquelifá, 1967/69) cidadão do Concelho de Esposende, é uma pessoa activa, ligado aos assuntos que interessam aos Antigos Combatentes e à Cultura e Desporto na sua freguesia de S. Bartolomeu do Mar


15.º Encontro do Núcleo de Mar dos Ex-Combatentes do Ultramar reuniu camaradas em S. Bartolomeu do Mar

Realizou-se no passado dia 26 de abril, na freguesia de S. Bartolomeu do Mar, o 15.º Encontro do Núcleo de Mar dos Ex-Combatentes do Ultramar, uma iniciativa já marcante no concelho de Esposende e que voltou a reunir antigos combatentes, familiares, amigos e diversas entidades locais, num ambiente de grande confraternização, memória e homenagem.

O programa, diversificado e cuidadosamente preparado, proporcionou vários momentos de convívio entre os participantes, fortalecendo os laços de amizade e companheirismo que permanecem vivos ao longo dos anos. Para além do espírito de união, este encontro ficou igualmente assinalado pela recordação emocionada de todos aqueles que já partiram, homenageando os antigos camaradas que deixaram a sua marca na história e na memória coletiva, tendo sido efetuada a habitual romagem ao cemitério, onde foi prestada a homenagem de todos os que já faleceram, tendo sido depositada uma coroa de flores num ato de valor simbólico e de saudade, bem como uma missa presidida pelo senhor padre Armindo Patrão.

A cerimónia contou com a presença de várias entidades oficiais, nomeadamente do Presidente da Câmara Municipal de Esposende, Dr. Carlos Silva, do Presidente da Assembleia Municipal de Esposende, senhor Alberto Figueiredo, da Vereadora da Cultura, Dr.ª Paula Cepa, do Presidente da Junta de Freguesia de Mar, Eng.º Carlos Lima, e do Presidente do Centro Social da Juventude de Mar, Estevão Abreu.

Durante a iniciativa, foi ainda destacada a dificuldade que este núcleo enfrenta para poder dispor de uma sede própria. Nesse sentido, o Presidente da Junta de Freguesia de Mar, Eng.º Carlos Lima, manifestou total disponibilidade para ceder o edifício da Junta de Freguesia, permitindo que o núcleo ali possa reunir sempre que necessário.

Foi igualmente transmitida pelo Senhor Presidente da Câmara Municipal de Esposende, a informação de que o Município está fortemente empenhado para que, num futuro próximo, o Núcleo de Mar dos Ex-Combatentes do Ultramar possa finalmente dispor de uma sede condigna, num gesto de justiça, reconhecimento e gratidão que a sociedade portuguesa deve a todos aqueles que, durante muitos anos, lutaram em nome da Pátria.

A presença destas individualidades veio enaltecer a importância deste encontro, que representa não só um momento de reencontro entre antigos combatentes, mas também uma justa homenagem a todos quantos serviram o país em tempos exigentes.

Mais uma vez, o Encontro dos Ex-Combatentes do Ultramar afirmou-se como uma jornada de partilha, respeito e preservação da memória, reforçando valores de amizade, solidariedade e reconhecimento.

Deposição de uma coroa de flores no monumento aos Ex-Combatentes
Ex- Combatentes e familiares junto ao monumento
Homenagem aos Ex-Combatentes falecidos em combate
Homenagem aos Ex-Combatentes falecidos em combate
Presidente da Câmara Dr. Carlos Silva no uso da palavra
Almoço-convívio
Presidente do Núcleo de Mar no uso da palavra
Bolo de aniversário
Cantando os Parabéns
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Nota do editor

Último post da série de30 de Abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27972: Efemérides (388): Memórias de Abril (1970/71/72) (José Câmara, ex-Fur Mil Inf)

terça-feira, 31 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27875: Tabanca Grande (580): Joaquim Gregório, ex-sold at art, apontador de morteiro 60, 4º Pel / CART 2715 / BART 2917 (Xime, 1970/72), sobrevivente da emboscada de 26/11/1970 (Op Abencerragem Candente): vive em Onzain, França; senta-se à sombra do nosso poilão, sob o lugar nº 914




Joaquim Rocha Gregório,  sold at art, nº 17150669 
(segundo a HU, BART 2917, Bambadinca, 1970/72)

Nascido em 10/2/1948, foi soldado apontador do morteiro 60, 4º Pel /CART 2715 / BART 2917, "Os Fantasmas do Xime" (Xime, 1970/72)...  Vive em Onzain, no Vale do Loire (capital: Orléans). Passa integrar a Tabanca Grande, desde hoje. Senta-se à sombra do nosso poilão, sob o nº 914


Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)


1. O Joaquim Rocha Gregório  vive em Onzain, Centre-Val deLoire, France. Tem página no Facebook, e apenas duas ou três fotos da Guiné. Pertenceu à CART 2715 / BART 2917 (Xime, 1970/72).

A CART 2715 / BART 2917 (Xime, 1970/72), e a CCAÇ 12, ambas a 3 Gr Comb  participaram  na Op Abencerragem Candente, no subsetor do Xime, em 25 e 26 de novembro de 1970, a par da CART 2714(Mansambo), formando 3 destacamentos.

Uma operação de trágica memória, que se saldou por um dos maiores desastres das NT, naquele subsetor do sector L1 (Bambadinca), região de Bafatá, em toda a guerra: 6 mortes, 9 feridos graves, com sequelas tremendas no "moral" do pessoal da CART 2715 ("Os Fantasmas do Xime") que, dentro de mês e meio, iria perder o seu comandante, evacuado para o HM 241, com baixa psiquiátrica, o cap art Vitor Manuel Amaro dos Santos (1944-2014) (membro da Tabanca Grande, nº 781, a título póstumo, entrado em 26/11/2018, 48 anos depois da  Op Abencerragem Candente, sobre a qual temos cerca de 3 dezenas de referências no nosso blogue).

 Ficámos a saber que o nosso camarada Rocha também foi fazia parte da força que foi embosacada em 26/4/1970 (Os Destacamentis  A e B) e, mais concretamente, fazia parte do 4º Pelotão / CART 23715, o do fur mil mec Cunha.

2. Em novembro de 2022,  recebemos várias mensagens, pelo formulário de contacto do Blogger, da parte do Joaquim  Gregório:

sexta, 4/11/2022, 22:58

A todo os ex-combatentes da Guiné, uma boa noite.

Eu sou um ex-combatente, fiz a minha comissão no Xime, CART 2715 (1970/72).



domingo, 27/11/2022, 21:14

Obrigado pelo teu poema verdadeiro, passado perto da Ponta do Inglês. Eu fazia parte do 4º pelotão, o mesmo do malogrado furriel Cunha. Que descanse em paz.


domingo, 27/11/2022, 21:18

Eu pertencia ao pelotão do furriel Cunha. E ia nessa operação.

domingo, 27/11/2022, 21:44

Caro amigo,   gostava imenso de ser membro da Tabanca Grande. Eu estive no Xime de 70 a 72. E assisti à operação  da Ponta do Inglês.  Um grande abraço.

 3. Em 4/12/2022, 12:31, o nosso coeditor Carlos Vinhal mandou-lhe, em resposta, a seguinte mensagem:

Caro Joaquim Gregório:

Para te juntares à nossa tertúlia, manda-nos uma foto tua actual e outra do nosso tempo de Guiné, fardado, que permitam fazer fotos tipo passe para os nossos arquivos.

Queremos saber o teu posto, especialidade, Companhia e Batalhão (se for o caso), datas de ida e volta da Guiné, localidades por onde andaste, etc.

Podes, caso queiras, mandar-nos uma pequena história que te tenha marcado particularmente, com fotos legendadas, ou texto onde fales de ti para te conhecermos melhor. Caso queiras ver anunciado o teu aniversário, manda a tua data de nascimento para publicarmos o postalinho natalício.

Aqui podes inteirar-te dos objectivos do nosso blogue.

Ficamos na expectativa das tuas novas notícias. Em nome da tertúlia e dos editores em particular, deixo-te um abraço e votos de boa saúde.

O camarada e amigo, Carlos Vinhal


4. Já este ano voltou a contactar-nos e não podemos ficar indiferente à sua insistência em pedir-nos "hospedagem" na Tabanca Grande. 

terça, 24/02/2026, 22:24

Eu sou o ex soldado Gregório,  fiz parte do BART 2917,  estive no Xime e no Enxalé. Gostava de saber-se se temos direito a 100 porcento na assistência méedica. (...)  



terça, 24/03/2026, 22:56

Eu pertencia ao 4º pelotão,  ia na operação Abencerragem Candente, escapei por milagre, pertencia à secção do morteiro e várias balas furaram-me o cantil. Um abraço para todos os colegas do Batalhão 2917


terça, 24/03/2026, 23:11

Eu sou o ex-soldado Gregório, era do quarto pelotão, estava na emboscada da
Abencerrarragem Candente. Escapei por pouco, várias balas furaram me o cantil, Fiquuei para contar. Era apotador do morteiro 60. Um abraço para todos os colegas da companhia 2715 e tambem da  CCAÇ 12 e para todo o BART 2917,  são os votos sinceros do soldado Gregório



5. O Joaquim Rocha Gregório não chegou a mandar as fotos da praxe, que o Carlos Vinhal lhe pediu, mas nós acabámos por arranjá-las na sua página do Facebook (*). Por isso, ele  passa a integrar, de pleno direito, a nossa Tabanca Grande a partir de hoje (**). É mais um camarada da diáspora lusófona.

Dele sabemos mais o seguinte:
  • tem  página do Facebook (Joaquim Gregório Rocha) (desde 17/4/2016); 
  • tem endereço de email;
  • temos 3 amigos em comum no Facebook (três camaradas da Guiné: Benjamim Durães, Jorge Silva e Vicente Pinto;
  • nasceu em 10 de fevereiro de 1948 (mas não sabemos a terra da naturalidade);
  • vive em Onzain, França (Onzain foi uma comuna francesa na região administrativa do Centre, Val de Loire, departamento Loir-et-Cher; estendia-se por uma área de 29,9 km²; em 2010 a comuna tinha 3584 habitantes (densidade: 119,9 hab./km²); em 1 de janeiro de 2017, passou a formar parte da comuna de Veuzain-sur-Loire;
  • gosta de jogar às damas e de dançar;
  • deve estar reformado, vem a Portugal de vez em quando.
Espero, Joaquim, que  ajudes a abrir a porta da Tabanca Grande a mais camaradas da CART 2715. És o único representante de "Os Fantasmas do Xime", para além do teu 1º capitão, já falecido, com o posto cor art ref, o Vitor Manuel Amaro dos Santos (1944-2014).

Sentas-te à sombra do nosso poilão sob o nº 914. Esclarece-me os seguintes pontos: 

(i) és natural de Pernes, Santarém, é isso ?!; 

(ii) em França és tratado como Joaquim-Gregório Rocha (Rochá), é  isso ?!|; 

(iii) aqui serás o Joaquim Gregório (como eras conhecido no teu/nosso Xime de boas e más memórias).

Quanto ao pedido de informação que nos fazes, sobre teres ou não direito, a 100% dos medicamentos, precisamos de saber onde tens a morada atual oficial, em França ou em Portugal, e em que sistema és pensionista. Vê aqui no Balcão Único da Defesa:

Os antigos combatentes pensionistas passam a ter direito, a partir de 1 de janeiro de 2026,  a um apoio de 100% da parte não comparticipada dos medicamentos pelo SNS (Serviço Nacional de Saúde). Quando falamos de pensionistas, em Portugal, falamos da Caixa Geral de Aposentações ou da Segurança Social. Que não dever ser o teu caso, uma vez que fizeste todos os teus descontos, em França, para a Securité Sociale.