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segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28346: Notas de leitura (1960): "O Imenso, Sereno e Doce Rio", de Rui de Azevedo Teixeira; Guerra e Paz Editores, 2023 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 13 de Maio de 2026:

Queridos amigos,
A literatura da guerra colonial tem uma dívida impagável com o labor de Rui de Azevedo Teixeira, ele organizou congressos internacionais sobre a guerra colonial e a sua literatura, publicou livros como A Guerra Colonial e o Romance Português, é autor de uma biografia de Jaime Neves, oficial dos Comandos que teve um papel preponderante no 25 de novembro de 1975 e como romancista escreveu uma trilogia, aqui se apresenta uma síntese da sua última obra intitulada o Imenso, Sereno e Doce Rio, apresenta-se como o termo de um itinerário que começou na guerra de Angola, Angola a que ele voltará no segundo romance, está agora na meia idade e vai viver uma vibrante paixão com uma militante do PCP, viverão entre os jardins do Éden e os do Inferno, ambos sentiam no outro o fascínio pelo melhor inimigo. O escritor questiona se não se viveu neste romance o triângulo dramático de Circe, Ulisses e Penélope.

Um abraço do
Mário



Oficial dos Comandos em Angola, professor universitário, e agora uma violenta paixão

Mário Beja Santos

A literatura da guerra colonial tem uma dívida impagável com o Rui de Azevedo Teixeira, na foto à direita. Este Doutor em Literatura Portuguesa Contemporânea organizou os dois primeiros congressos internacionais sobre a Guerra de África, bem como os respetivos livros; deve-se-lhe um indispensável estudo sobre a guerra colonial e o romance português, escreveu sobre a guerra em Angola e, mais recentemente, no estatuto de romancista, publicou O Elogio da Dureza, O Longo Braço do Passado e em 2023 O Imenso, Sereno e Doce Rio, Guerra e Paz Editores.

Vamos acreditar que se trata de uma trilogia, em O Elogio da Dureza temos uma mocidade com muitas leituras, uma vida familiar cruenta, sentiu-se impelido pelo fascínio da força, iremos ler o que era a preparação de um Comando, tudo entremeado com passagens daquilo que o autor chama Diário Incerto; fará a guerra em Angola que será um palco revisitado no seu romance O Longo Braço do Passado (não esquecer que o autor foi professor em Angola nos tempos dramáticos da guerra civil). Acabada a guerra lançou-se nos estudos universitários e após a licenciatura ensinou na ilha da Madeira, aqui conhece Iza, haverá casamento “sublime, sólido, sagrado”. E afastamento relacional com os seus pais. No segundo romance, portanto, em Angola, haverá uma paixão que terá triste fim porque Iza é o pilar da vida de Paulo de Trava Lobo.


Estamos agora no terceiro romance, já morreram os pais de Paulo, ele e Iza caminham para a meia-idade, vivem no Porto, ele gosta de estadear umas temporadas na Toca do Lobo, lugar onde passou a sua infância e juventude, continua a dedicar bastante atenção ao seu Diário Incerto, sente-se envelhecer muito devagar, o casal passa férias em antigas colónias e depois recebe convite para vir lecionar em Lisboa. Aqui volta a encontrar Ana Roriz, sua colega e militante comunista no tempo em que ele fora assistente universitário no Porto. Paulo instalou-se perto do Campo Pequeno, a mulher ajudou-o a retocar o ambiente, só que Iza foi convidada a dar aulas em Zurique. Está criada a atmosfera para uma segunda infidelidade, a inevitável tentação e a dita Ana Roriz. Vai agora tecer-se uma tapeçaria em torno de uma relação que se poderia tornar à partida improvável entre uma mulher filiada do PCP e um académico de boa cepa conservadora.

Começam por almoçar juntos, depois passeiam do Saldanha ao Rossio, depois descobrem o Alentejo juntos, vão até Marvão. Muita conversa com muitas tiradas literárias. Iza aparece nos sonhos de Paulo. No seu Diário Incerto, ele apresenta Ana Maria de Jesus Almeida Roriz:
“Licenciada em Clássicas, professora do ensino secundário, requisitada pela universidade para assessorar a vice-reitora. Depois do primeiro divórcio, a senhora dra. Ana Roriz desligou-se um tanto da militância. Regressou em força anos mais tarde. Tão em força que chegou a ser controleira. Os seus dois ex-maridos eram militantes comunistas e o homem com quem vive, um tal João Gomes, também da militância.”

Paulo desabafa, tem uma longa história relacional com os comunistas, como estudante em Coimbra, diz ter apanhado o comunismo nas matas de Angola, apanhou o comunismo no PREC e, sob o comando de Jaime Mendes, tiraram a tosse aos comunas, voltou a apanhar com o comunismo em Angola, considerava-se definitivamente vacinado, não podia deixar de apreciar o idealismo ingénuo de Ana Roriz. Há, contudo, ambivalências e paradoxos comportamentais em Paulo: “O comunismo era um inimigo pelo qual, sem deixar de sentir um ódio consistente, Paulo sentia também curiosidade e, em relação a alguns comunistas mais velhos, respeito e até admiração.” Paulo e Ana personificavam o defeito perfeito.


Em determinados momentos, Paulo via Ana como um robô, engessada na criminosa ideologia marxista-leninista. Têm arrufos momentâneos, há roturas curtas, logo a seguir vibra a paixão, há toques permanentes no telemóvel, separam-se e reconciliam-se. Paulo recorda o seu caso com Diana Sotirova, assunto tratado no segundo romance desta trilogia. Quando a paixão vibra mais forte, evitam-se as discussões políticas. Paula entende que deve dar um quadro da sua formação, ele que foi alferes dos Comandos, “nessa guerra em que uma esmagadora maioria de homens bons lutou por uma ideia, mais do que errada, romântica, fora do tempo”, recorda que o professor da escola primária metia na cabeça dos miúdos a fervente ideia do Império, e fala concretamente de si: “O alferes, o rapaz de vinte anos que, comandando outros rapazes, tinha de se desenrascar mandando matar e matando ele próprio. Um posto bem pior do que o do soldado.” Ana ouve todas estas declarações e já fala em casamento simbólico.

Procuram ter uma habitação para viverem juntos, a solução encontrada foi dececionante, uma autêntica alfurja em Cascais. Paulo viaja até Zurique, regressa e temos novamente os arroubos da paixão. Os meses passam, Paulo já vai dormir a casa de Ana, o tal Gomes vai ficando arredado, um dia será mesmo mandado embora. Temos cenas de ciúmes, aparecem cartas anónimas. Paulo é convidado pela Universidade de Colónia para dar um cursinho sobre temas literários, antes de ele partir viveram a desesperada paixão física, Iza aparece vinda de Zurique, no regresso a Lisboa, Paulo desanca no Diário Incerto a ideologia comunista, não obstante retoma-se o idílio, vivem juntos, aquilo que Paulo chama uma conjugalidade adúltera, há um ciclo de conferências na universidade, Ana tem funções de secretariado, Iza aparece inesperadamente.

O ambiente na universidade não é favorável aos dois, Paulo parte para a Universidade Eduardo Mondlane, Maputo, já se sente em rotura final com Ana. Paulo organiza com Iza quinze dias de férias na África do Sul, o comboio é assaltado por elementos da RENAMO, consegue escapar são e salvo. Em Lisboa, Paulo vê Ana à distância, encontra-se com outros elementos dos Comandos, temos aqui um outro quadro ideológico, falando da situação mesquinha e sem grandeza nenhuma em que vive o país, eles consideram-se os leopardos, os leões, a seguir a eles vieram os chacais, as hienas, tipos que tiraram licenciaturas trafulhadas e pedófilos e condecorações para ladrões. E depois destas jaculatórias de exaltação nacionalista vão pelos bares, como o Procópio e o Hipopótamo.

Paulo acusa os sinais de envelhecimento, passou a viver sob a ditadura das análises clínicas, amolecia com a idade, passou a estar muito mais atento ao sofrimento dos velhos e dos pobres. Iza e Paulo voltam para o Porto, aparece Ana desvairada a querer apunhalar Paulo, o casal Iza e Paulo sai reforçado desta horrível contenda, é um casal que constitui a unidade de contrários, dois rios de vida que, após se terem colado na paixão formaram um imenso rio único. E aqui finda a terceira e porventura última obra deste ciclo romanesco, Paulo de Trava Lobo e Iza Maria Possolo d’Ornellas de Trava Lobo parecem ter pela frente uma velhice pacata, sem sombra de novas infidelidades.

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Nota do editor

Último post da série de 11 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28341: Notas de leitura (1959): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (5) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28329: Notas de leitura (1958): “Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida”, por Catarina Gomes; Matéria Prima Edições, 2014 (3) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 12 de Maio de 2026:

Queridos amigos,
Creio de ser muito de salutar esta emergência de novas dimensões da literatura da guerra colonial, temos um acervo de décadas com romances, novelas, contos, poesia (incluindo a popular), as obras memorialísticas, a historiografia; gradualmente, foram aparecendo narrativas sobre as mulheres que acompanharam os seus maridos nas comissões militares, as enfermeiras paraquedistas, os retornos de ex-combatentes aos locais onde tinham vivido; mais recentemente, entram em cena os filhos desses ex-combatentes e episódios colaterais, como Catarina Gomes nos conta neste seu magnífico trabalho de investigação em que há filhos que vêm depor sobre o stress pós-traumático dos pais, histórias mirabolantes de correspondência com muitas madrinhas de guerra, até chegarmos à tocante adoção de Pedro Luqueia de Santarém, uma criança encontrada numa operação no norte de Angola, em outubro de 1962 e que foi adotada por um Esquadrão de Cavalaria. É uma nova forma de rever o passado em que os atores são os filhos que se debruçam com o que há de fascinante sobre tais comissões militares que tiveram a virtualidade de mexer com a vida das famílias, para todo o sempre.

Um abraço do
Mário



Pode um filho ter memórias de uma guerra que nunca viveu? - 3

Mário Beja Santos

Multiplicam-se os casos em que a literatura da Guerra Colonial revela uma nova dimensão: são os filhos a visitar os locais onde os pais combateram, os filhos de uma relação entre ex-combatentes e mulheres de Angola, Guiné e Moçambique à procura dos pais e de uma identidade; memórias e testemunhos de mulheres e filhos, e sobretudo estes que querem entender o que o pai viveu na guerra, fazem perguntas depois de ler as cartas que eles trocaram com as suas mulheres ou namoradas, isto sem já falar em recordações de infância marcadas pela violência da guerra. Catarina Gomes é hoje um nome firmado neste tipo de investigações, o que vem conferir uma abordagem diferente àquela literatura em que a memória ou a ficção do ex-combatente estava no primeiro plano.

O livro de que estamos a falar intitula-se Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida, Matéria-Prima Edições, 2014. Em textos anteriores já foram expostas situações do stress de guerra e violência familiar, doença que dá pelo nome de Perturbação Pós-Stress Traumático de Guerra, de um militar que dedicava o seu tempo livre a escrever às madrinhas de Guerra, de uma menina nascida na Guiné cujo pai, à viva força a trouxe para Portugal e foi educada pela avó, falou-se de heróis de militares que refizeram a sua vida em ambiente colonial, de um aviador desaparecido em combate em Moçambique que levou uma viúva ao desespero, sempre na esperança de reencontrar o seu marido.

Hoje mudamos de azimute. Tiago Teixeira, nascido em 1978, é médico voluntário no hospital de Cumura, tenta salvar doentes com tuberculose e VIH/Sida. “Tiago andou por esse país na infância, numa sala de estar no Porto, aos sábados de manhã, sentado ao colo do pai, a olhar aquelas fotos a preto e branco que vinham acompanhadas de nomes de sítios estranhos, como Empada, Mampatá, Bolama.” O filho pensa que o pai nunca lhe escondeu nada, que lhe contava tudo, ele acha que era mais por ele do que pelo filho. Em adolescente, começou a atender telefonemas dos colegas do pai, iam estar presentes com a família nos convívios dos ex-combatentes. Em 2005, o pai e dois colegas seguiram num jipe para a Guiné, anos depois, com um grupo de ex-combatentes criou uma Organização Não Governamental para o Desenvolvimento, a Tabanca Pequena Grupo de Amigos da Guiné-Bissau.

Apareceram melhoramentos na vida dos guineenses, poços de água, canoas a motor. Tiago conta que aquele álbum da infância foi também ganhando vida na mão de pessoas que o pai visitava nas suas idas à Guiné. Uma noite Tiago escreveu, depois de regressar do hospital de Cumura: “Acho que é um regresso em nome do meu pai, da sua fidelidade a esta terra e a esta gente, que o marcaram para a vida, que me marcaram para a vida… É como se um fio me unisse à história do meu pai com este povo há muitas décadas, e eu viesse para aqui para continuar essa história.” O pai de Tiago Teixeira é o nosso confrade José Teixeira.

João Fernandes Saido Jaló lembra o seu pai, o Capitão João Bakar Jaló, um herói militar guineense que combateu do lado português, condecorado com a Torre e Espada. João tem plena consciência das mudanças que ocorreram com a morte do pai, tinha ele oito anos, morto o herói, cresceram as dificuldades, conheceu os calções rotos, andou com os pés descalços, passou a ir buscar lenha ao mato. Com o fim da colónia, seguiram-se os ajustes de contas, os fuzilamentos, o tio, por ser irmão do pai, foi torturado. Em 1976, ele e a família foram expulsos da casa em Catió, as medalhas e as fotos do pai foram confiscadas. João pediu a um professor que lhe redigisse uma carta em português, a pedir para ir para Portugal estudar, entregou-a na Embaixada de Portugal em Bissau, seguiram-se as tentativas de correspondência para Portugal, em 2002 João aterrou em Lisboa a primeira vez; em 2009 foi-lhe concedida a nacionalidade portuguesa. Estuda, acabou o décimo segundo ano, é vigilante na zona de Torres Novas, sonha licenciar-se em Direito.

Trinta e três anos depois de ter voltado da guerra colonial em Moçambique, 29 anos depois de Joana ter nascido, ela e a irmã receberam do pai, como prenda de Natal, um volume cuidadosamente encadernado, mas que devia ser de fabrico caseiro, tinha como título Cacimbo. Sabia que o pai tinha estado na guerra, tinha pisado uma mina, ficou a saber como tudo se tinha passado. O volume tem sublinhados da Joana, há desabafos do pai, tais como: “estarei condenado a ser um limitado descrente onde não cabe a transcendência divina.” E “o mundo não tem poesia nenhuma. Estética nenhuma. O mundo é um acumulado de ocorrências avulso.” Há lembranças da enfermeira-paraquedista que o socorreu depois da explosão da mina; mas para Joana o livro e o blog onde o pai colabora ajudam-na a descodificar o que o pai é por causa da guerra.

“Apesar de uma experiência tão longínqua, num continente onde Joana nunca esteve, há pontes que consegue fazer com ele, como quando o pai se transporta no livro, do chão do pó da picada, onde pisou a mina, para o chão de pó do Largo do Sobreirinho, onde jogava futebol na infância, na aldeia de Aguim. É nesse sítio onde a infância do pai se cruza com a sua que foi implantado um memorial, ‘um paralelepípedo em homenagem aos da aldeia que combateram na guerra colonial’, erigido por iniciativa dos próprios. Para não ferir suscetibilidades, o pai contribuiu. Joana sabe que para o pai não faz sentido que sejam as próprias pessoas a ergueram estátuas às suas memórias. Na escola, Joana não se lembra de ter aprendido sobre a guerra colonial; o que sabe é o que lhe vem do pai e é tudo quanto quer saber sobre o tema.”

Era inevitável, Miguel fala da sua mãe a então furriel enfermeira paraquedista Maria Emília Carvalhinho, seu nome de casada. Os pais do Miguel conheceram-se na base de Tancos. O álbum da mãe fala por milhentas palavras, está ali a referência explícita àquela geração de mulheres que teve a experiência única da emancipação. “Olho para a minha mãe como uma pessoa corajosa, que trocou um percurso previsível por um percurso novo, de algum modo assustador. O facto de ter tido esta mãe abriu-me a mente. Há muita coisa na sociedade atual em que não avançámos. As mulheres sacrificam carreiras para ter família, as mulheres grávidas são discriminadas e podem perder o emprego.” Para Miguel aquela história da mãe pioneira como enfermeira paraquedista ensinou-lhe que as mulheres podem fazer o que bem entenderem com as suas vidas.

Temos por último a história de Pedro Luqueia de Santarém. Tudo começou com a Operação Golpe Baixo, a 16 de outubro de 1962, na povoação de Bembe, no norte de Angola, esteve envolvido o Esquadrão de Cavalaria 122. No regresso, vem uma criança a quem se pôs o nome de Pedro Luqueia de Santarém, porque era o que tinham em comum os homens que o adotaram. Passou a ter identidade e foi batizado. Foi encontrado na operação todo nu, teria cerca de 4 anos. Tornou-se na mascote da companhia, aprendeu a falar português, passou a fazer parte da vida dos militares, veio com eles para Portugal, foi acolhido pela mãe do alferes Sá, numa vilinha no norte de Portugal.

Pedro ingressou como interno nos Pupilos do Exército, entrou depois no Instituto Superior Técnico, onde se formou em Engenharia Eletrotécnica. “Há uns anos Pedro foi a um almoço-convívio do Esquadrão de Cavalaria 122, com a sua mulher e os dois filhos, e esteve tempos infinitos só a cumprimentar familiares de militares.” Mas a história não fica só por aqui. “Pedro tem de Angola, de África, o nome do local de nascimento que lhe vem escrito no bilhete de identidade, o nome do rio angolano que é o seu apelido do meio e a cor preta que é só a da pele, o que ele diz que em Portugal foi ficando branco. Gostava muito de ter a nacionalidade angolana, mas é preciso provar que nasceu lá. Já foi à Embaixada, mas teria de ir ao registo em Angola. Acha que nunca vai conhecer ninguém da família que o ajude a interpretar o que a sua memória entendeu reter, mas continua a colher indícios que o ajudem a perceber quem é, a preencher os vazios de um filme de que só conhece pedaços. Tenta não pensar no que podia ter sido a sua vida.” E conclui com um pensamento positivo: “Estás aqui, não vale a pena. És feliz, apesar de tudo, não há outra hipótese de ser feliz.”

Assim se põe termo a este belíssimo trabalho de investigação de Catarina Gomes.
Catarina Gomes, imagem do Público, com a devida vénia
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Notas do editor

Vd. post anterior de 31 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28309: Notas de leitura (1956): “Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida”, por Catarina Gomes; Matéria Prima Edições, 2014 (2) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 4 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28320: Notas de leitura (1957): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (4) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28309: Notas de leitura (1956): “Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida”, por Catarina Gomes; Matéria Prima Edições, 2014 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 23 de Abril de 2026:

Queridos amigos,
Temos aqui recordações de filhos, Maria Júlia de Sá da Costa Deitado, filha de um fuzileiro português e de mãe guineense, o pai trouxe a menina à viva força, ela foi educada no Barreiro pela avó, o pai sempre ausente, conheceu a mãe tardiamente, mas o seu afeto profundo é pela sua avó-mãe; em casa do André Fernandes há uma cabeça de veado embalsamada que o remete para a vida feliz da sua família em Luanda, os pais casaram em julho de 1975, fugiram para Portugal, onde André nasceu em 1980, o pai combateu em Angola de 1965 a 1968, mas Angola ficou como um cenário de vida, não como um cenário de guerra; Mariama Sambú é filha de dois combatentes do PAIGC, nasceu em 1973 no mato, o pai foi piloto-aviador guineense, distinto, morreu num acidente aéreo, Mariama vive em Massamá com três filhos, quando entra em casa dá sempre com a fotografia do pai; Pedro Ventura é filho de outro piloto que desapareceu em Moçambique, terá sido atingido e caiu no Rovuma, conta-se a história das múltiplas diligências da mãe que acreditava que o marido tinha sobrevivido, Pedro tinha dois anos quando o pai desapareceu. Foi a partir do momento em que foi pai que um pai mais lhe fez falta. Este livro de Catarina Gomes é mesmo uma porta de entrada para dimensões da guerra colonial que permanecem nos corações dos filhos de ex-combatentes.

Um abraço do
Mário



Pode um filho ter memórias de uma guerra que nunca viveu? - 2

Mário Beja Santos

Multiplicam-se os casos em que a literatura da Guerra Colonial revela uma nova dimensão: são os filhos a visitar os locais onde os pais combateram, os filhos de uma relação entre ex-combatentes e mulheres de Angola, Guiné e Moçambique à procura dos pais e de uma identidade; memórias e testemunhos de mulheres e filhos, e sobretudo estes que querem entender o que o pai viveu na guerra, fazem perguntas depois de ler as cartas que eles trocaram com as suas mulheres ou namoradas, isto sem já falar em recordações de infância marcadas pela violência da guerra. Catarina Gomes é hoje um nome firmado neste tipo de investigações, o que vem conferir uma abordagem diferente àquela literatura em que a memória ou a ficção do ex-combatente estava no primeiro plano.

O livro de que estamos a falar intitula-se Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida, Matéria-Prima Edições, 2014. Já aqui fizemos referência a um prisioneiro de guerra, a um fuzileiro a padecer da Síndrome da Perturbação Pós-Stress Traumático de Guerra, da curiosidade de uma criança que foi remexer numa mala do pai, dos tempos da sua comissão em África e encontrou uma imensidão de correspondência com madrinhas de guerra, uma delas, de nome Mimi, era a sua mãe.

Por portas e travessas iremos de novo até ao fuzileiro que tinha manifestações violentas com a família, ele era pai de Maria Júlia de Sá da Costa Deitado, nascida em 29 de março de 1965. A menina foi educada no Barreiro, fazia perguntas sobre a mãe, o pai respondia que era bonita, simpática e jovem e um nome que soava a português, Maria Augusta de Sá. Maria Júlia guardou esta mágoa do pai que lhe omitia o outro lado da sua ascendência, sentia-se incompleta, mesmo tendo uma vida confortável com a sua avó paterna a fazer as vezes de uma mãe. O pai voltou a casar, teve mais três filhos, mas a Júlia nunca viveu com ele, permaneceu sempre com a avó. Até que um dia, tinha ela dezassete anos, apareceu lá em casa um primo da mãe, ofereceu-se para estabelecer as pontes de ligação.

E um dia Júlia viajou para a Guiné, houve um desacerto para o encontro, Júlia não esmoreceu, passou dois anos a planear uma nova oportunidade, e deu-se a felicidade de se abraçarem, emocionadas, a mãe falando crioulo, a filha falando com o coração; “soube-lhe bem saber pela mãe que não nasceu do acaso, que o pai era bem aceite e acarinhado pela família da mãe, que a mãe tinha gostado muito do pai, soube que o pai chegou a propor à família da mãe de Júlia trazê-la a ela e à bebé para Portugal, os pais recusaram, ela fora roubada, o pai entregara-a à sua mãe, a avó quis que o pai a trouxesse para Portugal.” E houve desaparecimentos, morreu o tal primo num desastre aéreo e pouco depois a mãe. A morte da mãe acendeu em Júlia a vontade de ser mãe. Nunca aconteceu.

Temos agora outra história intitulada Cabeça de Veado, porque tudo começa com uma cabeça de veado embalsamada na parede da cozinha. André sabia que o pai conhecera aquele veado vivo. O pai vivera em Angola, levara uma vida feliz, tinha ido para lá com 13 anos, os pais casaram em julho de 1975, em Luanda, no meio do tiroteio da guerra civil. André nasceu em 1980, o pai teve uma perda crescente de audição, já reformado decidiu criar o núcleo de Sintra da Associação Portuguesa de Deficientes das Forças Armadas. Resta esclarecer que o pai teve dois anos de comissão, de 1965 a 1968, mas para André, Angola é o cenário de vida, não é cenário de guerra. Sem nunca lá ter estado, com aquelas recordações da cabeça de veado e de uma pele de onça que chegou a haver no corredor, ele um dia quer voltar a essa Angola onde o pai fora manifestamente feliz.

Nova história, envolve Mariama Sambú, a filha de um herói. Falamos de um herói do PAIGC, os pais foram combatentes, Mariama era transportada às costas enquanto bebé, tinha poucos meses quando, um lugar remoto de Boé, foi declarada unilateralmente a independência da Guiné-Bissau. O pai recebeu uma bolsa para estudar na ex-União Soviética, voltou à Guiné quando Mariama tinha 9 anos, ela foi viver com o pai na base aérea. Ela sentia que o pai, Serifo Sambú, era admirado. Viveu com ele dos 13 aos 15 anos. O pai tinha 38 anos quando morreu num acidente de viação. A sua fotografia está pendurada na casa de Mariama em Massamá, concelho de Sintra, ela é guineense e portuguesa, tem três filhos nascidos portugueses. Sente a discriminação, sempre que há discussões, há um dito insidioso “volta para a tua terra” e ela a responder “sou de cá, tenho muita pena”. Ela tem a mesma idade que a Guiné, nasceram as duas no mato, em 1973.

Passamos agora para o dossiê do Capitão Ventura. Desde pequeno que Pedro Ventura tinha acesso a um dossiê preto malhado, nele estava inserido um louvor ao seu pai, era tratado como um valoroso piloto de combate, e foi em combate que desapareceu. Há duas fotografias em que ele está com o pai, tinha dois anos de idade, foram tiradas no ano em que o pai desapareceu, 1973, o pai e a mãe estavam na base aérea de Mueda, Pedro ficou com os avós maternos. A mãe iniciou uma busca, guardava a esperança de que, mesmo tendo sido abatido o avião, o marido não perdera a vida. Naquele mesmo dossiê preto-malhado guarda-se o formoso cortejo de diligências, a mãe disparou em todas as direções. Em dado momento, o Estado português deu o caso como encerrado, houve funeral com honras, mas a mãe mantinha-se obstinada, chegavam-lhe cartas pondo a hipótese de o marido ter sido fuzilado após o 25 de abril. Uma mãe que foi de uma dedicação extrema, Pedro agradece-lhe a capacidade de lhe ter dado equilíbrio emocional, ela e os avós.

Decorreram várias décadas, o dossiê que reabriu para mostrar a Catarina Gomes estava há anos fechado numa arrecadação. Uns bons anos atrás chegaram-lhes as imagens de um casamento para o qual os pais tinham sido convidados, imagens que ele guarda no computador, o pai um mês antes de ele nascer. “Para mim é um momento histórico. É a única imagem que tenho dele em movimento.” São escassos segundos, seis, Pedro sente que é a cópia do pai. “Emociona-se? Não há emoção, porque o pai é uma personagem, é o piloto-aviador Ventura de quem a mãe andou toda a vida à procura. Tem dele a descrição das características de um herói. Nunca lhe ouviu a voz, no filme do casamento ainda não havia som. Foi a partir do momento em que foi pai que um pai mais lhe fez falta.”

Vamos continuar, ainda há mais relatos emocionantes, são histórias que constituem uma porta de entrada para diversas dimensões da história da guerra colonial que permanece na vida de outros. Até hoje.


Catarina Gomes, imagem do Público, com a devida vénia

(continua)
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Notas do editor

Vd. post de24 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28288: Notas de leitura (1954): “Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida”, por Catarina Gomes; Matéria Prima Edições, 2014 (1) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 28 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28303: Notas de leitura (1955): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (3) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28288: Notas de leitura (1954): “Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida”, por Catarina Gomes; Matéria Prima Edições, 2014 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 20 de Abril de 2026:

Queridos amigos,
A literatura da guerra começa a ter uma dívida com Catarina Gomes que tem vindo a abrir portas e a dar mais longitude e latitude a este subgénero literário; é uma vertente do pós-colonial que mergulha num passado diluído, com claros-escuros, porque o essencial da história, até há pouco tempo, era constituído por relatos na primeira pessoa do singular, o tal ex-combatente e o poder da sua memória, e também a historiografia onde os filhos pouco ou nada contaram, até porque o tal poder da memória era de alguém maioritariamente solteiro ou com filhos muito pequenos. Importa reconhecer que é muitíssimo bom ver esses filhos que querem desvendar por onde andaram os pais - enfim, exaltemos este dever de memória que ganha continuidade nas gerações mais novas.

Um abraço do
Mário



Pode um filho ter memórias de uma guerra que nunca viveu? - 1

Mário Beja Santos

Multiplicam-se os casos em que a literatura da Guerra Colonial revela uma nova dimensão: são os filhos a visitar os locais onde os pais combateram, os filhos de uma relação entre ex-combatentes e mulheres de Angola, Guiné e Moçambique à procura dos pais e de uma identidade; memórias e testemunhos de mulheres e filhos, e sobretudo estes que querem entender o que o pai viveu na guerra, fazem perguntas depois de ler as cartas que eles trocaram com as suas mulheres ou namoradas, isto sem já falar em recordações de infância marcadas pela violência da guerra. Catarina Gomes é hoje um nome firmado neste tipo de investigações, o que vem conferir uma abordagem diferente àquela literatura em que a memória ou a ficção do ex-combatente estava no primeiro plano.

“Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida”, por Catarina Gomes, Matéria Prima Edições, 2014, comporta quadros desta nova visão, como a autora se procura explicar na introdução:
“Cada uma das histórias privadas deste livro é uma porta de entrada para diversas dimensões da história da guerra colonial: a realidade dos prisioneiros de guerra, das enfermeiras paraquedistas, dos desaparecidos em combate, das vítimas de stress de guerra, dos africanos que lutaram pelos portugueses, de ex-combatentes que também foram retornados. Sem se conhecerem entre si, algumas das histórias destes pais entrecruzam-se, embora isso não tenha sido procurado: a Operação Mar Verde atravessou a vida de dois pais, um fuzileiro, outro que era prisioneiro e foi libertado; Alexandra Penteado e Júlia de Sá da Costa são irmãs; o pai de Joana Bastos relembra uma enfermeira paraquedista que o socorreu; a mãe de Miguel Sousa foi uma dessas 46 mulheres. Mariama Sambu fica aqui como o símbolo de milhares de histórias que podiam ser contadas do outro lado de um conflito que foi batizado com outros nomes, como Guerra de Libertação Nacional ou Guerra da Independência.”

A narrativa abre com um prisioneiro de guerra. Teresa Capítulo sabia que o seu pai saíra para a guerra antes de ela ter nascido, fora dado como morto. No entanto, chegaram algumas vezes cartas, o pai dizia que estava preso, quando um dia regressar à sua terra, Sesimbra, terá um acolhimento eufórico, foi libertado durante a Operação Mar Verde. Teresa folheia o álbum deste soldado radiotelefonista que teve o cuidado de dizer no interrogatório do PAIGC que era maqueiro. Um pai sempre discreto a falar de acontecimentos violentos, comparece regularmente ao almoço dos prisioneiros de guerra. A memória de Teresa vai ao fundo da sua infância, sempre que ela ou o irmão diziam que não queriam comer ou que não gostavam da comida que tinham à frente, lá vinha a história dos três anos que o pai teve que passar a comer arroz. Ainda hoje em Sesimbra Teresa continua a ser conhecida pelos mais velhos como “a filha daquele rapaz que esteve lá fora, a filha daquele que esteve preso” e ela diz no fecho da história: “Seria uma pessoa diferente se não fosse Teresa Capítulo, filha de um prisioneiro de guerra.”

O relato de Alexandra Penteado é a de um pai violento e de uma vida familiar calamitosa. Sempre fez perguntas porque é que o pai batia tão violentamente na mãe e apavorava os filhos, embora Alexandra saiba que tinha um papel apaziguador quando o pai desvairava, chegava a ir de calções para a rua a gritar “vou matar os pretos”. Nas noites em que se enfurecia gritava “saiam, senão mato-vos a todos”, fúrias que geraram uma rotina na família: ninguém se despia a não ser no exato momento de ir para a cama. Isto passou-se no Barreiro velho. A família foi desenvolvendo uma espécie de sensor para medir os inícios da ira do pai, aprenderam a prever os momentos em que os surtos acabavam. O pai chegava a partir tudo em casa, buscava-se a normalidade indo comprar a loiça partida que era preciso repor. Em jeito de desabafo, Alexandra disse que o seu pós-guerra durou até aos 18, 20 anos, não resta quase nada da origem lá em casa, tudo foi sendo partido e substituído.

Descobriram depois que o pai sofria de Perturbação Pós-Stress Traumático de Guerra, mas o pai recusou ir a um psicólogo ou psiquiatra, dizia que não estava maluco, isto embora tivesse estado internado na ala de psiquiatria do Hospital da Marinha. Aos poucos, ela foi procurando saber o que acontecera ao pai durante a guerra. Por exemplo, num desses almoços de ex-combatentes, ouviu que o pai tinha matado uma mulher com um punhal. “Depois da sua morte foi encontrar a condecoração largada dentro de um saco de plástico atado com um nó, depositada numa menosprezada terrina com a tampa de duas flores amarelas e ramagens verde seco que andava lá por casa dos pais. Tem-se esforçado por perceber porque arrancou da caderneta um símbolo desses supostos atos de bravura e pensa que poderá estar relacionado com alguns dos seus fantasmas mais assustadores.”

Guarda as memórias do pai violento num diário de adolescência. O pai morreu de cancro do pulmão aos 59 anos, cinco anos antes da morte estava mais calmo. Guardou fotografias de guerra do pai, que era fuzileiro, para sua surpresa, no funeral o cemitério estava cheio. No dia em que acordava a meio da noite com o pai a gritar “saiam, senão eu mato-vos”, Alexandra vê agora a tentativa de proteger a família de si mesmo.

Temos agora a história de Marisa, muito curiosa com a mala de tropa do pai. Em momentos excecionais, o pai mostrava a homens, ex-camaradas de guerra, ou então aos tios, mais novos do que o pai, o conteúdo. O pai foi deixando que Marisa lesse livrinhos de aventuras que estavam guardados na mala. Num dia em que os pais estavam ausentes, Marisa abriu a mala e encontrou cartas, e descobriu uma coisa única: o pai na guerra tinha uma quantidade enorme de madrinhas de guerra, havia um inicio de contacto que tinha sempre um padrão: “Ao ler o meu nome verifica que lhe sou totalmente desconhecido, dirijo-me a si com sinceridade e com um fim que lhe é fácil realizar caso queira dar-me aquilo que até agora não obtive, o que lhe peço é correspondência como madrinha de guerra.” Apresenta-se a todas dizendo que tem 22 anos, 1,72m de altura, olhos castanhos, cabelo um pouco loiro e era natural do concelho Porto de Mós, não tencionava ficar muito tempo solteiro porque o pai tinha casa de comércio. “Marisa vivia fascinada com a forma como se podem conhecer tantas raparigas ao mesmo tempo não saindo do mesmo sítio e vivendo num local onde quase só se convive com homens.”

É uma correspondência assombrosa, começa sempre por tratar as meninas por você, depois passa a tratá-las por tu e a dizer amor. Em adulta, Marisa fizera uma grande surpresa ao pai, escreveu um livro para encaixar aqueles objetos, fotos e memórias ordenadas, o pai acedeu, entrou no jogo da verdade, fez-se a cronologia da sua comissão em Mocímboa da Praia, dedicou o seu relato às 21 madrinhas de guerra. Acontece que uma dessas madrinhas de guerra, de nome Mimi é a mãe de Marisa. Umas duas a três vezes por ano, o pai volta à mala, esta é um lembrete do que ele foi capaz de fazer e de até onde foi capaz de ir. Marisa sempre sonhou voltar àquele local onde o pai escreveu tantas cartas às madrinhas, ali no jardim previsto da paixão entre Fernando e Mimi Vieira Reis, Vila Nova de Ourém.

Por ironia do destino, vamos ouvir falar de novo do pai de Teresa Capítulo e da menina que ele deixou na Guiné, e há muitas outras histórias para contar. Que belo livro de narrativas que Catarina Gomes nos ofereceu.


Catarina Gomes, imagem do Público, com a devida vénia

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 23 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28284: Notas de leitura (1953): "Geração Afro: Os Últimos Guerrilheiros do Império" , de Recaredo (volume I, 2026, 455 pp); análise feita pela AILA (A IA da Editora Clube de Autores)

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28170: Notas de leitura (1935): "Lenços Negros, Lenços Brancos", memórias na primeira pessoa de um ex-combatente octogenário: Uma breve viagem pela literatura da Guerra Colonial (Intervenção feita na apresentação do livro, na ADFA, em 30/05/2026) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 30 de Junho de 2026:

Em 30 de maio fui à ADFA apresentar o livro do Coronel Manuel Martins Lopes, foi Ajudante de Campo do Marechal Costa Gomes e devo-lhe uma profunda estima. Lá fiz a minha intervenção com um papelinho de notas, tempos depois o Coronel telefonou-me a dizer que a gravação estava péssima e que eu me desse ao cuidado de alinhavar a escrita, será feito um suplemento do jornal ELO, o órgão da ADFA, nesse dia fez-se uma homenagem ao fundador da associação. Confesso que gostei do que escrevi e estou pronto a partilhar com malta do blogue, se achares útil.

Nada mais por ora a não ser um abraço fraterno,
Mário.



"Lenços Negros, Lenços Brancos", memórias na primeira pessoa de um ex-combatente octogenário: Uma breve viagem pela literatura da Guerra Colonial

(Intervenção feita na apresentação do livro, na ADFA, em 30/05/2026)

Mário Beja Santos

Quando e como se deu um corte radical entre a literatura ultramarina e a da Guerra Colonial

A literatura da Guerra Colonial é um subgénero literário, goza da identidade, a despeito da variedade de cenário que contempla, é do senso comum as discrepâncias geográficas dos três teatros africanos. Quando comecei a refletir sobre as memórias elaboradas pelo Manuel Martins Lopes, que combateu em Angola e que depois teve uma comissão com alta responsabilidade administrativa num ponto chave de Moçambique, julguei ter utilidade em comprovar a este auditório que há um corte radical entre a literatura do antes, durante e o após a Guerra Colonial. Na literatura ultramarina há temas-chave recorrentes, seja qual for o pano de fundo da colónia africana: o deslumbramento daa floresta, amores bem ou malsucedidos, envolvendo feitiços, usos e costumes étnicos, a dura vida de trabalho, em alguns casos a denúncia esquiva do trabalho forçado, a aproximação do colono aos ambientes locais, as páginas de descrição da vida na roça, a chegada do barco a vapor… quero só lembrar "Mariazinha em África", de Fernanda de Castro, "Chuva Braba", de Manuel Lopes, "Kurika", de Henrique Galvão, e "A Estufa", de Luís Cajão. Como é óbvio, nada de minas antipessoal e anticarro, as operações para prender ou aniquilar guerrilheiros, a dor da morte dos entes queridos, a tensão permanente na vida dos destacamentos defendidos por arame farpado.

Só mais uma nota sobre a literatura ultramarina. Permitam-me que exemplifique com o caso da Guiné. Em "Estudos Ultramarinos", publicação do Instituto Superior de Estudos Ultramarinos, no seu número 3, de 1959, João Tendeiro publicou um artigo intitulado “Aspetos Marginais da Literatura na Guiné Portuguesa”. Diz o autor com a maior das clarezas:
“A Guiné não nos deu até agora um escritor nativo. No campo da ficção, as poucas obras de fundo têm sido escritas por europeus ou cabo-verdianos. É o caso dos romances e contos de Fausto Duarte e de vários contos esporádicos de Alexandre Barbosa e outros, publicados no Boletim Cultural da Guiné Portuguesa. Mário Pinto de Andrade, se quis inserir, na sua Antologia da Poesia Negra, uma produção poética representativa da Guiné, teve de recorrer a um poema de um jovem cabo-verdiano, Terêncio Anahory Silva.”

Nesta Guiné de que fala João Tendeiro o português era falado por 1157 indígenas analfabetos e escrito por 1153. A literatura que apareceu foi obra de militares ou funcionários coloniais, caso dos "Contos do Caramô", de Viriato Tadeu, os contos publicados por António Carreira, Amadeu Nogueira e outros, em o Boletim Cultural da Guiné Portuguesa. Não ficaram testemunhos do uso do crioulo. O mesmo Tendeiro observa:
“O crioulo enferma de todas as características as linguagens faladas e sem grafia independente. Quer dizer: quando transposto para a escrita fica subordinado ao idioma escrito da região. Não existe uma correspondência entre o crioulo e a ortografia portuguesa. Enquanto em Cabo Verde o crioulo assumiu o carácter de uma linguagem substituta dos idiomas nativos primitivos, enfeudada à língua portuguesa oficial, na Guiné reveste apenas o aspeto secundário língua aprendida, desempenhando entre as populações locais um papel semelhante ao dos idiomas utilizados nas relações internacionais entre os povos civilizados.”


Adiciono mais um comentário sobre a essência da trama literária ultramarina: histórias de aculturação, tratamento de fábulas e contos, em circunstância alguma põe em causa conflitos entre colonos e indígenas, operações de pacificação ou a chamada missão civilizadora portuguesa.


As diferentes fases da literatura da Guerra Colonial

Quando surgiram as primeiras obras, no início da década de 1960, ninguém supunha qual o peso da identidade e da autonomia do subgénero literário. Creio não haver contestação que entre 1961 e 1974 se impuseram incursões literárias de pendor apologético, exaltando as qualidades do soldado português, o valor da missão patriótica em defender o Ultramar, episodicamente foram surgindo romances ou contos onde veladamente, a guerra era tratada como tema incandescente. O exemplo que me parece mais flagrante foram as obras que Álvaro Guerra publicou depois de ter vindo da Guiné, onde fragmentariamente se impunham os desastres da guerra. A este escritor se deve o parágrafo que ainda hoje me comove pelo vigor da sua explosão emocional:
“Por lá chafurdei na lama das lalas, debati-me no turbilhão dos tornados, derreti-me na fornalha de um sol invisível, dissolvi-me na chuva vertical, e amei como um danado aquela terra que me injetou a febre, me secou, me expulsou a tiro. Mas nunca o preço do amor é excessivo, nem a presença da morte o pode aniquilar.”
Houve livros apreendidos pela PIDE, caso de "A Praça da Canção", de Manuel Alegre, teve a sua primeira edição em 1965, penso que o mais belo poema que se escreveu nesta literatura é "Nambuangongo, meu amor", veio publicado logo nesta edição.


Há, como não podia deixar de haver, características diferenciadas de quem escreveu sobre a Guiné, Angola ou Moçambique: são paisagens bem distintas, como distinto era o poderia militar e a capacidade de guerrilha dos diferentes nacionalistas, o que confere aos registos da escrita um quase poder intransitável. No entanto, pode argumentar-se que havia a solidão, a angústia, o fragor do fornilho, o matraquear súbito das armas pesadas e ligeiras de quem fazia a flagelação, é evidente que a perceção destes elementos ganhava um cunho universal. Mas o peso da geografia era indeclinável: 10Km na Guiné ainda hoje não são os mesmos 10Km em Angola ou Moçambique. E mais: os palcos de guerra tinham designações muito próprias, as árvores gozam de nomes próprios, havia intempéries, chuvas diluvianas, mas algo que identifica a narrativa: o crioulo, o tornado, o macaréu, a lepra, os ataques com mísseis. Ora os mísseis fazem parte da evolução da guerra, quem, por hipótese, escreveu um romance com as suas memórias baseado numa comissão militar entre 1965 e 1967, tem de se confinar ao armamento português e dos guerrilheiros da época.

Com o 25 de abril, com a liberdade de expressão, foram surgindo obras, até reedições, caso de "Tarrafo", de Armor Pires Mota, que tinha publicado as suas memórias durante a guerra no Jornal da Bairrada, nem a PIDE nem a Censura deram por nada, publicado no livro, deram conta que se falava de bombardeamentos com napalm, isto quando Portugal negava categoricamente nas Nações Unidas o seu uso em África. A grande safra literária eclode nas décadas de 1980 e 1990, impõem-se nomes, alguns vindos do passado, como Carlos de Matos Gomes, Álamo Oliveira, José Brás, António Lobo Antunes, João de Melo e surgiram mesmo grandes surpresas no virar do século, estou a pensar em "Estranha Noiva de Guerr", de Armor Pires Mota, um romance excecional que a crítica praticamente ignora.

Quando chegámos ao século XXI eram múltiplas as manifestações literárias: estudos militares, excursos históricos, reportagens, olhares da memória, visitas depois da guerra, ensaios, poesia, contos. Não é necessário fazer a contagem de tudo quanto se escreveu, o romance e as memórias superam todas as outras manifestações. Como tenho de fazer aqui uma síntese não pretendo adormecer o auditório, quero também recordar que algumas destas obras são hoje motivo de estudos universitários: é o caso de "Lugar de Massacre", de José Martins Garcia, que perto do 25 de abril pôs as letras em polvorosa, caricaturando os grandes ícones em que se constroem as mitologias militares.

Falando dos militares, independentemente do genial "Nó Cego", de Carlos Vale Ferraz, há relatos feitos por militares que se vieram revelar documentos indispensáveis, caso dos escritos de Salgueiro Maia, que esteve na operação em que se rompeu o cerco a Guidaje, torna-se percetível como o teatro de operações da Guiné estava completamente condicionado à plena iniciativa do PAIGC.

Posto isto, quero recordar a importância das investigações monográficas, dos levantamentos da literatura da Guerra Colonial feitos por João de Melo, Rui de Azevedo Teixeira e Margarida Calafate Ribeiro. Dou ainda conta que apareceram obras diarísticas, umas raramente escritas em cima da hora, outras recompiladas.

Escrevi em tempos que a despeito de uma maioritária falta de qualidade desta literatura, há parágrafos estranhados, há memórias que nenhum investigador pode enjeitar pelo poder que assumem na atmosfera da descrição da guerra, escrita por gente que combateu em terra, mar e ar.

Chegou hora de fechar o pano a esta literatura? Impossível, a obra que hoje analisamos é uma incontestável prova de vida. Finalizo esta minha cogitação antes de passar para a obra de Manuel Martins Lopes retirando um parágrafo de um livro que escrevi sobre a literatura da Guerra Colonial na Guiné intitulado "Adeus, até ao meu regresso" (a literatura dos e sobre os combatentes da guerra da Guiné), publicado pela Âncora Editora em 2012:
“Até ao lavar dos cestos, até estar vivo o último militar, há que contar com as surpresas da vindima, não há um mês em que não surja um título, um depoimento, um olhar sobre aquela guerra que se travou enquanto se caminhava na farroba de lala, entre cipós e tabás, militares acoitados atrás dos morros das formigas, a resistir à fúria das emboscadas, ou dentro dos aquartelamentos, imprecando em noites de flagelação destruidora. Este subgénero literário está muito longe de ter fechado para obras e muito menos para mudança de ramo.”

A singularidade de um itinerário: a família e o lugar, um desvio na vocação, a aprendizagem da guerra, a comandar no terreno conflitual angolano (a identidade dos lenços negros), comandante da polícia na Zambézia numa cativante operação de paz, era o tempo dos lenços brancos, e resultou.

Não vou aqui repetir o que se disse atrás sobre a natureza caleidoscópica das memórias. Há vigorosos testemunhos memoriais há décadas, mas temos de reconhecer que a memória ganha sempre o amadurecimento, graças também à distância do que foi a experiência de guerra. Voltando à Guiné, foi depois do século XX que surgiram depoimentos de grande calibre, caso do comando guineense Amadú Djaló, do fuzileiro José Talhadas ou do paraquedista Moura Calheiros, não contamos já com os documentos deixados pelo major Lobato (o mais longo cativeiro da Guerra Colonial), algumas histórias de companhias, a torna-viagem de quem combateu e volta ao lugar marcante, isto para já não falar num fenómeno relativamente novo que são as memórias dos filhos de quem combateu e que também vão querer conhecer esses pontos em que viveu o pai ou os pais.

As memórias do Coronel Martins Lopes têm a razão de ser de um itinerário único: o orgulho pela terra que o viu nascer e os valores inculcados pela família; os estudos num liceu longe de casa; a inviabilidade de satisfazer a sua vocação, o dinheiro não chegava para tudo; a ida para a Academia Militar e a confissão de que havia um indisfarçável desajustamento; em minúcia, descreve o seu desempenho angolano, a formação da lenda dos lenços negros, que gerou uma convivência que não abranda ano após ano; a mudança de Angola para Moçambique, coube-lhe na roda do destino ter os sentidos apurados para saber comunicar com os dirigentes da FRELIMO as melhores diligência para chegar à paz, que emergiu com o 25 de abril e as decisões de Lusaka. É ocioso dizer que ele não esconde o seu orgulho no vigor da reconciliação que acompanha toda a sua trama narrativa e que o leitor irá conhecer através da história de uma Bíblia apanhada durante o conflito e que agora regressou ao seu lugar. É o simbolismo de uma manifestação que acompanha toda a narrativa e que ilustra categoricamente esta caminhada dos lenços negros para os lenços brancos, a metáfora do mundo lusófono em que nos cremos todos numa irmandade de boa convivência, a da língua e a da História comum.

Parabéns ao autor e a minha profunda admiração por aqueles que o acompanharam com lenços negros e com lenços brancos.
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Nota do editor

Último post da série de 6 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28161: Notas de leitura (1934): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (3) (Mário Beja Santos)

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 – P27537: (Ex)citações (445): Literatura da Guerra Colonial? (Alberto Branquinho, ex-Alf Mil Art da CART 1689/BART 1913)

1. Mensagem do nosso camarada Alberto Branquinho, (ex-Alf Mil Art da CART 1689 / BART 1913, Fá, Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69), advogado e escritor, autor de, entre outros livros, "Cambança"; "Cambança Final" e "Deixem a Guerra em Paz", com data de 11 de Dezembro de 2025:


LITERATURA DA GUERRA COLONIAL?

Livro: “O último avô” de Afonso Reis Cabral[1]

1 – Não venho apreciar o livro - em si mesmo - venho somente dizer que não vi, não li no livro nada para que possa ser designado por “literatura DA guerra colonial”. Também não venho fazer uma apreciação do livro como obra literária.

É que este livro surge publicitado como sendo sobre a guerra colonial.

Aliás, modernamente falando, no conceito de “guerra colonial” tanto cabe uma obra onde se aborde ou onde se escreva qualquer coisa “à volta” da guerra colonial e não somente aquelas obras que tratam daquilo que se passou no terreno, no ambiente próximo ou afim ao conflito ou na sua proximidade, a montante ou a jusante dele. O que, cada vez mais, é voz comum, é que tudo o que se escreva e que, de algum modo, faça menção à guerra colonial, é…. literatura da guerra colonial.

Este livro, para além dos enredos e vicissitudes familiares e de outras relações também próximas, descritas e analisadas por um rapaz, depois, jovem adulto, de guerra colonial nada tem. Tem, isso sim, um avô egocêntrico e difícil que surge ao longo de todo o texto e que, apesar de ter sido alferes miliciano de transmissões sem qualquer actividade operacional, escreveu sobre as suas (inventadas) experiências traumáticas de ex-combatente, apesar de NUNCA ter sido combatente. É que, ressalvada uma breve e rápida referência a Cabinda (sem mais pormenores), o autor coloca toda a acção do livro na zona de N’Dalatando (antiga Vila Salazar) e só depois do “25 de Abril”. Ora, N’Dalatando fica a cerca de 250kms a leste de Luanda e era, antes desses tempos conturbados, local de passeio dos civis residentes em Luanda.

Nunca houve confrontos entre tropa portuguesa e guerrilheiros em N’Dalatando antes do 25 de Abril. Só depois disso foi essa zona área de confrontos entre o MPLA e FNLA, que a pretendiam controlar. A tropa portuguesa esteve envolvida procurando “mediar” o conflito entre as duas forças, como aconteceu, também, em outras zonas de Angola e nem sempre com sucesso.

Aliás, se Angola fosse, por esse tempo, já um país independente, esse conflito seria referido como “guerra civil”.

Todo o envolvimento do avô narrador na sua “guerra colonial” foi nessa zona de N’Dalatando e é essa “inverdade” que o narrador vem mais tarde a descobrir.

2 – Com tudo o que vai escrito atrás não pretendo dizer que toda a literatura da guerra colonial tenha que ser trágica ou dramática. Não, até porque, mesmo debaixo de fogo, acontecem situações com humor ou caricatas, que, naquele momento, não são apreciadas como tal devido às circunstâncias.

Escrevi no prefácio do livro “Memórias boas da minha guerra” do José Ferreira da Silva (Silva da CART 1689):
“A guerra é a guerra!
MAS, mesmo na guerra (em tempo de guerra) surgem, por vezes, imprevistos, situações bizarras e com humor em perfeita contradição com o ambiente que se vive, embora só mais tarde, ao recordar, nos provoque uma gargalhada.”

3 - Meditando sobre a construção literária constante do livro surge uma questão: - Será que o livro poderá ser entendido como uma denúncia de uma falsa literatura da guerra colonial em que, p.ex., o “combatente”, em vez de ser um “oficial de transmissões”, seja um médico ou um outro militar com funções na retaguarda?

4 – Certo é que o autor (narrador) inclui no texto (embora de passagem) uma referência (não muito explícita) ao sofrimento de uma geração, que foi a geração do seu avô inventão.

5 – Tudo isto traz à colação a necessidade de definir se uma certa literatura que, simplesmente, fale, aborde, disserte ou refira a guerra colonial é literatura da guerra colonial. Sem o saber de experiência feito.

Nota de AB: Sobre este assunto, vide poste Guiné 63/74 - P16440: Contraponto (Alberto Branquinho) (54): Literatura da guerra colonial, o que é? de 2 de Setembro de 2016)

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Notas do editor:

[1] . Vd. post de 6 de outubro de 2025 > Guiné 61/74 - P27290: Notas de leitura (1846): "O Último Avô", de Afonso Reis Cabral, Publicações Dom Quixote, 2025 (Mário Beja Santos)

Último post da série de 2 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 – P27485: (Ex)citações (442): Com a lonjura do tempo a corroer-se… Da Guiné para outros palcos (José Saúde)

segunda-feira, 15 de abril de 2024

Guiné 61/74 - P25389: Notas de leitura (1683):"Memórias SOMântícas", de Abulai Sila; Ku Si Mon Editora, 2016 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 17 de Outubro de 2022:

Queridos amigos,
Importa não esquecer que os intelectuais guineenses de há muito dão conta de um sonho perdido, de uma esperada reconciliação entre os povos guineenses que não houve, de uma pátria bem administrada que não houve, de uma solidariedade que rapidamente se transformou numa selvática competição de interesses, cada um por si, o Bem-comum não conta, todos os sonhos de Cabral caíram por terra. 

Recorde-se o filme Mortu Nega (em português, Morte Negada) de Flora Gomes, 1988, Kikia Matcho: O desalento do combatente, por Filinto de Barros, 1997, e mais recentemente o romance A Cidade Que Tudo Devorou, por Amadu Dafé, 2022, isto já sem esquecer o que escrevem ou escreveram Leopoldo Amado, Julião Soares Sousa e está espelhado na poesia de Tony Tcheka.

 É uma belíssima narrativa estas Memórias SOMânticas , não encontro explicação para esta palavra, talvez tenha a ver com semânticas e românticas, o pungente mas poderoso solilóquio da combatente vai à origem das palavras, o mesmo é dizer que vai à origem do sonho que presidia aquela luta e há o quê de romantismo na sua fé e no seu inabalável sonho. Mais explicações para a palavra é assunto que cabe ao autor revelar.

Um abraço do
Mário



Fui combatente do PAIGC, conheço a desilusão, mas vivo esta paixão da liberdade à exaustão

Mário Beja Santos

"Memórias SOMântícas", de Abulai Sila, Ku Si Mon Editora, 2016, é um espantoso solilóquio de uma mulher que participou na luta, que confiava numa pátria livre e numa cadeira de rodas assiste à degradação do seu país. É o cântico de uma heroína anónima, uma narrativa escrita na primeira pessoa e num absoluto silêncio, é uma mensagem para o futuro, um tema de reflexão para as gerações que não conheceram a luta armada:

“Esta é a história de uma vida. Uma vida que quis ser vivida. Com paixão e dignidade. Pretendo narrá-la, porque a existência só se torna memorável se for narrada. A narração, quando oportuna, restaura a crença, abrevia qualquer recordação dolorosa e enobrece a vida. Atribui-lhe cor e reverência”.

E confidencia-nos ao que vem:

“Nunca escondi as minhas ambições. Onde está o sentimento de liberdade se o que mais ambicionamos tem que ser escondido ou disfarçado? Pior ainda, privatizado. Quero que tudo o que ambicione de verdade seja também pretendido pelos meus próximos, acessível a todos, valorizado por todos”.

Orgulha-se de celebrar a vida, a despeito das ilusões, violentas e por vezes tão inesperadas. Disserta sobre a infância, a morte da mãe, os desamores familiares. Nunca aceitou a submissão, paradigma da mulher africana. Conheceu o amor, alguém que a vai despertar para a luta, ele desaparece e ela vai no seu encalço, vai para Conacri. Narra as vicissitudes de uma adaptação áspera, é hábil na negociação para se dar bem com as companheiras de quarto, o seu sonho cresce, pensa a toda a hora na independência, nas instituições do país, é mulher de esperança inabalável. Os tempos não são fáceis para ela em Conacri, assiste à chegada de gente jovem, irmanada pelos mesmos ideais, começa a trabalhar na cozinha, sente-se útil, procura afanosamente saber do seu amor que anda na luta, a todos que vêm a Conacri faz perguntas, por alguém se sabe que ele está vivo, rejubila. 

Nunca lhe passou pela cabeça ser enfermeira, detestava ver sangue, a vida troca as voltas, viu-se a colaborar num bloco operatório, foi louvada, decidiram que ela seria enfermeira.

Há ali perto do hospital alguém que vende cola e se chama Tunkan, tem uma filha a viver em Bafatá e garante-lhe quando a guerra acabar que quer ir a Bafatá conhecer os netos. Gosta do seu trabalho:

“Durante muitos anos ajudei a aliviar dores e a sarar feridas, tanto as visíveis como as que se escondem no fundo da alma, silenciosamente destruindo o corpo e inviabilizando sonhos. Tinha ajudado muita gente, agora tenho que ajudar-me a mim mesma, ser a minha própria enfermeira. Tenho que aperfeiçoar a arte de curar, a magia de dar sempre o que nem sempre se tem.”

É transferida para a Frente Sul, encontra o homem da sua vida em Kabukaré. E tece louvores àquela luta armada:

“Eu vi amor, paixão, entrega e determinação a germinarem, a manifestarem-se em todo o lado. Nos guerrilheiros e na população. Nas canções e no choro. Até no olhar das crianças mutiladas. Vi guerrilheiros com lágrimas nos olhos. Mas vi também o pesadelo do passado a evaporar-se sob o calor desse novo sol e descobri os contornos do novo mundo de paz e harmonia que vinha sendo anunciado nos cânticos. No escuro da pátria ainda subjugada, detetei uma tremeluzente luz projetada num horizonte não muito distante.“

Vive agora em Boké, aqui encaminha-se armamento para as frentes de combate e cuida-se os feridos, e tem o filho para criar. Ela aspira que quando a guerra acabar irão ter que investir na purificação dos corações, a vida ganhará uma outra dimensão, tem ainda interrogações para resolver:

“Porque é que havia africanos a combater ao lado dos brancos contra nós? Quando tomarmos a nossa independência e voltarmos para a nossa terra, os nossos comandantes vão continuar a confraternizar com os nossos combatentes como fazem agora? Quando acabar a guerra, o nosso Presidente vai precisa de guarda-costas armados?”

O amor da sua vida precisa de ir a Conacri, vai acompanhado do filho, irão morrer num acidente, ela está enlouquecida, o seu lenitivo é a sua amiga Ramatulai, é como uma irmã, mas há uma dor que subsiste:

“Eu sou dos inúmeros concidadãos que definitivamente vão voltar para casa magoados, com alguma amputação, temporária ou vitalícia. Eu levo todo um sonho amputado, sim, mas em vantagem em relação a muitos deles. Vou sem o meu companheiro de vida, sem o meu filho, mas com uma irmã, a minha irmã do coração.”

Chegou a hora da independência, apareceu Tunkan para ver a família, tinha o genro preso, acusado de colaborar com o exército colonial.

“Dei-lhe todas as garantias. Depois de uma guerra que vitimara tanta gente, a hora era de paz e perdão. Se estava em algum quartel ou cadeia eu iria encontrá-lo”.

Percorre o país de lés a lés, alguns dos camaradas com que tão intensamente convivera em Conacri fitam-na com desprezo, era como se ela perguntasse por uma pessoa que tinha traído, o que fazia dela uma traidora, alguém lhe dirá mesmo que para cada traidor haverá sempre uma bala no cano. 

“Como é que chegámos a este ponto? Em que se tinha tornado o meu querido país e a minha gente? Que fora feito da camaradagem que, proporcionado a permanente partilha das dificuldades dos êxitos, dos sonhos e das ambições, tornara a vida mais colorida para todos ao longo de tantos anos?”

Adoece e reage, dedica-se a uma escola frequentada por filhos órfãos do Partido. Tudo faz para que haja abastecimento seguro, vai mesmo ao Ministério da Agricultura onde pede e consegue sacos de semente de feijão, de milho, de mancarra, de arroz. Mas um dia acabou o internato, as crianças foram dispersas. 

“Sinto que estão por aí, entregues à sua sorte, sem a bênção de quem devia revelar-lhes as virtudes regeneradoras da fé e as lições da vida tiradas da História. Vacilei durante algum tempo e envergonho-me hoje disso.”

E é neste exato momento que Abdulai Sila tece os seus parágrafos sublimes, a renumeração daquela vida à procura do seu amor, a partilha do jubilo e das situações de desgraça, os terríveis desapontamentos de ter visto fechar um internato com órfãos de guerra, aquela mulher sentada numa cadeira de rodas lembra os órfãos da guerra, os mutilados, a solidariedade acabou, os jovens vivem sem ideais, ela não se entende com tanto despautério, é a fé que a alimenta, e então a velha combatente faz ressoar as trombetas para o futuro:

“Marginalizados? Nós é que domesticámos o invasor e abolimos o medo perante o desconhecido. Na calada da noite prenhe de incertezas reinventámos a vida e, bem alto no céu, fizemos soar a sinfonia da dignidade.
Deserdados? Construímos um mundo plural, onde todas as cores do arco-íris se fundem sem nunca se confundirem. Recuperámos a palavra e, abençoando-a, fizemos com que a magia da narração sustentasse os novos limites da razão.

Não erguemos troféus, não exigimos medalhas, nem guardámos ressentimentos. Impusemos um novo paradigma da inteligência: sem ser mártir nem ambicionar ser heróis, viver uma paixão até à exaustão e morrer sonhando.”


Na linha de uma literatura vincada pela dor do desapontamento de uma pátria derruída, Abdulai Sila dá-nos uma narrativa pungente onde o sonho, mesmo tão profundamente abalado, continua a ser a semente da vida, a razão por que se lutou para ser livre, é esse o derradeiro testemunho que se deixa às novas gerações. Um belíssimo texto de irrecusável leitura.

Houve tempos em que a Guiné contava entusiasticamente com quem a libertara
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Nota do editor

Último post da série de 12 DE ABRIL DE 2024 > Guiné 61/74 - P25377: Notas de leitura (1682): O Santuário Perdido: A Força Aérea na Guerra da Guiné, 1961-1974 - Volume II: Perto do abismo até ao impasse (1966-1972), por Matthew M. Hurley e José Augusto Matos, 2023 (20) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 25 de agosto de 2023

Guiné 61/74 - P24587: Notas de leitura (1609): "A Guerra e a Literatura", por Rui de Azevedo Teixeira; Vega, 2001 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 14 de Setembro de 2021:

Queridos amigos,
Os trabalhos de investigação assinados por Rui de Azevedo Teixeira sobre literatura e guerra colonial são hoje obras de referência a que podemos juntar aos trabalhos de Aniceto Afonso e Carlos Vale Ferraz e igualmente a João de Melo, cobrem essencialmente obras publicadas até à década de 1990. Infelizmente, depois destas obras atrás mencionadas, não há levantamentos a não ser parciais, nenhum trabalho de conjunto, estou em crer que mais nenhuma tese de doutoramento sobre seis décadas de literatura. Da minha banda, procurei fazer o levantamento da literatura da guerra da Guiné e fiquei-me em 2012, e tenho o pesar de constatar que poucos trabalhos grandiloquentes, referenciais, vieram depois, o que talvez signifique que a idade não perdoa e os trabalhos de investigação universitários andem longe de nós.

Um abraço do
Mário



A Guerra e a Literatura, por Rui de Azevedo Teixeira

Mário Beja Santos

A obra "A Guerra e a Literatura", por Rui de Azevedo Teixeira, Vega, 2001, vem na sequência de uma obra que ainda hoje é uma referência do estudo da literatura da guerra colonial, "A Guerra Colonial e o Romance Português". Desta vez o investigador envereda por novas temáticas e analisa obras de três escritores que vinte anos depois da publicação deste ensaio se mantêm ativíssimos e nalguns casos batendo ruidosamente à porta da guerra colonial, como é o caso de Carlos Vale Ferraz.

Ele vai destacar a violência associada à guerra, observando:
“Desde a Antiguidade, a guerra é vista, por um lado, como inevitável, como força nua que determina os destinos dos povos e como teste à dureza masculina; por outro lado, é considerada como perigo para a humanidade e atacada pela sua crueldade e poder de destruição".

Era inevitável citar o general prussiano Karl von Clausewitz:
"A guerra não é meramente um ato político, mas sim um autêntico instrumento político, uma continuação da atividade política, uma realização da mesma utilizando meios diferentes”.

E, portanto, a guerra é habitação obrigatória da literatura, na maior parte dos seus modos e géneros:
“O conflito armado de grandes proporções irrompe na narrativa, no drama, na lírica, instalando-se no conto, na novela, no diário, no poema, na peça de teatro e, com especial à vontade, na epopeia e no romance”.

E elenca títulos de diferentes épocas onde a guerra é prato de substância até chegarmos ao século XX, como ele diz o das maiores matanças militares, e o autor considera haver duas grandes atitudes literárias em relação à prática bélica: a mística da guerra e o ataque frontal ao fenómeno de guerreiro. Praticamente, os grandes escritores de âmbito universal estiveram sempre fortemente seduzidos pela temática bélica, ele alarga-se em exemplificações que vão desde a extrema-direita à esquerda francesa, lembra-nos Eric Maria Remarc, Ernest Hemingway, Norman Mailer, James Jones. Com a agonia da guerra clássica, diz ele, os romances de guerra tornam-se basicamente em azedos romances de antiguerra. O poder nuclear não tem heróis lendários, os seus criadores são cientistas que muitas vezes vêm deplorar as suas criações.

E temos agora propriamente a literatura da guerra colonial, e ele encontra três substantivos para a rotular: orgulho, culpa e nostalgia. Sintetiza o díptico contrastivo, entre esquerda e direita (à esquerda, Fernando Assis Pacheco, Manuel Alegre ou Álvaro Guerra) e os apoiantes do império (Couto Viana ou Alpoim Calvão). Fala também de passadistas como Reis Ventura, Couto Viana, Pedro Homem de Melo, o primeiro Manuel Barão da Cunha, Amândio César, Armor Pires Mota. Emerge uma literatura de protagonistas alferes, anticolonialista e muitas vezes pacifista e anota que a atitude desta literatura é exatamente contrária à que vai dominar na produção literária africanos lusófonos que tratam a guerra de libertação nacional.


Quem escreve? Um oficial comando como Carlos Vale Ferraz, fuzileiros como Alpoim Calvão e Modesto Navarro, Álvaro Guerra, ferido em combate, Manuel Alegre, combatente e desertor, os que não combateram diretamente como Assis Pacheco, Lobo Antunes ou João de Melo. Há os que não tendo estado em África como militares escreverão sobre a guerra, caso dos já não pertencentes à geração combatente: Fernando Namora, Sttau Monteiro, Cardoso Pires, Mário de Carvalho, José Manuel Mendes; os que estiveram em África mas que não usaram o camuflado: Reis Ventura, Amândio César, Couto Viana, António Quadros ou Rui Knopfli; e as mulheres como Olga Gonçalves, Maria Velho da Costa, Lídia Jorge, Wanda Ramos.

Destaca títulos: "O Capitão Nemo e Eu", de Álvaro Guerra; "Lugar de Massacre", de José Martins Garcia; "Os Cus de Judas", de Lobo Antunes; "Nó Cego", de Carlos Vale Ferraz; "A Costa dos Murmúrios", de Lídia Jorge; "Jornada de África", de Manuel Alegre.

O seu estudo centra-se em três autores: Lídia Jorge e A Costa dos Murmúrios; quatro livros de Carlos Vale Ferraz com destaque para "Nó Cego"; e João de Melo em "Autópsia do Mar de Ruínas".

Disseca o trabalho de Lídia Jorge para concluir que a guerra colonial não tem bode expiatório, o combatente tem uma mínima parcela de responsabilidade negativa, a trama do romance que se passa no Índico tem a ver com um império que morre. Destaca em "Nó Cego" um saber prático da máquina de guerra portuguesa e da arte da contraguerrilha, o escritor bateu-se em Angola, Moçambique e Guiné, participou em operações que fizeram história, a figura central é um capitão, formou uma equipa coesa, um conjunto de centuriões, homens disciplinados e dedicados. O autor, com as suas sucessivas comissões, começa a aperceber-se de que na guerra do Ultramar Portugal é o agressor que teima em não reconhecer que o Império vai contra o tempo. A companhia do capitão é uma unidade ofensiva que participará na Operação Nó Górdio, será ponta de lança no assalto à base Gungunhana, um comandante-chefe sonhou em envolver todos os seus efetivos para destruir a Frelimo e o que aconteceu é que a Frelimo deixou as bases vazias e imiscuiu-se em novos territórios, alastrou a guerra de contraguerrilha. Rui de Azevedo Teixeira fala de outros livros de Carlos Vale Ferraz para enfatizar que o que está em causa é o herói militar batido pela História.

Finalmente, João de Melo, "Autópsia do Mar de Ruínas". Estamos em Calambata, norte de Angola, há quartel e sanzala, por ali deambula o furriel-enfermeiro Pacheco, João de Melo por excelência, é ele o cronista do universo da sanzala de Calambata, onde várias vozes em interferência, lá aparecem heróis revolucionários, mas o que objetivamente assalta da crónica é que estamos a assistir a um mundo em decomposição:
“As personagem de autópsia articulam-se de forma limpa com os espaços do romance que, como qualquer espaço, tem os seus traidores e os seus heróis – e ambos traduzem o sentido final marxista e pró-independentista da narrativa, estamos no norte de Angola no dealbar da década de sessenta”.

A apreciação de Rui de Azevedo Teixeira ao conjunto da obra, onde se fala de uma guerra em que ao guerreiro invisível e virtuoso de opõe o militar visivelmente vicioso, é duríssima:
“Autópsia é um romance morto cujas rescritas-reanimações falharam e cuja autópsia mais não pode ser de que um mero exercício crítico de manutenção”.

Deixa uma observação curiosa no final do seu trabalho:
“Porquê esta imagem negativa do português e do seu esforço de guerra e de fomento? Porquê esta mudança radical de paradigma imagiológico em relação ao corpo literário anterior? Fico-me por razões essenciais. Em primeiro lugar, porque, desabada a ditadura, vem a desforra, o pêndulo viaja até ao outro extremo. Depois, porque é uma literatura que, sustentada numa base emocional de culpa, se autopune, faz autoflagelação, masoquismo. Em terceiro lugar, porque é fundamentalmente uma literatura de alferes e de furriéis – e de mulheres de alferes. Esta última razão merece alguma demora explicativa. Tendo sido alferes e furriéis milicianos a maioria dos que romancearam a guerra de África, é natural que sofressem de incultura militar – o miliciano é um amador, não é um profissional da guerra. A incultura militar desses milicianos impede-os de entenderem, em profundidade, a natureza da guerra de guerrilha em que participavam, estando-lhes vedada a compreensão das estratégias e contra-estratégias, das táticas, das guerrilhas e das éticas”.

Abre exceção para a obra "Nó Cego", de Carlos Vale Ferraz, pois que era um capitão do quadro permanente, um profissional.

Obra a juntar ao acervo de documentos que escalpelizam a literatura da guerra colonial.

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Nota do editor

Último poste da série de 21 DE AGOSTO DE 2023 > Guiné 61/74 - P24574: Notas de leitura (1608): "Os Portugueses nos Rios de Guiné (1500-1900)", por António Carreira; edição de autor, Lisboa, 1984 (2) (Mário Beja Santos)