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segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28465: Notas de leitura (1974): "Fado Alexandrino", por António Lobo Antunes; Publicações Dom Quixote (3) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 13 de Agosto de 2026:

Queridos amigos,
É graças aos transportes de mudanças Ilídio que vamos conhecer a evolução dos acontecimentos na Baixa, a carripana atulhada de móveis vai sendo impedida aqui e acolá de circular, regressa à base, um novo empregado chega ali pelas onze horas e conta o que se passa no Tejo e no Terreiro do Paço, os microfones a pedir insistentemente para que a população fique em casa, uma multidão que se forma ali para os lados do Carmo, um dos presentes do jantar recorda a sua infância, passada naqueles sítios, chega o general do monóculo, mais tarde sai uma viatura militar que transporta o fim do regime em direção à Pontinha, naquele dia, viremos a saber no romance Fado Alexandrino, que mudou a vida de toda a gente, de tenente-coronel a soldado houve amores e desamores, houve quem partiu para o exílio, e até quem defendia o Estado Novo se declarou prontamente estar ao lado da revolução, é aquela longa metáfora, permanentemente repetida, dos vira-casacas.

Um abraço do
Mário



Chegámos da guerra, apanhámos o fim do Estado Novo, vivemos o 25 de abril e o depois: como e porquê Fado Alexandrino, de Lobo Antunes, é um notável romance ancorado no fado de ex-combatentes – 3

Mário Beja Santos

Esta obra-prima de António Lobo Antunes teve a sua primeira edição em 1983, vem na sequência de um ciclo de romances que versam a experiência dele como tenente-médico em Angola, a sua vida profissional como psiquiatra, os desabafos sobre a sua vida íntima. Fado Alexandrino, considerado pela crítica como um dos seus textos fundamentais, justamente premiado, prende-se com a história de um conjunto de militares no período final do Estado Novo, segue-se o 25 de Abril e o PREC e o culminar de um tempo de rescaldo, tudo é passado entre um jantar verdadeiramente funambulesco, a passagem por uma boate no Intendente, haverá um surpreendente final, onde não falta uma atmosfera de orgia.

Digo e repito que encontrei neste romance algumas das páginas mais fulgurantes sobre os acontecimentos vividos em 25 de Abril, Lobo Antunes pretexta uma mudança que vai passar pela Baixa, não resisto a transcrever alguns parágrafos que revelam tal escrita vigorosa, mesmo incandescente, o tio do soldado vai ao lado do motorista, que ele chama o velho, começam a encontrar infantaria nas esquinas, carros de assalto, militares de capacete de bazuca ao ombro, um tenente novinho mandou-os parar:
“Trânsito cortado, amigos, Tenho uma entrega urgente no Chiado, respondeu o tio, não é a nossa camioneta que vos vai estorvar, recuaram, deram meia volta e meteram pelo Entreposto, pelo Rato, pela Escola Politécnica, o soldado ligou a telefonia e as marchas e as cantigas à viola atroaram a cabina onde tudo vacilava e vibrava, a música interrompeu-se, a voz locutora recomeçou a falar, Cala-me essa porra, minha besta, rugiu o tio, possesso, apalpando a bomba para a asma no casaco, edifícios dignos, antiquários, o jardim do Príncipe Real cintilante de luz e quase logo a seguir um tanque atravessado no pavimento, homens fardados, morteiros, viaturas da tropa, e agora um sargento a aproximar-se, abespinhadíssimo, de pistola na mão, Desapareçam daqui antes que eu vos pregue um tiro, A gente espantava-se, nunca tínhamos sonhado aparato de guerra nas ruas de Lisboa, alguns camuflados, em pinha num banco, escutavam de cabeças juntas os hinos bélicos da emissora, rodei o volante, engrenei a primeira, a marcha atrás, a primeira de novo, o sargento fitava-nos numa desconfiança veemente, e dali a dez minutos entravam aos solavancos no armazém, com a caixa da camioneta repleta de móveis.”

Mas o dia mal começou temos mais peripécias para contar. “Às onze horas apareceu o Carmindo, de motorizada, um de bigode que entrara à experiência em março e vivia com a afilhada da contabilista, tirou o capacete e os cabelos puseram-se-lhe todos em pé, Foi o sarilho das Arábias para me deixarem passar, até barcos de guerra andam no Tejo, não querem que ninguém se pire de casa, e uma onda incontrolável de pessoas sobe o Chiado na direção da PIDE, na direção do Carmo.”

O senhor Ilídio, o tio do soldado, proprietário daquele serviço de transportes, não esconde a sua perplexidade, via o negócio a afundar-se, os móveis a desfazerem-se na arrecadação, as mudanças Ilídio sem encomendas nenhumas, congemina os cenários mais apocalíticos, cadáveres por toda a parte, os hospitais inundados de feridos, pelotões de fuzilamento, bandeiras vermelhas nos edifícios públicos.

E o escritor volta aos acontecimentos:
“O general de monóculo saiu por fim do quartel da Guarda, sem se emocionar com entusiasmo, sem corresponder aos aplausos, instalou-se no carro que de imediato principiou a rodar para fora do largo, iam chegando mais tanques de guerra que apontavam os canhões ao prédio deserto, mais oficiais, mais tropa, um fulano, munido de uma alcofa, distribuía cravos.” O senhor Ilídio encontrava-se num estado lamentável: “Se levarem o Presidente do Concelho num carro blindado estamos perdidos, lamentou-se com a cabeça entre as mãos. Não tarda nada vêm-nos buscar, de pistola, aqui ao armazém.”

Voltemos ao cenário do Carmo:
“O número de pessoas no largo não cessava de aumentar, muitas delas munidas de bandeiras e aparelhos de rádio como nos desafios de futebol, as árvores eram novelos de pernas e de braços e de olhos atentos, expectantes, vorazes, um tanque destacou-se da multidão, avançou para o quartel, bocas abertas, centenas de dentes rebrilhando ao sol na espuma verde coada pelas folhas, cotovelos que me empurravam, membros que se colavam aos meus, um suor entusiástico nas narinas, e, de súbito, meu capitão, senti-me de novo com quatro, cinco, seis, sete anos, submergido pelas fantásticas, espessas, terríveis proporções dos adultos.”

Todos berram pela liberdade, há perseguições, há correrias a eventuais membros da PIDE, e volta-se ao relato do que fora vito no Largo do Carmo:
“O carro de assalto, meu capitão, acabou por desaparecer seguido por um enxame de gente, e passados momentos a multidão abandonou o largo, entoando os hinos e as cantigas da rádio, a tropa retirou-se igualmente da praça à exceção de sete ou oito gajos de metralhadora e camuflado que protegiam o quartel contra o friozinho do crepúsculo.” No armazém do senhor Ilídio, um locutor triunfal anunciava na telefonia a vitória completa do Movimento das Forças Armadas.

O tenente-coronel também tem histórias para contar. Era comandante de uma unidade militar de peso, recebe de madrugada um telefonema do seu camarada Ricardo, está no Ministério da Defesa, diz-lhe que há uns tantos palermas que andam por aí a brincar às revoluções, deverá ir até à sua unidade, o mais depressa possível, pô-los na ordem, acabar com aquelas aventuras. “O Secretário de Estado diz que não temos tempo a perder, é necessário meter essa cambada de miúdos nos eixos, a bem ou a mal, antes que aconteça um disparate qualquer. O teu quartel controla a entrada em Lisboa de quem venha do Norte, bastam meia dúzia de carros de assalto por aqui e por ali. Tens de jogar com o teu prestígio junto dos oficiais mais novos, e é escusado sublinhar que todos contamos com isso, que te pedimos que ajudes a evitar custe o que custe uma asneirada infantil.”

Acontece que este Tenente-coronel Ricardo vai aparecer depois do lado da revolução, uma daquelas metamorfoses em que se dão cambalhotas do lado vencido para o lado vencedor, e este lado vencedor nem se inquieta com o ingresso dos cristãos-novos. O Tenente-coronel Artur apresenta-se na sua unidade, diz a todos que se está nas tintas para a revolução e até mesmo para aqueles que a contrariam, ainda não sabe que dentre em breve irá trabalhar às ordens do dito Ricardo saneando no Ministério da Defesa, pela mão do nosso Tenente-coronel Artur, uma barrigada de oficiais, mais tarde haverá saneamento ao contrário, é este o fadário das revoluções.

António Lobo Antunes (1942-2026)

(continua)
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Notas do editor:

Vd. postanterior de 19 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28448: Notas de leitura (1972): "Fado Alexandrino", por António Lobo Antunes; Publicações Dom Quixote (2) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 23 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28456: Notas de leitura (1973): "Nós, Os Filhos da Guerra", por Frederico Valarinho; Âncora Editora, 2024 (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28456: Notas de leitura (1973): "Nós, Os Filhos da Guerra", por Frederico Valarinho; Âncora Editora, 2024 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 1 de Setembro de 2026:

Queridos amigos,
Por amável empréstimo da Biblioteca da Liga dos Combatentes li as memórias de infância de Frederico Valarinho em Tete, são tocantes como retoma um sexagenário à vida de uma criança num ambiente predominantemente militar e ao elogio que tece aos seus pais. Assim se vai abandonando o terreno da especulação de que a literatura da guerra colonial ou era domínio de reserva de ex-combatentes ou de estudiosos, está amplamente confirmado pelo que temos lido de Paulo Faria, Joana Pontes ou Catarina Gomes, entre outros, que os filhos da guerra, incluindo os filhos de tuga, são hoje literatura constante do dever da memória da guerra colonial.

Abraço do
Mário



Os filhos da guerra são hoje a geração a quem compete transferir a memória das suas vivências coloniais

Mário Beja Santos

O dever de memória, em termos literários da guerra colonial, começou por se manifestar por testemunhos de ex-combatentes através de romances, novelas e contos, poesia e memórias; outros deram seguimento por via da historiografia, do jornalismo, até da hagiografia, narrativas múltiplas, não faltaram posicionamentos ideológicos. Passadas estas décadas, assiste-se à consolidação da literatura memorial e à emergência de novos protagonistas, com um peso particular para os filhos, mesmo aqueles filhos de tuga que reivindicam o direito à identidade. É uma variante do subgénero literário esta maré de escritos dos filhos de ex-combatentes.

É nesse contexto que se justifica um comentário ao livro de Frederico Valarinho "Nós, Os Filhos da Guerra", Âncora Editora, 2024. Valarinho nasceu em Nampula, em dezembro de 1964, o pai, oficial do Exército, fazia ali a sua comissão. Valarinho é homem dos sete ofícios, trabalhou como jornalista e tem o seu nome ligado à esgrima, modalidade desportiva em que o pai foi ilustre pioneiro. O Major-general Pedro Pezarat Correia prefaciou estas memórias de Valarinho criança na cidade de Tete, onde o pai aparecia de vez em quando, o seu batalhão estava em área de refrega.

O prefaciador não esconde a sua admiração por este poder de regressar à infância, o brincar despreocupadamente com outras crianças, o ambiente escolar, o seu interesse em ter recolhido lembranças de amigas mais chegadas daqueles tempos. Também pesa como documento as notas de enquadramento, o adulto que foi jornalista não se irá coibir de contextualizar histórica, geográfica, política e militarmente, as memórias da infância. É deste prefácio que retirei o título que dou a este apontamento: “Os filhos na guerra são hoje a geração a quem compete transferir o legado dos seus pais aos seus filhos e aos seus netos.” Trata-se de uma aventura memorial: a interrupção de estudos na metrópole, a viagem com a mãe para Moçambique, dá-se uma boa página de enquadramento histórico. A vida em Tete, o alojamento, a vida do colégio, as brincadeiras no dia-a-dia, uma nota de enquadramento do aparecimento nacionalista em Moçambique.


E dá-se o enraizamento afetivo, as boas horas na piscina com os amigos, ao seu olhar de criança escapou a sociedade militar em Tete, a música que se ouvia, a roupa engomada com ferro a carvão, a nova casa, diz o térreo, o comércio dos monhés (designação dada aos indianos) mais notas de enquadramento, o que o autor pode apurar da evolução da guerra do tempo em que viviam em Tete, o funcionamento dos serviços de saúde, o que se sabe e ainda não se sabe dos massacres de Wiriamu; o passeio à cidade da Beira, como os moçambicanos, principalmente os colonos portugueses, viviam a guerra, importa não esquecer que a maioria esmagadora dos portugueses em Moçambique estava concentrada no sul.

Extensa nota de enquadramento sobre os acontecimentos vividos em Moçambique em finais de 1973 e até março de 1974. Memória de como se viveu o 25 de abril de 1974, o comovente elogio feito aos seus pais. Termino com a referência à apresentação do livro pelo seu autor:
“Por falar em memórias, convirá que fique desde já definida uma das regras que me impus ao escrever esta obra: mal ou bem, errado ou não, tudo aquilo que consta nestas páginas foi retirado exclusivamente da minha memória. Claro que poderia ter pedido aos meus pais, adultos com uma capacidade de observação e um discernimento completamente diferentes daqueles que eu à época dispunha, que me lembrassem factos e pessoas e corrigissem detalhes que pudessem ter sido alterados pelo olhar e pela imaginação de uma criança entre os 6 e os 9 anos. Só que, se o fizesse, estaria a adulterar o que aqui pretendia fazer. Este é um livro sobre aquilo que uma criança viu e sentiu.”


Frederico Valarinho
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Nota do editor

Último post da série de 19 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28448: Notas de leitura (1972): "Fado Alexandrino", por António Lobo Antunes; Publicações Dom Quixote (2) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28448: Notas de leitura (1972): "Fado Alexandrino", por António Lobo Antunes; Publicações Dom Quixote (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 12 de Agosto de 2026:

Queridos amigos,
O jantar dos militares está a findar, já sabemos como lhes correu a vida desde que chegaram de Moçambique, amores, desamores, sonhos, pesadelos, o tenente-coronel viúvo tem agora o apoio da porteira e mulher a dias, não é amor, é companhia, o Jorge alferes casou com a Inês, menina de famílias finas, trabalha no banco e vive jantares abomináveis em casa dos sogros, numa quinta em Carcavelos, o soldado engrenou em serviços de mudanças, empresa do tio, irão a caminho da Baixa no dia 25 de abril de 1974, não tenho dúvida alguma quando um dia se se quiserem resgatar as páginas sublimes que se escreveram sobre o 25 de abril, é inevitável retirar parágrafos luminescentes deste Fado Alexandrino. A reunião dos militares, que começou num jantar, passou agora para uma boate no Intendente, será aí, entre equilibristas e striptease, que se vai viver o 25 de abril.

Um abraço do
Mário.



Chegámos da guerra, apanhámos o fim do Estado Novo, vivemos o 25 de abril e o depois: como e porquê Fado Alexandrino, de Lobo Antunes, é um notável romance ancorado no fado de ex-combatentes – 2

Mário Beja Santos

Esta obra-prima de António Lobo Antunes teve a sua primeira edição em 1983, vem na sequência de um ciclo de romances que versam a experiência dele como tenente-médico em Angola, a sua vida profissional como psiquiatra, os desabafos sobre a sua vida íntima. Fado Alexandrino, considerado pela crítica como um dos seus textos fundamentais, justamente premiado, prende-se com a história de um conjunto de militares no período final do Estado Novo, segue-se o 25 de abril e o PREC e o culminar de um tempo de rescaldo, tudo é passado entre um jantar verdadeiramente funambulesco, a passagem por uma boate no Intendente, haverá um surpreendente final, onde não falta uma atmosfera de orgia.

Romance a várias vozes, por vezes interferindo quase em vertigem o que eles vão dizendo uns aos outros ou o que guardam para si no discurso da consciência, falando desabridamente da vida amorosa onde não faltam desastres e desencontros, no seu trabalho, da situação política do país, temos aqui um retrato da década de 1970 e o início da seguinte.

Já sabemos que há um encontro de militares, de tenente-coronel a soldado, estão a rememorar acontecimentos anteriores ao 25 de abril, vieram todos de Moçambique, terão pertencido a um Batalhão colocado em Mueda ou algures, obviamente que se seguiram itinerários diferentes, o oficial de transmissões está no uso da palavra, colocado no Ministério do Terreiro do Paço a levantar processos e autos, é esquerdista-maoísta, distribuindo folhetos à socapa, “folhetos que entregava depois do serviço nos gabinetes despovoados, toscos e tolos contos da carochinha para aldrabar ingénuos.”

E desabafa para todos os presentes no jantar:

“O que nessa época custava mais na militância política era a falta de contactos, de amigos que nos acompanhassem, da orientação dos camaradas. Nunca nos víamos, nunca nos falávamos, podíamos estar presos ou mortos só o sujeito invisível e desconhecido que nos coordenada sabia, largávamos as informações num envelope, no balcão de uma pastelaria ou de um café, mas não obtínhamos resposta, nenhum fulano convicto e grave, de cara enviesada, nos procurava.”

Intervém agora o soldado, ele está numa empresa de mudanças, iam mesmo à Feira Popular, transportando a mobília de restaurantes inteiros, as girafas, os elefantes e os cavalos do carrossel, houve mesmo cenas de amor assolapado com a Ciganita Dora. Os ex-combatentes já estão bem bebidos, o alferes sugere saírem dali e irem para uma boate do Intendente, mas as conversas estendem-se, as memórias dilatam-se. “Eu sentia o Estado Novo podre, mas firme, disse o oficial de transmissões de pálpebras descidas. Estávamos fartos da guerra, fartos das promessas não cumpridas". 

É a vez do alferes também pôr a sua escrita em dia, recorda que o seu casamento com Inês, menina que vivia num ambiente muito bem, estava a correr mal, a sogra sempre a dar ordens lá na vivenda de Carcavelos, a convidá-los para jantar em cima da hora, conversas descabeladas na viagem com a filha pequena aos gritos.

O tenente-coronel também desabafa, tem como companhia precária a porteira e mulher a dias. O soldado, o da empresa de mudanças, conta que a mulher do tio, em cuja casa ele vive, dera-lhe a trombose, descreve toda aquela cena da ida ao Hospital de São José.

“Uma espécie de claustros gelados, irreais de néon, doentes por toda a parte, cobertos de compressas, sentados no chão, olhando-nos na distintíssima altivez apática do sofrimento, macas, cobertores e camas amontoados numa confusão indescritível, arrastadeiras, algálias, algodão, tribos acocoradas de ciganos comendo em silêncio, funcionários transportando papeis, bêbados a ressonar em longos bancos de pau, gemidos, queixas, suspiros, arranques de vómitos, dois arcos de pedra, munidos dos letreiros HOMENS e MULHERES, a seguir ao relento das retretes, onde as fezes acumuladas se aparentavam a certos rochedos da vazante, e lá dentro, ativíssimos em torno de marquesas vazias, médicos de estetoscópio pendurado ao pescoço como correntes de escanção, examinando, com uma prega douta na testa, radiografias de ossos contra foscas superfícies cintilantes.” 

Seguem-se as peripécias em que os profissionais de saúde decidem que a tia volta para casa com uma receita médica.

Há um certo capitão Mendes que procura o tenente-coronel em 1973, os capitães já começaram a conspirar, Mendes informa o tenente-coronel, cujo nome é Artur de que há solidariedade ativa de todas as unidades do país, Mendes pretende saber se podem contar com o apoio expresso dele, entrega de papelada e rabuja que os militares andam fartos de servir de bode expiatório aos políticos. Segue-se uma longa introspeção de memórias deste tenente-coronel. Ainda estão no jantar, fala-se de tudo um pouco, o nosso alferes maoísta lembra que foi levado pela PIDE.

Agora sim, já estamos no Bar Boate Madrid, rememoram-se festarolas do tempo da guerra, alguém, no bar, anuncia o programa festivo que vai começar, há de tudo desde equilibristas a striptease, as vidas familiares vão-se escancarando, aqui finda a primeira parte, entramos agora na revolução, confesso que encontrei neste livro algumas das páginas mais impressivas e de alto recorte literário sobre os acontecimentos do 25 de abril, como passo a exemplificar:
“Da sala vinham marchas militares, guitarras, vozes de homem que cantavam, um locutor lia de tempos a tempos um pequeno discurso, e a seguir, após um breve silêncio interminável durante o qual o sangue estancava, suspenso nas veias, à espera, mais marchas, mais hinos, mais orfeões, mais música.”

“E foi a primeira vez, contou-me o soldado, que chegámos juntos ao armazém, esbofeteados ao longo das travessas por centenas de telefonias aos gritos. Homens de barba por fazer debruçavam-se nas janelas como bichos de buracos de maçãs, os cães derrubavam os caixotes de lixo esquecidos, o porteiro do hospital dos doidos, de pé junto à entrada, colava o transístor à orelha como se escutasse o mar nas espiras de um búzio, um friozinho acre enregelava as pernas, o tio bufava Se atiram o Governo de pantanas não descansam até arranjar outro ainda pior e nos porem de tanga a pedir esmola, Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas, e o senhor Ilídio, amargo, Olha para os gajos, olha-me só para a alegria deles, caneco, até parece que vão salvar o mundo.”

E vamos ver seguidamente a carripana das mudanças a avançar para a Baixa, vão testemunhar a queda do Estado Novo.


António Lobo Antunes (1942-2026)

(continua)
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Notas do editor:

Post anterior de 12 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28430: Notas de leitura (1970): "Fado Alexandrino", por António Lobo Antunes; Publicações Dom Quixote (1) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 16 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28441: Notas de leitura (1971): Artigo desassombrado sobre a Guiné, ao lado de outro de Zófimo Consiglieri Pedroso, sobre a guerra russo-japonesa na revista Brasil-Portugal, de 16 de novembro de 1905 (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28430: Notas de leitura (1970): "Fado Alexandrino", por António Lobo Antunes; Publicações Dom Quixote (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 10 de Agosto de 2026:

Queridos amigos,
É melhor tarde do que nunca. Não vale a pena andar a verrumar a consciência por ter esquecido este livro monumental (na dimensão e no sopro) em que intervêm ex-combatentes, gente que terá andado para os lados de Mueda, regressam nos inícios de 1970 e começam nova vida, um tenente-coronel que entretanto enviuvara e se vai meter de amores com a mulher a dias, isto muito antes de aparecer uma das figuras mais notáveis da galeria romanesca de Lobo Antunes, dá pelo nome de A nuvem de perfume; o soldado Abílio que trabalha na empresa de mudanças do tio, o oficial de transmissões que é militante de uma organização maoísta, o alferes que casa com uma menina muito bem e que nem sonha com o que lhe vai ser reservado com o 25 de abril, estão todos em jantar de convívio, há para ali um narrador que passa por capitão ou tenente, já há uns capitães em movimento, este jantar mete os desabafos mais íntimos, contam-se os desmandos que cada um vive ou está a viver... e o leitor que se prepare que o 25 de abril só vem mais adiante.

Um abraço do
Mário



Chegámos da guerra, apanhámos o fim do Estado Novo, vivemos o 25 de abril e o depois: como e porquê "Fado Alexandrino", de Lobo Antunes, é um notável romance ancorado no fado de ex-combatentes – 1

Mário Beja Santos

Esta obra-prima de António Lobo Antunes teve a sua primeira edição em 1983, vem na sequência de um ciclo de obras que versam a experiência dele como tenente-médico em Angola, a sua vida profissional como psiquiatra, os desabafos sobre a sua vida íntima. Fado Alexandrino, considerado pela crítica como um dos seus textos fundamentais, justamente premiado, prende-se com a história de um conjunto de militares no período final do Estado Novo, segue-se o 25 de abril e o PREC e o culminar de um tempo de rescaldo.

Romance a várias vozes, por vezes interferindo quase em vertigem o que eles vão dizendo uns aos outros ou o que guardam para si no discurso da consciência, falando desabridamente da vida amorosa onde não faltam desastres e desencontros, no seu trabalho, da atmosfera do país, temos aqui um retrato da década de 1970 e o início da próxima.

Abre as hostilidades o soldado Abílio, veio de Moçambique, aliás como todos aqueles que vão entrar nesta monumental sala de espelhos, é desmobilizado num quartel na Encarnação, sente-se lá e cá, sabemos que os pais, entretanto, faleceram, vai bater à porta da casa onde os pais viveram e onde agora vive a irmã Maria Otília. Vai conversando com os camaradas ao longo do jantar, conta-lhes que a irmã se juntou com o primo da porteira, um mulato que trabalhava no restaurante do aeroporto, e que a vai derreando de filhos,  de porrada, não há lugar para ele naquela casa, irá procurar o tio Ilídio, no serviço de mudanças teremos muitos pormenores mais adiante.

Intervém agora o alferes, dizendo que era casado e com uma filha pequena nessa altura, chegado de Moçambique apresentou-se no banco, tal como o soldado anda por lá e cá:
“Sentei-me no gabinete, fechei a porta e pensei Não houve guerra nenhuma, não andei vinte e tal meses em Moçambique de espingarda às costas, inventei coisas parvas esta noite: a disenteria, a água choca, os mortos, os feridos, o oficial de sapadores que ficou sem o braço ao desarmar uma mina. Pensei Não houve guerra não houve guerra não houve guerra não houve guerra, e comecei devagarinho a esquecer-me. Quando me trouxeram o café, às onze da manhã, nunca saíra de Lisboa e África era os nomes dos rios que se decoravam na escola e a gente esquecia logo a seguir, para os substituir por serras, gramática e o ramal da Beira Baixa. Olhava as pessoas, meu capitão, as secretárias, os colegas, os empregados, os contínuos, despachava requerimentos, folheava propostas, assinava relatórios, e pensava É claro que ontem estive cá, que merda devia eu para ter chupado tantos sonhos esta noite?”

A obra tem um narrador, um tanto misterioso, pensamos que por vezes é um tenente ou um capitão. Temos agora o oficial mais graduado a apresentar-se, tenente-coronel, foi comandante de batalhão desta gente, a mulher morreu-lhe de cancro, vai conversando com um oficial de transmissões, este queixa-se da vida cara, o tenente-coronel encontra a casa vazia, vazio anda ele, não deixa de meditar no futuro:

“Que vou fazer agora um ano inteiro, atrás de uma secretária, a dar ordens a sargentos bolorentos, e depois de novo Angola ou Guiné ou Moçambique e vinte e tantos meses de guerra, armas, caixões, rostos cansados de sobreviverem todos os dias ao próprio medo, à própria inquietação, ao próprio pequenino desespero tenaz a evaporar-se…”

Outra figura em cena neste jantar de largas centenas de páginas: 

“O oficial de transmissões morava com a madrinha surda e uma cadela gorda, às manchas brancas e pretas, sem raça, num andar muito velho, de salas enormes, na rua por detrás da feira popular (…) A minha madrinha morreu em setenta e cinco, gasta da PIDE ir lá a casa de madrugada, buscar-me para os interrogatórios.” 

Interrompe o tenente-coronel para se queixar da então vida sem rumo, atropela o oficial de transmissões, vai descrever a sua vida de esquerdista-maoísta, iremos até às profundezas de uma organização ultraminoritária sonha em revoluções, assaltos e atentados com esquemas de completa risota.

É a vez do alferes contar a sua história, os seus amores pela Inês, uma menina oriunda de um meio muito bem a viver numa quinta em Carcavelos, houvera casamento apressado, a Inês já ia de esperanças, o nosso alferes, que se chama Jorge, recorda que lá em Moçambique um catequista lhe vendeu uma menina, houve que pagar dote pela criança, perpassa na narrativa um dos fantasmas mais dolorosos do colonialismo.

O tal capitão, que às vezes se assume como narrador pergunta ao soldado Abílio como é que ele se adaptou ao trabalho, ele responde-lhe e bem divertido:

“Chegava às oito da manhã ao armazém, com os vidros das janelas lá no alto, junto ao teto de zinco, todos partidos, paredes fuliginosas, as palavras NÃO FUMAR, a encarnado, pálidas como batom numa camisa velha, móveis e caixotes e armários coxos que uma claridade difícil, a vara, vinda não se sabia de onde, iluminava, revelando superfícies poeirentas, estofos devorados pelos ratos, armações de bidés, a gaiola do escritório do tio à entrada. Era aí, meu capitão, do lado de fora, claro, que se aguardava o serviço do dia (Mudar o recheio do número Tal da rua Tal para a avenida Tal, trazer a tralha mais pesada de uma vivenda em Caneças, ir a este endereço de Caxias rebocar dois pianos para a Amadora), batendo as solas no chão com frio, fumando cigarrecos baratos, observando o céu descolorido pelas fendas no telhado. Havia uma espécie de galeria precária no primeiro andar, onde se deixavam as lancheiras do almoço, se mudava de roupa e se comia, com um postigo para a cerca do asilo dos malucos, na qual miseráveis homenzitos de farda castanha gesticulavam no meio de árvores polémicas. O senhor Ilídio entrava às oito e meia sem cumprimentar ninguém, soprando a sua asma feroz de pacaça num susto de roncos e de silvos, de barba crescida e olhos inflamados por insónias tormentosas, palpava o casaco à procura da chave e encerrava-se no cubículo entulhado, carimbando faturas, protestando contra a anarquia de papéis que ele próprio segregava.”

O soldado Abílio descreve os outros empregados, um velho a quem faltavam três dedos e um tipo magro que não falava nunca.

Como já se preveniu, esta escrita prima por excessos, cenas delirantes, a paixão de Abílio pela Odete, que se saberá mais adiante que é a Dália da organização maoísta, nesta altura do andamento do jantar o nosso tenente-coronel já tem informação que os capitães andam muito agitados com a possibilidade dos milicianos virem a concorrer na escala, o tenente-coronel medita na sua infância e na sua juventude e temos mais uma história de caixão à cova, o tenente-coronel mete-se de amores com a mulher a dias, a filha entra de surpresa lá em casa, cobre a boca aberta com a mão numa infinita surpresa de criança.

Vamos seguidamente conhecer a história do oficial de transmissões lá no Terreiro do Paço, a fazer vigilância em nome da sua organização maoísta, que só sonha com revoluções, atentados e raptos e irá planear um assalto a um banco, dada a sua exiguidade de fundos.


António Lobo Antunes (1942-2026)

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 9 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28419: Notas de leitura (1969): Nos 100 anos do historiador Padre Henrique Pinto Rema e onde fala dos Lusíadas e a Guiné (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28404: Notas de leitura (1968): "Os Anos da Guerra, 1961/1975, Os Portugueses em África, Crónica, Ficção e História", por João de Melo; Círculo de Leitores e Publicações Dom Quixote, 1988 - 2 (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Maio de 2026:

Queridos amigos,
Foi bom revisitar esta obra pioneira da literatura da guerra colonial. Dos autores escolhidos, alguns irão figurar como figuras proeminentes da literatura contemporânea, caso de António Lobo Antunes, Carlos Vale Ferraz, Lídia Jorge, Álvaro Guerra ou João de Melo. Este último, o organizador da antologia, deu também voz a escritores nacionalistas que se iriam impor como nomes sonantes, caso de Luandino Vieira ou Pepetela. Ninguém ignora que de 1988 à atualidade este subgénero literário cresceu desmesuradamente, falta-nos um João de Melo para nos dar uma panorâmica atualizada da evolução desta literatura, na multiplicidade das suas vozes. Porque é indispensável ir acompanhando tudo quanto se escreveu em Angola, Guiné e Moçambique, e se os diferentes candidatos a organizadores não se sentirem com traquejo de se meterem na empreitada a uma só voz, então que façam a organização a três vozes. Precisamos de, como de pão para a boca, de tal iniciativa.

Um abraço do
Mário


Revisitar uma obra de referência sobre a história da literatura da guerra colonial – 2

Mário Beja Santos

Os levantamentos de obras literárias relacionadas com a guerra colonial são poucos e estão perfeitamente identificados. A primeira iniciativa coube ao escritor e ex-combatente João de Melo, a primeira edição de Os Anos da Guerra, 1961/1975, Os portugueses em África, Crónica, Ficção e História, data de 1988 e abarca obras que se prendem com a preparação militar, os teatros de operações da Guiné e Angola, obra em dois volumes com edição do Círculo de Leitores e Publicações Dom Quixote. Como é óbvio, a edição está completamente esgotada, mas ainda é possível através de vendedores online conseguir adquiri-la por cerca de 30€, tanto a edição do Círculo de Leitores como a de Publicações Dom Quixote.

Este segundo volume abre uma apresentação histórica da guerra em Moçambique feita por Joaquim Vieira, e desse teatro de operações vamos retirar um texto assinado por Carlos Vale Ferraz, que está inserido na obra-prima deste escritor intitulada Nó Cego, primeira edição em 1972; muda-se de direção e Joaquim Vieira contextualiza os acontecimentos da Guiné, há belas páginas de Álvaro Guerra, como também de José Martins Garcia, autor de uma obra de referência, Lugar de Massacre; de novo Joaquim Vieira apresenta uma exposição sobre as forças armadas portuguesas, irão intervir escritores como Lobo Antunes, Lídia Jorge ou João de Melo.

Carlos Vale Ferraz recenseou admiravelmente o modo como terá sido apresentada a operação Nó Górdio, parecia ser a solução mágica para acabar com a guerra de guerrilhas em Moçambique:
“Meus senhores, hoje é um dia histórico! – assim começou o general antes de prosseguir:
- Vamos dar início ao planeamento final da operação que desequilibrará decisivamente a situação sociomilitar em Cabo Delgado a nosso favor. Vamos dar a estocada de morte no coração do inimigo no planalto dos Macondes. – Sorriu a observar o efeito das palavras na assistência e continuou:
- Nome de código: Nó Cego, classificação de segurança: muito secreto. Com esta operação inauguraremos a época da guerra de grandes meios em ordem ao aniquilamento total do IN. Vamos concentrar o nosso esforço aqui!

Quando o general pronunciou ‘aqui!’, um coronel atarracado, de barba cerrada numa queixada tetraédrica a fechar uma cabeçorra demasiado grande em relação ao corpo, apontou com uma lapiseira extensível três círculos desenhados a cores sobre a mica que cobria os mapas que ele próprio destapara anteriormente, com gesto de contrarregra a correr a cortina do palco.

- Graças aos esforços conjugados das repartições de informações militares e da DGS é agora possível saber a localização exata das três grandes bases IN no planalto dos Macondes: a Gungunhana, a Moçambique e a Nampula. Graças às essenciais modificações em comandos, com a vinda do senhor brigadeiro para o setor de operações e do senhor tenente-coronel para o Batalhão de M., a situação alterou-se profundamente para melhor. – O General fez uma pausa, que o coronel aproveitou para colocar novos mapas, e prosseguiu:
- O conceito da operação é o seguinte: cerca-se esta zona – o coronel apontou -, aproveitando as estradas existentes e construindo com a engenharia as que faltam, para fechar um quadrado de cerco que será guarnecido com emboscadas permanentes realizadas por tropas normais e patrulhamentos regulares com esquadrões de reconhecimento. Quando a ratoeira estiver montada, quando ninguém puder entrar ou sair, lançaremos ao assalto das bases as nossas companhias de tropas especiais, os comandos para a base Alfa, nome de código de Gungunhana, os paraquedistas para a Bravo, a Moçambique e os fuzileiros, em segunda fase, para a Charlie, a Nampula. – Os oficiais do Estado-Maior e os civis das informações abanavam a cabeça de aprovação. – Há dúvidas? - Perguntou o general sem as esperar, continuando:
- Dentro deste quadrado tudo o que mexer é inimigo, será a guerra total! Nesta guerra, meus senhores, não existe a clássica divisão estabelecida entre povos civilizados de cultura cristã ocidental, que distingue combatentes e civis não beligerantes, nesta guerra as próprias populações, de acordo com a estratégia marxista, são o sustentáculo de subversão. Assim, todo o ser vivo encontrado é um inimigo a abater. Esta é uma luta de vida ou morte!”


Recorda-se ao leitor que João de Melo entendeu fazer esta antologia a quatro mãos, ou seja, introduziu alguns textos de escritores africanos ligados às chamadas lutas de libertação nacional.

Antes das suas publicações em livros, Álvaro Guerra publicou um conto intitulado “O Tempo Em Uane” em Antologia do Conto Ultramarino, organização de Amândio César, em 1972 e, anteriormente, em Histórias Breves de Escritores Ribatejanos, Antologia organizada por António Borga, Lisboa 1968. A obra consta neste volume de Os Anos da Guerra, mas preferi escolher um texto de um dos seus primeiros livros, intitulado O Disfarce, que teve a sua primeira edição em 1978:
“Sugeriram-lhe que deitasse fogo à aldeia antes de se irem embora e ele recusou porque a sua guerra não era a mesma em que se estava a bater, a sua ainda não tinha começado, seria uma guerra de ganhar ou perder e não aquela, se bem que duvidasse que essa outra guerra alguma vez chegasse. O mais rapidamente que puderam iniciaram a corrida desigual através das picadas traiçoeiras, corrida contra a surpresa que estaria montada algures no seu caminho (…) Foi logo a seguir. Caiu em cima deles a surpresa, uma chuva de ferro, estampidos e silvos de ar vergastado e quedas e ramos partidos e pragas e explosões e o gargalhar fantasmagórico das rajadas matadoras e o homem ao lado dele com o sangue no ventre e nas mãos que disse ‘Ai, mãe!’ e morreu.

Atrás da sua árvore levou a mão ao bolso e tirou-a, a reluzente granada com quem os seus dedos andavam calhados de amor e vício, puxou a argola amarela num repente de furor e ficou um momento a mirá-la, a cavilha apenas presa pelos dedos brancos de força enquanto, desfocado, o cadáver do ventre sangrento o olhava fixa e friamente; jogou-se para a luz, para lá do escudo eleito, e atirou-a para de onde vinha a morte sonora e invisível que semeava surpresas de sangue. Por um momento foi a rainha da metralha e da luz ondulante de calor e do inacessível outro lado da estrada e foi esperança também, soturna esperança subindo numa nuvem de pó castanho após deflagrar e se desfazer como um velho astro em meteoritos escaldantes. Mas já não estava sobre o coração, nem à cintura, nem no bolso, e ele ficou terrivelmente tranquilo, monstruosamente tranquilo e sozinho, a pensar na mulher de quem gostava, na adolescência provinciana e em certos lugares seus preferidos e em como eles seriam se e quando lá voltassem, enquanto, tranquilamente, disparava a metralhadora. Tudo estava aviado, até o esquecimento.”


Outro autor que se impôs nas décadas de 1970 e 1980 foi um ex-oficial que teve comissão na Guiné, José Martins Garcia, irá ter obra extensa e variada, mas houve um livro que então ganhou notoriedade e ainda hoje é motivo de estudo académico, intitulado Lugar de Massacre, com primeira edição em 1975, distingue-se por uma inteira rebeldia, quadros de regabofe, com tiradas delirantes, atmosferas surreais, fica aqui uma amostra dessa trama que oscila entre a sátira e o truculento:
“Eram sete, na camarata, todos por conta da Neuropsiquiatria, no Hospital Militar de Bissau, no mês de maio de 1968, gozando os benefícios do ar condicionado e da desintegração psíquica. O maior falador chamava-se Barnabé e fora enlouquecido por problemas alimentares. Contava as suas desventuras várias vezes por dia, amaldiçoando o ex-comandante do batalhão, um diabético insuportável, cujo ódio aos saudáveis atingira a demência, a ponto de punir com alguns dias de prisão todo aquele que ousasse levar para a mesa qualquer iguaria além da ementa.

- Estou vingado! – rematava o Barnabé.

Vingado pelo novo Governador, de quem já circulavam notícias contraditórias: para alguns tratava-se de mais um louco; para outros, de um justiceiro. Chegara ao batalhão do comandante diabético, vira o descalabro da unidade e prevenira: ‘Faça as malas’. Dez dias de prisão. Justiça.
- Há um mês que estou aqui, nos malucos – disse Barnabé. – Ao fim ao cabo, não se está mal. Vais ver como te habituas…

Desciam para a consulta, empijamados. Mostravam-se atulhados os corredores do hospital. Desde as pernas partidas às chagas repugnantes, desde as bochechas inchadas por abcessos dentários até às vítimas trémulas do paludismo. E havia os que, de muletas, entravam para a grande lista das vítimas das minas, sem pés, às vezes sem pernas. Um bafio monstruoso, agora acentuado pela chuva (…) – Não tenho nada contra o seu riso – disse o psiquiatra. – O riso liberta. Mas, quando puder, fale.

Voltou à camarata, ao entardecer, e reconheceu que os helicópteros eram reais. Foi até à varanda e pôde certificar-se da existência de um grande inseto acionado por hélices. Do bojo eram retirados os feridos envoltos em ligaduras. Depunham esses montes de carne humana em macas de cabos luzidios de tanto serem percorridos por mãos suadas de maqueiros. O hospital absorvia toneladas de carne esfacelada, múmias recentes, arrobas de membros partidos, porque a estação das chuvas trazia o aumento dos desastres bélicos.

Mas quem não perdia uma só de tais cenas ensanguentadas era o alferes Jardim, um novato que, antecipando-se à sorte, chegara à Guiné já absolutamente desequilibrado. Tinha amado a tal ponto os estudos de Engenharia que não lhe escapava manivela, maquineta, alavanca ou válvula sem verificação das possibilidades funcionais. Adorava a eficiência do helicóptero. Mal lhe ouvia o rumor, corria para a varanda, envergando o pijama mais porco de todo o hospital, porque a paixão pela técnica o levava a oleosos sítios, onde chafurdava, feliz, em porcaria de toda a sorte, limpando em seguida mãos sumárias ao pijama já de cor indefinida. Ficava fascinado pela máquina. Assistia, soprando entusiasticamente, à descolagem. Seguia com olhos piscos até à confusão da máquina com a bruma. E suspirava, saudoso, na despedida, todo entregue à esperança da próxima carnificina.”


Assim se põe termo a uma importante obra que se revisita com prazer, obra pioneira, com enquadramento histórico de Joaquim Vieira e uma antologia variegada de onde emergiram vultos literários como João de Melo, Álvaro Guerra, Carlos Vale Ferraz ou José Martins Garcia.

João de Melo
Carlos Vale Ferraz (1946-2025)
José Martins Garcia (1941-2002)
Álvaro Guerra (1936-2002), imagem dos Arquivos da RTP, com a devida vénia
Duas imagens retiradas do livro "Os Anos da Guerra", organização de João de Melo
Capa da edição de Os Anos da Guerra, Publicações Dom Quixote
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Notas do editor:

Vd. poste de 28 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28382: Notas de leitura (1966): "Os Anos da Guerra, 1961/1975, Os Portugueses em África, Crónica, Ficção e História", por João de Melo; Círculo de Leitores e Publicações Dom Quixote, 1988 - 1 (Mário Beja Santos)

Último post da série de 2 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28394: Notas de leitura (1967): O espólio fotográfico de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975) - 2 (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28382: Notas de leitura (1966): "Os Anos da Guerra, 1961/1975, Os Portugueses em África, Crónica, Ficção e História", por João de Melo; Círculo de Leitores e Publicações Dom Quixote, 1988 - 1 (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Maio de 2026:

Queridos amigos,
A iniciativa antológica de João de Melo foi o ponto de partida para outros estudos e investigações e é de elementar justiça recordar Rui de Azevedo Teixeira e Margarida Calafate Ribeiro. Estávamos em 1988 e o autor de "Gente Feliz com Lágrimas" questionava se havia uma geração literária da guerra colonial, pelo que hoje se sabe este subgénero literário cresceu e multiplicou-se, tem ficção e História, já conheceu algum esplendor na literatura memorial e iniciativas se multiplicam para conhecer outros agentes que não propriamente os ex-combatentes, caso das mulheres, das enfermeiras paraquedistas, de quem recebia correio com a assumida responsabilidade de ser madrinha de guerra e, mais adiante, filhos de ex-combatentes interrogam o significado da guerra que os pais viveram e, inclusivamente, como aquela guerra veio a confluir no destino das famílias.Vamos agora ao segundo volume, que este foi só o primeiro.

Um abraço do
Mário



Revisitar uma obra de referência sobre a história da literatura da guerra colonial - 1

Mário Beja Santos

Os levantamentos de obras literárias relacionadas com a guerra colonial são poucos e estão perfeitamente identificados. A primeira iniciativa coube ao escritor e ex-combatente João de Melo, a primeira edição de Os Anos da Guerra, 1961/1975, Os portugueses em África, Crónica, Ficção e História, data de 1988 e abarca obras que se prendem com a preparação militar, os teatros de operações da Guiné e Angola, obra em dois volumes com edição do Círculo de Leitores e Publicações Dom Quixote. Como é óbvio, a edição está completamente esgotada, mas ainda é possível através de vendedores online conseguir adquiri-la por cerca de 30€.

João de Melo abre a edição refletindo sobre a colonização portuguesa, a literatura de guerra, questiona se há ou não uma geração literária da guerra colonial, põe em cima da mesa um lote de nomes da escrita, não esquecendo os nomes daqueles que escreveram literatura colonial anteriormente à guerra. Cabe a Joaquim Vieira um ensaio sobre África na década de 1960. À data em que escreve este ensaio, 1984, reescrevendo-o em 1987, falando desse lote de obras já publicadas, dirá não acreditar que existisse uma reconhecida obra-prima. Juízo temerário, digo eu, a este tempo já tinham sido publicadas algumas obras de arromba, e cito: Nó Cego, por Carlos Vale Ferraz, Os Cus de Judas, por António Lobo Antunes, Lugar de Massacre, por José Martins Garcia e Autópsia de um Mar de Ruínas, por João de Melo (a primeira edição é irrefutavelmente uma obra de referência. Acresce que Os Anos da Guerra é de algum modo uma conversa em sala de espelhos, aparecem os escritores portugueses e os escritores africanos independentistas, tais como José Luandino Vieira ou Pepetela.

Limito-me agora a algumas lembranças de escritores intervenientes neste primeiro volume.

Primeiro, um extrato do romance de Álamo Oliveira intitulado Até Hoje (Memória de Cão, 1967), nitidamente autobiográfico, um suspiro de quem vem da Ilha Terceira:
“Viera da ilha com seus horizontes azuis, punhados de verde e réstias de cinza. A grandeza da terra diminuía perante a grandeza do mar que assumira como seu. Viera como cavalo manso atrelado à carroça da Pátria – esse fetiche desmantelado que há muito lhe devorava os intestinos para vomitar de seguida o asco, a pobreza, enchendo o saco da sua história de lixo triste e podre. Era pela ilha que João se deixava escorregar, a memória atada a todos os tempos, lugares, pessoas, sonhos intemporais. Ilha redonda ou pão de milho, hóstia desconsagrada de franja roída, suas gentes voltadas para o mar – o deus do pão e da aventura e também do medo e da saudade. João vinha do lado norte mais alto e ventoso, os campos rasos e verdes, casas a brilhar de cal, pequenas, baixas, conchas perdidas na ilha perdida. Passara a infância embrulhado no cheiro saboroso que o suor empresta às pessoas, ao tempo, às coisas. Eram perfumes silvestres – muita bonina, conteiras, faias do Norte, quase bedum de esperma, queijo (…) E João, perdido naquele barco enorme, no meio de mil duzentos e cinquenta e três homens, lá ia a caminho da guerra como se fosse voluntário dela. Destino: Guiné.”

Segundo, um extrato de Autópsia de um Mar de Ruínas, de 1984, também nitidamente autobiográfico:
“O furriel enfermeiro sacou rapidamente da faca-de-mato e cortou-lhe as calças, o dólman e a camisa. Fazia-o com a determinação dos homens perdidos, dos homens que não iriam, nunca mais, perder a sua memória dos outros e de si mesmo. Cortava grandes pedaços de tecido à navalhada e estava já ensopado daquele suor de lágrimas que tem a espessura da chuva e o salitre de uma navegação mortal. Ao ver os intestinos espalhados por todo o baixo-ventre do ferido, abriu muito os olhos e disse três caralhos à vida, duas porras e três conas de madrinhas-de-guerra aos capitães do Norte e, pondo-se a coçar a cabeça, sem saber o que faria àquele balão fumegante, começou por tomar as mãos do Gonçalves e disse:
- Juro que não te vou deixar morrer, irmãozinho.

Aquelas mãos estavam, porém, tão rígidas, nos dedos entrelaçados que formavam uma concha para segurar as suas vísceras, que nenhuma promessa as obrigaria a deixar de praticar o último grande gesto da sua vida.

- Pelo amor de Deus, meu furriel: tenho mulher e três filhos!

Um por um, os dedos do furriel soltaram os dedos do soldado, e então as tripas rolaram-lhe um pouco para as virilhas e pareceram aumentar de volume. Eu vi duas solidões – de – homem enfrentarem-se num olhar; ouvi que um deles continuava a lembrar três filhos e uma mulher, enquanto o outro dizia porra, porra, porra; dizia Chamem-me um helicóptero, Chamem-me um helicóptero com médico e serviço de sangue e dizia-me a mim Onde está o alferes? E disse-me ainda, sempre no mesmo tom, como quem comanda uma tribo contra um incêndio ou chama os náufragos todos pelo nome:
- Corre-me aí à frente a ver se há outros feridos graves, Renato. Chama-me o alferes. É preciso um helicóptero com serviço de sangue.

Corri, corri, corri, e nunca mais deixarei de correr por ali fora; tropeçava em tudo, caía, levantava-me. Havia na minha boca um sabor a vísceras expetoradas e eu caía de novo. Fugir por ali adiante e nunca mais deixar de correr o resto da vida, assim mo pediam todos os órgãos conhecidos e desconhecidos do meu corpo, enquanto não sobrevinha um enorme vómito de mar ou um tiro que pusesse termo à minha solidão de animal acossado pelo fogo. Aquelas coisas não podiam estar a acontecer-me a mim: vira-as algumas vezes nos filmes, ouvira falar delas à distância e com ouvido distraído; faziam parte da morte dos outros e só deles, não podiam estar agora a acontecer-me a mim (…) – Ajuda-me, Renato. Ai, que eu morro!

Ajoelhei-me ao lado de Sérgio e pensei em poder acariciar devagarinho o seu pequeno rosto ainda imberbe. Tinha todo o mundo fechado nas minhas costas: limbo, cemitério novo, morte miúda e cada vez mais numerosa da minha aflição, não podia ver nem ouvir mais nada. Dei uma corrida para junto do furriel enfermeiro, disposto a trazê-lo de empurrão na minha frente, e fui dar com ele de joelhos no chão, lavado em suor. Não era certo que rezasse, por quanto vi que procurava desesperadamente a veia perdida do Gonçalves. Que tenho três filhos e uma mulher, meu furriel! E pensava ainda poder aplicar-lhe um soro e cumprir a promessa de que não o deixaria morrer. Acabara de ligar-lhe todo o ventre e administrara-lhe repetidas doses de hemostáticos, os sopros angélicos das suas ampolas de cardiotónicos, os sininhos mágicos das suas mãos de fada com avental de mãe de Deus. Era um homem desesperado porque lutava contra esse cordão azul que se perdia no fundo da carne, tentado pescar o seu último peixe com o anzol da agulha mal biselada.”


Ex-combatente e escritor João de Melo
Álamo de Oliveira (1945-2025)
Manuel Alegre, deve-se-lhe o mais belo poema feito por um português sobre a guerra colonial
Álvaro Guerra (1936-2002)

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 25 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28376: Notas de leitura (1965): O espólio fotográfico de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975) - 1 (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28346: Notas de leitura (1960): "O Imenso, Sereno e Doce Rio", de Rui de Azevedo Teixeira; Guerra e Paz Editores, 2023 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 13 de Maio de 2026:

Queridos amigos,
A literatura da guerra colonial tem uma dívida impagável com o labor de Rui de Azevedo Teixeira, ele organizou congressos internacionais sobre a guerra colonial e a sua literatura, publicou livros como A Guerra Colonial e o Romance Português, é autor de uma biografia de Jaime Neves, oficial dos Comandos que teve um papel preponderante no 25 de novembro de 1975 e como romancista escreveu uma trilogia, aqui se apresenta uma síntese da sua última obra intitulada o Imenso, Sereno e Doce Rio, apresenta-se como o termo de um itinerário que começou na guerra de Angola, Angola a que ele voltará no segundo romance, está agora na meia idade e vai viver uma vibrante paixão com uma militante do PCP, viverão entre os jardins do Éden e os do Inferno, ambos sentiam no outro o fascínio pelo melhor inimigo. O escritor questiona se não se viveu neste romance o triângulo dramático de Circe, Ulisses e Penélope.

Um abraço do
Mário



Oficial dos Comandos em Angola, professor universitário, e agora uma violenta paixão

Mário Beja Santos

A literatura da guerra colonial tem uma dívida impagável com o Rui de Azevedo Teixeira, na foto à direita. Este Doutor em Literatura Portuguesa Contemporânea organizou os dois primeiros congressos internacionais sobre a Guerra de África, bem como os respetivos livros; deve-se-lhe um indispensável estudo sobre a guerra colonial e o romance português, escreveu sobre a guerra em Angola e, mais recentemente, no estatuto de romancista, publicou O Elogio da Dureza, O Longo Braço do Passado e em 2023 O Imenso, Sereno e Doce Rio, Guerra e Paz Editores.

Vamos acreditar que se trata de uma trilogia, em O Elogio da Dureza temos uma mocidade com muitas leituras, uma vida familiar cruenta, sentiu-se impelido pelo fascínio da força, iremos ler o que era a preparação de um Comando, tudo entremeado com passagens daquilo que o autor chama Diário Incerto; fará a guerra em Angola que será um palco revisitado no seu romance O Longo Braço do Passado (não esquecer que o autor foi professor em Angola nos tempos dramáticos da guerra civil). Acabada a guerra lançou-se nos estudos universitários e após a licenciatura ensinou na ilha da Madeira, aqui conhece Iza, haverá casamento “sublime, sólido, sagrado”. E afastamento relacional com os seus pais. No segundo romance, portanto, em Angola, haverá uma paixão que terá triste fim porque Iza é o pilar da vida de Paulo de Trava Lobo.


Estamos agora no terceiro romance, já morreram os pais de Paulo, ele e Iza caminham para a meia-idade, vivem no Porto, ele gosta de estadear umas temporadas na Toca do Lobo, lugar onde passou a sua infância e juventude, continua a dedicar bastante atenção ao seu Diário Incerto, sente-se envelhecer muito devagar, o casal passa férias em antigas colónias e depois recebe convite para vir lecionar em Lisboa. Aqui volta a encontrar Ana Roriz, sua colega e militante comunista no tempo em que ele fora assistente universitário no Porto. Paulo instalou-se perto do Campo Pequeno, a mulher ajudou-o a retocar o ambiente, só que Iza foi convidada a dar aulas em Zurique. Está criada a atmosfera para uma segunda infidelidade, a inevitável tentação e a dita Ana Roriz. Vai agora tecer-se uma tapeçaria em torno de uma relação que se poderia tornar à partida improvável entre uma mulher filiada do PCP e um académico de boa cepa conservadora.

Começam por almoçar juntos, depois passeiam do Saldanha ao Rossio, depois descobrem o Alentejo juntos, vão até Marvão. Muita conversa com muitas tiradas literárias. Iza aparece nos sonhos de Paulo. No seu Diário Incerto, ele apresenta Ana Maria de Jesus Almeida Roriz:
“Licenciada em Clássicas, professora do ensino secundário, requisitada pela universidade para assessorar a vice-reitora. Depois do primeiro divórcio, a senhora dra. Ana Roriz desligou-se um tanto da militância. Regressou em força anos mais tarde. Tão em força que chegou a ser controleira. Os seus dois ex-maridos eram militantes comunistas e o homem com quem vive, um tal João Gomes, também da militância.”

Paulo desabafa, tem uma longa história relacional com os comunistas, como estudante em Coimbra, diz ter apanhado o comunismo nas matas de Angola, apanhou o comunismo no PREC e, sob o comando de Jaime Mendes, tiraram a tosse aos comunas, voltou a apanhar com o comunismo em Angola, considerava-se definitivamente vacinado, não podia deixar de apreciar o idealismo ingénuo de Ana Roriz. Há, contudo, ambivalências e paradoxos comportamentais em Paulo: “O comunismo era um inimigo pelo qual, sem deixar de sentir um ódio consistente, Paulo sentia também curiosidade e, em relação a alguns comunistas mais velhos, respeito e até admiração.” Paulo e Ana personificavam o defeito perfeito.


Em determinados momentos, Paulo via Ana como um robô, engessada na criminosa ideologia marxista-leninista. Têm arrufos momentâneos, há roturas curtas, logo a seguir vibra a paixão, há toques permanentes no telemóvel, separam-se e reconciliam-se. Paulo recorda o seu caso com Diana Sotirova, assunto tratado no segundo romance desta trilogia. Quando a paixão vibra mais forte, evitam-se as discussões políticas. Paula entende que deve dar um quadro da sua formação, ele que foi alferes dos Comandos, “nessa guerra em que uma esmagadora maioria de homens bons lutou por uma ideia, mais do que errada, romântica, fora do tempo”, recorda que o professor da escola primária metia na cabeça dos miúdos a fervente ideia do Império, e fala concretamente de si: “O alferes, o rapaz de vinte anos que, comandando outros rapazes, tinha de se desenrascar mandando matar e matando ele próprio. Um posto bem pior do que o do soldado.” Ana ouve todas estas declarações e já fala em casamento simbólico.

Procuram ter uma habitação para viverem juntos, a solução encontrada foi dececionante, uma autêntica alfurja em Cascais. Paulo viaja até Zurique, regressa e temos novamente os arroubos da paixão. Os meses passam, Paulo já vai dormir a casa de Ana, o tal Gomes vai ficando arredado, um dia será mesmo mandado embora. Temos cenas de ciúmes, aparecem cartas anónimas. Paulo é convidado pela Universidade de Colónia para dar um cursinho sobre temas literários, antes de ele partir viveram a desesperada paixão física, Iza aparece vinda de Zurique, no regresso a Lisboa, Paulo desanca no Diário Incerto a ideologia comunista, não obstante retoma-se o idílio, vivem juntos, aquilo que Paulo chama uma conjugalidade adúltera, há um ciclo de conferências na universidade, Ana tem funções de secretariado, Iza aparece inesperadamente.

O ambiente na universidade não é favorável aos dois, Paulo parte para a Universidade Eduardo Mondlane, Maputo, já se sente em rotura final com Ana. Paulo organiza com Iza quinze dias de férias na África do Sul, o comboio é assaltado por elementos da RENAMO, consegue escapar são e salvo. Em Lisboa, Paulo vê Ana à distância, encontra-se com outros elementos dos Comandos, temos aqui um outro quadro ideológico, falando da situação mesquinha e sem grandeza nenhuma em que vive o país, eles consideram-se os leopardos, os leões, a seguir a eles vieram os chacais, as hienas, tipos que tiraram licenciaturas trafulhadas e pedófilos e condecorações para ladrões. E depois destas jaculatórias de exaltação nacionalista vão pelos bares, como o Procópio e o Hipopótamo.

Paulo acusa os sinais de envelhecimento, passou a viver sob a ditadura das análises clínicas, amolecia com a idade, passou a estar muito mais atento ao sofrimento dos velhos e dos pobres. Iza e Paulo voltam para o Porto, aparece Ana desvairada a querer apunhalar Paulo, o casal Iza e Paulo sai reforçado desta horrível contenda, é um casal que constitui a unidade de contrários, dois rios de vida que, após se terem colado na paixão formaram um imenso rio único. E aqui finda a terceira e porventura última obra deste ciclo romanesco, Paulo de Trava Lobo e Iza Maria Possolo d’Ornellas de Trava Lobo parecem ter pela frente uma velhice pacata, sem sombra de novas infidelidades.

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Nota do editor

Último post da série de 11 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28341: Notas de leitura (1959): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (5) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28329: Notas de leitura (1958): “Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida”, por Catarina Gomes; Matéria Prima Edições, 2014 (3) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 12 de Maio de 2026:

Queridos amigos,
Creio de ser muito de salutar esta emergência de novas dimensões da literatura da guerra colonial, temos um acervo de décadas com romances, novelas, contos, poesia (incluindo a popular), as obras memorialísticas, a historiografia; gradualmente, foram aparecendo narrativas sobre as mulheres que acompanharam os seus maridos nas comissões militares, as enfermeiras paraquedistas, os retornos de ex-combatentes aos locais onde tinham vivido; mais recentemente, entram em cena os filhos desses ex-combatentes e episódios colaterais, como Catarina Gomes nos conta neste seu magnífico trabalho de investigação em que há filhos que vêm depor sobre o stress pós-traumático dos pais, histórias mirabolantes de correspondência com muitas madrinhas de guerra, até chegarmos à tocante adoção de Pedro Luqueia de Santarém, uma criança encontrada numa operação no norte de Angola, em outubro de 1962 e que foi adotada por um Esquadrão de Cavalaria. É uma nova forma de rever o passado em que os atores são os filhos que se debruçam com o que há de fascinante sobre tais comissões militares que tiveram a virtualidade de mexer com a vida das famílias, para todo o sempre.

Um abraço do
Mário



Pode um filho ter memórias de uma guerra que nunca viveu? - 3

Mário Beja Santos

Multiplicam-se os casos em que a literatura da Guerra Colonial revela uma nova dimensão: são os filhos a visitar os locais onde os pais combateram, os filhos de uma relação entre ex-combatentes e mulheres de Angola, Guiné e Moçambique à procura dos pais e de uma identidade; memórias e testemunhos de mulheres e filhos, e sobretudo estes que querem entender o que o pai viveu na guerra, fazem perguntas depois de ler as cartas que eles trocaram com as suas mulheres ou namoradas, isto sem já falar em recordações de infância marcadas pela violência da guerra. Catarina Gomes é hoje um nome firmado neste tipo de investigações, o que vem conferir uma abordagem diferente àquela literatura em que a memória ou a ficção do ex-combatente estava no primeiro plano.

O livro de que estamos a falar intitula-se Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida, Matéria-Prima Edições, 2014. Em textos anteriores já foram expostas situações do stress de guerra e violência familiar, doença que dá pelo nome de Perturbação Pós-Stress Traumático de Guerra, de um militar que dedicava o seu tempo livre a escrever às madrinhas de Guerra, de uma menina nascida na Guiné cujo pai, à viva força a trouxe para Portugal e foi educada pela avó, falou-se de heróis de militares que refizeram a sua vida em ambiente colonial, de um aviador desaparecido em combate em Moçambique que levou uma viúva ao desespero, sempre na esperança de reencontrar o seu marido.

Hoje mudamos de azimute. Tiago Teixeira, nascido em 1978, é médico voluntário no hospital de Cumura, tenta salvar doentes com tuberculose e VIH/Sida. “Tiago andou por esse país na infância, numa sala de estar no Porto, aos sábados de manhã, sentado ao colo do pai, a olhar aquelas fotos a preto e branco que vinham acompanhadas de nomes de sítios estranhos, como Empada, Mampatá, Bolama.” O filho pensa que o pai nunca lhe escondeu nada, que lhe contava tudo, ele acha que era mais por ele do que pelo filho. Em adolescente, começou a atender telefonemas dos colegas do pai, iam estar presentes com a família nos convívios dos ex-combatentes. Em 2005, o pai e dois colegas seguiram num jipe para a Guiné, anos depois, com um grupo de ex-combatentes criou uma Organização Não Governamental para o Desenvolvimento, a Tabanca Pequena Grupo de Amigos da Guiné-Bissau.

Apareceram melhoramentos na vida dos guineenses, poços de água, canoas a motor. Tiago conta que aquele álbum da infância foi também ganhando vida na mão de pessoas que o pai visitava nas suas idas à Guiné. Uma noite Tiago escreveu, depois de regressar do hospital de Cumura: “Acho que é um regresso em nome do meu pai, da sua fidelidade a esta terra e a esta gente, que o marcaram para a vida, que me marcaram para a vida… É como se um fio me unisse à história do meu pai com este povo há muitas décadas, e eu viesse para aqui para continuar essa história.” O pai de Tiago Teixeira é o nosso confrade José Teixeira.

João Fernandes Saido Jaló lembra o seu pai, o Capitão João Bakar Jaló, um herói militar guineense que combateu do lado português, condecorado com a Torre e Espada. João tem plena consciência das mudanças que ocorreram com a morte do pai, tinha ele oito anos, morto o herói, cresceram as dificuldades, conheceu os calções rotos, andou com os pés descalços, passou a ir buscar lenha ao mato. Com o fim da colónia, seguiram-se os ajustes de contas, os fuzilamentos, o tio, por ser irmão do pai, foi torturado. Em 1976, ele e a família foram expulsos da casa em Catió, as medalhas e as fotos do pai foram confiscadas. João pediu a um professor que lhe redigisse uma carta em português, a pedir para ir para Portugal estudar, entregou-a na Embaixada de Portugal em Bissau, seguiram-se as tentativas de correspondência para Portugal, em 2002 João aterrou em Lisboa a primeira vez; em 2009 foi-lhe concedida a nacionalidade portuguesa. Estuda, acabou o décimo segundo ano, é vigilante na zona de Torres Novas, sonha licenciar-se em Direito.

Trinta e três anos depois de ter voltado da guerra colonial em Moçambique, 29 anos depois de Joana ter nascido, ela e a irmã receberam do pai, como prenda de Natal, um volume cuidadosamente encadernado, mas que devia ser de fabrico caseiro, tinha como título Cacimbo. Sabia que o pai tinha estado na guerra, tinha pisado uma mina, ficou a saber como tudo se tinha passado. O volume tem sublinhados da Joana, há desabafos do pai, tais como: “estarei condenado a ser um limitado descrente onde não cabe a transcendência divina.” E “o mundo não tem poesia nenhuma. Estética nenhuma. O mundo é um acumulado de ocorrências avulso.” Há lembranças da enfermeira-paraquedista que o socorreu depois da explosão da mina; mas para Joana o livro e o blog onde o pai colabora ajudam-na a descodificar o que o pai é por causa da guerra.

“Apesar de uma experiência tão longínqua, num continente onde Joana nunca esteve, há pontes que consegue fazer com ele, como quando o pai se transporta no livro, do chão do pó da picada, onde pisou a mina, para o chão de pó do Largo do Sobreirinho, onde jogava futebol na infância, na aldeia de Aguim. É nesse sítio onde a infância do pai se cruza com a sua que foi implantado um memorial, ‘um paralelepípedo em homenagem aos da aldeia que combateram na guerra colonial’, erigido por iniciativa dos próprios. Para não ferir suscetibilidades, o pai contribuiu. Joana sabe que para o pai não faz sentido que sejam as próprias pessoas a ergueram estátuas às suas memórias. Na escola, Joana não se lembra de ter aprendido sobre a guerra colonial; o que sabe é o que lhe vem do pai e é tudo quanto quer saber sobre o tema.”

Era inevitável, Miguel fala da sua mãe a então furriel enfermeira paraquedista Maria Emília Carvalhinho, seu nome de casada. Os pais do Miguel conheceram-se na base de Tancos. O álbum da mãe fala por milhentas palavras, está ali a referência explícita àquela geração de mulheres que teve a experiência única da emancipação. “Olho para a minha mãe como uma pessoa corajosa, que trocou um percurso previsível por um percurso novo, de algum modo assustador. O facto de ter tido esta mãe abriu-me a mente. Há muita coisa na sociedade atual em que não avançámos. As mulheres sacrificam carreiras para ter família, as mulheres grávidas são discriminadas e podem perder o emprego.” Para Miguel aquela história da mãe pioneira como enfermeira paraquedista ensinou-lhe que as mulheres podem fazer o que bem entenderem com as suas vidas.

Temos por último a história de Pedro Luqueia de Santarém. Tudo começou com a Operação Golpe Baixo, a 16 de outubro de 1962, na povoação de Bembe, no norte de Angola, esteve envolvido o Esquadrão de Cavalaria 122. No regresso, vem uma criança a quem se pôs o nome de Pedro Luqueia de Santarém, porque era o que tinham em comum os homens que o adotaram. Passou a ter identidade e foi batizado. Foi encontrado na operação todo nu, teria cerca de 4 anos. Tornou-se na mascote da companhia, aprendeu a falar português, passou a fazer parte da vida dos militares, veio com eles para Portugal, foi acolhido pela mãe do alferes Sá, numa vilinha no norte de Portugal.

Pedro ingressou como interno nos Pupilos do Exército, entrou depois no Instituto Superior Técnico, onde se formou em Engenharia Eletrotécnica. “Há uns anos Pedro foi a um almoço-convívio do Esquadrão de Cavalaria 122, com a sua mulher e os dois filhos, e esteve tempos infinitos só a cumprimentar familiares de militares.” Mas a história não fica só por aqui. “Pedro tem de Angola, de África, o nome do local de nascimento que lhe vem escrito no bilhete de identidade, o nome do rio angolano que é o seu apelido do meio e a cor preta que é só a da pele, o que ele diz que em Portugal foi ficando branco. Gostava muito de ter a nacionalidade angolana, mas é preciso provar que nasceu lá. Já foi à Embaixada, mas teria de ir ao registo em Angola. Acha que nunca vai conhecer ninguém da família que o ajude a interpretar o que a sua memória entendeu reter, mas continua a colher indícios que o ajudem a perceber quem é, a preencher os vazios de um filme de que só conhece pedaços. Tenta não pensar no que podia ter sido a sua vida.” E conclui com um pensamento positivo: “Estás aqui, não vale a pena. És feliz, apesar de tudo, não há outra hipótese de ser feliz.”

Assim se põe termo a este belíssimo trabalho de investigação de Catarina Gomes.
Catarina Gomes, imagem do Público, com a devida vénia
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Notas do editor

Vd. post anterior de 31 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28309: Notas de leitura (1956): “Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida”, por Catarina Gomes; Matéria Prima Edições, 2014 (2) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 4 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28320: Notas de leitura (1957): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (4) (Mário Beja Santos)