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sexta-feira, 10 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28170: Notas de leitura (1935): "Lenços Negros, Lenços Brancos", memórias na primeira pessoa de um ex-combatente octogenário: Uma breve viagem pela literatura da Guerra Colonial (Intervenção feita na apresentação do livro, na ADFA, em 30/05/2026) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 30 de Junho de 2026:

Em 30 de maio fui à ADFA apresentar o livro do Coronel Manuel Martins Lopes, foi Ajudante de Campo do Marechal Costa Gomes e devo-lhe uma profunda estima. Lá fiz a minha intervenção com um papelinho de notas, tempos depois o Coronel telefonou-me a dizer que a gravação estava péssima e que eu me desse ao cuidado de alinhavar a escrita, será feito um suplemento do jornal ELO, o órgão da ADFA, nesse dia fez-se uma homenagem ao fundador da associação. Confesso que gostei do que escrevi e estou pronto a partilhar com malta do blogue, se achares útil.

Nada mais por ora a não ser um abraço fraterno,
Mário.



"Lenços Negros, Lenços Brancos", memórias na primeira pessoa de um ex-combatente octogenário: Uma breve viagem pela literatura da Guerra Colonial

(Intervenção feita na apresentação do livro, na ADFA, em 30/05/2026)

Mário Beja Santos

Quando e como se deu um corte radical entre a literatura ultramarina e a da Guerra Colonial

A literatura da Guerra Colonial é um subgénero literário, goza da identidade, a despeito da variedade de cenário que contempla, é do senso comum as discrepâncias geográficas dos três teatros africanos. Quando comecei a refletir sobre as memórias elaboradas pelo Manuel Martins Lopes, que combateu em Angola e que depois teve uma comissão com alta responsabilidade administrativa num ponto chave de Moçambique, julguei ter utilidade em comprovar a este auditório que há um corte radical entre a literatura do antes, durante e o após a Guerra Colonial. Na literatura ultramarina há temas-chave recorrentes, seja qual for o pano de fundo da colónia africana: o deslumbramento daa floresta, amores bem ou malsucedidos, envolvendo feitiços, usos e costumes étnicos, a dura vida de trabalho, em alguns casos a denúncia esquiva do trabalho forçado, a aproximação do colono aos ambientes locais, as páginas de descrição da vida na roça, a chegada do barco a vapor… quero só lembrar "Mariazinha em África", de Fernanda de Castro, "Chuva Braba", de Manuel Lopes, "Kurika", de Henrique Galvão, e "A Estufa", de Luís Cajão. Como é óbvio, nada de minas antipessoal e anticarro, as operações para prender ou aniquilar guerrilheiros, a dor da morte dos entes queridos, a tensão permanente na vida dos destacamentos defendidos por arame farpado.

Só mais uma nota sobre a literatura ultramarina. Permitam-me que exemplifique com o caso da Guiné. Em "Estudos Ultramarinos", publicação do Instituto Superior de Estudos Ultramarinos, no seu número 3, de 1959, João Tendeiro publicou um artigo intitulado “Aspetos Marginais da Literatura na Guiné Portuguesa”. Diz o autor com a maior das clarezas:
“A Guiné não nos deu até agora um escritor nativo. No campo da ficção, as poucas obras de fundo têm sido escritas por europeus ou cabo-verdianos. É o caso dos romances e contos de Fausto Duarte e de vários contos esporádicos de Alexandre Barbosa e outros, publicados no Boletim Cultural da Guiné Portuguesa. Mário Pinto de Andrade, se quis inserir, na sua Antologia da Poesia Negra, uma produção poética representativa da Guiné, teve de recorrer a um poema de um jovem cabo-verdiano, Terêncio Anahory Silva.”

Nesta Guiné de que fala João Tendeiro o português era falado por 1157 indígenas analfabetos e escrito por 1153. A literatura que apareceu foi obra de militares ou funcionários coloniais, caso dos "Contos do Caramô", de Viriato Tadeu, os contos publicados por António Carreira, Amadeu Nogueira e outros, em o Boletim Cultural da Guiné Portuguesa. Não ficaram testemunhos do uso do crioulo. O mesmo Tendeiro observa:
“O crioulo enferma de todas as características as linguagens faladas e sem grafia independente. Quer dizer: quando transposto para a escrita fica subordinado ao idioma escrito da região. Não existe uma correspondência entre o crioulo e a ortografia portuguesa. Enquanto em Cabo Verde o crioulo assumiu o carácter de uma linguagem substituta dos idiomas nativos primitivos, enfeudada à língua portuguesa oficial, na Guiné reveste apenas o aspeto secundário língua aprendida, desempenhando entre as populações locais um papel semelhante ao dos idiomas utilizados nas relações internacionais entre os povos civilizados.”


Adiciono mais um comentário sobre a essência da trama literária ultramarina: histórias de aculturação, tratamento de fábulas e contos, em circunstância alguma põe em causa conflitos entre colonos e indígenas, operações de pacificação ou a chamada missão civilizadora portuguesa.


As diferentes fases da literatura da Guerra Colonial

Quando surgiram as primeiras obras, no início da década de 1960, ninguém supunha qual o peso da identidade e da autonomia do subgénero literário. Creio não haver contestação que entre 1961 e 1974 se impuseram incursões literárias de pendor apologético, exaltando as qualidades do soldado português, o valor da missão patriótica em defender o Ultramar, episodicamente foram surgindo romances ou contos onde veladamente, a guerra era tratada como tema incandescente. O exemplo que me parece mais flagrante foram as obras que Álvaro Guerra publicou depois de ter vindo da Guiné, onde fragmentariamente se impunham os desastres da guerra. A este escritor se deve o parágrafo que ainda hoje me comove pelo vigor da sua explosão emocional:
“Por lá chafurdei na lama das lalas, debati-me no turbilhão dos tornados, derreti-me na fornalha de um sol invisível, dissolvi-me na chuva vertical, e amei como um danado aquela terra que me injetou a febre, me secou, me expulsou a tiro. Mas nunca o preço do amor é excessivo, nem a presença da morte o pode aniquilar.”
Houve livros apreendidos pela PIDE, caso de "A Praça da Canção", de Manuel Alegre, teve a sua primeira edição em 1965, penso que o mais belo poema que se escreveu nesta literatura é "Nambuangongo, meu amor", veio publicado logo nesta edição.


Há, como não podia deixar de haver, características diferenciadas de quem escreveu sobre a Guiné, Angola ou Moçambique: são paisagens bem distintas, como distinto era o poderia militar e a capacidade de guerrilha dos diferentes nacionalistas, o que confere aos registos da escrita um quase poder intransitável. No entanto, pode argumentar-se que havia a solidão, a angústia, o fragor do fornilho, o matraquear súbito das armas pesadas e ligeiras de quem fazia a flagelação, é evidente que a perceção destes elementos ganhava um cunho universal. Mas o peso da geografia era indeclinável: 10Km na Guiné ainda hoje não são os mesmos 10Km em Angola ou Moçambique. E mais: os palcos de guerra tinham designações muito próprias, as árvores gozam de nomes próprios, havia intempéries, chuvas diluvianas, mas algo que identifica a narrativa: o crioulo, o tornado, o macaréu, a lepra, os ataques com mísseis. Ora os mísseis fazem parte da evolução da guerra, quem, por hipótese, escreveu um romance com as suas memórias baseado numa comissão militar entre 1965 e 1967, tem de se confinar ao armamento português e dos guerrilheiros da época.

Com o 25 de abril, com a liberdade de expressão, foram surgindo obras, até reedições, caso de "Tarrafo", de Armor Pires Mota, que tinha publicado as suas memórias durante a guerra no Jornal da Bairrada, nem a PIDE nem a Censura deram por nada, publicado no livro, deram conta que se falava de bombardeamentos com napalm, isto quando Portugal negava categoricamente nas Nações Unidas o seu uso em África. A grande safra literária eclode nas décadas de 1980 e 1990, impõem-se nomes, alguns vindos do passado, como Carlos de Matos Gomes, Álamo Oliveira, José Brás, António Lobo Antunes, João de Melo e surgiram mesmo grandes surpresas no virar do século, estou a pensar em "Estranha Noiva de Guerr", de Armor Pires Mota, um romance excecional que a crítica praticamente ignora.

Quando chegámos ao século XXI eram múltiplas as manifestações literárias: estudos militares, excursos históricos, reportagens, olhares da memória, visitas depois da guerra, ensaios, poesia, contos. Não é necessário fazer a contagem de tudo quanto se escreveu, o romance e as memórias superam todas as outras manifestações. Como tenho de fazer aqui uma síntese não pretendo adormecer o auditório, quero também recordar que algumas destas obras são hoje motivo de estudos universitários: é o caso de "Lugar de Massacre", de José Martins Garcia, que perto do 25 de abril pôs as letras em polvorosa, caricaturando os grandes ícones em que se constroem as mitologias militares.

Falando dos militares, independentemente do genial "Nó Cego", de Carlos Vale Ferraz, há relatos feitos por militares que se vieram revelar documentos indispensáveis, caso dos escritos de Salgueiro Maia, que esteve na operação em que se rompeu o cerco a Guidaje, torna-se percetível como o teatro de operações da Guiné estava completamente condicionado à plena iniciativa do PAIGC.

Posto isto, quero recordar a importância das investigações monográficas, dos levantamentos da literatura da Guerra Colonial feitos por João de Melo, Rui de Azevedo Teixeira e Margarida Calafate Ribeiro. Dou ainda conta que apareceram obras diarísticas, umas raramente escritas em cima da hora, outras recompiladas.

Escrevi em tempos que a despeito de uma maioritária falta de qualidade desta literatura, há parágrafos estranhados, há memórias que nenhum investigador pode enjeitar pelo poder que assumem na atmosfera da descrição da guerra, escrita por gente que combateu em terra, mar e ar.

Chegou hora de fechar o pano a esta literatura? Impossível, a obra que hoje analisamos é uma incontestável prova de vida. Finalizo esta minha cogitação antes de passar para a obra de Manuel Martins Lopes retirando um parágrafo de um livro que escrevi sobre a literatura da Guerra Colonial na Guiné intitulado "Adeus, até ao meu regresso" (a literatura dos e sobre os combatentes da guerra da Guiné), publicado pela Âncora Editora em 2012:
“Até ao lavar dos cestos, até estar vivo o último militar, há que contar com as surpresas da vindima, não há um mês em que não surja um título, um depoimento, um olhar sobre aquela guerra que se travou enquanto se caminhava na farroba de lala, entre cipós e tabás, militares acoitados atrás dos morros das formigas, a resistir à fúria das emboscadas, ou dentro dos aquartelamentos, imprecando em noites de flagelação destruidora. Este subgénero literário está muito longe de ter fechado para obras e muito menos para mudança de ramo.”

A singularidade de um itinerário: a família e o lugar, um desvio na vocação, a aprendizagem da guerra, a comandar no terreno conflitual angolano (a identidade dos lenços negros), comandante da polícia na Zambézia numa cativante operação de paz, era o tempo dos lenços brancos, e resultou.

Não vou aqui repetir o que se disse atrás sobre a natureza caleidoscópica das memórias. Há vigorosos testemunhos memoriais há décadas, mas temos de reconhecer que a memória ganha sempre o amadurecimento, graças também à distância do que foi a experiência de guerra. Voltando à Guiné, foi depois do século XX que surgiram depoimentos de grande calibre, caso do comando guineense Amadú Djaló, do fuzileiro José Talhadas ou do paraquedista Moura Calheiros, não contamos já com os documentos deixados pelo major Lobato (o mais longo cativeiro da Guerra Colonial), algumas histórias de companhias, a torna-viagem de quem combateu e volta ao lugar marcante, isto para já não falar num fenómeno relativamente novo que são as memórias dos filhos de quem combateu e que também vão querer conhecer esses pontos em que viveu o pai ou os pais.

As memórias do Coronel Martins Lopes têm a razão de ser de um itinerário único: o orgulho pela terra que o viu nascer e os valores inculcados pela família; os estudos num liceu longe de casa; a inviabilidade de satisfazer a sua vocação, o dinheiro não chegava para tudo; a ida para a Academia Militar e a confissão de que havia um indisfarçável desajustamento; em minúcia, descreve o seu desempenho angolano, a formação da lenda dos lenços negros, que gerou uma convivência que não abranda ano após ano; a mudança de Angola para Moçambique, coube-lhe na roda do destino ter os sentidos apurados para saber comunicar com os dirigentes da FRELIMO as melhores diligência para chegar à paz, que emergiu com o 25 de abril e as decisões de Lusaka. É ocioso dizer que ele não esconde o seu orgulho no vigor da reconciliação que acompanha toda a sua trama narrativa e que o leitor irá conhecer através da história de uma Bíblia apanhada durante o conflito e que agora regressou ao seu lugar. É o simbolismo de uma manifestação que acompanha toda a narrativa e que ilustra categoricamente esta caminhada dos lenços negros para os lenços brancos, a metáfora do mundo lusófono em que nos cremos todos numa irmandade de boa convivência, a da língua e a da História comum.

Parabéns ao autor e a minha profunda admiração por aqueles que o acompanharam com lenços negros e com lenços brancos.
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Nota do editor

Último post da série de 6 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28161: Notas de leitura (1934): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (3) (Mário Beja Santos)

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 – P27537: (Ex)citações (445): Literatura da Guerra Colonial? (Alberto Branquinho, ex-Alf Mil Art da CART 1689/BART 1913)

1. Mensagem do nosso camarada Alberto Branquinho, (ex-Alf Mil Art da CART 1689 / BART 1913, Fá, Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69), advogado e escritor, autor de, entre outros livros, "Cambança"; "Cambança Final" e "Deixem a Guerra em Paz", com data de 11 de Dezembro de 2025:


LITERATURA DA GUERRA COLONIAL?

Livro: “O último avô” de Afonso Reis Cabral[1]

1 – Não venho apreciar o livro - em si mesmo - venho somente dizer que não vi, não li no livro nada para que possa ser designado por “literatura DA guerra colonial”. Também não venho fazer uma apreciação do livro como obra literária.

É que este livro surge publicitado como sendo sobre a guerra colonial.

Aliás, modernamente falando, no conceito de “guerra colonial” tanto cabe uma obra onde se aborde ou onde se escreva qualquer coisa “à volta” da guerra colonial e não somente aquelas obras que tratam daquilo que se passou no terreno, no ambiente próximo ou afim ao conflito ou na sua proximidade, a montante ou a jusante dele. O que, cada vez mais, é voz comum, é que tudo o que se escreva e que, de algum modo, faça menção à guerra colonial, é…. literatura da guerra colonial.

Este livro, para além dos enredos e vicissitudes familiares e de outras relações também próximas, descritas e analisadas por um rapaz, depois, jovem adulto, de guerra colonial nada tem. Tem, isso sim, um avô egocêntrico e difícil que surge ao longo de todo o texto e que, apesar de ter sido alferes miliciano de transmissões sem qualquer actividade operacional, escreveu sobre as suas (inventadas) experiências traumáticas de ex-combatente, apesar de NUNCA ter sido combatente. É que, ressalvada uma breve e rápida referência a Cabinda (sem mais pormenores), o autor coloca toda a acção do livro na zona de N’Dalatando (antiga Vila Salazar) e só depois do “25 de Abril”. Ora, N’Dalatando fica a cerca de 250kms a leste de Luanda e era, antes desses tempos conturbados, local de passeio dos civis residentes em Luanda.

Nunca houve confrontos entre tropa portuguesa e guerrilheiros em N’Dalatando antes do 25 de Abril. Só depois disso foi essa zona área de confrontos entre o MPLA e FNLA, que a pretendiam controlar. A tropa portuguesa esteve envolvida procurando “mediar” o conflito entre as duas forças, como aconteceu, também, em outras zonas de Angola e nem sempre com sucesso.

Aliás, se Angola fosse, por esse tempo, já um país independente, esse conflito seria referido como “guerra civil”.

Todo o envolvimento do avô narrador na sua “guerra colonial” foi nessa zona de N’Dalatando e é essa “inverdade” que o narrador vem mais tarde a descobrir.

2 – Com tudo o que vai escrito atrás não pretendo dizer que toda a literatura da guerra colonial tenha que ser trágica ou dramática. Não, até porque, mesmo debaixo de fogo, acontecem situações com humor ou caricatas, que, naquele momento, não são apreciadas como tal devido às circunstâncias.

Escrevi no prefácio do livro “Memórias boas da minha guerra” do José Ferreira da Silva (Silva da CART 1689):
“A guerra é a guerra!
MAS, mesmo na guerra (em tempo de guerra) surgem, por vezes, imprevistos, situações bizarras e com humor em perfeita contradição com o ambiente que se vive, embora só mais tarde, ao recordar, nos provoque uma gargalhada.”

3 - Meditando sobre a construção literária constante do livro surge uma questão: - Será que o livro poderá ser entendido como uma denúncia de uma falsa literatura da guerra colonial em que, p.ex., o “combatente”, em vez de ser um “oficial de transmissões”, seja um médico ou um outro militar com funções na retaguarda?

4 – Certo é que o autor (narrador) inclui no texto (embora de passagem) uma referência (não muito explícita) ao sofrimento de uma geração, que foi a geração do seu avô inventão.

5 – Tudo isto traz à colação a necessidade de definir se uma certa literatura que, simplesmente, fale, aborde, disserte ou refira a guerra colonial é literatura da guerra colonial. Sem o saber de experiência feito.

Nota de AB: Sobre este assunto, vide poste Guiné 63/74 - P16440: Contraponto (Alberto Branquinho) (54): Literatura da guerra colonial, o que é? de 2 de Setembro de 2016)

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Notas do editor:

[1] . Vd. post de 6 de outubro de 2025 > Guiné 61/74 - P27290: Notas de leitura (1846): "O Último Avô", de Afonso Reis Cabral, Publicações Dom Quixote, 2025 (Mário Beja Santos)

Último post da série de 2 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 – P27485: (Ex)citações (442): Com a lonjura do tempo a corroer-se… Da Guiné para outros palcos (José Saúde)

segunda-feira, 15 de abril de 2024

Guiné 61/74 - P25389: Notas de leitura (1683):"Memórias SOMântícas", de Abulai Sila; Ku Si Mon Editora, 2016 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 17 de Outubro de 2022:

Queridos amigos,
Importa não esquecer que os intelectuais guineenses de há muito dão conta de um sonho perdido, de uma esperada reconciliação entre os povos guineenses que não houve, de uma pátria bem administrada que não houve, de uma solidariedade que rapidamente se transformou numa selvática competição de interesses, cada um por si, o Bem-comum não conta, todos os sonhos de Cabral caíram por terra. 

Recorde-se o filme Mortu Nega (em português, Morte Negada) de Flora Gomes, 1988, Kikia Matcho: O desalento do combatente, por Filinto de Barros, 1997, e mais recentemente o romance A Cidade Que Tudo Devorou, por Amadu Dafé, 2022, isto já sem esquecer o que escrevem ou escreveram Leopoldo Amado, Julião Soares Sousa e está espelhado na poesia de Tony Tcheka.

 É uma belíssima narrativa estas Memórias SOMânticas , não encontro explicação para esta palavra, talvez tenha a ver com semânticas e românticas, o pungente mas poderoso solilóquio da combatente vai à origem das palavras, o mesmo é dizer que vai à origem do sonho que presidia aquela luta e há o quê de romantismo na sua fé e no seu inabalável sonho. Mais explicações para a palavra é assunto que cabe ao autor revelar.

Um abraço do
Mário



Fui combatente do PAIGC, conheço a desilusão, mas vivo esta paixão da liberdade à exaustão

Mário Beja Santos

"Memórias SOMântícas", de Abulai Sila, Ku Si Mon Editora, 2016, é um espantoso solilóquio de uma mulher que participou na luta, que confiava numa pátria livre e numa cadeira de rodas assiste à degradação do seu país. É o cântico de uma heroína anónima, uma narrativa escrita na primeira pessoa e num absoluto silêncio, é uma mensagem para o futuro, um tema de reflexão para as gerações que não conheceram a luta armada:

“Esta é a história de uma vida. Uma vida que quis ser vivida. Com paixão e dignidade. Pretendo narrá-la, porque a existência só se torna memorável se for narrada. A narração, quando oportuna, restaura a crença, abrevia qualquer recordação dolorosa e enobrece a vida. Atribui-lhe cor e reverência”.

E confidencia-nos ao que vem:

“Nunca escondi as minhas ambições. Onde está o sentimento de liberdade se o que mais ambicionamos tem que ser escondido ou disfarçado? Pior ainda, privatizado. Quero que tudo o que ambicione de verdade seja também pretendido pelos meus próximos, acessível a todos, valorizado por todos”.

Orgulha-se de celebrar a vida, a despeito das ilusões, violentas e por vezes tão inesperadas. Disserta sobre a infância, a morte da mãe, os desamores familiares. Nunca aceitou a submissão, paradigma da mulher africana. Conheceu o amor, alguém que a vai despertar para a luta, ele desaparece e ela vai no seu encalço, vai para Conacri. Narra as vicissitudes de uma adaptação áspera, é hábil na negociação para se dar bem com as companheiras de quarto, o seu sonho cresce, pensa a toda a hora na independência, nas instituições do país, é mulher de esperança inabalável. Os tempos não são fáceis para ela em Conacri, assiste à chegada de gente jovem, irmanada pelos mesmos ideais, começa a trabalhar na cozinha, sente-se útil, procura afanosamente saber do seu amor que anda na luta, a todos que vêm a Conacri faz perguntas, por alguém se sabe que ele está vivo, rejubila. 

Nunca lhe passou pela cabeça ser enfermeira, detestava ver sangue, a vida troca as voltas, viu-se a colaborar num bloco operatório, foi louvada, decidiram que ela seria enfermeira.

Há ali perto do hospital alguém que vende cola e se chama Tunkan, tem uma filha a viver em Bafatá e garante-lhe quando a guerra acabar que quer ir a Bafatá conhecer os netos. Gosta do seu trabalho:

“Durante muitos anos ajudei a aliviar dores e a sarar feridas, tanto as visíveis como as que se escondem no fundo da alma, silenciosamente destruindo o corpo e inviabilizando sonhos. Tinha ajudado muita gente, agora tenho que ajudar-me a mim mesma, ser a minha própria enfermeira. Tenho que aperfeiçoar a arte de curar, a magia de dar sempre o que nem sempre se tem.”

É transferida para a Frente Sul, encontra o homem da sua vida em Kabukaré. E tece louvores àquela luta armada:

“Eu vi amor, paixão, entrega e determinação a germinarem, a manifestarem-se em todo o lado. Nos guerrilheiros e na população. Nas canções e no choro. Até no olhar das crianças mutiladas. Vi guerrilheiros com lágrimas nos olhos. Mas vi também o pesadelo do passado a evaporar-se sob o calor desse novo sol e descobri os contornos do novo mundo de paz e harmonia que vinha sendo anunciado nos cânticos. No escuro da pátria ainda subjugada, detetei uma tremeluzente luz projetada num horizonte não muito distante.“

Vive agora em Boké, aqui encaminha-se armamento para as frentes de combate e cuida-se os feridos, e tem o filho para criar. Ela aspira que quando a guerra acabar irão ter que investir na purificação dos corações, a vida ganhará uma outra dimensão, tem ainda interrogações para resolver:

“Porque é que havia africanos a combater ao lado dos brancos contra nós? Quando tomarmos a nossa independência e voltarmos para a nossa terra, os nossos comandantes vão continuar a confraternizar com os nossos combatentes como fazem agora? Quando acabar a guerra, o nosso Presidente vai precisa de guarda-costas armados?”

O amor da sua vida precisa de ir a Conacri, vai acompanhado do filho, irão morrer num acidente, ela está enlouquecida, o seu lenitivo é a sua amiga Ramatulai, é como uma irmã, mas há uma dor que subsiste:

“Eu sou dos inúmeros concidadãos que definitivamente vão voltar para casa magoados, com alguma amputação, temporária ou vitalícia. Eu levo todo um sonho amputado, sim, mas em vantagem em relação a muitos deles. Vou sem o meu companheiro de vida, sem o meu filho, mas com uma irmã, a minha irmã do coração.”

Chegou a hora da independência, apareceu Tunkan para ver a família, tinha o genro preso, acusado de colaborar com o exército colonial.

“Dei-lhe todas as garantias. Depois de uma guerra que vitimara tanta gente, a hora era de paz e perdão. Se estava em algum quartel ou cadeia eu iria encontrá-lo”.

Percorre o país de lés a lés, alguns dos camaradas com que tão intensamente convivera em Conacri fitam-na com desprezo, era como se ela perguntasse por uma pessoa que tinha traído, o que fazia dela uma traidora, alguém lhe dirá mesmo que para cada traidor haverá sempre uma bala no cano. 

“Como é que chegámos a este ponto? Em que se tinha tornado o meu querido país e a minha gente? Que fora feito da camaradagem que, proporcionado a permanente partilha das dificuldades dos êxitos, dos sonhos e das ambições, tornara a vida mais colorida para todos ao longo de tantos anos?”

Adoece e reage, dedica-se a uma escola frequentada por filhos órfãos do Partido. Tudo faz para que haja abastecimento seguro, vai mesmo ao Ministério da Agricultura onde pede e consegue sacos de semente de feijão, de milho, de mancarra, de arroz. Mas um dia acabou o internato, as crianças foram dispersas. 

“Sinto que estão por aí, entregues à sua sorte, sem a bênção de quem devia revelar-lhes as virtudes regeneradoras da fé e as lições da vida tiradas da História. Vacilei durante algum tempo e envergonho-me hoje disso.”

E é neste exato momento que Abdulai Sila tece os seus parágrafos sublimes, a renumeração daquela vida à procura do seu amor, a partilha do jubilo e das situações de desgraça, os terríveis desapontamentos de ter visto fechar um internato com órfãos de guerra, aquela mulher sentada numa cadeira de rodas lembra os órfãos da guerra, os mutilados, a solidariedade acabou, os jovens vivem sem ideais, ela não se entende com tanto despautério, é a fé que a alimenta, e então a velha combatente faz ressoar as trombetas para o futuro:

“Marginalizados? Nós é que domesticámos o invasor e abolimos o medo perante o desconhecido. Na calada da noite prenhe de incertezas reinventámos a vida e, bem alto no céu, fizemos soar a sinfonia da dignidade.
Deserdados? Construímos um mundo plural, onde todas as cores do arco-íris se fundem sem nunca se confundirem. Recuperámos a palavra e, abençoando-a, fizemos com que a magia da narração sustentasse os novos limites da razão.

Não erguemos troféus, não exigimos medalhas, nem guardámos ressentimentos. Impusemos um novo paradigma da inteligência: sem ser mártir nem ambicionar ser heróis, viver uma paixão até à exaustão e morrer sonhando.”


Na linha de uma literatura vincada pela dor do desapontamento de uma pátria derruída, Abdulai Sila dá-nos uma narrativa pungente onde o sonho, mesmo tão profundamente abalado, continua a ser a semente da vida, a razão por que se lutou para ser livre, é esse o derradeiro testemunho que se deixa às novas gerações. Um belíssimo texto de irrecusável leitura.

Houve tempos em que a Guiné contava entusiasticamente com quem a libertara
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Nota do editor

Último post da série de 12 DE ABRIL DE 2024 > Guiné 61/74 - P25377: Notas de leitura (1682): O Santuário Perdido: A Força Aérea na Guerra da Guiné, 1961-1974 - Volume II: Perto do abismo até ao impasse (1966-1972), por Matthew M. Hurley e José Augusto Matos, 2023 (20) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 25 de agosto de 2023

Guiné 61/74 - P24587: Notas de leitura (1609): "A Guerra e a Literatura", por Rui de Azevedo Teixeira; Vega, 2001 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 14 de Setembro de 2021:

Queridos amigos,
Os trabalhos de investigação assinados por Rui de Azevedo Teixeira sobre literatura e guerra colonial são hoje obras de referência a que podemos juntar aos trabalhos de Aniceto Afonso e Carlos Vale Ferraz e igualmente a João de Melo, cobrem essencialmente obras publicadas até à década de 1990. Infelizmente, depois destas obras atrás mencionadas, não há levantamentos a não ser parciais, nenhum trabalho de conjunto, estou em crer que mais nenhuma tese de doutoramento sobre seis décadas de literatura. Da minha banda, procurei fazer o levantamento da literatura da guerra da Guiné e fiquei-me em 2012, e tenho o pesar de constatar que poucos trabalhos grandiloquentes, referenciais, vieram depois, o que talvez signifique que a idade não perdoa e os trabalhos de investigação universitários andem longe de nós.

Um abraço do
Mário



A Guerra e a Literatura, por Rui de Azevedo Teixeira

Mário Beja Santos

A obra "A Guerra e a Literatura", por Rui de Azevedo Teixeira, Vega, 2001, vem na sequência de uma obra que ainda hoje é uma referência do estudo da literatura da guerra colonial, "A Guerra Colonial e o Romance Português". Desta vez o investigador envereda por novas temáticas e analisa obras de três escritores que vinte anos depois da publicação deste ensaio se mantêm ativíssimos e nalguns casos batendo ruidosamente à porta da guerra colonial, como é o caso de Carlos Vale Ferraz.

Ele vai destacar a violência associada à guerra, observando:
“Desde a Antiguidade, a guerra é vista, por um lado, como inevitável, como força nua que determina os destinos dos povos e como teste à dureza masculina; por outro lado, é considerada como perigo para a humanidade e atacada pela sua crueldade e poder de destruição".

Era inevitável citar o general prussiano Karl von Clausewitz:
"A guerra não é meramente um ato político, mas sim um autêntico instrumento político, uma continuação da atividade política, uma realização da mesma utilizando meios diferentes”.

E, portanto, a guerra é habitação obrigatória da literatura, na maior parte dos seus modos e géneros:
“O conflito armado de grandes proporções irrompe na narrativa, no drama, na lírica, instalando-se no conto, na novela, no diário, no poema, na peça de teatro e, com especial à vontade, na epopeia e no romance”.

E elenca títulos de diferentes épocas onde a guerra é prato de substância até chegarmos ao século XX, como ele diz o das maiores matanças militares, e o autor considera haver duas grandes atitudes literárias em relação à prática bélica: a mística da guerra e o ataque frontal ao fenómeno de guerreiro. Praticamente, os grandes escritores de âmbito universal estiveram sempre fortemente seduzidos pela temática bélica, ele alarga-se em exemplificações que vão desde a extrema-direita à esquerda francesa, lembra-nos Eric Maria Remarc, Ernest Hemingway, Norman Mailer, James Jones. Com a agonia da guerra clássica, diz ele, os romances de guerra tornam-se basicamente em azedos romances de antiguerra. O poder nuclear não tem heróis lendários, os seus criadores são cientistas que muitas vezes vêm deplorar as suas criações.

E temos agora propriamente a literatura da guerra colonial, e ele encontra três substantivos para a rotular: orgulho, culpa e nostalgia. Sintetiza o díptico contrastivo, entre esquerda e direita (à esquerda, Fernando Assis Pacheco, Manuel Alegre ou Álvaro Guerra) e os apoiantes do império (Couto Viana ou Alpoim Calvão). Fala também de passadistas como Reis Ventura, Couto Viana, Pedro Homem de Melo, o primeiro Manuel Barão da Cunha, Amândio César, Armor Pires Mota. Emerge uma literatura de protagonistas alferes, anticolonialista e muitas vezes pacifista e anota que a atitude desta literatura é exatamente contrária à que vai dominar na produção literária africanos lusófonos que tratam a guerra de libertação nacional.


Quem escreve? Um oficial comando como Carlos Vale Ferraz, fuzileiros como Alpoim Calvão e Modesto Navarro, Álvaro Guerra, ferido em combate, Manuel Alegre, combatente e desertor, os que não combateram diretamente como Assis Pacheco, Lobo Antunes ou João de Melo. Há os que não tendo estado em África como militares escreverão sobre a guerra, caso dos já não pertencentes à geração combatente: Fernando Namora, Sttau Monteiro, Cardoso Pires, Mário de Carvalho, José Manuel Mendes; os que estiveram em África mas que não usaram o camuflado: Reis Ventura, Amândio César, Couto Viana, António Quadros ou Rui Knopfli; e as mulheres como Olga Gonçalves, Maria Velho da Costa, Lídia Jorge, Wanda Ramos.

Destaca títulos: "O Capitão Nemo e Eu", de Álvaro Guerra; "Lugar de Massacre", de José Martins Garcia; "Os Cus de Judas", de Lobo Antunes; "Nó Cego", de Carlos Vale Ferraz; "A Costa dos Murmúrios", de Lídia Jorge; "Jornada de África", de Manuel Alegre.

O seu estudo centra-se em três autores: Lídia Jorge e A Costa dos Murmúrios; quatro livros de Carlos Vale Ferraz com destaque para "Nó Cego"; e João de Melo em "Autópsia do Mar de Ruínas".

Disseca o trabalho de Lídia Jorge para concluir que a guerra colonial não tem bode expiatório, o combatente tem uma mínima parcela de responsabilidade negativa, a trama do romance que se passa no Índico tem a ver com um império que morre. Destaca em "Nó Cego" um saber prático da máquina de guerra portuguesa e da arte da contraguerrilha, o escritor bateu-se em Angola, Moçambique e Guiné, participou em operações que fizeram história, a figura central é um capitão, formou uma equipa coesa, um conjunto de centuriões, homens disciplinados e dedicados. O autor, com as suas sucessivas comissões, começa a aperceber-se de que na guerra do Ultramar Portugal é o agressor que teima em não reconhecer que o Império vai contra o tempo. A companhia do capitão é uma unidade ofensiva que participará na Operação Nó Górdio, será ponta de lança no assalto à base Gungunhana, um comandante-chefe sonhou em envolver todos os seus efetivos para destruir a Frelimo e o que aconteceu é que a Frelimo deixou as bases vazias e imiscuiu-se em novos territórios, alastrou a guerra de contraguerrilha. Rui de Azevedo Teixeira fala de outros livros de Carlos Vale Ferraz para enfatizar que o que está em causa é o herói militar batido pela História.

Finalmente, João de Melo, "Autópsia do Mar de Ruínas". Estamos em Calambata, norte de Angola, há quartel e sanzala, por ali deambula o furriel-enfermeiro Pacheco, João de Melo por excelência, é ele o cronista do universo da sanzala de Calambata, onde várias vozes em interferência, lá aparecem heróis revolucionários, mas o que objetivamente assalta da crónica é que estamos a assistir a um mundo em decomposição:
“As personagem de autópsia articulam-se de forma limpa com os espaços do romance que, como qualquer espaço, tem os seus traidores e os seus heróis – e ambos traduzem o sentido final marxista e pró-independentista da narrativa, estamos no norte de Angola no dealbar da década de sessenta”.

A apreciação de Rui de Azevedo Teixeira ao conjunto da obra, onde se fala de uma guerra em que ao guerreiro invisível e virtuoso de opõe o militar visivelmente vicioso, é duríssima:
“Autópsia é um romance morto cujas rescritas-reanimações falharam e cuja autópsia mais não pode ser de que um mero exercício crítico de manutenção”.

Deixa uma observação curiosa no final do seu trabalho:
“Porquê esta imagem negativa do português e do seu esforço de guerra e de fomento? Porquê esta mudança radical de paradigma imagiológico em relação ao corpo literário anterior? Fico-me por razões essenciais. Em primeiro lugar, porque, desabada a ditadura, vem a desforra, o pêndulo viaja até ao outro extremo. Depois, porque é uma literatura que, sustentada numa base emocional de culpa, se autopune, faz autoflagelação, masoquismo. Em terceiro lugar, porque é fundamentalmente uma literatura de alferes e de furriéis – e de mulheres de alferes. Esta última razão merece alguma demora explicativa. Tendo sido alferes e furriéis milicianos a maioria dos que romancearam a guerra de África, é natural que sofressem de incultura militar – o miliciano é um amador, não é um profissional da guerra. A incultura militar desses milicianos impede-os de entenderem, em profundidade, a natureza da guerra de guerrilha em que participavam, estando-lhes vedada a compreensão das estratégias e contra-estratégias, das táticas, das guerrilhas e das éticas”.

Abre exceção para a obra "Nó Cego", de Carlos Vale Ferraz, pois que era um capitão do quadro permanente, um profissional.

Obra a juntar ao acervo de documentos que escalpelizam a literatura da guerra colonial.

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Nota do editor

Último poste da série de 21 DE AGOSTO DE 2023 > Guiné 61/74 - P24574: Notas de leitura (1608): "Os Portugueses nos Rios de Guiné (1500-1900)", por António Carreira; edição de autor, Lisboa, 1984 (2) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 11 de agosto de 2023

Guiné 61/74 - P24549: Notas de leitura (1605): "O Elogio da Dureza", por Rui de Azevedo Teixeira; Gradiva Publicações, 2021 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Agosto de 2021:

Queridos amigos,
Trata-se inegavelmente de uma surpresa, pelo assombro como desvela a intimidade, por descrições duríssimas, é muito difícil não acreditar que tudo isto que ali se escreve não vem da experiência vivida. Sabe-se que Rui de Azevedo Teixeira combateu em Angola, é doutor em Literatura Portuguesa, ensinou em universidades europeias e africanas e no seu currículo há obras de grande importância como A Guerra Colonial e o Romance Português: Agonia e Catarse ou O Fim do Império e a Novelística Feminina e também A Guerra de Angola: 1961-1974. Não custa crer que o autor entendeu que este legado de crueza e terror é importante para que as novas gerações recebam agora o que nos aconteceu há mais de 50 anos.

Um abraço do
Mário



O terror puro e duro para iluminar a noite interior

Mário Beja Santos

Rui de Azevedo Teixeira nasceu em Argivai, Póvoa de Varzim. Combateu em Angola. É doutorado em Literatura Portuguesa e ensinou em universidades europeias e africanas. Organizou os congressos internacionais sobre a Guerra Colonial (Instituto de Defesa Nacional, 2000) e a Guerra do Ultramar (Fórum Cultural do Seixal, 2001). Sobre o conteúdo do livro, Rui de Azevedo Teixeira deixa no ar: 

“Será Vila Velha do Mar a Póvoa ficcionada? E qual é a aldeia? E as personagens da vila e da aldeia, transfigurados pela ficção, serão alguns dos professores e estudantes do Liceu do fim dos anos 60 ou princípios de 70? São reconhecíveis? O jogo literário de quem é quem puxa pelas memórias saudosas dos leitores”, explica.

É um romance singular no amplo contexto da literatura da guerra colonial este "O Elogio da Dureza", Gradiva Publicações, 2021. Paira a sombra da autobiografia, o rasgar da intimidade de alguém que descobre que é filho ilegítimo de pai incógnito. 

Sabemos que na juventude muito leu, autores de diferentes proveniências e que cedo começou a escrever um diário incerto, mau aluno até chegar ao fim do Liceu, aí desabrochou; os estudos em Coimbra não o mobilizaram, Paulo de Trava Lobo Ferreira oferece-se como voluntário, lega-nos páginas manuscritas onde fala do padrasto, gente com quem se relacionou, as obras que leu. Salta no tempo, já regressou da guerra em Angola, onde viveu o último capítulo.

“Vivia entre dois tempos e dois espaços, entre o recentíssimo passado angolano e o presente português. Um tempo misturado em que a componente angolana dominava. Mesmo com as obsessivas leituras, mesmo com o processo revolucionário em curso, ainda assim eram as recordações de Angola que mais lhe ocupavam a cabeça. Pensou até em voltar lá como mercenário, numa empresa de um almirante comunista, para lutar pelo MPLA. Um mercenário marxista leninista?! Baralhado, largou a ideia, substituindo-a por outra, por uma vida também dedicada à violência”.

Os problemas familiares acentuam-se, reencontra-se com gente dos Comandos, convém não esquecer que estamos perante um oficial Comando, com prestação assinalável na contraguerrilha. E de novo regressamos a Luanda, salto diacrónico, Paulo está a chegar à guerra, fala-nos do violentíssimo curso de Comandos, provas brutais, tudo minuciosamente contado para se perceber como se cria um militar disciplinado, uma máquina de combate. Nos momentos de ócio, desce até à cidade de Luanda, anota o seu fervilhar:

“Circulavam miúdas e miúdos pretos com olhos brilhantes como refletores e sorrisos imensos. A estragar a alegria do quadro, os pretos descalços e os pretos de calções e os pretos de roupa rota e os pretos servis e os pretos com medo. Mas havia também um ou outro preto bem vestido e integrado no sistema colonial. E tropa e mais tropa. Soldados da pacaça em grupos de três e quatro, sem aprumo, com mal ajangadas fardas número dois e até com camisas de camuflado. E, de vez em quando, passavam os raros e orgulhosos Comandos de farda número dois, com cinturão, crachá ao peito e dístico no ombro esquerdo, calças e camisa de manga curta bem passadas e as mãos atrás das costas”.

Fala-se de comezainas, de sexo, caminhamos para a vida operacional, já temos os Comandos formados. Volta-se inopinadamente ao processo revolucionário, sabe-se que Paulo detesta os comunistas e esquerdistas e dentro deste processo diacrónico voltamos ao Paulo operacional, e aqui o autor esmera-se, a partir do Luso entramos diretamente na Operação Empurra Tudo, vamos assistir a homicídios com faca, escalpes, chegou a hora do puro horror: 

“Meteu então a faca na barriga do velho e fê-la girar lá dentro como o corno do motor numa colhida. O velho gritou. Paulo e Ferro viraram-se e ainda o viram a ser degolado. O meio bóer deu um pontapé no cadáver fresco do velho, antes de se dirigir para a bicicleta. Enlouquecido de violência, esfaqueou o selim, os pneus e até o farol. Paulo viu, então, junto a uma árvore, sentado, imóvel, uma mulher com um bebé que mamava regaladamente. Ambos miraculosamente ilesos. Paulo ordenou a Ferro que acabasse com os feridos graves. Antes da saída do quartel, tinha visto o furriel a raspar a ponta das balas no chão de cimento à entrada da secretaria. Em segundos, três tiros. As balas atravessaram as cabeças aos trambolhões e saíram levando pedaços de cada uma. Miolos à mostra”.

A operação prossegue, dão-se mais tiros de misericórdia a moribundos, descobrimos que há uma ética: 

“Os Comandos não abandonavam inimigos feridos. Deixados vivos, ficariam a morrer aos poucos, gritando de dor, antes de serem comidos e passados a esqueleto e a fezes de animais”. Havia, pois, tiros de misericórdia. Entre as operações Paulo leva uma rica vida com a amante e a criada da amante, tudo isto na zona militar leste. Ficamos a saber que nas dez operações dos primeiros quatro meses o corpo de combate de Paulo e os vinte e cinco mortos confirmados. Por vezes as coisas correm para o torto, mas mata-se muito mais do que se sofre. Mas Paulo está a mudar. “Paulo começava a dividir-se, a cindir-se mesmo, entre o idealismo imperial e a justiça histórica. Amava criticamente a História de Portugal e o Império, mas os angolanos já eram crescidos, tinham todo o direito a sair de casa. Todo o direito a serem independentes”. Do Leste irá partir para outro local, o Mayombe, mas, entretanto, damos outro salto diacrónico, voltamos ao processo revolucionário em curso, virá o 25 de novembro, Paulo volta aos estudos, torna-se bacharel, percorrerá vários lugares a dar aulas.

"O Mayombe, floresta equatorial ainda mais impenetrável do que as florestas tropicais, era o absoluto oposto à que agora parecia a Paulo a simpática savana”. Numa operação descobre-se um depósito de armamento, Paulo não sentiu orgulho, apenas sorte, e depois vem o grande combate, o inimigo atacava, eram da FLEC. 

“Chamou a atenção de Paulo um carregador furado e um cadáver de barriga para baixo. Pegou no carregador e foi tirando as balas. Encontrou o que procurava – a bala furada por uma bala dos Comandos. A bala da G3 acertara em cheio fazendo um buraco perfeito no cartucho da bala de Kalashnikov. Paulo guardou a bala furada, passou a ser o seu talismã”.

Veio o 25 de Abril, o bacharel irá fazer mais estudos, o professor Paulo Lobo tem destino universitário. De novo saltamos para o fim da guerra, quando ele se encontrava especificamente em pré-desagregação, regressa à pátria. Toda esta noite interior parece chegar à irradiação da luz, conhece o amor, dá-se a doce domesticação de Paulo, é já assistente estagiário do porto e acaba por descobrir, graças à mulher, que era filho de sangue do capitão Antero Gomes Ferreira. Não fica contente com aqueles pais que nunca se interessaram pelo seu sofrimento. E decidiu nunca mais voltar a falar com os pais. É uma irradiação de luz feita de trevas. 

Romance singular, está comprovado, percebe-se este elogio da dureza, é memória que não se apaga, talvez por isso a catarse da escrita, de indiscutível qualidade.
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Nota do editor

Último poste da série de 7 DE AGOSTO DE 2023 > Guiné 61/74 - P24538: Notas de leitura (1604): Uma nova biografia de Amílcar Cabral, de Peter Karibe Mendy (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 15 de abril de 2022

Guiné 61/74 - P23171: Notas de leitura (1437): "Os Forjanenses e a Guerra Colonial", organização de Luís G. Coutinho de Almeida e Carlos M. Gomes de Sá; edição da Junta de Freguesia de Forjães, 2018 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Julho de 2019:

Queridos amigos,
A saga destes forjanenses merece a nossa atenção. Não é a primeira vez que uma Junta de Freguesia estende a mão aos antigos combatentes. No caso vertente, o Coronel Coutinho de Almeida contou com um credenciado publicista, Carlos Gomes de Sá, e lançaram-se nesta empreitada na recolha dos testemunhos, o resultado é um sucesso, vem sempre ao de cima o sentido da identidade local, onde quer que o militar chegue pergunta se há gente de Esposende ou Viana, por exemplo. São testemunhos comedidos, nada de jactâncias, vaidadezinhas ou azedumes que ficaram para o resto da vida. Todos deploram ao que a Guiné chegou e à inutilidade daquela guerra. E é profundamente comovente ver estes velhos combatentes nalguns casos abraçados às mulheres e até às suas mães. Uma edição exemplar que todas as autarquias deviam conhecer.

Um abraço do
Mário



Memórias insuperáveis, a historiografia as saiba escutar (2)

Beja Santos

É um belíssimo, inolvidável, trabalho de recolha junto de antigos combatentes ligados à freguesia de Forjães (concelho de Esposende), a organização pertence a Luís G. Coutinho de Almeida e Carlos M. Gomes de Sá, a edição é da Junta de Freguesia de Forjães, 2018. Não conheço nada de tão tocante, tal é o vigor do testemunho entre os vínculos locais e, em inúmeros casos, uma saudade guineense que não secou. Como é evidente, os testemunhos recolhidos são amplos, estes forjanenses e suas famílias falam da Índia, da guerra de África mas também de São Tomé e Príncipe, Timor e outras paragens. O que aqui se regista, obviamente, circunscreve-se à Guiné, mas desde já se adverte o leitor que se sentirá gratificado com a leitura de todos estes testemunhos, esta memória é aparentemente regional, não haja ilusões, mas estamos lá todos nós.

Temos agora o soldado Carlos Alberto Maciel Martins Gomes, fez a sua comissão na Guiné entre 1968 e 1970. Os vínculos locais afloram imediatamente, acaba de chegar a Bissau e logo se estabelece uma identificação com a terra de onde vem, aparece um soldado que lhe diz: “Ó Meira, também estás por aqui? Era o Sr. Manuel Neiva, o homem da Marta da Porcena. Era marinheiro. Nós seguíamos para cima, para Bambadinca. Também vi o Armindo da Gena”. Seguiram para Contuboel e Sare Bacar, confessa que os meses iniciais foram muito difíceis, refere o desastre da jangada no Cheche, no início de fevereiro de 1969. É comedido nas suas considerações, de como viveu e se adaptou. Adorava jogar futebol, apelidavam-no por “Pedro Gomes”, o defesa lateral direito do Sporting. Ajudava na horta. Regressou e procurou arranjar trabalho em França. Inserção difícil, teve pesadelos, sonhava que ainda estava na guerra.

Carlos Alberto Brochado de Almeida foi furriel miliciano entre 1967 e 1969, ficou adstrito à CART 1661, cujo primeiro-comandante foi o arquiteto Luís Vassalo Rosa. Desembarcou e foi colocado em Porto Gole, onde se encontrava o Pelotão de Caçadores Nativos N.º 54, a que pertencia. “Embora integrado numa Companhia de Artilharia, o meu grupo era um Pelotão de Soldados Nativos comandados por um Alferes teoricamente auxiliado por três Furriéis. O Pelotão de Soldados Nativos era um grupo heterogéneo formado por Balantas, Fulas, Futa-Fulas, Mandingas e Papéis. Cristãos eram alguns dos Papéis oriundos da ilha de Bissau. Apesar da sua heterogeneidade, o pelotão era um grupo coeso onde não havia fronteiras de relacionamento entre brancos e nativos. O segredo desta boa relação alicerçou-se, basicamente, no nosso respeito pela cultura de cada etnia e no tratamento de igualdade que havia entre todos os membros”. Não esquece uma flagelação ao quartel numa noite de abril de 1968, 45 minutos de fogo infernal. Ao fim de 18 meses, o furriel Almeida foi transferido para o Quartel-General, trabalho de secretaria. “Foi ali, durante seis meses, que vi a outra face da guerra: a dos papéis, a das cunhas, a das contrapartidas, mas também a das noites dormidas sem a arma à cabeceira da cama”.

O soldado José Boucinha da Cruz, condutor auto, esteve na Guiné entre 1970 e 1972, colocado na CCS do Batalhão de Bissorã e temos mais uma história de vínculos locais: “Fora, fazíamos segurança às colunas que traziam os géneros de Mansoa, onde os íamos esperar. Cada vez que lá ia perguntava sempre se havia por lá militares de Esposende, Barcelos ou Viana. Foi assim que encontrei o Carlos do Rogério, que me apresentou o Guilherme Pimentel e que viria a casar com a sua prima Lúcia Torres. Noutra ocasião em Bissau, encontrei o Couto dos Santos, que estava na Marinha e que andava a estudar. Encontrei também o Baltazar Costa, que estava de férias em Bissau. Por lá também me cruzei com o falecido Ascânio, de Antas (que foi guarda-redes do Forjães) e com o filho do moleiro da Azenha do Grilo, de S. Paio”. Não sendo operacional, escasseava-lhe o tempo livre, tinha de fazer a limpeza do Depósito de Géneros. É tocante o final do seu depoimento: “Quando cheguei a casa, o meu pai não estava. Tinha ido a Barroselas com o Zé Matos para me ir esperar. Estava só a minha mãe e que alegria que ela sentiu quando entrei em casa. Quando o meu pai chegou, mandou deitar uns foguetes. Eu estava à mesa a comer e, quando começaram a rebentar, mandei-me para debaixo da mesa, ainda com a ideia dos ataques. Casei em 9 de Dezembro e dali a uma semana fui com a minha mulher a Santa Maria Adelaide oferecer o vestido de casamento, como promessa de eu ter voltado vivo da guerra. Em termos de camaradagem, vimos lá momentos muito bons. Vou sempre aos encontros anuais do meu batalhão 2927. E, de há seis anos para cá, em Forjães, eu e o Albino do Firmino organizamos, anualmente, o encontro dos combatentes da Guiné. Há uma missa cantada, uma romagem ao cemitério para depor um ramo de flores pelos que já faleceram. E nunca nos esquecemos de ir a Aldreu, deixar também um ramo de flores na campa do António Amorim Torres, que faleceu na Guiné”.

José Carlos Ribeiro da Fonseca faz a sua comissão de 1970 a 1972, é furriel miliciano, vagomestre, pertenceu à Companhia de Caçadores Nativos 15. De Bissau segue para Bolama, para o Centro de Instrução Militar, logo se pôs à procura de alguém de Esposende ou Viana. Encontrou o Fernando Macedo (Ferreiro), bem como o seu chefe, um natural de Carvoeiro, seu colega na escola em Viana. Foi integrado na Companhia Balanta. Em 3 de março de 1970, partem para Mansoa, ficam junto do BCAÇ 2885. Numa coluna, em Safim, encontrou-se com o Jorge Gomes. Construiu um bom relacionamento com o Capitão Mário Tomé. Em 27 de março tem o seu batismo de fogo, um ataque a Mansoa com misseis terra-terra. No fim de maio chega-lhe a notícia do nascimento da filha. Vê chegar a Mansoa o Joaquim Luís e o Ascânio, seu amigo de S. Paio de Antas. Vêm de férias e no regresso apercebe-se do endurecimento da luta, o alcatroamento de Mansabá a Farim foi trabalhoso. Assiste à rendição do Batalhão 2885 pelo Batalhão 3832. Refere o ataque de 9 de junho de 1971 a Bissau e os muitos confrontos em patrulhamentos dentro da zona de ação. Regressou a 28 de janeiro de 1972, diz não ter experimentado perturbações de ordem psíquica ou física, o que gostou foi o frio do inverno. “Mas o meu tempo após o regresso foi muito difícil no âmbito familiar, porque a minha filha, já com vinte meses, não me conhecia de lado algum, fugia a qualquer contato comigo e, embora a mãe tudo fizesse para explicar quem eu era, só reconhecia o avô materno com quem conviveu desde o nascimento”.


O Coronel Luís Gonzaga Coutinho de Almeida entre o autarca da Murtosa e um elemento da GNR
Mário Leitão, escritor limiano, que se associou a este empreendimento
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Nota do editor

Último poste da série de 11 DE ABRIL DE 2022 > Guiné 61/74 - P23159: Notas de leitura (1436): "Os Forjanenses e a Guerra Colonial", organização de Luís G. Coutinho de Almeida e Carlos M. Gomes de Sá; edição da Junta de Freguesia de Forjães, 2018 (1) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P23170: Humor de caserna (48): o major art José Joaquim Vilares Gaspar, o "Gasparinho", visto por Salgueiro Maia: loucura ou contestação do sistema?

1. Trancrição de um excerto do poste P3262 (*), da autoria do nosso saudoso amigo, Leopoldo Amado (1960-2021), historiador guineense,  vítima da pandemia de Covid-19:


(...) O exemplo mais sonante de loucura, traço muito comum à literatura de guerra colonial, é-nos dado por Salgueiro Maia, ao referir-se à caricata figura do major Gaspar, cuja irreverência abeirava-se da loucura, aliás, motivo pelo qual acabou ser hospitalizado:

(...) o major Gaspar vai comandar o CAOP 2 em Mansabá, onde, dando boa conta do recado, é solicitado para se deslocar a Bissau, à reunião semanal do Com-Chefe, onde deveria ser salientado o seu compor­tamento. Só que a coluna que, vinda de Farim, o devia transportar a Bissau nunca mais chegava. 

Farto de esperar, avança para Mansoa só com o condutor, percorrendo um itinerário onde eram frequentes as emboscadas, pois passava ao lado do Morés. À sua chegada a Mansoa, umas centenas de elementos da população agitam-se, pe­gando nas suas mercadorias com vista a ocupar lugar na coluna. Aí, o major Gaspar acha conveniente mandar parar o jipe. A população acerca-se e ele explica: 

«Meu povo, permaneçam mansos, porque a coluna ainda não vem aí, só vem o Gaspar.» 

Continua só em direcção a Bissau. Começa por visitar os seus amigos páras à entrada da cidade, depois o seu amigo director do Hospital Militar, os seus amigos comandos, etc. 

Entra em Bissau feliz e, desejando dar saída à sua alegria, descobre que o único sítio da Guiné onde havia uma peanha para um polícia dirigir o trânsito tinha um PSP guineense, que o major Gaspar considerou estar a fazer mal o seu trabalho. 

Fez parar o jipe ao lado da peanha e fez sair o polícia do sítio e, de pistola-metralhadora ao pescoço, o major Gaspar foi dirigir o trânsito. Lá, como noutros sítios, os condutores, apesar de na maioria serem militares, não eram obe­dientes, e assim o nosso amigo fartou-se de desobediências. Tanto, que atirou uma rajada por cima de uma camioneta da engenharia militar que não lhe obedeceu. 

Continuou em funções, mas surge mais uma camioneta, do Depósito de Adidos, que também não lhe obedece, e aí vai o resto do carregador. 

O Palácio do Governo, onde se encontrava o general Spínola, distava uns 400 m em linha recta, pelo que os disparos eram nítidos e originaram que a polícia do Exército fosse chamada ao local.

Postas perante a realidade, as entidades competentes determi­naram a baixa à neuropsiquiatria do major Gaspar. Mas alguns, suficientemente conhecedores da maneira de ser do «doente», con­seguiram autorização para o director do Hospital Militar conven­cer o major a descansar uns dias no Hospital, onde os amigos o visitaram com assiduidade, criando talvez o único período de ver­dadeiro descanso e convívio que este homem teve ao longo de vários anos de guerra e de guerras com o sistema. 

As histórias do major Gaspar foram para muitos combatentes o escape natural nas vicissitudes da vida em campanha; quem o conheceu guarda dele a imagem do lutador pela dignidade e pela justiça, a certeza de que a sua luta foi imortal (...) ”[19] )**)

[ Seleção / Revisão e fixação de texto / Negritos / Realce a amarelo, para  efeitos de publicação deste poste no blogue: LG]
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Nota do Leopoldo Amado:

[19] Maia, Salgueiro, O Acaso, In Capitão de Abril – Memórias da guerra do Ultramar e do 25 de Abril, Editorial Notícias, pp. 56 e 57.
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Notas do editor:


segunda-feira, 11 de abril de 2022

Guiné 61/74 - P23159: Notas de leitura (1436): "Os Forjanenses e a Guerra Colonial", organização de Luís G. Coutinho de Almeida e Carlos M. Gomes de Sá; edição da Junta de Freguesia de Forjães, 2018 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Julho de 2019:

Queridos amigos,
Para quem gosta de imprevistos, encontrar gente da nossa idade que recorda com quem andou na escola, que mantém intocáveis os vínculos do meio local, neste caso sempre com um sentimento forjanense, porque toda a obra é dedicada a militares desta vila do concelho de Esposende, e que nunca mais esqueceu a Guiné, vai ter aqui lauta leitura, elos de solidariedade que jamais se perderam. Testemunhos de oficiais, sargentos e praças, aqui se confirma a universalidade que reside na memória de gente de um terrunho que a todos toca no coração. Um livro que faz todo o sentido estar nas nossas estantes, lê-se e relê-se com imenso carinho, são registos autênticos da têmpera portuguesa.

Um abraço do
Mário



Memórias insuperáveis, a historiografia as saiba escutar (1)

Beja Santos

É um belíssimo, inolvidável, trabalho de recolha junto de antigos combatentes ligados à freguesia de Forjães (concelho de Esposende), a organização pertence a Luís G. Coutinho de Almeida e Carlos M. Gomes de Sá, a edição é da Junta de Freguesia de Forjães, 2018. Não conheço nada de tão tocante, tal é o vigor do testemunho entre os vínculos locais e, em inúmeros casos, uma saudade guineense que não secou. Como é evidente, os testemunhos recolhidos são amplos, estes forjanenses e suas famílias falam da Índia, da guerra de África mas também de São Tomé e Príncipe, Timor e outras paragens. O que aqui se regista, obviamente, circunscreve-se à Guiné, mas desde já se adverte o leitor que se sentirá gratificado com a leitura de todos estes testemunhos, esta memória é aparentemente regional, não haja ilusões, mas estamos lá todos nós.

O soldado Alcino Alves Pereira esteve na Guiné entre 1959 e 1961. De imediato, vemos como os forjanenses falam uns dos outros. Ele está no BC 5 em Lisboa, já lá andavam o Albino do Hilário e o Avelino de Palme. Certamente em consequência do 3 de agosto de 1959, foi tropa de urgência na Guiné, não teve tempo para ir até casa, nem lhes deram licença de mobilização, “só tive tempo de ir à procura do Armando do Rio que trabalhava em Lisboa e que me emprestou 40 escudos, para eu não ir completamente teso para a Guiné”. Embarcaram no Manuel Alfredo, descreve a vida em Bissau, as atividades desportivas a que se dedicou, era ciclista exímio. Lembra que houve um ataque a S. Domingos, em 1961. Tem imensas saudades da Guiné, e critica o colonialismo que ele viu com os seus próprios olhos, havia duas companhias comerciais, A Gouveia e a Ultramarina. “Vendiam de tudo. Quando iam comprar arroz aos guineenses, aquilo funcionava assim: recebiam um saco com 50 kg, ao pesar diziam que só tinha 40 kg e ao fazer contas só pagavam 30 kg. Depois, davam-lhes uns farrapos coloridos para colocar nas costas, para transportar os rapazes e, no final, os guineenses ainda lhes ficavam a dever dinheiro. Exploravam ao máximo aquela gente desgraçada”. O Alcino estava integrado na Companhia Expedicionária 352.

O soldado José Albino Sousa Ribeiro fez parte da CCAÇ 152, esteve na Guiné de 1961 a 1963. Soube que ia para a guerra e foi chamado com o Torcato do Gidório, o Manuel Boucinha e o Álvaro da Isolina. Viaja de avião, desembarca em Bissalanca no fim de julho de 1961, seguiu para Buba. “Tínhamos pelotões destacados em Aldeia Formosa, Cacine e Catió. A sede do batalhão ficou em Tite”. Não esconde como a comissão o marcou indelevelmente: “Lembro-me muitas vezes da Guiné e tenho saudades. Lembro-me muito daquela camaradagem entre a tropa. O povo da Guiné era muito bom. Cheguei a ir muitas vezes com eles para o batuque. Eram um joguete nas nossas mãos e nas dos turras. A guerra não me afetou. Apanhei o paludismo em Bissau e estive internado duas semanas, mas nunca mais tive sintomas. Em Forjães, costumo organizar os convívios dos militares da Guiné, juntamente com o Zé Boucinha. Tenho muito orgulho nisso. Gostamos de nos reunir para conversar e recordar aqueles bons tempos. Agora já é mais um convívio familiar. À volta da Guiné há um sentimento que nos une”.

O 1.º Cabo Paraquedista Manuel da Cruz Dias, que pertenceu à 1.ª Companhia de Caçadores Paraquedistas, esteve na Guiné em 1965 e 1966. Foi condecorado com a medalha da Cruz de Guerra de 3.ª Classe. “O meu comandante de pelotão era o Alferes Ferreira da Silva e o comandante de companhia era o Capitão Pardal. Vim de férias a Portugal, na Páscoa de 1966, de regresso, levei duas encomendas: uma da Fernanda Lajes para o marido, António do Neiva; a outra para o nosso capitão, da parte do seu sogro, que tinha uma loja ali para os lados da estação de S. Bento, no Porto”. Ficou bem estilhaçado em Fulacunda, semanas depois regressou ao ativo. “De passagem por Xitole, encontrei e conversei durante uns minutos com o Tone do Mouco. Andámos juntos na escola. Coitado, viria a morrer na Guiné, já depois de eu de lá regressar. Em Catió, encontrei o Quim Maria. Era furriel. Nunca tive madrinha de guerra. Escrevia para casa e quem me respondia era a minha mãe. Fui condecorado no 10 de junho de 1967. No mesmo dia, também foi condecorado com a Cruz de Guerra de 1.ª Classe e promovido ao posto de Major, a título póstumo, o meu Capitão Tinoco de Faria. Sinto muito orgulho nisso e ainda gosto de olhar e admirar a minha medalha. Um dia, um sujeito de Barroselas, que tinha ouvido falar de mim ao António Casal Martins, ligou-me a perguntar se eu recebia alguma coisa por causa da medalha. Respondi que não e ele disse-me o que é que eu deveria fazer para receber os meus direitos. Assim fiz e hoje recebo uma coisa pouca. A guerra tinha que acabar e ainda bem. Eles também tinham os seus direitos e direito a todas as independências que se deram”.

António de Amorim Torres pertenceu à CCAÇ 1547, esteve na Guiné de 1966 a 1967, faleceu em serviço em Bigene, em 7 de agosto, quem depõe é a viúva, Maria de Fátima Gonçalves de Sá. “Com 16 anos, fui servir para a casa do Sr. Manuel do Abreu, no Matinho, e foi lá que conheci o meu homem, que era lá vizinho. Havia uma fonte ao pé da casa dele. Eu ia para lá lavar e ele aparecia por aqui. Começámos a falar, depois a namorar, mas sempre às escondidas. Quando tinha 18 anos, vim embora para Aldreu, mas continuámos a namorar. Casei em abril, com 19 anos feitos, e fomos viver para casa dos meus pais. Ele foi trabalhar de trolha com os meus irmãos. Mas dali a pouco tempo chamaram-no para a tropa para Lisboa. Depois foi para a Guiné, embarcou no Uíge, seguiu para Bigene. Mandava-me aerogramas de lá. Um dia disse-me: ‘Estou num sítio muito mau. Aconteça o que me acontecer, uma coisa te peço, nunca dês padrasto à minha filha’.”

Imprevistamente, recebe um telegrama a comunicar a morte do António, por motivo de afogamento. “Já se passaram quase cinquenta anos e isso ainda me marca. Eu viúva, com 21 anos, com uma filha órfã, a viver com o meu pai e mais treze irmãos, sete deles abaixo de mim… Foi tudo muito duro!”. Depois de porfiadas diligências, passou a receber uma pensão de 600 escudos, começou a construir uma casinha, tomou conta de sobrinhos, recebia mais um dinheirinho. “O corpo dele demorou seis meses a vir da Guiné. Foram duas dores: a da notícia e do choque e, depois, a dor do funeral. Não acreditava que ele tinha morrido, sonhava que ele estava vivo. Passei muitos anos a sonhar que ele estava vivo. Ainda há dois anos sonhei que ele me apareceu por aí, todo contente, com a mesma roupa que levou ao nosso casamento. O meu pai foi a Lisboa para o reconhecer. Diz que o caixão tinha um vidro por cima e que se via metade do corpo. Diz que estava perfeitinho. No cemitério, os colegas dele fizeram uma fileira e dispararam umas rajadas para o ar. Foi uma marca que me ficou para sempre. Vou todos os anos à festa e ao almoço dos militares da Guiné, em Forjães. Eles convidam-me sempre, o Boucinha e o Albino taxista. Começa às 10 horas com a missa, depois eles vêm cá sempre ao cemitério de Aldreu colocar um ramo de flores na sepultura do meu falecido homem”.

(continua)

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Nota do editor

Último poste da série de 8 DE ABRIL DE 2022 > Guiné 61/74 - P23152: Notas de leitura (1435): "O Silvo da Granada, Memórias da Guiné", por José Maria Martins da Costa; Chiado Books, Agosto de 2021 (4) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Guiné 61/74 - P23007: Notas de leitura (1421): “Declarações de Guerra, Histórias em carne viva da Guerra Colonial”, por Vasco Luís Curado; Guerra e Paz Editores, 2019 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 15 de Abril de 2019:

Queridos amigos,
Desde o trabalho jornalístico à investigação universitária, passando pelas páginas dos jornais e depoimentos televisivos, são variados os relatos dos antigos combatentes que a sociedade guarda num discreto anonimato. O que há de relevante neste levantamento de Vasco Luís Curado é que nunca se foi tão longe na versatilidade das citações, há prisioneiros na Índia, de primeiros-cabos atiradores, soldados-paraquedistas, alferes-sapadores, soldados-atiradores, condutores, oficiais de operações especiais, parece que o autor escolheu a dedo a representação dos estilhaços físicos e psicológicos, das manifestações mais díspares que vão da apatia à agressividade permanente. 

Como diz o autor, "O país, todos nós, não quis saber do combatente que, regressado a casa, dormiu um mês no bosque próximo com a faca-de-mato, ou daquele que, de vez em quando, acorda convicto de que, aos pés da cama, está um saco cheio de orelhas e dedos humanos (...) Há que continuar a ajudá-los num outro combate contra dois tipos de esquecimento: o que eles individualmente gostariam de fazer mas não podem, e o que o país lhes quer impor mas não devia".

Um abraço do
Mário



A voz de antigos combatentes que se mantêm em conflito, em carne viva

Beja Santos

“Declarações de Guerra, Histórias em carne viva da Guerra Colonial”, por Vasco Luís Curado, Guerra e Paz Editores, 2019, reúne relatos de antigos combatentes, um mostruário eloquente dos estilhaços físicos e psicológicos que a sociedade portuguesa finge esquecer, a guerra já está longe, estes stressados que se amanhem. 

Quem os recolheu é psicólogo clínico, trabalhou dez anos num hospital militar, acompanhou estes stressados, e visa um objetivo primordial com este livro: contribuir para um reconhecimento impedido por divisões profundas na sociedade portuguesa de homens que combateram e que se sentem votados ao esquecimento, muitos deles profundamente doentes ou levando uma vida familiar desgraçada. Como, explicitamente, observa:

“O país e o combatente individual são o duplo um do outro. Assim como o combatente se apazigua aceitando as marcas físicas ou mentais como parte indelével de si mesmo, o país amadurece recuperando o seu passado e aqueles que enviou para o combate. Foram necessários muitos anos para se caminhar em direção a algum equilíbrio na forma de interpretar a guerra e fazer face aos homens que ela mobilizou. Há que continuar a ajudá-los num outro combate contra dois tipos de esquecimento: o que eles individualmente gostariam de fazer mas não podem, e o que o país lhes quer impor mas não devia”.

Diga-se em abono da verdade que o tema está abundantemente versado, as livrarias oferecem muita leitura sobre vidas atormentadas destas experiências de combate sobretudo em terra mas também nos céus e nos rios, falam de jovens que queriam emigrar e que procuraram despachar o serviço militar, seguiram-se as comissões muito duras que tudo alteraram. O que distingue verdadeiramente estes relatos de Vasco Luís Curado do que até agora se escreveu é a versatilidade do caleidoscópio humano, fica-se com a impressão que o apanhado de testemunhos cobre o essencial dos estados daqueles para quem a guerra ainda não acabou, acompanhará muitos até à tumba. Veja-se o caso de quem acreditava no dever pátrio de ir para a guerra, ela mostrou-se tão cruenta que o crente desses valores se foi alterando, e assim testemunha, com uma franqueza que ronda a brutalidade:

“Os meus melhores amigos foram morrendo. Um deles foi atingido numa emboscada, em Cabo Delgado, por um tiro vindo da mata. Vi-o cair. Quando cheguei ao pé dele, estava morto. Quando fazíamos escolta a uma coluna de Engenharia, vi outro ser atingido por uma granada de morteiro e ficar desfeito. Estive com ele até morrer. Sabe o que é apanhar ao colo um amigo sem braços nem pernas?”

Quem testemunha confessa que sentiu prazer em matar, fica o peso da consciência: 

“Por cada pessoa que matei, os rostos ainda me perseguem e devoram”.

 Regressou e a inadequação cedo se manifestou. Sentia-se consumido por uma fúria destruidora: 

“Engravidei a minha segunda mulher quando ainda vivia com a primeira – e também a abandonei anos mais tarde. Sempre fui abandonando as pessoas de quem gostava, para não as magoar mais. Um dos meus netos, ainda criança, odeia-me e com razão: parti o braço ao pai dele. O meu genro é toxicodependente e esteve envolvido em assaltos. Eu tentava fazer-lhe mal de cada vez que o via e cheguei a atropelá-lo. Tenho medo de dormir, quando fecho os olhos vejo coisas passadas na guerra. Às vezes dou por mim a chorar sozinho quando penso no Ultramar, parece que sinto uma pessoa a gemer dentro de mim”

Meses continuados de tensão podem, imprevistamente, revelar-se em sinais de abulia, indiferença ou o seu contrário, alguém testemunha assim:

“Ao fim de quinze meses, depois de me confrontar com tantos problemas, os homens motivados por minas, dar dinheiro a soldados para pagarem medicamentos dos filhos na Metrópole, comecei a desparecer de vez em quando: disseram-me mais tarde que me iam encontrar na estrumeira, fora do aquartelamento, sujeito a expor-me ao fogo inimigo, sem saber o que estava ali a fazer”.

O convívio com a morte e toda a escala do sofrimento também pode gerar relações paradoxais, como alguém revela: 

“Éramos capazes de cantar e beber cerveja ao pé de camaradas mortos. Quando um de nós recebia alguma coisa da Metrópole, como chouriços e coisas assim, era uma festa. Comíamos e bebíamos juntos, mesmo que ali ao lado estivessem os mortos embrulhados. Isto já numa fase mais avançada, endurecidos pela guerra”

E alguém morreu por ele, a dor parece interminável: “Fui ferido três vezes num ataque. Viram-nos a entrar para o abrigo e mandaram para lá a granada. Um dos que tinha entrado para o abrigo primeiro do que eu estava à minha frente e salvou-me a vida, porque levou com tudo. Caio com o meu peito em cima dele, que estava a morrer, senti o sangue dele a jorrar para cima de mim, a correr em golfadas que faziam barulho, parecia que silvava. Eu fiquei ferido com dezenas de estilhaços cravados no peito, barriga e pernas. Ainda hoje encontro camaradas que me dizem como é que eu tinha tanto sangue para deixar lá”

A destruição familiar é muito frequente, oiçamos alguém: 

“Ao fim de 36 anos de casamento, a minha mulher deixou-me. Fiquei sozinho. As minhas filhas estão do lado da mãe. Uma não me liga nada, a outra sim, porque precisa de mim para ir levar e trazer a minha neta que anda no infantário. Dizem que sou um sobrevivente, um exemplo para os meus camaradas, que me viram como morto e nunca julgaram que escapasse. Recebi um louvor, porque, mesmo ferido, não deixei de incentivar os meus camaradas. Eu quero viver, levar a vida para a frente. Mas como é que eu chego lá?”.

Insónias, solidão, sonos invadidos pela guerra, gritaria nos pesadelos, arrependimentos, viver como um fantasma, a vida a fazer uma revisão da guerra… E o horror de um momento capital que depois é versado em termos banais: 

“Perto do fim da comissão, seguíamos dez numa viatura, íamos assistir a um jogo de futebol no quartel da companhia mais próxima. Não ia eu a conduzir. O meu colega deixou o carro despistar-se na picada. Fiquei com o braço debaixo do carro, que me decepou a mão esquerda. Vi a mão caída no chão, mesmo à minha frente. Olhei para o couto, olhei para a mão. Com raiva, dei um pontapé na mão, que voou para o mato. Na enfermaria perguntaram-me pela mão, ainda poderia ser cosida ao braço, no hospital central. Eu e alguns camaradas voltámos ao local do acidente, procurámos no meio da vegetação. Já não a encontrámos. Deve ter sido um festim para as formigas”.

 Tudo é indelével, e momentos há em que se percebe o quilate da camaradagem indefetível: 

“Nos anos 90, quando visitei o Monumento aos Combatentes do Ultramar, em Belém, com o mural onde estão gravados os nomes dos mortos, li o nome completo do Valter, a quem fechei os olhos, e, nesse momento, tornei a sentir o corpo dormente: era o espírito dele a sair do meu corpo”.

Cansaço, cólera, abandono, recolhimento, susto com o barulho dos carros, foguetes, estrondos, sair da cama a meio da noite, vestir-se com a preocupação de que vai para uma operação, um choro compulsivo repentino, olhar para o arvoredo e pensar que está ali um belo sítio para fazer uma emboscada… O que Vasco Luís Curado regista em testemunhos muito bem cuidados é uma gritante chamada de atenção para esses milhares de combatentes que precisam de apoio e de muita compreensão. A sociedade portuguesa precisa de estar mais aberta e compreensiva para este passado colonial, pois muita desta dor aqui contada vem do esquecimento a que estes homens se sentem votados.

De leitura obrigatória.

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Nota do editor:

Último poste da série de 17 DE FEVEREIRO DE 2022 > Guiné 61/74 - P23005: Notas de leitura (1420): "Um caminho de quatro passos", de António Carvalho (2021, 219 pp.): apontamentos etnográficos para o retrato da nossa geração, de antigos combatentes - Parte III (Luís Graça): uma excursão a Lisboa, de 4 dias, em 1959