sábado, 7 de agosto de 2021

Guiné 61/74 - P22441: Estórias do Zé Teixeira (50): Amores em tempo de guerra - O sonho da Luisinha (José Teixeira, ex-1.º Cabo Auxiliar Enfermeiro da CCAÇ 2381)

Em mensagem do dia 4 de Agosto de 2021, o nosso camarada José Teixeira (ex-1.º Cabo Aux Enfermeiro da CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá e Empada, 1968/70), enviou-nos mais um dos seus contos, para a sua série "Estórias do Zé Teixeira":


Amores em tempo de guerra

Um sonho terrível acossara a Luisinha naquela noite, depois de um jantar entre colegas da faculdade de Medicina. Tinha sido organizado pelo Jorge, que considerava o seu melhor amigo, para comemorar as vinte e três primaveras com que fora privilegiada pela vida. Gostava muito de conversar com o Jorge e, na realidade, o Jorge encontrava na Luisinha a fonte da sua paixão. Discreto e tímido como era, não ousava tentar aproximar o seu coração ao da jovem eleita, por medo de ser rejeitado. Amava-a no silêncio da sua alma, seguia-lhe os passos religiosamente, procurava todas as oportunidades para conversar com ela e era correspondido.
Luisinha era uma rapariga aberta e comunicativa. Tinha prazer em cultivar amizades, mas não deixava espaço para a aproximação. O seu compromisso com o Zeca era sagrado. Porém, o Jorge foi-se insinuando e conseguiu penetrar no âmago do seu coração. Nas conversas perdidas no vazio do tempo com o Jorge, enquanto esperava Zeca, descobriu que cada um de nós carreteia uma mochila doada ao nascer e nos acompanhará pelo tempo fora. Nela é depositada toda a nossa história. A história que cada um escreve no dia a dia da sua vida, que será tanto mais leve quanto mais soubermos acomodar dentro dela, as nossas melhores escolhas para o quotidiano que ousamos viver, apartando tudo que não nos serve ou pode prestar-se a ser empecilho à nossa felicidade. Cabem lá os sonhos que nos enchem a vida, mesmo aqueles que se dissiparam no tempo, os projetos de um futuro na construção da felicidade a que temos direito, renovados em cada dia que parte. Sobretudo cabem lá as decisões sensatas e a sua concretização. Atos e ações que leve, muito leve e agradável o seu transporte nos fazem sentir realizados. Mas também as decisões insensatas que a tornam mais pesada e difícil de carregar vida fora.

Sem se aperceber, a jovem candidata a médica pediatra, cometera na noite anterior um ato profundamente insensato. Deixou que o coração do Jorge se aproximasse demasiado do seu coração e ficou presa. A sensualidade própria da juventude libertou-se das amarras que ela continha dentro dela, pelo amor que dedicava ao Zeca desde tenra idade. A um amor proibido e indesejado pelo seu pai que com o tempo se transformou numa linda paixão, agora ressequida pela ausência forçada por exigências da Pátria, se contrapõe outro amor alimentado pela presença contínua na sua vida de estudante, de um jovem extremamente cortês e delicado, bem-parecido e, como ela, abonado financeiramente. O coração a traíra numa noite que devia ser de felicidade. Na realidade fora rica pelo convívio, pela quentura da amizade sentida e pelos momentos selados naqueles beijos de apaixonado que recebera e retribuíra, mas os amargos que se levantaram depois abafaram toda a festa.

Zeca apareceu-lhe no sonho e levou-a a caminhar até aos tempos de criança A sua timidez nos primeiros dias de escola, talvez pelo pouco convívio com crianças da sua idade. Timidez que o Zeca ajudou a fazer desaparecer com o seu sorriso, suas brincadeiras e aventuras. Viu-se a caminhar, em pleno verão, pelo jardim do Parque Verde do Mondego de mãos unidas, dedos entrelaçados, tanto quanto os seus corações, embalados pela suave música da água do rio ao lamber as margens sequiosas enquanto dos seus lábios saíam promessas de amor eterno. A noite em que o afeto que os unia se transformou num vulcão e a elevou ao céu, fazendo-a sentir-se mulher de corpo inteiro. Noite em que ambos se desvirginaram num puro ato de amor jamais conjeturado, surgiu-lhe no meio do sonho, a atormentá-la. Um momento tão belo na sua vida que era a maior e melhor fonte de alimento do seu amor pelo Zeca vem pedir-lhe ‘contas’ pelo seu gesto impensado com Jorge no calor daquela noite. Acontecera poucos dias antes do Zeca partir para a Guiné, numa certa noite fria de abril, em que o calor dos seus corpos unidos pela paixão os traiu, nos seus propósitos de se manterem virgens para dar mais vida à noite de núpcias que vislumbravam com esperança, no regresso do Zeca e foi tomado pelos dois, como sinete branco que os iria unir na separação forçada que se avizinhava. O Amor que nutria pelo Zeca e representava tudo para ela estava ferido. A profundidade do seu pensamento, a visão positiva que ele tinha do mundo. A forma como encarava os problemas e com que a humanidade se debatia; a relação entre a riqueza de alguns a contrapor-se à miséria de muitos o fazia sofrer profundamente e empenhar-se nas lutas proibidas e secretas dos moradores das ilhas do Porto por habitação condigna. Eram estes os valores que o Zeca carregava na sua mochila e que a faziam sentir-se mais rica e aprofundava o amor que os unia.

Ao acordar Luisinha sentiu-se envergonhada de si mesma. Sentia-se numa prisão a quatro braços e não conseguia abrir caminho para se libertar.

Zé Teixeira
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Nota do editor

Último poste da série de 27 DE JULHO DE 2021 > Guiné 61/74 - P22408: Estórias do Zé Teixeira (49): Um dia de festa em tempo de guerra (José Teixeira, ex-1.º Cabo Auxiliar Enfermeiro da CCAÇ 2381)

Guiné 61/74 - P22440: Os nossos seres, saberes e lazeres (463): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (3) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 1 de Julho de 2021:

Queridos amigos,
Eu sou do tempo em que o Jardim Botânico pertencia à Faculdade de Ciências de Lisboa, ainda não sabia que o local se chamava Monte Olivete num espaço denominado Cotovia. Espaço de ensino de grandes tradições, aqui houve ensino jesuítico e Colégio dos Nobres, depois Escola Politécnica, foram atraídos jardineiros estrangeiros, para aqui convergiram coleções raras, grandes investigadores que deram renome a este jardim através da escola, houve um sério apoio político e científico, basta pensar em Andrade Corvo e no Conde de Ficalho. Dado o tesouro que representa o seu património está classificado como Monumento Nacional desde 2010. Não deixa de assombrar como espaço bem encenado, já não se entra pelo portão esquerdo, mas pelo portão direito do que é hoje o Museu de História Natural e da Ciência, parece que vamos a uma representação teatral no Teatro da Politécnica, hoje espaço reabilitado da velha Associação dos Alunos da Faculdade de Ciências, estamos num patamar superior, dragoeiros e cactos soberbos não faltam, há bancos para mirar à volta, em determinados ângulos temos mesmo as fachadas de prédios da Rua da Escola Politécnica, ali a menos de uma centena de metros viveram durante dezenas de anos o historiador José-Augusto França e o poeta Alexandre O'Neill, é um dos troços da chamada Sétima Colina que vai do Cais do Sodré ao Largo do Rato. Jardim com uma beleza imensa, por isso mesmo vamos ainda juntar mais algumas imagens e comentários na próxima semana.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (3)

Mário Beja Santos

O Jardim Botânico, hoje adstrito ao Museu Nacional de História e da Ciência, monumento nacional desde 2010, tem uma longa história na pesquisa científica, na medida em que estes jardins botânicos nasceram fundamentalmente para ensinar e investigar. Ao tempo da Escola Politécnica, que sucedeu ao Colégio dos Nobres e ao ensino jesuítico, o jardim integrava a Faculdade de Ciências. É longo o historial da formação de coleções de grande valor com espécies trazidas de todo o mundo, árvores e plantas vão sendo dispostas em diferentes patamares e daí o visitante encontrar sensíveis diferenças de temperatura enquanto sobe ou desce este esplêndido Jardim Botânico, concebido como horto com papel insubstituível na investigação botânica pura e aplicada, e como tal não é de estranhar possuir campos destinados à experimentação, estufas, entremeados de lagos, caminhos de pura fruição…

No início do ano de 1837 foi instituída a Escola Politécnica e a Lei determinava a existência de um Jardim Botânico. Foram encarregues da sua execução vários peritos credenciados, vieram jardineiros estrangeiros, ao tempo era estreita a ligação com o Jardim Botânico da Ajuda, este hoje dependente do Instituto Superior de Agronomia. Os peritos foram juntando coleções, foram feitas aquisições, houve doações de vulto de cidadãos nacionais e estrangeiros para fazer obras no jardim. Grandes políticos e estudiosos como Andrade Corvo ou Conde de Ficalho ficaram ligados a esta fase de instalação. Aqui e ali iam surgindo problemas novos, foi o que aconteceu em 1887 com a abertura do túnel da linha dos caminhos-de-ferro, o Túnel do Rossio, que intercetava a parte inferior do jardim. Há hoje obras que contam todo este histórico, é uma leitura que permite entender o valor incalculável que aqui se exibe a estudiosos e ao público.

O leitor mais curioso encontra no Google informação pertinente sobre a vastidão deste património. A diversidade de espécies é imensa (entre 1300 e 1500), a organização do espaço ajardinado é fascinante nos seus recantos e declives, o olhar passa rapidamente de aves monumentais e de grande porte para arbustos exóticos, e as palmeiras estão praticamente omnipresentes, vindas de todos os continentes, e daí a sensação que experimentamos de termos ingressado num mundo tropical.

As cicadáceas são um dos ex-libris do Jardim. Autênticos fósseis vivos, representam floras antigas, que na maioria se extinguiram e que só em jardins botânicos se conservam. O Jardim é particularmente rico em espécies tropicais originárias da Nova Zelândia, Austrália, China, Japão e América do Sul, o que atesta as peculiaridades dos diferentes microclimas criados neste Jardim pela implantação topográfica em que se insere. Na classificação como Monumento Nacional em 2010, integra-se todo o património artístico (esculturas) e edificado que nele se encontra: Observatório Astronómico da Escola Politécnica, Edifício dos Herbários, Estufas, Palmário, e antiga estufa em madeira.

Mas porquê colocar o Jardim Botânico neste local? Este lugar era conhecido no passado como Monte Olivete, tinha já mais de dois séculos de tradição no estudo da Botânica, iniciado com o colégio jesuíta da Cotovia, aqui sedeado entre 1609 e 1759. Aqui se escreve no que vem nos textos divulgativos que encontramos na internet.

A enorme diversidade de plantas recolhidas pelos seus primeiros jardineiros, o alemão E. Goeze e o francês J. Daveau, provenientes dos quatro cantos do mundo em que havia territórios sob soberania portuguesa, patenteava a importância da potência colonial que Portugal então representava, mas que na Europa não passava de uma nação pequena e marginal. Edmund Goeze, o primeiro jardineiro-chefe, delineou a “Classe” e Jules Daveau foi o responsável pelo “Arboreto”.

A elevada qualidade do projeto, bem ajustado ao sítio e ao ameno clima de Lisboa, cedo foi comprovada. Mal acabadas de plantar, segundo o caprichoso desenho das veredas, canteiros e socalcos, interligados por lagos e cascatas, as jovens plantas rapidamente prosperavam, ocupando todo o espaço e deixando logo adivinhar como, com o tempo, a cidade viria a ganhar o seu mais aprazível espaço verde e o de maior interesse cénico e botânico. Em pleno coração de Lisboa e em forte contraste com o seu bulício, as cores e as sombras, os cheiros e os sons do Jardim da Politécnica dão recolhimento e deleite.

A maior intervenção na área do Jardim ocorreu no final dos anos 30 e princípios dos anos 40 do séc. XX, por influência do então diretor Ruy Telles Palhinha: a primitiva ordenação sistemática do plano superior do Jardim foi substituída pelo agrupamento das espécies em conjuntos ecológicos.

As coleções sistemáticas servem vários ramos da investigação botânica, demonstram junto do público e das escolas a grande diversidade de formas vegetais e múltiplos processos ecológicos, ao mesmo tempo que representam um meio importante e efetivo na conservação de plantas ameaçadas de extinção.

Autênticos fósseis vivos, representam floras antigas, que na maioria se extinguiram. Hoje, são todas de grande raridade, havendo certas espécies que só em jardins botânicos se conservam. O Jardim é particularmente rico em espécies tropicais originárias da Nova Zelândia, Austrália, China, Japão e América do Sul, o que atesta a amenidade do clima de Lisboa e as peculiaridades dos microclimas criados neste Jardim.

Na esteira do que acontece na generalidade dos jardins botânicos, também este Jardim, em estreita colaboração com os restantes departamentos do Museu desenvolve, em permanência, ativos programas de educação ambiental, para os diferentes níveis etários da população estudantil e oferece visitas temáticas guiadas.

(continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 31 DE JULHO DE 2021 > Guiné 61/74 - P22419: Os nossos seres, saberes e lazeres (462): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (2) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P22439: Contactem-nos, há sempre alguém que pode ajudar (1): Mensagens recebidas entre 12 de julho e 6 de agosto de 2021


Lourinhã > Porto das Barcas > Tabanca do Atira-te ao Mar > 1 de agosto de 2021 > Contactem-nos, que há sempre alguém, na Tabanca Grande, mãe de todas as tabancas, que pode ajudar...

Foto (e legenda): © Luís Graça (2021). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Regiões da Guiné-Bissau.
Fonte: Wikipedia
1. Emails enviado através da gadget Formulário de Contactos em

Esperemos que alguém possa ajudar, dentro ou fora da Tabanca Grande... Há sempre uma primeira resposta ou comentário dos nossos editores:






(i) Marcelino Issa da Cunha, 12/7/2021

Boa noite, gostaria de saber como posso cnseguir este livro "Grandeza Africana, Lendas da Guiné Portuguesa", por Manuel Belchior  (Mário Beja Santos)

Sou estudante de letras cursando mestrado em literaturas africanas na Unilab no Brasil, sou Guineense, de Empada, Região de Quinará

Cumprimentos,
Marcelino Issa da Cunha | issacunha@aluno.unilab.edu.br
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Resposta do editor LG: Livro raro. Procurar em alfarrabistas ou bibliotecas públicas.


(ii) Henriques Hilário Ferreira, 22/7/2021


Cripto CCAÇ 3565/BCAÇ 3883, CAOP2,   Guiné 72/74

Cumprimentos,
Henriques Hilario Ferreira | ct1dms@sapo.pt
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Resposta do editor LG: Obrigado, camarada. Não temos, infelizmente, nenhum representante do teu batalhão nem da tua companhia.


(iii) Alfecene Indjai, 24/7/2021

Antes de mais saudações a todos valentes combatentes que sacrificaram as suas juventudes em prol de uma vida melhor.

Sou filho de um vós, o meu pai serviu a Armada Portuguesa e deu tudo de si para este causa. Hoje infelizmente ele não está entre nós e como filho queria saber podemos de alguma forma fazer parte deste grupo e partilhar algumas recordações dele.

Sem mais nada aceitem as minhas saudações.
 
Cumprimentos,
Alfecene Indjai | alfudo.friday@gmail.com
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Resposta do editor LG: Indjai, como era o nome do teu pai ? Manda-nos mais alguma informação concreta e, se possível, alguma foto.


(iv) José Perdigão, 27/7/2021


Olá, Armando. Encontrei o seu blogue.

O meu pai esteve em Cufar, Furriel Enfermeiro Fernando Joaquim Rita Manuel.

A minha mãe deu-me recentemente uma insígnia do meu pai e decidi investigar o tempo em que ele estive na Guiné.

Cumprimentos,
João Perdigão | joao.p.manuel@gmail.com
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Resposta do editor LG: João, julgo que te estejas a referir ao Armando Faria (ex-Fur Mil Inf Minas e Armadilhas da CCAÇ 4740, Cufar, 1972/74)


(v) João Artur Mamede, 28/7/2021

Procuro contactar António Augusto Miranda Guedes das Neves, que morava na Av Elias Garcia, 17. As buscas trouxeram-me até aqui! Poderão ajudar-me? Seria óptimo.
Agradeço.

Cumprimentos,
João Artur Mamede | joaoarturmamede@gmail.com
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Resposta do editor LG: João, estamos a falar de quem ? Um antigo combatente da Guiné ?


(vi) Álvaro Vasconcelos, 29/7/2021

Cordiais saudações a todos os Camarigos, em particular aos que estão mais carenciados de saúde e/ou bem estar.

Um abraço do tamanho do mundo.
Alvaro Vasconcelos, Minhães, Grilo / Baião
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Reposta do editor LG:

Obrigado, Álvaro, pela parte que me toca!


(vii) José Manuel Pavão, 30/7/2021

Boa tarde. Precisava contactar Luís Graça da Tabanca Grande
Consulado Guiné-Bissau, Porto
Tjm. 9******16
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Resposta do editor LG: Voltaremos a falar, senhor cônsul!


(viii) Alberto Vasconcelos, 1/8/2021

Joaquim Duarte Pinto Pereira,  furriel, esteve ou não na CCAÇ  13 em 73/ 74 na Guiné?

Cumprimentos,
Alberto Vasconcelos | albertovasconcelos5@gmail.com
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Resposta do editor LG: Vamos ver se alguém da CCAÇ 13 pode dar uma pista...


(ix) Sandra Coelho, 2/8/2021

Boa tarde
A minha mãe procura um primo que esteve no ultramar, em Moçambique, entre 1972 e 1974. Ela gostava muito de o voltar a ver, já tem uma idade e tem essa tristeza de ter perdido o contacto. Tenho umas fotos e postais que ele lhe enviou de Moçambique. Tenho fotos dele. 

Cumprimentos,
Sandra Coelho | cacaosandra@gmail.com
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Resposta do editor LG: Somos um blogue de antigos combatentes da Guiné... e não de Angola e muito menos Moçambique... Mas, para podermos ajudar, é preciso daber o nome do primo...


(x) Leonel Olhero, 6/8/2021

O furriel Melo fez em Bula - Esquadrão meia comissão de serviço comigo. O Esquadrão já fez trinta e tal encontros e o Melo nunca apareceu.

Desconhecia-se o seu contacto e paradeiro. Fui, quase sempre, o organizador daqueles encontros. Preciso do contacto do Melo e conto com o contributo da Tabanca Grande. Abraço

Cumprimentos,
Leonel Olhero | leonelolhero@gmail.com
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Resposta do editor LG: Leonel, muito gosto em saber de ti... Mas vamos ver se o Melo nos lê...

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Guiné 61/74 - P22438: Alferes Miliciano Fernando da Costa Fernandes, da CART 1690/BART 1914, que morreu vítima de ferimentos em combate durante a Op. Invisível, em Sinchã Jobel, no dia 18 de Dezembro de 1967, cujo corpo não foi possível recuperar


Alferes Miliciano Fernando da Costa Fernandes

- Partiu para a Guiné em rendição individual em 1966.
- Foi colocado numa Unidade estacionada em Nhacra, ficando destacado em João Landim.
- Seguidamente foi colocado no BCAV 1905, sediado em Teixeira Pinto.
- Mais tarde foi para a CART 1690 a fim de substituir o Alf Mil António Marques Lopes, ferido e evacuado em consequência do rebentamento de uma mina anticarro.
- Faleceu em 18/12/67, vítima de ferimentos em combate durante a Op Invisível.

- O seu corpo não foi recuperado.


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2. Comentários do editor

- No nosso Blogue, o Cor DAF ref Marques Lopes, a propósito do seu livro "Cabra Cega" (, cópia da capa acima, edição brasileira), no Poste 15202 de 5 de Outubro de 2015[*], descreve as circunstâncias da morte do Alf Mil Fernando da Costa Fernandes durante a Op Invisível.

"Este alferes Fernando da Costa Fernandes, natural de Santo Tirso, tinha vindo para a CART 1690, para substittuir o A. Marques Lopes, entretanto evacuado para o HMP, na sequência da mina A/C acionada em 21/8/1967, na estrada Geba-Banjara, que vitimou mortalmente o Cap Art Manuel Guimarães. O Fernandes será "dado como desaparecido" em campanha, nesta Op Invisível, em 19 de Dezembro de 1967... Na realidade, foi morto e o seu corpo nunca foi recuperado".

- Ainda sobre a morte do Alferes Fernandes, na página do nosso camarada António Pires, UTW Terra Web - Dos Veteranos da Guerra do Ultramar, podemos ler o recorte de um artigo da autoria de António Martins Moreira, ex-Alf Mil Op Esp da CART 1690, com o título "Fernando da Costa Fernandes, Alferes Mil (o Aznavour) - Companhia de Artilharia 1690 - Batalhão de Artilharia 1914 - Tombado em Combate no Dia 18 de Dezembro de 1967", publicado em 3 de Fevereiro de 1995 no jornal Badaladas, de Torres Vedras.
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Nota do editor:

[*] - Vd. poste de 5 DE OUTUBRO DE 2015 > Guiné 63/74 - P15202: Os jogos de cabra-cega: Sinchã Jobel (A. Marques Lopes) (Parte V): a partir da Op Invisível, de 18-19/12/1967, passa a ser uma ZLIFA (Zona LIvre de Intervenção da Força Aérea)... O alf mil Fernando da Costa Fernandes, de Santo Tirso, é morto, não sendo possível resgatar o seu corpo, e o soldado Manuel Fragata Francisco, de Alpiarça, é gravemente ferido, aprisionado e levado para Ziguinchor onde é tratado pelo dr. Mário Pádua e mais tarde, em 15/3/1968, entregue à Cruz Vermelha Internacional

Guiné 61/74 - P22437: Esboços para um romance - II (Mário Beja Santos): Rua do Eclipse (64): A funda que arremessa para o fundo da memória

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 21 de Julho de 2021:

Queridos amigos,
Temos, pois, um intenso período de atividade operacional, para quem manda e comanda parece que se descobriu que há uma situação extremamente grave no regulado do Xime, o PAIGC não só está de pedra e cal no Baio-Burontoni como cultiva às claras a riquíssima bolanha do Poidom, uma fonte inigualável para o abastecimento da guerrilha e populações nestes pontos do Leste, em ambas as margens do Corubal. Não se mediram as consequências de ter retirado o aquartelamento da Ponta do Inglês, há também aqui um itinerário estratégico para o abastecimento de armamentos a partir de e para o Sul. As operações são um malogro, já é sabido que é praticamente inacessível procurar atingir-se o Burontoni a partir do Xime, o itinerário mais seguro é usar sempre Moricanhe, tem-se mais visibilidade e mais fator surpresa a nosso favor. Mas estes reparos não são atendidos, quem comanda julga-se depositário de uma ciência infusa, omnisciente e repetem-se as emboscadas, com os nossos feridos e mortos. Vai seguir-se uma operação bastante sangrenta, a Tigre Vadio, bem se insistiu em dois itinerários diferentes para objetivos distintos, foi um milagre ter cerca de 300 homens uns atrás dos outros a entrar no inferno de Belel e dali sair com feridos ligeiros depois de um ataque surpresa como nunca houvera antes com tropa de infantaria, nem haverá depois.

Um abraço do
Mário



Rua do Eclipse (64): A funda que arremessa para o fundo da memória

Mário Beja Santos

Mon inoubliable amour, passion sans mesure, que mais posso dizer sobre os dias vertiginosos que vivemos, seguindo de Bruxelas para Lille, daqui para Calais, depois Dunquerque, depois Ostende, Bruges, Ypres e regresso à Rua do Eclipse? Que mais provas podemos dar um ao outro da nossa felicidade? Como me diverti quando fizeste um ar muito sério, eu enlaçava-te louco de amor na Grand-Place de Bruges, passaram jovens que comentaram aquela doidice, senti o teu rubor, como tivesses sido apanhada em falta, coisa imprópria da idade… Já estou como diz o escritor Gabriel García Márquez, a idade não é a que temos, é a que sentimos, e eu sinto a plenitude deste amor que me inebria a existência, me dá impulso para a multiplicidade de tarefas e não abdico de pensar que é a via única da felicidade.

Regressei bem, já guardei no frigorífico e congelador as preciosidades que comprei com a tua ajuda, desembrulhei meticulosamente os meus queijos fedorentos, meti no micro-ondas uma lasanha, tiveste o cuidado de me pôr umas peças de fruta, jantei bem, mas sem ti, sem o teu encanto, ciente que em breve passarás as férias grandes comigo. Por isso mesmo te deixei aí um volumoso guia de Portugal, estou aberto a todas as tuas sugestões. Só te peço compreensão para a magreza de rendimentos dos meus filhos, a ver se passávamos uma semana todos juntos na costa alentejana, se nada tiveres a objetar. Com mais tempo falarei contigo sobre a conversa havida com o Jules, abri a porta para ele passar um tempo comigo, também os meus filhos darão apoio. Ainda esta semana acertaremos as datas do calendário.

Agradeço-te mais uma vez o desvelo com que estás a tratar o dossiê da minha comissão na Guiné. Revi tudo quanto aos meses de janeiro e fevereiro, nada mais tenho a acrescentar. Não pretendo deixar registado que tenho de novo o sistema nervoso abalado e muito ainda hoje medito sobre as causas daquela depressão camuflada, de uma ansiedade por vezes tão mal contida, isto quando naqueles 17 meses de Missirá e Finete o tempo corria veloz, com os constantes patrulhamentos a Mato de Cão, as obras de recuperação de Missirá e os arranjos de Finete, os abastecimentos obrigatórios para civis e militares, as aulas para crianças e adultos, as idas ao médico, era um quotidiano que me exigia uma disciplina férrea para ter tempo para mim, livros e música e correspondência para todos aqueles que estavam na minha constelação de afetos. Bambadinca representava o dia-a-dia as trouxe-mouxe, perdera-se a coesão da unidade militar, recebia ordens para mandar uma secção de nove homens levar munições ou doentes a um regulado próximo, outra ficava de serviço nos Nhabijões, eu e o restante pessoal devíamos ir a Madina Xaquili ou a Galomaro levar um abastecimento, documentação, o que quer que fosse. Era uma fragmentação de atividades que me dificultava a manutenção do espírito do grupo, que existia no Cuor. Agora limitava-me a fazer reuniões para verificar a limpeza do armamento, o armazenamento de morteiros e bazucas, fazer a contabilidade e tratar do expediente, para já não falar do serviço de justiça.

E subitamente sou convocado para um conjunto de operações, a região do Xime tornara-se prioritária para o coronel de Bafatá. Nasceu assim a Rinoceronte Temível, o comando de Bambadinca percebeu que fora da povoação do Xime os grupos do PAIGC deslocavam-se com bastante à vontade. Andava eu em obras na ponte de Undunduma, com novos recenseamentos de armas nas tabancas em autodefesa e sou chamado ao comando, vamos regressar ao Xime. O que se pretende, afinal de contas? Se há culturas na bolanha do Poidom, a intenção é que se faça uma batida constituída por dois destacamentos, um vai do Xime até à Ponta do Inglês, talvez fosse útil eu ir à frente e retomasse os caminhos recentemente percorridos, o comando deu nome a esta operação de Colete Encarnado; um outro destacamento leva rumo diverso, vai também do Xime, passará perto de Burontoni até atingir o outro extremo da bolanha do Poidom, ambos os destacamentos terão apoio aéreo. Tem perguntas, nosso alferes? Claro que tinha. Não se podia garantir qualquer sincronização face ao encontro dos dois destacamentos na Ponta do Inglês, a manter-se tais efetivos, sugeria que um dos destacamentos, e eu seguiria nele, caminha-se por Ponta Varela, atravessasse a estrada até à Ponta do Inglês e confirmasse se as populações tinham abandonado ou não a Mata do Poidom; se era certa a informação de que havia grupos diferentes no Baio-Burontoni e na região da Ponta do Inglês, este destacamento se dirigisse nessa direção, há um conjunto de operações que só se conhecem malogros, o ideal era atingir um desses acampamentos enquanto o outro destacamento seria posto à prova na Ponta do Inglês. O comando insistia na convergência, competia-me acatar a ordem. Só repliquei para recordar que os efetivos militares um estava exausto e o outro bastante desmotivado. Houve uma punhada na mesa, as operações seriam exatamente como estavam delineadas.

Annette, ma chérie, tens aí os papéis que dão conta de tudo quanto se passou. Os que saíam do Xime pelo flanco esquerdo tiveram que regressar horas depois devido a uma situação de doença grave, alguém que ficou completamente desfalecido e o maqueiro encheu-se de pânico, era noite escura. Já uma vez te observei e só quem não fez uma guerra como aquelas é que não sabe como estes regressos e retomas acentua o cansaço, desconcentra, desmobiliza. E os imprevistos entraram em cena, de parte incerta, naquele mato onde algures havia bases do PAIGC fazia-se fogo de reconhecimento, ao amanhecer sentiu-se o fumo das queimadas, ficaram à espera do apoio aéreo para ver como e onde se podia progredir. Eu lá fui para Ponta Varela, ia comigo um guia conhecedor do terreno que correspondeu inteiramente ao que lhe pedia, queria flanquear dentro da lala sempre à volta da foz do Corubal, ao amanhecer lá encontrámos as lavras, encaminhámo-nos para a Ponta do Inglês, sempre com aquela estranheza de ouvirmos o fogo troar lá para os lados do Baio e Burontoni. E com o nascer do dia percorremos a pente fino a mata, havia alfaias agrícolas, pegadas, mas nem vivalma. Então chegou a nossa vez de termos uma receção de fogo, tomei esta chuva de morteiradas como prova de que estávamos referenciados. Antes de sair do Xime, voltara a falar com o furriel das armas pesadas com quem me entendera na Operação Rinoceronte Temível, pedi fogo e não mais houve morteiradas. Nisto chegou o apoio aéreo, pedi instruções para ir encontrar-me com outro destacamento, estupefacto, lá de cima mandaram-nos regressar a Ponta Varela. Ao princípio da tarde, novo contato com o apoio aéreo, ordens para regressar ao Xime. Infelizmente, eu tivera razão, este insucesso não trazia nada de bom para quem já estava desmotivado ou exausto.

Almoçados e com o astral muito em baixo, regressámos a Bambadinca. Com tudo arrumado, dirigi-me ao comando, numa tentativa de perceber aquelas ordens e contraordens, também os que tinham andado não longe do Burontoni não entendiam aquela ordem súbita de retirada. A resposta veio seca: se estávamos referenciados, não valia a pena uma maior exposição, em breve se repetiria a operação. Quando me preparo para sair, o major faz-me sinal, quer que eu fique. E naquela sala de operações onde numa parede se estendem as cartas geográficas do setor, pontuados os diferentes destacamentos e assinaladas as áreas onde o PAIGC interfere, sou informado, e exigem-me o mais completo silêncio, dentro de escassos dias partirei para o Cuor, a operação chama-se Tigre Vadio e o objetivo é grandioso, por isso irão 300 homens em dois destacamentos. Intenta-se bater a região ocidental do Cuor e procurar destruir os acampamentos de Madina e Belel. Eu ainda não sei que será a mais sangrenta de todas as operações em que participei.

(continua)


Cais do Xime, já em vias de destruição, fins no século XX, fotografia de Humberto Reis
A caminho do Xime, estamos num período de várias operações na região
Ruínas do porto de Bambadinca, novembro de 2010
Bolanha de Finete, 2010
Ponta do rio Undunduma, vital para o trânsito entre o Xime e Bambadinca, até à conclusão da estrada alcatroada, 1970
Ponta do Inglês, uma relíquia da guerra, como um belo tronco guarda sinais de noites de fogo
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Nota do editor

Último poste da série de 30 DE JULHO DE 2021 > Guiné 61/74 - P22416: Esboços para um romance - II (Mário Beja Santos): Rua do Eclipse (63): A funda que arremessa para o fundo da memória

Guiné 61/74 - P22436: In Memoriam: Cadetes da Escola do Exército e da Escola de Guerra (actual Academia Militar), mortos em combate na 1ª Guerra Mundial (França, Angola e Moçambique, 1914-1918) (cor art ref António Carlos Morais Silva) - Parte X: Agnelo Maldonado, alf inf (Viseu, 1896 - França, CEP, 1918)


Agnelo Maldonado (1896-1918)


Nome; Agnelo Maldonado
Posto: Alferes de Infantaria
Naturalidade: Viseu
Data de nascimento: 5 de Junho de 1896
Incorporação: 1916 na Escola de Guerra (nº 294 do Corpo de Alunos)
Unidade: Depósito de Infantaria, Regimento Infantaria n.º 16
Condecorações; Cruz de Guerra de 3ª classe (a título póstumo)

TO da morte em combate; França (CEP)
Data de Embarque; 17 de Novembro de 1917
Data da morte; 9 de Abril de 1918
Sepultura: (?)

Circunstâncias da morte; Na batalha de 9 de Abril tendo a sua companhia recebido a missão de ocupar posições na 2ª linha do dispositivo táctico, no momento em que o combate era mais intenso, avançou com o seu pelotão dando exemplo de coragem e destemor até ser mortalmente atingido pelos fogos inimigos.


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António Carlos Morais da Silva, hoje e ontem1. Continuação da publicação da série respeitante à biografia (breve) de cada um oficiais oriundos da Escola do Exército e da Escola de Guerra que morreram em combate, na I Guerra Mundial, nos teatros de operações de Angola, Moçambique e França (*).

Trabalho de pesquisa do cor art ref António Carlos Morais da Silva, cadete-aluno nº 45/63 do Corpo de Alunos da Academia Militar e depois professor da AM, durante cerca de 3 décadas; é membro da nossa Tabanca Grande, tendo sido, no CTIG, instrutor da 1ª CCmds Africanos, em Fá Mandinga, adjunto do COP 6, em Mansabá, e comandante da CCAÇ 2796, em Gadamael, entre 1970 e 1972. 
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quinta-feira, 5 de agosto de 2021

Guiné 61/74 - P22435: Agenda cutural (778): "Os Roncos de Farim", de Carlos Silva (Porto, 5 Livros, 2021): lançamento do livro, na Tabanca dos Melros, Fânzeres, Gondomar, no próximo dia 14, sábado





Capa, contracapa e badana do livro do Carlos Silva


1. No próximo dia 14, sábado, vai ser apresentado na Tabanca dos Melros, em Fânzeres, Gondomar, o  livro do nosso camarada  Carlos Silva (ex-Fur Mil Armas Pes Inf, CCAÇ 2548/BCAÇ 2879, Jumbembem, 1969/71), já aqui anunciado (*).

O livro vai ser vendido pelo autor praticamente a preço de custo, ou seja, a 10 euros. 

Esperemos que apareçam em força os muitos amigos e camarada do Carlos Silva, régulo da Tabanca, juntamente com o Gil Moutinho. Temos pena de não poder dar lá um salto nesta altura do ano. (LG)
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Nota do editor:

Último poste da série > 29 de julho de 2021 > Guiné 61/74 - P22414: Agenda cultural (777): "Os Roncos de Farim", um livro da autoria do nosso camarada Carlos Silva, a ser lançado brevemente

Guiné 61/74 - P22434: Blogues da nossa blogosfera (161): PANHARD - Esquadrão de Bula (Guiné, 1963/1974) (5): Garraiada na Monumental Arena do Real Solar Esquadrão - 1972 (José Ramos, ex-1.º Cabo Condutor de Panhard AML do EREC 3432)



Do blogue PANHARD - Esquadrão de Bula (Guiné, 1963-1974), que estamos a seguir e que é editado pelo nosso camarada José Ramos, ex-1.º Cabo Condutor de Panhard AML, do EREC 3432, que esteve em Bula, de 1972 a 1974.

GARRAIADA NA MONUMENTAL ARENA DO REAL SOLAR ESQUADRÃO - 1972

O final de 1972 comemorou-se no “Esquadrão de Bula” de modo grandioso para além de uma grandiosa tarde de touros, que incluiu ainda um concurso de misses, ou seja de matrafonas😂, e um jantar de gala.

Na monumental arena do Real Solar do Esquadrão, a festa brava atraiu grande número de curiosos dispostos a assistir a tão deslumbrantes faenas que foram celebradas com inúmeros “olés”.

Celebrando essa memória e alguns dos seus intervenientes aqui ficam dois “recuerdos” desse dia.

Após a preparação do touro bravíssimo, da Real Ganadaria AML-Panhard”, por parte dos peões de brega Morgado, Rodrigues, Macedo e Fialho, podemos ver um pormenor da lide do famoso espada “El Vicente”, a que se seguiria um extraordinário par de bandarilhas do bandarilheiro Carinhas -penso eu que seja -.

Mas não podíamos deixar este tão único momento sem uma cópia dos originais e dispendiosos cartazes mandados fazer para este efeito.

Trata-se de uma cópia do original oferecida pelo então nosso comandante, hoje Cor Henrique de Sousa, e guardada religiosamente, qual relíquia, que encontra finalmente a luz do dia.


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Notas do editor:

Último poste de 13 DE MAIO DE 2021 > Guiné 61/74 - P22198: Blogues da nossa blogosfera (159): PANHARD - Esquadrão de Bula (Guiné, 1963/1974) (4): Descrição das Operações realizadas na zona de Bula no dia 5 de Maio de 1973 (José Ramos, ex-1.º Cabo Condutor de Panhard AML do EREC 3432)

Último poste da série de 25 DE JULHO DE 2021 > Guiné 61/74 - P22403: Blogues da nossa blogosfera (160): Jardim das Delícias, blogue do nosso camarada Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 (69): Palavras e poesia

Guiné 61/74 - P22433: "Lendas e contos da Guiné-Bissau": Um projeto literário, lusófono e solidário (Carlos Fortunato, presidente da ONGD Ajuda Amiga) - Parte V: A lenda de Sundiata Keita



A lenda de Sundiata Keita  (pp. 28-41). Ilustracão: mestre Augusto Trigo, pág. 29



1. Transcrição das págs. 28 a 41 do livro "Lendas e contos da Guiné-Bissau", com a devida autorização do autor (*)

J. Carlos M. Fortunato > Lendas e contos
da Guiné-Bissau


[Foto abaixo: o autor, Carlos Fortunato, foi fur mil arm pes inf, MA, CCAÇ 13, Bissorã, 1969/71, é o presidente da direcção da ONGD Ajuda Amiga]



CarçpsFotunato


A lenda de Sundiata Keita


Estava certo dia o Mansa(Rei) (15) do Mali, Naré Maghan Kon, também chamado “leão do Mali”, a descansar na sua tenda, quando dois caçadores, acompanhados de uma jovem corcunda e feia, se aproximaram e pediram autorização para lhe entregar uma prenda.

Grande Mansa, vimos de uma terra onde um búfalo terrível devastava udo. Nós matamo-lo, mas o seu espírito encarnou nesta mulher, que é feia, mas forte e corajosa, por isso a trouxemos para você casar com ela, pois o filho que ela lhe der tornará grande o Mali. O nome dela é Sagolom  disse um dos caçadores.

 O filho de um leão e de um búfalo serão poderosos de verdade - sussurrou o djali bá  (conselheiro) (16) ao Mansa Maghan.

O Mansa casou-se com Sagolom, e no ano seguinte, ela deu à luz um menino. Todos se alegraram, menos Sassouma Bérété, a primeira esposa do Mansa.

 Maghan já tem o meu filho como seu herdeiro. Que necessidade tem ele de outro? Porque foi casar com aquela mulher horrível? Porque o meu filho não pode ser o Rei? O que vai ser de mim e do meu filho?   Sassouma, amargamente, pelos corredores do palácio.



Ilustracão: mestre Augusto Trigo, pág. 30


Mas o novo príncipe, Sundiata, embora tendo o espírito do búfalo e do leão, não conseguia andar.

Durante anos Sagolom tentou em vão curar o seu filho com mésinhos (17), mas Sundiata arrastava-se de gatas pelo palácio, ignorado por uns, ridicularizado or outros, deixando a sua mãe desolada e o seu pai desesperado, apenas o djali bá do Mansa lhes dava esperança.

Doente e sentindo que a morte se aproximava, o Mansa Maghan ordenou que Sundiata fosse trazido à sua presença:

  Meu filho,  já estou velho e os meus dias estão a terminar. Está na altura de tu, como futuro Mansa teres o teu djali bá. Este é Bala Fasséké, o seu pai foi meu djali bá, e ele será o teu. Ele irá ajudar-te no teu reinado  –disse o Mansa.

Quando o Mansa Maghan morreu, o Conselho dos Homens Grandes não respeitou a decisão do Mansa de nomear Sundiata como seu sucessor, e nomeou o filho de Sassouma , como novo Mansa.

Cheia de orgulho, a agora poderosa Sassouma insultou a mãe de Sundiata e expulsou-a do palácio, bem como a Sundiata e aos seus irmãos.

Sundiata, vendo a sua mãe em lágrimas, ordenou a Bala que lhe fosse buscar uma vara de ferro. Quando Bala voltou, Sundiata, apoiando-se na vara com ambas as mãos, levantou-se e ficou de pé, sem qualquer apoio, ficando a vara vergada com a força que Sundiata fez.

Uma multidão reuniu-se espantada quando Sundiata deu um passo, depois outro, e outro, e Bala gritou: 

 
– Abram caminho! Abram caminho! O leão está a andar!

Aos sete anos, Sundiata começava finalmente a andar, o que encheu de alegria a sua mãe.

Quando Sassouma ouviu as notícias sobre a caminhada e a força de Sundiata, ela temeu que ele agora fosse desafiar o seu filho pelo lugar no trono, e decidiu matá-lo. Depois pensou melhor e decidiu aguardar, pois Sundiata não tinha quem o apoiasse na conquista do trono, e com o tempo o seu jovem filho ganharia cada vez mais poder, e seria mais fácil destruir Sundiata.

Quando Sundiata fez dez anos, Sassouma achou que era a altura de se vingar de Sundiata e da sua família. Assim enviou primeiro Bala para a corte do terrível Mansa Sosso, Sumanguru, para Sundiata não ter ajuda do seu djali bá.


Ilustracão: mestre Augusto Trigo, pág. 32

Sumanguru era um poderoso feiticeiro, conhecido pela sua maldade e magia, cujo grande exército era muito temido. Sumanguru ficou impressionado com a inteligência e habilidade do jovem Bala, e resolveu mantê-lo ao seu serviço para sempre.

Sundiata ficou zangado e triste com o destino do seu amigo e conselheiro, mas seguiu as sábias palavras de sua mãe:

 Meu filho, temos que deixar o Mali. Aqui corremos muito perigo, porque Sassouma agora é muito poderosa, e vai matar-nos a nós e à nossa família. Temos que fugir. Um dia voltarás para o lugar que te pertence.

Naquela noite, Sagolom e os seus filhos deixaram tudo, e partiram à rocura de um reino que lhes desse abrigo. Durante sete anos, a família viajou, indo de reino em reino, a pedir ajuda.

Alguns dos governantes dos lugares por onde Sundiata passava negavam-hes abrigo e as portas eram fechadas, pois tinham medo das represálias de Sassouma.

A juventude de Sundiata foi uma permanente viagem, mas isso deu-lhe muitos conhecimentos e muitos amigos, e com o tempo o seu corpo tornou-se também forte, transformando-se num guerreiro poderoso.

Em todos os reinos e caravanas, Sundiata ouvia falar do poder crescente de Sumanguru, da sua crueldade e do povo que vivia infeliz nas terras sob seu poder.

Por fim, a família de Sundiata encontrou um lugar para ficar, junto ao rio Níger, na cidade de Mema, e a sua mãe cansada e doente, pôde finalmente  descansar.

Sundiata colocou-se ao serviço do Mansa de Mema, distinguindo-se logo nos combates que este travou contra os inimigos do Reino, o que lhe granjeou os favores do Mansa.

O Mansa de Mema, observando a coragem e a capacidade de liderança de Sundiata, foi-lhe dando cargos militares cada vez mais importantes, e impressionado com a sua capacidade, decidiu fazer dele o seu herdeiro, dando-lhe a sua filha para casar, e ensinando-lhe a arte da guerra e da governação.

Um dia, chegou inesperadamente um grupo de homens a Mema, e entre eles vinham os homens grandes do Mali, que antes não tinham querido Sundiata como seu Mansa, e pediram-lhe uma audiência urgente.
 


Ilustracão: mestre Augusto Trigo, pág. 33

- Filho do leão e do búfalo, volta para a tua terra, a tua gente precisa de ti - imploraram os homens grandes.

- O que aconteceu? - perguntou Sundiata.

- Sumanguru invadiu o Mali, matou a família real, e continua a matar e a escravizar muita gente. O povo quer lutar, mas não temos um líder para nos guiar. Os marabus dizem que só tu podes salvar o Mali - responderam eles.

- Irei partir já! Vamos destruir Sumanguru, e o seu reino de terror! - exclamou Sundiata.

Sundiata não perdeu tempo e foi falar com o Mansa de Mema, pedindo-lhe autorização para partir imediatamente. O Mansa de Mema deu-lhe metade do seu exército, e disse-lhe:

- Vai, o teu Reino está à tua espera, leva metade do meu exército e salvao teu povo.

- Obrigado. Nunca vou esquecer toda a ajuda que me deu. Eu voltarei para casar com a sua filha - disse Sundiata agradecido.

Sundiata com a cavalaria formou o seu esquadrão de ferro, e ele próprio assumiu o seu comando.

A cavalaria de Mema era constituída por cavaleiros com grandes lanças de ferro. Cavalgando à cabeça desta coluna, Sundiata planeou reunir um poderoso exército, indo a cada reino que o tinha ajudado durante o seu longo exílio, e aos reinos que combatiam contra Sumanguru.

Quando Sundiata se dirigiu para a cidade de Tabom, para se encontrar com o seu amigo Tabom Uana, o qual era agora Mansa de Tabom, Sumanguru enviou o seu filho Sosso Bala, que tinha aproximadamente a idade de Sundiata para lhe barrar o caminho.

Sosso Bala colocou os seus guerreiros no vale, à entrada das montanhas, que davam acesso ao caminho para Tabom. Sosso Bala estava confiante, pois o seu exército era muito mais numeroso que o pequeno exército sob o comando de Sundiata, e só as setas dos seus numerosos arqueiros, quando estes as disparassem, tapariam a luz do sol, e seriam suficientes para destruir Sundiata e o todo o seu exército,
antes de ele chegar perto dos seus guerreiros.

Quando Sundiata chegou ao vale, depois de um longo dia de marcha, o vale estava negro com a infantaria de Sosso Bala. Todos os chefes de guerra foram da opinião de que os guerreiros deviam descansar e combater no dia seguinte.


- Sundiata, deixe os seus homens descansarem, amanhã combateremos.

Sundiata sabia que todos estavam cansados da caminhada, mas acreditou que poderia transformar aquela fraqueza em força, e contra tudo o que todos pensavam disse:

- Não vamos descansar. Vamos atacar já!

Sundiata colocou-se à frente da sua cavalaria e deu ordem de ataque.




Ilustracão: mestre Augusto Trigo, pág. 35

Os espiões Sossos tinham informado Sosso Bala que o exército de Sundiata tinha feito uma longa marcha e que estava demasiado cansado para combater, pelo que os guerreiros poderiam descansar, pois a batalha só seria no dia seguinte.

Sosso Bala apesar de saber que Sundiata estava perto, acreditando na informação dos espiões, não achou necessário colocar o seu exército em formação de batalha, e o ataque de Sundiata apanhou todos de surpresa e lançou a confusão total.

- Alerta, alerta! Ataque de Sundiata! - gritaram as sentinelas, mas já era tarde, pois a cavalaria de Sundiata, lançada num galope desenfreado, entrou pelo acampamento de Sosso Bala.

Os arqueiros Sossos nem tiveram tempo de disparar as flechas para deter a onda atacante, e num instante Sundiata e o seu exército estavam no meio deles, fazendo um massacre terrível.

Sundiata viu Sosso Bala e avançou para ele, mas um guerreiro Sosso colocou-se no caminho, e enquanto Sundiata lutava, Sosso Bala aproveitou a oportunidade para fugir, temendo pela sua vida.

Ao verem Sosso Bala fugir, os guerreiros Sossos fugiram também. Antes do fim do dia, já só havia homens de Sundiata no vale, e os seus cavaleiros perseguiam e aprisionavam guerreiros Sossos.

Ao entardecer, o Mansa Tabom Uana veio ao encontro do seu amigo Sundiata, trazendo mantimentos e mais guerreiros, reforçando assim o exército de Sundiata.






Ilustracão: mestre Augusto Trigo, pág. 36



Ilustracão: mestre Augusto Trigo, pág. 37



A notícia da derrota do invencível exército de Sumanguru espalhou-se rapidamente, e todos os que tinham sofrido às mãos de Sumanguru, corriam agora a juntar-se a Sundiata.

Em breve, um numeroso exército se estendia pela planície, e os cascos dos seus cavalos eram ouvidos a muitos quilómetros de distância. Agora Sundiata podia passar à ofensiva, e decidiu ir ao encontro de Sumanguru no vale de Neguéboria, em Boure.

Os dois exércitos encontraram-se no estreito vale de Neguéboria. Sundiata optou por uma formação em quadrado, com a cavalaria à frente e os arqueiros na retaguarda.

Sumanguru com o seu capacete com chifres, bem visível no alto de uma das colinas que dominavam o vale, dava ordens ao seu exército. Sundiata deu ordem de ataque, soaram tambores e trompetas, e os cascos dos cavalos da sua cavalaria levantaram uma nuvem de pó vermelho e ecoaram nas paredes do vale, como um enorme trovão, fazendo tremer de medo as forças de Sumanguru.

Sundiata comandou a carga de cavalaria, e o seu manto branco esvoaçava no ar como uma bandeira, que os seus homens seguiam.

As forças de Sundiata atacaram o centro do exército de Sumanguru e logo este começou a ceder. Sumanguru deu ordem aos guerreiros que tinha escondido para atacarem as forças de Sundiata pelos lados, numa estratégia conhecida como chifres de búfalo, mas Sundiata já tinha previsto essa manobra e o seu exército estendeu-se rapidamente por toda a largura do vale, bloqueando a sua passagem.

Sumanguru tentou conter a queda do centro do seu exército, juntando- se aos seus guerreiros, para lhes dar coragem, mas isso colocou-o ao alcance da lança de Sundiata.


Ilustracão: mestre Augusto Trigo,  pág. 38

Sundiata não perdeu a oportunidade e atirou a sua lança, a qual atingiu o peito de Sumanguru, mas fez ricochete. Sundiata não desistiu e com o seu arco lançou uma flecha contra Sumanguru, mas esta também fez ricochete no peito de Sumanguru.

- Ninguém me pode matar! - gritou Sumanguru.

- Isso é o que vamos ver - respondeu Sundiata.

Furioso, Sundiata pegou noutra lança e avançou para onde estava Sumanguru, mas quando o procurou novamente, já ele estava no alto da colina.

Espantado, Sundiata parou de lutar e ficou a olhar para Sumanguru, vendo-o desaparecer.

O exército de Sumanguru, ao vê-lo fugir, fugiu também. Sundiata ficou a pensar como poderia derrotar Sumanguru, se ele tinha uma magia tão poderosa que podia desaparecer e era invulnerável ao ferro.

Sundiata continuou a sua marcha, desta vez para a Sibi, de onde lhe chegaram boas notícias, pois o seu amigo e conselheiro Bala tinha conseguido fugir da corte de Sumanguru e vinha ao seu encontro.

O encontro entre Sundiata e Bala foi de grande alegria, e a partir dele Sundiata ficou a saber que o animal sagrado de Sumanguru era o galo, e era dele que provinham os seus poderes e feitiços.

Bala tirou do seu saco uma seta, que tinha na ponta um esporão de galo, e disse:

- Esta seta irá acabar com o poder de Sumanguru, pois este esporão de galo irá destruir toda a sua magia. Basta feri-lo para ele ser vencido!

- Como poderei feri-lo, se as lanças e as setas fazem ricochete nele? - perguntou Sundiata.

- Sumanguru tem um escudo de ferro, escondido debaixo da roupa, atingi-o onde não tiver roupa.

- Obrigado Bala! Vamos fazer Sumanguru provar o seu próprio feitiço!

Os dois exércitos enfrentaram-se na planície de Kirina. Durante todo o dia, uma furiosa batalha foi travada entre os dois exércitos, e Sundiata, montado no seu cavalo, procurou Sumanguru.

No meio da poeira vermelha e da confusão da batalha, Bala descobriu o feiticeiro e gritou para Sundiata, ao mesmo tempo que apontava:

- Sumanguru está ali!

Sundiata olhou, e viu Sumanguru no alto de um morro perto de si, e, antes que ele o visse, pegou no seu poderoso arco e puxando a corda ao máximo disparou a seta com o feitiço.

A flecha voou como um raio, espetando-se no braço de Sumanguru. Somanguru ao sentir-se ferido e vendo que a seta tinha o feitiço do galo, soltou um grito de pânico e fugiu a galope do campo de batalha.

-Ahaaa! Estou perdido! - gritou Sumanguru.

Desorientado com a fuga de Sumanguru, o exército do feiticeiro fugiu também. Sumanguru, perseguido por Sundiata, fugiu para a encosta do Monte Koulikoro e entrou cambaleando numa caverna escura, mas por mais que o procurassem nunca mais foi visto.

Diz-se que Sumanguru foi transformado na pedra da caverna, pelos poderes do mal que ele servia.

Sundiata voltou em glória para Mali. Durante toda a sua viagem, as pessoas corriam aos caminhos e estradas por onde passava, gritando vivas e louvores.




Ilustracão: mestre Augusto Trigo,  pág. 40

- Sundiata! Sundiata! Viva Sundiata! - gritavam à sua passagem.

Os Mansas que tinham ajudado Sundiata no exílio e nas suas batalhas, juraram-lhe fidelidade, e o Mansa do Mali, filho do leão e do búfalo, transformou assim o Reino do Mali num Império, constituído por todos esses Reinos.

Sundiata foi o primeiro Mansa Bá (Imperador) (18) do grande Império do Mali, sendo este o maior Império da África Ocidental.

Esta é uma das muitas versões da lenda de Sundiata.

[Adaptação, revisão/fixação de texto e inserção de fotos e links para efeitos de edição deste poste no blogue: LG]

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Notas do autor:

(15)  Mansa - designação dada pelos mandingas aos seus reis. Os portugueses chamaram-lhes “Régulos”, que significa pequenos reis.

(16) Djali bá - os djali bá já não existem, hoje são apenas artistas tocadores de corá, que contam as histórias ao som da música do corá, mas os djali bá tiveram no passado um papel importante junto dos Mansas (Reis), pois além de tocadores de corá eram seus conselheiros;
eram eles que transmitiam oralmente a história e as leis do Reino, e aconselhavam o Rei nas mais diversas decisões. A palavra significa grande em mandinga, isto significa que não eram um simples artistas de corá, porque para esses, o termo em mandinga é corá djaló, ou seja artista do corá ou tocador de corá. Além do termo artista, corá djaló e djali bá, são várias as denominações que lhe são atribuídas, desde o termo judeu em português, djidiu do crioulo, até ao griote do francês.

O termo judeu aparece pela primeira vez no “Tratado Breve dos Rios da Guiné do Cabo Verde” de 1594, do capitão André Alvares d´Almeida, o qual os descreve no capítulo dedicado ao Reino de Borçalo. O crioulo adaptou o termo judeu, para jideu ou djideu, hoje em dia pronuncia-se djidiu.

(17) Mésinhos - palavra do crioulo que significa medicamento, remédio, mas também é usada para se referir a coisas com poderes mágicos.

(18) Mansa Bá - era o título dado pelos mandingas aos Mansas que possuíam nos seus domínios poder sobre outros Mansas (Reis), a palavra  em mandinga significa grande, dai o significado de Grande Rei ou Imperador, por vezes, por lisonja os súbditos chamavam ao
Rei, de Grande Rei, apesar de não o serem. Também existem referências a Imperadores chamando-lhes apenas de Mansa, o que é usual. Os portugueses chamavam a todos eles de “Régulos”, o que significa pequenos reis.
 


2. Como ajudar a "Ajuda Amiga" ?

Caro/a leitor/a, podes ajudar a "Ajuda Amiga" (e mais concretamente o Projecto da Escola de Nhenque), fazendo uma transferência, em dinheiro, para a Conta da Ajuda Amiga:

NIB 0036 0133 99100025138 26

IBAN PT50 0036 0133 99100025138 26

BIC MPIOPTP


Para saber mais, vê aqui o sítio da ONGD Ajuda Amiga:

http://www.ajudaamiga.com

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Nota do editor:

Último poste da série > 26 de julho de 2021 > Guiné 61/74 - P22405: "Lendas e contos da Guiné-Bissau": Um projeto literário, lusófono e solidário (Carlos Fortunato, presidente da ONGD Ajuda Amiga) - Parte IV: Lendas mancanhas

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

Guiné 61/74 - P22432: Historiografia da presença portuguesa em África (274): O pensamento colonial dos fundadores da Sociedade de Geografia de Lisboa (11) (Mário Beja Santos)

Durante anos, era este o aspeto do vestíbulo da Sociedade de Geografia, o quadro de Veloso Salgado estava à altura dos nossos olhos


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 19 de Novembro de 2020:

Queridos amigos,
Este trabalho de Ângela Guimarães aparece temporalmente datado, circunscrito aos primeiros vinte anos da Sociedade de Geografia, o porquê da sua criação, surge um tanto tarde e a más horas, a cobiça de velhas e novas potências coloniais ronda espaço que os portugueses reivindicam mas não ocupam. Um tanto à moda nacional, cria-se a Sociedade enquanto o governo de Andrade Corvo cria estrutura semelhante nos quadros da administração, inevitavelmente surgiram conflitos e rivalidades. A capacidade científica da Sociedade prevaleceu, o escol científico e económico posicionou-se na Sociedade, basta recordar Chamiço, o detentor do Banco Nacional Ultramarino, e o industrial Alfredo da Silva, eles têm os seus interesses e a Sociedade não deixa de cultivar os seus heróis, primeiro os exploradores e depois os militares que triunfam nas campanhas de pacificação e ocupação. Os monarcas portugueses tinham que alinhar com este culto de heróis e socorrer-se dos diferentes estudos que a Sociedade carreava para apoiar as manobras diplomáticas do governo tanto na definição de fronteiras como no seguimento de políticas de apaziguamento e tratados de comércio com outras potências colonizadoras. Passada a pente fino esta obra de Ângela Guimarães, que a todos os títulos se recomenda, vamos continuar as leituras.

Um abraço do
Mário


O pensamento colonial dos fundadores da Sociedade de Geografia de Lisboa (11)

Mário Beja Santos

A
primeira obra que aqui se recenseia intitula-se "Uma Corrente do Colonialismo Português", Ângela Guimarães, Livros Horizonte, 1984, trabalho realizado entre 1969 e 1972, partiu de um conjunto apreciável de interrogações sobre a criação do colonialismo, a sua natureza dependente e incapacidade de conversão e apurar o comportamento das diversas classes e grupos sociais face à questão colonial, ou seja, como se elaborou a ideologia colonialista e saber se esta se revestiu da mesma feição todo o tempo. Dada a vastidão de questões a autora escolheu o conhecimento da Sociedade de Geografia, um grupo de pressão de grande influência, estudou-o no período de 1875 a 1895, dizendo tratar-se do período crucial para o estabelecimento do colonialismo moderno na África Austral.

Começa por dizer que a fundação da Sociedade aparece em novembro de 1875, por decreto de Andrade Corvo, isto quando simultaneamente se cria no Ministério dos Negócios da Marinha e do Ultramar uma comissão permanente incumbida de coligir, ordenar e aproveitar todos os documentos que pudessem esclarecer a Geografia, a História Etnológica, a Arqueologia, a Antropologia e as Ciências Naturais em relação ao território português e muito especialmente às províncias ultramarinas – era a Comissão Central Permanente da Geografia, com tantas afinidades, estando a Sociedade sem subsídios nem lhe tendo facilitado o Governo uma sede condigna, ambas as entidades viveram num quadro de rivalidade e desgaste. A inversão desta situação deu-se em 1880 quando o Visconde de S. Januário, sócio fundador da Sociedade recebeu também como seu pelouro esta Comissão Central Permanente de Geografia. Atenda-se que quando foi criada a sociedade já existiam, um pouco por toda a parte, 40 sociedades do mesmo tipo.

A autora faz referência ao folgado conjunto de diligências para ligar Angola a Moçambique, destaca a travessia que Silva Porto efetuou em 1853-54, encontrou-se com Livingston, mas esta exploração não foi reconhecida pelo governo português. Estávamos em corrida para legalizar o território do III Império. Quando apareceu a Sociedade já Livingston tinha realizado a sua segunda viagem, Cameron já tinha regressado da sua travessia, Stanley e Savorgnan de Brazza também já tinham partido para as suas viagens estratégicas na África Central. Observa a autora que uma análise das atas e dos boletins da Sociedade, de 1876 a 1896, leva-nos a considerar três fases fundamentais de atividade: de 1876 a 1880, a Sociedade concentra todos os esforços em garantir o lugar de Portugal no movimento expansionista; de 1880 a 1882, a Sociedade esforça-se sobretudo para fazer um balanço das forças nacionais disponíveis para investir na competição; de 1882 a 1889, a Sociedade dedica os seus esforços a orientar a política e a gestão coloniais sobre o conjunto do Império, no entanto, o centro da sua atenção era Moçambique. Era uma corrida contra o tempo, recorde-se a citação de Luciano Cordeiro que consta da ata de 7 de julho de 1876, onde ele diz que umas das ideias principais que haviam presidido à fundação da Sociedade fora o reconhecimento da urgente necessidade e do imperioso dever imposto a Portugal pelas suas tradições e pela sua situação de segunda potência colonial na Europa.

Outra manifestação de rivalidade com a Comissão Central Permanente de Geografia e a Sociedade teve a ver com o envio de uma exploração científica à África Central, cada uma das entidades dava palpites sobre o sentido da viagem. Na opinião de Luciano Cordeiro e da própria sociedade, a expedição devia concentrar-se no reconhecimento das bacias do Zaire e suas relações com o Zambeze e os grandes lagos. Um outro protagonista entrava em cena, na corrida em África, Leopoldo da Bélgica. Para legitimar posições, o monarca belga promoveu em Bruxelas a Conferência Internacional de Geografia, Portugal não foi convidado. Em Bruxelas cria-se a Associação Internacional Africana e Portugal adere. Entretanto, a Sociedade cria a Comissão Nacional Portuguesa de Exploração e Civilização da África, que vemos tratada nas atas pelo nome de Comissão Africana. Nesta corrida de competição as velhas e novas potências colonizadoras andam no afã de criarem estações civilizadoras, isto é, pontos de fixação de colonos, missionários e comerciantes. Vendo-se cercado por estes competidores, Portugal agarra-se ao Direito Tradicional, que estava em vias de ficar ultrapassado, mas foi esta base histórica que permitiu manter a posse de Lourenço Marques por arbitragem internacional e é também nessa base que vai conseguir conservar tão vastos domínios reais e potências na Conferência de Berlim.

Vê-se claramente nas atas que a Sociedade fez um esforço enorme para se impor no estrangeiro, permutando publicações, angariando sócios, trazendo conferencistas, apresentando trabalhos em conferências internacionais e muito cedo o Museu da Sociedade passou a ser alvo da curiosidade científica. Passando em revista os grandes temas, a autora lembra-nos a questão das missões. Todos estavam de acordo sobre a utilidade das missões, mesmo os que pensavam que o Africano ainda não estava à altura de aceitar o verdadeiro cristianismo, e havia também uma corrente que considerava a religião como inútil ou prejudicial, no termo deste amplo debate fez-se apelo à reforma do ensino no seminário de Cernache do Bonjardim.

Questionando a ideologia imanente a este grupo, diz a autora:
“A fração da burguesia que constitui a corrente dominante da Sociedade de Geografia é extremamente criativa. Mas não detém o poder político nem possui força económica para, por si só, executar o grandioso projeto a que lançou mãos. Conta com um bom número de distintos intelectuais bem informados e lúcidos. Tem uma forte componente nacionalista. Sente-se nela um complexo de abafamento e uma enorme vontade de rebentar as cadeias. Para alcançar o seu objetivo, vai lançar mão dos meios de que dispõe para elaborar uma ideologia que por um lado a sustente e lhe dê o alento para que os grandes cometimentos e faz uma grande divulgação para as realizações”.
E escreve mais adiante:
“Na Sociedade de Geografia dos anos 1870, e mesmo 1880, discute-se muito. Fazem-se exposições sobre os mais diversos temas, seguem-se propostas, discutem-se, apoiam-se, mandam-se à respetiva comissão, redigem-se relatórios”.

Exaltam-se os caminhos-de-ferro, é premente levar a civilização aos lugares mais remotos. Reconhece-se um papel crucial às explorações, é preciso definir os limites do território português. O governo diz que sim às estações civilizadoras, falta o dinheiro essencial para as criar. Teima-se em formar quadros administrativos capazes, daí o curso colonial português, Teixeira de Vasconcelos irá sugerir a criação de um instituto em que se ensinariam as línguas africanas, os alunos de Cernache do Bonjardim também deveriam ter acesso a tais disciplinas. Uma proposta que deu grande polémica, se deveríamos impor a nossa língua, se se deveria apoiar uma espécie de língua crioula destinada a ser a língua comercial da África Austral. Barbosa do Bocage introduz um outro elemento nesta discussão, a sua interpretação da colonização, é cru e diz verdades com punhos:
“Na África servimo-nos dos negros como auxiliares para o trabalho. Temos gasto uns poucos séculos a não fazer nada, deixando as hordas africanas entregues a si e aos seus bárbaros usos, contentando-nos apenas com uma mudança exterior nas suas crenças religiosas, tratando-se de espoliar os povos e enviando-lhes o refugo da nossa população como elemento civilizador”.

Este importante livro aqui invocado para ajudar a conhecer melhor o pensamento dos homens que fundaram e viveram intensamente os ideais do III Império vai finalizar com o capítulo dedicado à crise do Ultimatum. Deixa-se claro que nas atividades da Sociedade participaram personalidades dedicadas de diversos modos à colonização. Temporalmente a obra termina quando Moçambique já está no olho do furacão das rivalidades imperialistas. E vamos continuar com outra bibliografia.

(continua)
Vitral (1922), representando Pedro Álvares Cabral (descoberta do Brasil, 1500) e Gago Coutinho e Sacadura Cabral (primeira travessia aérea do Atlântico Sul, 1922). Sociedade de Geografia de Lisboa.
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Nota do editor

Último poste da série de 28 DE JULHO DE 2021 > Guiné 61/74 - P22412: Historiografia da presença portuguesa em África (273): O pensamento colonial dos fundadores da Sociedade de Geografia de Lisboa (10) (Mário Beja Santos)