Pesquisar neste blogue

Mostrar mensagens com a etiqueta CCAÇ 1589. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta CCAÇ 1589. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27762: Documentos (59): A retirada de Madina do Boé (José Martins, ex-fur mil trms, CCAÇ 5, "Gatos Pretos", Canjadude, 1968/70) - Parte II


Guiné > Região de Gabu  > Carta de Madina do Boé (1958) (Escala  1/50 mil)  (Esta carta ainda não  está disponível  "on line" no nosso blogue) > Posição relativa de Madina do Boé, a 12 km da fronteira da Guiné-Conacri, a sul. Era rodeada de pequenas colinas, que iam dos 100 aos 200 metros de altitude. A amarelo, algumas das cotas. Os rios eram sazonais. A região semidesértica, mas impraticável no tempo das chuvas. Sem qualquer povoação, no tempo da guerra. As poucas que haviam desapareceram.  Distâncias: Madina do Boé até à fronteira, a leste (Vendu Leidi) > 60 km; Cheche-Madina: 20 km; Cheche- Béli > 35 km.

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026).



Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Setor de Boé > Madina do Boé > 1966 > Vista aérea do aquartelamento. Imagem reproduzida, sem menção da fonte, no Blogue do Fernando Gil > Moçambique para todos

Presume-se que a sua autoria seja de Jorge Monteiro (ex-cap mil,  CCAÇ 1416, Madina do Boé, 1965/67) ou de Manuel Domingues, membro da nossa Tabanca Grande, ex-alf mil da CCS/BCAÇ 1856, Nova Lamego, 1965/66 (autor do livro: "Uma campanha na Guiné, 1965/67").

Arquivo do  Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2006).


Guiné >  Zona Leste > Região de Gabu > Canjadude > 1973 > Restos de uma autometralhadora Daimler no itinerário entre Canjadude e Cheche.



Guiné > Região de Gabu > Madina do Boé > CCAÇ 1589 / BCAÇ 1894, "Os Tufas" (Bissau, Fá Mandinga, Nova Lamego, Beli e Madina do Boé, 1966-68) > 1967 > A "Fonte da Colina de Madina", construída em 1945, ao tempo do governador Sarmento Rodrigues. Foto do álbum do Manuel Coelho, o grande fotógrafo de Madina do Boé; aliás, um dos bravos de Madina do Boé, ex-fur mil trms, da CCAÇ 1580 (1966/68); natural de Reguengos de Monsaraz, vive em Paço d'Arcos, Oeiras; tem c. 50  referências no nosso blogue, ingressou na Tabanca Grande em 12 de julho de 2011).

Foto (e legenda): © Manuel Caldeira Coelho (2018). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



José Martins (ex-fur mil trms, CCAÇ 5, "Gatos Pretos", Canjadude, 1968/70) | Sócio da Liga dos Combatentes nº 80.393 | Colaborador permanente da Tabanca Grande | Histórico do nosso blogue | Vai a caminho das 500 referências | VIve em Odivelas.


Madina do Boé: contributo para sua história

por José Martins

OS HOMENS

Falar de Madina do Boé é falar dos homens que ao longo do tempo, e muito concretamente entre maio de 1965 e 6 fevereiro de 1969, estiveram em quadrícula naquela parcela do território português, hoje independente, e sobre o qual flutuou a Bandeira de Portugal.


Consultando o terceiro volume da Resenha Histórica-Militar das Campanhas de África (1961-1974) (Dispositivo das Nossas Forças - Guiné), encontrei os seguintes elementos sobre as companhias que passaram/estiveram/permanecem para sempre, nos factos que constituem a história desta zona da atual Guiné-Bissau.

A primeira unidade a instalar-se em Madina do Boé, foi a Companhia de Cavalaria nº 702 – Batalhão de Cavalaria nº 705 - formada no Regimento de Cavalaria 7 em Lisboa (já extinto) que chegou à Guiné em julho de 1964 e ficou instalada em Bissau. 

Posteriormente foi transferida para Bula (Janeiro de 1965) e Contuboel (Março de 1965). Foi colocada em Madina do Boé em maio de 1965 onde permaneceu até abril de 1966, quando terminou a sua comissão de serviço.



A CCAV 702 foi substituída pela Companhia de Caçadores nº 1416 – Batalhão de Caçadores nº 1856 - formada no Regimento de Infantaria 1 e ainda instalado na Serra da Carregueira na região de Lisboa e onde, atualmente, se encontra o Regimento de Comandos, foi colocada em Nova Lamego em agosto de 1965. 

Posteriormente, em maio de 1966 foi substituir a CCAV 702 em Madina do Boé, onde permaneceu até abril de 1967, quando terminou a sua comissão de serviço.




A Companhia de Caçadores nº 1589 – Batalhão de Caçadores nº 1894, formada no Regimento de Infantaria 15, em Tomar (uma das unidades que mobilizou militares para a I Grande Guerra), chegou à Guiné em agosto de 1966, ficando instalada em Bissau. 

Daqui foi enviada para Fá Mandinga em dezembro de 1966 e para Madina do Boé, para substituir a CCaç 1416, em abril de 1967, onde permaneceu até janeiro de 1968, altura em que foi transferida para Nova Lamego, e, em março de 1968 foi enviada para Bissau onde permaneceu até maio de 1968, altura em que terminou a sua comissão de serviço.


CMIL 15

Em Pirada, em março de 1965, foi criada a Companhia de Milícias nº 15 que foi enviada em junho de 1967 para Madina do Boé para reforço das forças ali estacionadas. 

Não existe registo para onde foi transferida depois de retirada de Madina. Foi desactivada em dezembro de 1971.


A última unidade a permanecer naquela zona foi a Companhia de Caçadores nº 1790 – Batalhão de Caçadores nº 1933, formada no Regimento de Infantaria 15 em Tomar. 

Quando chegou à Guiné em outubro de 1967 ficou estacionada em Fá Mandinga. Daqui foi transferida para Madina do Boé em janeiro de 1968 onde permaneceu até 6 de fevereiro de 1969, seguindo nesta data para Nova Lamego e em abril de 1969 foi transferida para S. Domingos, onde se manteve até ao final da sua comissão de serviço em julho de 1969. 

Esta unidade tinha um destacamento em Beli, que foi mandado regressar e juntar-se à companhia em junho de 1968.


O LOCAL

Conheci Madina do Boé numa altura em que regressava ao aquartelamento do minha unidade, a Companhia de Caçadores nº 5 estacionada em Canjadude, indo de Nova Lamego onde tinha estado, já não me recordo, se em serviço ou no regresso de férias. Viajava numa Dornier e conheci o aquartelamento do ar. 

Sei que só aterrámos depois de dois bombardeiros T 6, que nos escoltaram a partir da altura do Rio Corubal, terem feito uma observação dos locais onde era normal estarem e/ou atacarem o aquartelamento os elementos do PAIGC. Íamos buscar o Padre Libório, alferes graduado capelão do Batalhão de Caçadores nº 2835, que tinha estado junto daquela unidade durante alguns dias.

As instruções do furriel que pilotava a aeronave foram precisas: "assim que o aparelho parar,  saltas e corres para junto dos abrigos".

Assim fizemos e, ao chegar junto dos militares que não tinham saído de junto dos abrigos, fomos recebidos com algumas dezenas de abraços e palmadas nas costas daqueles homens que, só muito raramente, viam alguém que não fossem os seus camaradas habituais. Das manifestações havidas, já não sei se foram de boas vindas ou de despedida, pois o tempo de permanência da DO em terra teria que ser mínimo.

Do local ficou-me a sensação de que era uma terra inóspita, sem população civil, e, portanto, apenas a teimosia de alguém que não sabe o que é “estar no terreno de operações” fazia permanecer tropas naquele local.

A guerra que travávamos tinha como primeiro objectivo captar a simpatia e apoio das populações, transmitir-lhe alguns ensinamentos, e, sobretudo, prepará-los para “Um Futuro numa Guiné melhor”. Neste cenário não havia razão para sacrificar aqueles homens ao isolamento e ao sofrimento da incerteza da sorte das armas.


A RETIRADA

A saída da zona do Boé começou em junho de 1968, com o desmantelamento do destacamento de Beli, guarnecido por uma força destacada de Madina de Boé (CCAÇ 1790). 

Participei nessa operação, como pira já que ainda não tinha um mês de Guiné, para visitar os destacamentos de Canjadude e Cheche, locais que se encontravam guarnecidos por forças da CCAÇ 5, unidade em que fora colocado como Sargento de Transmissões.

A minha missão terminava no Cheche. Aí ficaria a aguardar o regresso da coluna que, depois de proceder ao desmantelamento de Beli e deslocar a guarnição para Madina do Boé, voltaria, pelo mesmo e único caminho, a Nova Lamego.

Presenciei o nervosismo, e porque não dizer o medo, do pessoal que ia em primeiro lugar, na jangada, ocupar posições na outra margem, para montar a segurança para a passagem do restante da coluna.

Só os meios aéreos poderiam antecipar dados que permitissem cambar o rio com relativa segurança.

Já não assisti ao regresso da coluna nem aos trabalhos da passagem para a margem norte do Corubal, pois a primeira crise de paludismo originou novo baptismo: a evacuação aérea para Nova Lamego. Dias mais tarde assisti ao regresso da coluna e, naturalmente, à descompressão das tropas utilizadas nessa operação.

Toda esta manobra obedecia a uma directiva, a nº 1/68, do Comandante Chefe recentemente empossado, o então brigadeiro António de Spínola, que previa o estabelecimento de uma grande base operacional na região do Cheche. 

Nessa região ficariam instaladas forças de intervenção, seria construída uma pista para aviões do tipo Dakota, além de uma jangada para a travessia do rio. As canoas, que seriam a estrutura base dessa jangada, passariam mais tarde por Canjadude, em mais uma das muitas colunas que por lá passaram, tendo como destino o Cheche.

Assim, mesmo sem que a base tivesse sido instalada, a guarnição de Madina do Boé seria retirada desse destacamento, numa operação montada e que seria realizada no início de fevereiro de 1969. 

A coluna constituída por cinquenta e seis viaturas foi escoltada, entre outras forças, por elementos da Companhia de Caçadores nº 2405 – Batalhão de Caçadores nº 2852,  forrmado no Regimento de Infantaria nº 2.

DESASTRE DO CHECHE

Constou, na altura, que tinha havido uma alteração na "ordem de operações". Previa-se que, aquando da travessia do Corubal, as últimas unidades a atravessar o rio seriam as de armas pesadas, ao contrário do que se verificou, que foram tropas de infantaria.

Imagino que, ao verem na outra margem do rio Corubal e para a qual se deslocavam, uma série de morteiros e canhões-sem-recuo prontos a responder a qualquer ataque, os militares tivessem descomprimido um pouco, podendo eventualmente ter tentado encher os cantis com água do rio, cuja falta se fazia sentir naquela altura do ano, desconhecendo que um Unimog, guarnecido por uma secção que eu próprio comandava, se encontrava muito próximo para reabastecer quem necessitasse, uma vez que a companhia retirada e as que haviam procedido à sua escolta, não entrariam no perímetro militar de Canjadude, não só por questões logísticas mas também operacionais.

A determinada altura, conforme se refere num filme realizado por José Manuel Saraiva, de 1995, e editado em cassete vídeo pelo Diário de Notícias, um som abafado, muito semelhante "à saída de uma morteirada ", teria gerado agitação entre os elementos que eram transportados na jangada, e eram bastantes. 

Da agitação resultou o desequilíbrio da jangada e a queda nas águas de uma parte substancial dos homens que estavam a ser transportados na mesma. O receio era de que tivessem sido seguidos à distância por forças IN e que as mesmas estivessem a preparar um ataque à jangada, que se deslocava lentamente.

A grande preocupação foi a ajuda aos que tinham caído à água, pois que transportavam consigo todo o equipamento normal numa missão de patrulhamento que, além da arma, do cantil e do bornal, munições de reserva não só para as armas ligeiras, mas também para as bazucas e para os morteiros.

Não foi só o equipamento individual que foi o responsável pelo afogamento de tantos homens. Os habitantes daquele rio também tiveram uma intervenção pouco amigável. Diz quem também esteve no centro daquele acontecimento, que as águas tomaram um tom avermelhado.

Naquela tarde de 6 de fevereiro de 1969, o Corubal roubou a todos e a cada um de nós, quarenta e sete amigos e camaradas dos quais, poucos, viriam a ser encontrados e sepultados nas margens do Rio Corubal.

OS HERÓIS/MÁRTIRES

É com emoção que, quando falo ou escrevo sobre este tema, me perfilo em continência, os meus lábios murmuram uma breve oração, e me curvo perante a memória daqueles que não voltaram e cujo espírito permanece sobre as águas do Rio Corubal (18 da CCAÇ 2405,  28 da CCAÇ 1790 e 1 civil guineense) (realce a amarelo, a companhia que retirou de Madina do Boé, a CCAÇ 1790; e a CCAÇ 2405, a azul marinho, uma das companhias que fez a escolta da coluna):


Furriéis Milicianos (n=2)

  • Carlos Augusto da Rocha, natural de Angústias – Horta – Açores – CCAÇ 1790
  • Gregório dos Santos Corvelo Rebelo, natural de Terra Chã – Angra do Heroísmo – Açores – CCAÇ 2405


Primeiros-cabos (n=7)
  • Alfredo António Rocha Guedes, natural de Vila Jusa – Mesão Frio – CCAÇ 2405
  • Augusto Maria Gamito, natural de S. Francisco da Serra – Santiago do Cacém – CCAÇ 1790
  • Francisco de Jesus Gonçalves Ferreira, natural de Tortosendo - Covilhã – CCAÇ 1790
  • Joaquim Rita Coutinho, natural de Samora Correia - Benavente – CCAÇ 1790
  • José Antunes Claudino, natural de Alcanhões - Santarém – CCAÇ 2405
  • José Simões Correia de Araújo, natural de Telhado – Vila Nova de Famalicão – CCAÇ 1790
  • Luís Francisco da Conceição Jóia, natural de Alvor - Portimão – CCAÇ 1790

Soldados (n=37) 
  • Abdul Embaló, natural de São José, Bissorã - CCAÇ 1790
  • Alberto da Silva Mendes, natural de Sande - Guimarães – CCAÇ 2405
  • Alfa Jau, natural da Guiné - CCAÇ 1790
  • Américo Alberto Dias Saraiva, natural de S. Sebastião da Pedreira - Lisboa – CCAÇ 1790
  • Aníbal Jorge da Costa, natural de Rossas – Vieira do Minho – CCAÇ 1790
  • António Domingos Nascimento, natural de Santa Maria - Trancoso – CCAÇ 2405
  • António dos Santos Lobo, natural de Favaios do Douro - Alijó – CCAÇ 1790
  • António dos Santos Marques, natural de Lorvão - Penacova – CCAÇ 2405
  • António Jesus da Silva, natural de Arazedo – Montemor-o-velho – CCAÇ 2405
  • António Marques Faria, natural de Telhado – Vila Nova de Famalicão – CCAÇ 1790
  • António Martins de Oliveira, natural de Rio Tinto - Gondomar – CCaç 1790
  • Augusto Caril Correia, natural de Santa Cruz - Coimbra – CCAÇ 1790
  • Avelino Madail de Almeida, natural de Glória - Aveiro – CCAÇ 1790
  • Celestino Gonçalves Sousa, natural de Poiares – Ponte de Lima – CCAÇ 1790
  • David Pacheco de Sousa, natural de Lustosa - Lousada – CCAÇ 1790
  • Francisco da Cruz, natural de Lebução - Valpaços – CCAÇ 2405
  • Indique Imbuque, natural de Farol, Bissorã  – CCAÇ 2405
  • Joaquim Nunes Alcobia, natural de Igreja Nova – Ferreira do Zêzere – CCAÇ 1790
  • Joel Santos Silva, natural de Guisande – Vila da Feira – CCAÇ 1790
  • José da Silva Coelho, natural de Recarei - Paredes – CCAÇ 1790
  • José da Silva Góis, natural de Meãs do Campo – Montemor-o-novo – CCAÇ 2405
  • José da Silva Marques, natural de Marmeleira - Mortágua – CCAÇ 2405
  • José de Almeida Mateus, natural de Santa Comba Dão – CCAÇ 1790
  • José Fernando Alves Gomes, natural de Carvalhosa – Paços de Ferreira – CCAÇ 1790
  • José Ferreira Martins, natural de Pousada de Saramagos – V. N. Famalicão – CCAÇ 1790
  • José Loureiro, natural de S. João de Fontoura Resende – CCAÇ 2405
  • José Maria Leal de Barros, natural de Vilela - Paredes – CCAÇ 1790
  • José Pereira Simão, natural de Salzedas - Tarouca – CCAÇ 2405
  • Laurentino Anjos Pessoa, natural de Sonim - Valpaços – CCAÇ 2405
  • Manuel António Cunha Fernandes, natural de Arão – Valença do Minho – CCAÇ 1790
  • Manuel Conceição Silva Ferreira, natural de Pombalinho - Santarém – CCAÇ 2405
  • Manuel da Silva Pereira, natural de Penude - Lamego – CCAÇ 1790
  • Octávio Augusto Barreira, natural de Suçães - Mirandela – CCAÇ 2405
  • Ricardo Pereira da Silva, natural de Serzedo ou selzedelo – Vila Nova de Gaia – CCAÇ 1790
  • Tijane Jaló, natural de Piche – Gabu – CCAÇ 1790
  • Valentim Pinto Faria, natural de Valdigem - Lamego – CCAÇ 2405
  • Victor Manuel Oliveira Neto, natural de Buarcos – Figueira da Foz – CCAÇ 2405

Civis (n=1)
  • Um caçador nativo não identificado

José Martins 
Janeiro de 2006

(Revisão / fixação de texto, negritos, realces, links, título: LG)
_________

Nota do editor L.G.

(1) Útimo poste da série > 22 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27760: Documentos (58): A retirada de Madina do Boé (José Martins, ex-fur mil trms, CCAÇ 5, "Gatos Pretos", Canjadude, 1968/70) - Parte I

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27741: Documentos (56): A retirada de Madina do Boé (José Jerónimo, ex-cap mil, cmdt, CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852, Galomaro e Dulombi, 1968/70)



Guiné > Zona leste > Região de Gabu >  Boé > Madina do Boé > CCAÇ 1589 / BCAÇ 1894, Nova Lamego e Madina do Boé, 1966/68). > A travessia, em jangada, do Cheche (que ficava do outro lado, na margem direita).


Guiné > Zona leste > Região de Gabu  >Boé > Madina do Boé > CCAÇ 1589 / BCAÇ 1894, Nova Lamego e Madina do Boé, 1966/68). > Uma coluna logística: Madina do Boé-Cheche-Canjadude-Nova Lamego 


Guiné > Zona leste > Região de Gabu > Boé > Madina do Boé > CCAÇ 1589 / BCAÇ 1894, Nova Lamego e Madina do Boé, 1966/68). > Uma coluna logística: Madina do Boé-Cheche-Canjadude-Nova Lamego


Guiné > Zona leste > Região de Gabu >  Boé > Madina do Boé > CCAÇ 1589 / BCAÇ 1894, Nova Lamego e Madina do Boé, 1966/68). > Finalmente a rendição !


Guiné > Zona leste > Região de Gabu > Boé > Madina do Boé > CCAÇ 1589 / BCAÇ 1894, Nova Lamego e Madina do Boé, 1966/68). >  O interior do aquartelamento e da tabanca


Guiné > Zona leste > Região de Gabu > Boé > Madina do Boé > CCAÇ 1589 / BCAÇ 1894, Nova Lamego e Madina do Boé, 1966/68). >  Estreada Cheche- Madina do Boé > Um cemitério de viaturas


Guiné > Zona leste > Região de Gabu > Boé > Madina do Boé > CCAÇ 1589 / BCAÇ 1894, Nova Lamego e Madina do Boé, 1966/68). >  Discreta mas orgulhosa, a bandeira nacional.


Guiné > Zona leste > Região de Gabu > Boé > Madina do Boé > CCAÇ 1589 / BCAÇ 1894, Nova Lamego e Madina do Boé, 1966/68). >  A mascote da companhia.


Seleção de algumas das melhores fotos do álbum do Manuel Caldeira Coelho (ex-fur mil trms,  CCAÇ 1589 / BCAÇ 1894, Nova Lamego e Madina do Boé, 1966/68). 

A CCAÇ 1589 foi rendida em Madina do Boé, em 20Jan68 pela CCaç 1790 e em 12Fev68
no destacamento de Béli, tendo ambos os aquartelamentos sofrido fortes flagelações no periodo de Jun a Dez67.

Fotos (e legendas): © Manuel Caldeira Coelho (2011). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. A Op Mabecos Bravios, destinada a cobrir a retirada das forças estacionadas em Madina do Boé, que teve  um desfecho trágico para 46 camaradas nossos, da CCAÇ 2405 (Galomaro) e da CCAÇ 1790 (Madina do Boé), mais um civil guineense.

 Na história da unidade do BCAÇ 2852 (Bambadinca,1968/70) há uma versão do relatório dessa  operação de triste memória, relativa â participação da CCAÇ 2405 (Galomaro e Dulombi, 1968/70) que formava o Destacamento F (Cap II, pp. 36-38).

Vale a pena voltar a divulgar  esse texto, e integrá-lo agora na série "Documentos" (*)

Em fevereiro de 1969, a CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852 estava sediada em Galomaro, com um pelotão em Samba Juli, outro em Dulombi e um terceiro em Samba Cumbera.  Na Op Mabecos Bravios foi comandada pelo cap mil inf Novais Jerónimo, tendo como oficiais subalternos os nossos camaradas Jorge Rijo,  Rui Felício e Paulo Raposo.  Julgamos que a autoria do relatório seja do cap mil José Jerónimo


A bordo do T/T Uíge > Final de julho de 1968 > CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852 (1968/70) > A caminho de Bissau > O grupo dos futuros "baixinhos de Dulombi...  Da esquerda para a direita, Victor David (1944-2024), Paulo Raposo, oficial da marinha mercante, Jorge Rijo e Rui Felício.  Não temos nenhuma foto do ex-cap mil inf José Jerónimo.

 Foto (e legenda): © Paulo Raposo (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


A retirada de Madina do Boé

por José Jerónimo, ex-cap mil, cmdt, 
CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852
 (Galomaro e Dulombi, 1968/70)


Iniciada a Op Mabecos Bravios, em 1 [de Fevereiro de 1969], com a duração de 8 dias, para retirar as nossas tropas de Madina do Boé. 

Entre vários destacamentos, tomou parte no Destacamento F a CCAÇ 2405 [ Comandante: cap mil José Miguel Novais Jerónimo; 1º Gr Comb – Alf mil at inf Jorge Lopes Maia Rijo; 3º Gr Comb  – Alf mil at inf Rui Manuel da Silva Felício; 4º Gr Comb – Alf mil at inf MA Paulo Enes Lage Raposo].

Desenrolar da acção:

Dia D [segunda feira, 2/2/1969].

O Dest F com o efectivo de 112 homens (4 oficiais, 10 sargentos e 98 praças - estão incluídos 1 secção de sapadores e 8 condutores auto), saiu de Galomaro em 1 de fevereiro de 1969, pelas 9.30h, e chegou a Nova Lamego por volta das 13.00h do mesmo dia, sem qualquer novidade.

Aqui fizeram-se os preparativos finais da organização da coluna que partiu às 5.30h do dia 2 [D]. 

Abro [o autor do relatório] um parêntesis para discordar do pormenor da organização da coluna:

Os meus condutores e mecânicos tiveram que conduzir e dar assistência técnica a viaturas que não lhe pertenciam e das quais desconheciam as mazelas. Daqui resultaram perdas de tempo inúteis e uma tremenda confusão resultante do facto de os atiradores terem guardado parte dos seus haveres e utensílios militares em viaturas que supunham pertencer às unidades e que, sem que se saiba porquê, foram trabalhar para unidades diferentes.

A coluna saiu de Nova Lamego para Canjadude com o pessoal totalmente embarcado e atingiu-se esta povoação por volta das 9.00h sem qualquer problema. 

A partir de Canjadude a coluna progrediu com guardas de flancos tendo o Dest F colaborado na guarda da retaguarda da coluna,  fazendo uma progressão apeada que não estava prevista.

Atingiu-se o Cheche [no rio Corubal, entre Canjadude e Madina do Boé] por volta das 17.00h (sempre com uma cobertura aérea excelente).

 Imediatamente os Dest D [CCAÇ 2403, cmdt, cap inf Hilário Peixeiro] e F fizeram a transposição do [Rio] Corubal e foram ocupar as posições estratégicas previstas.

 Já escurecia e o Dest D levava 1 minuto de avanço sobre o Dest F. Subitamente o 1º Pel [otão] revelou achar estranho algo que se passava à nossa direita, parecendo-lhes ter visto elementos estranhos. Por outro lado,  o guia assegurou tratar-se de turras pelo que a Companhia tomou posições de combate, lançando-se ao solo e imobilizando-se. 

Seguiram-se dois disparos rápidos de morteiro (os clarões foram facilmente visíveis quando as granadas saíram à boca da arma). Foram tiros curtos na direcção sudoeste, e os rebentamentos deram-se próximo do local que o Dest F iria ocupar daí a momentos.

O IN não voltou a manifestar-se mas obrigou-nos a uma vigilância nocturna permanente e a uma mudança de posição por volta das 23.00h.  Às 20.00h ouviram-se na direcção oeste dois tiros que me pareceram de arma nossa, fazendo fogo de reconhecimento.

D + 1   [terça feira, 3/2/1969]
 
Pelas 5.30h [do dia 3, D + 1] mandou-se um pelotão a Cheche buscar um pelotão do Dest E que fazia guarda imediata às viaturas e que eu devia levar até Madina.

Pelas 6.30h dirigi-me à zona do Dest E onde se organizou a coluna com o Dest F à frente e uma guarda de flanco avançada e o Dest D atrás igualmente com guarda de flanco. Iniciei o movimento guiado com carta e bússola porque a marcha foi feita a cerca de 200 metros (mínimo) da estrada. O meu objectivo era surpreender o IN pela rectaguarda tanto mais que os aviões me anunciaram haver possibilidade de sermos emboscados.

Cerca [ das 10.00h ] o Dest F sofreu um violento ataque de abelhas e teve que recuar cerca de um quilómetro para se reorganizar de novo. Um soldado, em consequência, ficou imediatamente fora de acção. Foi pedida a respectiva evacuação bem como a de outro soldado que apresentava sintomas de insolação. [ São nove baixas até aqui. ]  

As evacuações fizeram-se para Nova Lamego dos:

  •  1ºs cabos Carlos G. Machado, Agostinho R. Sousa;
  • e dos soldados José A. M. S. Ferreira, Manuel N. Parracho,  Benjamim D. Lopes,  Fernando A. Tavares,  Cândido F. S. Abreu,  António S. Moreira;
  •  e, para Bissau 1º Cabo Adérito S. Loureiro. [Omitem-se os nºos mecanográficos. L.G.]

 O héli desceu mais tarde para reabastecer o pessoal de água.

 Reiniciada a marcha, sofremos segundo ataque de abelhas que inutilizaram mais uma praça para quem teve de ser pedida nova evacuação.  [Dez baixas, até aqui-]

. Entretanto, eram 14.30h, e mais 2 soldados, esgotada a sua provisão de água, apresentavam sintomas de insolação. Foram evacuados conjuntamente com 2 praças do Dest D que apresentavam sintomas semelhantes (vómitos, intensa palidez, olhos dilatados, respiração frenética).  [14 baixas até aqui.]

O Dest D passou para a frente e reiniciou-se a marcha, sempre fora da estrada até à recta que leva a Madina. Nada mais se passou além do sofrimento intenso das tropas por via do calor. O Det D foi reabastecido de água. 

Atingimos Madina  [do Boé] por volta das 19.00h  [do dia 3] desligados do Dest D que prosseguiu a sua marcha quando F teve que parar para reajustar o dispositivo e tratar os mais debilitados (4 praças e 1 furriel).

Houve descanso em Madina e tomou-se uma refeição quente. 

D + 2   [quarta feira, 4/2/1969]

No dia 4 (D + 2) o Dest F dirigiu-se para [ Felo Quemberá,  ilegível] ocupando a posição 3 que se  atingiu sem dificuldade por volta das 11.00h. 

Alternadamente ocupou-se as posições 3 e 4 de acordo com o plano.


D + 3   [ quinta feira, 5/2/1969]

Em D + 3 [5 de fevereiro de 1969] por volta das 7.30h recebemos ordens do PCV [Posto de Comando Volante] para a abandonar a nossa posição e seguir ao encontro da coluna. 

Uma hora depois atingimos o campo de aviação de Madina onde fomos reabastecidos de água e r/c [rações de combate].

Pelas 9.00h a coluna pôs-se em movimento e meia hora depois 4 carros da rectaguarda tiveram um acidente. Não obstante, a coluna prosseguiu e o pessoal do Dest F mais os mecânicos resolveram a dificuldade.

Entretanto, o final da coluna pôs-se em movimento acelerado para apanhar as viaturas da frente e deixaram a guarda da retaguarda isolada no mato, num momento particularmente difícil em que precisávamos evacuar 2 soldados vencidos pelo esgotamento físico e nervoso (2 noites seguidas sem dormir, ataque de abelhas em D +1, intenso calor).

O Comandante da coluna ordenou que se fizesse a evacuação e o reabastecimento de água. Feitos estes, iniciou-se a marcha e a breve trecho tomámos contacto com a coluna e tudo correu normalmente até ao Cheche. A cobertura aérea pareceu-me impecável.

Próximo de Cheche recebi ordens para ocupar a posição que ocupara que tivera em D / D+1 porque o Exmo. Comandante da Operação [, cor inf Hélio Felgas,] entendeu dever poupar alguns quilómetros ao Dest F e D, bastante atingidos pela dureza dos respectivos percursos. 

Essa foi a razão porque não transpus o [Rio] Corubal em D + 3 [ 5 de Fevereiro] só o vindo a fazer em D + 4 [6 de Fevereiro] por volta das 9.00h.

D + 4   [sexta feira, 6/2/1969]

O IN continua sem se manifestar (ou sem se poder manifestar). 

Durante a transposição do Corubal a jangada em que seguiam 4 Gr Comb [da CCAÇ 2405 e da CCAÇ 1790], respectivos comandos e tripulação afundou-se espectacularmente acerca de um terço da largura do rio, provocando o desaparecimento de 17 militares do Dest F e grandes quantidades de material perdido.

 Por voltas das 10.00h de D+ 4 [6 de Fevereiro] saímos de Cheche para Canjadude que atingimos por volta das 16.30h com o pessoal deste Dest embarcado.


D + 5   [sábado, 7/2/1969]

Descansou-se e em D + 5 [7 de fevereiro] às primeiras horas a coluna pôs-se em movimento para Nova Lamego que foi atingida por volta das 11.00h. 

Às 12.00h as tropas ouviram uma mensagem do Exmo. Comandante-Chefe [, brig António Spínola,]  que se deslocou propositadamente para a fazer.

Permaneci em Nova Lamego para organizar a coluna do dia seguinte. 

D + 6  [domingo, 8/2/1969]

Às primeiras horas de D + 6 [8 de Fevereiro] iniciei o movimento para Galomaro onde cheguei cerca das 10.30h.

Fonte: Extratos de: História da Unidade: Guiné 68-70. Bambadinca: Batalhão de Caçadores nº 2852. Documento policopiado. 30 de Abril de 1970. c. 200 pp. Classificação: Reservado. Cap. II. 36-38.

[Revisão / fixação de texto parênteses retos, negritos:  LGl

Nota de LG - Sabemos que,  a 10 de fevereiro de 1969, o 2º cmdt do BCAÇ 2852 (1968/70), o maj inf Manuel Domingues Duarte Bispo, deslocou-se de Bambadinca a Galomaro "onde assistiu a missa celebrada pelo capelão do BCAÇ 2856, por intenção dos desaparecidos na Op Mabecos Bravios"  (História da Unidade, Cap II, p. 46).

O nº (e a identificação) dos mortos (17) da CCAÇ 2405 não constam do relatório da Op Mabecos Bravios que acima se transcreve. 

Falta-nos o(s) relatório(s) de outras forças que participaram, na Op Mabecos Bravios: mas já foram publicados anteriormente outros depoimentos: Hélio Felgas, Paulo Raposo, Rui Felício  bem como do José Aparício (ex-cap inf, cmdt da CCAÇ 1790, que sofreu 29 mortos. 

Na realidade, na época esse tipo de baixas (mortos em acidente por afogamento) eram contabilizados sob a categoria do "desaparecidos".

sábado, 9 de novembro de 2024

Guiné 61/74 - P26133: As nossas geografias emocionais (31): Nova Lamego, região de Gabu, em jan / fev 1967 (Manuel Coelho, ex-fur mil trms, CCAÇ 1589 / BCAÇ 1894, Bissau, Fá Mandinga, Nova Lamego, Beli e Madina do Boé, 1966-68)



Foto nº 1 > Guiné > Região de Gabu > Nova Lamego > c. jan / fev 1967 > A rua principal de Nova Lamego... Do lado esquerdo vê-se a Casa Caeiro e o edifício que era o comando dos batalhões que passaram  por aqui ao longo da guerra (já era protegido por bidões cheios de terra).

No outro lado da rua, no lado direito da foto, um edifício não identificado (parece-nos ser o Cine-Clube local) e depois a estação dos CTT (Correios, Telégrafos e Telefones)...



Foto nº 2 > Guiné > Região de Gabu > Nova Lamego > c. jan / fev 1967 > Outra das artérias  da vila, com a estação dos CTT à esquerda, e o Cine-Clube (?) à direita, do outro lado (vd. foto nº 9, em que este edifício não aparece).



Foto nº 3 > Guiné > Região de Gabu > Nova Lamego > c. jan / fev 1967 > Um DC-3 em na pista de aviação


Foto nº 4 > Guiné > Região de Gabu > Nova Lamego > c. jan / fev 1967 > Um a rua em rebuliço, a do comando do batalhão, com a colocação de bidões cheios de arame como proteção em caso de ataque ou flagelação do IN


Foto nº 5 > Guiné > Região de Gabu > Nova Lamego > c. jan / fev 1967 > > Vista aérea da tabanca


Foto nº 6 > Guiné > Região de Gabu > Nova Lamego > c. jan / fev 1967 >  Tabanca


Guiné > Região de Gabu > Nova Lamego > c. jan / fev 1967 > > Tabanca (a avaliar pelos animais, porcos, à direita da foto, seria um tabanca de gente não-muçulmana)


Foto nº 7 > Guiné > Região de Gabu > Nova Lamego > c. jan / fev 1967 > > O ferreiro


Foto nº 8 > Guiné > Região de Gabu > Nova Lamego > c. jan / fev 1967 > Tecelão

Fotos do álbum de Manuel Caldeira Coelho (ex- fur mil trms, CCAÇ 1589 / BCAÇ 1894,
"Os Tufas") (Bissau, Fá Mandinga, Nova Lamego, Beli e Madina do Boé, 1966-68) (*)


Fotos (e legendas): © Manuel Caldeira Coelho (2011). Todos os direitos reservados, [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné ]



Foto nº  9 > Guiné > Região do Gabu > Nova Lamego > s/d > Foto aérea  (pormenor) > Povoação e quartel velho de Nova Lamego (hoje Gabu). Alguns edifícios civis de referência, Compare-se com as fotos acima, nºs 1 e 2.

Legenda: (1) Loja dos irmãos Libaneses (depois ocupada pelos comandos dos batalhões que passaram por esta vila); 
(2) Casas civis (para alugar) | Casa Caeiro (eata seria rua principal);
(3) Estação dos CTT (civil) (e a seguir deveria ser o Cine-Clube, no prolongamento da rua, que ia dar ao edifício da administração, mais tarde, com a independèncai,  sede do Governo Regional); 
(4) Parque de jogos.... (Do lado esquerdo da foto original, aparecia uma parte da tabanca, que cortámos, tal como a parte superior, ao fundo da vila, redimensionando a foto).

Foto (e legendas): © Roseira Coelho / Tino Neves (2007). Todos os direitos reservados. [Edição: e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




Guiné > Região de Gabu > Nova Lamego > Carta (1957) (Escala 1/50 mil) > A vila de Nova Lamego tinha uma malha urbana ortogonal. A noroeste ficava o aeródromo e a(s) tabanca(s) (Gabu-Sara) mais a norte. De Nova Lamego partia-se para: (i) Bafatá (a oeste); (ii) Sonaco (a noroeste); (iii) Bajocunda, Pirada, Senegal (a nor-nordeste); (iv) Piche, Buruntuma, Guiné-Conacri (a és-nordeste); (v) Canjadude, Cheche, Madina do Boé, Guine-Conacri (a sul); (vi) Cabuca (a sudeste).


Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2024)




1. São fotos de Nova Lamego e seus arredores (tabancas e pista de aviação). 

O Manuel Coelho (ou Manuel Caldeira Coelho) é o nosso melhor fotógrafo de Madina do Boé. 

Quando entrou para o o nosso blogue, em 12/7/2011, disponibilizou cerca de 90 fotos do seu álbum. A maioria relativa (c.40) são dos sítios onde a CCAÇ 1589 passou mais tempo, ou seja, na região do Boé.(**)

Alentejano de Reguengos de Monsaraz, com 45 dezenas de referências no nosso blogue, vive em Paço d' Arcos, Oeiras.

2. Sobre a CCAÇ 1589, recorde-se aqui 
sumariamente a o seu percurso pelo CTIG:

(i) chegada em 4/8/1966, foi inicialmente colocada em serviço na guarnição de Bissau na dependência do BCaç 1876, em substituição da CCaç 728, com vista a garantir a segurança das instalações e das populações da área;

(ii) em 16dez66, passou a ser subunidade de intervenção e reserva à disposição do Comando-Chefe orientada para a zona Leste, instalando-se em Fá Mandinga e tendo tomado parte em diversas operações realizadas nas regiões de Xime, Sarauol, Nova Lamego, Madina do Boé e Enxalé.

(iii) de 28jan67 a 7fev67, esteve colocada em Nova Lamego como subunidade de reserva do Agr24, colmatando a saída da CCaç 1625 até à chegada da CCav 1662;

(iv) voltou para Fá Mandinga, onde assegurou a responsabilidade do respectivo subsector durante a adaptação operacional da CArt 1661;

(v) após a marcha de um pelotão em 25mar67 para Béli, foi deslocada em 7abr67 para Madina do Boé, a fim de substituir a CCaç 1416,

(vi) em 10abr67, assumiu a responsabilidade do respectivo subsector, com o pelotão já instalado em Béli, ficando então integrada no dispositivo e manobra do BCaç 1856 e depois sucessivamente do BCav 1915 e do BCaç 1933;

(vii) em 20jan68, foi rendida em Madina do Boé pela CCaç 1790 e em 12Fev68 no destacamento de Béli, tendo ambos os aquartelamentos sofrido fortes flagelações no periodo de jun a dez67;

(viii) em 31jan68, foi colocada em Bissau na dependência do BCaç 2834, para serviço de guarnição até ao seu embarque de regresso (em 9/5/1968), colmatando anterior saída da CCaç 1547 e sendo depois substituída em Bissau pela CCav 1617;

(ix) Cmdt: Cap Inf Henrique Vitor Guimarães Peres Brandão.

segunda-feira, 30 de outubro de 2023

Guiné 61/74 - P24806: As nossas geografias emocionais (13): A fonte da Colina de Madina, 1945 (Manuel Coelho / Cherno Baldé / António Murta)

Foto nº 1


Foto nº 2


Foto nº 3


Foto nº 4

Guiné > Região de Gabu > Madina do Boé > CCAÇ 1589 / BCAÇ 1894, "Os Tufas" (Bissau, Fá Mandinga, Nova Lamego, Beli e Madina do Boé, 1966-68) > 1967 > A "Fonte da Colina de Madina", construída em 1945, ao tempo do governador Sarmento Rodrigues. Fotos do álbum do Manuel Coelho, um dos nossos grandes fotógrafos.



Manuel Coelho, um dos bravos
 de Madina do Boé (1966/68)


1. Quatro  grandes fotos do Manuel Coelho (fotos nºs 1, 2, 3 e 4), um dos bravos de Madina do Boé, ex-fur mil trms, da CCAÇ 1580 (1966/68) (natural de Reguengos de Monsaraz, vive em Paço d'Arcos, Oeiras; tem 45 referências no nosso blogue, ingressou na Tabanca Grande em 12 de julho de 2011).


(i) Excerto de mensagem do Manuel Coelho,  com data de 23 de julho de 2018 às 19h45 (*):

(...) Parabéns pelo esforço (conseguido) de mostrar uma região tão importante para nós como para o PAIGC. Quem sobreviveu aqui a este conflito não esquece, fica marcado no nosso pensamento e, mesmo após 50 anos. ainda dói!

Quem dera ter a veia poética do Luís ou de outros camaradas para explicar em verso o calvário de meses de isolamento, com falta de reabastecimento, ataques diários, etc...

Para comparar envio mais algumas fotos [inéditas,] do meu álbum, começando pela da célebre "Fonte da Colina de Madina" [que ainda lá estava em 1998]...

Em relação a esta fonte, ela servia não só para fornecer os bidões para banho como para as lavadeiras fazerem o seu trabalho. Para beber tinha de se ferver ou desinfectar devidamente. (...)



Guiné-Bissau> Região de  Gabu > Boé > Madina do Boé > 1998 > A famosa fonte da Colina de Madina, com ornamentação de azulejo português, pintado à mão, de 1945. Parece(ia) haver vestígios de impacto de balas de armas automáticas (?), ou então os azulejos foram picados ou ainda (outra hipótese) estão deteriorados por ação do uso e das intempéries.


Guiné-Bissau> Região de Ganu > Boé > Madina do Boé > 1998 > A famosa fonte da Colina de Madina é um sítio onde se concentra(va) alguma população civil da escassa que há (havia)  nesta região semidesértica, e a única da Guiné que é acidentada (com cotas que sejam quase aos 300 metros). Fotos do álbum do nosso querido amigo e camarada  Xico Allen (1950-2022), que aqui esteve em 1998. As fotos chegaram-nos às mãos em 2006, por intermédio do Albano Costa (**).

Fotos (e legendas): © Francisco Allen / Albano M. Costa (2006). Todos os direitos reservados [Edição e çegendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


2. Dois comentários de:  (i)  nosso colabor permanente Cherno Baldé, que vive em Bissau, e tem 285 referências no nosso blogue;  e (ii)  António Murta, ex-alf mil inf MA, 2ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (Aldeia Formosa, Nhala e Buba, 1973/74), autor da notável série "Caderno de Memórias de A. Murta"; membro da Tabanca Grande desde 12/11/2014, tem mais de 100 referências no nosso blogue; vive na Figueira da Foz.

2.1. Cherno Baldé:

(...) Falando sobre as fontes ou nascentes de água em locais estrategicamente situadas junto de pequenas elevações de terreno, como tenho visto um pouco por todo o território, no Norte, Sul, Este e Oeste, fico sempre maravilhado com a  vista e na presenca deste apurado conhecimento do terreno e da noção do que pode ser um desenvolvimento durável e autossustentado stricto sensu

O que mostra, claramente, que os "colonialistas" que nos governaram nos anos 30 e 40 (aqui certamente no tempo de Sarmento Rodrigues), tinham uma visão de longo prazo e uma noção clara sobre o que era o desenvolvimento autossustentado, centrado nos recursos e bens disponíveis localmente e na sua utilização racional e equilibrada a bem da comunidade.

O Manuel Coelho diz que a água precisava ser fervida antes do seu consumo, mas a verdade é que ela é servida assim mesmo e muitas vezes é do melhor que ha (Iagu Sabi) e, pessoalmente, já a bebi muitas vezes, diretamente da fonte, em Bafatá, Quinhamel, Canchungo e, comparada com a água das nossas bolanhas do leste, era uma maravilha d'água e ainda hoje é. (**)

(...) É o que tenho estado a dizer aos mais novos, sempre que vejo esses maravilhosos locais com as suas fontes quase centenárias, mas que ainda continuam vivas e a jorrar água limpa e da melhor que há disponivel ao beneficio das populações locais e com nomes proprios que as populações lhes deram.

Encontrei-as em Bafatá (Boma), Bissau, Quinhamel (Hoilan), Canchungo, Catiá, Bambadinca, Madina de Boé e sei que existem e estão espalhadas por todo o território nacional.

Já não podemos dizer o mesmo dos furos e bombas manuais que os novos projectos de desenvolvimento, fruto da coooperação e das ajudas internacionais,  espalharam nas zonas rurais em anos recentes, mas que normalmente duram pouco, nãp sabendo ao certo se não teriam, também, um aplicativo de obsolescência programada, como se diz atualmente sobre todos os produtos do capitalismo moderno que nos calhou em escala. (...) | 25 de julho de 2018 às 13:27


2.2. António Murta:

As fotografias 3 e 4 da Fonte da Colina de Madina, que parece ser já um memorial, são muito bonitas e tecnicamente quase perfeitas: pelo enquadramento, pela gama de cinzentos, pela textura, e pelos reflexos que nos dão a sensação de vida daqueles instantes. 

Sei que não é isso que está em discussão e desculpem o arrazoado, mas é porque fiquei que tempos a olhar para elas. Não desmereciam o ilustre Ansel Adams (1902-1984), um especialista do preto e branco, sem contudo carregarem a rigidez técnica obsessiva que tiravam sensibilidade às fotografias dele. 

Parabéns ao Manuel Coelho.(...) | .26 de julho de 2018 às 00:56 
____________

Notas do editor:

(**) Vd. poste de 10 de julho de 2013 > Guiné 63/74 - P11822: Álbum fotográfico do Xico Allen: região do Boé, 1998: trágicos vestígios 'arqueológicos' da guerra colonial, entretanto já destruídos ou desaparecidos...

quarta-feira, 12 de abril de 2023

Guiné 61/74 - P24218: As nossas geografias emocionais (3): Fá Mandinga, o "Bairro da Paz", ao tempo do Pel Rec Daimler 1113 e do BCAÇ 1888 (1966/68)... Nunca foi atacado, uma das coroas de glória do "alfero Cabral"... Nem aqui viveu e trabalhou o outro Cabral, engenheiro agrónomo... Foi aqui que se formou a 1ª CCmds Africanos.

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > Fá (Mandinga) > 1968 > Aqui esteve instalado, de agosto a novembro de 1966, o Pel Rec Daimler 1133 (Fá Mandinga e Bambadinca, 1966/68), comandasdo pel alf mil cav Carlos Manuel de Sá Ramalho; estava então adido ao BCAÇ 1888 e depois ao BART 1904.

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > Fá (Mandinga) >  1968 >  Outra perspetiva do "Bairro da Paz"... Fotos do álbum do Jaime Machado, ex-alf mil cav, Pel Rec Daimler 2046 (Bambadinca, 1968/70) (*)

Fotos (e legendas): © Jaime Machado (2008).Todos os direitos reservados.[Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > Fá (Mandinga) > 1968 > CART 2339 (1968/69) > Parada do quartel: o grupo de combate do alf mil Torcato Mendonça (1944-2021), cerimónia do arriar da bandeira... Os "Viriatos" estiveram aqui três meses (de fevereiro a maio de 1968) antes de partirem para Mansambo para ali construirem um quartel, novo, de raiz. (**)

Foto (e legenda): © Torcato Mendonça (2009). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Guiné > Zona Leste > Sector L1 >  Bambadinca > 2.º semestre de 1970 > Velhinhos e periquitos > A rapaziada, à civil, em Santa Helena, nos arredores de Bambadinca, a caminho do bife com batatas fritas da Transmontana e das bajudas de Bafatá. Malta da CCAÇ 12, na sua maioria, e da CCS do BART 2917 (1970/72). Eis a legenda do fotógrafo:

(...) "Passeio dominical à Transmontana, em Bafatá, para ir comer o célebre bife com batatas fritas, pois batatas era um luxo na messe. Reconhecem-se na 2.ª fila da esquerda para a direita: o 1.º não me lembro, o 2.º, de camisola azul, é o Bilocas da Cooperativa de Riba d'Ave, ex-alf mil dos reabastecimentos do BART 2917 [o Abílio Machado, de contabilidade e adminmistração]; o 3.º, fardado, era o alf mil de, julgo, transmissões do BART 2917; e o condutor era o Rocha da CCAÇ 12.

"Na 1.ª fila são todos da CCAÇ 12, a começar pelo José Luís Vieira de Sousa, furriel miliciano, o Zé da Ilha, tocador de viola, baladeiro, hoje mediador de seguros no Funchal; a seguir, o 2.º é o Pedrosa, que era o fur mil mecânico (periquito que foi substituir o nosso 1.º mecânico que era o Joaquim Moreira Gomes, do Porto e que quando cá veio de férias em 69 arranjou uma cunha no Hospital Militar lá no Porto e já não voltou à Guiné); em 3.º temos o Arlindo Teixeira Roda, fur mil, natural dos Pousos-Leiria, mas agora a residir em Setúbal onde dá, ou já deu, aulas (chmávamos-lhe o Tê Rodas); o 4.º é este ilustre vosso servo com 23 ou 24 anos (que saudades!) e vestido de verde, eu que até sou simpatizante, de meia tigela mas sou, do SLB; a seguir em 5.º é o António Manuel Martins Branquinho
 [1947-2103], fur mil. alentejano de Évora (trabalhou no Centro Regional de Segurança Social de Évora); e por último o alf mil José António Gonçalves Rodrigues, já falecido, e que trabalhava no Centro Regional de Segurança Social, aqui em Lisboa na Av Afonso Costa no Areeiro"(...)
 

Guiné >  Região Leste > Região de Bafatá > Sector L1 (Bambadinca) > Fá Mandinga > 1970 >  Era aqui a sede do Pel Caç Nat 63 e da 1.ª Companhia de Comandos Africanos... Diversos furriéis e alferes da CCAÇ 12 e da CCS / BART 2917, de visita a Fá Mandinga (e possivelmente a caminho de Bafatá para almoçar, em traje domingueiro, em meados de 1970: reconheço do lado direito, o alf Machado (CCS) e o alf Abel Maria Rodrigues (CCAÇ 12). Do lado esquerdo, também à civil, de camisola vermelha, o fur António Branquinho 
[1947-2013] e de camisola verde o fur Humberto Reis, ambos  da CCAÇ 12.

Fotos (e legendas): © Humberto Reis (2006). Todos os direitos reservados 
[Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Guiné > Região de Bafatá > Setor L1 > Bambadinca > Carta de Bambadinca (1955), escala 1/50 mil (1955) > Posição relativa de Fá Mandinga, a escassa meia dúzia de quilómetros de Bambadinca, na direção de Bafatá. Ficava na margem esquerda do rio Geba Estreito. Foi, durante anos, sede de batalhões e também Centro de Instrução Militar: nele foi formada, por exemplo, a 1.ª CCmds Africanos.


Guiné > Zona leste > Região de Bafatá >  Setor L1 (Bambadinca) > Carta de Bambadinca (1955) > Escala 1/50 mil > Posição relativa de Nhabijões, Mero e Santa Helena, três tabancas consideradas, desde o início da guerra, como estando "sob duplo controlo", ou seja, com população (maioritariamente balanta) que tinha parentes no "mato" (zona controlada pelo PAIGC) e que recebiam "visitas do mato"...

Em Finete, Missirá e Fá Mandinga havia destacamentos das NT. Entre Bambadinca e Fá Mandinga ficava Ponta Brandão. Havia aqui uma destilaria, de cana de acúcar... Bambadinca era sede de posto administrativo e tinha correios, telégrafo e telefone, além de um posto sanitário ("missão do Sono")... Era, além disso, um importante porto fluvial. Era banhado pelo caprichoso Rio Geba (ou Xaianga), temível em Mato Cão... Até 1968 as LDG da Marinha chegavam até lá... Depois, já em 1969, ficavam-se pelo Xime que passou a ter "porto fluvial" (na realidade, um cais acostável)... De Bambadinca a Bafatá (cerca de 30 km) a estrada era já alcatroada... no tempo da CCAÇ 12  (1969/71).

Infografias: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2014).


1. Esta série é dedicada à(s) "Memória(s) dos lugares"... Logo no princípio do nosso blogue, tínhamos, na badana (ou coluna estática) do lado esquerdo uma listagem (com links) de lugares por onde passámos, documentados com fotografias e infografias...

Ia já em 24 topónimos, mas faltavam muitos mais... Começámos a sua recuperação com o topónimo Bafatá, e depois Bambadinca.(***)

As imagens estavam originalmente alojadas na página pessoal do nosso editor, Saúde e Trabalho - Luís Graça, no servidor da ENSP/NOVA. Foi descontinuada, em 2022, com o redesenho da página oficial da instituição. Estamos agora a recuperá-la através das capturas feitas pelo Arquivo.pt, bem como dos ficheiros originais. É uma tarefa morosa e ingrata...

Luís Graça > Subsídios para a história da guerra colonial > Guiné > Antologia, preservada pelo Arquivo.pt

E vamos aproveitar para refrescar e atualizar os nossos álbuns fotográficos, por topónimos da Guiné (se não todos, pelo menos os principais). Afinal, trata-se de não perder  as nossas "geografias emocionais". Muitas das fotos que vamos publicando estão dispersas. São de diferentes autores e anos... É agora a altura de as tentar reunir.


2. Fá Mandinga ficava na margem esquerda do rio Geba Estreito. Durante anos foi sede de batalhão (ou de subunidades de diversas armas: infantaria, cavalaria, artilharia), sucedendo-lhe Bambadinca (como sede do Sector L1). 

E, mais tarde, foi centro de instrução militar: no 1.º semestre de 1970, foi lá que se formou a 1.ª CCmds Africanos, comandada pelo cap graduado 'comando' João Bacar Jaló. Foi de lá  que partiu, a 1.ª CCmds Africanos, para a aquela que viria a ser mais tarde, em 22 de novembro de 1970, a Operação Mar Verde (invasão anfíbia de Conacri). E a seguir à 1.ª, vieram lá formar-se as 2.ª e 3.ª CCmds Africanos, com as quais se constituiu mais tarde o Batalhão de Comandos Africanos.

Também foi sede do Pel Caç Nat 63, ao tempo do  nosso glorioso "alfero Cabral" (1969/70), antes de ser transferido para Missirá em meados de 1970. 

Aparentemente  Fá (Mandinga, havia outra, Balanta, perto de Santa Helena) teve um papel discreto na guerra... Pertencia ao regulado de Badora. Ao que parece, nunca foi atacada ou flagelada, contrariamente a Missirá (que já pertencia ao regulado do Cuor).

Durante muito tempo esteve associada, erradamente, ao nome do engº agrónomo Amílcar Cabral. De facto, a estação agrária experimental de Fá tinha boas instalações, entretanto desafetadas com o início da guerra. Mas Amílcar Cabral nunca ali trabalhou, e muito menos lá viveu. Ele e a sua primeira esposa, portuguesa, Maria Helena Rodrigues, silvicultora, viveram e trabalharam na estação agrária experimental de Pessubé, nas imediações de Bissau, entre setembro de 1952 e março de 1955, como recordou o nosso amigo Pepito, também ele engenheiro agrónomo (1949-2014) (****)

Também houve aqui, em tempos (1947), uma moderna serração mecânica, do empresário Fausto da Silva Teixeira, antigo deportado político.


Guiné - Bissau > Regiáo autónoma de Bissau > Pessubé >2013 >  Fotografia atual da casa onde Cabral e Maria Helena viveram na Granja Experimental de Pessubé, de 400 hectares.  Num notável artigo sobre o Amíllcar Cabral enquanto engenheiro agrónomo na Guiné, o nosso amigo Pepito (1949-2014) escreveu:

(...)  Ele e Maria Helena instalam-se na casa da Granja Experimental do Pessubé, atribuída ao seu diretor, na altura situada muito longe do centro de Bissau, num bairro popular da periferia e numa zona isolada e de difícil acesso. A Granja dispunha de cerca de 400 ha onde existia grande número de essências florestais e um pequeno número avulso de algumas espécies frutícolas, como por exemplo cacaueiros.

Nesta altura, quando começa a exercer a sua profissão, Amílcar está convencido de que o processo de independência decorrerá de forma pacífica, nos moldes como se virá a processar nos outros países africanos, pelo que decide começar a construção do novo edifício conceptual agrícola que iria substituir gradualmente o modelo colonial existente.

A Granja de Pessubé vai ser o ponto de partida, para começar a pôr em prática uma estratégia, em três vertentes principais, que ele considera importantes para o desenvolvimento da agricultura guineense- (...) (****)

Foto (e legenda): © Carlos Schwarz (2013). Todos os direitos reservados, [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Unidades que passaram por Fá Mandinga 

Unidade
Origem
Chegada
Saida
Destino
BCaç  697 -   CCS
RI 15
Jul 64
Abr 66
Fim comissão
CCaç   674
RI 16
Jul 64
Jul 64
Fajonquito
CCav    678
RC 7
Set 64
Jan 65
Ponta do Inglês
Pel Rec  Daimler 809
RC 6
Nov 64
Jan 66
Dulombi
BCaç 1856 - CCaç 1417
RI 1
Set 65
Mai 66
Bajocunda
Pel Mort 1028
RI 2
Set 65
Nov 66
Bambadinca
BCaç 1888 -  CCS
RI 1
Abr 66
Nov 66
Bambadinca
BCav  705 - CCav   702
RC 7
Abr 66
Mai 66
Fim comissão
BCaç 1887 - CCaç 1547
RI 1
Mai 66
Set 66
Bula
Pel Rec Daimler 1133
RC 6
Ago 66
Out 66
Bambadinca
BCaç 1887 - CCaç 1546
RI 1
Out 66
Dez 66
Bissau
BCaç 1888 - CCaç 1551
RI 1
Nov 66
Jan 67
Xitole
BCaç  1894 - CCaç 1589
RI 15
Dez 66
Abr 67
Madina do Boé
CCaç   817
BC 10
Jan 67
Fev 67
Fim comissão
CCaç   818
BC 10
Jan 67
Fev 67
Fim comissão
CArt  1661
RAC
Fev 67
Abr 67
Enxalé
BCaç 1912 – Ccaç 1685
RI 16
Abr 67
Out 67
Fajonquito
CCaç 1426
RI 16
Abr 67
Mai 67
Fim comissão
CCaç 1439
BII 19
Abr 67
Mai 67
Fim comissão
BArt 1913 - CArt 1689
RAP 2
Mai 67
Jul 67
Catió
BArt  1904 - CArt 1646
RAP 2
Ago 67
Jan 68
Xitole
BArt  1904 - CArt 1646
RAP 2
Set 67
Out 69
Fim comissão
BCaç 1933 - CCaç 1790
RI 15
Out 67
Jan 68
Madina do Boé
BCaç 1888 - CCaç 1551
RI 1
Nov 67
Jan 68
Fim comissão
CArt  2338
RAL 3
Jan 68
Abr 68
Nova Lamego
CArt  2339
RAL 3
Fev 68
Mai 68
Mansambo
CCaç 2383
RI 2
Mai 68
Jul 68
Nova Lamego
CArt  2413
RAP 2
Ago 68
Set 68
Xitole
BCaç 2852 - CCaç 2405
RI 2
Dez 68
Dez 68
Galomaro
BCaç 2851 – Ccaç 2403
RI 1
Fev 69
Abr 69
Mansabá
1ª CCmds Africana
CTIG
Jul 69
Jul 69
Bajocunda
1ª  CCmds Africana
CTIG
Set 70
Jul 71
Brá
Pel Caç Nat  52
CTIG
Jan 71
Jul 71
Missirá
2ª CCmds Africana
CTIG
Abr71
Out 71
Brá
3ª CCmds Africana
CTIG
Abr 72
Set 74
Extinção  Unidade
Pel Caç Nat   52
CTIG
Abr 72
Jul 72
Ponte R Unduma
Pel Caç Nat 63
CTIG
Jul 69
Ago 74
Desativada
BArt 3873 - CArt 3493
RAP 2
Dez 73
Jan 74
Bissau

Fonte: José Martins (2014) (com correções do nosso saudoso Jorge Cabral: (i) O Pel Caç Nat 63 foi para lá em julho de 1969; e  (ii) a 1ª CCmds Africanos chegou em fevereiro de 1970.


3. Estranhamente não temos muitas fotos de Fá Mandinga, a não ser as que se salvaram do álbum do Jorge Cabral (1944-2019). Mas temos cerca de 150 referências a este topónimo.

Em contrapartida, temos alguns descrições do aquartelamento. Escolhemos três:

(i) Armandino Alves [1944-2014] , ex-1.º Cabo Aux Enf,
CCAÇ 1589 (1966/68)

(...) Sobre o Aquartelamento de Fá Mandinga, ainda recordo que:

Em Dezembro de 1966, a minha CCAÇ 1589, recebeu guia de marcha para Fá Mandinga.  Embarcámos em Bissau numa LDG em direcção a Bambadinca e daí seguimos em viaturas, pela estrada em terra batida, que estava a ser aberta pelo Batalhão de Engenharia, em direcção a Bafatá [mais tarde alargada e asfaltada, no 2º semestre de 1967].

A certa altura virámos à esquerda e entrámos na picada que nos ia levar a Fá. Era tão estreita que mal lá cabiam uma GMC ou uma Mercedes. Passámos o Aquartelamento de Fá de Cima e começámos uma íngreme descida até Fá de Baixo.

O Aquartelamento era constituído por 4 grandes barracões, dois de cada lado, com uma grande parada no meio. À volta era só capim, que era preciso desbastar para podermos ver mais longe e evitar surpresas “desagradáveis”, embora o pessoal de Fá de Cima nos protegesse pois, devido à sua posição no cimo da colina, viam muito mais longe. Mas, pelo que eu sei, Fá nunca foi atacada.

A partir daqui fizemos várias operações, com outras Companhias que tinham a sua base em Porto Gole. A maior delas foi à mata do Saraoul, durou 10 dias e foi feita a nível de Batalhão.

(...) Pouco tempo depois recebemos guia de marcha para Madina do Boé.

Quanto ao quartel de Fá, lembro-me que o 1.º barracão se situava do lado direito de quem entrava no quartel e servia de caserna dos praças e quartos dos sargentos, e o 2.º destinava-se aos Comandantes e, creio que também, a camarata dos oficiais.

Nas traseiras do 1.º barracão estava instalado o “meu” Posto de Socorros e o reboque com o material de Campanha do SS, que nunca foi usado. O 2.º pavilhão, do lado esquerdo, só estava meio ocupado por nós, pois a outra metade estava vedada com rede e tinha guardado o material, para a fazenda do Amílcar Cabral [informação errónea, já que o eng agr Amilcar Cabral nunca trabalhou aqui, mas sim na Granja de Pessubé, a norte de Bissau (LG)].

Não me lembro onde ficavam a cozinha nem as oficinas auto. (...) (*****)


(ii) Torcato Mendonça  [1944-2021], ex-alf mil art, CART 2338 
(Fá Mandinga e Mansambo, 1968/69)

(...) Finalmente chegaram. Já a tarde ia alta e Fá Mandinga aí estava. Não parecia um aquartelamento. A entrada tinha a cancela com arame farpado, uma leve protecção para o militar da porta de armas e, enquanto rolavam aquartelamento dentro, iam aparecendo os edifícios adaptados à tropa. 

Coluna parada e ordem para desembarcarem. Deu-se então o reencontro com um alferes e um sargento que, umas semanas antes, por via aérea os tinham precedido a fim de tratarem das burocracias e instalação da Companhia Independente. Tiveram recepção calorosa e a vida, de burocracias e instalação facilitada. Breve formatura, material diverso arrumado e está a tratar da instalação. 

A ele e ao outro alferes indicaram-lhe uma “vivenda”. Já lá estava o outro alferes instalado. A dita vivenda, certamente de algum antigo colaborador de Amílcar Cabral, tinha quartos para os alferes, messe de oficiais e sargentos, cozinha e arrumos e duas ou três casas de banho. Não sabia que aquele quarto, que agora ocupava e onde ia arrumando as suas roupas, livros e demais haveres, seria o primeiro e único quarto onde viveu na Guiné. Nunca mais teve tal luxo. No futuro seria o abrigo, a morança das tabancas ou, se pernoitasse em Bambadinca ou noutra cidade, lá teria o quarto de empréstimo. Houve outros poisos mas são outras vidas… 

Bateram à porta e disse: 
- Entre. 

Abre-se a porta e aparece um africano com um sorriso alvar e franco. 
- Sou o Lali e trabalho aqui para os oficiais. Venho acender o Lion Brand. 
- Vem acender o quê? - disse. 

O Lali ria, mostrava uma caixa e disse: 
- É para os mosquitos fugirem. 

Foi a vez de ele rir. Depois de acender, perguntou se ele precisava de alguma “coisa”. 

- Sente-se aí, que quero fazer umas perguntas. 

De pronto o Lali respondeu: 
- Não posso sentar… 

Olhou-o e compreendeu.
 - Logo falamos então. 

Saiu e dirigiu-se às instalações do Grupo, apanhando o ar, ainda quente, do final da tarde, sentindo aqueles cheiros e sons tão diferentes. Estava tudo a correr bem, conversaram um pouco, viram escalas e serviços e sentia-se, os outros também certamente, deslocado naquele ambiente. Depois do jantar veio até cá fora um pouco e não tardou a regressar ao quarto. Agora é que era e “a dança ia começar”. (...) (**)


(iii) António Eduardo Ferreira (ex-1.º Cabo Condutor Auto,
CART 3493/BART 3873, Mansambo, Fá Mandinga, Cobumba 
e Bissau, 1972/74) 

(...) Em Fá Mandinga, local onde passámos "uma espécie de férias”, existiam instalações de grandes dimensões em que as telhas que as cobriam, pelo menos algumas, tinha sido fabricadas na então metrópole, na região de Porto de Mós, onde existiam muitas fábricas, o que me tocava ainda mais dada a proximidade da minha terra. 

Existia também no local, um espaço em mau estado com vários motores inoperacionais que noutro tempo ali teriam funcionado para produzir energia. Um pouco mais abaixo, junto à bolanha, havia mais instalações, onde os padeiros da nossa companhia iam fazer o pão. Creio que não estou errado… foi há muito tempo...

Dizia-se que aquelas instalações pertenciam a Amílcar Cabral quando a guerra começou. Mas diziam-se tantas coisas…

Durante o tempo que lá estivemos, para além do pessoal da cozinha e os padeiros, não me lembro que mais alguém tivesse feito qualquer serviço, eu sei que não fiz assim como os outros condutores. Mas o lado psicológico não deixava ninguém tranquilo. A mais pequena coisa... levava a comportamentos nada comuns. 
(...)  (******)
___________

Notas do editor:

(*) Vd. poste de 5 de junho de 2008 > Guiné 63/74 - P2918: História da Cavalaria em Bambadinca (1): Pel Rec Daimler 1133 (1966/68) adido ao BCAÇ 1888 e ao BART 1904 (Jaime Machado)

(**) Vd. poste de 11 de agosto de 2009 > Guiné 63/74 - P4809: Estórias de Mansambo II (Torcato Mendonça, CART 2339) (12): Fá Mandinga, o único sítio onde tive direito ao luxo de um quarto