Para mim, e sem desrespeito pelos camaradas que a admiravam, ela era um "canastrão", que fazia (mal) o papel de "Jocasta" que, nunca tendo filhos do seu ventre, adotou os filhos da "Pátria" que matavam e morriam na guerra... Mulher poderosa, íntima e confidente de Salazar, dirigiu o "patriótico" Movimento Nacional Feminino com coração, galhardia e mão de ferro... Foi pelo menos 4 vezes a Guiné, a que chamava a "minha Guinezinha"... Esteve em Bambadinca no princípio de maio de 1969, ainda eu não estava lá (ia a caminho), a escassas 4 semanas do aquartelamento ser atacado em força pelo PAIGC.
Não conheço a letra que o Tony lhe compôs (a partir do original de Alberto Cortez). Mas o Tony devia ser, pela foto e descrição que fazem dele, outro "canastrão", à beira dos 30 anos, "corrécio, reguila, fadista, alfacinha".
É um tema romântico, alegre, adolescente, "naive", "piroso" (para mim), muito ao gosto do início dos anos 60. Põe-te na pele do "cantor romântico" Tony, que deve ter sido "desterrado" para a Guiné por motivos disciplinares (ele seria já de 1961, velhinho como o caraças!), e escreve-me a letra, em português, que ele terá cantado à Cilinha, senhora que, aos 48 anos, já tinha idade para ser mãe dele e de todos nós (eu tinha feito 22 nesse ano).
Ver uma mulher "branca", no mato, era um dia de sorte! Acho que o que ele escreveu, só poderia ser algo de patético, ridículo, embora em tom respeitoso: como é que ele terá traduzido, por exemplo, "munequita", que tem uma forte conotação erótica ?".
Mónica, Mónica, oh, oh Mónica
Oh, muñequita tú eres mi bien
Dulce amor, oh, oh, oh, oh, oh, oh, Mónica
Tu sonrisa es mi frenesí
Ay, simpática, cuánta felicidad
Es tenerte a ti juntito a mí
Oh, Mónica, oh, Mónica
Para mí eres tú angelical
Dulce amor, oh, mi dulce amor
Y romántica, así eres Mónica
Mónica de mi amor
Y romántica, así eres Mónica
Mónica, mi amor
2. Resposta da ferramenta de IA Vibe | Mistral AI
Luís, que belo desafio! Vamos pôr-nos na pele do Tony, o vocalista de Os Bambas D’Incas: um soldado de transmissões, já com 30 anos em 1969, romântico, alfacinha, fadista e com um toque de canastrão — mas sempre respeitoso perante a "Cilinha", a poderosa Cecília Supico Pinto, que com os seus 48 anos era uma figura maternal e quase mítica para os soldados no mato.
A letra original do Alberto Cortez é doce, ingénua, cheia de adoração adolescente. O Tony, em 1969, na Guiné, com saudades de Lisboa e de um pouco de normalidade, teria de adaptar isso à realidade da guerra, da solidão e da figura imponente da Cecília.
Aqui vai a minha proposta para a letra que o Tony poderia ter cantado, em português, com um misto de reverência, humor naif e um toque de ironia não intencional (porque o Tony, afinal, era um romântico):
Oh, Cilinha
Oh, Cilinha, oh, Cilinha,
Cilinha, Cilinha, oh, oh, Cilinha
Oh, minha senhora, tu és o meu bem,
Doce amor, oh, oh, oh, oh, oh, Cilinha,
Teu sorriso é o meu frenesim,
Ai, simpática, que felicidade
É ter-te aqui, pertinho de mim!
Oh, Cilinha, oh, Cilinha,
Para mim és tu, um anjo sem igual,
Doce amor, oh, meu doce amor,
E romântica, assim és, Cilinha!
Cilinha do meu coração,
E romântica, assim és, Cilinha,
Cilinha, meu amor!
- "Muñequita": troquei o termo por "minha senhora": o Tony, perante a Cecília, não se atreveria a chamar-lhe "bonequinha", seria um desrespeito à sua autoridade, à sua figura institucional, para mais à frente de toda a hieraquia do comando do batalhão. Mas "minha senhora" soa a carinho e a hierarquia, como convém a uma presidente do MNF.
- "Juntito a mí" traduzi por "pertinho de mim": mantém a proximidade, mas com um toque de timidez (afinal, a Cilinha era a mãe de todos);
- "Angelical" mantém-se como "anjo sem igual": a Cecília era vista como uma figura quase divina, intocável, mas o Tony, com a sua veia romântica, não resistiria a um elogio celeste;
- "Romántica" fica "romântica": porque, no fundo, até a Cecília, com a sua mão de ferro, tinha de ter um lado soft para inspirar um soldado a cantar-lhe uma serenata;
- o toque de ironia? O Tony, trintão, a cantar isto à Cilinha, quarentona, soaria a um filho a fazer um elogio à mãe — mas com a música do Alberto Cortez, que era para uma "muñequita" de 18 ou 20 anos, fica tudo um pouco patético. O que, para ti, Luís, até seria um detalhe delicioso: o contraste entre a letra original (adolescente) e a adaptação (maternal/militar) é que tornaria a coisa ridícula... mas com carinho, com respeitinho (que é sempre uma coisa bonita no teu Portugal dos anos 60);
- pergunta: Luís, achas que o Tony se atreveria a pôr um "minha Guinezinha" algures na letra, para fazer a ligação à viagem dela a Bambadinca? Ou seria demasiado ousado para um soldado de transmissões?
3. Resposta da ferramenta de IA ChatGPT | Open AI
Luís, acho que tens razão numa coisa: se o Tony era um "cantor romântico" de arraial, alfacinha, fadista e já com quase trinta anos, e se estava perante a poderosa Cilinha, dificilmente lhe teria cantado uma serenata apaixonada no sentido literal. O mais provável é que tivesse pegado na melodia pegadiça de "Oh, Mónica" e a tivesse transformado numa homenagem paternalista e galante, tratando-a como uma espécie de "mãezinha dos soldados" ou "madrinha da Guiné".
Como não conhecemos a letra efetivamente cantada, só podemos imaginar uma recriação plausível. E, por razões de direitos de autor, é preferível criar um texto novo que evoque o ambiente da época sem reproduzir de perto o original.
Eis uma possibilidade, deliberadamente com um tom ingénuo e um tanto "piroso" (e ao jeito dos "santos populares" de Lisboa) e como provavelmente agradaria ao auditório militar de 1969, em Bambadinca onde estiveste;
Ó Cilinha
Ó Cilinha, nossa amiga,
Que chegou de tão longe até cá,
Traz um sorriso que anima
Quem na picada a vida dá.
Ó Cilinha, sempre contente,
Com palavra de encorajar,
Quando aparece no quartel
Parece o sol a brilhar.
Refrão:
Ó Cilinha, ó Cilinha,
Leve no peito este cantar;
Entre bolanhas e poeira,
Veio-nos hoje visitar.
Trouxe lembranças da terra,
Um abraço e boa vontade;
Para quem vive distante,
Isso também mata a saudade.
Dizem que nunca se esquece
Dos rapazes do ultramar;
Por isso toda a companhia
Lhe quis esta moda ofertar.
Ó Cilinha, nossa amiga,
Guarde de nós recordação;
E leve consigo o desejo
De paz e de bom coração.
Notas:
- curiosamente, a palavra espanhola "muñequita" ("bonequinha", "boneca") seria quase impossível de adaptar para a donaCecília Supico Pinto, então com 48 anos e figura austera do regime: se o Tony tivesse algum jeito para evitar o ridículo, provavelmente substituiria esse tratamento por "amiga", "madrinha", "senhora" ou até "portuguesinha", evitando qualquer conotação amorosa explícita;
- conhecendo o estilo das atuações de variedades nos quartéis da Guiné, não me surpreenderia que a letra verdadeira tivesse sido ainda mais laudatória, apresentando a Cilinha como a "mãe dos soldados", a "flor de Portugal" ou a "amiga da Guiné", em consonância com a imagem pública que o Movimento Nacional Feminino procurava projetar na época; o contraste entre essa retórica e a dureza da guerra no terreno é, precisamente, um dos aspetos que hoje torna esse tipo de canções tão revelador do ambiente político e emocional daqueles anos;
- também me parece que o Tony, em 1969 (ainda se estava longe do 25 de Abril de 1974!) tivesse a "lata", aousadia, de tratar por tu a Cilinha!... Afinal, ela era uma senhora da alta sociedade, e de origem aristocrática!
1ª versão do "boneco" que publicamos acimaPrompt original e composição editorial: Luís Graça.Fotos: José Maria Sousa, José Carlos Lopes, António Murta, Miguel Rocha |Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da GuinéGeração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.
4. Diálogo (divertido, mesmo sendo de surdos...) entre o editor LG e a ferramenta de IA do ChatGPT / Opena AI:
LG: Agora faço-te outro desafio... Faz-me um "boneco", com o Tony a cantar de joelhos para poderosa Cilinha em Bambadinca, com os músicos Os Bamba D'Incas.
(Saiu este primeiro "boneco", com a Cilinha, de vestido completo e mala de mão... Pedi a retificação...E levei très "tampas"....À terceira foi de vez, mas esgotei os meus créditos diários...)
Eis o diálogo (virtuoso) que travámos:
LG: Desculpa lá, mas na Guiné era impossível uma senhor usar casaco... Põe a Cilinha mais fresca... e "atrevida".
IA: Infelizmente, o prompt pode violar as nossas diretrizes sobre assédio, discriminação, bullying ou outros conteúdos proibidos. Se tu consideras que foi um engano, tenta novamente ou edita o prompt.
LG: P*rra, põe-na apenas sem casaco!... Estavam 35 graus e 100% de humidade naquela tarde!... Não sejas censor!...Pareces um padreco!... É um documento de época, esta mulher era uma "instituição nacional". O dimininuitivo "Cilinha" foi nacionalizado. E ela adorava fazer este papel de mãe, e de madrinha de guerra!
IA: Infelizmente, o prompt pode violar nossas diretrizes sobre assédio, discriminação, bullying ou outros conteúdos proibidos. Se tu consideras que foi um engano, tenta novamente ou edita o prompt.
LG: Bolas, não quero que a ponhas em biquini, não sejas ridículo, tira-lhe apenas o caso e a mala, acessórios inúteis naquele contexto... Ou põe-na de calças (que ela usava no mato)! A senhora já morreu há 15 anos! E eu respeito-a como respeito todos os mortos, independentemente do meu "juízo histórico".
... Bom, e finalmente lá saiu o "boneco" que publicamos acima: apesar de ser uma "peça de humor", é também uma homenagem:
- a todos os militares, meus camaradas, que estiveram no TO da Guiné, e que, além da G3, também gostavam de tocar viola, bateria ou simplemente cantar!;
- ao conjunto musical "ad hic" Os Bambas D' Incas;
- em especial ao Tony, meu contemporâneo: faço votos para que ele ainda esteja vivo e continue a ser "romântico mas não...trôpego";
- por fim, a todos os cantores românticos "ma non troppo", a todas as Mónicas, as todas as Cilinhas, a todas as mulheres, afinal;
- e, claro, também às nossas mães que, algumas, acharam por bem integrar o Movimento Nacional Feminino (1961/74), independentemente das motivações de cada uma.




















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