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quarta-feira, 1 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28146: Álbum fotográfico do Padre José Torres Neves, ex-alf graduado capelão, CCS/BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) - Parte XXXVII: Ramadão de 1970: celebração do Korité (ou Eid al-Fitr, em árabe), o fim do jejum ritual (fotos de 8 a 14)



Foto nº 8 e 8A
 

Foto nº 9






Foto nº 10, 10A, 10B, 10C e 10 D





Fotos nº 11, 11A, 11B, 11C


Foto nº 12


Foto nº 13 E 13A




Foto nº 14, 14A e 14B

Guiné > Região do Oio > Mansoa > 30 de novembro de 1970 > Celebração do Korité (ou Eid al-Fitr, em árabe) que marca o fim do Ramadão (o mès sagrado). Homens, mulheres e crianças participam segundo os costumes locais, formando grupos distintos. Militares e civis portugueses assistem à festa como observadores, num raro testemunho fotográfico da convivência entre a administração portuguesa e a população muçulmana da vila, em plena guerra (*).

Fotos do álbum do Padre José Torres Neves, antigo capelão militar.

Fotos (e legendas): © José Torres Neves (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Continuação da publicação de um lote de 14 fotos ("slides" digitalizados) do alferes graduado
capelão José Torres Neves, nosso grão-tabanqueiro, que pretenceu à CCS/BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71)


De um modo geral, estas imagens são muito interessantes (embora já comuns no nosso blogue), quer do ponto de vista etnográfico, quer histórico. O padre José Torres Neves revela aqui a sua empatia, capacidade de observação participante, espírito ecuménico e sensibilidade sociocultural.

Em 1970, Mansoa encontrava-se relativamente segura, embora a guerra estivesse bastante próxima. Estamos na região Oio. Mas ia-se, com relativa segurança, de Bissau a Mansoa (c. 60 km). E nunca houve, praticamenmet, nenhuns casos muito graves de terrorsimo urnavo (com exceção de Farim enm 1965 e depois em Bissau, já no fim da guerra).

É significativo que uma festa muçulmana pudesse decorrer com esta dimensão pública, e sem nenhum dispositivo militar de segurança.  Estas imagens podiam ser usadas pelas NT contra a propaganda do PAIGC...

Também mostram, pro outro lado,  que as autoridades portuguesas, incluindo os capelães militares como o padre José Torres Neves, assistiam frequentemente às festividades religiosas das populações locais, num espírito de convivência e observação que muitos deles registaram em fotografia (como é o caso dos nossos camaradas Abílio Duarte,  António Marreiros, Armando Fonseca, Armando Oliveira, Arménio Estorinho, Jorge Pinto, José Carvalho, Luís Mourato Oliveira, Vasco da Gama) e/ou em cmentários e observações como os  nossos amigos Cherno Baldé e Cataraina Meireles. entre outros.


2. Sobre algumas destas fotos pode acrescentar-se o seguinte:

Fotos nº 8 e 10:  As mulheres e crianças participam, mas à parte. Os "tugas", curiosos, misturam-se também com os crentes. A Fotio nº 8  mostra um pequeno grupo de mulheres muçulmanas, quase todas envoltas em grandes panos brancos. 

Esse branco  (nas vestes de mulheres e homens) tem um significado simbólico importante: é a cor da pureza, da alegria religiosa e da festa. Muitos terão vestido a sua melhor roupa para o Korité (ou Eid al-Fitr), assinalando o fim do Ramadão. Sob o pano branco veem-se vestidos coloridos, como o da mulher em primeiro plano, revelando o gosto africano pelos tecidos estampados.

É interessante notar que os rostos permanecem descobertos. Isso corresponde aos costumes locais da Guiné-Bissau, onde, mesmo entre Mandingas e Fulas muçulmanos, nunca foi habitual o uso do véu integral como noutras regiões do mundo islâmico.(Mas já vemos hoje no Gabu sinais do regersso do fundamentalismo religioso, pelo menos a nível do vestuário feminino.)

Já na foto nº 1 e 2 do poste anterior (*),a separação dos grupos é ainda mais evidente. Essa disposição não significa propriamente uma segregação  socioespacial rígida, mas antes o respeito pelas normas sociais e religiosas da época. Nas cerimónias públicas, sobretudo depois da oração, homens e mulheres tendiam naturalmente a formar grupos distintos, embora todos participassem na mesma festividade.

Vejam-se tambéma as res stantes fotos nº 9, 10, 11, 12, 13 e 14:
  • homens sentados ou reunidos,  muitos vestidos de branco;
  • mulheres agrupadas um pouco mais atrás, formando um conjunto próprio;
  • crianças circulando livremente entre os adultos;
  • e, ao fundo, alguns militares e civis portugueses observando discretamente ou fotografando (fotos nº 10, 11, 13).

Na Foto nº 13, está o César Dias, fur mil trms da CCS (de camisinhja branca e ósiuclos escuros), mais o  Américo Caetano fur mi,l  da CCAÇ 2587/BCAÇ 2885 (Mansoa, Jugudul, Mansoa, 1969/71).
 
É um pormenor curioso, a  atitude dos "tugas"... Não há ali qualquer sinal de tensão. Pelo contrário, parecem simples espectadores, quase "turistas".  Alguns usam camisa de manga curta, outros óculos de sol, e misturam-se com naturalidade entre a população. Em Mansoa, em 1970, isso era ainda possível. Apesar da guerra estar presente na região, o núcleo urbano continuava a manter uma vida social relativamente aberta, permitindo este tipo de contacto. 

Também a arquitetura merece referência. As casas circulares de cobertura de colmo coexistem com edifícios de planta retangular e cobertura metálica, mostrando uma Mansoa em transição entre a construção tradicional e a influência urbana trazida pela administração colonial.

 Destaque para a foto nº 14, e os comentários já aqui produzidos pelo Cherno Baldé, em 2023  (ao poste P24207)(**):

(...) "Na parte final da reza tem lugar o que chamam de 'Cutuba' ou Sermão com a participação de um grupo seleto de discíplos e pessoas dedicadas a causa da religião na comunidade, todos do sexo masculino, durante o qual é revisitada a longa história do Islão dos primórdios a actualidade, incluindo partes do período Judaico e dos textos do antigo testamento do Cristianismo com particular destaque as peripécias do antes, durante e após a fuga dos Hebreus do Egipto e a épica ou mitológica travessia do Mar Vermelho com o Profeta Moisés (Mussa,  para os Árabes) a frente da nação rumo ao deserto do Sinaí e que culmina com a vida e obra do Profeta Muahammad.

Esta parte é a mais importante, mas também é a mais monótona e menos interessante para a rapaziada que já está com os sentidos voltados para as comidinhas que, entretanto, estariam a preparar em casa de maneiras que, não raras vezes, só ficam os mais velhos a acompanhar esta longa narrativa prenhe de recomendações dogmáticas sobre a religião, a vida em comum e a necessidade e fundamentos da preservação dos ensinamentos e da tradição islámicas, a bem da comunidade" (...). (**)

No conjunto, estas imagens têm um valor documental notável. Não retratam apenas uma cerimónia religiosa: mostram a convivência, durante a guerra, entre uma população maioritariamente muçulmana e militares portugueses que assistem, como vizinhos, convidados ou curiosos, sem interferirem na celebração. São um testemunho raro de um quotidiano que a historiografia militar nem sempre regista, mas que ajuda a compreender a complexidade das relações humanas na Guiné daqueles anos. E mais: têm um valor ecuménico, numa época em que crescem os sinais de islamofobia.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28046: Retratos humanos da Guiné-Bissau de hoje (4): Cadi, a jovem mãe muçulmana no final do Ramadão (João Melo, ex-1º cabo cripto, CCAV 8351/72, Cumbijã, 1972/74)

 

Guiné-Bissau > Bissau > 20 de março de 2026 > Fim do Ramadão: a jovem mãe Cadi, com os seus dois filhos.

Foto (e legenda): © João de Melo (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Postagem do João Melo , publicada no Facebook da Tabanca Grande, 21 de maio de 2026, 17:43 


 Encontrei a jovem Cadi e seus dois filhos, em traje de festa, pelo final do Ramadão em 20 de março 2026.

A tradição de usar roupas novas não ocorre durante o Ramadão (que é um mês de jejum e introspeção), mas sim no Eid al-Fitr,  a grande festa de três dias que celebra o fim do mês de jejum.

O uso de roupas novas e elegantes para esta ocasião simboliza a renovação espiritual após o mês de autodisciplina, sendo costume:

(i) acordar cedo e tomar banho purificador ("Ghusl");

(ii) vestir as melhores roupas disponíveis;

(iii) reunir com a família, vizinhos e amigos.

(Revisão / fixação de texto, itálicos, negritos, título: LG)


2. Comentário do editor LG

Obrigado, João, pela tua sensibilidade sociocultural, pelo teu ecumenismo português, e pelas belas fotos que fizestes na última visita à "nossa" Guiné-Bissau, terra abençoada pela biodiversidade, o multiculturalismo e a tolerância religiosa.

No nosso tempo, não tínhamos "nem tempo nem pachorra" para compreender o "outro" (que era diferente de nós: na língua, nos costumes, na religião, na gastronomia, etc.).

 Os meus soldados eram fulas e muçulmanos e não falavam português, mas, na "freima" (como se diz no Norte, em Candoz) da guerra, pouco sabíamos das diferenças que nos separavam...

Ora é importante saber distinguir  as duas grandes festas do calendário islâmico, e que se celebram na Guiné-BIssau: 

  • o Eid al-Fitr (o fim do Ramadão) ("Korité");
  •  e o Eid-al-Adha, a "festa do sacrifício", a "festa do carneiro" ("Tabaski")

Têm sentidos religiosos diferentes. Na Guiné-Bissau, onde cerca de metade da população é muçulmana (sobretudo fulas e mandingas, mas também outros grupos, biafadas, nalus, etc.), ambas têm também enorme importância social, económica, cultural e familiar.

  • Eid al-Fitr: o fim do Ramadão ("Korité")

Eid al-Fitr significa literalmente “Festa da Quebra do Jejum”.

Marca o fim do mês sagrado do Ramadão, o fim  do jejum diário, desde a alvorada até ao pôr do sol, é o tempo de reconciliação, esmola e convívio. Equivale á nossa Quaresma cristã, período de jejum e abstinência  (no nosso tempo de meninos e moços) (e só os ricos podiam comer carne, porque compravam a bula), ou a "burla").

É uma festa de alegria e agradecimento a Deus (Allah) depois do esforço espiritual do Ramadão, marcada pela oração, autocontrolo, disciplina, caridade, purificação moral.

Antes da oração festiva, os fiéis devem dar esmola aos pobres (zakat al-fitr), para que todos possam celebrar.

Em  Bissau e nas tabancas do interior, as famílias vestem roupa nova ou os melhores panos; há oração coletiva logo de manhã; visitam-se parentes, vizinhos e marabus; matam-se galinhas, cabras ou carneiros conforme as posses; prepara-se arroz, cuscuz, leite, chá forte e doces.

Nas famílias e comunidades, é também uma ocasião de perdão entre parentes, vizinhos e amigos; ofertas às crianças, ajuda aos mais pobres; e reforço dos laços de linhagem e comunidade.

Muitos bissau-guineenses chamam-lhe simplesmente “Korité” (forma usada na África Ocidental francófona, vinda do uolofe). 

Este ano o feriado (nacional) foi a 20 de março de 2026.

  • Eid al-Adha: a festa do sacrifício ou do "carneiro" ("Tabaski")

É a festa maior do Islão. Recorda o episódio bíblico/corânico em que Abraão (Ibrahim) aceita sacrificar o filho por obediência a Deus, antes de Deus substituir a vítima por um carneiro. Representa :obediência a Deus, fé,sacrifício, generosidade. Coincide com a peregrinação a Meca (Hajj).

Na Guiné-Bissau e em toa da região n África Ocidental chama-se   “Tabaski”.

É talvez a festa mais visível entre os muçulmanos guineenses: compra-se um carneiro dias antes; os mercados enchem-se de gado; há grande movimento económico; famílias emigradas enviam dinheiro para comprar animais. Este ano  será a 27 de maio de 2026 (feriado nacional).

O ritual central é: oração comunitária; sacrifício do carneiro; partilha da carne (uma parte para a família, outra para os parentes e outra ainda para os pobres).

Em Guiné-Bissau, como no Senegal ou na Guiné-Conacri, o Tabaski tem também forte dimensão social: visitas intermináveis, música, chá, roupa nova, fotografia familiar, exibição de prosperidade. 

Em resumo:

Eid al-Fitr = festa da conclusão espiritual;
Eid al-Adha = festa do sacrifício e da partilha.

Na Guiné-Bissau, estas festas têm ainda uma particularidade interessante: convivem lado a lado com práticas tradicionais africanas (animismo) e com o cristianismo. 

De facto, não é raro ver-se famílias “mistas” (como é o caso do nosso amigo Cherno Baldé, futa-fula e muçulmano, casado com uma nalu, cristã) participarem umas nas festas das outras, sobretudo em contexto urbano (Bissau),

Essa convivência religiosa sempre foi um dos traços mais notáveis da sociedade guineense, já no tempo dos "tugas".  E isto não obstante as tensões politico-militares e as crises económicas do pais. A tolerância religiosa manifesta-se no calendário dos feriados nacionais, civis e religiosos, sendo estes últimos tanto muçulmanos como como cristãos.


Ano Novo - 1 de janeiro

Dia dos Heróis Nacionais - 20 de janeiro (aniversário da morte de Amílcar Cabral)

Terça feira de Carnaval - 17 de fevereiro 

Domingo de Páscoa - 5 de abril

 Dia do Trabalho - 1 de maio

Dia Nacional - 24 de setembro (dia da independència)

Dia de Natal - 25 de dezembro

__________________

Nota do editor LG_

Último poste da série > 20 de maio de 2026 > Guiné 61774 - P28039: Retratos humanos da Guiné-Bissau de hoje (3): Vendedora de caju no Mercado Central de Bissau: foto de João Melo (2025)

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27957: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte II: semana de 10 a 16 de fevereiro: a promiscuidade do... jardim do Éden


Timor Leste > Liquiçá > Manati > Boebau > 2024 > Escola de 
São Francisco de Assis (ESFA) , que celebrou o  seu 6º aniversário (e o ace4sso, desde Díli também já melhorou)... Mas erguer paredes é sempre o mais fácil... É preciso agora assegurar o seu futuro... e essa tem sido a preocupação maior do Rui Chamusco e dos demais membros da ASTIL que apoiam e financiam o projeto (incluindo o pagamento do pessoal docente e auxiliar)
 
Foto (e legenda): © Rui Chamusco (2024). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Lourinhã > Praia da Areia Branca > 2 de dezembro de 2017 >  Rui Chamusco e Gaspar Sobral, cofundadores e líderes da ASTIL 

O Rui Chamusco começou por ser membro da Tabanca de Porto Dinheiro: natural de Malcata, Sabugal, vive na Lourinhã há 3 décadas, sendo  professor reformado de Educação Musical no ensino oficial,   e de Português, Filosofia e Latim no ensino Particular. 

Desde há mais de uma década, que ele passou a ser um grande amigo do povo Timor-Leste, liderando um projeto  (luso-timorense),  já concretizado, em 2017, de construção de uma escola, privada, nas montanhas de Timor Lorosa'e, a par do  apadrinhamento de crianças em idade escolar.

A partir de  10 de maio de 2024, tornou-se novo membro da Tabanca Grande ( nº 886). Foi-me apresentado pelo nosso saudoso Eduardo Jorge Ferreira. Eu, por minha vez, apresentei o João Crisóstomo ao Eduardo, que era o régulo da Tabanca de Porto Dinheiro. E o Eduardo apresentou o Rui ao João, que passou a ser logo  um apoiante entusiasta do projeto da ASTIL.

Foto (e legenda): © Luís Graça (2017). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. O nosso amigo Rui Chamusco já foi a Timor-Leste seis vezes,  desde 2016, em missão de cooperação  e solidariedade. Sempre pagando  do seu bolso, este "malae" (estrangeiro) tem autorização para ficar lá  três meses

Dessas viagens e estadias há crónicas que ele escreve a pensar nos sócios da ASTIL e demais amigos da Escola de São Francisco e de Timor-Leste.

 Já aqui publicámos excertos das crónicas da I viagem  (2016), II (2018) e VI (e última) (2025). Começamos há dias  a publicar as da III viagem (2019). (Depois meteu-se a pandemia, e o Rui só voltou a Timor Leste em 2023/IV viagem), 2024 /V viagem) e 2025 /VI viagem.)

Costuma viajar com o seu amigo, luso-timorense, Gaspar Sobral, mentor do projeto. A sua família (mãe e irmãos mais novos, incluindo o Eustáquio, ainda adolescente)  resistiram, espantosamente (!),  durante 3 anos (!) nas montanhas de Liquiçá, a seguir à invasão e ocupação dos indonésios (em 1975). Uma verdadeira odisseia. Inimaginável para os nossos filhos, que por enquanto ainda não sabem o que é a guerra á porta de casa.

Este projeto (a construção da Escola São Francisco de Assis, ESFA,  em Boebau, Manati, Liquiçá, Timor Leste),   nasceu de um conversa entre dois amigos, em 2015: Gaspar Sobral (timorense residente em Portugal, topógrafo, retornado de Angola, em 1975) e o Rui Chamusco. 

O Gaspar "manifestou-me o seu grande desejo de construir uma escola na terra dos seus ascendentes, em Boebau, pois na visita que lhes fizera em 2000 verificara que havia muitas crianças sem escolaridade. De imediato, eu como professor aposentado e livre de obrigações, anui ao seu desejo, respondendo prontamente: 'conta comigo'  "(...)

Em fevereiro de 2016, o Rui e o Gaspar foram  a Timor Leste visitar a localidade de Boebau (município de Liquiçá) e avaliar as necessidades no terreno: 

"O Chefe de Suco informou-nos, através dos cadernos de registo, do número de crianças que aí viviam. Mais ou menos 400, das quais só 111 iam às escolas mais próximas. Por consulta presencial, o povo pediu que fosse construída uma escola. E assim fizemos."

A construção Escola São Francisco de Assis – Paz e Bem foi inteiramente financiada por fundos recolhidos pela ASTIL. A organização e o funcionamento da ESFA continuam a ser assegurados pela ASTIL.  
Foi inaugurada em 19 de março de 2018. Mas a sua oficialização ainda está por conseguir.


Crónicas da III viagem a (e estadia em) Timor Leste (janeiro- abril 2019) - Parte II: semana de 10 a 16 de fevereiro

por Rui Chamusco

10.02.2019, domingo - Bendita promiscuidade!...

Será que o jardim do Eden era assim?...Passo a descrever o que me rodeia enquanto escrevo: pardais, galinhas, pintaínhos e galos, cães, porcos (javalis), peixes, teques e toquês, papaeiras, bananeiras, coqueiros, palapeiras, goiabeiras, árvores que dão mangas, inhames (talas), casas em blocos, telhados de zinco, pessoas, crianças,etc...

Tudo isto tendo como banda sonora o cantar dos galos ao desafio, o piar dos pintaínhos, e uma luz solar que dá cor e brilho a tanta criatura. 

Não fora alguns maus odores provenientes de infraestruturas debéis ou quase inexistentes e de lixos acumulados,  diríamos que estávamos no paraíso. A natureza no seu melhor e o progresso no seu pior com este maldito império dos plásticos e outras porcarias que infestam o ambiente. É assim a ação humana: ao querer arranjar muitas vezes estraga.

São as consequências nefastas da civilização e do progresso.

10.02.2019 - Carga d’água

Mais uma demonstração de força da natureza.. Talvez a maior chuvada que eu já vi em Timor. Pelas dezassete horas, um ruído crescente vindo de longe, se foi aproximando. Era a chuva que, batendo nas folhas das árvores e nos telhados de zinco, anunciava a sua chegada. E choveu tanto, tanto, tanto que não ficou um palmo de terreno seco. Uma benção, dizem uns: uma desgraça dizem outros. Imagino como terá ficado o caminho de acesso a Boebau...

Aqui, em Ailok Laran, Dili, cada vez que chove, mesmo que seja muito, é uma festa. Todos saem à rua gritando e brincando com a água. Com roupa ou quase sem ela, todos encharcados até ao tutano ósseo, divertem-se com brincadeiras de criança que a todos nos fazem inveja. Então o Gaspar, prevendo já o que vai acontecer sempre que estas cargas de água nos visitam, vai apressado buscar a máquina de filmar para registar estes felizes acontecimentos.

“E a chuva ouviu e calou seu segredo à cidade. E eis que ela bate no vidro, trazendo a saudade”.

11.02.2019, segunda feira  - Deus nos dê paciência!...

Isto é que vai uma crise!..É já a quinta vez que o Eustáquio e eu vamos à paróquia de Motael para que um registo de Batismo seja assinado pelo pároco. E ainda não foi desta. Enchem-se de razões para justificarem o padre: “o amo (padre) está doente”, “o amo está em reunião”, o “amo está a dormir a sesta”, patati-patatá, patati-patata. 

que é certo é que a certidão de Batismo ainda não está assinada. E depois de assinada ainda tem que se ir à chancelaria diocesana para carimbar. Será que o processo é o mesmo? Por quanto tempo temos de esperar?

Custa-me ver como estes serviços ligados à igreja (a certidão de batismo consta como registo oficial da certidão de nascimento) não têm uma resolução mais célere e mais eficaz.

Sei que os timorenses são um poço de paciência, mas quanto tempo não se ganharia com um serviço mais pronto e eficaz. Deus nos dê paciência!

11.02.2019 - Um encontro franciscano-capuchinho

Já não é a primeira vez que por aqui nos encontramos. O frei Fernando, superior provincial dos franciscanos-capuchinhos em Portugal, veio de visita canónica às fraternidades de Tibar e Laleia.

 O frei Miguel, que conheci pela primeira vez, é o superior e pároco da comunidade de Laleia. À hora marcada e connosco já esperando no Páteo, apareceram trajados com o hábito dos capuchinhos, dando assim testemunho da sua condição de frades menores. Gostei da imagem simples com que apareceram.

A mesa completou-se assim: o frei Fernando e o frei Miguel, o Eustáquio e o Gaspar Sobral, e eu próprio. Enquanto saboreávamos um café à portuguesa, pusemos a conversa em dia, particularmente eu e o Fernando, pois muitas coisas nos unem desde os tempos da sua adolescência (fui diretor dele no seminário).

Serviu também este encontro para combinarmos uma visita à Escola de São Francisco de Assis em Boebau. Com certeza que todo aquele povo e especialmente as crianças vão gostar de ver o São Francisco de Assis, hoje em carne e osso, e irão cantar com toda a alma “ São Francisco lá na glória / Lá nesse formoso céu / Protege a nossa escola / Protege este povo teu “ (letra do hino da escola). 

Como sempre o Fernando desfaz-se em atenções para comigo, o que muito lhe agradeço. Mas ele sabe bem que estamos em sintonia, no mesmo barco, em projetos de solidariedade de “Paz e Bem”.

11.02.2019 - Farwest made in Ailok Laran

Quem diria do que esta gente se lembra?!... Durante a tarde, sob uma grande chuvada, ouvimos um enorme alarido de bandos de pessoas que corriam numa determinada direção. O que é?... O que não é?... E todos aguçavam a sua curiosidade. 

Soubemos que um jovem agrediu outro, e que as claques se juntavam e incitavam o seu protegido. E até já sabíamos o nomes dos protogonistas desta batalha. Diziam até que já lá estava a polícia.

Foi então que o Chefe da aldeia Bartolomeu Pinto passou por aqui e nos explicou o que verdadeiramente se passava. Trata-se de cenas montadas previamente de lutas para serem gravadas e publicitadas no youtube. Por cada visualização esses jovens irão receber a sua recompensa em dinheiro, fazendo desta atividade uma forma de ganharem a vida.

Não sei não, mas se a moda pega vai haver uma grande batatada!...

13.02.2019, quarta feira - filosofia oriental

Estamos sempre a aprender com esta gente. Então não é que o Eustáquio, constatando que eu e o Gaspar andamos meio adoentados com forte tosse e expetoração profunda, nos dá uma lição de vida!

 Segundo ele e os entendidos deste canto do mundo, somosnós que criamos as nossas próprias enfermidades. Tal e qual! E explica: “se tem qualquer coisa na cabeça, sobretudo maus pensamentos, tem que deitar fora, falar. (...)  Não pensar nem guardar só para si. É o que guardamos dentro que nos faz mal, e provoca a dores no nosso corpo. Não precisa de médico...” 

Isto dito assim até nem parece errado. Aliás é o fundamento de todas as técnicas de psicoterapia. Mas será que chega? Não será melhor atacar logo com um produto farmacêutico recorrer a terapias disponíveis e a processos mais rápidos e eficazes?

Pelo sim e pelo não esta tarde vou consultar um médico. E pode ser que, com culturas e conhecimentos orientais, possam curar este corpo ocidental.

E de repente vem me à ideia o título do livro de Roger Garaudy “Parole d’homme -Ocident ou Acident?”,  onde se pode concluir que a salvação vem do oriente.

Estejamos portanto muito atentos...

13.02.2019 - Cobardia!...

Falo de mosquitos, de melgas... Então não é que mordem a gente à traição, pois estamos a dormir, enchem a barriga do nosso sangue e depois abandonam o local do crime.

Depois de verificar o estrago que me fizeram, busquei furioso a raquete assassina para me vingar destes dráculas. Querem lá saber... Nem um sequer apanhei! E por aqui andamos nós ao sabor desta bicharada que teima em dar cabo de nós â ferroada.

Cobardes, cobardes, cobardes!... Eles que se deixem apanhar para verem os que lhes acontece. Nem os ossos se lhes vão aproveitar!...

14.02.2019, quinta feira  - Rumo a Liquiçá

Com várias tarefas em mente, mas sobretudo o encontro com o diretor distrital de educação dr. Zito (?), a fim de nos esclarecer em pormenor o apoio que estão a dar à Escola de São Francisco de Assis em Boebau. Muito bem recebidos pelo senhor diretor e por um seu colega, depressa mos deram conta da situação. 

Ficamos então a saber que a escola de São Francisco de Assis está registada no ministério de educação timorense com o número 36 do distrito de Liquiçá, e que irá usufruir dos apoioslogísticos ao dispor. Este ano letivo conta com duas salas de ensino pré-escolar, e é frequentada por 40 crianças. O professor Luís, no cargo de inspetor do ensino pré-escolar, garantiu-nos que todas as ações de formação destinadas a este ensino, promovidas por esta direção escolar seriam comunicadas a tempo de modo a poderem ser frequentadas pelas trabalhadoras da nossa escola. O resto: apoios económicos, destacamentos e outras coisas mais explicaram que dependiam do que o ministério da educação lhes afetasse.

Por fim, e em jeito de remate, ouvimos da parte do senhor diretor o mais importante desta nossa visita de cordialidade: “Com a vossa colaboração e o nosso apoio a Escola de São Francisco vai fazer o seu caminho, a pouco e pouco; vai funcionar para bem de todas as crianças que a frequentam”.

14.02.2019 - Enxurrada inesperada

Estamos de volta. Na estrada Liquiçá-Dili, constantemente em obras, e que mais parece solo lunar devido ao pó e às crateras, um pouco antes do cruzamento para Tibar acontece o inesperado. Uma grande enxurrada corre precipitadamente edesemboca mais ou menos a dez metros do mar. Cada um safa-se como pode.

Motores e karretas procuram o melhor sítio para passar.

Também o Eustáquio deu o seu melhor para que o carro em que viajávamos chegasse são e salvo ao outro lado. Azar!... O motor parou e , de tentativa em tentativa, negava-sde sempre a pegar. Uma confusão danada. Apita daqui, apita dali. Uma microlete ainda parou para tentar ajudar, mas ninguém tinha corda para atrelar. O Gaspar bem tentou telefonar ao Quino para que fosse ao nosso encontro munido da cordanecessária, mas nada conseguiu.

E no meio desta ansiedade onde até já se rezava, um sinal de esperança surgiu, A mais uma tentativa de ver se pega, o motor arrancou e com muita dificuldade lá foi andando devagarinho, ganhando ânimo e acelerando, apreensivos até ao fim. Só em casa ficamos descansados. Está claro que o êxito desta expedição deve-se inteiramente ao Eustáquio, homem persistente e desenrascado. E à proteção divina.

14.022019 - O amor anda no ar

Anunciado e festejado em todo o mundo (o amor é universal), o dia de São Valentim tem o condão de avivar sentimentos, de despertar paixões, de combinar arranjos, de suscitar gestos, mensagens, telefonemas, cartas... e tudo o mais que seja preciso para que o mundo pule e avance “ como bola colorida nas mãos de uma criança”. 

Há quem tente esquivar-se deste dia, tentando dar a entender que tudo isto é uma fantochada. Mas Cupido, com a sua flecha amorosa, a todos atinge, queiramos ou não. Porque, “o amor anda no ar”. Basta abrir os olhos para o ver, abrir as narinas para sentir o seu odor, abrir os ouvidos para escutar os seus segredos. E, como diz a letra de uma canção espanhola, “Cinco sentidos tenemos / De todos necessitamos / Pero los cinco perdemos / Quando nos enamoramos”.

Hoje mesmo, aqui em Ailok Laran, pude compreender que este dia pode ser importante para alguém. O namorado da Eza, cumprindo o ritual de São Valentim, veio namorar à noitinha. E mais uma vez associei a letra da canção do rio Douro “conta a lenda / Que a namorar à noitinha / Foram encontradas as ninfas / com o rio Douro ao luar!”

Sim, a força do amor (que não só o amor físico) move montanhas. “Sapete perché il mondo va? Perché in torno al mondo gira l’amore...” E, embora com um dia especial,  14 de Fevereiro - que São Valentim seja todos os dias.

16.02.2019, sábado - ADHAN: o chamado para a oração

Aqui, em Timor, a religião mulçumana tem uma grande adesão, ainda que não comparável com a religião cristã, com destaque para a religião católica. 

Cada religião desenvolveu uma maneira de chamar os seus fiéis para o momento do culto: os judeus utilizavam uma corneta, os budistas uma trombeta, os cristãos os sinos das suas igrejas...

Já não é a primeira vez que, entre as cinco e cinco e meia da manhã, oiço o uma voz que percorre este ambiente. No princípio algo estranho, mas depois facilmente compreensível. Trata-se da chamada para a oração mulçumana - o Adhan - que é pronunciado em tom melodioso pelo Muazzin, do alto dos minaretes das mesquitas de todo o mundo.

Não percebendo nada do que se dizia cantando, fiz uma pesquisa na net sobre o conteúdo deste anúncio. E então deparei com o original e a sua tradução, que transcrevo:

Allahu Akbar | Deus é Maior !

Ach hadu an la ilaha ill- Allah | Testemunho de que não há outra divindade além de Deus.

Haiyá alas-salat |! Vinde para a Oração

Haiyá alal-falah Vinde para a salvação

Allahu AkbarDeus é o Maior !

Lá ilaha ill Allah | Não há outra divindade além de Deus !

Somente na oração da alvorada o Muezzin deve pronunciar depois de
Haiya alal-falah o seguinte 2 vezes:

 As-salatu Kairun minan-naumA oração é melhor do que o sono.

Quando houver terminado o Adhan, devemos suplicar à Deus as suas
Bênçãos ao profeta Muhammad (que a Paz e a Bênção de Deus
estejam sobre ele):

Allahuma rabba hadh-hid da' wa-tam mati

was-sálatil qai-mati muhammad anil wasilata wal fadi lata wad-
darajatar-rafi' ata


wab' ath-hu maqam-mahmuda-nil ladhi wa' at-tahu

 war zuqna sha fá' tahu yaum-al-qiyamah in naka la-tukh liful
mia'd. | Ó Deus, Senhor deste chamado perfeito e desta oração, ora anunciada,
dá a Muhammad meios para se aproximar de Ti, assim como a distinção
no bem, e fá-lo ressuscitar no lugar louvável que lhe prometeste.

Concede-nos a sua intercessão; Tu jamais faltas às Tuas promessas".

Nota: Esta é a minha homenagem à religião mulçumana e a todos os fiéis que a professam.

(Revisão / transcrição de texto, título, negritos: LG)

______________

Nota do editor LG:

Último poste da série >  20 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27934: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte I: semana de 31/1 a 9/2: santa paciência e ajudas...divinas

domingo, 28 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27580: Casos: a verdade sobre... (62): Al-Hajj Cherno Rachide Jaló (1906-1973)... O itinerário das colunas que levaram, de Bambadinca a Aldeia Formosa / Quebo, os fiéis que foram à cerimónia fúnebre do imã (Paulo Santiago)


Guiné > Carta Geral da Província (1961) (Escal 1/500 mil) > Percurso (a amarelo) que seguiram os fiéis do Cherno Rachide que foram ao seu funeral em setembro de 1973:  Bambadinca - Xitole - Cambessê - Uria Candi - Cambança do Rio Corubal - Aldeia Formosa / Quebo. A vermelho, o troço  de estrada que estava interdito: Saltinho - Rio Mabiá - Contabane - Aldeia Formosa / Quebo. 

As distâncias quilométricas são mais ou menos as seguintes (hoje em dia): Bambadinca-Xitole: 30  km; Xitole-Saltinho, 20 km; Saltinho-Quebo: 20 km. No nosso tempo, e na época das chuvas, com risco de minas e emboscadas, uma coluna Bambadinca-Xitole-Saltinho podia levar um dia ou até mais... O troço Mansambo - Xitole-Saltinho esteve interdito cerca de um ano (set 1968/ set 69).

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2025)


1. Comentário do Paulo Santiago  (ex-alf mil, cmdt Pel Caç Nat 53, Saltinho 1970/72) (*):

O  poste do Luís fala numa coluna militar para levar os fiéis do Cherno Rachid, de Bambadinca a Aldeia Formosa (Quebo). 

Direi que seriam duas colunas. Assim,as viaturas saídas de Bambadinca seguiam em direcção ao Xitole,e aqui seguiam em direcção ao Saltinho.

Passada a tabanca de Cambessê,  a última do Xitole, poucos quilómetros  andados aparecia a tabanca de Uria Candi onde se cortava à direita por uma picada até atingir o rio Corubal, onde de canoa se cambava  para a outra margem onde estariam viaturas de Aldeia Formosa.

Uma vez, em  que fui a Aldeia Formosa, saí do Saltinho indo até à cambança e na outra margem tinha o pessoal de Aldeia.

O trajeto Saltinho-Rio Mabiá-Contabane estava minado pelas NT e pelo IN.








Guiné > Zona Leste > Setor L1 > Bambadinca > BCAÇ 2852 (1968/70) e CCAÇ 12 (1969/71) > Visita que o Cherno Rachide fez a Bambadinca, no início de janeiro de 1970...  As fotos devem ser de 10 de janeiro.

Fotos do álbum do ex-fur mil at inf Arlindo Roda, da CCAÇ 12 . Sem legenda. (Infelizmente as fotos do meu camarada Arlindo Roda não trazem legendas, local, data, etc.)... 

A personagem  de azul escuro  e "gorro" preto, assinalada a amarelo, tudo indica que seja o Cherno Rachide, a presidir a um encontro com os seus fiéis do regulado de Badora e outras paragens, que se deslocaram a Bambadinca para o cumprimentar, rezar com ele,  ouvir os seus conselhos, etc.. 

 Um seu "adjunto", vestido de branco e também com um gorro preto, segurando um lenço,  recolhe oferendas ao imã (moedas, "pretas" e "brancas", poucas notas, nozes de cola). O Cherno Rachide na altura teria 63 anos. Morreria  3 anos depois.

Recordo-me de as NT lhe terem armado uma tenda, no recinto do quartel de Bambadinca, para ele receber condignamente não só as autoridades locais, civis e militares, como também os seus fiéis...  O chão era coberto por tapetes. O gen Spinola deve ter mandado assegurar o seu transporte e acomodação. A ele e ao seu séquito.

Ele virá a falecer, em Aldeia Formosa, onde residia, em setembro de 1973, em dia que não podemos precisar.  

Na altura, o comandante do BART 3873 (Bambadinca, 1972/74) terá  organizado uma coluna de transporte  para os muçulmanos do sector L1  poderem ir prestar-lhe ( ao imã)  a última homenagem em Aldeia Formosa / Quebo.

No meu tempo ( 1969/71) o troço Saltinho- Contabane - Aldeia Formosa estava interdito, logo a partir da Ponte do Saltinho, sobre o rio Corubal... O transporte até Aldeia Formosa teria que ter segurança militar e seguir outro trajeto, como sugere  o Paulo Santiago, que conheceu bem o terreno  (esteve lá em 1970/72 e voltou lá em 2005 e 2008).

Foto: © Arlindo Roda (2010). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


2. De acordo com a História do BART 3873 (Bambadinca, 1972/74), há uns tantos pontos a destacar no mês de setembro de 1973:

(i) choveu intensamente, e as populações, nomeadamente, os balantas, ocupam-se dos trabalhos agrícolas (cultivo das bolanhas);

(ii) começou para os muçulmanos o Ramadão (de 27 de setembro a 26 de outubro de 1973); 

(iii) o comando do BART 3873 propõe, à Rep ACAP, que dois dos  mais prestigiados ( e "fiéis") régulos do sector L1, o do Xime e o de Badora, sejam escolhidos para a viagem de peregrinação aos lugares santos do Islão, a expensas do governo da província (o critério era sempre o apoio à "causa nacional");

(iii) o PAIGC escolheu, estranhamente (?), a data de 24 de setembro de 1973 (em plena época das chuvas e a 3 dias do início do Ramadão), para proclamar unilateralmente a independência da Guiné-Bissau (em local que ainda hoje é objeto de grande controvérsia, mas que a sua descarada propaganda teimou em dizer durante décadas que tinha sido... em Madina do Boé!) 

(iv) estranhamente, não: a 28ª sessão ordinária da Assembleia Geral da ONU acabava de se iniciar em 18 de setembro de 1973, e logo nesse dia as "duas Alemanhas", a República Federal da Alemanha (Ocidental) e a República Democrática Alemã (Oriental) foram admitidas simultaneamente como Estados-membros da ONU;

(v) morreu o Cherno Rachide (ou Rachid) de Aldeia Formosa / Quebo e o comando do BART 3873 prontificou-se a organizar uma coluna de transporte para os "muitos fiéis muçulmanos" (sic)  do setor L1 (Bambadinca) que quisessem assistir às cerimónias fúnebres; nesta altura, estava em Aldeia Formosa o BCAÇ 4513 (1973/74)-

As NT sempre deram grande importância à "lealdade" dos fulas e da sua elite dirigente, a quem o Amílcar Cabral chamava, com profundo desprezo, os "cães dos colonialistas".  Nunca saberemos ao certo qual o papel que o Al-Hajj Cherno Rachide  Jaló (1906-1973) desempenhou  na "nossa guerra" (***). 

Há quem, como o José Teixeira,  defenda a opinião de que os ataques e flagelações a Aldeia Formosa eram dirigidos para o aeródromo e  o quartel das NT, e nunca para a tabanca (onde residia o imã). E que, por outro lado, um seu sobrinho seria "cabo de guerra" na região, pelo lado do PAIGC (comandante de bigrupo, ou coisa parecida). 

Em conversa há dias com nosso camarada Arménio Santos (ex-fur mil, Rec Inf, Aldeia Formosa, 1968/70), que "trabalhou"  com o Cherno Rachide, no campo da informação e acção psicológica (e que, portanto, o conheceu bem), percebi que este dossiê ainda está longe de estar encerrado de todo. 

Oxalá apareçam mais histórias e testemunhos sobre o Cherno Rachide, cujo sucessor, o seu filho,  Al-Hajj Amadú Dila Djaló, será depois deputado pelo PAIGC, a seguir à independência, na Assembleia Nacional Popular. Contradições ? Realismo político ? O(s) poder(es) tem (têm) horror ao vazio. Sempre. Em toda a parte.


3. Excertos da H. U. (História da Unidade) | BART 3873 (Bambadinca, 1972/74) - Cap. II: 17º fascículo: setembro de 1973 , pp. 67/68/69 (***)







4. Excertos da história do BCAÇ 4513 (Aldeia Formosa, 1973/74) (Transcrição, para suporte digital: Fernando Costa) (****)

CAPÍTULO II > ACTIVIDADE NO TO DA GUINÉ > 4º Fascículo (período de 1Set a 30Set73)

(...) Verificou-se no período o falecimento do Cherno Rachid, chefe religioso de extraordinário prestígio no meio muçulmano, cuja perda abalou muita a população, receando-se não ser fácil encontrar quem o substitua com o mesmo prestígio e a mesma devoção à Causa Nacional (sic) (***).

No dia 29Set73 regista-se a chegada à Província do novo Governador e Comandante-chefe, General Bettencourt Rodrigues, que substituiu nos cargos o General António Spínola. (...)

5º Fascículo (período de 1Out a 31Out73)

(...) Durante o período continuaram a deslocar-se a Aldeia Formosa, em virtude do falecimento do Cherno Rachid, várias autoridades tradicionais, algumas estrangeiras, entra as quais se destaca o Cherno Aliu Cham, do Senegal.

Sekuna, filho do Cherno Racxhid, foi eleito, em assembleia dos "Homens Grandes", sucessor de Cherno Rachid.

Por motivo do acto eleitoral no dia 28 (*****),  e a festa do Ramadão nos dias 28 e 29, efectuaram-se diversas colunas a Buba, Nhala, Rio Corubal, para transporte da população. (...)

04Out73

(...) O Cmdt recebe a visita de todos os "Homens Grandes" da região que vêm comunicar que, reunidos em assembleia, elegeram Sekuna, filho do Cherno Rachid, como seu sucessor. 

Exprimem todo o seu apoio e lealdade à Causa Nacional. Este mesmo facto é comunicado à Rep ACAP, para ser transmitido a Sua Excelência Comandante-Chefe. (...)

09Out73

(...) Esteve presente no Comando do Batalhão, a apresentar os seus cumprimentos de despedida, o Cherno Aliu Cham, da Rep Senegal., e que agradeceu todo o apoio prestado quando do falecimento do Cherno Rachid e todo o apoio sanitário que continua a ser dado em todos os postos fronteiriços da Rep Senegal.(...)


28Out73

(...) Processou-se o acto eleitoral  (*****) e iniciaram-se as festas do Ramadão, que trouxeram a Aldeia Formosa muita população de Buba, Nhala e Saltinho. (...)

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, LG)
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Notas  do editor LG:

(*) Vd. poste de 23 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27564: (In)citações (283): Em louvor dos Postos Escolares Militares e do Cherno Rachide (Cherno Baldé, Bissau)

(***) Vd. poste de 23 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27565: Casos: a verdade... (61): Aldeia Formosa / Quebo é atacada ou flagelada pelo menos 7 veses em 1969 e 1971, em pleno consuklado Spinolista: em 7/3/69, 8/3/69, 21/3/69, 9/7/71, 11/7/71, 31/7/71, 12/8/71... E continuou a ser atacada ou flagelada em 1972... Faz sentido continuar a considerar o Cherno Rachid como um "agente duplo" ?

(****) Vd. poste de 27 de janeiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5716: Morte e sucessão do Cherno Rachide, ao tempo do BCAÇ 4513, em Set / Out 1973 (Fernando Costa)

(*****) Recorde-se que em  28 de outubro de 1973 realizou-se, em Portugal, as últimas eleições legislativas sob a égide do Estado Novo. 

Acção Nacional Popular (ANP), partido único do regime "recauchutado" (sucessor da União Naci0nal), elegeu todos os deputados para a Assembleia Nacional (150), num escasso 1,4 milhóes de votos, enquanto a Oposição Democrática boicotou o processo, denunciando a falta de liberdade e condições para eleições sérias e justas, num contexto de crescente contestação política e social do regime.  Seis meses depois aconteceu o 25 de Abril de 1974. O Estado Novo caiu de podre, sem honra nem glória. A Assembleia Nacional foi imediatamente dissolvida.

Pelo "círculo eleitoral da província ultramarina da Guiné", e para a" XI Legislatura da Assembleia Nacional! foi eleitos dois deputados Leopoldino de Almeida e Benjamim Pinto Bull, com menos de 12,2 mil votos.

Por sua vez, o Ramadão de 1973 (ano 1393,  no calendário islâmico) começaria a 27 de setembro  (quinta-feira) e terminaria  a 26 de outubro de 1973 (sexta-feira). 

O Eid al-Fitr, que marca o fim do Ramadã, foi celebrado a 27 de outubro de 1973. (A Guerra do Yom Kippur, também conhecida como a Guerra do Ramadão, começou a 6 de outubro de 1973, coincidindo com o 10º dia do Ramadão.)

O Eid al-Fitr marca o fim do jejum do mês sagrado do Ramadão.  É uma celebração de gratidão a Deus pela força para completar o jejum.  Centra-se muito na caridade (Zakat al-Fitr), no uso de roupas novas e em orações comunitárias logo pela manhã.

Náo confundir com o Eid al-Adha (Tabaski ou a "festa do carneiro", na Guiné-Bissau). Celebra a devoção de Abraão (Ibrahim) e o sacrifício de um cordeiro em lugar do seu filho. Quase todas as famílias que têm condições,  sacrificam um animal (geralmente um carneiro) e dividem a carne em três partes: uma para a família, outra para amigos e vizinhos, e outra para os pobres. Ocorre cerca de dois meses e meio após o fim do Ramadão.