Pesquisar neste blogue

Mostrar mensagens com a etiqueta Mindjer Garandi. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Mindjer Garandi. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Guiné 67/74 - P5881: Pré-publicação de Mulher Grande, de Mário Beja Santos (6): Tinha prometido a mim mesma não voltar mais àquela terra onde passei dez anos que mudaram a minha vida, e onde assisti ao início de uma guerra



Guiné-Bissau > Arquipélago dos Bijagós > Ilha de Bubaque > 12 de Dezembro de 2009 > Mulheres locais. Fotos do médico e músico João Graça

Fotos: © João Graça (2009). Direitos reservados


1. Pré-publicação de excertos do próximo livro do nosso amigo e camarada Mário Beja Santos, Mulher Grande. Trata-se da  sexta e última parte  do Capº III (*):


Mulher Grande > A Guiné em chamas ou o “Tubabo Tiló”
por Mário Beja Santos


[III. 6] Décimo quarto solilóquio

A Benedita está emocionalmente exausta. Conversámos ao pormenor sobre aquele mês em Bissau, quando vieram de S. Domingos. O sofrimento do Albano contagiou-a., está dilacerada. O Albano, profeticamente, vai emitindo opiniões pessimistas sobre o futuro da Guiné. Uma noite, tendo voltado a beber, chorou amargamente, terá proferido um longo e atabalhoado monólogo, rememorou toda a sua existência nos diferentes lugares onde trabalhou, como se habituou à solidão, como se entusiasmou pela etnografia e antropologia, a fazer inquéritos, a saber escutar as populações nativas.

Sim, o seu amor era verdadeiro, pelas gentes e pela terra. A Benedita ouvia-o em silêncio, como se estivesse a ouvir uma lição sobre o amor à Pátria, o Albano falou de Gil Eanes, Rio do Ouro, Nuno Tristão, Álvaro Fernandes, conhecia as viagens e as descobertas, os fracassos da construção de fortes, as etapas da missionação, as dificuldades no estabelecimento das populações em os “Rios da Guiné do Cabo-Verde”. Chorava a fazer o seu testamento, era uma ladainha de um bêbedo que não perdeu a clarividência e falava dos lançados, dos grumetes, de Honório Pereira Barreto, um dos seus ídolos, como ídolos para ele tinham sido Sarmento Rodrigues e António Carreira. Falou nas glórias de Cacheu, na sua admiração pelos Felupes, Banhuns e Manjacos, no seu relativo desprezo pela população dita civilizada, a oração fúnebre estendeu-se a Bolama e à exaltação dos rios e rias, de repente tudo se tornou numa declaração de amor conjugal, o Albano falava das alegrias da vida a dois, o que tinham vivido em conjunto desde Bissorã a S. Domingos.

Atónita (palavra usada pela própria Benedita), ela escutara tudo sem uma só interrupção, parecia que o Albano estava a apresentar um longuíssimo livro onde cabia a geografia, a história, as obras públicas, o combate à doença, a organização dos serviços da administração, o comércio e as pescas, as riquezas do subsolo, a diversidade cultural.

Anos depois, a Benedita pensou seriamente que se tratara de um discurso de despedida, aquele funcionário colonial que se dedicara com tanto zelo à sua missão quando regressou a Portugal fez todo o possível por pôr uma pedra sobre o assunto, calara toda a sua melancolia, afundando-se em longos silêncios, donde saía dirigindo-se à mulher, perguntando-lhe: «Benedita, recorda-se daquela viagem...”, havia então um retorno àquele tempo passado, depois tudo se imobilizava, a conversa mudava de tom, regressava-se à aspereza dos novos tempos, o Albano, adoentado, atirou-se a tudo, vendeu rações, fez contabilidade, por último trabalhou na D. Eva.

São nessas viagens da memória que eu sinto, nos farrapos da memória e nas entrelinhas, a culpa da Benedita que só se apercebeu muito tarde que o Albano regressara da Guiné para um exílio, ela começou a catapultar os seus sonhos enquanto o Albano mudava de personalidade. Nesses momentos de culpa, e ouvi as suas confissões sentidas, nesses momentos, a voz, sempre quente e rouca, passava a ser um fio quase inaudível, as mãos batiam na mesa como se batesse em si própria, em autoflagelação.

Ela terminava sempre essas declarações de culpa: “Comigo foi diferente, arrumei definitivamente a Guiné a um canto, não estava disposta a ser motivo de troça dos outros, ouviam-me como se eu estivesse a contar histórias da Carochinha, a Guiné ficou reduzida à escultura, à panaria, aos desenhos e gravuras à nossa volta, aos livros, às visitas dos estudiosos que continuaram a procurar-nos.

Não me esqueço do que ela me disse um dia: «Com a guerra, a partir de 1963, fechei os olhos àquela tragédia, era o Albano que me dava conta do que se passava, lia os comunicados, eu não comentava nada, não queria reabrir feridas, bastava-me a saudade de amigos queridos, como o Omaia, o Trintão, o Ocante, os amigos de Bissau, Varela e Ziguinchor. Aprendi muito com a morte do meu pai, irei aprender mais com a doença do Albano, as trágicas revelações e a hecatombe da D. Eva. Quando perdemos afectos muito grandes, devemos tirar a lição e prosseguir sem rancores nem azedumes. Olhe para as minhas mãos, olhe para as minhas pernas, recordo-lhe as minhas doenças, temos que continuar, temos que ter um projecto até ao último dia de vida, vir da Guiné como vim ensinou-me que a vida deve continuar, nem que tenhamos que andar de rastos”.

Mais recordações da Benedita (décimo quarto trabalho de casa)

Coisa curiosa, é a primeira vez desde que vim da Guiné que sou capaz de reconstituir a minha vida como militar à força em S. Domingos. Fizemos uma messe lá em casa, para militares e civis, sentávamo-nos, o Albano e eu, um capitão, um tenente e um alferes, mais dois secretários. Os outros alferes comiam na casa da alfândega, onde tínhamos estado a tratar dos feridos na noite do ataque. Chocava-me o facto de o capitão não ficar à noite em S. Domingos, ia todos os dias dormir a Bula, senti uma vontade enorme de lhe perguntar se um oficial, ainda por cima o comandante daquela tropa, devia desaparecer ao fim da tarde. Mas refreei-me, sabia que ia arranjar uma discussão que traria amargos de boca ao Albano, tínhamos que estar juntos, a tropa e nós, o espectro da guerra era inevitável.

O Mário pediu-me que coligisse todas as recordações deste tempo. Estou admirada com as coisas que recordo daquele tempo tão incómodo, a nossa vida devassada por aquela atmosfera de quartel. Uma vez entrei na cozinha para ver se tudo estava a correr bem. Vi o maqueiro a lavar as seringas no lava-loiça depois de ter vacinado os soldados, lavava as seringas descuidadamente, espirrava tudo para cima da carne já confeccionada. Não tínhamos carne há 8 dias, não tínhamos outro almoço, calei-me, não sei como dei comigo a comer aquela carne sem nenhum protesto, mas com o estômago às voltas. Felizmente, ninguém morreu.

No outro dia, a mexer numa gaveta, encontrei uma fotografia do Natal de 61. Comovi-me muito. Com os alunos da escola, preparei enfeites, fizemos festões de papel, arranjou-se um altar, decorou-se com musgo, trouxe as minhas figurinhas do presépio. Esperámos pelo padre toda a tarde, ninguém arredou pé, ele acabou por aparecer já passava das 8 horas, não estava em condições de celebrar missa. Digo com a maior das mágoas, naquela terra havia poucos padres de qualidade. Enquanto cristã, a minha decepção foi imensa.

Pois nessa noite de Natal comemos os três sozinhos, o Albano, o secretário e eu, lá fora sentia-se que havia muito ruído na zona do aquartelamento, o Albano foi ver, regressou preocupado, estava tudo a embebedar-se. O Albano decidiu que não era aconselhável ir para a cama, ninguém estava em condições de combater. Foi assim que passámos a noite de Natal. Só consegui conciliar o sono ao amanhecer. No dia de Natal os alferes vieram pedir desculpa. Não acho graça nenhuma a estas recordações, sinto-me bastante humilhada com esta experiência.

O adeus à Guiné

Estávamos a viver tempos muito confusos. A PIDE começava a prender gente que tinha trabalhado com o Albano, eram prisões arbitrárias, ninguém sabia a origem das denúncias, o Albano protestava, os agentes da PIDE recusavam-se a dar explicações. Com as relações cortadas entre o Senegal e Portugal, não podíamos ver os nossos amigos franceses. Mas Hugues Lemaire pediu autorização às autoridades de Ziguinchor para nos visitar em S. Domingos. Veio com Joseph Chrétien, um farmacêutico, trouxeram lembranças de todos, foi um dia memorável. Anunciaram que em Ziguinchor as coisas estavam mais calmas, mas sabia-se que havia campos de treino para preparar mais guerrilheiros.

Nunca mais esqueço a história que nos contou o Joseph Chrétien. O guarda da alfândega tinha 4 mulheres e muitos filhos e tinha uma dívida muito grande na farmácia. O Chrétien falou com ele: “Queres que te perdoe a conta? Então deixa-me passar a fronteira para eu ir ver os meus amigos de S. Domingos”. O guarda aceitou a proposta. O Chrétien encheu o carro com comida francesa e trouxe-nos um carregamento muito valioso. Não se esqueceu até das revistas que eu gostava, Hugues Lemaire trazia livros e chocolates. Recebi tudo, reprimi a emoção. Depois desta visita seguiram-se outras. As notícias que chegavam do Senegal eram preocupantes quanto ao prelúdio da guerra mas, por outro lado, os amigos de Ziguinchor diziam-nos que Senghor e os outros políticos de Dakar queriam chegar a um entendimento com Salazar.

Quero voltar aos acontecimentos do Natal de 61. O Movimento Nacional Feminino enviou para cada um dos militares um pacote de cigarros, uma caixa de fósforos, uma bisnaga pequena de pasta Couraça, uma escova de dentes, também pequena, uma garrafinha de vinho do Porto, um pacote de bolachas e jornais, muitos jornais. Também recebi uma destas lembranças, nunca tinha tido tantos jornais ao mesmo tempo. Não vamos perder muito mais tempo com o que se passou naquele Natal, digo só para si que os soldados se embebedaram, cantaram as cantigas mais obscenas até caírem de cansaço. Não quero falar em nomes, fui obrigada a conviver com aquela tropa, jurei a mim própria que nunca mais voltaria a fazer serviço militar...

Em Bissau, em Janeiro, os médicos disseram ao Albano que ele tinha tendência para formar cálculo renal, recomendaram-lhe que viesse até às termas. Como se fosse hoje, lembro-me do serão que fizemos em casa da Ivone Leal, nessa noite. Pela primeira vez, e sem qualquer hesitação, o Albano mostrou intenção de abandonar definitivamente a administração colonial. Ainda lhe perguntei porque é que não havíamos de pensar em Cabo Verde ou S. Tomé e Príncipe. Ele foi muito claro: “Vim para a Guiné à procura de profissão, ganhei-lhe devoção. É um amor que não se troca de ânimo leve. Prefiro fechar o livro”.

Tínhamos pouco dinheiro, aquele mês em Bissau arrastou-se, foi um tempo lodoso. Seja como for, com as malas feitas, todas as noites andámos de casa em casa, em jantares de despedida. O louvor dado pelo Governador encheu o Albano de orgulho. Os colegas ofereceram-lhe uma salva de prata, está ali exposta na sala de jantar.

E, em Julho de 1962, partimos. Eu não estava triste, mas senti perfeitamente a grande mágoa do Albano, o modo como ele arrumava no coração e na bagagem as lembranças dos colegas e dos amigos, as fotografias que então tirou, as visitas ao Centro de Estudos da Guiné Portuguesa e ao Museu, mesmo ao lado. Acompanhei-o numa dessas visitas, ele parou junto de uma escultura, falou-me dela, mais à frente vimos os instrumentos de caça dos Felupes. Sem esconder a emoção, ele falou-me de Bolor, Bunhaque e Bufá, povoações que ele gostava de frequentar para estudar arquitectura e o tipo de habitação Felupe, fora nessas tabancas que comprara aqueles arcos e azagaias. Vi-lhe os olhos marejados de lágrimas, disse-me baixinho: “Sei que não voltarei mais à terra dos Felupes, e tenho pena”.


Guiné > Ilha de Pecixe > Vaqueiras manjacas > Postal ilustrado (pormenor) > Série de postais ilustrados do tempo da Guiné Portuguesa > S/d nem editor ... Colecção de postais do nosso amigo e camarada José Casimiro Carvalho (ex-Fur Mil Op Esp, CCAV 8350, Guileje, Cacine, Gadamael e Paunca, 1973/74)...

Os postais, acho que ele os coleccionava para mandar, com muitas ternura, ao seu velhote, no Porto... Esta série de postais, relativamente ousados para a época (tema: bajudas de mama firme...)., revelavam uma visão... excêntrica e etnocêntrica da Guiné dita portuguesa, típica do Estado colonizador e dos seus agentes (LG).

Foto: © José Casimiro Carvalho (2006). Direitos reservados.




Décimo quinto solilóquio

Celebramos hoje o nosso Natal, não se consegue ver Colares, estamos cercados por uma neblina cerrada, um reposteiro de vapor. A Benedita está claramente nostálgica. Assim que bati à porta, avançou determinada, avisou-me com aquela sua voz quente e rouca: “É tudo mentira que tenha posto a Guiné atrás das costas, não se pode pôr a pedra no assunto depois de dez anos de convivência diária. Esta noite não preguei olho com dores, andei a remexer em papéis e depois peguei naquele livro que me deixou cá sobre os postais antigos da Guiné. Hoje, já que estamos a arrumar o assunto do fim da comissão do Albano, quero dar-lhe conta da Guiné que guardo no coração”.

Tirei logo o livro de apontamentos, mas não foi fácil seguir-lhe o raciocínio, a Benedita está eufórica, abriu o álbum dos postais antigos, olha para o edifício da Casa Gouveia, em Bissau, e diz: “É por aquela porta que entrava, ao fundo do lado direito comprava chá e café, passava duas portas e tinha as especiarias, no primeiro andar, onde se está a ver esta janela, era a retrosaria e as linhas para a máquina de costura”.

Depois apontou para o cais do Pidgiquiti e observou que a ponte-cais do seu tempo era a como vem no postal da Foto Serra, de 1955. Continuando a folhear o álbum, aponta para a Rua Oliveira Salazar e volta a falar em lojas de comércio. Lembra-se do Grande Hotel mas as fotografias do interior, no postal datado de 1968, não lhe dizem praticamente nada. Recorda a fanfarra à porta do Palácio do Governador, folheamos depois o álbum e pára a contemplar demoradamente um caçador Felupe, com o seu arco tenso, o caçador com um estranho bracelete de inúmeros aros no braço esquerdo. Depois uma vaqueira Manjaca em Pecixe, olha também demoradamente e comenta: “Meu Deus, podia ter sido eu a tirar esta fotografia!”.

Durante o almoço, talvez recordada da longa oração proferida pelo Albano em casa da Ivone Leal, a Benedita lança-se na sua narrativa, começa nas doenças, recorda a doença do sono, a seguir fala do estado das estradas, depois descreve a residência dos chefes de posto, salta para a cultura do arroz, é um discurso sem folgas nem recuos, parece que esteve a ler a história da Guiné do princípio ao fim, lembra-se muito bem das obras públicas, das árvores de fruto, dos recursos florestais, dos grupos étnicos, como se eu fosse um estranho ou a estivesse a ouvir pela primeira vez, recorda-me que Bissorã é uma vila do chão dos Balantas, refere os curandeiros, as superstições, os habilidosos e imaginativos trabalhos em couro, levanta-se e vai-me buscar almofadas em couro policromado, prefiro ir escrevendo sem nenhum comentário, rendo-me ao seu entusiasmo, passaram-se estas décadas e as lembranças vêm facilmente à superfície, é um discurso tão sincero e ardoroso que até paro de escrever quando ela me começa a falar do tear guineense, com os seus quatro prumos de madeira enterrados no chão, a Benedita foi mesmo buscar um pano Manjaco, mostra-me as bandas de 20 centímetros de largura, são 6 bandas cozidas que fazem um pano, quando me preparo para escrever ela grita para me prender completamente a atenção, sou o espectador de uma estranha tirada teatral, ela fala e gesticula, a banda é tecida, vai sendo enrolada numa travessa de madeira, há mesmo um dispositivo de prisão para que os liços mantenham a teia tensa. Os liços sobem e descem, de acordo com os impulsos do artífice, é este movimento alternado que facilita a passagem da lançadeira, assim se estende a trama, e o pente, graças às puas que passam os fios da teia, aconchega os fios da trama.

A Benedita não pára de exemplificar, percorre agilmente a sala de jantar dum lado ao outro, os liços separam os fios, explica como é que tecelões tingem as bandas de cor brancas ou creme, fico a saber que os tecelões também são tintureiros. A Benedita vê que eu estou perplexo, afinal a mulher do administrador que se dizia tão arredada daqueles saberes nativos, viu, assimilou e admirou. Como se estivesse a concluir a sua tirada teatral, atirou-me um olhar divertido, está a explorar o factor -surpresa e diz-me: “Tenho lá em cima as esculturas Bijagós para ver. A minha prenda de Natal para si é um Ninte-Kamatchol, é a mais linda escultura da minha colecção. Andei-lhe a mentir este tempo todo, a Guiné é um mundo pleno de culturas, graças ao Albano aprendi a respeitar e mais tarde aprendi a amar. Menti-lhe sempre, até descobrir que o Mário podia ser o meu maior cúmplice neste amor à Guiné».

Mais recordações da Benedita (décimo quinto trabalho de casa)

O que me deu hoje para recordar dez anos de Guiné? Tinha prometido ao Mário e a mim mesma não voltar mais à Guiné, chegámos em 1962 a Lisboa, era tempo de descansar, de estar com as nossas famílias, a decisão do Albano estava tomada, iríamos refazer a nossas vidas, não sabíamos como nem onde, inicialmente pensámos na linha do Estoril, o Toninho estava na Parede, fomos então de férias para Matosinhos, Vila do Conde, Póvoa de Varzim, o Albano procurou um grande amigo da juventude, o Adérito Miranda, falou-se num trabalho de rações, estávamos na Foz do Douro em casa da irmão do Albano quando ele teve o primeiro enfarte. Exactamente quando eu estava a juntar estas notas abri um envelope e apareceram-me fotografias de um casamento Manjaco, encontrei uma folha que escrevi na época, estava completamente esquecida. Diz o seguinte: “Na sociedade Manjaca promete-se o casamento de uma filha a um amigo ou um familiar que nos ajuda nos trabalhos agrícolas. Tu trabalhas para mim, eu depois dar-te-ei a minha filha. Quando casavam, a filha, acompanhada pelos familiares, é levada até à família do noivo. As raparigas têm namoricos mas não podem engravidar (se engravidarem, têm que ir para o prometido marido). As Manjacas conhecem as plantas abortivas na perfeição. A libertinagem é praticamente total. Quando chega a altura de irem para o marido, este já preparou uma nova morança e traçou um risco na porta, símbolo de uma nova vida. Convida-se toda a população da tabanca para assistirem ao casamento. Diante da população e frente ao risco traçado na porta, a noiva faz a confissão pública de todos os homens com quem andou. Depois passa o risco, a partir daquele momento nunca mais pode ser infiel ao seu marido”.

Seleccionei alguns panos Manjacos para mostrar ao Mário esta bela panaria, infelizmente quase desconhecida em Portugal, continuo a não perceber como é que o belo artesanato guineense não circula nas nossas lojas.

Surpresa, encontrei noutro subscrito fotografias de noivos Bijagós. Tenho pena de nunca ter ido ao arquipélago dos Bijagós, ele foram sempre muito ciosos da sua autonomia, disse-me o Albano que só nos anos 30 é que o arquipélago foi pacificado. Nos Bijagós prevalece o matriarcado: quando a mulher se fartava do marido, punha todos os seus haveres pessoais num pano, fazia uma trouxa com quatro nós e punha-a à porta. Quando o marido chegava a casa, olhando a trouxa ficava a conhecer a sua sorte. Tive muita dificuldade em acreditar que assim era.

Vejo agora a grande emoção destas reminiscências. Foi muito bom ter voltado à Guiné, voltei a percorrer lalas e savanas, a contemplar uma ponte que não servia para coisa nenhuma, vivi numa casa imponente no Gabu, à beira do fim do mundo, atravessei rias de canoa, ensinei cozinha, aprendi a ser professora, descobri a minha esterilidade, assisti ao início de uma guerra, mal sabia eu como aquela guerra ia mudar a história de Portugal.

Prometo a mim própria não voltar a mentir desta maneira. Posso ter sofrido muito nestas terras entre o trópico de Câncer e o Equador. Mas foi nestas terras rasgadas por rios e rias, cheias de vegetação, com mangais e poilões, onde todos os dias se tem o sentimento que estamos a viver dentro da Criação, que verdadeiramente me fiz mulher. Não acredito que tivesse tido sucesso na D. Eva sem o teste da Guiné, sem a dedicação do Albano, sem a aprendizagem de que com pouco se pode fazer muito.

[ Fixação / revisão de texto / título: L.G.]

____________

Nota de L.G.:

(*) Vd. último poste > 16 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5825: Pré-publicação de Mulher Grande, de Mário Beja Santos (5): São Domingos, 21 de Julho de 1961: É o princípio do fim, Benedita

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Guiné 63/74 - P5825: Pré-publicação de Mulher Grande, de Mário Beja Santos (5): São Domingos, 21 de Julho de 1961: É o princípio do fim, Benedita

Guiné > Bolama >  Agosto de 1935 > "Guarda do Palácio do Governador. Foto de Manuel Emídio da Silva, no âmbito do 1º Cruzeiro de Férias às Colónias de Cabo Verde, Guiné, S. Tomé e Princípe e Angola, uma inciativa da revista O Mundo Português,  que juntou cerca de duas centenas de "estudantes, professores, médicos, engenheiros, advogados, artistas, escritores, industriais e comeriantes"... O Director Cultural do Cruzeiro foi o Dr. Marcelo Caetano.  Esta "revista de cultura e propaganda, arte e literatura coloniais", era dirigida pro Augusto Cunha, sendo propriedade da Agência Geral das Colónias e do Secretariado da Propaganda Nacional.




Guiné > Bolama > Agosto de 1935 > A chegada do vapor Moçambique, com os participantes do 1º Cruzeiro dee Férias às Colónias.


Fonte: O Mundo Português, Vol II, nºs 21-22, Setembro-Outubro de 1935 (Exemplar oferecido ao nosso blogue por Mário Beja Santos; fotos digitalizadas e editadas por L.G.; reproduzidas com a devida vénia).



1. Pré-publicação de excertos do próximo livro do nosso amigo e camarada Mário Beja Santos, Mulher Grande. Trata-se da terceira parte do Capº III(*):



Mulher Grande > III > A Guiné em chamas ou o “Tubabo Tiló”
por Mário Beja Santos




[III. 5]  Décimo terceiro solilóquio

Sinto-me um pouco mal com tantas interrupções que introduzo na narrativa da Benedita (**). Caí na asneira de lhe dizer que os poucos relatos que encontrei na Net são discordantes quanto ao número de feridos, até mesmo quanto à natureza dos estragos daquele ataque. Ficou furiosa, como se todos os outros pudessem duvidar da tragédia daquela noite e das suas implicações. Devem ter sido noites horríveis. É nestas descrições que eu mais aprecio o seu fio de memória, como narra os acontecimentos que a mais afectaram, a descrição que faz sobre a luz apagada à noite, o desaparecimento das pessoas, a chegada de uma tropa que vinha pouco convencida da possibilidade de um ataque.

O Albano procurava sacudir a pressão bebendo uísque, fumando e trabalhando naquelas questões da habitação que tanto o interessava. A Benedita também não esqueceu que acabou por ser influenciada pelos interesses do Albano e deu consigo a ler um calhamaço intitulado “A habitação indígena na Guiné Portuguesa” que lhe fora oferecido por um colega do Albano, Amadeu Nogueira. É preciso estar à beira de uma guerra, disse-me ela em tom trocista, para ler atentamente coisas como a casa dos Felupes e Baiotes, considerados em S. Domingos como os melhores construtores de casas em taipa, trabalhando para outras etnias como verdadeiros construtores.

A Benedita mostra-me uns papéis desbotados onde ela transcreveu o que lhe pareceu mais relevante. Leio o seguinte: as casas rectangulares são mais frequentes; a cobertura de todas as casas é feita sempre com palha; todas as casas possuem a sua varanda, cuja largura varia entre 1,50 e 2 metros, mas só na traseira; serve de sala de jantar para a mulher, de cozinha e de depósito de lenha; é aqui que se encontram os cachos de chabéu, cujo óleo há-de condimentar o arroz; a casa de Felupes e Baiotes dura uma vida e é demolida quando o seu proprietário morre; algumas casas apresentam exteriormente pinturas murais, geralmente zoomórficas e a tinta preta.

Estas palhotas têm portas fabricadas de uma só peça, geralmente em madeira de poilão, com 60 cm de largura, sendo sinal de grande desconsideração arrancá-las, indicando que os restantes elementos da povoação pretendem expulsar o proprietário; as janelas, quando as há, são pequenos rectângulos de cerca de 40 cm de cumprimento por 20 cm de largura, defendidos por pau de grossura de uma polegada; a iluminação é dada pela lenha que acendem no chão; o mobiliário reduz-se a uma cama que existe em cada quarto dos adultos, é nestes quartos que se podem encontrar bancos conhecidos por tripeças; as prateleiras são orifícios cavados, de cerca de 60 cm de cumprimento.

É espantoso como o ser humano descarrega a sua tensão transcrevendo num papel as suas impressões sobre as casas dos Felupes e dos Banhuns que ele vê todos os dias!

Interrompo a leitura destas folhas descoloridas para perguntar à Benedita se antes deste tiroteio de madrugada não houvera quaisquer outros sinais de agressão. Ela respondeu-me que sim, tinha havido uma tentativa de incendiar pontões entre S. Domingos e Bissau (havia 18). Tinha-se descoberto uma tentativa de incêndio de 2 pontões só que a chuva apagou o fogo.

Quando olhei, surpreso, a Benedita ela disse-me com a maior das naturalidades: “Não se esqueça que estávamos em Julho, naquela região Norte chove intensamente nesse tempo. Aproveitou para me recordar que havia uma grande lealdade das populações de S. Domingos com o Albano, ele era querido por todos, os seus próprios colaboradores da administração encarregavam-se de divulgar como ele era incorrupto, incapaz de uma maldade ou brutalidade.

Depois da sua vinda de Ziguinchor, onde assistiu à manifestação contra a política colonial portuguesa, o Albano reuniu-se com as famílias dos chamados civilizados, a todos contou que estava iminente um ataque. Reuniu também com a secção da tropa branca que fora mandada apresentar-se em S. Domingos depois do incêndio dos 2 pontões. A Benedita não recorda o nome de ninguém, lembra-se que havia um Alferes, que a tropa dizia muitos palavrões, era muito ruidosa, levantou muitos problemas no contacto com a população civil. Não resisto, peço-lhe todos os pormenores daquela noite do ataque, a noite que anunciou o princípio das hostilidades na Guiné.


Mais recordações da Benedita (décimo terceiro trabalho de casa)

Há 3 meses atrás, o assunto da Guiné era para mim um dossiê completamente arrumado, não me passaria pela cabeça partilhar com quem quer que fosse recordações tão queridas, íntimas e intensas, como o dia do meu casamento, o prazer que tive em viver em Bissorã, a admiração progressiva que fui ganhando ao Albano, ele foi um funcionário colonial exemplar, também considerava que era tabu o que eu vi em brutalidade no tratamento dos nativos.

Aprendi muito quando voltei a Lisboa, em 1963, apercebi-me que as pessoas só me ouviam porque tudo era exótico, mas era-lhes indiferente o modo como os guineenses viviam, a sua cultura, os seus costumes. Nunca me atrevi a contar a ninguém os comentários dos soldados brancos em S. Domingos, referindo-se àquelas gentes como se fossem uns atrasados.

Admiradora que sou da obra de Salazar, naquele tempo comecei a perceber que a revolta que veio depois tinha a ver com a necessidade de justiça e mais bem-estar. Tive o privilégio de conviver com Amílcar Cabral, era um homem de cultura superior, conhecia a literatura portuguesa como eu não conhecia, houve um serão em que falou de José Régio e de Miguel Torga, fiquei impressionada com os seus conhecimentos, a sua estatura moral.

Continuo indecisa acerca da utilidade deste relato. Eu fechei o dossiê da Guiné, é-me indiferente que tenha sido a FLING ou o PAIGC a atacar S. Domingos. Nunca tinha sentido qualquer tensão, qualquer comentário hostil à nossa presença na Guiné. É claro que vi muitos maus-tratos, havia claramente racismo, julguei que fosse tudo uma questão de tempo, a nova geração de brancos viria com outros sentimentos e certamente com muito mais amor cristão. O Albano e tantos outros funcionários exaltavam o trabalho do comandante Sarmento Rodrigues que eles consideravam o grande Governador da Guiné do século XX. Só vim a conhecer o Sarmento Rodrigues quando o Albano teve o primeiro ataque de coração e ele nos veio imprevistamente visitar. Fiquei com a noção de que se tratava de um homem superior, uma alma de eleição e que merecia os elogios do Albano.

Perdi todas as minhas memórias daquele tempo, os cadernos, os livros, as fotografias, tudo desapareceu. É a minha memória que esvoaça numa tremenda escuridão. Aquela noite do ataque alterou tudo, sobretudo o Albano tornou-se noutra pessoa, irei ouvi-lo vezes sem conta: “É o princípio do fim, Benedita, não tenho coragem de mudar de profissão, já me ofereceram lugares em Angola e S. Tomé, cheguei aqui imberbe, aprendi línguas, todos os rudimentos da administração colonial desde a tarimba, conheci homens muito estudiosos da mesma maneira que convivi com exploradores miseráveis, alguma da gente mais sórdida que há ao cimo da Terra. Não sei o que é que vou fazer deste amor que tenho pela Guiné. Talvez o melhor seja refazer a nossa vida na Europa”.

A doença acelerou esta previsão amarga. Em 1963, regressámos de armas e bagagens, o Albano doentíssimo, eu sem saber se não era necessário trabalhar, sabíamos que a pensão dele iria ser baixíssima. De 1961 a 1963, vi todos os dias o Albano, amargurado, a despedir-se da Guiné, a obra da sua vida.

E começa o ataque!
Não sei se já lhe disse, eu recusei partir com os civilizados, pedi mesmo ao Albano que a tropa branca recém-chegada ficasse a viver na administração, ficaram aquartelados em instalações improvisadas e combinou-se que, no caso de um ataque ao edifício da administração, nós iríamos pedir a protecção a esta tropa. Tínhamos 2 pistolas e havia na administração umas armas do tempo da 1ª Guerra, umas armas de repetição que já ninguém utilizava. Penso que foi na tarde de 20 de Julho que chegaram 2 funcionários para fazer o recenseamento, mas que logo ficaram contagiados pela grande tensão que havia entre nós. Mal sabiam eles o que os esperava!

Recordo que cerca de um mês antes do ataque tinha lá estado um dos administradores da Casa Gouveia, um tal engenheiro Norberto Velez, que olhou para as nossas coisas, os nossos haveres na casa e fez o seguinte reparo: “ Vocês não podem ter todos estes objectos à mostra, pode ser mais uma razão para eles vos assaltarem e esquartejarem!”. O Albano replicou que não queria mostrar medo, não aceitava mexer em nada. Mas, tempos depois da partida deste engenheiro Velez, ele reconsiderou e enviou encaixotados muitos dos nossos objectos pessoais para Bissau. Então, senti uma grande angústia. Fiquei despojada de muitos dos meus objectos, que me faziam tanta companhia, sentia-me praticamente uma reclusa.

Bom, vou voltar ao princípio do ataque, escusa de voltar a perguntar quem era o grupo, quem estava por detrás deles, eu não sabia, ninguém me deu informações, em Bissau, como verá mais adiante, ninguém me falou nessa FLING, falavam sempre em terroristas.

O Albano tinha combinado connosco como se iria organizar a defesa, cada um de nós tinha sempre a roupa à mão, a arma ao pé. O Albano não aceitava as instruções dos militares, isto é, de irmos a correr até ao aquartelamento deles, logo que começasse o tiroteio. Dizia-me frequentemente: “Estão doidos, fazem contas de cabeça, julgam que isto é aritmética, imaginam um pequeno grupo de selvagens, mal equipados e armados a dar uns tirinhos, quem sabe se não aparece aí um grupo bem armado que nos vai dizimar ou esquartejar. Não, Benedita, nós iremos a correr para o mato, conheço tudo como as minhas próprias mãos, ali não nos apanham”.

Eu ouvia isto tudo e estremecia, a pensar nas cobras e andar aos tropeções dentro da mata, a imaginar uma perseguição e ser morta à catanada. Mas eu confiava absolutamente no Albano e não me atrevia a pôr objecções. Então, pelas 2 da manhã, mais ou menos ouvi o primeiro tiro, partiu da mata em direcção à nossa casa, o Albano deu o grito: “Eles aqui estão!”, eu sei que isto não tem pés nem cabeça mas senti uma sensação de alívio, fomos todos até à varanda, de pistola em punho, quando digo nós incluo todo o pessoal da administração.

Continuo sem saber os termos militares, só posso contar aquilo que vivi, com os meus conhecimentos. Eles atiravam da mata para casa, senti as balas perfurar as paredes, a partir as telhas, a desfazer os vidros. Eu olhava na varanda a saída do fogo, o Albano ordenou que devíamos ir para a casa da alfândega, ali, como só havia uma varanda à frente, era mais fácil responder ao fogo deles. Um dos funcionários da administração gritou que estava ferido, caiu no chão. Juro-lhe que eu estava muito calma, o homem parecia desmaiado, tirámos-lhe as calças, estava bastante ferido numa das virilhas, fora um puro acidente, a pistola dispara-se quando ele escorregara. Alguém lhe deu uma injecção de morfina, lá o arrastámos para a casa da alfândega. Como não havia fogo sobre a casa da alfândega, procurámos ir até ao aquartelamento e aí disseram-nos que já havia 5 feridos. É nisto que damos conta que as luzes ali estavam todas acesas, foram então apagadas e começámos a transportar os feridos para este edifício onde o enfermeiro tinha mais meios.

Não sei quanto tempo depois voltou o silêncio total, tinham acabado os tiros. O Albano sentou-se a uma secretária e escreveu um relatório e disse-me: “Benedita, não sei se estou a proceder bem, peço-lhe que leve esta carta a Bissau, ao amanhecer tenho que dirigir a evacuação das mulheres e das crianças, vai com uma escolta militar, fico à espera que mandem mais reforços, ninguém pode adivinhar quando será o próximo ataque”.

Sentia-me embrutecida e distante, eu tinha uma outra ferida, muitíssimo profunda, não sei com que coragem lhe vou agora contar o que me atormentava. Durante aquele tempo que precedeu ao ataque, todas as noites ouvíamos a rádio Dakar, era ali que se referia sem nenhuma discrição que em breve as povoações com colonialistas, junto à fronteira com o Senegal, iam ser atacadas.

Uma noite ouvi mesmo dizer que onde o Albano estivesse (nunca referiram S. Domingos, só falaram no nome dele) eles fariam o menor número possível de mortos porque ele tinha sido sempre humano para os africanos. Uma noite fiquei gelada quando eles disseram num francês impecável: “Lembra-te Albano Toscano que já tiveste filhos africanos!”. Não foi uma sensação de traição que eu senti, o Albano tinha-me dito que não havia outra mulher na sua vida, o que eu verdadeiramente senti é que devia ter partilhado aquela informação, não era agora que ia perguntar ao meu marido se ele tinha filhos de outras mulheres, se estavam vivos ou mortos, aquela omissão recebi-a como uma bofetada, não era agora que eu ia perguntar ao meu marido se era verdade ou se era mentira, ele estava ao meu lado a ouvir a rádio Dakar, fez que não ouviu, senti-me maltratada, eu merecia uma explicação.

Sentia-me aturdida, aceitei partir para Bissau, vi à minha volta toda a gente a trabalhar, o Albano a içar a bandeira portuguesa e depois a liderar os preparativos para que todas as mulheres e crianças fossem retiradas de S. Domingos, nem todas aceitaram partir, mas muita gente foi de barco para Cacheu. Da janela do edifício da administração assisti àquela debandada., todos partiam com os olhos postos no chão.

Ao amanhecer, uma avioneta veio-me buscar, parti cheia de sofrimento, deixando ali o Albano, não tenho a menor recordação daquela viagem, só sei que quando cheguei a Bissalanca desmaiei. Lá me recuperei e segui para o Palácio do Governador. Acompanhada pelo comandante militar, fui prontamente recebida pelo Governador (****), leram os dois o relatório do Albano, disse-lhes que ele pedia sacos para fazer barreiras de protecção, tinha extrema necessidade de enfermeiros e, se possível, pedia mais reforços. É nisto que o governador me pergunta: “Onde é que a senhora quer que eu vá arranjar estes sacos?”. Respondi-lhe: “Não tem dificuldade, basta chamar o Turco, aquele comerciante que trabalha com o Pintosinho, ele vai falar com os arrozeiros, é um instante enquanto se arranjam os sacos, depois em S. Domingos é só enchê-los”.

Nesse mesmo dia, as autoridades enviaram para S. Domingos um pelotão para reforço daquele contingente que ficara tão combalido com o ataque da madrugada. Não me recordo bem, já disse várias vezes que todos estes papéis se perderam nas malas que vieram de S. Domingos para Bissau e que desapareceram sem deixar rasto, mas o Albano enviara no seu relatório a informação de que os atacantes só tinham utilizado armas de repetição entre as 2 e as 6.30 da manhã, hora em que tudo acabou.

Ah, espere, temos que voltar aos sacos. Depois de uma grande correria, lá se encontraram sacos, cerca de 600, e o Governador perguntou aos comerciantes como é que eles iam fazer chegar os sacos a S. Domingos. Eu estava com a cabeça tonta, meio adormecida, sedada por um tranquilizante que me tinham dado, olhava para aquilo tudo e perguntava-me qual a capacidade de resposta daqueles políticos perante uma emergência, se não eram capazes de encontrar uma solução apropriada para enviar 600 sacos vazios para S. Domingos.

Fiquei em casa da Ivone Leal, mulher de um advogado, lembro-me que dormi muito mal, foi um sono sobressaltado, sempre a pensar num próximo ataque, e eu longe do Albano., numa atmosfera de segurança. Na manhã seguinte, alugou-se uma avioneta que foi a S. Domingos levar mantimentos e os sacos, o Turco esteve a conversar uma hora com o Albano, as notícias que trouxe eram tranquilizadoras, tinha-lhe chegado informação que as dezenas de atacantes regressaram à região de Kolda.

Nessa noite voltei ao palácio do Governador onde me foi anunciado que este decidira que eu durante um mês não voltaria a S. Domingos, a justificação era que tinha a casa cheia de tropa. Só espero até morrer não voltar a viver um tempo de tanta ansiedade como aquele, a Ivone Leal e marido, os Nobre Lemos e outros casais tudo fizeram para eu me sentir bem, deram-me amparo e carinho, serenaram-me como puderam. Felizmente que o Governador dera ordens para que sempre que uma avioneta fosse a S. Domingos me levasse e trouxesse. Não imagina as peripécias que eu vivi! Oiça algumas.

Houve um piloto aviador que me deu uma palmada nas costas, em pleno aeroporto e à vista de toda a gente, eram um miúdo simpático, tratava-me por mana e bonitona, eu não sabia se me havia de rir ou zangar. Uma vez um outro piloto largou-me no Ingoré, disse-me que tinha de ir levar correio a Camamudo, vim numa carripana velha até S. Domingos, apareceu-me na estrada o Albano, afogueado, com uma escolta militar, o louco do piloto enviara uma mensagem a dizer que vira grupos estranhos à saída de Ingoré, talvez fossem salteadores, o melhor era protegerem-me. Na segunda visita ao Albano apercebi-me de grandes mudanças, as famílias brancas e até as de comerciantes mestiços consideravam o ataque a S. Domingos como o princípio da insurreição, anunciavam que iam partir, não queriam ser mortos à catanada.

Desculpe-me, começo agora a ter consciência que este relato é confuso, estou a misturar coisas, até escrevi aqui no meu caderno: “Dizer ao Mário que ao lado do nosso quarto, em S. Domingos, estavam 10 soldados e o rádio das transmissões. Quando voltei, estive quase um mês sem dormir a ouvir aquele besoiro, era uma gritaria em que o soldado no quarto ao lado usava uma linguagem codificada que me dava vontade de rir”.

Também escrevi no meu caderno: “Na mesma noite que os guerrilheiros atacaram S. Domingos igualmente flagelaram Suzana e o Albano mandou chamar o chefe de posto para S. Domingos, ele ficou aqui mas a mulher foi para Cacheu. Varela foi atacada mais duramente cerca de um mês depois, a bonita estância turística ficou completamente desmantelada, as casas turísticas desapareceram”. Agora peço-lhe que paremos, não pode imaginar a comoção que tive quando voltei a Varela e vi desaparecidos objectos pessoais que tinham para mim elevadíssimo valor estimativo. Quando vemos a nossa casa em derrocada, sentimos uma devassa incontrolável ao nosso património, ao mais nosso íntimo do nosso ser.


Décimo quarto solilóquio


Há qualquer coisa de patético neste funcionário colonial cujos avisos são ignorados em Bissau, impotente e talvez resignado com a incapacidade de resposta dos políticos, indiferentes à insurreição iminente. No último almoço, a Benedita contou-me que o Albano tivera a informação de que Varela iria ser destruída, nessa altura ela já tinha regressado a S. Domingos. Com o zelo de sempre, ele apelara para que houvesse movimentação de tropas para Varela, não houve, aquela linda praia que dispunha de um casario moderno ficou irreconhecível depois da depredação dos assaltantes.

Continuo a entusiasmar-me com os relatos da Benedita. As suas viagens da avioneta de Bissau a S. Domingos tiveram momentos delirantes, aquela história de um piloto que queria que ela visse os crocodilos e que baixou o aparelho até quase à linha de água, foi um dos maiores sustos da sua vida; e também aquela história em que viajou com um leitão destinado a S. Domingos, entretanto foi necessário ir a Cacheu de emergência e o funcionário local mal a viu desatou a chorar, agradeceu-lhe a amabilidade de ter trazido um leitão, ela nem teve coragem de lhe contar a verdade...

Nesse almoço com a Benedita também ficou claro que no círculo íntimo do Governador havia também quem, perversamente, insinuasse que o Albano estava feito com os africanos, seria um pro-independentista. Tomei igualmente nota das peripécias vividas em S. Domingos, com a tropa à volta. Por exemplo, estava a Benedita a dar aulas, rebentou um tiroteio, ela atirou-se para debaixo da secretária, afinal era um exercício na carreira de tiro, ninguém a avisara de nada.

Três semanas depois de estar em Bissau, o Governador autorizou que ela voltasse para o pé do Albano. Quando ela ali chegou já S. Domingos vivia um simulacro de estado de sítio, a tropa a circular permanentemente de Bula para cá e de cá para Bula, as ruas rasgadas por trincheiras, o Albano furioso sabendo que aquelas valas iam ficar cheias de água e inúteis, mal surgisse a época das chuvas. Acho que chegou o momento de registar esta coabitação com a tropa, as questiúnculas entre a tropa brancas e os Felupes, o fim das idas a Ziguinchor, quando o Senegal cortou relações com Portugal.




"Jangada no Rio Geba. Passagem entre Bafatá e Contuboel"... Imagem reproduzida  em O Missionário Católico, Boletim mensal dos Colégios das Missões Religiosas Ultramarinas dos Padres Seculares Portugueses, Ano VIII, nº 81, Abril de 1931, p.  169 (Exemplar oferecido ao nosso blogue por Mário Beja Santos). 

Imagem digitalizada e editada por L.G.


Em S. Domingos, à espera de uma guerra que não veio


Tudo mudou quando cheguei a S. Domingos, sabia perfeitamente que o meu idílio com a região acabara. Cercada pela tropa, a viver com a tropa em casa, a ouvir permanentemente os palavrões, com Varela destruída, com as medidas de segurança que nos obrigavam a circular com todas as cautelas, sem poder ir a Ziguinchor, refugiei-me na escola, nos livros, nos arranjos da casa, às vezes com a cabeça à razão de juros com aquele infortúnio, para mim incompreensível. Desforrei-me na cozinha, o Omaia foi dispensado de muitas actividades (é nesta altura, creio eu, que se descobriu que ele tinha lepra, antes de regressar a Portugal ainda o fui visitar à leprosaria, em Cumura), aprendi a fazer compota de caju e, pasme-se, atirei-me à jardinagem.

Eu nunca experimentara viver rodeada de arame farpado, agora estava a acontecer, tinha a tropa em casa, aquela convivência de caserna, os palavrões e o sargento a pedir-me desculpa pelos palavrões dizendo também mais palavrões...Embora isto pareça desusado, digo com toda a convicção que foi a fé que me valeu, eu escorregava naquela falta de valores, via o Albano triste e sobretudo muito doente, estava a sofrer muito de cálculo renal, houve momentos em que desesperei e, Deus me perdoe, cheguei a desejar um novo ataque para sairmos dali.

Pois bem, em Julho de 1962, depois de pedidos insistentes com relatórios médicos a comprovar o débil estado de saúde do Albano, ele recebeu autorização para irmos a Bissau. É precisamente na viagem de S. Domingos para Bissau que ele teve um aperto, saiu aos tombos do carro, ouviu-o dar um grito medonho dentro da mata, fui a correr em seu auxílio, ele disse-me com uma expressão aliviada, quando me aproximei ofegante: “Ai, Benedita, estou muito melhor, o cálculo renal já saiu!”.

Olhando para trás, posso dizer que vivi um tempo muito acinzentado. Depois de termos saído de S. Domingos, constou-nos que mataram um capitão num ataque àquela estrada e que continuaram de vez em quando a tentar destruir os pontões (havia na região de S. Domingos/Ingoré 18 pontões até Bissau como já lhe disse).

Agora apetece-me sorrir e até ser brincalhona no comentário que vou fazer: assentei praça em S. Domingos com a idade major e nem a cabo fui promovida, a recruta era de 3 meses, a minha excedeu um ano e meio.

Quando me vim embora, os soldados da companhia de S. Domingos colectaram-se para me dar um boné camuflado como presente. Até essa lembrança desapareceu naquelas malditas malas que se extraviaram, foi assim que perdi doces recordações.

O Albano fez tratamentos em Bissau, pela primeira vez senti que ele era um homem com o coração irremediavelmente destroçado e com a saúde arrasada e com cada vez menos sonhos. Quando comparo as fotografias que ele me enviou em solteiro, as que tirámos em Bissorã, em Teixeira Pinto ou no Gabu, com aquelas que guardámos dos últimos meses, em Bissau, que diferença! Ainda voltámos a S. Domingos, o Albano foi fazer a entrega oficial da administração ao seu substituto.

A despedida deixou-me debulhada em lágrimas. O aeroporto de S. Domingos, como em tantas outras pequenas localidades, limitava-se a uma pequena faixa de centenas de metros de terreno saibroso para o aterrar e o levantar voo das avionetas. Tínhamos uma multidão à volta da pista, os nossos criados com a tristeza estampada na cara, não sabiam quando voltariam a ver os seus patrões, vários régulos Felupes, Brames, Manjacos, trouxeram as suas numerosas famílias, o Albano e eu tínhamos um cortejo de afilhados com flores e outros presentes, não houve comerciante que não tivesse comparecido para nos ver partir. Guardo na retina aquela avioneta que deslizava aos roncos e os jovens a correr, com grande sorriso, e a saudar-nos entusiasticamente. Não aguentei, chorei muito.

Quero voltar à minha mágoa das malas desaparecidas. Tínhamos malas de porão, ali guardei a nossa roupa e os nossos haveres mais importantes. E foi graças a esta estúpida classificação que metemos em malas ligeiras as fotografias, os documentos, os livros e os mapas. Pedi ao condutor para entregar tudo (eram aí umas 5 ou 6 malas) em casa da Ivone Leal, dois dias depois de chegarmos a Bissau apurámos que as malas não apareciam, procurámos o condutor, ele garantiu a pés juntos que deixara tudo à entrada, ninguém assaltava as casas, naquele tempo. A verdade é que as malas nunca mais voltaram a aparecer, deve ter sido alguém que supôs que andavam por ali pratas e jóias, eu perdi coisas muito importantes para a minha memória, desapareceu a preciosa escultura dos Nalus, os panos Manjacos, os arcos de caça dos Felupes, lindos panos da Gâmbia, desenhos e aguarelas oferecidos por artistas locais.

Olhe à minha volta, está aqui tudo que testemunha o mundo em que nasci, bisavós, avós, pais e o Toninho, veja-me aqui no dia do casamento, ali com o Albano em cima de um hipopótamo morto, em plena ria de Cacheu (sempre lhe chamei ria, o Teixeira da Mota dizia mesmo que a Guiné só tinha um rio, o Geba). Tenho aqui os álbuns organizados, naquelas caixas de sapatos estão as fotografias que entraram nos livros do Albano ou ilustraram os seus artigos, guardo memórias de quase tudo, pode imaginar a falta que me faz o extravio daquelas malas. Felizmente, que muitos dos livros voltaram a ser comprados ou oferecidos, já lhe disse que nos primeiros tempos não me sentia atraída por todas aquelas histórias e por aquela diversidade cultural. Tudo mudou quando fui para o Gabu, agarrei-me aos livros, procurei compreender.

Num dos nossos próximos encontros até lhe queria falar dos artigos que o Albano escreveu no Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, os objectos que ele ofereceu ao museu, este funcionava no edifício do Centro de Estudos da Guiné Portuguesa onde o Mário esteve tantas vezes, como observei na leitura dos seus livros, estudiosos como o Armando Cortesão, o Teixeira da Mota, o Rogado Quintino pediram ao Albano para comprar artesanato, ele comprava e não foram poucas as vezes que comprou com dinheiro do seu bolso objectos que iam para o Museu. Eu sei que sou muito má «aluna», registo caoticamente as minhas lembranças, ando permanentemente para trás e para a frente, mas tomei ainda nota de duas coisas que ainda lhe queria falar, depois paramos, estou muito cansada.

Tenho aqui escrito: jantar no palácio, em minha honra. Houve um ror de brindes, toda a gente queria discursar, o reitor do liceu comparou-me com a D. Filipa de Vilhena, desta vez ia desmaiando de riso; o Albano era tido por “trouxa” porque não fazia negociatas, punha na rua todos aqueles que lhe vinham propor negócios escuros ou procurar envolvê-lo em corrupção.

Deixe-me contar mais uma história. Nos últimos tempos de S. Domingos, foi lá almoçar um funcionário de Bissau que passava criminosamente cartas de condução. Alguns dos soldados vieram pedir-me para meter uma cunha a este senhor para lhes emitir carta, eles explicaram-me que não tinham dinheiro. Em pouco mais de duas horas ele passou para cima de 30 cartas de condução. No final, voltou-se para mim e perguntou-me se eu também não queria uma carta. É nisto que chega o Albano, tinha ido à povoação de Barro, por cauda das obras da estrada. Vendo-me aflita, perguntou-me o que se estava a passar e eu respondi que me estava a ser oferecida uma carta de condução. Olhou furioso aquele funcionário de Bissau e disse-lhe sem papas na língua: “Já chega de asneiras! Espero que durma mal a pensar nos desastres que vai provocar com a sua irresponsabilidade».

Verá mais adiante que o Albano me trouxe dissabores e grandes desgostos. Eu prefiro exaltar o funcionário incorruptível que tratou sempre correctamente os nativos e cuidou dos interesses da Guiné, nunca pactuando com qualquer tipo de crime. Só casei duas vezes, foram amores distintos, talvez a idade pese no juízo que fazemos dos homens que amamos, mas eu tive muito orgulho neste marido que desde que me conheceu me disse a verdade sobre a Guiné, foi bondoso e carinhoso comigo, tudo fazia para me ver feliz.

Bom, estou quase a sair da Guiné, agora preciso de descansar, ainda há alguns episódios que lhe quero contar, prometa-me que só vai escrever 2 ou 3 histórias se acaso vai publicar algum livro com esta maçadoria, é para mim mistério insondável o Mário encontrar algum encanto ou pitoresco nestes episódios que têm quase 50 anos e que estão definitivamente perdidos no tempo., dispensados pela História. Ou não estão?

(Continua)



[ Revisão / fixação de texto / título: L.G.]

_____________

Notas de L.G.:

(*) Vd. postes anteriores da série:

31 de Janeiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5737: Pré-publicação de Mulher Grande, de Mário Beja Santos (1): Um Gabu de poucas e fracas recordações

2 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5747: Pré-publicação de Mulher Grande, de Mário Beja Santos (2): Da Guerra do Turu-Ban ao Tubabo Tiló, passando pelo deslumbrante Corubal

4 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5758: Pré-publicação de Mulher Grande, de Mário Beja Santos (3): Dois anos maravilhosos: S. Domingos, Varela, Ziguinchor, antes da guerra...

9 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5793: Pré-publicação de Mulher Grande, de Mário Beja Santos (4): S. Domingos, 21 de Julho de 1961: Benedita, eles já aqui estão!

(**)  Sobre o processo narrativo, explicou o autor:
 
"Queridos amigos, o livro 'Mulher Grande' é uma narrativa ficcionada, um relato de uma vida de memórias (memórias de uma vida). É a Guiné que aproxima a narradora e o seu arquivador/escriba. Benedita Dantas Estevão possui uma memória prodigiosa, viveu as agonias e os êxtases de toda a gente. A estrutura da narrativa baseia-se num processo literário explorado magistralmente por John Dos Passos, limitei-me a seguir-lhe as pisadas: há um episódio inicial em que o narrador descreve acontecimentos, o arquivador/escriba reflecte sobre eles (solilóquio) e o narrador dá uma explicação íntima para o que contou (recordações e trabalho de casa), é um círculo fechado de duas pessoas que falam a três vozes.
 
"O que ofereço ao blogue é matéria que se prende com a essência do nosso blogue: a Guiné em vias de entrar na guerra. O resto, caso venha a entusiasmar os tertulianos, fica para a leitura de cabo a rabo. Sugiro a sua publicação em pequenos episódios de duas ou no máximo três páginas, em consonância com a própria construção dos diálogos. Aguardo a vossa apreciação. Um abraço de amizade, Mário" (...)


(***) Excertos do Cap I:

(...) Vim ao mundo ao nascer do dia 24 de Novembro de 1920, em Lisboa. Nasci na Avenida da República, 70, no rés-do-chão de uma moradia que também tinha 1º andar e mansarda. (...)




(...) A casa fora alugada pela minha avó brasileira, a vovó Januária ou vovó Xanoca. No dia em que vim ao mundo, bateu à porta da nossa casa o capitão Edmundo Barreto, um dos fiéis de Sidónio Pais, e que era muito amigo do meu pai, vinha almoçar, isto era muito comum assim, recebíamos informalmente todos os amigos, eram poucos os que se anunciavam. Sabiam que o meu pai acabava as consultas no Curry Cabral pelas 13 horas, e que vinha imediatamente para casa, quem batia à porta almoçava. O meu pai contou-me que o foi receber à entrada, eufórico, estava todo desalinhado, sem plastrão, e lhe dissera: “Olha, desculpa, hoje não pode ser, nasceu-me uma filha, sou pai pela primeira vez, estou radiante, isto está tudo uma desordem mas estamos felizes. A Estrelinha está de boa saúde!”. A Estrelinha era a minha mãe. (...)


(...) Nasci num meio burguês, filha de um clínico geral que trabalhava no Curry Cabral e no banco de S. José e tinha consultório na Praça José Fontana, e de uma brasileira de Santos, menina prendada. Era um casal que se amava muito. À distância destes anos todos, reconheço que tive o privilégio de nascer num meio excepcional, rodeada de pessoas excepcionais. O pai, a quem meio mundo chamava o Catarinho (Catarino Palma d’Abreu Dantas) viera estropiado da Flandres, era um homem de uma curiosidade insaciável, uma grande alma, um grande carácter. (...)


(...) O Catarinho era monárquico por tradição e convicção, mas era um homem verdadeiramente popular, não aceitava injustiças, falava com toda a gente com a mesma elegância de modos. Uma vez, era eu pequena, ele foi abordado nos Restauradores por alguém, eu, a minha mãe e o meu irmão, não percebíamos o entusiasmo daquela conversa. Despediu-se do senhor e depois disse-nos: ”Era um dos meus doentes lá da Penitenciária, creio que era um grande criminoso que se regenerou. Ainda bem que o voltei a ver”. (...)


(...) O meu pai vivia politicamente na oposição à balbúrdia republicana, veio a aderir à Liga 28 de Maio, admirava profundamente Salazar e a sua obra. Fez sempre campanha a seu favor, tudo à sua custa, nunca quis cargos, o que ele queria era ser médico, viver com a família, estudar genealogia, história de arte, até mineralogia, tudo lhe interessava. Não passava uma semana que não fosse investigar na Torre do Tombo. A minha mãe era adorável, acabou por ser a minha filha. Isto é difícil de compreender até se conhecer a relação que estabelecemos, sobretudo nos últimos anos da sua vida, morreu já nos anos 80. Sempre que falo da minha mãe emprego o termo que usei sempre: a Estrelinha (Maria Augusta dos Santos Pimenta), ela era de facto uma estrela reluzente ao pé de nós, delicada no trato e sempre delicada na sua saúde. (...)


(...) A abundância em que nasci começou a desaparecer quando eu tinha 10 anos. Com a crise de 29, o meu pai perdeu as economias amealhadas que pusera no Banco do Minho e a Estrelinha perdeu muito do que tinha nos negócios de Santos, tudo herança do avô Valentim, que não conheci, ele morreu quando a avó Januária veio com duas filhas até à Europa. É verdade que ele era um nome na medicina mas não era suficiente, houve que cortar nas despesas, desapareceu o chofer e desapareceram criadas. E desapareceram muitas das visitas lá em casa. (...)


(...) Com o desaparecimento do meu pai, tudo mudou, eu ia fazer 21 anos. (...)


(...) Em 1950, soube que havia uma vaga na Embaixada dos Estados Unidos da América, na Duque de Loulé, fiz provas, no Verão, fui aceite. O meu emprego não era propriamente na Embaixada mas sim junto do serviço do adido militar, eu depois explico o que fazia. Por essa altura, o Raimundo pediu à minha tia para ir ter com ele ao Norte. A Ada pediu-me para a acompanhar. E foi assim que fomos para a Póvoa, de 15 a 30 de Agosto. Na primeira noite, fiquei em casa da Luísa Palma. Fui com ela ao Casino (...).


(...) Nisto chegou o meu primo Manuel Dantas Amorim que vinha a falar com um outro senhor e apresentou-me o Albano da Graça Toscano. Pouco depois, fui dançar com este senhor que era funcionário colonial, tinha ido quase adolescente para a Guiné, vivia lá há muitos anos, mais de 16, estava agora de férias. Ia começar o meu romance. No Casino da Póvoa, mal sabia eu, tinha o meu destino traçado para ir para a Guiné, onde vivi momentos tão belos mas também tão dramáticos. Ao longo destes anos, digo-lhe agora sem ironia, eu achava que era exótico falar da Guiné, quando eu falava os outros ouviam com atenção, ninguém sabia onde é que era a Guiné e como é que lá se vivia. Dou comigo agora a pensar que ir contar tudo quanto eu vivi tem aspectos melindrosos, ainda há algumas pessoas vivas, nem sei se vou contar tudo.


(...) E foi assim que ficámos noivos. Mas o Albano tinha que partir em Setembro, tinham acabado as férias, só poderia voltar dentro de 4 anos, encarou-se logo a hipótese de casarmos por procuração. É bom não esquecer que eu ia trabalhar para a Embaixada, em Outubro assinei contrato como operadora telefonista. Eu vivia uma situação de grande dilema, nem ele nem eu tínhamos idade para perdermos mais tempo, naquela época só havia cartas uma vez por semana, não me estava a ver num namoro como se fosse uma adolescente.


Era um dilema: pela primeira vez na vida eu estava a ter um emprego que me interessava, que me entusiasmava verdadeiramente, mas também a Guiné estava no horizonte, eu queria casar com o Albano. (...)


Casei na Igreja do Campo Grande, fui de braço dado com o maninho, fizemos a festa em nossa casa. E naquele mês de Setembro, com a Estrelinha e a Ada a chorar, emocionadas, parti da Portela, de madrugada. Eu saía pela primeira vez de Portugal. (...)

(****) Na altura dos acontecimentos em S. Domingos (21 de Julho de 1961), era governador da província da Guiné  António Augusto Peixoto Correia (1959-1962).  Sarmento Rodrigues tinha sido Governador do pós-guerra (25 de Abril de 1945 a 1950).

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Guiné 63/74 - P5793: Pré-publicação de Mulher Grande, de Mário Beja Santos (4): S. Domingos, 21 de Julho de 1961: Benedita, eles já aqui estão!


Guiné > Região do Cacheu > Varela > 1961 > Luta felupe, de Augusto Trigo. Painel que se encontra(va) numa parede de um restaurante/café, completamente em  ruínas. O painel foi restaurado, digitalmente, pelo Rui Fernandes. Foto de Rui Fernandes, cedida ao nosso amigo Pepito e aqui reproduzida com a devida vénia. (O Rui integra a nossa Tabanca Grande, desde Janeiro de 2008).

Augusto Fausto Rodrigues Trigo nasceu em Bolama, a 17 de Outubro de 1938. Órfão de pai em 1945, veio com mais dois dos seus irmãos para Portugal. A  mãe ficou  na Guiné, com o filho mais novo.

Esteve na Casa Pia até aos 19 anos (1957). Aí começou a revelar e a desenvolver o seu talento artístico. O seu primeiro emprego foi como pintor de publicidade. Regressa à Guiné para rever a mãe e os irmãos. Trabalha como desenhador cartográfico. Nos momentos livres, desenha e pinta (a óleo e a aguarela). Em 1964 realiza a sua primeira exposição de pintura. O Governo da província faz-lhe encomendas... O quadro, cuja imagem reproduzimos acima, data de 1961... Ainda viveu na Guiné-Bissau, a seguir à independência, tendo dirigido o Departamento de Artesanato Nacional, mas regressou definitivcamente a Portugal, em Setembro de 1979. É hoje um conhecido ilustrador e consagrado autor de Banda Desenhada (em parceria com o argumentista Jorge Magalhães). Para saber mais,  clicar aqui.


Foto: © Rui Fernandes / AD - Acção para o Desenvolvimento (2008). Direitos reservados


1. Pré-publicação de excertos do próximo livro do nosso amigo e camarada Mário Beja Santos, Mulher Grande. Trata-se da terceira parte do Capº III (*):


Mulher Grande > III > A Guiné em chamas ou o “Tubabo Tiló”
por Mário Beja Santos


[III. 4] Décimo segundo solilóquio


O tempo esfriou, chuvisca, aproveito para ir ao Google ver o que aconteceu em S. Domingos, naquele dia 21 de Julho de 1961. Coisa estranha, parece que a luta armada só começou em Janeiro de 1963, com o ataque a Tite, desencadeado pelo PAIGC. No entanto, aos farrapos, fala-se da formação de rebeldes no Senegal, de um Movimento para a Libertação da Guiné, nalguns documentos fala-se mesmo da FLING. Imprimo tudo, algumas respostas podem ser encontradas nas entrelinhas.

Afinal, a FLING fora alimentada pelas autoridades de Dakar, tinha um projecto exclusivamente guineense, não queria o envolvimento dos cabo-verdianos. Noutro documento encontro referências à fuga de quadros, vejo mesmo o nome de Rafael Barbosa ligado à FLING, surpreende-me, pois o seu nome também aparece associado ao PAIGC.

No último almoço em casa da Benedita vi a emoção com que ela falou na degradação das relações com as novas autoridades senegalesas do Casamansa. Falámos na missão da Christine Garnier, ela ter-se-á encontrado com Senghor que mandou uma mensagem para Salazar apelando-lhe a um quadro de pequenas concessões imediatas e sugerindo-lhe um plano de transmissão de poderes com a duração de 20 anos. O que quer que tenha acontecido, Salazar, que recebeu Benjamim Pinto Bull em S. Bento, recusou qualquer modalidade de negociação. Segundo a Benedita, 15 a 20 dias antes do ataque atribuído à FLING apareceu o administrador do Casamansa em S. Domingos. Encontrou-se em privado com o Albano, ele partiu para Bissau com uma mensagem e entregou-a ao Governador. Soube-se mais tarde que foi uma derradeira tentativa para a negociação.

Dou comigo a pensar como certos protagonistas secundários têm às vezes entre mãos responsabilidades que podem levar à mudança da História. A acreditar-se no relato da Benedita, o Albano tinha consciência que se estava a dançar à beira do abismo. Seria muito interessante saber-se como Bissau transmitia para Lisboa a versão das hostilidades iminentes.

Estou a entusiasmar-me por um pedaço da história da Guiné que eu ignorava completamente. Mas o que mais me surpreendeu foram as respostas que me deram quando telefonei, por sugestão da Benedita, para um administrador e dois chefes de posto do tempo, bem como dois coronéis na reserva, alferes na Guiné em 1961. Foram muito cordatos ao telefone, ninguém se lembrava do nome dos rebeldes, aonde se situava o seu acampamento, embora se tenha falado que estava dentro do Casamansa ou em Kolda, nunca tinham ouvido falar na FLING ou no Movimento para a Libertação da Guiné.

Porque será que estes homens não querem falar? Pondo imediatamente de parte a hipótese de uma conspiração de silêncio, somos levados a pensar que ninguém acreditava que dois países independentes à volta da Guiné portuguesa iam ficar quietos, sem explorar o descontentamento existente nas várias linhas de independentistas guineenses. E não menos curioso é como esta sucessão de episódios não consta na história da Guiné-Bissau.

Mais recordações da Benedita (décimo segundo trabalho de casa)

Haverá o direito de eu estar a arrogar-me a um papel importante nos acontecimentos do ataque a S. Domingos? Tenho a consciência que a memória não me atraiçoa. Aí uns dez dias antes do ataque o Albano soube que ia haver um desfile contra Portugal, em Ziguinchor. Aquelas informações eram vitais, ele não podia ir nem ninguém da administração.

Vendo-o tão preocupado, sem saber o que fazer, tomei uma decisão sem hesitar: “Albano, eu vou, não se preocupe, toda a gente me trata bem em Ziguinchor, diga-me exactamente o que pretende saber”. Ele ainda tentou dissuadir-me, mas acabou por me dar razão. Ao amanhecer do dia previsto do desfile, parti com o chefe da central eléctrica de S. Domingos, pretextei uma indisponibilidade do Albano, referi que tinha umas compras urgentes, ao princípio da tarde estaríamos de regresso.

Em Ziguinchor, notava-se à vista desarmada um clima de grande tensão, as pessoas procuravam não falar comigo, ou respondiam-me com monossílabos. Estive na farmácia, no escritório de Hugues Lemaire, depois comprei tecidos a um mercador ambulante. Na farmácia, o farmacêutico que era claramente contra a presença portuguesa, perguntou-me por Monsieur le Commandant, senti-me bem tratada.

O desfile anti-português estava praticamente no fim, via papéis a convocar para a manifestação espalhados pelo chão, resolvi não apanhar nenhum. Na loja de um djila, senti que ele me estava a fazer perguntas acintosas, do tipo “o que é que eu pensava se ele abrisse um magasin em S. Domingos”, respondi que ficaria encantada. Hugues Lemaire recebeu-me imediatamente e advertiu-me: “O Albano que se organize e se defenda. O melhor seria vocês abandonarem já S. Domingos, eles vão atacar em breve”.

A mulher dele deu-me uma pistola e Hugues Lemaire precisou as últimas instruções: “Não posso escrever nada, a partir de agora, se souberem que estou a passar informações estamos perdidos. Estão a ser preparados 200 homens nas granjas de Tibelor, perto dos serviços de agricultura de Ziguinchor”. Ainda fui comprar umas conservas, livros e revistas.

Foi no carro que o Augusto, o chefe da central eléctrica, me mostrou os panfletos que tinham sido distribuídos na manifestação do tipo um capitalista gordo com charuto na boca às costas de um nativo, um cipaio com uma palmatória na mão a maltratar um indígena com as correntes nos pés e de mão estendida. Um dos panfletos falava na luta para expulsar os portugueses, admitindo se necessário recorrer à destruição de vidas. O Augusto disse-me: “Senhora, as coisas estão muito feias, eles têm espingardas e granadas”. Seguimos imediatamente para S. Domingos, o Albano não escondeu o seu alívio quando ali cheguei. Ouviu-me, escreveu uma longa mensagem, o secretário seguiu imediatamente para Bissau.


Antes do ataque a S. Domingos, em 21 de Julho de 1961


Pela primeira vez na minha vida, eu sentia-me no centro de uma agitação política que não entendia, onde não participava directamente, olhava, ouvia os comentários do Albano, lançaram-me avisos em Ziguinchor, mas como não via guerra nem era evidente qualquer hostilidade, continuei a viver sem alterar nada.

Enviaram de Bissau um novo secretário e um novo aspirante para S. Domingos, logo percebi que era para dar mais tempo ao Albano, libertá-lo das tarefas administrativas, os acontecimentos do Senegal e o espectro da guerra ocupavam-no cada vez mais. Nós estávamos preocupados com o que tinha acontecido em Angola, começava-se a pensar que íamos ser brutalmente atacados, até mesmo chacinados.

A mexer nos meus papéis, nas coisas que juntei nos últimos dias, tenho aqui registada a chegada de um homem que só nos deu dores de cabeça, Aventino Guerreiro, um aventureiro que chegou a S. Domingos com uma proposta de instalar um negócio de óleo de palma, queria que o Albano lhe concedesse mão-de-obra gratuita. Claro que o Albano recusou e pô-lo fora do gabinete.

Este Aventino Guerreiro só no ano de 1961 apresentou 15 queixas contra o Albano. Ele devia ter muitos apoios em Bissau, deve tê-los sugestionado com um conto do vigário, qualquer coisa como montar um sistema de informações ao longo de toda a fronteira, o pretexto seria a compra de mancarra, seria aí, durante as transacções, que se obteriam informações.

Um dia, vínhamos nós de Bissau, o Albano contou-me tudo no carro, como publicamente se manifestara contra este embuste, se Bissau queria boas informações, se queria confirmar e ampliar as informações que a PIDE oferecia, deviam estar atentos ao que ele escrevia, sobretudo às informações que ele recolhia em Ziguinchor.

O Albano tudo fazia para manter excelentes relações com os colegas do Casamansa. Ele sabia, desde 1960, que as relações iam ficar tensas, esforçou-se por fazer convites oficiais às novas autoridades senegalesas, recebemo-los em nossa casa, notámos da parte deles que não queriam muita intimidade, sentia-se no ar que em breve se iria chegar à ruptura. O Albano estava a sofrer muito, tinha recebido um telegrama a anunciar que a mãe estava a morrer, decidiu não vir a Portugal com tudo o que se estava a passar ali à volta.

Pode parecer contraditório, mas eu estava a receber novas alegrias. Fui admitida como professora no ano lectivo de 1960-1961, ninguém mais concorreu para S. Domingos. Comecei a juntar dinheiro, pois o ordenado de professora ia inteirinho para Lisboa, aproveitando o direito à transferência. Adorei ensinar, ver aquelas crianças que por vezes faziam quilómetros a pé a mostrar entusiasmo com a tabuada, começavam a soletrar e meses depois assistia àquele milagre das palavras serem ditas, mesmo aos solavancos.

É de repente que começo a sentir o desânimo do Albano por causa da indiferença de Bissau face aos seus avisos. Aquela indiferença deitava-o por terra. Já na festa da independência do Senegal ficara ao lado de um oficial reformado do exército francês que se mostrou muito glacial comigo. Perguntei ao meu amigo Hugues Lemaire o que levava aquele senhor a ser tão pouco gentil comigo e ele disse-me sem papas na língua: “Benedicte, tu não acreditas no que te andamos a dizer, tu jantaste ao lado do oficial que anda a treinar os rebeldes guineenses aqui no Senegal”. Fiquei sem saliva, olhei-o sem poder articular uma palavra. Hugues Lemaire também já avisara o Albano que Senghor queria marcar posição antes de Sekou Touré, iria apoiar insurreições no Norte da Guiné com rebeldes da nossa província. Senghor era a favor de uma Guiné para os guineenses, não apreciava os cabo-verdianos. Senghor dizia abertamente que o futuro desta nova Guiné independente iria ficar sob a sua custódia.

Vão seguir-se dias de tensão, nunca mais na minha vida tive uma espera tão dolorosa, inquietante, como aquela. Sentimos que muita gente estava a partir, até mesmo gente da população local deixou de vir a S. Domingos. Os comerciantes de Bissau, do Cacheu, de Bissorã ou Bula, nunca mais apareceram. O silêncio nocturno era horrível, nunca mais se ouviu um batuque, acabaram as fogueiras, as cerimónias e festas dos Felupes ou dos Manjacos. Eu procurava resistir dando aulas mas sentia também a falta de muitos alunos.
Estávamos todos à espera, num enervamento horrível. Chegara entretanto um contingente de tropa que ficou a viver dentro da povoação, e não muito longe de nós. Começava o nosso relacionamento com a tropa, que não foi nada feliz. Na noite de 21 de Julho, estávamos deitados quando se ouviram tiros, um deles partiu um vidro do nosso quarto. Como uma mola, saltámos da cama e rastejámos para a porta, punha-se assim termo a todos aqueles meses de expectativa.

Há quem diga que quando morremos a nossa vida passa no nosso cérebro como um filme acelerado, já me disseram que vemos e pensamos aquilo que mais no impressionou na existência. Pois eu sei que vou ouvir nesse momentos a voz do Albano gritar-me ao ouvido, plena de exaltação: “Benedita, eles já aqui estão!”.

(Continua)

[ Revisão  / fixação de texto / título: L.G.]
_____________

Nota de L.G.:

(*) Vd. último poste desta série > 4 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5758: Pré-publicação de Mulher Grande, de Mário Beja Santos (3): Dois anos maravilhosos: S. Domingos, Varela, Ziguinchor, antes da guerra...

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Guiné 63/74 - P5758: Pré-publicação de Mulher Grande, de Mário Beja Santos (3): Dois anos maravilhosos: S. Domingos, Varela, Ziguinchor, antes da guerra...


Guiné-Bissau > Região do Cacheu > S. Domingos > Estádio de Amizade de S. Domingos > 1º Festival Cultural de S. Domingos: Nô laba rostu di nó Guiné (S. Domingos, 18-20 de Dezembro de 2009) > Dançarinos balantas de Ingoré. O festival foi um sucesso, envolvendo cerca de 5 mil participantes e espectadores. Juntou diferentes grupos artísticos, culturais, teatrais, folclóricos, de Aramé, Elia, Suzana, Varela, Cacheu, Ingoré, S. Domingos e Ziguinchor.

Segundo a AD - Acção para o Desenvolvimento que organizou esta iniciativa, "a valorização das diferentes facetas das manifestações culturais dos grupos étnicos existentes na Guiné-Bissau, alguns em perigo de desaparecimento por razões de absorção e integração por outras etnias, como os banhuns, cassangas e baiotes, permite à maioria o conhecimento e acesso a essas manifestações culturais, retirando-as do esquecimento e promovendo-as a património cultural nacional".

Por outro lado, "a actuação de grupos culturais locais favorece a criação e consolidação dos movimentos contra uma “cultura” urbana que despreza a tradicional, porque rural, lutando contra a intolerância e discriminação sexual e religiosa".


Foto: © João Graça (2009). Direitos reservados


1. Pré-publicação de excertos do próximo livro do nosso amigo e camarada Mário Beja Santos, Mulher Grande. Trata-se da terceira parte do Capº III (*):

Mulher Grande > III > A Guiné em chamas ou o “Tubabo Tiló”
por Mário Beja Santos


[III. 3] A exaltação de S. Domingos


S. Domingos era uma aldeia, a nossa casa ficava a 500 metros do porto. Olhe para o mapa e veja como estávamos próximos da fronteira. Pelo estradão, estávamos a 45 ou 50 minutos de Suzana, no bom tempo, e logo a seguir tínhamos a praia de Varela, a minha inesquecível praia de Varela. Por vezes íamos pelo estradão de Suzana até ao Cabo Roxo, não pode imaginar o panorama que dali se desfruta.

Para quem, como nós, até agora tinha estado longe de tudo, S. Domingos, se bem que uma povoação insignificante, aproximava-nos de território francês, e como o Albano mantinha relações muito cordiais com as respectivas autoridades, passei a ir com regularidade a Ziguinchor.

Era tudo em dimensão diminuta, estávamos, como disse, perto do porto, tínhamos uma tasca quase à porta de casa. A administração ficava em frente à nossa casa, a seguir havia a escola e um pouco mais abaixo o madeireiro. A nossa casa era o centro de S. Domingos, digo isto sem nenhum exagero, pois a estrada para Ziguinchor e para Varela passava-nos à porta.

Quando lá chegámos, depois de um longo dia de viagem que começou em Pirada, seguimos por uma picada até Sonaco, depois Bafatá, voltei a fazer aquele percurso que passa por Mansabá, revi Bissorã, onde matei saudades, seguimos depois por Barro, Sedengal até S. Domingos. Quando chegámos quase ao anoitecer, cheia de pó por dentro e por fora, olhei para a casa e disse para comigo: “Mais uma casa velha para arranjar, mais móveis para comprar, mais costura, pareço a Penélope, aprumo e desmancho, quando me estou a afeiçoar às coisas, chegou a hora de partir!”.

A casa impressionou-me bem, tinha gerador e não tinha prisão no rés-do-chão, como no Gabu. Estávamos lá há poucos dias, quando fomos convidados pelos colegas do Albano a visitar Ziguinchor. Foi uma sensação maravilhosa de ter um restaurante a algumas dezenas de quilómetros de casa, havia lojas de tecidos e um estabelecimento onde se podiam comprar produtos franceses, sobretudo conservas. Não pode imaginar a minha alegria de entrar numa outra loja que tinha livros franceses, comovi-me quando vi romances da Colette, Romain Rolland e André Gide.

Para minha surpresa, na primeira vez que vim à rua em S. Domingos abeirou-se um branco com a pele muito tisnada, tirou o chapéu colonial e saudou-me: “Sou o Toscano, não sou parente do seu marido, sou o Toscano madeireiro”. O chefe de posto era o Braga, branco tal como a mulher, fui madrinha do filho que ali nasceu, estávamos ali há mais de um ano. Recordo que havia dois padres italianos em Suzana.

Penso que vamos encontrar bastantes imagens da região de S. Domingos, das férias em Varela, dos passeios com amigos franceses, aqui nos meus álbuns. Tenho agora uma confidência a fazer, foi em S. Domingos que pela primeira e única vez vi o Albano com os copos. Ele foi dar um passeio, eu estava de cama, quando regressou vinha a rir-se, fez-me uma careta e disse: “Benedita, desculpe, hoje não durmo aqui, não estou bem, senti que bebi demais, o padre recebeu vinho para a missa, fomos provar, não sei como me embebedei!”. Dito isto, com as mãos a agarrar a barriga dava grandes gargalhadas, caiu no chão, levantou-se e saiu. Eu olhava para aquilo tudo sem abrir a boca, sinceramente o único medo que tive foi que aquelas cenas se voltassem a repetir.

O importante é que eu sentia mais alegria em S. Domingos, a tal sensação de estar perto de tudo, de poder viajar, encontrar gente, comprar uma revista, passear, ter a satisfação de marcar um almoço ou um lanche. E a certa altura, quando a professora partiu tive a emocionante experiência de dar aulas. Senti que era uma vocação tardia, iria gozar aqueles momentos com toda a intensidade.

Desculpe insistir, desde Bissorã que eu não me dava tão bem com a Guiné. Às vezes penso que foi Ziguinchor que mudou tudo. Logo que chegámos a S. Domingos mudámos de motorista, o Guilherme foi trabalhar para a meteorologia em Bissau, o Albano admitiu o Xuxo, era ele que me levava às compras em Ziguinchor.

Aos sábados, sempre que possível, íamos passear a Varela. Nunca mais esqueci Varela com o seu extenso areal e palmares ao fundo, o concessionário do restaurante continuava a ser o Sr. Refrega e o ajudante, o Sr. Vasco. O governador da Guiné tinha aqui um palácio. Foi tudo saqueado em 1961, logo a seguir ao ataque a S. Domingos. Faço-lhe uma confidência, não sei se me estou a repetir, nunca mais me ocorreu querer voltar à Guiné, mas ainda hoje tenho saudades de Varela e de algumas viagens que fiz a Ziguinchor.

Em 1959, fizemos obras na casa de S. Domingos (durante as obras vivemos na casinha de Varela) e demos uma festa. Onde gostávamos de receber era em Varela. É neste período que eu senti uma grande mudança no estado de espírito do Albano. Pela primeira vez, via-o trazer trabalho para casa, eram os relatórios sobre a evolução da situação no Senegal, em Bissau sabia-se perfeitamente a qualidade e a quantidade de informações que ele possuía.

Várias pessoas me disseram mais tarde que não havia ninguém na Guiné, no Norte, tão bem informado como o Albano. Regularmente, por este tempo, o Albano era chamado a Bissau para reuniões de carácter confidencial. Como não havia estabelecimentos comerciais em S. Domingos, acompanhava-o, fazíamos a viagem até Cacheu, daqui para Teixeira Pinto e depois Bissau.

A recordação que melhor guardo foi este período maravilhoso de 2 anos, o Albano começara a estudar a economia dos Felupes e preparara uma monografia sobre a habitação dos Banhuns. Sei que não vai acreditar, mas a Christine Garnier viveu uma semana em nossa casa, viajava discretamente para o Senegal, quando chegou começou por dizer que preparava uma reportagem, mais tarde abriu o jogo, quando revelou a finalidade da sua viagem ficámos de boca aberta: fora o próprio Salazar que lhe pedira um relatório sobre o que se estava a passar no Senegal, trabalhou o documento com o Albano todas as noites, ele mais tarde confessou-me que o documento identificava com inteiro rigor as novas realidades.

Já disse e insisto que nunca falava de trabalho com o Albano, mas uma noite ele confessou-me: “Benedita, tudo vai mudar na Guiné com o que se está a passar em Dakar e Conacri, há gente que está a ser preparada para a guerra, não lhe escondo que há gente a fugir da Guiné para nos fazer guerra. Temo o pior”. Antes de partir, a Garnier disse-nos que o relatório tinha sido enviado à D. Maria, a governanta de Salazar. Desculpe estar tão repetitiva.

[Revisão / fixação de texto / título: L.G.]

[Continua]
_______________

Nota de L.G.:

(*) Vd. poste de 2 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5747: Pré-publicação de Mulher Grande, de Mário Beja Santos (2): Da Guerra do Turu-Ban ao Tubabo Tiló, passando pelo deslumbrante Corubal

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Guiné 63/74 - P5747: Pré-publicação de Mulher Grande, de Mário Beja Santos (2): Da Guerra do Turu-Ban ao Tubabo Tiló, passando pelo deslumbrante Corubal


"Era conhecida a separação entre fulas e mandingas. Estes pouco simpatizavam com as nossas tropas, eu tive essa ideia, os fulas, na generalidade, estavam do nosso lado. Esta rivalidade, e o não querer estar com os fulas, têm razões históricas: os mandingas tiveram um grande império no sudeste africano e foram senhores do reino do Gabú. Mas dum e doutro foram usupados pelos fulas...


"Nesta brochura, editada pela Editorial Cosmos (sem data) na sua colecção "Cadernos Coloniais" (é o N.º 13), António Carreira faz uma resenha histórica da islamização daquela zona de África e da lutas entre fulas e mandingas pelo seu domínio. São dados importantes para a história dos povos da Guiné e para a nossa commpreensão deles". [António Barbosa Carreira nasceu em 1904, em São Filipe, Ilha do Figo, Cabo Verde. Morreu em 1988, em Lisboa].

Imagem e legenda: © A. Marques Lopes (2007). Direitos reservados



1. Pré-publicação de excertos do próximo livro do nosso amigo e camarada Mário Beja Santos, Mulher Grande. Trata-se da segunda parte do  Capº III (*):


Mulher Grande > III > A Guiné em chamas ou o “Tubabo Tiló”
por Mário Beja Santos

[III.2] Décimo primeiro solilóquio


Durante o almoço falámos largamente sobre “O Rosário”, o romance de Florence Barclay que tanto impressionara a Benedita quando o pai estava a cegar de 1940 para 1941. Fiz uma consulta ao Google, vejo que o livro foi o mais vendido nos Estados Unidos em 1910. Não é difícil perceber porquê, trata-se de um melodrama bastante convincente, para os cânones da época. Jane Champion, a sobrinha da Duquesa de Meldrum, é uma trintona pouco bonita, muito sociável e com alma sensível. Tem pouco amigos seguros, um deles é Derick Brand, um médico filho do reitor da paróquia onde ela cresceu. Jane vai visitar a tia, aí conhece Garth Dalmain, um artista mais novo do que ela, brincalhão, cosmopolita, superficial. Encontram-se numa tertúlia cultural, onde Garth, ao piano, acompanha Jane que canta O Rosário. Inicia-se um idílio que culmina com a recusa de Jane em aprofundar a relação afectiva, lembrando a Garth a diferença de idades. Jane parte para o Egipto onde virá a saber que Garth perdeu a vista num acidente de caça. Graças a Derick Brand, disfarça-se de enfermeira e começa uma relação sublime em que Garth, após o sofrimento pela perda da visão retoma o gosto pela vida, aprendendo estratégias de autonomia, até se chegar à revelação da paixão mútua.

Vou explicando à Benedita (**) como tudo se tornou simples na compreensão desta narrativa que tanto a ajudou a apoiar o Estevinha, diminuído pela cegueira e pelo tumor no cérebro.

Conversámos igualmente sobre dois grandes ausentes nos nossos encontros: a Estrelinha e o Toninho. A Benedita confessou ser pouco expansiva: não era dada à escrita, telefone era impensável, as férias eram de 3 ou de 4 em 4 anos, havia que juntar dinheiro, era o preço de ser a mulher de um administrador sério, que não entrava em negociatas com ninguém, nada de expedientes ou subornos. Limitava-se a acumular saudades, mas estava bem informada do que se passava.

A Estrelinha continuava na Avenida da República, repartia a casa com o Toninho e com a Maria Inocência. Percebendo a minha surpresa, a Benedita esclareceu que o Toninho, já com duas especialidades, mas continuando a preferir a ortopedia, casara com a Maria Inocência, professora de Românicas, tinham já dois filhos, um rapaz e uma rapariga, conhecera a nova família nestas férias.

Voltei a insistir quanto à curiosidade pelas culturas guineenses. Continuava a não partilhar o gosto do Albano pelas culturas dos Felupes e Banhuns, mas a passagem pelo Gabu despertara-lhe o interesse pelos Fulas e Mandingas, as duas principais etnias da região. Perguntou-me se eu conhecia as castas entre os Mandingas, aproveitei a deixa para falarmos da nobreza Mandinga, os ferreiros e os sapateiros, os Sani e os Mané, os mais nobres (os Nhantchó), os ferreiros, onde se incluíam os Soncó, os Cassamá e os Biai, e os sapateiros com as famílias Fati, os Turé, os Dahaba, os Danfá.

E, de repente, falámos em Tubabo Tiló, uma expressão paradoxal, pois refere simultaneamente a nostalgia pela partida do branco mas também o desejo de o ver partir, para ser livre do tutor. Expliquei à Benedita que só depois da independência da Guiné é que a expressão me despertou curiosidade, vi muita gente saudosa, mas vi também muita gente a viver miseravelmente dizendo-me que tinha sido bom ver os brancos partir e tomar o destino com as suas próprias mãos. É admirável como aquela guerra não produziu qualquer hostilidade entre o guineense e o português.

Não escondo à Benedita que estou ansioso por ouvir as suas histórias de Bambadinca. Ela dá uma gargalhada: “Eu também estava à espera deste momento. Andámos desencontrados, mas passámos os dois por ali! Francamente, quando comecei a ler o seu livro e descobri que você se enamorara por Bambadinca, achei que estava a delirar”.


[III. 3] Mais recordações da Benedita (décimo primeiro trabalho de casa)


O que eu disse sobre o Gabu é completa verdade, nunca me afeiçoei ao lugar. Gostei de algumas experiências, é certo, pela primeira vez convivia com muçulmanos naquele território inóspito.

Quando, mais tarde, estávamos nós já a viver no Porto, soubemos que a luta armada pendia para o PAIGC naquela região, não me surpreendi. Tudo aquilo era pobre e mal povoado. A presença do branco praticamente inexistente. Já no meu tempo a fronteira com a Guiné pouco representava, não estava praticamente definida qualquer autoridade do lado português. Quando fui com o Albano assistir ao referendo na Guiné-Conacri apercebi-me que os portugueses não eram apreciados e que aquela independência iria ter consequências, como teve, foi nesta Guiné que o Amílcar Cabral encontrou mais apoios, toda a vegetação, sobretudo no Sul, favorecia a guerrilha.

Pela primeira vez, comecei a ler obras sobre os povos com quem convivia. O António Carreira ofereceu-me uns livrinhos sobre costumes, vida e religião dos Mandingas, que muito apreciei. Os Mandingas praticamente não fazem mutilações, em épocas recuadas faziam cortes nas extremidades dos incisivos superiores, era um sinal de luxo. Não percebo a importância que o Mário atribui à expressão Tubabo Tiló, a expressão é bonita, mas o significado até pode ser triste.

Ao almoço falámos nos cemitérios Mandingas, lembro-me agora que me surpreendeu a primeira vez que os visitei, tal a sua simplicidade e que me tocou muito. Enquanto eu lia estas obras, o Albano chamou-me a atenção para o momento, em que no século XIX, os Fulas esmagaram os Mandingas. O António Carreira descreve muito bem esse episódio.

Tudo se passou a 19 de Maio de 1864, os Fulas do Futa, ao som de um grande tambor de guerra, avançaram para Cam-Salá, a infantaria acometeu a paliçada da povoação dos Mandingas Soninqués, com tiros de espingarda e azagaias, os Mandingas resistiram com bravura. Quando se viram perdidos, decidiram-se pelo suicídio em massa.

A batalha ficou conhecida por Guerra do Turu-Ban, expressão que significa “a sementeira acabou”. Foram exterminados muitos Mandingas. Iniciou-se nesse dia a dominação dos Mandingas pelos Fulas. Foi nessa altura que percebi o significado da presença de Mandingas na região de Farim, foi gente que nessa altura fugiu, não aceitou ficar no jugo dos Fulas.

Dou comigo a pensar se o Albano não estava a ser menosprezado por Bissau, por terem havido todos aqueles ataques do aldrabão que ele susteve e denunciou em Teixeira Pinto. Interrogo-me porque é que nos lançaram no Leste, ainda passámos por Bambadinca e Pirada e depois é que fomos para S. Domingos.

A experiência em Bambadinca não foi desagradável. Percorri com Albano a região, cheguei ao Xitole, via pela primeira e última vez os rápidos de Cusselinta, que grande beleza!

O que mais me impressionou foi de a partir do Xime ter subido o Corubal, que tem uma vegetação diferente do Mansoa e do Cacheu. Visitámos várias pontas. Lembro-me de um dia, já perto dos anos 70, o Albano me ter dito no Porto: “Não pode imaginar, Benedita, que os sítios por onde andou no Corubal estão agora todos em guerra. Num comunicado que vem neste jornal fala em Ponta do Inglês, Ponta Luís Dias, Mina e Galo Corubal, fomos lá várias vezes, hoje estão a ferro e fogo”.

Vou pedir ao Mário para acabarmos este purgatório das localidades que mal recordo. Se alguma vez vivi a história em directo, uma história que estranhamente não vejo referida em nenhum livro, foi em S. Domingos.


(Continua)

[Revisão / fixação de texto / título: L.G.]
____________

Notas de L.G.:

(*) Vd. poste de 31 de Janeiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5737: Pré-publicação de Mulher Grande, de Mário Beja Santos (1): Um Gabu de poucas e fracas recordações

(**) Excertos do Cap I: (...) Vim ao mundo ao nascer do dia 24 de Novembro de 1920, em Lisboa. Nasci na Avenida da República, 70, no rés-do-chão de uma moradia que também tinha 1º andar e mansarda. (...)

(...) A casa fora alugada pela minha avó brasileira, a vovó Januária ou vovó Xanoca. No dia em que vim ao mundo, bateu à porta da nossa casa o capitão Edmundo Barreto, um dos fiéis de Sidónio Pais, e que era muito amigo do meu pai, vinha almoçar, isto era muito comum assim, recebíamos informalmente todos os amigos, eram poucos os que se anunciavam. Sabiam que o meu pai acabava as consultas no Curry Cabral pelas 13 horas, e que vinha imediatamente para casa, quem batia à porta almoçava. O meu pai contou-me que o foi receber à entrada, eufórico, estava todo desalinhado, sem plastrão, e lhe dissera: “Olha, desculpa, hoje não pode ser, nasceu-me uma filha, sou pai pela primeira vez, estou radiante, isto está tudo uma desordem mas estamos felizes. A Estrelinha está de boa saúde!”. A Estrelinha era a minha mãe. (...)

(...) Nasci num meio burguês, filha de um clínico geral que trabalhava no Curry Cabral e no banco de S. José e tinha consultório na Praça José Fontana, e de uma brasileira de Santos, menina prendada. Era um casal que se amava muito. À distância destes anos todos, reconheço que tive o privilégio de nascer num meio excepcional, rodeada de pessoas excepcionais. O pai, a quem meio mundo chamava o Catarinho (Catarino Palma d’Abreu Dantas) viera estropiado da Flandres, era um homem de uma curiosidade insaciável, uma grande alma, um grande carácter. (...)

(...) O Catarinho era monárquico por tradição e convicção, mas era um homem verdadeiramente popular, não aceitava injustiças, falava com toda a gente com a mesma elegância de modos. Uma vez, era eu pequena, ele foi abordado nos Restauradores por alguém, eu, a minha mãe e o meu irmão, não percebíamos o entusiasmo daquela conversa. Despediu-se do senhor e depois disse-nos: ”Era um dos meus doentes lá da Penitenciária, creio que era um grande criminoso que se regenerou. Ainda bem que o voltei a ver”. (...)

(...) O meu pai vivia politicamente na oposição à balbúrdia republicana, veio a aderir à Liga 28 de Maio, admirava profundamente Salazar e a sua obra. Fez sempre campanha a seu favor, tudo à sua custa, nunca quis cargos, o que ele queria era ser médico, viver com a família, estudar genealogia, história de arte, até mineralogia, tudo lhe interessava. Não passava uma semana que não fosse investigar na Torre do Tombo. A minha mãe era adorável, acabou por ser a minha filha. Isto é difícil de compreender até se conhecer a relação que estabelecemos, sobretudo nos últimos anos da sua vida, morreu já nos anos 80. Sempre que falo da minha mãe emprego o termo que usei sempre: a Estrelinha (Maria Augusta dos Santos Pimenta), ela era de facto uma estrela reluzente ao pé de nós, delicada no trato e sempre delicada na sua saúde. (...)

(...) A abundância em que nasci começou a desaparecer quando eu tinha 10 anos. Com a crise de 29, o meu pai perdeu as economias amealhadas que pusera no Banco do Minho e a Estrelinha perdeu muito do que tinha nos negócios de Santos, tudo herança do avô Valentim, que não conheci, ele morreu quando a avó Januária veio com duas filhas até à Europa. É verdade que ele era um nome na medicina mas não era suficiente, houve que cortar nas despesas, desapareceu o chofer e desapareceram criadas. E desapareceram muitas das visitas lá em casa. (...)

(...) Com o desaparecimento do meu pai, tudo mudou, eu ia fazer 21 anos. (...)

(...) Em 1950, soube que havia uma vaga na Embaixada dos Estados Unidos da América, na Duque de Loulé, fiz provas, no Verão, fui aceite. O meu emprego não era propriamente na Embaixada mas sim junto do serviço do adido militar, eu depois explico o que fazia. Por essa altura, o Raimundo pediu à minha tia para ir ter com ele ao Norte. A Ada pediu-me para a acompanhar.  E foi assim que fomos para a Póvoa, de 15 a 30 de Agosto. Na primeira noite, fiquei em casa da Luísa Palma. Fui com ela ao Casino (...).

(...)  Nisto chegou o meu primo Manuel Dantas Amorim que vinha a falar com um outro senhor e apresentou-me o Albano da Graça Toscano. Pouco depois, fui dançar com este senhor que era funcionário colonial, tinha ido quase adolescente para a Guiné, vivia lá há muitos anos, mais de 16, estava agora de férias. Ia começar o meu romance. No Casino da Póvoa, mal sabia eu, tinha o meu destino traçado para ir para a Guiné, onde vivi momentos tão belos mas também tão dramáticos. Ao longo destes anos, digo-lhe agora sem ironia, eu achava que era exótico falar da Guiné, quando eu falava os outros ouviam com atenção, ninguém sabia onde é que era a Guiné e como é que lá se vivia. Dou comigo agora a pensar que ir contar tudo quanto eu vivi tem aspectos melindrosos, ainda há algumas pessoas vivas, nem sei se vou contar tudo.

(...) E foi assim que ficámos noivos. Mas o Albano tinha que partir em Setembro, tinham acabado as férias, só poderia voltar dentro de 4 anos, encarou-se logo a hipótese de casarmos por procuração. É bom não esquecer que eu ia trabalhar para a Embaixada, em Outubro assinei contrato como operadora telefonista. Eu vivia uma situação de grande dilema, nem ele nem eu tínhamos idade para perdermos mais tempo, naquela época só havia cartas uma vez por semana, não me estava a ver num namoro como se fosse uma adolescente.



Era um dilema: pela primeira vez na vida eu estava a ter um emprego que me interessava, que me entusiasmava verdadeiramente, mas também a Guiné estava no horizonte, eu queria casar com o Albano. (...)
 
Casei na Igreja do Campo Grande, fui de braço dado com o maninho, fizemos a festa em nossa casa. E naquele mês de Setembro, com a Estrelinha e a Ada a chorar, emocionadas, parti da Portela, de madrugada. Eu saía pela primeira vez de Portugal.  (...).