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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27680: Historiografia da presença portuguesa em África (514): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1958 (72) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 8 de Julho de 2025:

Queridos amigos,
Ano de mudanças, sem dúvida, parte o Dr. Silva Tavares, chega o Capitão-Tenente Peixoto Correia; ficamos a saber que vai haver um Posto Administrativo no Boé, é uma tentativa de fazer fiscalização fronteiriça, até então inexistente (não é referido, mas a província da Guiné passa a ter fronteiras com um país independente, a Guiné-Conacri); delega-se na Sociedade Algodoeira da Guiné o acompanhamento de uma experiência para ver se a produção é rentável; o Administrador António Carreira, em vias de se reformar e de passar a trabalhar para a Casa Gouveia, é louvado enquanto Presidente da Comissão Provincial da União Nacional; temos agora crismado o Liceu Honório Barreto; e a Esso Exploration Guiné Inc. passa a ter a concessão exclusiva de explorar jazigos petrolíferos, infelizmente tudo correrá mal; e chegados a 22 de novembro o Boletim Oficial anuncia a nomeação do Capitão-Tenente Peixoto Correia que deixa o Governo de Cabo-Verde.

Um abraço do
Mário



Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1958 (72)


Mário Beja Santos

É um ano de mudanças logo de Presidente da República e do Governador da Guiné. O Governo de Lisboa continua a inserir a sua ordem política com os cometimentos resultantes da adesão às Nações Unidas. No Boletim Oficial n.º 13, de 29 de março, é publicado o Decreto-Lei n.º 41 304, do Ministério dos Negócios Estrangeiros, tem a ver com o Regulamento n.º 2 da Organização Mundial de Saúde e o Modelo de Certificado Internacional de vacinação contra a varíola. Também no mesmo Boletim Oficial se publica o Decreto-Lei n.º 41 558, prende-se com a vida da Guiné:
“Das atenções prestadas pelo Governo da Guiné às necessidades da província em matéria de ensino liceal resultou, em 1949, a criação, na cidade de Bissau, de um instituto, que, embora sem cunha oficial, tem desde então funcionado com importante apoio por parte das finanças provinciais e sob os hospícios daquele Governo.
O instituto acima referido viu progredir a sua frequência, que da totalidade inicial meia centena de alunos chegou a duzentos e trinta e nove no ano letivo corrente. É tempo de se dotar a Guiné com o estabelecimento oficial que preenche uma necessidade que a experiência habilita a considerar real e verificada. Pelo presente Decreto-Lei o Governo Central converte em liceu o instituto que na Guiné vai já no décimo ano letivo de funcionamento.
Ao Liceu de Bissau é dado por patrono o Governador Honório Barreto. Inscrito na fachada do novo liceu, como estímulo de uma missão educativa das mais altas responsabilidades, o seu nome recordará constantemente às sucessivas e novas gerações os princípios e intuitos que inalteradamente inspiraram e norteiam a presença de Portugal naquele trecho da África Ocidental.”


Este Boletim Oficial é pródigo em informações do desenvolvimento da política colonial. Veja-se o teor da Portaria n.º 979, aqui se alude às necessidades de fiscalização das correntes migratórias indígenas ao longo de uma extensa fronteira, aos problemas ligados ao normal exercício da soberania e escreve-se:
“Considerando que o regulado de Boé possui hoje uma população de cerca de 5 mil indígenas distribuídos por 56 povoações escalonadas ao longo de uma extensa fronteira desprovida de qualquer espécie de fiscalização e que há necessidade de promover o povoamento e desenvolvimento agrícola de tão vasta região, prestando uma assistência efetiva aos seus habitantes;
Considerando que a diminuta população da área Posto Administrativo de Tombali da Circunscrição de Catió e a ligação por estrada da sede da Circunscrição com a povoação de Colbert, sede do Posto, dispensam a presença de uma autoridade administrativa para efeitos de fiscalização, a qual pode ser exercida diretamente pelo Administrador;
Considerando que as ilhas de Unhocomo e Unhocomozinho do Arquipélago dos Bijagós se acham mais próximas da sede do Posto Administrativo de Uno que do que Caravela a cuja área pertencem, além de que as comunicações marítimas entre esta e aquelas ilhas são sempre difíceis e perigosas, o Governador da Guiné manda criar na Circunscrição do Gabu o Posto Administrativo do Boé, com sede na povoação de Madina e compreendendo o território ao sul do Rio Corubal denominado Boé e ainda os territórios de Basse e Pai-Ai, os quais deixam de fazer parte da área da sede da Circunscrição; é extinto o Posto Administrativo de Tombali e são desanexadas do Posto Administrativo de Caravela as ilhas de Unhocomo e Unhocomozinho, as quais passam a fazer parte integrante da área do Posto Administrativo de Uno.”


No Boletim Oficial n.º 19, de 10 de maio, dá-se notícia da escolha da Sociedade Algodoeira da Guiné para, em colaboração com a Junta de Exportação do Algodão, introduzir e divulgar a cultura do algodão na área das circunscrições de Farim, Bafatá, Gabu e Mansoa. A atividade dessa Sociedade Algodoeira revestir-se-á de natureza experimental. “É imprescindível que se tenha sempre presente que a cultura do algodão só será viável se economicamente for compensadora para o agricultor, o que tem de ser cabalmente demonstrado, e que só na medida em que tal demonstração se for fazendo é que a difusão e desenvolvimento da referida cultura se poderá ir processando.”

No Boletim Oficial n.º 26, de 28 de junho, temos notícia de que fora cancelada a linha Bambadinca/Xitole, da carreira n.º 20, explorada pelo concessionário José David Doutel, devido a reduzida afluência de passageiros naquele percurso.

E no Boletim Oficial n.º 36, de 8 de setembro, noticia-se a extensão ao pessoal assalariado dos quadros permanentes das circunscrições e concelhos o direito ao abono de família.

No Boletim Oficial n.º 37, de 13 de setembro, louva-se o Presidente da Comissão Provincial da União Nacional, António Carreira, pelo aprumo, dinamismo e equilíbrio com que tem exercido o cargo.

Pelo Boletim Oficial n.º 43, de 25 de outubro, é elevado a 12 o número de professores eventuais. E agora a grande esperança na reviravolta para a economia guineense.

No Boletim Oficial n.º 42, de 23 de outubro, temos um contrato entre a Província da Guiné e a Esso Exploration Guiné Inc. para a concessão exclusiva de pesquisas e exploração de jazigos de carbonetos de hidrogénio e produtos afins numa área da Guiné. A concessão tem por objeto o direito de pesquisar e explorar, à custa do concessionário, em regime exclusivo, todos e quaisquer jazigos de carbonetos de hidrogénio sólidos, líquidos e gasosos, incluindo petróleo, nafta, azoterite, gases naturais e asfalto, e ainda enxofre, hélio, anidrite carbónico e substâncias salinas. O ponto de partida é um ponto na fronteira entre o Senegal e a Guiné Portuguesa ao norte da vila de Pirada.

Temos finalmente o Boletim Oficial n.º 47, de 22 de novembro, comporta a nomeação do Capitão-Tenente António Augusto Peixoto Correia como Governador da Guiné, ficando exonerado do cargo que vinha exercendo de Governador da Província de Cabo-Verde.

Eleição do novo Presidente da República, Américo Thomaz
Chegada do novo Governador da Guiné, Capitão-Tenente António Augusto Peixoto Correia
Um bilhete postal muito antigo, temos aqui aquela avenida que já se chamou da República e agora Amílcar Cabral, os edifícios da Casa Gouveia já estavam de pé
Carta da Guiné, 1933
Uma marca da presença portuguesa em Bissau
Estas três últimas imagens foram retiradas de números do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, 1955

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 21 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27656: Historiografia da presença portuguesa em África (513): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1957 (71) (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27634: Historiografia da presença portuguesa em África (512): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1956 (70) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 30 de Junho de 2025:

Queridos amigos,
Estes útlimos meses da governação de Diogo de Mello e Alvim processam-se num quadro de uma total normalidade administrativa. O seu antecessor, Raimundo Serrão, sonhara com um colégio-liceu, agora cria-se um Instituto Liceal com o nome de Honório Barreto, ficará assim crismado até ao fim da presença colonial. Há arranjos organizacionais da PIDE também para o Ultramar, e ficaremos a conhecer o efetivo da Guiné; tudo levava a crer que iríamos ter uma indústria de artigos de borracha sobre a égide da Cobornel; irão ser definidas pensões de invalidez para cipaios e intérpretes com mais de 20 anos de serviço, por motivos de doença incurável ou avançada idade; o antigo régulo de Sam Corlá (posto administrativo de Contuboel), tinha sido preso e amnistiado em 1947, fazia-se agora rogado para voltar a ocupar o seu lugar, o Encarregado do Governo considerava que era princípio em direito que indivíduo destituído de um cargo pela prática de atos desonestos não devia voltar a ocupá-lo; definem-se igualmente bolsas de estudo e disciplina urbanística, no plano dos princípios era exigida pelo menos para Bissau. Vai agora começar a governação de Silva Tavares que já estivera na Guiné como delegado do Procurador-Geral da República.

Um abraço do
Mário



Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1956 (70)


Mário Beja Santos

É o último ano da governação de Diogo de Mello e Alvim, tudo decorre na mais completa das normalidades. No Boletim Oficial n.º 2, de 12 de janeiro, o governador emite Portaria em que considera que a designação de Colégio-Liceu de Bissau não é correta, a que mais se ajusta ao espírito do estabelecimento de ensino é de Instituto Liceal, convindo enriquecê-la com o nome de uma prestigiosa figura do passado, a escolha recaiu em Honório Pereira Barreto, filho da província e seu antigo governador, daí o nome Instituto Liceal Honório Barreto, todos os anos, em 24 de abril, data de nascimento deste patriota guineense haverá festejos para se apontar à mocidade o exemplo de uma vida inteiramente devotada à integridade territorial da Guiné. No Boletim Oficial n.º 3, de 19 de janeiro, publica-se a Portaria n.º 15568 do Gabinete do Ministro do Ultramar, tem a ver com o Centro de Estudos de Cartografia e Geografia Colonial, que irá passar a denominar-se Centro de Geografia do Ultramar, com competências para promover ou realizar, entre outros, estudos de geodesia e hidrografia, geofísica, geografia física e humana, etc.

No Boletim Oficial n.º 10, de 8 de março, é deferido o pedido da Corbonel – Companhia da Borracha da Guiné, Lda., para montar na cidade de Bissau uma oficina de fabrico de calçado e de todos os artefactos de borracha, à exceção de pneus. No Boletim Oficial n.º 16, de 19 de abril, publica-se o Decreto-Lei n.º 40541, introduzindo alterações no funcionamento dos quadros da PIDE, podemos ver o seu efetivo na Guiné, publicado no mesmo Boletim Oficial. Em 4 de agosto, no Boletim Oficial n.º 31 temos o texto da Portaria n.º 772, que vem assinada pelo Encarregado do Governo, Abel de Sousa Moutinho, confiro-lhe a relevância suficiente para transcrever o essencial:
“O território de Sam Corlá, da área do Posto Administrativo de Contuboel, com predomínio de indígenas da tribo Mandinga que se computa em dois terços da sua população, tem estado sob a chefia de um regedor indígena da tribo Fula-Forro e julga-se que este facto é uma das razões de constantes dissidências que nele se vêm verificando.
Assim, mostra-se realmente necessário, para a normalização da política indígena e facilidade de atuação da autoridade administrativa, que o referido território deixe de estar sob a chefia de um único regedor. Considerando que se nota ali uma perfeita delimitação das zonas de fixação das tribos Mandinga e Fula-Forro, tendo em vista a doutrina do Estatuto dos Indígenas Portugueses, o território de Sam Corlá passará a constituir duas regedorias indígenas, uma compreendendo as povoações onde se verifica predomínio de indígenas da tribo Mandinga e a outra englobando as povoações em que há predomínio de indígenas da tribo Fula-Forro. Para a chefia de cada uma das regedorias a que se está a fazer referência só poderá ser nomeado regedor indígena da respetiva tribo predominante, a nomeação dos regedores fica a cargo do administrador do concelho de Bafatá.”


No Boletim Oficial n.º 31, de 4 de agosto, faz-se referência ao despacho em que o indígena Sambel Coio Baldé, quando régulo da região de Sam Corlá fora condenado a prisão pela prática de vários crimes e a sua atuação como autoridade gentílica revelara-se extremamente inconveniente, por isso fora destituído. Entretanto, aquando da visita do Subsecretário de Estado do Ultramar à Guiné em 1947, concedera-se amnistia a certos delitos, Sambel Baldé obtivera indulto do resto da pena que então lhe faltava cumprir, fora autorizado a regressar ao mesmo regulado e pretendia agora reintegrado no seu antigo cargo. O Encarregado do Governo considerava que o individuo destituído do cargo pela prática de atos desonestos, acrescendo que causara naquele regulado perturbações que poderiam acentuar-se com a pretensão de ser reposto no lugar de régulo. E assim era decidido fixar-lhe residência na Ilha Formosa e interdita a todo o tempo a entrada e permanência no concelho de Bafatá.

No Boletim Oficial n.º 32, de 11 de agosto, publica-se o Diploma Legislativo n.º 1632 que se prende com a concessão de bolsas de estudo. Passam a ser instituídas anualmente duas bolsas de estudo destinadas a beneficiar estudantes naturais da província que tendo concluído o 2.º ciclo dos liceus ou qualquer curso técnico ou do magistério primário na Guiné com classificação final não inferior a 14 valores e que pretendam continuar os seus estudos na metrópole em estabelecimento de ensino competente. As bolsas instituídas por este diploma acompanharão os seus beneficiários ao longo dos seus estudos. As quantias das bolsas criadas serão de 12 mil escudos para estudantes do 3.º ciclo liceal, 14 mil estudos para estudantes dos cursos médios e 16.800 escudos para estudantes dos cursos superiores.

No Boletim Oficial n.º 32, 2.º Suplemento, de 14 de agosto, são criadas as pensões de invalidez para assalariados indígenas que prestem serviços nos concelhos e circunscrições – cipaios e intérpretes – em identidade de circunstâncias com os assalariados indígenas dos vários serviços públicos da província. Passa a ser concedido aos assalariados indígenas, cipaios e intérpretes, com mais de vinte anos de serviço permanente prestado aos concelhos e circunscrições, o direito ao recebimento de uma pensão de invalidez, quando por motivo de doença incurável ou avançada idade sejam dispensados do serviço.

O Boletim Oficial n.º 41, de 13 de outubro, versa a disciplina urbanística, já tinha sido apreciada em Conselho de Governo, tendo sido objeto de reticências por parte de todos os intervenientes, e tudo levava a crer que ficaria para muito mais tarde. Ora, pelo Decreto n.º 40742, emanado do gabinete do ministro do Ultramar, definia-se o enquadramento da disciplina urbanística nos seguintes termos:
“O rápido crescimento de numerosos núcleos populacionais do Ultramar exige solícita atenção e permanente vigilância das autoridades responsáveis, que assegurem o oportuno planeamento da racional utilização dos espaços urbanos e a disciplina da construção. A tanto visa a elaboração de planos de urbanização, há anos em uso para as principais povoações das províncias ultramarinas, estudados e orientados através do Gabinete de Urbanização do Ultramar. Tendo-se verificado que os poderes facultados pela lei aos corpos administrativos lhes não permite responder pelo que nesta matéria se passa nas áreas de jurisdição, o que gera graves problemas urbanísticos e honorando pesadamente o futuro.

Urgindo evitar que se comprometa o futuro das povoações mais importantes, havendo que dar aos seus corpos administrativos a possibilidade de velar efetiva e oportunamente para que o desenvolvimento urbanístico se processe de acordo com os planos e normas aprovados.
Nestes termos, ficam sujeitas à disciplina urbanística as capitais das províncias ultramarinas e outras sedes de concelho ou povoações cuja situação ou importância o justifiquem"
.

Álvaro Rodrigues da Silva Tavares é o novo Governador da Guiné, chegou a Bissau em 14 de agosto de 1956
O novo Governador. Em 1961, apanhará em cheio os acontecimentos das insurreições em Angola, onde era Governador-geral
Felupes de Susana
Imagem retirada de um Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, ano de 1956
Imagem alusiva à visita do general Craveiro Lopes à Guiné, 1955, está rodeado à direita de Sarmento Rodrigues e à esquerda de Diogo de Mello e Alvim. Retirada de um Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, 1956
Bailarinos da Ilha de Maio
Imagem retirada de um Boletim Cultural da Guiné Portuguesa de 1956
Efetivos da PIDE na Guiné, um subinspetor da Polícia, um agente de 1ª classe e dois agentes de 2ª classe e auxiliares, 1956
Mulher saraculé
Imagem retirada de um Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, 1956

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 8 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27616: Historiografia da presença portuguesa em África (511): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1955 (69) (Mário Beja Santos)

terça-feira, 9 de agosto de 2022

Guiné 61/74 - P23510: In Memoriam (445): António Júlio Emerenciano Estácio (Bissau, 1947 - Algueirão, Sintra, 2022): foi alf mil, RM de Angola (1970/72), viveu e trabalhou em Macau (1972/98) e era um apaixonado pela sua terra e as suas gentes

  

V Encontro Nacional da Tabanca Grande, Leiria, Monte Real, 2010 > 
António Estácio, 


Aos 17 anos, em 1964, em Bissau, na Guiné, onde nasceu em 3 de maio de 1947, de pais transmontanos, e fez o Liceu Honório Barreto (onde foi condiscípulo do Pepito e do Manuel Amanante da Rosa, entre outros).


1. Morreu o António Estácio, foi o António Graça de Abreu, seu amigo dos tempos de Macau, quem nos deu a triste notícia. Vivia em Algueirão, Sintra. Os seus restos mortais serão cremados hoje.  Não sabemos exatamente onde. Mas deve ser em Barcarena. (*)

António [Júlio Emerenciano] Estácio era um luso-guineense, nado e criado no chão de papel, em Bissau, em 1947. Completou os 75 anos, no passado dia 3 de maio. Era filho de  pais transmontanos, o pai funcionário público, a mãe professora primária. A família também viveu em Bolama, nos anos cinquenta.

Estudou no liceu Honório Barreto, em Bissau,  onde teve como professora a dra. Clara Schwarz (1915-2016), mãe do nosso comum amigo Pepito (1949-2014). Foi condiscípulo do Pepito e do Manuel Amante da Rosa, entre outros.

Veio para a metrópole, aos 17 anos (1964) (foto à direita), tendo-se formado como engenheiro técnico agrário (Coimbra, ex-Escola Nacional de Agricuktura, 1964-1967,  onde tirou o Curso de Regente Agrícola, e  onde foi condiscípulo do Paulo Santiago).

Estagiou no extinto Instituto de Algodão de Angola (IAA).  Entretanto, de janeiro de 1969 a maio de 1972 cumpriu o serviço militar obrigatório, tendo, a partir de março de 1970 a maio de 1972, prestado comissão de serviço na Região Militar de Angola (RMA), como alferes miliciano,  e estado aquartelado nas povoações de Luquembo, Sautar e Bessa Monteiro.

Depois de regressar de Macau (onde trabalhou e viveu de 1972 a 1998) (**), radicou-se   em Portugal, Algueirão, concelho de Sintra. 

Tinha uma forte ligação a Macau, cuja casa, em Lisboa, frequentava. Mas também conhecida toda a antiga comunidade luso-guineense que retornou a Portugal depois da independência. 

Era um homem discreto, reservado mas afável, e de fino humor. Esteve presente nalguns dos Encontros Nacionais da Tabanca Grande, o primeiro dos quais em 2010 (Vd. foto acima).  Também se reunia regularmente com os seus antigos condiscípulos de curso, entre eles o Paulo Santiago e outros (alguns oriundos das ex-colónias).



António Estácio, um homem apaixonado 
pela sua terra e as suas gentes


Sobre ele escrevi em 2010 (**): 

"Conheci-o, há dias, pessoalmente, na sessão de lançamento do livro do Amadu Djaló, 'Guineense, Comando, Português'... E hoje, de manhã (19 de maio de 2010)  estive a falar com ele ao telefone. É um apaixonado pela sua terra. E é dotado de um finíssimo humor. É uma pessoa encantadora. 

Convidei-o a (e ele aceitou em) fazer parte do nosso blogue. Fiz questão de sublinhar que não é apenas um blogue de camaradas que fizeram a guerra colonial na Guiné (1961/74) mas um espaço de diálogo entre todos aqueles que são naturais da Guiné ou são estudiosos da história e da cultura da Guiné, e nomeadamente que se interessam pela historiografia da presença portuguesa. E sobretudo daqueles que amam a Guiné e o seu povo."

Era (e continuará a ser)  membro da nossa Tabanca Grande desde 19 de maio de 2010; tem 64 referências no nosso blogue. Mas há mais de 2 anos que não tínhamos notícias dele. A última mensagem que publicou na sua página do Facebook data de 20 de junho de 2019. Alguém nos disse que sofria de  doença crónica degenerativa (Alzheimer). Tem, pelo menos, um filho, que foi quem contactou o António Graça de Abreu, e (se não erro) duas filhas. 

À família enlutada a Tabanca Grande, o blogue dos amigos e camaradas da Guiné,  apresenta as nossas mais sentidas condolências. Perdemos um grande amigo e um bom camarada.

2. É autor de diversas obras, de indole técnica e não técnica (*),  já aqui citadas ou em parte reproduzidas no blogue:  

(i) além de "Bolama, a saudosa" (edição de autor, 2016), dois dos seus livros mais recentes narram as histórias de vida de duas "mulheres grandes" da Guiné:

(ii) a cabo-verdiana Nha Carlota (1889-1970) ("Nha Carlota, figura esquecida da História Guineense", edição de autor, 2010):

(iii) e a guineense Nha Bijagó (1871-1959) ("Nha Bijagó: respeitada personalidade da sociedade guineense (1871-1959) (edição de autor, 2011, 159 pp., c/ ilustrações).

Publicámos também  no nosso blogue, com a sua autorização, a separata da sua comunicação "O Contributo Chinês para a Orizicultura Guineense, V Semana Cultural da China, de 21 a 26 de janeiro de 2002. (Referêmcia bibliográfica: Amtónio J. E. Estácio - O Contributo Chinês para a Orizicultura Guineense", in: Actas, V. Semana Cultural da China, Centro de Estudos Orientais, ISCSP/UTL, 2002, pp. 431‑466.)


 

Capa do livro "Bolama, a saudosa...", 
do nosso grã-tabanqueiro António Estácio, 

Excertos do Curriculum Vitae abreviado:

(...) (vi) em 28.09.1972 chegou a Macau, a fim de desempenhar funções técnicas na, então, Brigada da Missão de Estudos Agronómicos do Ultramar (MEAU)); neste território, conviveu com o Mário Dias e com o José Neto (1929-2007, de quem ficou grande amigo, membros da nossa Tabanca Grande

(vii) de 28 Setembro de 1972 a 2 Dezembro de 1998 viveu em Macau, onde exerceu vários cargos e funções, como:

- Técnico e Técnico Chefe dos Serviços Florestais e Agrícolas de Macau (SFAM); 

- Criador e Coordenador da “Semana Verde”, campanha de sensibilização, nomeadamente dos jovens em idades escolar, sobre a manutenção, defesa e valorização das Zonas Verdes de Macau;

- Membro da Comissão de Educação da União Internacional para a Conservação da Natureza; 

- Vogal a Tempo Inteiro da Comissão Administrativa da Câmara Municipal das Ilhas (CMI); 

- Vogal do Conselho Consultivo do Governador; 

- Secretário-Geral e, posteriormente, vogal do Conselho do Ambiente (Macau); 

- Vice-Presidente da Câmara Municipal das Ilhas; 

- Colaborador da Editora Verbo; 

- Coordenador científico da Exposição “A Aventura das Plantas e os Descobrimentos Portugueses”, promovida em 1995 pela Comissão Territorial de Macau para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses; 

- Colaborador no Projecto Garcia de Orta, da “Expo 98”; 

- Colaborador do Museu de Macau; 

- Membro fundador (30.04.1974) e dirigente do Centro Democrático de Macau; 

- Sócio e, em 2 mandatos não sequenciais, membro da Direcção do Clube Militar (Macau); 

- Vogal do Conselho Fiscal da Associação de Xadrez de Macau; 

- Presidente da Direcção e Vice-Presidente da A.G. da Associação de Patinagem de Macau; 

- Segundo Secretário da A. G. da Associação para a Promoção da Instrução dos Macaenses, 

Em 03.07.1997 aposentou-se da, então, Câmara Municipal das Ilhas (Macau).

- Foi Vogal da Direcção da Casa de Macau (2003-2005); 

(viii) esteve ligado a diversas  instituições nacionais, desempenhando funções como: 

- Sócio da Sociedade de Geografia,  sendo e Secretário da sua Comissão de Heráldica; 

- Observatório da China, em cujo Conselho Fiscal, foi Vogal; 

- Membro da Associação Lusitana da Heráldica; 

- Associação Cultural da Terceira Idade e Sintra (ACTIS), sendo 1.º Secretário da Direcção. 

- Sócio n.º 456 da 223ª Casa do Benfica em Algueirão Mem Martins, fundada em 28.02.2008.

(ix) participou, por diversas vezes na Semana Cultural da China e no Fórum Internacional de Sinologia. 

(x) louvores e distinções:
  • Foi louvado pelo Despacho n.º 19/SASAS/91 e pela Deliberação n.º 268/26/CMI/97;
  • Foi agraciado, em 1995, pelo Governador de Macau, com a Medalha de Mérito Profissional ; 
  • Em Março de 2006, foi distinguido com a Moeda Comemorativa, pelo Instituto para os Assuntos Cívicos de Macau, aquando da 25.ª edição da “Semana Verde de Macau”. 
  • Em 8 de Fevereiro de 2007, distinguido com Medalha de Honra atribuída pela ONG “Acção para o Desenvolvimento” (AD), da República da Guiné-Bissau.
(xi) É autor, co-autor e coordenador de diversas publicações, na sua maioria de carácter técnico e referentes a Macau tendo apresentado comunicações, artigos, folhetos, brochuras e sido responsável pela edição de Boletins Informativos da Casa de Macau, da respectiva Folha In-formativa não periódica “Qui Nova?!...” que criou e, bem assim, responsável pela edição do Boletim da Associação Cultural da Terceira Idade e Sintra (ACTIS).

Trabalhos publicados > É autor de vários folhetos, brochuras e das seguintes publicações:

Publicações de índole técnica:

- Flora da Ilha da Taipa, Monografia e Carta Temática (M. E. Cartográficos) 1978; 

- Flora da Ilha de Coloane (S.F.A. Macau) 1982; 

- Dinâmica das Zonas Verdes na cidade de Macau (S.F.A.M.) 1982;

- Arborização de Macau. Intervenção de Tancredo Caldeira do Casal Ribeiro (1883-1885) (S.F.A.M.) 1985;

- Jardins e Parques de Macau  (Macau) 1993 (Em colaboração com o Eng.º Agrónomo e Arq. Paisagista António Manuel Paula Saraiva); 

- Zonas Verdes. Particularidades da Flora de Macau (Macau) 1994 – Ed. do B.C.M.;

- Guia do Parque de Seac Pai Van (C. M. das Ilhas - Macau) 1995;

- Evolução das Zonas Verdes das Ilhas  (C. M. das Ilhas -Macau) 1999 (Em colaboração com o Eng.º Técnico Agrário Carlos Daniel de Carvalho Batalha);

- As Árvores no Brasões Municipais – Ed. da C. M. de Freixo de Espada à Cinta 2001;

- Contributo Chinês para a Orizicultura Guineense (Portugal) 2002 – Ed. do autor.

Publicações de índole não técnica: 

- Em Memória de Sá Nogueira (S.F.A.M.) 1984;

- Passadas. Recordações de um aluno do Liceu Honório Barreto, em Bissau. (1958-1964) - Ed. do autor (Macau)1992;

- Na Roda de Amigos – Ed. do autor (Macau) 1973;

- Para lá do Rasgar da Ganga ... – Ed. do autor (Macau) 1997;

- Histórias Vividas e Contadas – Ed. “Livros do Oriente” (Macau) 1997.

- Nha Carlota, figura esquecida da História Guineense – Ed. do autor (Portugal) 2010

Coordenador as seguintes publicações técnicas:

- Árvores de Macau, Vol. I, de autoria do Prof. Wang Zhu Hao (Ed. C. M. Ilhas) 1997;

- Árvores de Macau, Vol. II, de autoria do Prof. Wang Zhu Hao (Ed. C. M. Ilhas) 1999.

Foi editor do:

- Boletim do Rotary Club Amagao (Macau);

- Boletim da Casa de Macau (Lisboa) (2004-2006);

- Boletim da Associação Cultural da Terceira Idade de Sintra (ACTIS).

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Guiné 61/74 - P23016: Memórias do Chico no Império dos Sovietes (Cherno Baldé) - Parte I: De Bissau a Kiev, como estudante bolseiro ou o poder da "sétima sorte": É Deus quem afasta as moscas da vaca sem rabo...


1. Alguns dos nossos leitores mais recentes, que não acompanharam, na altura, a série "Memórias do Chico, menino e moço" (de que se publicaram, a partir de 2011,  mais de meia centena de postes), terão por certo curiosidade em saber algo mais sobre o percurso escolar e profissional do seu autor, o Cherno Baldé, no contexto do pós-independência da Guiné-Bissau..
.

Já sabemos que, em 1975, ele deixou Fajonquito (onde viveu, com os pais... e com a tropa,  desde 1968 até depois da independência), rumando a seguir, já em 1975, para Bafatá onde prosseguiu os seus estudos: ciclo preparatório e o início do ensino secundário. 

 Não temos muita informação sobre os anos de Bafatá, era ele já adolescente e e depois jovem (dos 15/16 aos 19/20 anos). Mas sabemos que não foram tempos felizes. 

Em 1979, irá para Bissau, para frequentar o liceu ex-Honório Barreto (rebaptizado, tal como quase tudo, a começar pela toponímia, com o nome de um dos fundadores do panafricanismo, Kwame N’krumah, 1909-1972).

No ano letivo de 1982/83 é colocado em Quinhamel como "professor voluntário" do ensino primário e, entretanto, habilita-se a um a bolsa de estudo para poder frequentar uma universidade estrangeira. Calha-lhe na rifa uma das repúblicas da então URSS, a Ucrânia. Será na universidade de Kiev que irá tirar o seu curso 
de Planificação e Gestão Económica, depois de ter feito um curso intensivo de língua russsa na Moldávia.

Voltará ao seu país, em 1990, já depois da queda do muro de Berlim e do fim do "império dos sovietes", e a independência da Ucrânia...Mikhail Gorbatchov era então o Secretário-Geral do Partido Comunista da União Soviética, o 7º (de 1985 a 1991) e depois o Presidente da União Soviética (o 9º) (de 1988 a 1991)... (Curiosamente, flho de pai russo e de mãe ucraniana.)

Recorde-se que a ex-União Soviética (tal como  outros países da Europa de Leste, do então bloco soviético, mas também a China e Cuba) não se limitou a fornecer armas e munições ao PAIGC, durante a guerra colonial, ajudou a formar grande parte dos seus quadros e dirigentes políticos e militares e, depois da independência, concedeu bolsas de estudo (não podemos quantificar) aos jovens guineenses para acederem ao ensino superior.

Fomos justamente "repescar" alguns dos postes do Chemo Baldé com memórias desse tempo (1985-1990) (*)... Com a devida vénia ao seu autor, e nosso colaborador permanente para as questões etno-linguísticas, o Cherno Baldé, hoje quadro superior numa orgnização internacional a operar em Bissau: mais exatamente é gestor de projetos  na empresa MF CAON FED, Guiné-Bissau. (Vd. aqui a sua página do Facebook).


Memórias do Chico no Império dos Sovietes, 1985-1990 (Cherno Baldé)  - Parte I:   De Bissau a Kiev, ou o poder da "sétima sorte": É Deus quem afasta as moscas da vaca sem rabo...


Cherno Baldé, Kiev, Ucrânia, 1986


por Cherno Baldé


(i) Bafatá a cidade de todos os sofrimentos (1975-1979)

Após cinco longos anos passados na cidade de Bafatá, em Setembro de 1979, o Chiquinho rumou para Bissau onde devia continuar os estudos. Do grupo de mais de cinquenta estudantes que, com ele, tinham vindo de Fajonquito e Contuboel, já não restavam, na corrida, mais do que cinco.

A viagem de Bafatá a Bissau já não se fazia de barco, como antigamente, mas por via terrestre, em autocarros de uma empresa pública (Silo Diata) que seguiam por uma estrada tortuosa penetrando o Óio pelas localidades de Banjara e passando depois por Mansabá e Mansoa, com as suas vendedeiras de sandes a enxamear a estrada de saída para Bissau. Nesta época de magras receitas, são muitas as famílias que vivem do labor fortuito destas incansáveis Bideiras de rua.

Mesmo se a euforia dos primeiros anos da independência ainda continuava a alimentar as nossas jovens esperanças, entretanto, muita coisa tinha mudado, pode-se dizer mesmo que, passados os primeiros cinco anos de independência, a auréola do partido libertador estava muito ofuscada. 

Tinham conseguido, em pouco espaço de tempo, relativo sucesso na industrialização do país, com fábricas e importantes investimentos em projetos agrícolas para experimentação e vulgarização de técnicas e variedades de arroz (DEPA), mas ao mesmo tempo, a fome que grassava nas cidades, apelidada por fome de Luís Cabral, ameaçava criar fissuras no novo e frágil edifício da construção da unidade nacional.

O governo, recusando-se a importar alimentos, apostava na capacidade da produção interna numa economia pequena, fraca e extrovertida caraterizada por uma baixa produtividade e com nível elevado de pobreza. Nessas condições, tratava-se de uma decisão politicamente bem justificada, mas economicamente mal aplicada cujas consequências imediatas serviriam de pretexto para o golpe militar de 1980 que tinha posto fim ao primeiro governo saído da independência.


(ii) Rato de biblioteca em Bissau, especializado em biografias  

Em Bissau o Chiquinho encontrou o que não havia em Bafatá, sítios ideais para fugir da realidade e esconder-se da fome, chamavam-se bibliotecas. Foi nessa altura que ele deixou de ser o estudante aplicado, de caderno na mão, que sempre fora e passar a ser um rato de biblioteca, donde só saía para ir às aulas.

Adquiriu uma predileção especial na leitura de biografias de destacadas personalidades do mundo político, desde figuras sublimes e pacifistas onde pontilhavam o Mahatma Ghandi e Martin L. King, a algumas sulfurosas e místicas como Adolf Hitler ou do tipo subversivo e oportunista como Joseph Goebbels e Vladimir I. Lenine que, no fundo eram tão infelizes e solitários como ele próprio.

Quando terminava esta série, passava para os romances de Jorge Amado, vivendo os destinos trágicos dos seus personagens sui generis, tirados das favelas e praias de pescadores do nordeste brasileiro.

Dessas leituras deve ter cultivado, o Chiquinho, certa irreverência, sentido crítico e o pessimismo que ainda o caracterizam, assim como certa tendência para a evasão. Ele vivia no Bairro de Cupelum de Baixo em casa de um familiar, ex-combatente, e o sítio mais próximo era a embaixada da Líbia, na rua Pansau Na Isna, que liga o QG ao Hospital Simão Mendes, e onde metade do espólio era constituído por livros de Muahamar Kadhafi, de conteúdo intragável mesmo para um aprendiz de revolução, ainda verde.

Em Junho de 1982, com o término do ensino secundário no liceu Kwame N’krumah (antigo Honório Barreto) de Bissau, tinha-se cumprido, finalmente, uma meta importante na sua vida que, alguns anos antes, não passava de um sonho longínquo. Tinha sido necessário percorrer um caminho bastante atribulado e consentir um enorme sacrifício pessoal. Fazer o 7° ano dos Liceus ou finalizar, como se dizia na altura, era um objetivo a que muito poucos jovens da sua geração e condição social podiam almejar.

(iii) Visita à família em Fajonquito, aproveitando as férias grandes (agosto-setembro de 1982)

Pensando agora no futuro, ele tinha feito um pedido no Ministério da Educação solicitando um lugar para lecionar como voluntário, condição que, em princípio todos deveriam preencher antes de pretender candidatar-se a bolsa de estudos para o exterior, mas a que, na verdade, alguns conseguiam esquivar-se, acedendo diretamente às bolsas para países da sua escolha. Eram todos iguais, mas uns eram mais iguais que outros. Mais que poder continuar os estudos, a sua maior expetativa residia, de facto, na possibilidade de poder voar para longe, conhecer outros países, outras gentes, outras bibliotecas.

A seguir, ele aproveitou para visitar a família durante as férias grandes (de Agosto a Setembro de 1982) em Fajonquito. Na verdade tratava-se de uma visita de regozijo pessoal para acenar aos colegas o seu estatuto de finalista. Durante muitos anos tinha sonhado com este dia, imaginando os mais diversos cenários, como se o mundo fosse mudar com este trivial acontecimento. No fim, não só não aconteceu nada de especial, mas ainda teve que ouvir e engolir alguns ditos maldosos de colegas e de pais invejosos que diziam na sua cara preferir a sétima sorte em lugar do sétimo ano.

A sétima sorte, onde estava ela!?... O Chiquinho não sabia que o trabalho e o esforço pessoal pudessem dar a tal sétima sorte. Tratava-se de palavras ocas, carregadas de inveja e de mesquinhez de gente que era incapaz de fazer melhor. O seu pai, esse, estava feliz, imaginando poder contar em breve com a sua contribuição no sustento da numerosa família.


(iv) Colocado em Quinhamel como "professor voluntário": É Deus quem afasta as moscas da vaca sem rabo...

Quando voltou à capital já tinham feito a colocação sem contar com ele. Por preencher restavam somente alguns postos de escolas situadas em localidades pouco atrativas. Assim, ele teve que escolher entre uma escola de Susana e outra de Quinhamel. 

Sendo originário do leste, era a primeira vez que ouvia falar dessas duas localidades, pelo que se deixou guiar pela intuição e pela música da intonação. Escolheu Susana, bonito nome, e parecia-lhe estar a ver a aparência das meninas locais, susanamente lindas. Devia voltar no dia seguinte para as formalidades.

“Deus ki ta bana baka ki katen rabu” (É Deus quem afasta as moscas da vaca sem rabo), diz um provérbio guineense e foi o que aconteceu com ele. No dia seguinte já só restava uma única possibilidade, a de Quinhamel, alguém tinha ocupado o posto de Susana. Ainda bem. Só muito mais tarde saberia da sorte que acabava de ter. 

Nesse mesmo dia pegou na guia de marcha sem perder mais tempo e foi descobrir, não muito longe de Bissau, uma pequena vila adormecida à volta de palmeirais e cajueiros e pendurada nos dois lados da estrada entre Bissau e Pikin, nas margens do oceano atlântico.

No fundo, o local de afetação era-lhe indiferente desde que não se chamasse Bafatá, a cidade de todos os sofrimentos. Assim, Quinhamel ultrapassaria todas as suas expetativas. Tinha uma escola nova, construída e equipada pela cooperação sueca, um excelente ambiente de vida e camaradagem entre os educadores pouco educados que eles eram, longe dos rigores religiosos do chão fula e muçulmano onde o gesto mais banal era um sacrilégio, onde jovens ainda na flor da idade tinham que encher os ouvidos com sermões obscuros em que o último dos profetas distribuía lugares no cruzamento entre o fogo do inferno e a frescura da glória.

Em Quinhamel residiam meninas simpáticas vindas das localidades circunvizinhas. Os costumes locais, superficialmente tocados por uma igreja católica que o advento da independência colocara fora de jogo, eram muito brandos, o que favorecia um convívio mais livre e saudável entre os jovens. Nos fins de semana ele voltava a Bissau para informar-se das notícias da família.

Aqui, de forma inesperada, ele começou a frequentar a missão católica local onde fez amizade com uma diocesana brasileira (Irma Beatriz) que lhe ensinava a arte de tocar violão com a Bíblia por baixo e, também, começou a colaborar nas atividades da Juventude do Partido (JAAC) através de colegas que faziam parte da sua direção regional e, por esta via, circulava muito entre as aldeias da zona, integrando, por vezes, as comissões de redação no decorrer das conferências do Partido que se organizavam todos os anos.

Se bem que colaborasse com a Juventude [do PAIGC], no seu forro íntimo, detestava o Partido pelos crimes cometidos na sua terra natal e tinha guardada dentro de si a promessa de nunca integrar as suas fileiras. 

Estes encontros, já sem qualquer interesse político, eram momentos de verdadeiras orgias festivas onde as bebedeiras eram uma constante. Não era raro acontecer em plena reunião que grande parte dos distintos camaradas delegados estivesse a dormir numa boa, embalados pela monotonia dos discursos e pelo vinho de caju, abundante na região. Sem o saber, esta sua aparente adesão viria a ser importante para a obtenção da bolsa de estudos.


(v) Pedida de bolsa para estudar no estrangeiro atendido em 1985: a "sétima sorte" contempla-o com Kiev, na Ucrània, URSS

Dois anos mais tarde, o Chiquinho fez o pedido da bolsa para o estrangeiro, com boas referências da comissão regional da Juventude de que fazia parte, ainda assim, só viria a ser atendido em 1985. Neste ano, ele fez parte do grupo de estudantes contemplados com bolsa de estudos para a URSS.

Depois de ter encabeçado durante muitos anos a sua lista de preferências, curiosamente, [a URSS] já não era o país que mais desejava, mas seria uma grande sorte se conseguisse partir. Durante alguns meses reinou a dúvida e a incerteza quanto à viagem, devido a informações contraditórias e às mudanças de última hora nas listas de bolseiros. Ele acreditava tratar-se da tal “sétima sorte” de que tanto ouvira falar na sua aldeia, durante as férias.

Pensando bem, havia muito tempo que convivia com ela, a sétima sorte, desde os dias em que ainda criança, armado com um simples bastão, seguia atrás de manadas de gado bovino em louca correria, fugindo das rajadas de vento carregadas de chuva, pelas bolanhas de Berecolon, zonas deixadas há muito para a gente do mato ou quando se pendurava escondido, nas traseiras de um velho Unimog que ia buscar água para a tropa em Contuboel, no rio Geba, a uma distância de 30 km, colocando o seu amigo Dias perante o facto consumado.

(Continua)

Fotos (e texto): © Cherno Baldé (2011). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

[Fixação / revisão de texto / negritos / título e 
subtítulos: LG]
_________

Nota do editor;

sexta-feira, 30 de março de 2018

Guiné 61/74 - P18471: Tabanca Grande (459): João Schwarz, novo grã-tabanqueiro, nº 768


João Schwarz da Silva, nosso novo grã-tabanqueiro, nº 768..
É o autor da página Des Gens Intéressants,
onde tem perpetuado as memórias de amigos e familiares.
Tem já uma dezena de referências no nosso blogue.


1. Mensagem do João Schwarz, com data de hoje, enviada às 09:29


Olá,  Luís. Aqui vai a fotografia.

Quanto à autoapresentação,  proponho um texto com pequenas recordações da Guiné. Não são duas ou três linhas mas são elementos de uma vida.

Nasci em Alcobaça em 1944, e fui para a Guiné pela primeira vez com 4 anos. Depois da morte do meu avô Samuel Schwarz em Lisboa [, em 1953,] voltei para Bissau onde frequentei o Colégio Liceu Honório Barreto até à minha vinda para a universidade, em Lisboa, em 1960. 

Éramos sete na turma a terminar o 7° ano do Liceu. Destes sete, três vieram para a Universidade em Lisboa. Os outros três desapareceram para o Senegal ou para a Guiné Conakri. Durante muitos anos o reitor do Liceu de Bissau era o Sr. Pequito que toda a gente chamava Sr. Periquito. 

Homem de muita idade, o Sr. Pequito não podia conceber que os rapazes tivessem um certo interesse pelas raparigas. Nos intervalos das aulas os rapazes do pavilhão de baixo iam ver as meninas do pavilhão de cima brincar. Um belo dia o Sr. Pequito viu que havia rapaziada a mais e mandou um berro que entrou para a história: "Saias para cima,  calças para baixo". Acho que não teve outra solução se não  a de demitir-se depois de uma tal bronca.

Com os meus pais [Clara Schwarz e Artur Augusto da Silva,]  visitei toda a Guiné numa época em que só havia 60 km de estrada alcatroada entre Bissau e Mansoa. Passávamos as férias do Natal e da Páscoa em Varela,  no hotel do Sr. Pireza. 

No Natal pendurávamos "neve artificial" nas casuarinas en frente do hotel. Havia um conjunto de casas que tinham sido construídas por varias instituições nas quais eram albergados os amigos deste ou daquele. Para evitar qualquer potencial conflito de interesses,  o meu pai comprou um terreno onde mandou construir uma casota de férias. Lembro-me de assistir ao desembarque, na praia de Varela, de centenas de tartarugas,  o que nos levava a fazer omeletes gigantescas de ovos de tartaruga com sabor a peixe. 

A partir de Varela íamos muitas vezes a Ziguinchor [, no Senegal,]  comprar "coisas modernas" tais como iogurtes. Em Varela lembro-me também de assistir à prospecção de petróleo por uma companhia americana que, quando se foram embora,  deixaram por todo o lado frigoríficos, barcos de fundo chato e material de transporte. O meu pai comprou um desses frigoríficos que era tão bom que só foi reformado em 2014, ou seja,  com 60 anos de serviço. O conceito de obsolescência programada não tinha ainda integrado o mundo industrial. 

Em 1958, com 14 anos, os meus pais decidiram mandar-me em visita à família no Canadá e nos Estados Unidos. Com um passaporte emitido em Bissau e um visto americano concedido em Dakar, lá parti em viagem. Chegado a Chicago, vindo de Montreal, a polícia decidiu entrevistar-me durante umas boas horas pois não sabiam onde era a Guiné.

No meu melhor inglês expliquei que a Guiné era em África e até pedi um mapa do mundo para melhor explicar a situação.Tanto olharam para aquele passaporte que perdi o avião para São Francisco. A polícia não fazia a minima ideia sobre a existência de um continente além do continente americano. 

Em 1968 fui de férias a Bissau onde tirei a carta de condução num dia. Lembro-me que tive que responder à pergunta "O que se faz quando a cancela do comboio esta baixada?". Várias vezes fomos a Dakar de carro com passagem por Bathurst [, hoje Banjul, capital da Gâmbia], uma verdadeira expedição tantos eram os percalços durante o percurso, com travessias em múltiplas jangadas.

Num dos regressos a Bissau, vindos de Dakar, demos boleia ao Amilcar Cabral.

Mais tarde em 1976, com o Luís Cabral como presidente, voltei à Guiné onde trabalhei durante seis meses como perito das Nações Unidas. Dava aulas de matemática ao pessoal do emissor de Nhacra, e fiz um plano para uma rede de rádio FM que cobria toda a Guiné.

Tempos formidáveis onde se concebia o futuro de ânimo leve. A exceção eram os momentos em que havia um problema de saúde. Entre os médicos russos e cubanos que lá estavam lembro-me que os únicos que tinham mesmo cara de ser médicos eram os Cubanos.

Um grande abraço

João


2. Comentário do editor LG:

O convite,  para o João ingressar na nossa Tabanca Grande, tem dois dias (*):

"Gostava que o João se sentasse à sombra do poilão da Tabanca Grande, no lugar nº 768... Não é um lugar físico, é penas simbólico... Somos já 767, entre vivos e mortos, os amigos e camaradas da Guiné, formalmente registados na nossa comunidade virtual...

"Como sabe, exercemos aqui o direito e o dever de memória... A Guiné é o nosso traço de união. O João é um construtor de pontes tal como o Carlos. E, se aceitar o nosso convite, passamos a tratar-nos por tu, à boa maneira romana, dá mais jeito... Só gostaria de ter,eventualmente, uma foto sua, atual, e duas linhas de autoapresentação.".

Obrigado, João, "quem bebeu a água do Geba", fica com o bichinho da Guiné, vacinado contra muitas doenças e sobretudo protegido contra alguns vícios dos filhos dos cavaleiros do apocalipse:  a estupidez, a intolerância, a arrogância, o racismo...

Obrigado, João, pela bem humorada e pessoalíssima apresentação à Tabanca Grande onde se reúnem amigos e camaradas da Guiné. Os camaradas tratam-se por tu, encurtando eventuais distâncias e facilitando a comunicação.  O João, filho da Clara e do Artur, mano do Pepito, está à vontade para me tratar por tu. Por mim, é uma honra acolhê-lo, a partir de agora, nesta comunidade que é mais do que virtual: a Tabanca Grande é a mãe de todas as tabancas, incluindo a Tabanca de São Martinho do Porto.. Pode ser que, com o João, a gente ainda volte lá em dia, em agosto, para homenagear os nossos grã-tabanqueiros, a Clara e o Pepito. (**)

Enfim, para os novos grã-tabanqueiros, costumamos sugerir a leitura, por alto, das 10 regras da política editorial do blogue...
___________

Notas do editor:


(**) Último poste da série > 26 de março de  2018 > Guiné 61/74 - P18461: Tabanca Grande (458): António Joaquim Alves, natural da Malveira, Mafra, a viver no Carregado, Alenquer: ex-sold at cav, CCAV 8351, "Os Tigres de Cumbijã", destacado no COMBIS, Bissau, 1972/74... Senta-se à sombra do nosso poilão no lugar n.º 767

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Guiné 61/74 - P17212: Homenagem a Clara Schwarz (1915-2016): gravações precisam-se para passarem na Rádio Voz de Klelé e eventuamente na Rádio Sol Mansi, em programas que deverão ir para o ar depois da Páscoa (Catarina Schwarz)


Uma das últimas fotos de Clara Schwarz (1915- 2016): uma (e)terna imagem de despedida para os seus filhos, netos, bisnetos e demais família e amigos... A foto é da Catarina Schwarz, a neta que nos últimos anos esteve mais próxima da avó paterna, afetiva e efetivamente, tendo-lhe dado inclusive a alegria de mais uma bisneta,

A Clara era carinhosamente conhecida no seio da família e dos amigos mais íntimos pelo "nickname" Calinhas. Para além dos amigos e admiradores, mais recentes, da Tabanca Grande, deixa muitos amigos também entre os antigos alunos e professores do Liceu Honório Barreto, em Bissau, de que foi cofundadora, com o marido, o jurista e escritor Artur Augusto Silva (1912-1983), e onde foi também professora de francês... 

Deixou uma marca indelével nos seus antigos alunos, alguns dos quais são membros da nossa Tabanca Grande (como, por exemplo, os camaradas António Estácio e o embaixador Manuel Amante da Rosa) ou ainda prestigiadas figuras da nossa vida intelectual e cultural como a escritora e investigador Maria Estela Guedes, que foi sua aluna de francês, "do 2º ao 7º ano" (*). Ou ainda de outras figuras como  João Ramiro Caldeira Firmino, o João Câmara, a engª agrónoma Xanda Monteiro, esposa do engº agr. Manuel Monteiro, amigos da Maria Alice Carneiro.  O nosso António Júlio Estácio tem esses contactos dos antigos alunos da professora de francês dra. Clara Schwarz.

Por sua vontade expressa, as suas cinzas vão ser depositadas junto do marido e do filho Pepito (1949-2014), em Bissau. A Catarina está a organizar um programa de homenagem nas rádios locais e pede a nossa colaboração.

Foto: Cortesia da Catarina Schwarz, Página no Facebook, disponível aqui,


I. Mensagem da nossa amiga Catarina Schwarz, filha do nosso saudoso amigo Pepito (1949-2014) e neta da mulher grande Clara Schwarz (1915-2016), que foi durante anos a "decana" da Tabanca Grande

Data: 31 de março de 2017 às 11:14

Assunto: Clara Schwarz

Olá.  Luís e Maria Alice,

Como estão? Espero que esteja tudo a correr bem convosco!

Nós andamos por Bissau... Um Bissau já bem diferente de há uns anos atrás. Novas caras, outras dinâmicas e outras crises políticas!

Escrevo-vos pelo seguinte: há 3 anos atrás, a minha avó Calinhas, Clara Schwarz, expressou a sua
vontade em ser enterrada na Guiné-Bissau, junto do marido [, Artur Augusto Silva,] e do meu pai.

Assim fizemos e neste momento, estamos a preparar um pequeno programa de rádio em sua homenagem, na Rádio Voz de Klelé e, em princípio,  na Rádio Sol Mansi.

Este programa irá decorrer durante 5 dias e incluirá:


1 - Um apresentação da biografia  da Calinhas;

2 - Pequenas passagens de uns apontamentos  que a Calinhas escreveu em "cadernos dos avós"

3 - Entrevistas presenciais com pessoas  que foram alunas de francês  [, no Liceu Honório Barreto, em Bissau,]  ou conheciam a Calinhas;

4 - Emissão de contributos gravados de amigos  e ex-alunos da Calinhas e que vivem fora da Guiné;

5 - Uma linha aberta para quem esteja interessado em participar com questões ou contributos,


Gostávamos muito que este programa fosse enriquecido com o vosso testemunho, amigos do meu pai, amigos da minha avó, que de uma forma ou de outra, sempre a acompanharam e de quem ela falava com regularidade e muita estima.

A ideia é gravar (via WhatsApp ou Skype) breves palavras sobre a Calinhas, ou uma história que viveram com ela (o vosso contributo seria enquadrado no ponto 4 do programa de rádio).

Caso tudo isto seja possível, teríamos de trocar contactos (WhatsApp ou Skype), para que depois eu possa descarregar as gravações e passá-las na rádio.

Por outro lado, se acharem mais conveniente (do que as gravações) podemos ler o poema que escreveste à minha avó, por ocasião dos seus 100 anos,  e passar a(s) música(s) que o João tocou para a Calinhas, em São Martinho do Porto.

Beijinhos e um bom fim-de-semana.
Catarina

II. Resposta do nosso editor Luís Graça:


Catarina: Que bom receber notícias tuas!... Acabamos, eu e a Alice, de chegar do sul de Marrocos onde fomos passar 12 dias de "férias"... Estive estes dias completamente desligado do blogue e da Net...

Fico feliz pela tua iniciativa de cumprir o desejo da tua avó... A "Tabanca Grande" quer desde já associar-se a homenagem que estás a preparar... Afinal, para além de amiga, ela foi durante anos a "decana" da Tabanca Grande... Pelo que, se mo permites, deixa-me dar a notícia no blogue e da nossa página do Facebook, de modo a que outros contributos de amigos e admiradores da tua avó possam aparecer...

Para já dispõe de todos os materiais (textos, fotos, vídeos...) que publicámos ao longo destes anos de convívio estreito com o teu pai, com a tua avó, contigo, a tua mãe e demais família...

O João está no sul de Itália, deve voltar no próximo fim de semana. Vou-lhe  pedir que grave de novo uma das músicas klezmer de que a tua avó tanto gostava (a começar pelo Bulgar de Odessa, cidade onde os teus avós, Samuel e Agatha, se casaram).

Diz-me qual é o teu "timing"... Posso também gravar um texto poético... E haverá, por certo, outros amigos, como o Zé Teixeira, que vão querer participar...

Vai dando notícias... Beijinhos para ti, para a tua menina e para a tua mãe.

Luís.
Xicoração da Alice.

PS - A Clara Schwarz entrou para a Tabanca Grande em 14/2/2010, no dia em que fez 95 anos (*). Foi a nossa "decana" até à data da sua morte, em 11 de dezembro de 2016. (**)

Na altura, escrevemos-lhe o seguinte: "A nossa singela prenda de aniversário, é pô-la aqui, debaixo do poilão da nossa Tabanca Grande, a falar com todos os amigos e camaradas da Guiné, a partilhar connosco as histórias de uma vida... A Clara, que atravessou o Séc. XX e continua a sorrir-nos e a surpreender-nos no Séc. XXI, passa ser a Mulher Grande da nossa Tabanca Grande, o novo membro, o 397º, da nossa tertúlia. (O seu nome figura, desde hoje, na nossa lista alfabética, na letra C)... E daqui a cinco anos, em 2015, vamos apagar-lhe a vela do centenário!... Combinado ?"...

E a verdade é que ela e nós cumprimos o prometido. Ela chegou, não aos 100, mas aos 101. Não quis festejar os 100 anos por estar ainda a fazer o luto da morte recente do seu filho Carlos Schwarz da Silva, o nosso Pepito. Mas não demos-lhe, como sempre, os parabéns (***). Tem 44 referências no nosso blogue. O seu nome continuará  a figurar, na Tabanca Grande, na coluna do lado esquerdo do nosso blogue, na lista dos 53  amigos e camaradas da Guiné que "da lei da morte já se foram libertando".

III. Nova mensagem da Catarina Schwarz, com data de anteontem: 

Olá, Luís, Maria Alice e João

Obrigada desde já pela vossa atenção!

Marrocos e Itália, parece-me muito bem! Será que as catástrofes naturais de Itália já acabaram? A nossa catástrofe chama-se José Mário Vaz, o presidente da república da Guiné... que diz que quer ser o melhor PR do país e só faz disparates!

Entretanto, estamos a apontar para depois da Páscoa, o início do programa de rádio.

Vou aproveitar então o poema e a música tocada pelo João que também está no blogue. A história da Joana também é engraçada! A minha avó ficou maravilhada e lembrava-se sempre desse episódio.

Os contributos da Tabanca Grande serão mais do que bem-vindos!

Temos de encontrar uma forma eficaz de fazer as gravações (o WhatsApp parece ser a forma mais simples).

Beijinhos a todos!
Catarina

_______________

Notas do editor:

(*) Vd. poste de 14 de fevereiro de 2010 >  Guiné 63/74 - P5813: Parabéns a você (79): Clara Schwarz da Silva, 95 anos, uma grande senhora, viúva de Artur Augusto da Silva, mãe do nosso amigo Pepito, leitora do nosso blogue, novo membro da Tabanca Grande (Luís Graça)

(**) Vd. poste de:

11 de dezembro de 2016 > Guiné 63/74 - P16825: In Memoriam (272): dra. Clara Schwarz da Silva (1915-2016), mãe dos nossos amigos Henrique, João e Pepito (1949-2014), cofundadora e professora do Liceu Honório Barreto, em Bissau, decana da Tabanca Grande. Dia 14, 4ª feira, haverá uma pequena cerimónia de despedida, no crematório de Barcarena, Oeiras 20 de dezembro de 2016 



(***) Vd. postes de:


14 de fevereiro de 2016 > Guiné 63/74 - P15744: Parabéns a você (1033): Senhora D. Clara Schwarz, Centenária Amiga Grã-Tabanqueira, Mãe do nosso falecido amigo Carlos Schwarz (Pepito), e decana da Tabanca Grande... Faz hoje 101 anos!

14 de fevereiro de 2015 > Guiné 63/74 - P14256: Homenagem da Tabanca Grande à nossa decana: a "mindjer grande" faz hoje 100 anos... Clara Schwarz da Silva, mãe do Pepito (8): Mensagens da Tertúlia

14 de fevereiro de 2014 > Guiné 63/74 - P12715: Parabéns a você (691): Senhora Dona Clara Schwarz, Grã-Tabanqueira, mãe do nosso amigo Pepito, que a partir de hoje fica a um pequeno passo do seu centenário

14 de fevereiro de 2013 > Guiné 63/74 - P11094: Memória dos lugares (212): Ilha da Brava, Sotavento, Cabo Verde... Em homenagem a Clara Schwarz (n. 1915, Lisboa) e ao seu saudoso cretcheu Artur Augusto Silva (1912, Brava -1983, Bissau) (João Graça / Luís Graça)

14 de fevereiro de 2013 > Guiné 63/74 - P11093: Parabéns a você (535): Senhora Dona Clara Schwarz faz 98 anos!

14 de Fevereiro de 2012 > Guiné 63/74 - P9484: Parabéns a você (216): 97° Aniversário de Clara Schwarz da Silva, mãe do nosso amigo Pepito, a nossa matriarca, a decana da nossa Tabanca Grande, a anfitriã da Tabanca de São Martinho do Porto

14 de fevereiro de 2011 > Guiné 63/74 - P7780: Parabéns a você (216): 96° Aniversário de Clara Schwarz da Silva, nascida a 14/2/1915, uma cidadã do mundo, co-fundadora e professora do Liceu Honório Barreto, em Bissau, cuja presença na Tabanca Grande muito nos honra... (Luís Graça, co-editores, amigos e antigos alunos)