sábado, 12 de junho de 2010

Guiné 63/74 - P6582: O discurso de António Barreto no dia 10 de Junho de 2010 (2) (Amaro Samúdio / Felismina Costa)

1. Mensagem de Amaro Munhoz Samúdio, ex-1.º Cabo Enfermeiro da CCAÇ 3477, com data de 10 de Junho de 2010:

Caro Luís
Claro que irei transmitir algumas Histórias.
Já falei com o Abilio Delgado para escrever para o Blogue.

Como conseguiram, no último encontro, convencê-lo a organizar, em 2011, na Ericeira o próximo, vou insistir com ele.

Hoje vou ao 10 de Junho porque não quero passar o dia e esquecer algumas coisas que com o passar do tempo naturalmente a memória se não for avivada esquece.

Como permanentemente faço, irei transmitir ao 1.º Ministro e Ministro da Defesa a minha opinião sobre os Antigos Combatentes neste 10 de Junho.

Envio-te já,em anexo, as linhas gerais que à pressa escrevi.

Um Abraço
A.Samúdio


10 DE JUNHO DIA DE PORTUGAL DE CAMÕES DAS COMUNIDADES PORTUGUESAS E DOS ANTIGOS COMBATENTES

Hoje, dia 10 de Junho falou-se, finalmente em comemorações Oficiais, de Antigos Combatentes.

E quem falou, O Presidente da República? Não.

O Primeiro Ministro? Não.

Foi o Senhor António Barreto, Presidente das Comemorações do dia de Portugal.

Não quero que seja entendido que se é criticado quando se fala ou quando não se diz nada.

O Senhor António Barreto transmitiu, hoje dia 10 de Junho, correctamente que “... o Estado não tem tratado bem os seus Antigos Combatentes…” e que, “...“ o Estado cumpre mal perante tudo aquilo que lhes exigiu… “.

Admito que não sejam problemas de consciência , como antigo governante, dizer aquilo que uma geração de juventude sofreu, sofre e sofrerá.

Os anos que estiveram, sim os anos, no ultramar representam para os Antigos Combatentes, não só o que lá sofreram, enquanto miúdos, mas a revolta por os responsáveis deste País não reconhecerem que aqueles tempos os marcaram para toda a vida.

Se o sofrimento se transmitisse em lei cada ano foi uma vida.

Marcaram-nos, mas também esposas, filhos, mães, país, familiares, marcaram uma geração passada e uma vindoura.

Os Antigos Combatentes agradecem as palavras os monumentos etc., mas precisam de actos que tenham reflexo nos dias de vida que ainda lhes restam e ter a paz possível , não conseguem entender, pelo menos eu, só em relação à reforma, que um regime fascista os tivesse mandado para a guerra e que um regime democrático lhes aumente, em declaração de guerra, a idade de reforma para os 65 anos.

Amaro Munhoz Samúdio
Guiné 1971/1973

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2. Mensagem da nossa tertuliana Felismina Costa com data de 12 de Junho de 2010:

Boa-noite, amigo Carlos Vinhal
Quero agradecer-lhe a visibilidade dada ao meu poema, (Viva Portugal) e dizer-lhe que fui assistir às vossas comemorações do dia de Portugal.

Estive lá, e sinto-me honrada com a dignidade dada, tanto às comemorações, como ao espaço e momumento eregido, aos que na defesa da Pátria, deram tudo:

Juventude, sonhos, anseios, sangue... e vida!...
Foi com emoção que olhei as lápides, que ostentam os nomes desses jovens arrancados à sua vida breve, e que deixaram por certo, muitas famílias, infinitamente tristes e saudosas.

Junto ao lugar donde partiram no passado as caravelas que, se bem pensarmos, originaram o grande pesadelo, que foram os anos de 61/74 da nossa era, são lembrados os que aí pereceram!

Dir-se-ia, que o mar devolveu, quem se atraveu.
É a História, que temos que escrever!
A história, que estamos a escrever!
Mas, ninguém foi mais audaz!
Descobrimos mundos!
Levamos religião, língua, costumes, cultura, civilização, contudo...não somos perfeitos.
E, alguém o será?

Um abraço de gratidão da amiga certa
Felismina Costa
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Nota de CV:

Vd. poste de 10 de Junho de 2010 > Guiné 63/74 - P6574: O discurso de António Barreto no dia 10 de Junho de 2010 (1) (Inácio Silva / Joaquim Mexia Alves)

Guiné 63/74 – P6581: Fichas de Unidades (7): Companhia de Artilharia 2673 - CART 2673 (José Martins)

1. Quando é necessário sabermos o historial de uma Unidade, recorremos aos bons préstimos do nosso Camarada José Marcelino Martins (ex-Fur Mil de Transmissões da CCaç 5 - Os Gatos Pretos -, Canjadude, 1968 a 1970), que se tem prontificado eficaz e prestavelmente, através da sua melhor e mais exaustiva pesquisa, a colaborar na prestação, às pessoas interessadas, deste tipo de dados.

Agradecendo, desde já, a sua amigável e prestável colaboração, apresentamos a seguir, a pedido do nosso Camarada Hélder de Sousa, os resultados do seu melhor estudo, devidamente adaptado e condensado da CART 2673, elaborado em 08 de Junho de 2010:


CART 2673

Camaradas,

De um e-mail do nosso camarada e amigo Hélder Sousa, recebido em 27 de Maio de 2010, respigamos algumas frases, para nos colocarmos em sintonia (ou não fossemos de transmissões), num dos assuntos que me levou, ao Arquivo Histórico Militar:

“Bom dia, caro amigo e camarada...

Como vai essa 'luta' aí com as contas? Calculo que 'durinho', como sempre.

Olha, estou a comunicar-te para te solicitar algum trabalho mas, desde já te digo que não precisas correr...

Acontece, é que depois ele me pede para ver se consigo saber alguma coisa sobre as circunstâncias do falecimento de um camarada Furriel, chamado Fernando Pacheco dos Santos, ao que parece nado e criado em Setúbal (por eu agora viver cá ele pensou que eu poderia conhecer mas a verdade é que só vim para cá trabalhar 2 meses antes do 25 de Abril de 74 e passei a viver em permanência só a partir de Julho/Agosto de 75) e que pertenceu à CART 2673.

Diz que já procurou e não encontrou nada de pormenorizado, diz que morreu em combate, salvo erro em 7 de Julho de 1970, pois é isso que parece estar no portal dos combatentes em que se refere ter essa Companhia tido 4 mortos nesse dia, entre os quais o tal Fernando que esteve com ele em Vendas Novas.

(…)

Por mim vou tentar ver junto de alguns, poucos, conhecidos, aqui de Setúbal que possam ter sido contemporâneos e/ou possam saber algo mais.

Abraço,
Hélder Sousa”

2. A resposta do José Martins ao Hélder Sousa:

Caro Hélder,

Aqui vai a resposta que consegui obter para a tua questão. Foi finalizado há pouco, já que hoje estive na Liga dos Combatentes para obter alguns elementos.

Felizmente temos lá a nossa amiga Teresinha, que faz o favor de me facultar o que lhe peço e sempre a correr, pois não há estacionamento e deixo o carro em transgressão.

O texto segue com conhecimento ao blogue e ao António Pires. Penso que, pelo seu interesse, esta história não deve ser privada.

CART 2673


Brasão retirado de http://guerracolonial.home.sapo.pt/
© Jorge Santos, com a devida vénia.

Antes de entrar na transcrição, do que localizei na AHM, refiro que a Companhia de Artilharia nº 2673, teve, como unidade mobilizadora, o Grupo de Artilharia Contra Aeronaves nº 2, aquartelada em Torres Novas, de onde partiu para a Guiné e onde chegou em 6 de Fevereiro de 1970 (tinha embarcado em Lisboa em 31 de Janeiro anterior), tendo regressado em 2 de Dezembro de 1971.

Foi comandada pelo Capitão de Artilharia Adolfo Pereira Marques, que foi substituído pelo Capitão Miliciano José Vieira Pedro.

Usou como Divisa “Leões de Empada” e a história da unidade encontra-se arquivada na caixa 91, na 2ª Divisão/4ª Secção do AHM.

Do seu percurso no CTIG, refere-se que seguiu para Empada em 4 de Fevereiro de 1970, para substituir a Companhia de Caçadores nº 2381 e assumir a responsabilidade do subsector em 26 desse mesmo mês.

Desde 9 de Abril, cedeu pelotões para reforço de Nhacra e Buba até 12 de Julho de 1970, data em que regressaram a Empada. O subsector de Empada tinha sido alargado com as zonas de acção das áreas das penínsulas de Cubisseca e Pobreza.

Foram obtidos excelentes resultados nas operações realizadas pela subunidade nas operações realizadas nas regiões de Caúr, Buduco, Cancumba e Satecuta, entre outras.

Foi rendida no subsector de Empada pela Companhia de Caçadores nº 3373, em 28 de Maio de 1971, seguindo para Bissau onde substitui a Companhia de Caçadores nº 2571, na guarnição e defesa dos pontos sensíveis da área.

A 30 de Maio de 1971 assumiu o subsector de Brá, integrando o COMBIS [Comando de Bissau], destacando efectivos para Safim e João Landim, subsector de Nhacra, e para Cumeré, em reforço das guarnições locais, até ser rendida pela Companhia de Artilharia nº 2672, para embarcar para a metrópole.

[7º Volume - Tomo II – Guiné – Fichas das Unidades, da Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961 – 1974), página 472]

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Em 2 de Junho de 2010, no Arquivo Histórico Militar, com o processo à minha frente, fui desfolhando, página a página, tentando encontrar algo que me levasse ao facto que estava em análise, retirando do mesmo o seguinte:

CAP II / HU / PAG. 17 e 18
FASCICULO IV
(Período de 01JUL70 – 31JUL70)

SITUAÇÃO GERAL

Com as primeiras chuvas, o terreno tornou-se mais propício aos deslocamentos do IN [inimigo]. Na época seca, após as queimadas, grandes extensões de terreno são visíveis, dificultando-lhes a entrada na nossa ZA [zona de acção], já que as NT [nossas tropas] batem diariamente toda a zona. A partir desta altura, o capim cresceu, permitindo-lhes a aproximação diurna, com maior facilidade. Tomando partido dessa vantagem, o IN pretendeu, no período em referência, efectuar um ataque em força e um possível assalto ao quartel e tabanca. Apoiado por um grupo de foguetões, instalado em CÃ BALANTA, deslocou efectivos da ordem de 200 combatentes que se aproximaram por IANGUÉ-CAUR DE BAIXO BEAFADA. No mesmo conjunto vinham integrados grupos de artilharia e infantaria.

Levariam adiante os seus intentos, se não fosse um reduzido GCOMB [grupo de combate] reforçado com Milícia, perfazendo um efectivo de 30 homens, emboscados no cruzamento de CAUR, que lhe fez frente, causando-lhes inúmeras baixas.

Entretanto, devido à enorme superioridade do IN em efectivos e material, também as NT tiveram baixas e sofreram a captura de algum material. Só um punhado de combatentes voluntariosos, bem conduzidos pelo seu chefe, conseguiu que o contacto IN não redundasse em tragédia total. Para o insucesso parcial das NT, muito contribuiu a falta de efectivos de que então se dispunha, devida a 2 GCOMB continuarem em diligência na CCAÇ 2616.

Por informações posteriores, soube-se que o IN tinha conhecimento da falta de efectivos em Empada, motivo por que foi planeada tal operação.

Este facto baixou um pouco o moral das NT, tendo o comando da Companhia envidado todos os esforços para que tal não acontecesse. Também a visita de Sua Exª o Comandante-Chefe, teve como fim principal estimular as NT aproveitando para recordar as críticas elogiosas que sempre fizera à CART. Igualmente deu ordem para os 2 GCOMB regressarem de novo à CART, voltando a ficar toda reunida.

Todas as actividades do período anterior foram mantidas, renovando a segurança aos trabalhos da bolanha da UALADA, no início da nova época agrícola. Foram dadas à população todas as facilidades de transporte.

ACTIVIDADES DIÁRIAS

01JUL - À tarde, 1 GCOM com Milícia patrulharam CANCHUMA, CANTORÁ e emboscaram no cruzamento de CANTORÁ.

02JUL - 1 GCOMB com Milícia patrulharam MISSIRÁ BIAFADA, FARANCUNDA BALANTA, emboscando no trilho, seguindo depois por BUNHADO, FARANCUNDA BEAFADA, MISSIRÁ BEAFADA e BUDUCO.

03JUL - 1 GCOMB com Milícia patrulharam UALADA e MISSIRÁ BALANTA, montando uma emboscada em BADUCO.

04JUL - 1 GCOMB com Milícia patrulharam MISSIRÁ BEAFADA, FARACUNDA BEAFADA, MADINA DE CIMA BEAFADA, BUNHADO, DANDO e MISSIRÁ BEAFADA.

05JUL - Ao entardecer 1 GCOMB com Milícia patrulharam MISSIRÁ BALANTA e UALADA e montaram uma emboscada nocturna em CANCUMBA BALANTA.

06JUL - À tarde, 1 GCOMB com Milícia patrulharam CANCHUMA, CANCUMBA BEAFADA, onde foi montada uma emboscada nocturna.

07JUL - Às 15H30, 2 secções do 1º GCOMB reforçadas com Milícia, seguiram para o cruzamento de CAUR, onde emboscaram, À 17H30, progredindo obliquamente à instalação das NT e na direcção deles, apareceu um numeroso grupo IN. Quase simultaneamente as NT abriram fogo, abatendo dois elementos do IN, que abriu um intenso e ajustado fogo de PRG e armas automáticas sobre as NT, matando os apontadores e municiadores de armas pesadas. Alguns Milícias assustados com o potencial IN, retiraram para o quartel, ficando as NT reduzidas a 7 homens válidos, a fazerem face ao IN. Foi pedido apoio aéreo que não se efectivou, devido às péssimas condições atmosféricas. O reforço do quartel tardou a ir e chegou minguado, embora com ele se pusesse o IN em debandada. Veio segundo reforço do quartel que ajudou a transportar os mortos e os feridos. Nesta acção as NT sofreram 4 mortos e sete feridos, e a Milícia 3 mortos e 4 feridos. O IN sofreu 5 mortos confirmados e mais prováveis. Cerca das 19H00 o IN flagelou, pela 1ª vez, com foguetões 122mm, sem consequências.

08JUL - Cerca das 04H00 da madrugada, regressaram as forças a que se refere a acção do dia anterior. Sua Exª o Comandante-chefe, visitou EMPADA, para se inteirar de todos os acontecimentos da véspera. Em formatura da CART e Compª de Milícia, S. Exª procurou moralizar o pessoal em face dos últimos acontecimentos. Aos milícias que fugiram, expulsou-os da Companhia. Aos que enfrentaram o IN, elogiou-os pela sua coragem. Perante os mortos, perfilou-se em continência, mantendo alguns momentos de silêncio.

09JUL - 1 GCOMB com Milícia patrulharam UALADA, MISSIRÁ BALANTA, MISSIRÁ BEAFADA e BUDUCO.

10JUL - 1 GCOMB com Milícia patrulharam UALALA, CANCUMBA BALANTA e CANCUMBA BEAFADA.

11JUL - 1 sec COM MILÍCIA montaram segurança aos trabalhadores da bolanha de UALADA.

12JUL - 1 GCOMB com Milícia, saíram à tarde para patrulhar a zona de UALADA, CANCUMBA BALANTA e CANCAUMBA BEAFADA, onde montaram uma emboscada nocturna. Regressaram de BUBA o 2º e 3º GCOMBS, que ali se haviam mantido em diligência na CCAÇ 2616.

CAP III / HU / PAG. 4
FASCICULO IV
(Período de 01JUL70 – 31JUL70)

A – BAIXAS SOFRIDAS

a) Em combate no dia 7 de Julho de 1970

Mortos

  • * 1º Cabo Miliciano Atirador de Artilharia, NM 08198469 – FERNANDO PACHECO SANTOS
  • * 1º Cabo Atirador de Artilharia, NM 09773669 – AGOSTINHO VALE ALMEIDA
  • * Soldado Atirador de Artilharia, NM 09002769 – JOSÉ CONSTANTINO GONÇALO
  • * Soldado Atirador de Artilharia, NM 09327569 – ERCILIO SILVA MEDEIROS
  • * Comandante Secção de Milícias nº 40464 – MALAN CASSAMÁ
  • * Soldado Milícia, nº 44264 – ANSUMANE JALÓ
  • * Soldado Milícia, nº 50864 – ANSUMANE MANÉ
    Feridos Graves
  • * 1º Cabo Atirador de Artilharia, NM 12538769 – ANTÓNIO SILVA
  • * Soldado Atirador de Artilharia, NM 09327569 – VALDEMAR C. FERREIRA
  • * Soldado Atirador de Artilharia, NM 09115569 – ANTÓNIO HERMINIO DINIS
  • * Soldado Atirador de Artilharia, NM 09154669 – VITOR SANTOS TEIXEIRA
  • * Soldado Milícia, nº 42064 – MUSSA BALDÉ
  • * Soldado Milícia, nº 44564 – SIRO MANÉ
  • * Soldado Milícia, nº 50464 – CHERIFO INJAI
  • * Soldado Milícia, nº 44364 – CHERIFO JAURA
    Feridos Ligeiros
  • * Aspirante a Oficial Miliciano, NM 14055369 – AGOSTINHO CORREIA SILVA
  • * 2º Sargento de Artilharia, NM 52023911 – MANUEL ADELINO CORREIA TEIGAO
  • * 1º Cabo Atirador de Artilharia, NM 19782569 – ANTÓNIO J. F. FERREIRA

b) Por outras causas
Nada

B – PUNIÇÕES
Nada

C – LOUVORES E CONDECORAÇÕES

a) Apreciação da actividade operacional por S. Exª o General Comandante-chefe ao BCAÇ 2892, destacando-se a parte que interessa à CART:

- Período de 12 a 19 de Julho de 1970

“Boa e bem orientada actividade geral, salientando-se a actividade da Guarnição de EMPADA” (CART 2673)

-Período de 26 de Julho a 2 de Agosto de 1970

“Boa e bem orientada actividade geral, continuando a verificar-se boa actividade da Guarnição de EMPADA” (CART 2673)

CAP III / HU / PAG. 5
FASCICULO V
(Período de 01AGO70 – 31AGO70)

A – BAIXAS SOFRIDAS

a) Em combate
Nada

b) Por outras causas
Nada

B – PUNIÇÕES
Nada

C – LOUVORES E CONDECORAÇÕES

a) Apreciação da actividade operacional por S. Exª o General Comandante-Chefe ao BCAÇ 2892, destacando-se a parte que interessa à CART:

- Período de 09 a 16 de Agosto de 1970

“Boa e bem orientada actividade geral, salientando-se a actividade da Guarnição de EMPADA” (CART 2673)

b) Louvores individuais

Pelo Exmº Comandante do BCAÇ 2892, foram louvados os seguintes militares da Companhia de Artilharia nº 2673 e da Companhia de Milícias nº 6:

  • * 1º Cabo Miliciano Atirador de Artilharia, NM 08198469 – FERNANDO PACHECO SANTOS (A Título Póstumo)
  • * Soldado Atirador de Artilharia, NM 09308669 – ANTÓNIO CARVALHO COUTO
  • * Soldado Radiotelegrafista, NM 09097669 – JOSÉ MOTA BRITES
  • * Comandante de Pelotão de Milícias nº 21864 – BUBACAR BARÓ

Começaram a elaborar-se processos de averiguações para atribuição de Medalha Militar, aos seguintes militares:

  • * Aspirante a Oficial Miliciano, NM 14055369 – AGOSTINHO CORREIA SILVA
  • * 2º Sargento de Artilharia, NM 52023911 – MANUEL ADELINO CORREIA TEIGAO

CAP III / HU / PAG. 10
FASCICULO X

Desde 23JAN71 está-se a proceder à organização de processo de averiguações para atribuição de Medalha Militar, aos seguintes militares:

  • * 1º Cabo Miliciano Atirador de Artilharia, NM 08198469 – FERNANDO PACHECO SANTOS
  • * 1º Cabo Atirador de Artilharia, NM 09773669 – AGOSTINHO VALE ALMEIDA
  • * Soldado Atirador de Artilharia, NM 09002769 – JOSÉ CONSTANTINO GONÇALO
  • * Soldado Atirador de Artilharia, NM 09327569 – ERCILIO SILVA MEDEIROS

CAP III / HU / PAG. 17
FASCICULO XVI
……………………

C – LOUVORES E CONDECORAÇÕES

a) Condecorações

  • 1º Cabo Miliciano Atirador de Artilharia, NM 08198469 – FERNANDO PACHECO SANTOS, condecorado com a Cruz de Guerra 4ª Classe, a título póstumo, por despacho de de Sua Exª o General Comandante-Chefe.

CAP III / HU / PAG. 19
FASCICULO XVIII
……………………

C – LOUVORES E CONDECORAÇÕES

b) Condecorações

Concedida a Medalha das Campanhas da Guiné, com a legenda “GUINÉ 1970 – 1971” por despacho de S. Exª o Brigadeiro Comandante Militar, aos militares da CArt 2673, a seguir mencionados
………………………

Pessoal que faleceu por ferimentos em combate:

  • * 1º Cabo Miliciano Atirador de Artilharia, NM 08198469 – FERNANDO PACHECO SANTOS
  • * 1º Cabo Atirador de Artilharia, NM 09773669 – AGOSTINHO VALE ALMEIDA
  • * Soldado Atirador de Artilharia, NM 09002769 – JOSÉ CONSTANTINO GONÇALO
  • * Soldado Atirador de Artilharia, NM 09327569 – ERCILIO SILVA MEDEIROS

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Elementos retirados do 8º Volume - Mortos em Campanha – Resenha Histórico.Militar das Campanhas de África (1961 -1974)].

Tomo II – Livro 1, pagina 532 e 533

Pertencentes à Companhia de Artilharia nº 2673, mobilizada no Grupo de Artilharia Contra Aeronaves nº 2, em Torres Novas, e falecidos em combate em Empada, depois do cruzamento de Caur, no dia 7 de Julho de 1970:

  • AGOSTINHO VALE ALMEIDA, 1º Cabo Atirador de Artilharia, NM 09773669,Solteiro,filho de Agostinho Torres de Almeida e Maria da Conceição Vale, natural da freguesia de Santa Marinha e concelho de Seia. Foi inumado no Cemitério Paroquial de Santa Marinha.
  • ERCILIO SILVA MEDEIROS, Soldado Atirador de Artilharia, NM 09327569, solteiro, filho de Feliciano Medeiros e Maria da Silva, natural do lugar da Charca de Medriz, freguesia de Relíquias e concelho de Odemira. Foi inumado no Cemitério Paroquial de Relíquias.
  • FERNANDO PACHECO SANTOS, 1º Cabo Miliciano Atirador de Artilharia, NM 08198469, Solteiro, filho de Januário dos Santos e Maria Jacinta Pacheco dos Santos, natural da freguesia de Anunciada e concelho de Setúbal. Foi inumado no Cemitério de Nossa Senhora da Piedade em Setúbal.
  • JOSÉ CONSTANTINO GONÇALO, Soldado Atirador de Artilharia, NM 09002769, Solteiro, filho de José Gonçalo e Maria Felicidade, natural da freguesia de Nadadouro e concelho de Caldas da Rainha. Foi inumado no Cemitério de Nadadouro.

Tomo II – Livro 2, pagina 512

Mobilizados no Comando Territorial Independente da Guiné, para servirem em unidades do exército como Caçadores Nativos, Soldados Milícias, Policias administrativos, Guias e Outros, Adidos à Companhia de Artilharia nº 2673, mobilizada no Grupo de Artilharia Contra Aeronaves nº 2, em Torres Novas, e falecidos em combate em Empada, depois do cruzamento de Caur, no dia 7 de Julho de 1970, e foram todos inumados no Cemitério de Empada, na Guiné:

  • ANSUMANE JALÓ, Soldado Milícia, nº 44264, casado com Djanque Vermelho, filho de Pasim e Carinom, natural do lugar Pelundo da freguesia de Nossa Senhora da Natividade e concelho de Cacheu.
  • ANSUMANE MANÉ, Soldado Milícia, nº 50864, casado com Fati Sambu, filho de Infali Mané e Mansata Camará, natural da freguesia de Cancundo e concelho de São Benedito.
  • MALAN CASSAMÁ, Comandante Secção de Milícias nº 40464, casado com Binta Mané, filho de Ansumane Cassamá e Mariana Injai, natural do lugar de Batambali, freguesia de São Benedito e concelho de Fulacunda

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Elementos retirados do 5º Volume - Condecorações Militares Atribuídas – Cruz de Guerra, Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961 -1974)].

Tomo VI – Cruz de Guerra 1970-1971, pagina 500

  • 1º Cabo Miliciano Atirador de Artilharia nº 08198469
    FERNANDO PACHECO DOS SANTOS
    CArt 2673/BCaç 2892/GACA 2
    Guiné
    4ª Classe (Título Póstumo)
    Transcrição do Despacho publicado na OE nº 22 - 3ª série, de 1971
    Agraciado com a Cruz de Guerra de 4ª classe, nos termos do artigo 12º do Regulamento da Medalha Militar, promulgado pelo Decreto nº 35 667, de 28 de Maio de 1946, por despacho do Comandante-Chefe das Forças Armadas da Guiné, de 4 de Junho findo, o 1º Cabo Miliciano nº 08198469 Fernando Pacheco dos Santos, da Companhia de Artilharia nº 2673/Batalhão de Caçadores nº 2892 – Grupo de Artilharia Contra Aeronaves nº 2, a título póstumo.
    Transcrição do louvor a que deu origem a condecoração
    (Publicado na OS nº 54, de 31 de Dezembro de 1970 do QG/CTIG)
    Que, por seu despacho de 23Dez70, considera-se como dado por si, o louvor, a título póstumo, constante do Artº 3º, nº 1, da OS nº 191, de 1oAGO70,do BCaç 2892, conferido ao 1º Cabo Miliciano nº 08198469 Fernando Pacheco dos Santos, com o mesmo teor:
    “Porque, no dia 07Jul70, durante uma emboscada montada pelo seu Grupo de Combate, quando um forte e bem armado grupo In reagia com grande impetuosidade desde o inicio do desenrolar da acção, manteve-se de pé, lançando dilagramas e incentivando os homens da sua Secção, só deixando de o fazer quando foi mortalmente atingido.
    O 1º Cabo Miliciano Pacheco, pela grande coragem, desprezo pelo perigo e pela própria vida, evidenciou as qualidades que caracterizam um verdadeiro combatente.”

Tomo VII – Cruz de Guerra 1972-1973, pagina 87

  • Aspirante a Oficial Miliciano de Artilharia
    AGOSTINHO CORREIA DA SILVA
    CArt 2673/GACA 2
    Guiné
    3ª Classe
    Transcrição Da portaria publicada na OE nº 7 - 2ª série, de 1972
    Manda o Governo da Republica Portuguesa, pelo Ministro da Defesa Nacional, condecorar, por proposta do Comandante-Chefe das Forças Armadas da Guiné, o Aspirante a Oficial Miliciano, Agostinho Correia da Silva, da Companhia de Artilharia nº 2673, do GACA nº 2, com a medalha da Cruz de Guerra de 3ª classe, ao abrigo dos artigos 14ª, 15ª 16ª e 63º do Regulamento da Medalha Militar, de 20 de Dezembro de 1971.
    Transcrição do louvor a que deu origem a condecoração
    (Publicado na OS nº 29, de 19 de Novembro de 1971, Do CCFAG e nº 123, de 24 de Maio de 1972, do GACA 2):
    Louvado o Aspirante a Oficial Miliciano, Agostinho Correia da Silva, da CArt 2673 -GACA 2, por Sua Excelência o General Comandante-chefe das Forças Armadas da Guiné, por despacho de 12Nov71, pelas qualidades de coragem, decisão e sangue frio e serena energia debaixo de fogo demonstradas no comando do seu Grupo de Combate no decorrer de uma emboscada montada pelas nossas tropas, perante um inimigo forte bem armado e que reagiu com invulgar potencial de fogo.
    Com verdadeiro desprezo pelo perigo e só depois de haver sofrido algumas baixas, conseguiu com o seu reduzido número de elementos que lhe restavam, aguentar a impetuosidade das arremetidas do IN durante cerca de duas horas. Por meio de lanços e protegendo-se com o fogo da sua arma, manobrou no terreno conseguindo retirar os seus subordinados da zona mais fortemente batida.
    Deste modo, com a sua valorosa actuação, aguentou o fogo IN e causou várias baixas ao adversário até ao momento em que, com os reforços recebidos, obrigou o inimigo a retirar em fuga desordenada.
    Pela sua atitude, reveladora da mais alta compreensão do dever, o Aspirante Correia da Silva é um militar que muito honra a Arma a que pertence e o Exército que tão abnegadamente serve.

Tomo VII – Cruz de Guerra 1972-1973, pagina 44

  • 2º Sargento de Artilharia
    MANUEL ADELINO CORREIA TEIGÃO
    CArt 2673/GACA 2
    Guiné
    4ª Classe
    Transcrição Da portaria publicada na OE nº 3 - 3ª série, de 1972
    Agraciado com a Cruz de Guerra de 4ª classe, nos termos do artigo 12º do Regulamento da Medalha Militar, promulgado pelo Decreto nº 35 667, de 28 de Maio de 1946, por despacho do Comandante-Chefe das Forças Armadas da Guiné, de 10 de Novembro último, o 2º Sargento de Artilharia Manuel Adelino Correia Teigão, da Companhia de Artilharia nº 2673/Batalhão de Artilharia nº 2892 – Grupo de Artilharia Contra Aeronaves nº 2.
    Transcrição do louvor a que deu origem a condecoração
    (Publicado nas OS nº 28, de 08 de Novembro de 1971, do CCFAG e nº 46, de 18 do mesmo mês e ano do QG/CTIG):
    Sua Excelência o General Comandante-Chefe das Forças Armadas da Guiné, por seu despacho de 01Nov71, louvou o 2º Sargento de Artilharia Manuel Adelino Correia Teigão, da Companhia de Artilharia nº 2673 – GACA 2 pelas extraordinárias qualidades de coragem, decisão, sangue-frio e serena energia debaixo de fogo evidenciadas no Teatro de Operações da Guiné.
    De realçar, a sua actuação no decurso de uma emboscada levada a efeito pelo seu Grupo de Combate, em que, fortemente atacado por numeroso grupo inimigo, se manteve firme, incitando os homens da sua Secção, dos quais alguns se encontravam gravemente feridos, conseguindo aguentar o impacto do adversário durante cerca de duas horas.
    Quando já se encontrava sem munições, não hesitou, indiferente ao perigo, em rastejar até junto dos camaradas feridos para utilizar os seus carregadores em tiros espaçados, protegendo-os das arremetidas do inimigo que tentava a todo o custo o assalto à posição onde se encontravam.
    Por tudo o que fica expresso, demonstrou, o 2º Sargento Teigão, excelentes qualidades militares, ganhando jus a ser apontado ao respeito e consideração pública.

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Nada de extraordinário brota das páginas, já carcomidas pelo tempo que já passou, depositadas nas prateleiras à espera de serem analisadas.

São histórias da história de muitos jovens, nos quais nos incluíamos, tentando cumprir uma missão que nos tinha sido colocada, para rapidamente, tão rapidamente quanto possível, regressarmos, voltar à vida antiga, àquela que, anos antes, havíamos deixado.

Mas aqui sobressai um facto estranho:

Sendo todos os Aspirantes a Oficial Miliciano e os 1ºs Cabos Milicianos promovidos ao posto imediato, à data de embarque, porque será que nesta Companhia havia dois elementos, um que morreu e outro que ficou ferido em combate, não foram promovidos?

Nem mesmo depois de louvados e condecorados, por actos de bravura?

  • As teias que o Império tece, ou teceu!

08 de Julho de 2010
Saudações a todos,
José Marcelino Martins
Fur Mil de Transmissões da CCaç 5

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Nota de MR:

Vd. último poste da série em:

5 de Janeiro de 2010 > Guiné 63/74 – P5595: Fichas de Unidades (6): COP 4 - Comando Operacional nº 4 (José Martins)

Guiné 63/74 - P6580: Ser solidário (77): Em busca de fotos da antiga escola do Gabu (José Bastos, União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa)


1. Do Sr. José Bastos, Assessor para a Comunicação Social da UCCLA (União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa), recebemos em 12 de Maio de 2010, um apelo a quem possua e possa enviar-lhe fotos de Gabu, em geral, e da escola local em particular… para um dos endereços infra indicados:

Exmos Srs.:

Ao pesquisar na net encontrei a página Subsídios para a história da guerra colonial > Guiné (9) > Zona Leste > Região de Gabu > Nova Lamego, Cansissé.
Acontece que a União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA - htpp://www.uccla.pt) tem entre os seus projectos a recuperação da Escola de Gabu.
Pretende angariar verbas, entre outros parceiros, através de recolhas de donativos públicas, começando já a 11 de Julho na festa de homenagem ao cantor cabo-verdiano Bana, no próximo dia 11 de Julho no S. Luiz (Lisboa), continuando no espectáculo dos 25 anos da UCCLA, no próximo dia 9 de Julho, na Aula Magna (Reitoria da Universidade de Lisboa), ambos às 21 horas.
Mas não é de dinheiro que motiva este meu mail, se bem que desde já estão convidados para ambos os espectáculos. Os bilhetes ainda não estão à venda, mas estarão brevemente, entre outros sítios na FNAC.
O que me leva a dirigir-me a si é saber se por acaso entre o seu acervo de fotografias terá algumas relativas à antiga escola de Gabu, que nos possa enviar, para completar as que temos da actualidade, num estado bastante degradado (conforme anexos).

Como é evidente, se por acaso tiver as referidas fotografias e nós as utilizarmos, se o permitir, daremos nota da proveniência das mesmas.

Agradecendo desde já a sua atenção,
Com os melhores cumprimentos
José Bastos
Assessor
(Comunicação Social)
Tel.: +351 384 56 00/39
Fax: +351 385 25 96
e-mail: jbastos@uccla.pt
Site: htpp://www.uccla.pt
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Nota de MR:

Vd. último poste da série em:

6 de Junho de 2010 > Guiné 63/74 - P6543: Ser solidário (76): O projecto de sementes e água potável para a Guiné-Bissau já arrancou na tabanca de Amindará (José Teixeira)

Guiné 63/74 – P6579: Páginas Negras com Salpicos Cor-de-Rosa (Rui Silva) (10): Golpe-de mão à “casa-de-mato” de Cussondome


1. O nosso Camarada Rui Silva (ex-Fur Mil da CCAÇ 816,
Bissorã, Olossato, Mansoa, 1965/67), enviou-nos mais uma mensagem desta sua série, com data de 8 de Junho de 2010:
Camaradas,
Como sempre as minhas primeiras palavras são de saudação para todos os camaradas ex-Combatentes da Guiné, mais ainda para aqueles que de algum modo ainda sofrem de sequelas daquela maldita guerra.

Golpe-de mão à “casa-de-mato” de Cussondome

O Cerco… só que os cercados fomos nós.

Entretanto mais uma operação se fez. Esta ao refúgio inimigo de Cussondome.

Estávamos a 18 de Junho de 1965, portanto 8 dias passados da operação a Queré (a primeira) e com 23 dias de Guiné.

Periquitos, mas já com ares de papagaios.

Desta vez e dado que o refúgio era considerado forte, o nosso efectivo foi de 2 Grupos de combate da 816, mais, e sempre (nos primeiros tempos em Bissorã), os experimentados “Lordes” (Grupo de Comandos com o efectivo de perto de um pelotão) da CART. 643.

A zona de tal refúgio, era muito difícil, pois, além de denso mato, era infestada de terroristas, os quais primavam também por serem bons atiradores e especialistas em subirem às árvores, sobretudo, para de lá fazerem fogo. A presença de sentinelas era também tida em conta.

Foi das operações mais problemáticas; a única, que me lembre, em que nos vimos cercados numa emboscada aquando da nossa retirada.

Embora com poucos homens e colocados de forma esporádica no mato, o inimigo ofereceu muita resistência, pois uma vez colocados nas árvores, estavam bem protegidos e ao mesmo tempo a detectarem-nos com facilidade.

Bem nos fartamos de fazer rajadas e de lançar granadas de “bazuca” na direcção das árvores, mas o “cantar” das pistolas-metralhadoras inimigas não acabava.

Esta terrível emboscada e chamo-lhe terrível, pois embora o efectivo inimigo fosse reduzido ao que se supôs, e o nosso andasse à volta de 80 homens, o efeito de um cerco, feito para mais por quem conhecia bem o terreno, é sempre de temer, pois ao abrigarmo-nos numa direcção, oferecemos, obviamente, o corpo à direcção oposta.

Como muitas das vezes acontecia, levantamo-nos ainda debaixo de fogo e fomos avançando, terminando o contacto com uma morteirada acertada. O morteiro normalmente era como os morteiros (foguetes) cá, que põem fim à festa.

Esta emboscada aconteceu já no regresso da operação, o que era vulgar, uma operação que não surtiu o efeito desejado, pois, o guia, como muitas vezes iria acontecer, não quis colaborar, pretextando desconhecimento ou outra coisa qualquer e fazia-nos andar ali às voltas até sermos detectados. Depois as contas eram ajustadas.

Acabamos por ser detectados por presumíveis sentinelas e daí eles terem abalado e preparado a emboscada do tal cerco quando já regressávamos.

O que se fez de positivo, foi queimarmos algumas moranças, previamente abandonadas por pessoal terrorista ou pró-terrorista. Da “casa-de-mato” nem o cheiro.

Ao abandonarem as moranças não o fizeram sem antes fazerem algumas rajadas em nossa direcção, daí uma resposta pronta nossa também.

Ainda assim um casal de velhotes nativo, impossibilitados de fugirem, vergados aos muitos anos de existência e bem marcados nos seus rostos a vida de agrura que levaram e… ainda levavam, tiveram ali o seu fim. Algumas rajadas disparadas em resposta ao fogo inimigo vindo da Tabanca levaram as balas a encontraram no seu trajecto um casal de velhotes que não puderam fugir.

Quadro pungente: separados alguns metros, quando abatidos, arrastaram-se um para o outro morrendo abraçados numa poça de sangue. Os sentimentos não têm cor, cultura ou religião.

Resultado duma guerra fria, traiçoeira, invisível, sem olhos, sem cor… sem regras, letal.

Estes velhos indígenas não eram certamente terroristas na verdadeira acepção do termo mas colaboravam com eles. Colaborariam? Como... e em que sentido? Vivendo com “turras”, “turras” eram… era a sina. Que raio de jogo este desta guerra.

Como já disse noutras histórias atrás, nestas alturas, não éramos seres humanos a pensar, mas sim selvagens ou coisa parecida. E essa até era se calhar a melhor maneira de pensar, ali.

Perto da morança dos velhotes, um “turra” jazia também, e este sim, era-o mesmo, notava-se bem pelo seu aspecto e de canhangulo na mão.

Fortemente atingido por estilhaços supostamente de granadas de morteiro, ali ficou pronto a ser servido aos macabros e sempre por perto, abutres.

Captura bélica: 2 Canhangulos!… carregados!



O que poderia ser um turra de canhangulo a “tirar-nos uma foto”.

O canhangulo (*) era quase como uma arma artesanal, de carregar pela boca tudo servia para isso: pregos, vidros, pedaços de ferro e outros metais, etc.

Arma desfasada dos tempos, mas quem fosse atingido de perto…

*) O canhangulo foi a primeira arma usada pelos turras para além da inconsequente catana; depois veio a Mauser, depois a PPSH (vulgo costureirinha) e a Thompson (um balázio de 11,7 mm. de diâmetro), e os fornilhos, a kalashnikov, as minas anti-pesssoais e anti-carro, o helicóptero (?)

O Lança Granadas Foguete (RPG), - ou lança-rockets como lhe chamávamos - o canhão e finalmente os mísseis terra-ar “Strella”. Isto ao longo do tempo de 11 anos de guerrilha.

Nota: este (*) é um acréscimo à escrita e feito “à posteriori” já se vê, pois quando escrevi as minhas memórias, estas então feitas no tempo e no lugar (1965-67), a arma mais poderosa que se conhecia no inimigo era a metralhadora anti-aérea – apanhamos uma mais tarde, para além, claro, das pistolas e espingardas metralhadoras, das minas anti-pessoal e anti-carro e o do Lança Granadas Foguete (RPG). O canhão, outras armas mais desenvolvidas e sofisticadas e os mísseis, surgiriam depois.

Falando ainda da dita emboscada, com o cerco inimigo a levar-me a proteger-me atrás de um baga-baga. Que sorte, este ali perto!

Aos primeiros tiros o baga-baga ficou entre mim e os tiros inimigos. Dois mais parceiros, um deles o infortunado do Furriel Silva que em Agosto seguinte seria morto em combate na estrada Olossato- K3, estavam comigo.

Ao atirarmo-nos para trás do baga-baga houve forte choque de cabeças (a minha e a de outro), logo esquecido. Havia mais em que pensar ali, afinal.

Depois os tiros começaram também a surgir do outro lado e depois ainda de outro lado isto é, vinham de toda a volta. Quando vi que era assim, cá para mim, disse. “É desta”.

O nariz até furava o chão par ver se protegia melhor a cabeça no intervalo de 2 rajadas de G3.

Por sorte o baga-baga já não era habitado pois se o fosse ainda tínhamos as ferroadas daquela avermelhada térmita de tenazes á cabeça. Era o tributo a pagar por abuso de aproveitamento de casa alheia. Quantas ferroadas!

Como sempre, e perante o olhar suspeito dos habitantes de Bissorã, chegamos em apoteose. O regresso, ou essa não fosse palavra sagrada em guerra, era sempre em festa, se bem que desta vez e uma vez mais a satisfação fosse relativa, pois a operação falhou quase totalmente.

Valeu apenas pelo extermínio das moranças em Cussondome privando assim da habitação e haveres aquele pessoal terrorista, com o consequente efeito psicológico, e ainda pela baixa confirmada provocada ao efectivo inimigo.

Os animais domésticos ou domesticáveis faziam-nos companhia em grande alarido (pareciam que tinham sido libertados da guerrilha). Como não tivemos qualquer ferido, sempre foi algum êxito.

Cussondome não passaria ao esquecimento e a gente bem o sabia. Lá continuaria a “casa-de-mato”, graças à habilidade do guia que soube ludibriar a tropa, procedimento esse que lhe custou caro.

A justiça impunha-se, mas… qual justiça? Que raio de guerra!

Como disse, Cussondome não passaria ao esquecimento, pois a gente sabia que uma vez gorados os intentos, teríamos que voltar à carga e o que não devia se fazer esperar muito.

Raramente nos aparecia um guia inteiramente fiel ou que colaborasse incondicionalmente com a tropa. Diga-se entretanto, e em abono da verdade, que os guias, mesmo que se tratasse de ex-“turras” eram bem tratados - pudera! - quer antes quer depois da sua prestação se esta tivesse sido bem sucedida.

Comiam do rancho como qualquer soldado, arranjava-se roupa e, tinham, de um certo modo, uma situação privilegiada. Alguns até ficavam a saber para que servia um par de sapatos. Se se tornassem irreverentes e assim não quisessem colaborar, eram castigados sobremaneira.

As regras eram fáceis de perceber. Tinham portanto dois caminhos diametralmente opostos e extremos à escolha. O que é certo é que a maioria escolhia o do pior sentido, para nós evidentemente.

O guia que era fiel incondicional ao seu povo era até por mim admirado, cá no meu íntimo.

Seguia-se: “Oh Rui (!), olha a nossa cervejinha”. Dizia sempre o Furriel (açoriano) Vieira para mim no regresso, já garantido. Primeiro a cerveja bebida de enfiada até só ficar o vidro na mão.

Depois é que se pousava a arma, tiravam-se as pesadas cartucheiras, tirar do camuflado já com peso multiplicado e que muitas vezes parecia de papelão (água e lama secas e quantas vezes a rechapar).

O banho, a bola e depois, à falta de melhor, partidas uns aos outros que nem sempre acabavam bem.

Nota: As duas fotos aqui reproduzidas de um negro com um canhangulo na mão, foram retiradas de um Site a cujo autor agradeço com a devida vénia.

Um abraço,
Rui Silva
Fur Mil At Inf da CCAÇ 816
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Nota de MR:

Vd. último poste da série em:

6 de Março de 2010 >
Guiné 63/74 - P5939: Páginas Negras com Salpicos Cor-de-Rosa (Rui Silva) (9): A minha primeira vez (na guerra)

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Guiné 63/74 - P6578: Banco do Afecto contra a Solidão (12): Últimas notícias do estado de saúde de Victor Condeço



Caros camaradas e amigos do Victor Condeço

Um dos nossos tertulianos, que esteve hoje em contacto com a esposa do Victor, pede para divulgar a boa novidade de que tudo leva a crer que o nosso doente dentro em breve terá ultrapassado este momento menos bom da sua vida e voltará ao activo no Blogue.

Vamos continuar a torcer para que tudo lhe corra pelo melhor.

É uma sorte o Victor, e cada um de nós, ter esta panóplia de amigos solidários que através da Tabanca Grande podem acompanhar os momentos mais difíceis da vida, que todos, mais tarde ou mais cedo, em maior ou menor escala, acabamos por viver.

Força Victor, tens centenas de amigos que querem o melhor para ti. Volta depressa.
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Nota de CV:

Vd. poste de 9 de Junho de 2010 > Guiné 63/74 - P6563: Banco do Afecto contra a Solidão (11): Vamos telefonar ao Victor Condeço (que vive no Entroncamento)

Guiné 63/74 - P6577: Notas de leitura (121): A Guerra de África, 1961-1974, Volume I, por José Freire Antunes (2) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso Camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil At Inf, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 8 de Junho de 2010:

Queridos amigos,
Dá-se por finda uma visita aos depoimentos do volume I de “A Guerra de África” do José Freire Antunes. Já estou a ler “O Capitão Nemo e Eu”, do Álvaro Guerra, é mesmo uma preciosidade.
Ando a procurar desencantar mais obras sobre a nossa guerra, não me cansarei de pedir o apoio de todos para se tentar proceder a um inventário tão minucioso quanto possível no que toca à guerra da Guiné.

Um abraço do
Mário


A Guerra de África, 1961 – 1974, Volume I (conclusão)

Por José Freire Antunes


Beja Santos

José Freire Antunes baseia o seu trabalho “A Guerra de África” como uma aplicação da “história oral” que, segundo ele, possuiu a vitalidade dinâmica de uma historiografia avançada que rompe a dormência dos arquivos para se erguer à medida da vida, reconstituindo-a. Esta metodologia fez furor nos anos 80 e 90, está hoje em franco declínio, é manifestamente inviável dar como irrefutáveis os depoimentos orais sem os sopesar com diferentes outros elementos, a começar pelos documentos abonatórios dos depoimentos. Vimos na prática que depoimentos como os de Silva Cunha ou as directivas emanadas por Spínola no primeiro ano em que presidiu aos destinos da Guiné, requeriam comprovativos ou críticas, um depoimento que não pode ficar ao nível da literatura, em que a qualidade é o critério maior. Seja como for, a colectânea de depoimentos possui interesse inegável pelo que aqui se procede a um reportório do que tem a ver expressamente com a guerra da Guiné. Referiu-se anteriormente o que sobre a matéria disseram Bethencourt Rodrigues, Silva Cunha e Carlos Fabião, vamos agora sintetizar a operação Mar Verde e os depoimentos de Luís Cabral e Marcelino da Mata.

Recorde-se que Alpoim Calvão também é entrevistado sobre o ataque a Conacri. A operação Mar Verde foi proposta por Calvão a Spínola, foi inicialmente sugerida para destruir os navios do PAIGC e libertar os prisioneiros portugueses que estavam nas masmorras de Conacri. Spínola teve a ideia de introduzir na operação os ingredientes de um golpe de Estado de modo a desalojar Sekou Touré. Há certas confusões no seu depoimento. Por exemplo “Em relação a Amílcar Cabral, a nossa ideia era prendê-lo. Mas mandámos umas bazucadas para a casa que se presumia ser dele. A ideia era capturá-lo, apesar de, a minha consciência, e se fosse necessário... os meus homens perguntavam: E se chegarmos lá e eles atirarem? Eu disse: Aí, é tiro contra tiro”. Como é sabido, a operação Mar Verde falhou em objectivos essenciais e trouxe questões diplomáticas graves. O pelotão do tenente Januário entregou-se às autoridades de Conacri, foram todos fuzilados. A versão que Alpoim Calvão dá do seu relacionamento com os dirigentes do PAIGC ao mais alto nível aparecem, como veremos, contrariados por Luís Cabral. O que ele vem dizer é que havia espionagem em Dakar e contactos com Amílcar Cabral, Victor Saúde Maria, Luís Cabral, Lourenço Gomes e Marcelo Almeida, do PAIGC. O relatório da operação Mar Verde não traz nada de novo, relativamente ao que tem vindo a ser publicado nos últimos anos.

O depoimento de Luís Cabral avança com dados da constituição da luta anti-colonial na Guiné, a partir da fundação do PAI – Partido Africano para a Independência e União dos Povos da Guiné e Cabo Verde. Descreve a implantação do partido ao nível interno e externo e dá uma síntese da luta armada e da organização da linha política a partir do escritório em Conacri. É um testemunho de valor inegável. Abre luz sobre algumas das atrocidades praticadas por quadros do PAIGC que vieram a ser executados no primeiro congresso do partido, realizado em Cassacá, em Fevereiro de 1964. Este congresso definiu as áreas de relativo controlo do PAIGC em torno do Morés e da região Sul onde actuava Nino Vieira. Por esses anos, o relacionamento com o Senegal era extremamente difícil. A situação irá alterar-se ainda no final dos anos 70 e marcará uma viragem para a luta do PAIGC. Para Luís Cabral, as únicas negociações sérias que houve foram as que ocorreram em Março de 1974, em Londres, e observa: “Espanto-me muito quando leio que o general Spínola quis contactos com o Amílcar. Garante-lhe que o Amílcar nunca soube disso. O Amílcar quis sempre discutir com o governo português. Mas com Spínola nunca houve qualquer contacto, nem directo nem indirecto. Senghor falou com Amílcar na perspectiva de um encontro e o meu irmão disse-lhe que, de facto, todo o encontro com o governo português seria bom. Soubemos depois que ele teve um encontro com Spínola... as cartas que apareceram num livro do comandante Alpoim Calvão foram assinadas por mim e tratou-se de uma história muito simples. Um comerciante da fronteira Norte, Mário Soares, depois denunciado com agente da PIDE, escreveu uma carta ao Amílcar a dizer que tinha uma comunicação importante a fazer, mas que só podia ser feita fora da Guiné, e propôs Londres, onde tinha uma filha a estudar. O Amílcar recebeu a carta e mandou-ma. Mandámos a Londres o Vítor Saúde Maria. E quando o Vítor lá foi encontrou-se com a filha do Mário Soares. Mas ele não apareceu. E foi essa a história das cartas e dos telegramas. Nunca houve mais nada, a história resumiu-se a isso”.

Marcelino da Mata, porventura o mais condecorado dos militares portugueses, no século XX, conta a sua história a partir do comando de grupos especiais de africanos, descreve as suas operações, a sua participação na operação Mar Verde e na operação Ametista Real. E afirma: “Dizem que o PAIGC tinha uma zona libertada na Guiné, mas eu ia para onde queria, com 4, 5, 6, 7 ou 8 homens. Eu tinha um corneteiro e quando chegávamos ao meio do mato eu mandava-o tocar a corneta. Só depois é que íamos para cima do PAIGC. Mandava tocar a corneta para eles verem que eu ia a caminho e não tinha medo. Cheguei passar centenas de vezes de helicóptero, com eles a fazerem emboscadas. Na Guiné, no Inverno, o capim tem quatro metros de altura. Eu passava e eles não me emboscavam. Mais tarde apanhei um homem que me contou que o Nino Vieira tinha dado ordens para não me atacarem, porque se me atacassem, eles é que lá ficavam. Nunca me atacaram. Uma vez tentaram fazer-me uma emboscada. Nesse dia éramos 12. Tinha ido para lá um batalhão de comandos que não conseguiu entrar e voltou para trás. Foi lá com destacamento 22 dos fuzileiros, apanhámos 4 morteiros 120, 3 rampas de foguetão, 9 morteiros 82”. Marcelino da Mata não se conforma com a entrega do poder ao PAIGC, para ele devia ter havido um referendo: “A Guiné tinha as companhias africanas, comandos, fuzileiros e milícias. Eram vinte e tal companhias que seriam suficientes para assegurar o referendo. A única preocupação que o Estado português teve na Guiné foi desarmar o exército africano e entregá-lo ao PAIGC... o PAIGC só entrou dentro da cidade de Bissau depois das tropas dos comandos e fuzileiros serem desarmadas. Quem desarmou os comandos foi o Carlos Fabião. A 15ª companhia, em Mansoa, não aceitou o desarmamento. A maioria deles foi fuzilada”.

Isto foi o essencial que se extraiu dos protagonistas que, directa ou indirectamente, se pronunciaram sobre a guerra da Guiné. Veremos a seguir o conteúdo do volume II de “A Guerra de África”.
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 9 de Junho de 2010 > Guiné 63/74 - P6569: Notas de leitura (120): A Guerra de África, 1961-1974, Volume I, por José Freire Antunes (1) (Mário Beja Santos)

Guiné 63/74 - P6576: Notas soltas da CART 643 (Rogério Cardoso) (24):O miúdo Marciano Mamadú Sissé




1. Nota solta enviada pelo nosso camarada Rogério Cardoso (ex-Fur Mil, CART 643/BART 645, Bissorã, 1964/66), em mensagem do dia 8 de Junho de 2010:

Amigo Carlos,
Este caso marcou-me profundamente.
Por aqui se vê a amizade que tivemos pelo povo da Guiné.



NOTAS SOLTAS DA CART 643 (24)

O MIÚDO MARCIANO MAMADU SISSÉ

Havia pouco tempo que a Cart 643 - Águias Negras - se encontrava em Bissorã, estávamos em Junho de 1964.

Os primeiros dias foram preenchidos com a instalação dos homens pelo chamado aquartelamento, ficando 3 pelotões em casernas, nos ex-armazéns de mancarra.

Os oficiais num edificio do arruamento principal dentro da povoação, frente à residência do Administrador, Aguinaldo Spencer Salomão.

Os sargentos, por sua vez ficaram alojados junto às casas de alguns civis, caso do Gardeth, Michel Ajouz e outros, isto numa rua paralela á principal, não longe do mercado indigena.

Os nossos quartos em numero de três, albergavam os 16 sargentos da companhia, alojados em beliche, com uma instalação sanitária para todos, o que não era nada mau, comparado com outros locais.

Então começaram a aparecer as chamadas lavadeiras, - Bo miste lavadera -, algumas ladeadas pelos filhos, uns pela mão e outros em atrelados.

Foi nessa altura que apareçeu um miúdo, simpático, sorridente, não largando a nossa porta durante todo o dia, oferecendo os préstimos em recados, enfim um sempre pronto para qualquer tarefa.
O nome dele era Marciano Mamadu Sissé, morava na estrada do Olossato, um pouco antes da pista de aviação.

A pouco e pouco foi promovido a Mascote da Sargentada, motivado pela sua simpatia e pela prontidão e boa vontade em nos servir. À noite regressava à sua morança, levando sempre uma quantidade apreciável de rancho, não de restos mas igual ao distribuído aos homens da companhia.

O tempo foi passando, entrava no quartel como se fosse um dos nossos, entre outros serviços ajudava na cozinha e na oficina auto na pessoa do mecânico, um alentejano de Arcos-Estremoz, de nome Joaquim Cabaço.

Dia a dia, mês após mês, o calendário passava com naturalidade, até que chegou o meu fatídico dia 27 de Outubro de 1965, dia em que fui ferido com alguma gravidade.

Não mais regressei a Bissorã, sendo evacuado do mato diretcamente em heli para o HM241, mais tarde para o HMP em Lisboa.

A partir de então perdi o contacto com a minha familia militar, até porque 3 meses depois terminaram a comissão de serviço, regressando todos a casa. Perdi o contacto também com os meus amigos civis e naturalmente com o Marciano. Pouco tempo depois recebi um aerograma, deduzo que foi escrito por alguém da Cart 816, em 1966, com palavras do Marciano a seu mando.
Foi lido com atenção e emoção, mas acabei por não responder, encontrava-me no Hospital com muitos problemas de saúde, que durou entre 2 a 3 anos, como tal o que estava escrito, caiu no esquecimento.

Mais tarde decidi fazer uma pesquisa para saber se o Marciano era vivo e em caso afirmativo, o local da sua residência.

Recorri à Embaixada da Guiné-Bissau, solicitando informação junto de um funcionário, que me aconselhou escrever para as entidades oficiais de Bissorã, contando toda a história.

Acertei em cheio, depois de um tempo de espera, eis que surgem noticias, o Marciano Mamadu Sissé, era vivo e de boa saúde.

Disse que morava no mesmo local, mas depois da independência teve de fugir, e esteve anos por terras do Senegal. Fuga que foi motivada pela perseguição dos que colaboravam, ou se davam com a tropa Portuguesa, os que não conseguiram, foram impediosamente fuzilados, como me recordo do Quebá e Citafá (mandingas), nossos amigos e guias.

Entretanto o único telefone na altura existente em Bissorã, foi-me disponibilizado para poder falar com ele, foi um momento grande e emotivo, passou a chamar-me de Pai Rogério, enfim de miúdo a homem 30 anos depois.

Fiquei feliz, a minha teimosia deu frutos.

A sua descendência é de meia duzia de filhos, 2 em Bissau, 3 em Bissorã e um na cidade da Amadora, filho este que conheci mais tarde e tendo passado momentos com a minha familia, aliás foi com ele que tive conhecimento destas informações.

Hoje estou em contacto com alguma frequência, mas o sonho do Marciano era o de ter uma visita nossa à sua Bissorã.

A difícil luta pela sobrevivência é uma constante, o que de momento lhe posso garantir, é algum apoio material, tanto em dinheiro como em artigos diversos, claro quando tenho portador, o que é dificil por vezes.

Junto fotos, do Marciano aos 13 anos e mais tarde aos 45, aerograma de 1966 e carta do Secretário do Sector de Bissorã, dando a notícia que o tinha encontrado.

Rogério Cardoso
Ex-Fur Mil
Cart 643-Águias Negras


Marciano aos 13 anos

Marciano aos 45 anos


Aerograma de Marciano dirigido a Rogério Cardoso

Carta do Secretário do Sector de Bissorã enviada a Rogério Cardoso, dando conta do paradeiro de Marciano.

(Clicar nas imagens para ampliar)
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 8 de Junho de 2010 > Guiné 63/74 - P6559: Notas soltas da CART 643 (Rogério Cardoso) (23): O Comandante do BART 645, Coronel Braamcamp Sobral

Guiné 63/74 - P6575: Convívios (251): Sardinhada promovida pela Liga dos Combatentes da Guarda, Sabugal, dia 19 de Junho de 2010 (José Corceiro)


1. Mensagem de José Corceiro (ex-1.º Cabo TRMS, CCaç 5 - Gatos Pretos , Canjadude, 1969/71), com data de 10 de Junho de 2010:

Amigo Carlos Vinhal
Peço o favor, caso seja possível, que publiquem este convite com uma certa urgência.

O meu obrigado e um abraço.
José Corceiro




Castelo do Sabugal



CONVITE

A Direcção do Núcleo da Liga dos Combatentes da Guarda, tem a honra de convidar para participar numa sardinhada/convívio, aberto aos seus sócios e a todos os Combatentes do Concelho do Sabugal, que estiveram na Guerra do Ultramar ou em Missões de Paz.

O convívio realiza-se no dia 19 de Junho de 2010, com início pelas 13h00, no Parque de Merendas da Sra. Da Graça – Sabugal.

Esta iniciativa, para além do salutar convívio que pretende, também servirá para apresentação do projecto do Monumento a erigir nesta Cidade (Sabugal), em homenagem aos que tombaram ao serviço da Pátria, na Guerra do Ultramar.

A sardinhada é gratuita a todos os participantes.

Inscreve-te pelo telefone 271 211 891 (horário: das 10h00 às 12h00 e das 14h00 às 17h00)

Um abraço
José Corceiro
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Notas de CV:

(*) Vd. poste de 3 de Junho de 2010 > Guiné 63/74 - P6527: José Corceiro na CCAÇ 5 (12): Canjadude visitada por dois ilustres Generais

Vd. último poste da série de 9 de Junho de 2010 > Guiné 63/74 - P6568: Convívios (165): XVII Encontro da CCS/BCAÇ 2912, ocorrido dia 5 de Junho em Pedrógão Grande (António Tavares)

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Guiné 63/74 - P6574: O discurso de António Barreto no dia 10 de Junho de 2010 (1) (Inácio Silva / Joaquim Mexia Alves)

1. Mensagem de Inácio Silva, ex-1.º Cabo da CART 2732, Mansabá, 1970/72, com data de 10 de Junho de 2010:

10JUN2010 - António Barreto dá uma chicotada psicológica aos mais Altos Representantes de Portugal

ANTÓNIO BARRETO, intelectual e cientista social, autor dos documentários para a RTP, “Um retrato social”, realizados em 2006, encarna publicamente, em frente das mais altos responsáveis do país, o sentimento e a mágoa dos ex-combatentes.

Confesso que não sabia que António Barreto era o responsável pela Comissão das Comemorações do 10 de Junho de 2010, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades, mas foi com uma agradável surpresa que ouvi o seu discurso, quase todo virado para os ex-combatentes, preocupado em salientar o facto de não haver vários tipos de combatentes, como alguns pretendem. Existe, apenas, um tipo de combatente: aquele que em nome do seu país, serviu ou serve, em território português, ou no estrangeiro, por mandato do Estado Português. Entenda-se que as ex-colónias, hoje países estrangeiros, eram, na altura da guerra colonial, consideradas terras sob administração portuguesa...

António Barreto proferiu, no meu ponto de vista, o discurso que os ex-combatentes esperavam ouvir, há mais de 40 anos, e que nenhum político ousou dizer, talvez com o receio de ser conotado com uma ou outra força política, por concordância ou discordância da manutenção das guerras do ultramar. O desassombro e a inspiração de António Barreto merece a nossa vénia e o nosso obrigado. Ele soube definir, com tamanha clareza de espírito e evidência o que levou tantos milhares de jovens a deixar as suas terras e as suas famílias, os seus amigos, os seus empregos, para serem levados, sem vontade própria, para terras que desconheciam, sem um “bilhete de passagem” que lhes garantisse o regresso.

A tal dívida de gratidão, tantas vezes proferida por milhares de ex-combatentes e que ventos hostis nunca permitiram que chegasse aos nossos governantes, foi – graças ao António Barreto - insuflada, à força, um a um, nos ouvidos dos governantes ali presentes. A partir de hoje, nenhum deles poderá dizer que desconhece existir uma dívida de gratidão e que ela terá que ser paga, com ou sem existência de crise.

É certo que o País já possui legislação sobre algumas questões que afectavam e afectam os ex-combatentes, relacionadas, justamente, com as situações mais gritantes de injustiça social, tais como, o apoio aos deficientes e aos afectados pelo stress pós traumático

António Barreto afirmou que "Portugal não trata bem os seus antigos combatentes, sobreviventes, feridos ou mortos”, reforçando que o “esquecimento e a indiferença são superiores”, sobretudo "por omissão do Estado".

Barreto acusa o Estado de ser pouco "explícito no cumprimento desse dever", avisando que está na altura de "eliminar as diferenças entre bons e maus soldados, entre veteranos de nome e veteranos anónimos, entre recordados e esquecidos".

Um antigo combatente não pode ser tratado de "colonialista", "fascista" ou "revolucionário", mas simplesmente "soldado português",.

O dia 10 de Junho de 2010 fica marcado, também, por ter sido a primeira vez que os antigos combatentes desfilaram na cerimónia militar oficial do Dia de Portugal.

Como ex-combatente, sinto-me profundamente grato pelas palavras de António Barreto, que me tocaram o coração. Um bem-haja.

Inácio Silva

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2. Mensagem de Joaquim Mexia Alves**, ex-Alf Mil Op Esp/RANGER da CART 3492, (Xitole/Ponte dos Fulas); Pel Caç Nat 52, (Ponte Rio Udunduma, Mato Cão) e CCAÇ 15 (Mansoa), 1971/73, com data de 10 de Junho de 2010:


10 de Junho de 2010

Por um acaso da sorte, hoje liguei a televisão quando ia começar o discurso de António Barreto na cerimónia do 10 de Junho.

Desde há muito que vejo neste homem, (sou insuspeito na matéria, como bem sabeis, camarigos), uma pessoa integra e de vincado carácter, que pensa pela sua cabeça e não se deixa levar “em modas”.

Assim decidi ouvir o seu discurso: “mal não me faria com certeza!”

E tive a grata surpresa de pela primeira vez, desde há muitos anos, ouvir falar desassombradamente um homem, figura da política de agora, chamar “os bois pelos nomes” e colocar as coisas na devida realidade.

Assim António Barreto teve a coragem de dizer aquilo que muitos sentem, ou seja, que não há antigos combatentes de Portugal legítimos e ilegítimos, que não há combatentes “fascistas” e “democráticos”, que todos, e frisou bem todos, merecem o respeito dos Portugueses e da Nação Portuguesa.

E foi mais longe, pois teve o desplante de dizer a verdade, ou seja, que o Estado Português trata mal os seus filhos antigos combatentes das guerras travadas em nome de Portugal, independentemente dos regimes políticos que governavam e governam o País.

Não se coibiu de, (apontando para a sua matriz ideológica), afirmar que todos os antigos combatentes lhe merecem igual respeito, exceptuando logicamente aqueles que, por erro grave de conduta própria, tenham ultrapassado a sua missão, cometendo vulgares crimes, puníveis em todo o momento da história.

Senti-me bem, confesso, e respeitei ainda mais este político que disse a verdade e não teve medo de a enfrentar.

Nesse discurso, soube também, que pela primeira vez desfilaram antigos combatentes na parada do 10 de Junho!

Era tempo de se fazer justiça a todos e sobretudo à geração de sessenta e princípio de setenta, que deu a vida pela pátria Portuguesa!

Alguma coisa mudará?

Não acredito muito, porque os ouvidos do poder são moucos e de fraco entendimento, mas pelo menos pela primeira vez ouviu-se alguém dizer na cara do “poder” da Nação Portuguesa, que não há antigos combatentes de primeira e de segunda, que não há antigos combatentes justos e injustos, pois todos combateram pela mesma nação: Portugal

Hoje a minha alma Portuguesa ganhou um pouco mais de alento, e o meu coração Português alegrou-se por um tempo.

Assim saibamos unir-nos para, ajudando-nos uns aos outros, lembrarmos os vindouros que soubemos ser Portugueses em tempos bem conturbados e difíceis!

Marinha Grande, 10 de Junho de 2010
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Notas de CV:

(*) Vd. poste de 20 de Abril de 2010 > Guiné 63/74 - P6194: Convívios (133): Encontro comemorativo da ida da CART 2732 para a Guiné, Funchal 10 de Abril de 2010 (Inácio Silva/Carlos Vinhal)

(**) Vd. poste de 10 de Junho de 2010 > Guiné 63/74 - P6572: 20 Anos depois da Guiné, à procura de mim (J. Mexia Alves) (5): Sem Título 2

Link para o discurso: http://o-jacaranda.blogspot.com/2010/06/dia-de-portugal-de-camoes-e-das.html

Guiné 63/74 - P6573: Memória dos Lugares (81): Memorial aos bravos da Ponte de Caium... Para o Jacinto Cristina, 3º Gr Comb da CCAÇ 3546, com um Alfa Bravo (Eduardo Campos / Luis Graça)


Guiné-Bissau > Região de Bafatá > Ponte Caium > Memorial aos mortos da CCAÇ 3546 (1972/74): "Honra e Glória: Fur Mil Cardoso, 1º Cabo Torrão, Sold Gonçalves, Fernandes, Santos, Sold AP Dani Silva. 3º Gr Comb,  Fantasmas e Lestos (?). Guiné- 72/74"...

O Fur Mil Op Esp Amândio de Morais Cardoso, natural de Valpaços,  morreu aqui, vítima de uma aramdilha que ele montava e desmontava com regularidade, na margem do rio...A trágica ocorrência foi no dia 19 de Fevereiro de 1973 (*). Os restantes morreram numa emboscada entre a Ponte Caium e Piche, em data em que ainda não consegui apurar.


1. Mensagem do  Eduardo Campos, enviada em 31 de Maio de 2010:

Luís: As minhas desculpas por estar a "tirar" algum tempo ao meu amigo.

Ao tentar identificar algumas fotos, tiradas da minha recente ida à Guiné, recorri ao blogue e descobri que tenho em meu poder uma foto que foi tirada na ponte do rio Caium, que fica situada entre Piche e Buruntuma.

Vi o Poste P6042,  de 24/03/2010,  onde  Jacinto Cristina, outras coisas,  diz que fez a loucura de ter permanecido nesse local durante 14 meses.

O "brasão" de homenagem aos mortos, além da sua beleza arquitectónica, surprendeu-me pelo seu estado de conservação.

E tudo isto para te dizer que gostaria que esta foto chegasse até ao Jacinto Cristina, mas como o mail dele não consta na  listagem do blogue, pode ser que o meu amigo encontre uma solução.

Um Abraço. Até Monte Real, dia 26. Eduardo Campos

2. Resposta ao Eduardo:

O Jacinto Cristina, alentejano, estabelecido como padeiro em Figueira de Cavaleiros, Ferreira do Alentejo,  não tem... endereço de correio electrónico. O que é "contra natura", contra as regras do nosso blogue... Abri uma excepção, no caso dele (e de mais um ou outro), por ser meu amigo e amigo da filha (que é engenheira) e do genro (que é médico), que são meus grandes amigos...

Tens o telemóvel dele no blogue: 964 346 202 (ligar de manhã, que ele à tarde dorme, para poder trabalhar à noite)...Não podes imaginar como ele vai ficar feliz até às lágrimas de ouvir falar de (e ver) a "sua ponte de Caium"...  Eu próprio vou ligar-lhe, a ele ou à filha.

O que é espantoso, para além da conservação do monumento (quase 40 anos depois!), é a matéria-prima que foi usada (parece-me mármore!) e o profissionalismo do artista (anónimo)... É uma verdadeira obra-prima!...

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Nota de L.G.

(*) Vd. post de 24 de Março de 2010 > Guiné 64/74 - P6042: Tabanca Grande (209 ): Jacinto Cristina, natural de Ferreira do Alentejo, CCAÇ 3546 (Piche e Caium, 1972/74): Foi soldado atirador, mas a guerra fê-lo padeiro...
 
(...) Em data que o Cristina já não pode precisar, a sua companhia [, o 3º Gr Comb a que ele pertencia e que estava destacado na Ponte de Caium,] sofreu uma violenta emboscada, entre Piche e Buruntuma, montada por um grupo "estimado em 400" elementos IN (ou "turras, como a gente lhe chamava")...Um RPG 7 atingiu a viatura da frente da coluna, que ia relativamente distanciada do grosso da coluna, e que explodiu...Houve de imediato 4 mortos: O Charlot e o Fernando [ou Fernandes ?]  foram dois deles... Dos outros dois o Cristina já não se lembra.


Com as granadas de mão dos mortos, o Wolkswagen conseguiu aguentar o ímpeto da emboscada, mas chegou a ter uma Kalash apontada à cabeça... Ninguém sabe como ele se safou... O Silva por sua vez levou um tiro no pé, fugiu, e mesmo ferido fez 18 km até ao aquartelamento (...).

Guiné 63/74 - P6572: Depois da Guiné, à procura de mim (J. Mexia Alves) (5): Sem Título 2






1. Joaquim Mexia Alves*, ex-Alf Mil Op Esp/RANGER da CART 3492, (Xitole/Ponte dos Fulas); Pel Caç Nat 52, (Ponte Rio Udunduma, Mato Cão) e CCAÇ 15 (Mansoa), 1971/73, continua a presentear-nos com as suas poesias do tempo em que se procurava.




DEPOIS DA GUINÉ, À PROCURA DE MIM

20 ANOS DEPOIS (5)

SEM TITULO 2

Nos meus olhos instala-se o nevoeiro,
incomodado com a luz do Sol
que lhes faz crescer a alegria,
da vida d'outro dia.
O som da respiração torna-se ofegante
e faz vibrar as folhas da árvore da expiação,
em mim nunca sentida,
e no entanto,
sempre presente e constante.
Já nada me toca com braços invisíveis,
e o som dos meus passos deixou de se ouvir.
A madrugada morreu num longo estertor,
e o cinzento tomou conta de tudo.
O meu peito rasga-se como uma ânsia,
e choro as lágrimas de sentir,
que caídas na terra,
engrossam os rios de sangue,
das feridas abertas,
das chagas de horror,
sempre a rir da esperança,
de quem já só ri,
chorando.
Fixo os olhos no vazio,
faço as minhas mãos de pedir,
e grito,
berro,
dou urros,
faço pinos,
dou cambalhotas,
rezo,
e até blasfemo,
alguém tem de me ouvir...


17.01.1992
Um abraço amigo do
Joaquim
__________

Nota de CV:

Vd. poste de 28 de Maio de 2010 > Guiné 63/74 - P6486: depois da Guiné, à procura de mim (J. Mexia Alves) (4): Sem Caminho

Guiné 63/74 - P6571: Blogpoesia (73): Viva Portugal! (Felismina Costa)

1. Mensagem da nossa amiga e tertuliana Felismina Costa* com data de 9 de Junho de 2010:

Amigo Carlos Vinhal
Comemorando mais uma efeméride tracei umas linhas sobre a Pátria que nos viu nascer:
A nossa Pátria! e tomei a liberdade de lhas enviar.

Aproveito para lhe agradecer o link para o contacto com as estórias do amigo Juvenal Amado, pois são muitos agradáveis.

O meu obrigada pela sua atenção e o meu desejo de um bom feriado e de comemorações onde todos vós, sois os nossos heróis de referência.

Um abraço para todos da amiga
Felismina Costa


Viva Portugal!

Gritamos orgulhosos
Em qualquer parte onde viva um português!
Orgulhosos da Pátria de Camões
Da Pátria de Pessoa
Da Pátria de Eça, de Camilo,
De Aquilino, de Cesário, de Régio, de Torga,
Da Pátria de Matildes, de Sofias, de Natálias de Anas
De Adolfos, de Afonsos, de Anteros
Pátria de Herculano, de O Neil
De Almada, de Garret, de Bernardim, de Damião de Góis,
De Jorge de Sena, de Eugénio de Andrade, de Florbela
E de quantos mais?
Minha Pátria escrita e dita com as vozes e as mãos!
Minha Pátria defendida, com a vida, e o suor dos meus irmãos!
Minha Pátria, meu berço, meu chão!
Minha vida aprendida em teu falar português
Minha luta que se trava e se ganha, imbuídos de certeza!
Ao menos… mais uma vez!
Nessa língua em que se entendem tantos milhões de seres humanos,
Puxemos pela coragem
Cantemos (A Portuguesa)!


Felismina Costa
Agualva, 9 de Junho de 2010
__________

Nota de CV:

(*) Vd. poste de 4 de Maio de 2010 > Guiné 63/74 - P6310: As nossas mulheres (16): Hoje é Dia da Mãe (Felismina Costa)

Vd. último poste da série de 11 de Maio de 2010 > Guiné 63/74 - P6370: Blogpoesia (72): Escondam-se que eles vêm aí (Albino Silva)

Guiné 63/74 - P6570: Parabéns a você (120): Alcides Silva, ex-1.º Cabo Estofador da CCS/BART 1913 (Editores)




1. Neste Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas esplalhadas pelo mundo, faz anos o nosso camarada Alcides Silva (ex-1.º Cabo Estofador, CCS/BART 1913, Catió, 1967/69), tertuliano recentemente entrado para a nossa Tabanca Grande.

A tertúlia vem junto deste novo amigo apresentar os seus votos mais sinceros de tenha uma longa vida cheia de saúde, na companhia dos seus familiares e amigos.



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Notas de CV:

(*) Vd. postes do nosso camarada no marcador Alcides Silva

Vd. último poste da série de 7 de Junho de 2010 > Guiné 63/74 - P6556: Parabéns a você (119): Agradecimento (Belarmino Sardinha)

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Guiné 63/74 - P6569: Notas de leitura (120): A Guerra de África, 1961-1974, Volume I, por José Freire Antunes (1) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso Camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil At Inf, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 7 de Junho de 2010:

Queridos amigos,
Era inevitável fazer-se uma referência à obra de José Freire Antunes que bem precisada está de continuação.
Não discuto a importância dos depoimentos, mas eles carecem do contraditório, de outros aclaramentos e da reposição factual.
Seja como for, há aqui substância que não pode ser ignorada.

Um abraço do
Mário


A Guerra de África, 1961 – 1974, Volume I, por José Freire Antunes

por Beja Santos

O Círculo de Leitores publicou em 1995 dois pesados volumes de um projecto coordenado por José Frei Antunes. As observações que se seguem circunscrevem-se ao primeiro volume. José Freire Antunes apresenta assim o seu trabalho: “O meu principal objectivo foi dar a palavra, registar, enquadrar o percurso de dezenas de personalidades que tiveram uma acção relevante nas várias áreas, em Portugal e em África. Para isso recorri sobretudo à metodologia da história oral, desenvolvida a partir de 1948 na Universidade de Colúmbia (Nova Iorque) e que trouxe uma evolução qualitativa à historiografia”. Sabe-se agora que não é tão verdade o que José Freire Antunes exalta, esta metodologia tem inúmeras fragilidades quando não é combinada com outras. O que para o caso interessa é que o autor introduz uma tábua cronológica com acontecimentos encarados como determinantes nesse período de treze anos e depois dá a voz a um conjunto de personalidades e operações militares das quais vamos reter as que têm a ver com a guerra da Guiné, a saber: Bethencourt Rodrigues, Silva Cunha, Spínola, Carlos Fabião, Operação Mar Verde, Luís Cabral e Marcelino da Mata.

Bethencourt Rodrigues, o último governador e comandante-chefe da Guiné dá um testemunho sereno sobre os meses em que presidiu aos destinos da mais tumultuosa província em chamas: “Em 1973, existiam 225 guarnições ocupadas por tropas da Marinha, do Exército e milícias. Em grande parte imposto por uma progressiva adaptação à manobra socioeconómica que vinha sendo conduzida, este dispositivo apresentava, a meu ver, inconvenientes de dispersão e de vulnerabilidade que se tornava necessário corrigir. Contava-se fazer tal remodelação na época das chuvas, quando se verificava uma diminuição drástica do número e intensidade das acções do PAIGC. Estava também a ser ponderado um certo retraimento do dispositivo, afastando da fronteira as guarnições militares. Deste modo, para as flagelações, o PAIGC teria de instalar os seus meios em território da província. Nas suas acções, o PAIGC demonstrava uma certa capacidade de comando e de organização. O PAIGC recebia material de guerra moderno e eficiente em quantidades vultosas, destacando-se nesse material os foguetes terra-ar que determinavam alterações na conduta das operações”. Em linguagem eufemística, o general subentendeu que estava em marcha a estratégia aprovada por Costa Gomes, a que Spínola inicialmente deu concordância e depois repudiou: o progressivo abandono de todos os destacamentos de fronteira, adaptando o dispositivo militar a uma concentração susceptível de poder intimidar o PAIGC. Tratava-se de algo mais sério que ocorrera nos primeiros meses do comando de Spínola, em que se retirou da região do Boé e de outros pontos com ou sem população e onde a capacidade defensiva já não permitia mais do que resistir.

O depoimento do último ministro da Defesa é de uma enorme importância, paradoxalmente há nele informações que não se vêm utilizadas nas análises referentes aos últimos meses da guerra. Ele diz claramente: “Tive conhecimento dos contactos com o PAIGC em Roma e em Londres”. Isto é importante, ainda há gente que nega que o governo de Marcelo Caetano tivesse procurado negociar com o PAIGC. Rui Patrício irá também dizê-lo claramente no volume II desta obra. Silva Cunha revela-se desapontado com o comportamento de Spínola, sobretudo a propósito da criação do que ele designa por “mito da impossibilidade da defesa militar da Guiné”. Silva Cunha alega que tinha reforçado certos meios de defesa, designadamente baterias anti-aéreas para proteger o aeroporto de Bissau. A propaganda fazia esconder o que em meios militares se sabia que era inevitável: o PAIGC ia ter aviões sofisticados, ultimava-se os preparativos dos seus pilotos. Silva Cunha declara: “A África do Sul tinha comprado duas baterias de mísseis terra-ar Crotale em França – eu consegui que eles desistissem de uma, e comprámo-la nós, directamente aos franceses. A bateria dos Crotale era para proteger o aeroporto de Bissau. Conseguimos artilharia em Israel, porque uma das coisas de que se queixavam na Guiné era de que a artilharia deles tinha alcance superior ao da nossa. Conseguimos os Red Eye, mísseis terra-ar individuais, na Alemanha. Não sei quem os vendia, só sei que eles nos forneciam 500 Red Eye americanos”.

O que o livro do Freire Antunes publica sobre Spínola é, em termos históricos, indescritível, incompreensível: pega num conjunto de directivas de 1968 e procede a uma síntese, como se fosse possível no contexto destas directivas iniciais encontrar todo o pensamento e acção que Spínola desenvolveu ao longo de cinco anos. O que as directivas iniciais exprimem são a remodelação dos dispositivos, retiradas e reajustamentos; enunciam novos princípios doutrinários para o teatro de operações, como seja o comando unificado, a preparação das tropas recém-chegadas, a passagem de testemunho nos aquartelamentos, a definição de uma política intitulada “Por uma Guiné Melhor”. Muito mais coisas havia a dizer, deve ter faltado tempo para investigar, assim se ludibria o leitor (e se isto é história oral...).

De grande importância é também o testemunho de Carlos Fabião, um militar com elevados conhecimentos sobre a Guiné. Considera que no essencial Spínola estava a ganhar tempo para se encontrar uma solução política e que a africanização da guerra da Guiné obedecia à lógica de animosidades entre etnias: os fulas do lado da bandeira portuguesa, os balantas a apoiar o PAIGC. Fabião recorda que a situação na Guiné descambou perigosamente de 1965 a 1967, o PAIGC implantou-se de pedra e cal em santuários como o Morés, Sara-Sarauol, Boé, Quitafine e Cantanhês. Era um adversário muito melhor equipado que as tropas portuguesas. E declara: “A certa altura começou a haver uma grande falta de moral nas nossas tropas e a todas as regiões onde íamos levávamos pancada. Tite começou a ser uma desgraça. Depois ocupámos Jabadá, em frente a Tite, mas tivemos mais de 100 ataques fortes da Jabadá no espaço de um ano. Eram ataques pequenos mas consecutivos. No Cantanhês houve dois desastres. No Quitafine houve também mais do que um desastre. O moral da tropa era baixo e vivíamos a tentar aguentar aquilo... Spínola chegou à Guiné e correu com todos os incompetentes... passado um tempo, a situação tornou-se muito crítica na parte Leste do Norte da Guiné e foi necessário fazer uma operação para derrotar um efectivo muito numeroso que estava lá instalado... o PAIGC tinha foguetões terra-terra de 122 mm, que faziam fogo a 17 quilómetros, enquanto a nossa arma mais importante só fazia fogo a 10 quilómetros... se me disserem que a guerra colonial estava perdida na Guiné, eu digo que estava. Se me disserem que a guerra colonial não estava perdida na Guiné, eu digo também que não estava. E não estava a que preço? O regime mandava para lá aviões, helicópteros mas também homens não sei onde é que os iria buscar. Um dia passou por mim um soldado que não me fez continência. Chamei-o e perguntei-lhe se ele não me tinha visto. Ele disse-me que sim, que me tinha visto e deu-me um papel do seu comandante de companhia que dizia “Atesto que o soldado tal é paralítico do braço direito”.

Falta-nos falar da Operação Mar Verde e dos depoimentos de Luís Cabral e de Marcelino da Mata. Ficam para o próximo post. A equipa do Freire Antunes procurou-me na época, facultei-lhes material, decidiram arbitrariamente por um texto distraído do relatório de uma operação que comandei “Rinoceronte Temível” e por um poema de Ruy Cinatti que ele me dedicou. Vem tudo na página 51 deste volume.

(Continua)
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 7 de Junho de 2010 > Guiné 63/74 - P6551: Notas de leitura (119): Uma Campanha na Guiné, 1965/67, de Manuel Domingues (2) (Mário Beja Santos)