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quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28393: In memoriam (589): António Dâmaso (ex-srg-mor pqdt) (1940-2026): Textos publicados no blogue dos Especialistas da BA12 - Parte IV: Recordações amargas de Gadamael (1)




Foto nº 1A, 1






Foto nº 2,  2A, 2B, 




Foto nº 3,  3A, 3B

Guiné > Região de Tombali > Gadamael > Maio / junho de 1973 > BCP 12 > Chegada, de LDG (foto m 1) e abertiuras de abrigos e trincehiras(Fotos nº 2 e 3). Fotos originais, a preto e branco, publicados pelo António Dâmaso,oriundas da Hstória do BCP 12.

Restauro, melhoria técnica e coloerização: LG + IA (Gemini / Google) (2026)

 

1. Em 1973, o 1º srgt paraquedista António Dâmaso, natural de Odemira, a exercer a função de 2º cmdt do seu 3º Gr Comb / CCAÇ 121 / BCP 12, depois de ter perdido 3 dos seus  homens no Cufeu, de má memória,  a caminho de Guidaje (Op Mamute Doido, 23 de maio de 1973) , é enviado para reforçar a defesa de Gadamael, no sul da Guiné, região de Tombali, junto à fronteira (Op Dinossauro Preto, Gadamael, 2 juh - 17 jul 1973). 

Ele escreveu , na primeira pessoa, como viveu e sobreviveu à batalha de Gadamael, sempre operacional, e mesmo doente.  (À mesma CCP 121/BCP, 2º Gr Comb, pertenceu o nosso amigo e camarada Victor Tavares. ex-1º cabo pqdt, apontador de MG42, natural de Águeda.)

Este texto, que se segue, foi inicialmente publicado no Bogue Especialistas da Base Aérea 12, Guiné 65/74 > Domingo, 20 de fevereiro de 2011 > Voo 2164_ a Operação "Dinossauro Preto" contada na primeira  pessoa 

É agora republicado, com melhoria das imagens (que o acompanhavam, a preto e branco), em homenagem a este camarada do BCP 12 que em vida nos honrou com a sua presença, ativa e produtiva, na Tabanca Grande, bem como em homenagem a todos os nossos camaradas que participaram na Batalha dos 3 G (Guidaje, Guileje e Gadamael) (maio-julho de 1973).


Recordações amargas de Gadamael (1)

por António Dâmaso (1940-2026)


Operação “Dinossauro Preto” > Entre 2jun73 e 17jul73 em Cacine e Gadamael Porto > Força:  BCP 12 com 3 Companhias a 4 Gr Comb (*)


Os primeiros paraquedistas que chegaram a Gadamael Porto (1), além de terem quase tudo arrasado, viram-se na necessidade de cavar abrigos e abrir valas suficientemente profundas para poderem sobreviver à intensidade e pontaria dos ataques.

É do conhecimento geral que fora abandonada uma posição fortificada (Guileje), transitando essa tropa (CCAV 8350) para outra (Gadamael),  sem as mínimas condições de defesa fortificada (2).

Desconheço se não tiveram tempo de cavar trincheiras, por se verem repentinamente sob um inferno de metralha em cima, ou se se estiveram nas tintas para o fazer. A “necessidade aguça o engenho”, durante uma emboscada vi um militar esgravatar com as mãos para proteger a cabeça e o resto do corpo, depois do bagabaga que o tinha protegido ter sido arrasado, isso permitiu-lhe escapar e estar cá entre nós.

Depois os Páras começaram a fazer a segurança próxima e afastada como se impunha.

No dia 2jun73, chegou a Gadamael Porto a CCP 122, depois a CCP 123 a 4jun73 e a minha Companhia, a CCP 121, ainda não completamente refeita dos acontecimentos de Guidage, embarcou no dia 11jun73 pelas 23h30, no cais de Bissau, na LDG Bombarda, rumo a Cacine aonde chegámos no dia 12 de madrugada. Fomos transferidos para um Navio Patrulha (LFG) que nos levou até perto de Gadamael Porto.

Fizemos transbordo para botes de borracha e sintex em virtude da maré estar baixa e da zona do cais estar a ser atacada. 

Fomos deixados na margem mas dentro de água num braço do rio oposto ao cais, choviam granadas que entravam na água à nossa frente mandando um repuxo de água pelos ares.  Primeiro “rebentavam”,  depois ouvia-se o silvo da trajectória e só mais tarde a saída. 

Chamávamos-lhe "supersónicas" , era um tipo de granadas a que não estávamos habituados, mais tarde vim a saber que se tratava dum canhão 130. Não houve estragos por se enterrarem no lodo, fez-me lembrar cenas do filme “ O dia mais longo”, a uma escala muito reduzida.

No Alentejo para pequena complicação costuma-se dizer “ se isto é conduto antes prefiro comer pão seco”. Naquele dia pensei para com os meus botões:  "Porra! …, Se isto é conduto não quero comer nada,  que bela recepção com que nos brindaram."

Assim que entrei no aquartelamento, verifiquei que algum pessoal da CCP que lá andava, estava bastante “apanhado”, vi dois sargentos de braço dado a passear com chapéu-de-chuva aberto durante uma flagelação, a única chuva no momento era de granadas. Conhecia-os de outra comissão na mesma província, para mim não estavam a armar aos “cucos”, estavam mas era bem “apanhados”.

No dia 13jun73, ainda de noite, a minha  CCP 121 saiu para o mato, não tínhamos andado um km o pessoal da frente parou,  por ter ouvido algum ruído, ficámos todos atentos, estávamos assim havia pouco mais de 10 minutos, o dia ia começando a clarear.

Eu já estava como adjunto de comando domeu pelotão.  Como não tinha havido tempo para instruir convenientemente um apontador do morteiro 60, eu tinha junto de mim o militar que levava o morteiro, foi ele que me alertou para um guerrilheiro que vinha a rastejar na nossa direcção, eu disse-lhe para abrir fogo para cima, rebenta ali um tiroteio de armas ligeiras e pesadas que durou cerca de meia hora.

Mais uma vez agarrei no morteiro e comecei a despejar granadas para cima deles. Eram muitos e alguns estavam em cima das árvores. Um apontador de RPG 7 da minha Companhia cortou uma palmeira ao meio deitando o guerrilheiro que lá estava abaixo. Se não tivessem sido detectados e não estivéssemos em posição defensiva, tínhamos tido ali mais um dissabor.

Aquilo para mim já se tinha considerado rotina, o pior era o meu estado físico, eu estava muito fraco, estava doente física e psicologicamente, era um hospedeiro nato de ténias e lombrigas. Tinha tomado uma droga para as matar mas que me provocava um tremendo mal-estar, em toda a minha vida nunca me tinha sentido tão mal como naquela altura. 

Voltei a ter os mesmos sintomas quando depois de 25 de Abril fui submetido a outra desparasitação, tinha férias marcadas para aquela data e não me deixaram ir de férias, quando toda a gente tinha vindo até ali e estava mesmo necessitado de as gozar depois do que tinha passado em Guidage. Lei do funil, eu não fui mas o comandante da Companhia foi. Deixei enterrar o tubo do morteiro e não tive força para o desenterrar, teve de ser o novo comandante de companhia a desenterrá-lo.

Tivemos um morto e um ferido grave, do pessoal que fazia de guia, o morto estava esventrado de tal modo que quando passou na zona onde eu estava, vi um alferes cujo estômago não aguentou a cena e teve de "chamar pelo Gregório” ali mesmo. Tivemos de voltar para trás com eles e para nos remuniciar, em virtude de termos ficado com poucas munições.

Saudações Aeronáuticas

A. Dâmaso (**)

______________

Notas do autor AD:

(1) Devido às baixas sofridas por doença e ferimentos, o Comandante do Batalhão (BCP 12) teve de se socorrer de graduados e praças que prestavam serviço na CMI (Companhia de Material e Infraestruturas) para repor os efectivos. Foi assim que vi em Gadamael camaradas que estavam prestes ou já tinham acabado a comissão, a dar o seu contributo na ajuda aos camaradas que estavam numa situação difícil.


(2) A posição fortificada abandonada refere-se  a Guilege. Estive lá durante uma semana debaixo de ataques de morteiradas 120 mm em 1970. Se aquela posição tivesse sido reforçada em abril ou maio de 1973, provavelmente teria ficado mais um cemitério militar em Guilege.

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)

__________

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28237: Notas de leitura (1946): "Depois da Guerra", de Luís Rosa; edição de autor, 1990 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 4 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
É um belo e raro testemunho. Luís Rosa conhece a Guiné em 1964, tudo mudara entretanto na região Sul, o Brigadeiro Arnaldo Schulz tenta reposicionar a situação criando destacamentos na região fronteiriça, a sua última obra será Gandembel, que se revelará um desastre, prontamente desativada por Spínola. Este irá gradualmente abandonando estas posições fronteiriças, Guileje, altamente fortificada, é a derradeira posição na área. Neste testemunho podemos aperceber-nos do que representava Sangonhá numa fase de arranque do PAIGC, melhor armado e com mais minas e abastecimentos para o interior, daí a importância vital que se conferia ao corredor de Guileje. Luís Rosa correlaciona estas posições, e os abastecimentos que dependiam de Gadamael porto. Valeu a pena a releitura, é mais do que recomendável, a despeito de eu considerar o final uma conversa mais do que improvável.

Abraço do
Mário



Recordar o nosso confrade Luís Rosa e o seu livro sobre Sangonhá, perto de Guileje - 2

Mário Beja Santos

Em 2010, publiquei no nosso blogue a recensão do livro recentemente publicado do Luís Rosa Guiné 63/74 - P6137: Notas de leitura (91): Depois da guerra, as recordações da região de Cacine... e algo mais, de Luís Rosa - II (Beja Santos) fazendo o reconhecimento que era uma obra a todos os títulos convidativa da leitura, um documento singular sobre um dos destacamentos acima de Cacine e de Gadamael destinado à proteção fronteiriça junto de uma área vital para o PAIGC, o denominado corredor de Guileje. Acresce que Luís Rosa descreverá a ocupação militar efetiva de Sangonhá, e entre outros acontecimentos relevantes que ele testemunhará é o aparecimento do inferno de Guileje.

Sangonhá ficava a escassos quilómetros da fronteira da Guiné-Conacri, recebia regularmente a visita de gente que procurava medicamento, cuidados médicos ou farmacêuticos; mas, à sombra da proteção do aquartelamento, veio gente que aqui vivia, e fosse qual fosse a razão, deu sinais de querer voltar. Fizeram-se casas, havia o problema da área a defender, que aumentou, e era mais vulnerável; e outro problema de fundo era a exploração da terra. Tornou-se premente o desafio de afastar o fantasma da fome, não chegavam os carregamentos de arroz vindos de Bissau; fizeram-se canoas de troncos de árvores, pois era abundante a pesca do rio Cacine. Luís Rosa conseguiu sacos de arroz e mancarra de semente, o povo gostou, a terra foi-se desbravando. A guerrilha não molestou. E no momento certo a população toda despejou-se no campo, ceifeiros de um ciclo interrompido há anos começaram de madrugada o trabalho que ao fim do dia haveria de ser transformado em fartura. Vieram informar o alferes que o arroz já está, vinha dos tempos de dominação exigir-se uma tributação, foi a resposta que o alferes lhe deu: “O que vocês cultivaram e colheram é vosso, não há nada a dar a ninguém.”

E o autor conta-nos como Guileje, uma terra pacata no caminho de Aldeia Formosa, que ficava no limite entre o território Fula e o chão Nalu, um dia foi ferozmente atacada, as súplicas que vinham pelo rádio eram dramáticas: “Mandem ajuda! Vão entrar no quartel! Está tudo perdido!”. Com o levantar do dia, ouviu-se o ronco peculiar dos aviões, cessaram os combates. De Sangonhá a Guileje era pouco mais de três quilómetros, foi-se acudir. E o que se via metia dó, Guileje folegava na manhã nascente, os de Sangonhá deixaram o que tinham trazido: mantimentos, munições e ânimo. Ninguém duvidava, tudo estava alterado. Nessa mesma noite Guileje voltou a ser atacada. Os de Sangonhá voltaram na manhã seguinte a Guileje, na véspera até lá tinham deixado uma GMC. “Chegámos. O segundo ataca deixara mais plana a imensa clareira da povoação, como se uma colossal força longínqua quisesse varrer aqueles insetos, tenazmente agarrados ao que acreditavam ser o seu dever de ficar. No meio do imenso anel cercado pela vala, como um grito, como um velho búfalo morrendo na madrugada, fumegando das narinas aquilo que já não é, estava a minha GMC, retorcida, carbonizada, esqueleto de ferros sem nexo, supostamente a olhar-me como se fosse pessoa triste no aspeto, fazendo-me experimentar a mágoa de perder algo que fazia parte do nosso convencimento.”

O alferes, naquele pedaço de fim do mundo, era multifuncional: militar e juiz; confessor e mantedor da ordem; gestor de recursos possíveis e impossíveis, e prestador de serviços para destacamentos próximos, no caso vertente Guileje ou Cacoca, organizando colunas de abastecimento a partir de Gadamael; e fadado para manter patrulhamentos de proximidade, e conforme conta Luís Rosa houve mesmo um dia em que se encontrou na fronteira com a autoridade local do lado de lá, foi uma vez sem exemplo, mas os de lado de lá cortaram o capim e a estrada para além fronteira, era hábito que havia antes da guerra, até havia o cuidado de limpar à volta dos matos fronteiriços. Coisas só podiam acontecer a quem combatia naquela extensa fronteira que bordejava de norte para sul.

O autor socorre-se obviamente à sua memória: a primeira flagelação a Sangonhá; o trabalho que deu ir-se desfazendo o que fora feito pela formiga bagabaga, para ter uma boa pista de aviação; o trabalho exaustivo dos picadores para detetarem minas antipessoal e anticarro, preferiam-se os meios mais antigos porque os modernos, detetores em forma de prato na ponta de um cabo e que produziam um som agudo se estivesse metal próximo eram um quebra-cabeças, acusavam tudo o que fosse metal, levando a paragens e precauções por um prego ou cavilha que estivessem enterrados a dois dedos da superfície – usavam-se uns paus finos, com uma ponta de ferro no extremo. E o autor apresenta-nos o cabo Cancela e o seu ajudante Djaló, há habilidade de rebentar os engenhos.

É um fio de histórias, o que ele nos recorda largamente de Sangonhá, pouca atenção dedicará à permanência em Farim. Há momentos de grande dor como aquele ferido por uma mina antipessoal que irá morrendo aos poucos, o helicóptero chegará exatamente quando o ferido deixou de se agarrar à vida. E a água, a epopeia de percorrer a pulso aquele solo gretado, com o terror que ela faltasse na duríssima época seca. Porque antes da guerra era tudo diferente, as gentes viviam em pequenos povoados, espalhando à sua volta poços pequenos, agora todas aquelas pequenas povoações tinham ficado desertas; e a comida, Santo Deus, conservas e bolachas ressequidas, para já não falar daquela água que mesmo fervida, era sempre desconchavada; feridos graves não faltam e haverá um, barbaramente sinistrado, que lhe gritará: “Meu alferes, nunca mais sou homem!”; aquela fronteira é obsidiante, procura-se o marco fronteiriço, ele tinha acreditado que a fronteira era definida por um poilão, um nativo desenganou-o, pesquisou-se no capim, encontrou-se o marco, metro e meio de altura, em cimento, dizendo de um lado República Portuguesa e do outro República Francesa.

Neste livro de memórias, era inevitável a menção à religiosidade, ao fanado, à condição da mulher. E também se recorda aquela duríssima flagelação em que o alferes foi ferido, e também se recorda a tragédia dos agentes duplos, como Zacarias Mambo, que acabou na leprosaria da Cumura.

O último texto da narrativa é um almoço, talvez no Restaurante João do Grão, estão presentes o alferes de Sangonhá e o comandante do PAIGC local, à época. Conversa artificiosa, o comandante revela-se pedante, dizendo coisas como: “Já aprendi que é mais difícil governar a paz do que fazer a guerra”; fala-se do colonialismo e do pós-colonialismo, dizem-se coisas como: “Há muitas formas de independência. E há muitas formas de dependência. Como há muitas formas de os povos se governarem e muitos modos de se relacionarem.” E despedem-se, o autor pensa eu houve um enorme espaço de tolerância, havia para ali um painel de azulejos em que a superfície era coberta por retângulos de espelho nos quais a antiguidade e a humidade fizera sumir o brilho e os muitos anos os tinham ido quebrando. O autor sentiu que as imagens se projetavam como um puzzle, dizendo para si próprio e para o leitor: “Quebráramos há muito as imagens antigas e achávamos desejável procurar um caminho pragmático de nos reencontrarmos.”

Prefiro não comentar a extravagância deste final.

Luís Rosa (Alcobaça, 1939 - Lisboa, 2020): foi alferes miliciano, CART 640 (Sangonhá, 1964/66)
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Notas do editor:

Vd. post de 27 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28218: Notas de leitura (1944): "Depois da Guerra", de Luís Rosa; edição de autor, 1990 (1) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 31 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28230: Notas de leitura (1945): "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026 (3) (Mário Beja Santos)

terça-feira, 14 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27919: Casos: a verdade sobre... (67): Kalashnikovomania - Parte II: Eu tinha 3 amores... (J. Casimiro Carvalho)




Foto nº 1 > Guiné > Região de Tombali > Guileje > CCAV 8350 (1972/74) > Março de 1973 > O  fur mil op esp J. Casimiro Carvalho empunhando, para a fotografia, A AK-47,  usada pelo Grupo do Marcelino da Mata, antes ou depois da operação de resgate do ten pilav Miguel Pessoa, cujo Fiat G-91 foi o primeio a ser abatido por um Strela sob os séus de Guileje, em 25 de março de 1973. Ao Casimiro Carvalho chamo-lhe o "herói de Gadamael", foi um dos bravos que ajudou a aguentar àquela posição, juntamente com os páras do BCP 12... O exército ficou-lhe a dever uma cruz de guerra...




Foto nº 2  > Guiné > Região de Tombali > Guileje > CCAV 8350 (1972/74) > Março de 1973 > O  fur mil op esp J. Casimiro Carvalho empunhando, para a fotografia, um RPG 7,  usado pelo Grupo do Marcelino da Mata, antes ou depois da operação de resgate do ten pilav Miguel Pessoa.



Foto nº 3> Guiné > Região de Tombali > Guileje > CCAV 8350 (1972/74) > Março de 1973 > O  fur mil op esp J. Casimiro Carvalho com a nossa metralhadora ligeira HK-21 que, com ele, "nunca encravava".



Foto nº 4 > Lamego > CIOE > c. 1971 > O soldado-instruendo J. Casimiro Carvalho,  na instrução com a  G3

Fotos (e legendas) : © J. Casimiro Carvalho (2009). Todos os direitos reservados [Edição e legendcagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné



1. O José Casimiro Carvalho foi fur mil op esp da CCAV 8350 ("Piratas de Guileje")  e da CCAÇ 11 ("Lacraus de Paunca"), tendo passado por Guileje, Gadamael, Nhacra e Paunca, entre outros sítios, entre 1972 e 1974. 

Nas quatro fotos acima, vemo-lo "aprendendo a amar" a G3 (em Lamego), usando a HK-21 (de fita ) (em Guileje) e depois, em março de 1973, ainda em Guileje, "dando uma voltinha com as gajas do IN", a AK-47 e o RPG 7K47 (*)..

Muito franca e honestamenet ele descobriu, no CTIG, que tinha (ou podia ter tido) 3 amores... O texto que se reproduz, abaixo,  é resultante de um seu  comentário, datado de 26 de novembro de 2010 às 14:58:00 WET, ao poste P7334 (*).

O J. Casimiro Carvalho é um histórico do nosso blogue para o qual entrou em finais de 2005. Tem uma centena de referências. É atualmente o régulo da TabanKa da Maia, cidade onde vive.

Eu tinha três... amores

por J. Casimiro Carvalho


Ele há coisas que não têm explicação.
Uma delas  são as armas.
Eu, em Lamego, adorava a G3.
Na Guiné adorava a HK 21 
e falava com ela
e ela compreendia-me,
pois eu a conhecia.
Comigo a gaja não encravava.

Posteriormente, já em Gadamael, 
apaixonei-me por aquela outra gaja, a AK 47.
E foi amor duradouro, caramba,
mas a gaja era mesmo boa,
que me perdoe a minha querida G3, 
pois não sou gajo de  traições.

Portanto, temos três gajas,
todas elas boas,
com as suas particularidades,
convenhamos.
Como as mulheres, né ?!

Um abraço deste vosso camarigo,
J. Carvalho

(Revisão / fixação de  texto: LG)


_________________

Notas do editor LG:


(**) Vd. poste de 25 de novembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7334: Kalashnikovomania (4): O fetichismo da G3... Há amores que não se esquecem (Torcato Mendonça)

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Guiné 61/74 - P27347: A nossa guerra em números (43): afinal, a nossa ração diária de vinho era de 0,5 litros... O melhor assistente de IA, em matéria dos nossos comes & bebes, é o nosso vagomestre... Aníbal Silva (ex-fur mil SAM, CCAV 2483 / BCAV 2867, Nova Sintra e Tite, 1969/70)

 



Guiné > Região de Quínara > Fulacunda 3ª C/Bart 6520/72 (1972/74) >  "Porto fluvial" (!) de Fulacunda (a 3/4  km do aquartelamento): reabastecimento quinzenal: mantimentos, caixas de munições, sacos de arroz para a população, bidões de combustível e de vinho, artigos de cantina, etc.; como não havia pontão, ou cais, a descarga era feita manualmente para as viaturas da tropa (GMC, Berliet, Unimog...). Uma tarefa penosa, feita na maré-cheia, dentro de água...

 Fulacunda era reabastecida, através do rio Grande de Buba  e do seu afluente, na margem direita, o rio Fulacunda (que ficava a sul),  com recurso a LDM (Lancha de Desembarque Média) ou barco civil (popularmente conhecido como "barco-turra").

Na foto acima, com pormenores assinalados a amarelo, veem-se bidões: 2 deles, de 1 cor verde e outro azul, podem ser de combustível, petróleo branco e gasóleo, respetivamente; um outro, com tampo branco,  com círculo amarelo mais pequeno, pode ser de vinho... Mas pergunta-se: como se descarregavam, nestas circunstâncias, bidões de 200 litros ?
  
 Fotos do álbum do Jorge Pinto  (parte dos "slides" que temos aqui publicados são dele ou do Armando Oliveira: generoso e solidário como ele, não faz questão de reclamar os créditos fotográficos: considera o seu álbum como património de todos os fulacundenses).


Fotos (e legenda): © Armando Oliveira (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné > Região de Quínara > Fulacunda > 3ª CART / BART 6520/72 (1972/74) > "Porto fluvial", no Rio Fulacunda, afluente do Rio Grande de Buba, que ficava a sul > Chegada de uma LDP com reabastecimentos, vinda diretamente de Bissau.. A LDP e LDM eram mais práticas, podendo abicar na praia,o que facilitava a descarga de bidões e barris,

[ Foto do álbum de Jorge Pinto, ex-alf mil da 3.ª CART/BART 6520/72 (Fulacunda, 1972/74), professor de história reformado; natural de Alcobaça, vive na Grande Lisboa e é também membro da nossa Tabanca Grande e da Tabanca da Linha]


Foto (e legenda): © Jorge Pinto (2014). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

1. O melhor assistente  de IA  para sabermos coisas sobre os nossos comes & bebes na Guiné ? São os nossos "intendentes" e os nossos "vagomestres", pois claro. 

Infelizmente são poucos, os que integram a Tabanca Grande e estão ainda vivos. Mas felizmente que temos o nosso Aníbal   Silva (ou Aníbal José da Silva, como está registado na Tabanca Grande) que tem sido inexcedível na sua vontade em partilhar informação (oral e escrita) sobre estas matérias, que já estão tão esquecidas da maior parte da malta... Além disso, ele é o autor da notável série "Vivências em Nova Sintra", de que se publicaram 16 postes,  desde 4/3/2025  até 17/6/2025.

Perguntei a alguns de nós se se lembravam do "per diem", a verba para a nossa alimentação diária... Já ninguém se lembrava da quantia em escudos (24$50), que o gen António Spínola, no relatório do comando relativo à situação em 1971, propunha que passasse para 33$00 (um aumento de mais de 1/3), face ao agravamento do custo de #géneros de 1ª necessidade" bem como dos "transportes da Metrópole para a Província". (Não sabemos se até ao final da guerra houve alteração da verba para a alimentação diária no CTIG.)

Era com esses 24$50 que o vagomestre  tinha de nos alimentar diariamente (3 refeições).

Além de informador privilegiado como vagomestre e como gestor da cantina de Nova Sintra, ao tempo em que esteve com a sua companhia, CCAV 2483 / BCAV 2867 (Nova Sintra e Tite, 1969/70), o Aníbal Silva é um excelente e afável contador de histórias e lembra-se de coisas do arco da velha.

O Aníbal (que fez a Escola Comercial e foi técnico de seguros) tem especiais competências em matéria de literacia e numeracia: só podia, pois, ser o homem certo no lugar certo. E ainda hoje guarda (o que é incrível!) documentação daquela época, rekatcionadas com a alimentação e atigos de cantina, e que faz questão de partilhar com o nosso blogue.

Mensagem recente, de 22/10/2025, 09:10 

Bom dia, caríssimo Luís

Depois da nossa conversa telefónica de ontem, que muito me honrou, procurei e encontrei o livro sobre a alimentação, o "missal" dos vagomestres, que tem umas dezenas de páginas e do qual envio em anexo meia dúzia dessas páginas, digitalizadas. 

Numa delas, relativa às ementas, verifico que a quantidade de vinho que cada militar tinha direito por dia era de 0,5 litros  (0,2 ao almoço e 0,3 ao jantar). 

Tenho também uma sebenta que para além das questões da alimentação, aborda outros assuntos, tais como: prestação de contas; fardamentos; vencimentos e até armamento. Na sebenta fui encontrar o protótipo do mapa modelo 1, o tal lençol de que te falei.

Caso pretendas, para os teus estudos e análises, posso enviar-te pelo correio os dois "documentos". Na afirmativa, fico a aguardar que me facultes o teu endereço. (...)


Capa do "missal dos vagomestres":  1º Grupo de Companhias de Administração Militar: Gabinete de Estudos - "Elementos sobre o Serviço de Alimentação no Exército" (Compilados de apontamentos editados pela EPAM em 1962).



Capítulos 1 e 2 (pp. 1-14)


Capítulos 3,4,5,6 e 7 (pp. 15 -28)


Capítulos 8, 9 e 10 (pp. 29 -40)

Índice do livro, de 40 pp. Cada página corresponde a uma ficha





De acordo com as ementas nºs 5 e 6.  a ração diária de vinho, dos militares, nos anos da guerra do ultramar, era de 0,5 l (0,2 l ao almoço, e 0,3 l ao jantar).



A famigerado mapa modelo 1 (que era o quebra-cabeças do vagomestre). Como curiosidade, repare-se no preço (unitário) do vinho: 6$00 (em 1969/70); em 1974 era já   quase o dobro (11$60). O mesmo se  verifica com outros bens essenciais: arroz (6$50, que passa para 14$50); batata (5$00 | 8$20)... O açúcar mantem-se (6$00 | 6$70). 

Fotos (e legendas): © Aníbal Silva (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Aníbal Silva, ex-fur mil SAM,
  CCAV 2483 / BCAV 2867 (Nova Sintra e Tite, 1969/70)

2. O que transcrevo a seguir é um apanhado das conversas que vou tendo com ele ao telemóvel (ele vive em Arcozelo, se não erro, freguesia de Vila Nova de Gaia, já prometemos encontrarmo-nos quando eu for à Madalena).

2.1.  São João, frente a Bolama, era abastecido diretamente por Bissau. Tite também. E Fulacunda. E Bambadinca. E, claro, Nova Sintra,

 A via fluvial ainda era a mais rápida, económica e relativamente segura (rio Cacheu, na zona Oeste; rio Geba, na zona Leste; canal do Geba e de Bolama, para a região de Quínara; o rio Cumbijã  e o rio Cumbijã e o rio Cacine, para a região de Tombali).

O vinho era transportado de Bissau em barris de 100 litros (mais tarde bidões de 200 l, mas já não é do tempo do Aníbal Silva, nem do meu, somos de 69/71,.

2.2. Em Nova Sintra, era através de um afluente do rio Grande de Buba.

Como não tinham outro sítio para os guardar os barris de 100 litros, utilizava um antigo galinheiro, que estava vago; claro que era um sítio de fácil acesso aos "ladrões de vinho" (não havia "guarda á adega").

Uma vez aberto  um barril, durava dois a très dias... E a opinião que a malta ainda hoje tem é que vinho que se bebia em  Nova Sintra  até era de boa qualidade, tinha bom paladar; e de resto toda a gente bebia vinho. 

E interessante a informação de que um barril de 100 l dava só para 2 ou dias. Ou seja, não havia risco de oxidar.Utilizava-se um tubo de borracha para encher recipientes mais pequenos como garrafões. Também já não é do seu tempo o uso de garrafões de 10 l, empalhados, para o transporte de vinho (deve ter sido prática dos primeiros anos de guerra).

2.3. Claro que também aqui havia pequenos furtos: havia sempre ums "jeitosinhos" que, com uma broca manual,  fazia um furinho na tampa, e com uma borrachinha ia lá encher o cantil.. "Pró petisco".

Tal como havia malta que, no dia de descascar batatas para o rancho levava as calças de camuflado para encher os bolsos..."pró petisco". Os iam de calções, que era o traje habitual...

Tal como havia malta que era capaz de, numa coluna logística ao porto fluvial, no reabastecimento mensal, e antes da chegada ao quartel,. , "desviar uma ou duas caixas de cerveja", gurdá-las no mato em sítio seguro e  ir lá depois buscá-las, passadas 24 ou 48 horas.

2.4. Mas também havia a ração de aguardente. A meio da comissão,  a Intendência mandou perguntar se a companhia tinha barris de aguardente. O Aníbal disse que não. Passados uns tempos, foi abrir um barril (que julgava ser de vinho) e  viu que era aguardente. Havia 300 litros (3 barris) de aguardente, em "stock", intactos!...  Bom, deu para o resto da comissão,  enquanto a malta esteve em Nova Sintra antes de ir para Tite. Uma ração de aguardente passou a ser distribuída pelos abrigos.

2.5.  O Aníbal, vagomestre, tirou a especialidade em Póvoa do Varzim, na antiga Escola Prática de Administração Militar (hoje Escola de Serviços do Exército)  ficou também, em Nova Sintra, com a cantina, ao tempo do segundo capitão da companhia que detectou irregularidades na gestão anterior. 

Havia um "buraco" nas contas que era preciso sanear... E que ele saneou... (Como "prémio", ficou, no fim, na "comissão liquidatária" da companhia e do batalhão, um "pincel" que ninguém queria, podendo atrasar o regresso a casa.)

Não havia máquinas de calcular, naquele tempo, as contas eram feitas à mão, uma, duas, três, quatro vezes, até baterem certas. E havia um lençol, o famigerado mapa modelo 1, que era um a quebra-cabeças para qualquer vagomestre.


2. Falando há dias com um antigo comandante de companhia, hoje cor art ref, o nosso grão-tabanqueiro Morais da Silva, disse ele que "nunca bebeu vinho em Gadamae
l" (onde comandou a CCAÇ 2796, entre jan 1971 e fev 1972). Nem ele nem os seus alferes e furriéis,. Bebiam cerveja. Aliás, deixou de beber vindo desde que  veio de Angola. onde fez o  curso de comandos.

Já não se lembrava do "per diem" nem da ração de vinho diária...Vai perguntar ao vagomestre que é hoje um quadro superior do BCP, reformado.  Gaba-se de ter tido excelentes colaboradores em todos os setores de apoio, da saúde (onde teve um  1º cabo aux enf  excecional, e de quem toda gente perdeu o rasto) às transmissões,  da intendência ao material.

Tem ideia, sim, que a malta se queixava que a Intendência punha uns "pozinhos no vinho". 

O Humberto Reis, ex.fur mil op esp /ranger, da CCAÇ 12 (Bambadinca, 1969/71) e colaborador permanente do nosso blogue também confirma que os nossos soldados, pro serem resarranchados, recebiam mais 750$00 por mês.

 Quando o Gr Comb dele, o 2ª, ia para o destacamento do rio Undunduma, o pessoal metropolitano recebia o seu rancho, confeccionado em Bambadinca, mas a viatura também trazia os "tachos de arroz" que as mulheres dos nossos soldados cozinhavam para eles na tabanca... Cada um tinha um lenço da sua cor.... Em operações no mato, também levavam a sua "marmita" (arroz cozido embrulhado num lenço)...

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 2 de outubro de 2025 > Guiné 61/74 - P27340: A nossa guerra em números (42): com um "per diem" (verba de alimentação diária) de 24$50 (hoje 4,10 euros) dava para fazer uma... ometela simples mas saborosa!

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Guiné 61/74 - P27334: O início da guerra (Armando Fonseca, ex-sold cond, Pel Rec Fox 42, mai 62 / jul 64) - Parte IV: Depois de Guileje, Ganturé (fev/mai 1964)





Guiné > Zona Sul > Região de Tombali > Pel Rec Fox 42 > 1964 > Ganturé


Fotos (e legendas): © Armando Fonseca (2012). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné > Zona Sul > Região de Tombali > Carta de Cacoca (1960) (Escala 1/ 50 mil) > Posição relativa de Gadamael, Ganturé, Sangonhá, Cacoca, rio Cacine, fornteira com a Guiné-Conacri, parte do Quitafine/Cacine e do Cantanhez (e as míticas matas de Camaiucuntane, Catabá, Catonco, Casséfunda)

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2025



O início da guerra (Armando Fonseca, ex-sold cond, Pel Rec Fox 42, mai 62 / jul 64)

Parte IV - Depois de Guileje, Ganturé (fev/mai 64)




Armando Fonseca,
o "Alenquer", ex-sold cond,
Pel Rec Fox 42 (1962/64)
Durante a permanência do meu pelotão em Guileje (*), enquanto ia avançando a construção do aquartelamento, nós deslocávamo-nos com frequência a Aldeia Formosa, Buba, Bedanda, etc.

Nessas deslocações sofríamos algumas emboscadas e, como reagíamos de imediato, porque tínhamos um forte poder de fogo, depressa eram aniquiladas.

Lembro-me,  de uma das vezes em que fomos a Bedanda, termos sofrido uma emboscada e na sequência desse ataque, em certa altura ver um arame a ir pelo ar, saindo debaixo da minha autometralhadora. Esse arame não era nada mais nada menos do que o comando de uma mina que,  depois de levantada,  tinha o bonito peso de sete quilos.

Pelo que se deduziu, o arame foi puxado no exacto momento em que uma das rodas o pisava e por isso se partiu e a mina não explodiu. Depois de bem examinado o local, ainda havia mais outra mina idêntica,  uns metros mais à frente, mas que devido à nossa rápida reacção, o IN 
partiu em debandada e não houve tempo de a fazer explodir.

Depois do aquartelamento de Guileje ter condições de alguma segurança para defesa do pelotão que aí se instalou (a CART 495),  nós rumámos para outras paragens.

Em Gadamael Porto encontrava-se uma companhia que se encontrava totalmente isolada por estrada, devido às dezenas de árvores que ocupavam as estradas que comunicavam com essa localidade vindas de Norte. Ali só se chegava de barco ou de helicóptero.

Essa companhia era constantemente flagelada pelos ataques do IN e toda aquela gente vivia em frequente sobressalto, até que foi posta em marcha a Operação “Furão” que tinha por fim pôr transitável a estrada entre Guileje e Gadamael.

Então, a 2 de fevereiro de 1964, lá vamos nós a escoltar os Caçadores e a Engenharia a fim de desobstruir a estrada. Assim: depois de quase um dia, e de várias dezenas de árvores cortadas e retiradas para as bermas da estrada, chegámos a Ganturé que se situa a cerca de três quilómetros de Gadamael Porto.(**)

Ao chegarmos, foram detectados vários vestígios da presença do IN que aí se tinha instalado, porque as tropas que estavam em Gadamael não conseguiam vir até aí sem que sofressem grandes emboscadas que as obrigavam a voltar para trás.(**)

Depois de instalado em Ganturé um perímetro de segurança, o Pelotão de Cavalaria deslocou-se a Gadamael onde foi recebido com pompa e circunstância; havia um grande lanche pà nossa espera com comida e bebida à descrição.

Nesse dia,  eu que nem sou de muitas bebidas, apanhei o maior pifo da minha vida, que nem sei como regressei a Ganturé, nem por onde o carro passou, só sei que acordei no outro dia de manhã debaixo do carro, deitado em cima de um pouco de capim seco que alguma alma caridosa se encarregou de lá colocar.

Durante os próximos dias seguiram-se a montagem do arame farpado à volta do aquartelamento, a escavação de abrigos, a melhoria de habitabilidade das palhotas ali existentes, que eram agora as nossas habitações, e escoltas aos arredores a fim de serem minados os possíveis acessos do IN.

O meu Pelotão deslocava-se a Gadamael várias vezes por dia visto que era lá que funcionava a cozinha e as messes de Sargentos e de Oficiais. Por vezes também nos deslocávamos a Guileje.

Nessas deslocações, nos locais que se julgavam perigosos, fazia-se fogo de reconhecimento e numa dessas vezes aconteceu um caso pouco vulgar:

Ao serem feitas algumas rajadas para reconhecimento, no cruzamento entre Ganturé, Gadamael Porto e Gadamael Fronteira, senti uma leve comichão no pescoço e um liquido viscoso a correr-me pelo peito. Qual não foi o meu espanto ao verificar que já existia uma quantidade de sangue dentro da camisa.

Coloquei um penso e,  ao chegar a Gadamael,  o médico verificou que havia um corte provocado por um objecto metálico. Como não tínhamos ouvido nenhum tiro por parte do IN,  isso criou-nos alguma admiração. No regresso fomos averiguar no local se havia alguns vestígios de algum atirador isolado, mas o que se encontrou foi uma lasca de ferro tirada de um poste dos fios telefónicos que era de ferro, o que nos levou a supor que foi o nosso próprio fogo que me provocou esse ferimento.

Quem havia de dizer que aquela lasca, arrancada pelo fogo das nossas metralhadoras, vinha entrar pela janela de visão do condutor, que é muito limitada em tamanho, cerca de 40 cm x 15cm.

Cerca de um mês depois, quando nos deslocávamos ao encontro de uma coluna que se destinava ao abastecimento do aquartelamento de Guileje vinda de Aldeia Formosa (pois como anteriormente referi, nunca os dois Pelotões de Cavalaria se encontravam do mesmo lado do rio Balana, por causa da possível destruição da ponte), sofremos uma emboscada.  E voltei de novo  a ser ferido por uma rajada que,   batendo na frente da autometralhadora junto da janela, os estilhaços das balas juntamente com tinta vieram.se  espetar na minha cara.

Fiquei com quatro ou cinco ferimentos ligeiros, e o resto eram pedaços de tinta espetados por toda a cara. O alferes,  ao ver a minha cara,  ficou estupefacto, ainda ficou mais preocupado do que eu.

Até esta altura, março de 1964, já com 22 messes de comissão, nunca tínhamos tido ninguém ferido, mas aqui o nosso bom anjo parecia ter-nos abandonado.

Permanecemos em Ganturé até 20 de maio. No dia seguinte fomos para Sangonhá (...)

(Continua)


(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)


(**) "Em 19 e 20Fev74, efectuou-se a operação Furão, que consistiu numa  coluna de Aldeia Formosa com destino a Gadamael Porto com apoio aéreo. Foram retirados 50 abatizes; abatido 1 elemento ln e apreendido armamento." 

(...) "A operação Ganturé foi realizada por um Grupo de Combate/CArt 494, Pelotão Rec Fox 42 e um Pelotão da CCaç 555; o Grupo fixou-se, no dia 21Fev64, em Ganturé. O Pel Rec Fox 42 patrulhou até Guileje e regressou a Ganturé. No dia seguinte o Pel Rec Fox e elementos de sapadores, percorreram a estrada Ganturé-Bricama e minaram os caminhos de acesso da fronteira a Gadamael. O Pel/CCaç 555 patrulhou Cabedú Nalú e capturou 3 suspeitos.

Fonte: Excertos de ECA - Comissão para Estudo das Campanhas de África: Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974) : 6.º Volume - Aspectos da actividade operacional: Tomo II - Guiné - Livro I (1.ª edição, Lisboa, 2014), pág. 198.

quarta-feira, 19 de março de 2025

Guiné 61/74 - P26596: As nossas geografias emocionais (50): Gadamael com 40 anos de diferença: fotos de 1971, do Morais Silva (cmdt, CCAÇ 2796, 1970/72), e de 2010, do Pepito (AD - Acção para o Desenvolvimento, Bissau) (1949-2012)



Foto nº 1 e 1A > Guiné > Região de Tombali > Gadamael > CCAÇ 2796, "Os Gaviões" (1970/72) > O pau da bandeira


Foto nº 2 >  Guiné-Bissau > Região de Tombali > Gadamael Porto > 10 de outubro de 2010 > O que restava da base do pau da bandeira...





Foto nº 3, 3A, 3B, 3C > Guiné > Região de Tombali > Gadamael > CCAÇ 2796, "Os Gaviões" (1970/72) > O "porto"... Gadamael não era banhada pelo rio Sapo (que corria mais a sul, mais perto de Sangonhá) mas por um braço do rio Cacine, sem nome  (vd. Carta de Cacoca, 1960, Escala 1/50 mil).


Foto nº 4 >  Guiné-Bissau > Região de Tombali > Gadamael Porto > 10 de outubro de 2010 >  O antigo cais... (Ou o nível da água do rio está subir, ou a estrutura dsgradou-se muito com o tempo: são 40 anos)




Foto nº 5, 3A, 3B > Guiné > Região de Tombali > Gadamael > CCAÇ 2796,. "Os Gaviões" (1970/72) >  Traseiras do edifício de comando (possivelmente a antiga casa ou loja de um comerciante)


Foto nº 6 >  Guiné-Bissau > Região de Tombali > Gadamael Porto > 10 de outubro de 2010 >  O antigo  edifício de comando, visto de frente






Foto nº 7, 7A, 7B, 7C, 7D > Guiné > Região de Tombali > Gadamael > CCAÇ 2796, "Os Gaviões" (1970/72) >  Janeiro de 1972 > A "avenida principal"... O "ferIdo" que se vê em primeiro plano junto da velha GMC faz parte do "cenário" das habituais praxes aos "periquitos"... A CCAÇ 2796 seria depois colocada em Quinhamel...



1. São quarenta anos de diferença... 1971, 2010... Gadamael, um dos 3 G da Guerra da Guiné, que esteve a ferro e fogo (em maio / junho de 1973)...

Gadamael  tem mais de 430 referências no nosso blogue (Guileje tem mais  580; e Guidaje, 275).

Neste poste as fotos nºs 2, 4 e 6 são  do álbum do falecido Pepito (engº agrónomo, Carlos Schwarz da Silva, então diretor executivo da AD - Acção para o Desenvolvimento) (Bissau, 1949 - Lisboa, 2012).

 Fotos (e legendas): © Pepito (2010). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné ]


As restantes fotos (nºs 1, 3, 5 e 7= são do álbum do cor art ref, na altura (jan 71/ fev 72), cmdt dos "Gavióes, a CCAÇ 2796. 

Lembre-se que o cor art ref Morais da Silva:

(i) foi cadete-aluno nº 45/63 do Corpo de Alunos da Academia Militar (e depois, mais tarde, professor de investigação operacional na AM, durante cerca de 2 décadas);

(ii) no CTIG, foi comandante da CCAÇ 2796, em Gadamael, entre jan 1971 e fev 1972; instrutor da 1ª CCmds Africanos, em Fá Mandinga; adjunto do COP 6, em Mansabá;

(iii) fez parte do Grupo L34, na Op Viragem Histórica, no 25 de Abril de 1974;

(iv) é membro da nossa Tabanca Grande, com cerca de 150 referências no blogue.

Fotos (e legendas): © Morais da Silva (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné > Região de Tombali > Carta de Cacoca (1960) (Escala 1/50 mil) > Posição relativa de Gadamael Porto, Ganturé, Sangonhá, Cacoca, Rio Cacine e fronteira com a Guiné-Conacri


Infografia: Morais Silva / Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2025)

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