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quarta-feira, 8 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28163: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte X : semana de 7 a 13 de abril: Ainda sobre o "barlaque": quem parte e reparte e não leva a melhor parte, ou é tolo ou não sabe da arte ?!







... Não, em Timor-Leste não se pode aplicar, nas negociações do barlaque, o provérbio popular português: "Quem parte e reparte, e não leva a melhor parte, ou é tolo ou não tem arte". Aplicar esse provérbio seria ignorar completamente a lógica do sistema. O barlaque não é um negócio de soma zero ou uma partilha de bens onde um tenta passar a perna ao outro; não é asimples e tradicional "caça ao dote";  é um intrincado tecido de alianças, reciprocidade, regulação, partilha e equilíbrio social entre famílias (umane e fetosan). Não se trata de "levar a melhor parte", mas sim de selar um compromisso e garantir o respeito mútuo. Parece ser uma estratégia "win-win" (ganhas tu, ganho eu), pese embora a contestação deste "construto cultural" por parte da geraçáo mais recente, escolarizada e crítica, e nomeadamente dos que defendem a "igualdade de oportunidades" para as mulheres numa sociedade que ainda é "patriarcal e falocrática"...
 
"Prompt e orientação editorial: Luís Graça | Texto e imagem: Rui Chamusco (2019) | Geração gráfica assistida por IA: Google (2026), Gemini (versão de 7 de julho de 2026) [Grande modelo de linguagem]. Disponível em: https://gemini.google.com/"


1. Continuamos a publicar e excertos das crónicas da III Viagem (2019) (*),  realizada pelo Rui Chamusco a Timor-Leste, enquanto cofundador e dirigente da ASTIL, a associação portuguesa de solidariedade com Timor Leste (ASTIL), que já montou, equipou e pôs a funcionar uma escola nas montanahs de Liquiçá (Manatti / Boebau), a Escola de São Francisco de Assis (ESFA), e faz o "apadrinhamento" de crianças em idade escolar. 

O nosso amigo (e membro da Tabanca Grande), Rui Chamusco, professor de música reformado, a viver na Lourinhã, vai a Timor Leste todos os anos desde 2016 (exceto na pandemia, 2020, 21 e 22).

São 3 dias de viagem até Díli!... Fica lá 3 ou 4 meses... Ele já tem 80 anos e há dias fez uma operação cirúrgica,delicada,   de que está a recuperar felizmente bem... Temos publicado as suas crónicas anuais no nosso blogue. 

Tem uma história de vida inspiradora. É um exemplo vivo de como a solidariedade portuguesa com Timor-Leste continua a ser concreta, persistente e transformadora, mesmo décadas após a independência (em 2002). É também um exemplo vivo, o dele e da associação que ajudou a fubdar (a ASTIL),  de amor à lusofonia. Essa história merece ser conhecido pelos nossos leitores, os amigos e camaradas da Guiné.

Lendo as suas crónicas (que ele reuniu numa brochura em pdf, com cerca de 3 centenas de páginas), ficamos a saber muito mais  sobre a história, a cultura, a geografia, a sociodemografia, a idiossincrasia daquele país, que nos é tão querido, membro da CPLP.

Já aqui publicámos excertos das crónicas da I viagem (2016), II (2018) e VI (e última) (2025). Depois da pandemia,  o Rui voltou a Timor-Leste em 2023 (IV viagem), e anos seguintes: 2024 (V viagem) e 2025 (VI viagem).

Este ano talvez lá volte, mas apenas pelo Natal, se Deus Nosso Senhor e a Senhora da Saúde o permitirem. Sem esquecer, claro, o seu mentor,  São Francisco d' Assis, que ele cita amiúde.

Além da construção, organização e funcionamento da Escola, a par do "apadrinhamento de crianças em idade escolar", a pequena ASTIL (que tem sede em Coimbra e delegação no Sabugal)  já construiu a  "casa do professor" e adquiriu uma viatura todo-o-terreno ("pick up"), indispensável para se chegar a Boebau, na montanha. Nestas crónicas de 2019, há referência a dificuldades e limitações que, felizmente, já foram superadas. Falta, finalmente, resolver o problema da colocação, definitiva, de professores de carreira. A escola continua a ser privada e inteiramente financiada pela ASTIL (e os pais dos alunos).

Em Díli costuma ficar na casa do irmão mais novo do Gaspar Sobral (outro cofumdador e dirigente da ASTIL, luso-timoresne, retornado de Angola, onde foi topógrafo), o "Eustáquio" (João de Araújo Moniz de Oliveira Sobral) (que de 1975 a 1978, andou fugido dos indonésios nas montanhas de Liquiçá, com a irmã mais nova e a mãe, tinha então 14 anos!).



Rui Chamusco, professor de música, reformado, é cofundador e líder da ASTIL - Associação dos Amigos Solidários com Timor Leste: é natural ds Malcata, Sabugal; vive na Lourinhã; é membro da Tabanca Grande, tem 70 referências no blogue; à direita, o Gaspar Sobral, o luso-timorense, retornado de Angola, casado com a Glória Sobral, natural de Sabugal: foi este casal que meteu o Rui nesta aventura solidária (que, para todos, tem sido gratificante).


III Viagem a Timor-Leste :  2019 (Rui Chamusco, ASTIL)

Parte X:  semana de 7 a 13 de abril: ainda "a arte de negociar no barlaque"  


07.04.2019, domingo  - A alegria de dar e de receber...

Hoje foi dia de entregar os donativos que os padrinhos enviaram para os seus afilhados durante o mês de março.

Acredito que quem dá sente uma alegria enorme de poder partilhar com os outros aquilo que lhes faz falta. Mas gostava que imaginassem a grande alegria de quem recebe, de quem não tendo quase nada se vê com uma nota de dez ou vinte dólares na mão. Até os olhos brilham!... Esta gente agradece profundamente com sorrisos abertos e sinceros. Não há melhor paga para quem dá.

Desta vez, porque estava presente, quis fazer pequenos videos aos afilhados que, em
português, mandaram uma pequena mensagem às madrinhas e aos padrinhos. Espero
que todos os tenham recebido em boas condições.
E, como diz uma canção:

 “Dar do pouco que se tem / Ao que tem menos ainda /
Enriquece o doador / Faz sua alma ‘inda mais linda”. 

“ Fica sempre um pouco de perfume / Nas mãos que oferecem rosas / Nas mãos que sabem ser generosas.” 

Não há palavras mais certas para definir a ação de dar. Agora imaginem o nosso mundo se
cada um doasse um terço daquilo que lhe sobra. Tantas necessidades seriam resolvidas; tantas bocas famintas seriam saciadas.

“Ó Mestre, fazei que eu tenha mais prazer em dar do que em receber; em consolar do
que ser consolado; em amar do que ser amado. Porque é dando que recebemos; é
consolando que se é consolado; é amando que se é amado. E é morrendo que se vive
para a vida eterna.” (São Francisco de Assis)

08.04.2019, segunda feira  - Pontos nos iiis... O programa de "apadrinhamento"

O programa de apadrinhamento tem nos colocado algumas questões, por parte dos beneficiários dos donativos. Embora todos saibam que o dinheiro dos donativos deve ser aplicado no processo escolar das crianças/jovens apadrinhadas, nomeadamente no pagamento das despesas escolares ( material escolar, propinas, fardas, etc.), fica-nos a dúvida o que farão as famílias ao dinheiro remanescente. Será gasto em quê? Em necessidades básicas (alimentação)? Em gastos surperfulos?

Foi por isso que nesta entrega de março fizemos questão de lembrar uma vez mais a da boa aplicação dos donativos em dinheiro que os padrinhos/madrinhas lhes vão enviando, e da obrigação de darem sinal do aproveitamento escolar com a apresentação no final de cada período da caderneta.

Sugerimos-lhes também cada afilhado/a peça a abertura de uma conta jovem, na CGD / BNU, onde possa depositar o dinheiro não gasto, constituindo assim um fundo económico que lhe possa ser útil na sua vida de estudante. Nós próprios nos comprometemos em falar com a gerência da Caixa, a fim de serem criadas as condições para estas contas.

Oxalá que o esforço que todos estamos fazendo por melhorar as condições de vida desta crianças e jovens necessitados se traduzam em aproveitamento real e solução dos seus problemas e necessidades.

ASTIL - Projeto de Solidariedade em Timor Leste
Programa de Apadrinhamento de Crianças Necessitadas

Estimadas madrinhas e padrinhos

Esperamos que estejam todos bem. Nós, cá por Timor. também estamos bem. Antes de mais, queremos agradecer a cossa colaboração e generosidade neste Programa de Apadrinhamento. As(os) vossas(os) afilhadas(os) estão vos profundamente reconhecidos, e pena é que a distância não nos permita um encontro com todos eles. Valem-nos ao menos as novas tecnologias para que, de quando em quando, consigamos comunicar. De nossa parte tudo faremos para que a relação de amizade seja fomentada e fortificada.

Esta circular tem a finalidade de vos darmos conta de como este programa se está a desenvolver e de vos informar das medidas que estamos a tomar em relação aos vossos donativos.

Como sabem, os donativos depositados na conta da Astil, em Portugal / Agência de Sabugal, são transferidos da CGD para a conta solidária criada no BNU Timor /CGD. No final de cada mês é feita a folha mensal de donativos, cuja soma será levantada por quem de direito no BNU, a fim de ser entregue pessoalmente a cada beneficiado.

Podemos informar-vos de que, até hoje, já foram entregues 9.259 dólares.

Como está claramente explicado nas orientações deste programa que foram enviadas a cada madrinha e padrinho, estes donativos têm como prioridade ajudar as famílias nas despesas escolares dos seus filhos. Estamos a ser exigentes com essas famílias, explicando-lhes cada vez que vêm receber os donativos, que o dinheiro recebido deve ser aplicado na educação e material escolar dos apadrinhados. Como não temos meios de controlar essa aplicação, foi sugerido que o dinheiro remanescente dessas despesas seja depositado na conta jovem que a CGD/BNU dispõe, para que se constitua um fundo disponível de modo a permitir a continuidade dos estudos, inclusive os estudos universitários. 

Nós mesmos ficámos de nos encontrar com a gerência desta agência da CGD a fim de facilitarem a abertura da conta jovem para estas crianças/jovens.

Não queremos que fiquem dúvidas sobre a aplicação dos vossos donativos. Este programa foi criado de raíz, e portanto com muitas imperfeições. Mas continuaremos sempre a fazer como melhor sabemos, tentando sempre que a honestidade e transparência sejam o nosso guia.

Acreditem, que nem um cêntimo do dinheiro depositado será retirado ou desviado do fim em vista, sendo entregue na íntegra aos seus destinatários.

Queremos continuar a merecer a vossa confiança e, enquanto pudermos, tudo faremos para que o programa seja bem cumprido e obtenha os resultados esperados. Com estima e consideração por todos vós,
Rui Chamusco / João Moniz / Gaspar Sobral


09.04.2019, terça feira  - “ A ver os aviões!"... A despedida 
do comandante Rui Pedro

Tinha prometido ao amigo Rui Pedro que estaria ao meio dia no aeroporto de Díli para lhe dar um abraço. E assim foi. Sem nada mais combinarmos, chegámos ao mesmo tempo. Depois de eu e o Amali apearmos da mota, e preparando-nos para ir até às portas do chek-in, passa ao nosso lado o automóvel que transportava o nosso viajante. Encontro mais fácil não podia haver.

Passados alguns minutos a ver os aviões e a controlar o tráfego aéreo, chegou a hora de dizer adeus a este amigo que, para além de primo, é um “gajo porreiro”. Sei que este dias que irá passar em família serão bem aproveitados. Cá por mim, até começo já a ter inveja. As saudades já apertam e começam a fazer mossa. Quando será a minha vez? Ainda não sei. Mas sei que ela há-de chegar.

Boa viajem,  meu amigo! Que tudo se passe segundo os teus desejos.

Sei que em Lisboa ou no Algarve todos te esperam ansiosamente. Sei que vão ser muitos os beijos e os abraços: sei que a família e os amigos te vão cobrir de atenções.

Sei que será bom, muito bom.

Cá te esperamos de volta, a estas terras do oriente, a este Timor Lorosae que nos enfeitiçou de tal maneira que já não podemos viver sem ele.

Rui meu homónimo: Faz o favor de seres feliz!...

12.04.2019, sexta feira  - Ver para crer... Cinofagia, carnismo...

Que a carne de cão é consumida e apreciada em países asiáticos e do oriente, já não é novidade nenhuma. Nas II crónicas descrevi o que aconteceu aqui em 2018, em Ailok Laran, com a desgraçada Prety, a cadela cá de casa que, num abrir e fechar de olhos, desapareceu do mapa. Foi chorada a sua sorte como tendo sido vítima de um caçador e comerciante de carne de canídeo, cuja alcunha é “cara de cão”.

Hoje, o que vi, veio confirmar esta crença “ver para acreditar”.

A Umbelina, uma moça da montanha de Liquiçá que vive connosco para estudar na UNTL, veio chamar a atenção que estava ali um cão morto. Verificado o óbito do animal, depressa reconheceram que era o cão do Ti Carlos, um vizinho aqui ao lado, que prontamente o procurou e arrastou até à berma do caminho que passa junto a estas casas. Chamou um rapaz da vizinhança, e apontou para o bicho dizendo: "se vos interessa levai e comei.” 

E assim foi. O jovem pegou no animal e levou não sei para onde a fim de ser chamuscado, lavado e preparado para o petisco. Qual visto e carimbo de veterinário, qual quê?! Está morto, e o seu corpo foi levantado do local sem autorização do delegado de saúde. Sem autópsia que explique a causa da sua morte, sem qualquer outra justificação. Vai ser devorado por apetites desenfreados, que nem sequer pensam que o “cão é o animal mais fiel ao homem.”

E, perante a nossa repugnância por tal facto, ainda gozam connosco convidando-nos para saborear esta iguaria. 

- Ti Rui, quer comer que eu vou comprar?

Não! Não quero que a minha mente e o meu corpo se alimentem de tais afetos e sentimentos. Prefiro ementas saudáveis e sem escrúpulos de consciência. Prefiro guardar memórias daqueles animais de estimação que tanto nos ajudaram brincando connosco, fazendo-nos companhia durante anos, dias e horas. Boas lembranças destes amigos que, mesmo ausentes, nos detectam seja onde for, graças ao seu sentido apurado do olfato.

13.04.2019, sábado - Histórias e mais histórias... Ainda o barlaque

Hoje, ao pequeno almoço, tivemos um suplemento extra: histórias que são ou foram realidades, integradas no contexto cultural deste povo timorense. Ainda enquanto bebíamos o café, uma senhora chamou por alguém da casa, e coube ao Eustáquio atendê-la, pois estava próximo do chamamento. 

Era a mãe de um rapaz que lhe vinha pedir para ser negociador da família, no pedido de casamento. O Eustáquio como já referi noutros relatos, é muito solicitado para tal múnus, e tem por isso uma larga experiência nestas negociações. Não aceitou por sobrecarga de trabalhos em mãos, mas indicou alguém para o fazer.

Foi então que o Eustáquio e o Gaspar começaram a contar histórias e mais histórias
ligadas a este evento que antecede o “Barlak” (ou barlaque, em português). O Gaspar diz que, com 21 anos, foi o negociador do seu irmão Zé, o mais velho dos sete manos. Ele também sabe, mas nada que se compare com o Eustáquio. Dizem eles que nenhuma conversa se faz diretamente. É tudo por metáforas, o que exige do negociador uma agilidade mental vonsiderável. Ele tem de entender o que o outro negociador lhe diz por imagens, assim como o seu interlocutor tem de entender as que ele utiliza. 

Por exemplo: "estando eu a regressar de uma longa viajem, passei por aqui e encontrei uma árvore frondosa, carregada de mangas saborosas, etc, etc...” 

Tudo depende da imaginação e do sentido poético dos negociadores. Tudo podem dizer excepto insinuar ou ofender qualquer das partes envolvidas. É uma verdadeira obra de arte.

Os relatos destas negociações darão matéria suficiente para uma verdadeira obra literária. O Gaspar até disse que um dia iria tentar fazer uma gravação (com a devida autorização), tendo em vista uma publicação escrita.

Normalmente, chega-se sempre a bom termo nestas negociações. Como sempre, pede- se mais do que o que se vai receber. Mas o bom senso dos negociadores encontram sempre uma boa solução, que é o meio termo. O negócio envolve dinheiro e bens.

Aqui em Timor são os kraus (bois), os fahis (porcos), as bibis (cabras e cabritos) e os manus (galos). E muitas famílias criam estes animais quase exclusivamente para estas ocasiões. Há que evitar as multas que podem advir por má negociação, nomeadamente qualquer palavra ou atitude que ofenda a família da futura noiva, e que se podem traduzir no dobro do que têm de pagar ou de dar.

Quem sabe, sabe. E vivam os negociadores!...

(Revisão / fixação de texto, negritos, itálicos,  título: LG)
_________________

Nota do editor LG:

(*) Último poste da série > 23 de junho de 2026 > 23 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28126 : III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte IX : semana de 1 a 7 de abril de 2019: há mais de 40 mil timorenses a pedir a nacionmalidade portuguesa

terça-feira, 6 de abril de 2021

Guiné 61/74 - P22074: Manuscrito(s) (Luís Graça) (203): Para a Joana, que hoje faz anos: "E os adultos, esses, já morreram todos. Só ficaram as crianças, sozinhas, a envelhecer” (Louise Glück | Frederico Pedreira, "Uma Vida de Aldeia", Lisboa, Relógio de Água, 2021, p. 133)


Página do Facebook da Joana Graça / Joana Carneiro... Com a devida vénia...

Joana:

1. Queria-te oferecer, como prendinha de anos, a novela gráfica “Balada para Sophie”, da genial dupla Filipe Melo e Juan Cavia (Lisboa, Tinta da China, setembro de 220, 320 pp). 

Simplesmente,  está esgotada. Mas fica prometido um exemplar da 2ª edição ou reimpressão.

Vê e ouve aqui ao menos a interpretação ao piano da Balada, pelo autor e pianista Filipe Melo (que é amigo do João e a quem dei umas "dicas", há uns anos, para o guião de uma outra BD, também portentosa, "Os Vampiros", cuja história se passa na fronteira da Guiné com o Senegal, em dezembro de 1972). 

[Sinopse: "Guiné, Dezembro de 1972.Em plena guerra colonial, um grupo de soldados portugueses é destacado para uma operação secreta no Senegal. Porém, à medida que vão sendo consumidos pela paranóia e pelo cansaço, esta missão aparentemente simples vai transformar‑se num verdadeiro pesadelo. Embrenhados na selva, estes homens terão de confrontar sucessivos demónios – os da guerra e os que trouxeram consigo."].

2. Em alternativa, trouxe-te um livro de poesia, em edição bilingue, inglês/português. Não conhecia a autora, Louise Glück, Prémio Nobel da Literatura 2020. Nova-iorquina, de ascendência judaico-húngara.

Acho que vais gostar: A Village Life (2009) / Uma Vida de Aldeia, numa belíssima e rigorosa tradução de Frederico Pedreira, também ele poeta. [Edição da regógio d'Água, Lisboa, 2021, 160 pp.]

Lê-se na badana: 

 “Teve uma infância e adolescência difíceis, mas um contacto precoce com autores gregos e latinos permitiu-lhe acolher a herança clássica e escrever uma poesia que , através de imagens universais, aborda a fragilidade essencial dos seres humanos”.

Acho que vais gostar. É o meu “feeling”. E mais: acho que podias escrever poemas quase tão bons como estes,   naqueles “notebooks”, baratuchos,  do Auchan,  que eu te costumo oferecer, e que tu approveitas da primeira à última folha, com notas, pensamentos, poemas, (in)confidências, desenhos, esboços de qualquer coisa… que um podia poderão transformar-se em livro. Tenho sempre a esperança que tenhas mais golpe de asa do que eu. Porque talento, felizmente, não te falta para o desenho e a escrita.


3. Folheando o livro, "Uma Vida de Aldeia", lendo na vertical, destaquei uma meia dúzia de versos:

(...) “Para poder nascer, o nosso corpo faz um pacto com a morte,

e, a partir desse momento, tudo o que tenta é fazer batota”
(p.77)


(...) “Que belas estão as flores – símbolos da resiliência da vida.

Os pássaros aproximam-se vorazes.”
(p. 105).


(...) “Nada prova que estou viva.

Há apenas a chuva, a chuva é infindável”
(p. 117).


(…) “E as pequenas coisas que antes nos

faziam felizes

já não conseguem chegar a nós”
(p.125)


(...) “E os adultos, esses, já morreram todos.

Só ficaram as crianças, sozinhas, a envelhecer”
(p.133)…


(...) “Corpo meu, (…)

não é da Terra que irei sentir falta,

é de ti que eu irei sentir falta”
(p.137).


Joana, é uma escrita muito feminina, austera, depurada, de alguém que sabe fazer, com as palavras, a necessária logoterapia que transforma a(s) nossa(s) fragilidade(s) em beleza poética. As palavras não servem para mais nada, se não para criar beleza e reordenar a realidade. Sem as palavras, teríamos o caos. 

Que tenhas um lindo dia 6 de abril de 2021

Teu pai e tua mãe (que, todos os anos, por este dia, às 10h30, deixa cair uma lágrima ternurenta  com a memória do teu parto, no Hospital de Santa Maria há 43 anos).

_________

Nota do editor:

Último post da série > 4 de abril de 2021 > Guiné 61/74 - P22066: Manuscrito(s) (Luís Graça (202): A Páscoa: este ano resta-nos a saudade... e as fotografias e os vídeos de antanho. E a Covid-19 que nos confina e nos espreita.

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Guiné 61/74 - P21705: O nosso blogue como fonte de informação e conhecimento (78): CoBrA - Operação Goa: novo álbum de Banda Desenhada: testemunhos precisam-se sobre a Invasão de Goa em 1961, nomeadamente dos ex-prisioneiros de guerra


Anexo B: exemplo de página já desenhada  
do novo álbum de BD (Banda Desenhada) / novela gráfica


CoBrA: Operação Goa

"Esta é uma obra de ficção, em forma de novela gráfica, 
que narra as manobras e artimanhas do CoBrA, 
agência secreta liderada pelo controverso Jorge Jardim, 
que eventualmente levam à resolução da situação 
dos prisioneiros Portugueses detidos em Goa 
após a derrota no conflito militar de 1961 com a India."


1. Mensagem de Marco Calhorda < mcalhorda@gmail.com >

Date: segunda, 28/12/2020 à(s) 16:00
Subject: CoBrA: Operação Goa


Boa tarde,

Antes de mais, espero que tenham tido um bom natal.

Neste preciso momento, eu e o meu parceiro criativo (Daniel Maia – https://danielmaia-art.blogspot.com/) estamos na fase de pré-produção de uma novela gráfica sobre a Invasão Indiana de Goa de 1961 - https://cobraop.com/

Junta-se sinopse [Anexo A] mais  exemplo de página já desenhada [Anexo B]  e gostaríamos de adicionar testemunhos de pessoas que tenham vivido a situação "na pele" [Anexo C].

Eu já me socorri imensas vezes do vosso blogue para fazer pesquisas, incluindo a invasão de 1961, operação Mar Verde, etc., e gostaria de saber se era possível fazer-se um post a solicitar testemunhos (diretrizes em  Anexo C) sobre a Invasão de Goa.

Alguns desses testemunhos seriam posteriormente incluídos no livro como material de apoio e contexto. O fator humano faz com que o publico sinta a história de uma forma mais vivida, real.

Como eu não sou militar, nem participei na Guerra Colonial, assumi que não podia seu eu próprio a fazer tal post. Posso solicitar a vossa assistência por favor?

Fico, desde já, grato pela vossa atenção. Se precisarem de mais esclarecimentos, coloco-me a disposição para vos enviar mais informação ou fazer um zoom/WhatsApp.

Com os melhores cumprimentos,

Marco Calhorda

Anexo A > CoBrA: Operação Goa > Sinopse

Goa, 1961.

Os ventos da descolonização começam a soprar. Portugal está presente na India há mais de 450 anos mas tem uma crescente dificuldade em defender um território situado a mais de 8 mil quilómetros de distância da Metrópole. 

Por um lado, os recursos materiais e humanos são escassos. Por outro, um governo sob uma orgulhosa administração Salazarista que se recusa a adaptar aos novos tempos.

Suportado pelo sentimento internacional do pós-guerra que promove a
autodeterminação de múltiplas nações e, consequentemente, a desintegração dos velhos impérios, o governo nacionalista de Jawaharlal Nehru dispõe de um contexto favorável para anexar Goa à India e assim terminar o processo de integração territorial que havia começado em 1954 com a anexação de Dadra e Nagar Haveli, até então também territórios Portugueses. 

Acresce também o facto de que a India tinha sofrido uma humilhação militar com a China na disputa da zona fronteiriça de Ladakh, pelo que a anexação de Goa serviria o propósito de recuperar algum prestígio político junto da população Indiana.

É neste contexto que o CoBrA (Comissariado contra a Brutalidade Animal) entra em ação nos momentos que antecedem a invasão de Goa pelas forças da União Indiana.

Agência secreta de cariz fortemente Lusitano, leia-se com escassez de meios e
recursos sofisticados, mas abundante em criatividade e técnicas pouco ortodoxas, ao jeito do desenrascanço Português, o CoBrA é responsável pelo planeamento e execução de uma série de atividades clandestinas extremamente audazes em 3 distintos continentes, tudo com o intuito de fortalecer a fraca posição negocial do estado Português nas futuras negociações com a India para definir o futuro de Goa.

Baseada em eventos históricos sobre a invasão de Goa, esta é uma obra de ficção que narra a intervenção do CoBrA, agência secreta liderada pelo controverso Jorge Jardim, para forçar a abertura de canais de comunicação entre os vários intervenientes desta estória, na coação dos poderes políticos, incluindo os Portugueses, a abandonarem considerações imediatistas e oportunismos cínicos em prol do bemestar dos seus cidadãos e, finalmente, no engendrar do repatriamento dos prisioneiros Portugueses detidos em Goa.


Anexo C > Notas para testemunho

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Guiné 61/74 - P20587: Agenda Cultural (724): Palestra sobre a Op Mar Verde (22/11/1970) pelo escritor António José dos Santos Silva: Palacete Viscondes de Balsemão, Pr Carlos Alberto, 71, Porto... Sábado, 1 de fevereiro de 2020, às 14h30

Capa do Livro de Banda Desenhada de A. Vassalo (*)


C O N V I T E

DISSERTAÇÃO SOBRE A OPERAÇÃO "MAR VERDE"


Cartaz oficial do evento


Capa do livro do António José dos Santos Silva, "CIOE: DA GUERRA DO ULTRAMAR AOS DIAS DE HOJE" (Lisboa: Nova Arrancada, 2002 173 pp.)


Caras Amigas e Caros Amigos!

Nos 50 Anos (1970-2020) da Invasão da Guiné-Conacri, pelas Forças Armadas Portuguesas, o GRUPO VIRIATOS e ANTÓNIO JOSÉ DOS SANTOS SILVA têm a honra de os CONVIDAR para a Dissertação em cima anunciada. 

Entrada Livre. 

Como em casos similares,  não existem cadeiras que sejam previamente sujeitas a qualquer tipo de marcação.

Melhores Cumprimentos.

GRUPO VIRIATOS
ANTÓNIO JOSÉ DOS SANTOS SILVA (**)
____________

Notas do editor

(*) O [António M.] Vassalo Miranda, nascido em Vila Franca de Xira, em 1941,  tem seis referências no nosso blogue: foi furriel mil 'comando', participou na Op Tridente, é um veterano da Guiné, c. 1963/65. Passou também por Angola. Como civil, viveu algum tempo em Moçambique, na Rodésia (hoje Zimbábuè) e na República Sul-Africana. É amigo do Virgínio Briote, do João Parreira, do Mário Dias... E é grande criador de banda desenhada  infelizmente com problemas de saúde ocular.  Infelizmente, também, não faz (ainda) parte da  nossa Tabanca Grande.

(**) Último poste da série de 22 de janeiro de 2020 > Guiné 61/74 - P20583: Agenda cultural (723): Exposição de fotografia do nosso camarada Renato Monteiro, "Festas de N. Sra. da Troia", sábado, 25 de janeiro, 16h00, em Setúbal, no Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal (MAEDS)

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Guiné 63/74 - P16345: Notas de leitura (863): Os Vampiros, BD de Filipe de Melo e Juan Cavia, Tinta-da-China, 2016 (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 21 de Julho de 2016:

Queridos amigos,
Têm sido generosas as críticas a este álbum, a todos os títulos original, não hesito em considerá-lo uma obra de referência. Passa-se em Dezembro de 1972, no Norte da Guiné forma-se uma patrulha que tem como objetivo encontrar uma base do PAIGC dentro do Senegal, saber o que se passa. É uma viagem de horror, andam à solta espíritos malignos, sugadores de sangue, e os militares vão-se transformando, ameaçam-se, uns são devorados, outros interiorizam o Maligno.
É imprescindível olharmos para esta BD com espírito ortodoxo sob pena de categorizarmos o argumento como uma acusação a combatentes. Recomendo vivamente a leitura desta obra superior da banda desenhada.

Um abraço do
Mário


Os Vampiros: um luxo de BD sobre a guerra da Guiné

Beja Santos

Os vampiros nunca saíram de moda, antes de serem personificados pelo Conde Drácula já faziam parte de diferentes mitologias do mal onde pululam hidras, górgonas, lobisomens e figuras fantasmáticas do mundo das trevas. A sua presença na contemporaneidade, com expressão na literatura e no cinema, decorrem naturalmente da atração pelas situações-limite entre o homem e a fera, o belo demoníaco, o sugador que depreda até à queda final. Há, evidentemente, outras dimensões que se podem explorar na procura de uma explicação sobre a moda dos vampiros: há quem diga que esta sociedade competitiva, sem escrúpulos, de triunfadores e predadores excita o imaginário dos vampiros. E o vampiro como homem condenado é a maldade sem perdão.

"Os Vampiros", Tinta-da-China, 2016, é um acontecimento de BD pelo nome do argumentista e do desenhador. Filipe Melo é polifacetado, na música e na BD, Juan Cavia é diretor de arte para cinema e publicidade, é nome sonante do audiovisual. Meteram ombros a um projeto temerário: guerra da Guiné, uma estranha patrulha dentro do Senegal, uma viagem com monstros (na consciência e à solta), uma missão aparentemente formal é dada a um grupo de homens. Metem-se à mata, a viagem marcha de assombro em assombro, o terror é imparável, até ao deslindamento final.

O álbum abre com uma citação do Padre António Vieira, vem mesmo a propósito: “É a guerra aquele monstro que se sustenta das fazendas, do sangue, das vidas, e quanto mais come e consome, tanto menos se farta”. Quem viaja a caminho daquela missão leva imensas dores, estamos em Dezembro de 1972, os militares da missão saem de uma LDP, encontram-se com outros militares que saem do helicóptero, sabemos que o manda-chuva é o Sargento Emanuel Ferreira dos Santos, é um grupo pequeno e tem um guia africano. Em pleno mato sabemos que a missão é atravessar a fronteira para o Senegal e fazer um reconhecimento, confirmar onde é que fica uma base do PAIGC junto à fronteira, enviar as coordenadas por rádio e voltar ao ponto de recolha. Internam-se mato adentro. Surgem as primeiras imagens de atrocidades, há miragens que o leitor ainda não está em condições de descodificar, um atirador furtivo faz a primeira baixa na patrulha, é depois liquidado, reacendem-se imagens de barbárie (corte de orelha); as tropas fazem um alto, há trocas de confidências, alguém se refere ao sargento como o maior carniceiro da Guiné, há pesadelos, e recomeça a viagem, o soldado de nome Totobola gaba-se da sorte que tem tido, pisa uma mina, temos a segunda vítima, os ânimos aquecem, o Sargento Santos manda prosseguir, aparece uma nativa com um filho, repete-se a violência, mãe e filho são abatidos, os militares começam a descontrolar-se e a apontar as armas uns aos outros, há quem tenha pesadelos num períodos de descanso, a marcha prossegue debaixo de chuva diluviana, a patrulha dá com o corpo do guia Sanhá mutilado, a face com uma expressão de horror total, os olhos ensanguentados.

Estamos agora no segundo capítulo, a citação é tirado do livro Moby Dick de Herman Melville: “A loucura humana é a coisa mais matreira e felina que existe. Quando pensamos que desapareceu, pode apenas ter-se transfigurado numa forma ainda mais subtil”. A patrulha aproxima-se da base rebelde, depara-se-lhes uma autêntica carnificina. Atónitos com este banho de sangue, procuram vivos, na escuridão sobressaem olhos sanguinolentos, aparece alguém aterrorizado, é abatido, um dos elementos da patrulha aparece ferido e delirante, o contingente militar percebe que estão cercados por um inimigo invisível, barricam-se nas instalações. Mais pesquisas e encontra-se um outro elemento que teria pertencido ao grupo abatido, encontrara um esconderijo, mais cenas de violência, novamente há camaradas a apontar armas aos seus camaradas. O sobrevivente, que não fala português, consegue uma ligação rádio, o comandante da patrulha dá as coordenadas. A espera continua, o rádio emudecido. Temos agora o terceiro e último capítulo, Zeca Afonso é a citação com os seus Vampiros: “No céu cinzento, sob o astro mudo,/batendo as asas, pela noite calada,/vêm em bandos, com pés de veludo,/chupar o sangue fresco da manada./Eles comem tudo, eles comem tudo,/eles comem tudo e não deixam nada”. Há, durante esta longa espera, diálogos confusos, cortaram a luz do exterior, a força sitiada abre a porta, chegou um jipe com gente armada, tudo vai correr mal. O Sargento Santos desabafa acerca da família que o espera: “O homem de quem elas estão à espera já não existe. Morreu pouco depois de chegar à Guiné”. Amanhece, vem um avião e bombardeia a posição com Napalm. A força militar está praticamente extinta, e aparece um jipe, e no uso da metáfora os autores dão-nos conta de quem sobrevive fica sujeita à condição de vampiro.

Nada ao nível das artes da banda desenhada tinha acontecido entre nós com um traço tão plausível, um estudo tão apurado do mundo tropical, do horror da guerra, dos transportes militares, do caminhar dentro da mata, podendo-se discutir se os ambientes de floresta podem ser totalmente identificados com as lalas e matas guineenses. Há o jargão intenso da caserna, a despeito de alguém dizer “tudo bem”, expressão que ninguém usava naqueles tempos. A arte, convém esclarecer os mais céticos e exigentes no tratamento do que foi aquela guerra, tem liberdades, metáforas e bizarrias que não devem ser encaradas como ofensas a quem combateu. Ninguém imagina um grupo tão pequeno a fazer aquela incursão no Senegal; não se pode fazer uma leitura literal daqueles vampiros e aos exageros da barbárie. Tomando como referência as citações dos três capítulos, a guerra foi aquele monstro que quanto mais comia menos se fartava, põe todos os homens contra todos os homens, e em que a loucura se transfigura porque há patrulhas, flagelações, inimigos imprevisíveis, minas, muitas minas, é um terreno de eleição para que o homem se sinta moldado no papel de sugador, de besta insaciável. A propósito de uma história que nesta banda desenhada ocorre em Dezembro de 1972, no Norte da Guiné, até parece ajustado lembrar aquele coronel do filme Apocalypse Now que vive empolgado com o horror e no horror é justiçado por ter quebrado todas as normas por que se rege a instituição militar.

“Os Vampiros”, de Filipe Melo e Juan Cavia são um marco miliário na BD portuguesa. Aquela guerra da Guiné atingira a monstruosidade de que quanto mais consumia tanto menos se fartava.



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Nota do editor

Último poste da série de 25 de julho de 2016 > Guiné 63/74 - P16329: Notas de leitura (861): “Capitães do Fim… do Quarto Império”, por António Inácio Nogueira, Âncora Editora, 2016 - Para entender a pátria exausta: os Capitães do Fim do Império (3) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Guiné 63/74 - P15101: Notas de leitura (755): A revista Visão e a BD da guerra colonial (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 6 de Outubro de 2014:

Queridos amigos,
Foi graças ao Carlos Pedreño Ferreira que tive acesso a esta jóia da BD que se publicou em Portugal entre 1975 e 1976. Não escondia ser um projeto alternativo, alguns dos seus colaboradores eram ambientalistas antes do tempo, espadeirando contra as centrais nucleares, não esquecer que a opinião pública iria ser incendiada pelo projeto de Ferrel, morto no embrião.
Creio ter sido a primeira vez que a guerra colonial teve tratamento em BD. O pouco que se encontra na net sobre a revista “Visão” é de considerar a iniciativa como altamente meritória, foi um ponto de referência, talvez ingénua, assim passou à história.

Um abraço do
Mário


A revista Visão e a BD da guerra colonial

Beja Santos

Um esclarecimento prévio: a revista Visão de que vamos falar era um quinzenário surgido em Abril de 1975 e que se destinava a divulgar e promover uma nova banda desenhada portuguesa. Pretendiam os seus animadores aceitar o desafio para ultrapassar o derrotismo de que não era possível fazer e publicar banda desenhada em Portugal feita pelos portugueses. Escrevia-se mesmo em editorial: “Nós lançámo-nos na aventura da qualidade. Se já leste as histórias que publicamos neste 1º número reparaste com certeza que, quer no texto quer no desenho é lebre o que te estamos a dar e não gato mal disfarçado. A divulgação prioritária de autores portugueses é a nossa aventura. Fazer aparecer de repente argumentistas e desenhadores para suportar uma revista quinzenal num país onde se contam pelos dedos os autores de banda desenhada já publicados é um risco de vulto. No entanto, também o decidimos correr”. Anunciava-se como leitura no número seguinte a biografia de Amílcar Cabral. Aparecia uma BD intitulada “Matei-o a 24”, mostrando uma vítima de stress pós-traumático de guerra. No n.º 2 de “Visão” começava a publicação de Amílcar Cabral, trabalho de dois artistas cubanos argumento de Fidel Moralez e desenho de Vicente Sanchez, encetava-se assim a colaboração entre “Visão” e a Prensa Latina. Prosseguia a publicação de “Matei-o a 24”, seguramente o grafismo de maior qualidade até então dada a estampa de autores portugueses.

A revista era dirigida por Victor Mesquita e entre os seus colaboradores apareciam Machado da Graça, Artur Tomé e Mário Henrique Leiria. Estava instalada na avenida João Crisóstomo, n.º 79, 5º Esquerdo, Lisboa.

No n.º 7, primeira quinzena de Outubro de 1975, surge uma nova BD, “Angola 1971”, com inegável interesse. A cooperação com Cuba é uma constante e aos poucos apagam-se as referências à guerra colonial, outras guerras vão surgindo para delícia dos leitores. E um dia, após onze números publicados, extinguiu-se, não se sabe o que levou à dissolução do projeto, se as turbulências de 1975, se o preço da revista, se o desencontro dos leitores com o tipo de projeto alternativo em que se alcandorava a publicação. E dizemos projeto alternativo porque se fazia uma crítica severa à energia nuclear e claramente à sua rejeição em Portugal. Também alternativa ao acolher opiniões como as de Mário Henrique Leiria, um dos escritores mais irreverentes do seu tempo.

Aqui fica o registo de um projeto de vida efémera, mas foi provavelmente aqui que pela primeira vez se pôs a guerra colonial em BD, como se vai mostrar:





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Nota do editor

Último poste da série de 7 de setembro de 2015 > Guiné 63/74 - P15081: Notas de leitura (754): “Etnia, Estado e Relações de Poder na Guiné-Bissau”, por Carlos Lopes, Edições 70, 1982 (2) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Guiné 63/74 - P14990: Notas de leitura (746): O “Ericeira”: nos primórdios da BD sobre a guerra colonial (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 27 de Agosto de 2014:

Queridos amigos,
Acho que chegou a hora para fazermos algum esforço de recolha da BD e a Guiné em particular.
Já aqui foram feitas referências a trabalhos de A. Vassalo, que não esconde a sua admiração pelas façanhas de Alpoim Calvão. Há seguramente mais.
A revista Visão, importantíssima na BD, deu-lhe espaço e muito digno.
A seguir se fará menção a um interessante trabalho de A. Vassalo sobre a LDM 203, várias vezes esteve para soçobrar e, qual Fénix Renascida, voltou às rias da Guiné, e um dia foi desmantelada.
Ficarei agradecido a quem me puder ajudar com sugestões e empréstimos.

Um abraço do
Mário


O “Ericeira”: nos primórdios da BD sobre a guerra colonial

Beja Santos

O acervo da BD na temática da guerra colonial não para de crescer, parece-me que chegou a hora de juntarmos esforços para a coligir na íntegra, ou quase. Já aqui foi feita a referência a obras de A. Vassalo, caso da Operação Mar Verde. Nos seus empréstimos recentes, o nosso confrade Carlos Pedreño Ferreira chamou-me à atenção para estas duas páginas sobre o “Ericeira”, adaptação e desenho de Baptista Mendes publicadas na revista da Armada, Fevereiro de 1972.

O “Ericeira” era Eduardo Henriques Pereira, nascido na Ericeira em 1946. Ofereceu-se muito jovem com voluntário da Armada, aparece na Guiné no Destacamento de Fuzileiros Especiais n.º 9, estamos em 1964. Cedo dá sinais de destemor, finda a primeira comissão, ofereceu-se novamente como voluntário para a Guiné, foi incorporado no DFE n.º 7. Regressa com uma Cruz de Guerra e vários louvores. E três meses depois está a caminho de Angola onde veio a falecer. Como escreve o autor, “no dia do seu funeral”, o comércio da Ericeira encerrou as portas e, pode dizer-se, todo o povo da terra lhe prestou a última e justa homenagem, incorporando-se no funeral.
Recorde-se o “Ericeira” e as suas duas comissões na Guiné.




Oxalá outros confrades deem sugestões para mais referências à BD.
Em breve aqui se mencionará de A. Vassalo, a saga, por ventura única, da LDM 2003.
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Nota do editor

Último poste da série de 7 de agosto de 2015 > Guiné 63/74 - P14979: Notas de leitura (745): Um dia diferente, da autoria do ex-Alf Mil Médico Aníbal Justiniano da CART 494, extraído do livro "Missão Guiné 63-65 Companhia de Artilharia 494”, escrito por Augusto Carias, Adelino Gomes e Aníbal Justiniano (Coutinho e Lima)

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Guiné 63/74 - P14438: Notas de leitura (700): “Operação Gata Brava": A BD original de António Vassalo Miranda (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Junho de 2014:

Queridos amigos,
Este criador de BD não é um nome estranho no blogue, já foi mencionado a propósito de outro trabalho “Operação Mar Verde”.
Tem um traço esplêndido, a ilustração é acompanhada de um texto sugestivo, trama dinâmica que assegura uma leitura absorvente. Bom seria que os nossos confrades abrissem os cordões à bolsa e mostrassem o que têm de BD e as guerras em África.
Foi graças à gentileza da Associação dos Comandos que tive acesso a esta preciosidade. A BD precisa de ser acarinhada. Tem reais potencialidades para chegar a um outro público que não o dos devoradores de livros.

Um abraço do
Mário


Operação Gata Brava: A BD original de António Vassalo Miranda

Beja Santos

A BD na guerra colonial tem dado provas de boa saúde, artistas meritórios revelam sucesso mas carecem de chegar ao grande público. Entre os nomes mais destacados desta expressão artística temos António Vassalo Miranda, de quem já fizemos referência. Para o conhecer melhor, o Google faz dele uma cabal apresentação e das suas obras mais representativas.

Falemos hoje do seu álbum "Operação Gata Brava", prova inegável do seu indiscutível talento. A BD ilumina os factos fundamentais que levaram Alpoim Calvão novamente ao Sul da Guiné onde destruiu um barco que tinha sido capturado pelo PAIGC no início da guerra, uma operação de grande arrojo e heroísmo.

Em 5 de março de 1970, os serviços de Radiotelegrafia em Bissau apanharam uma mensagem de Quitáfine para Boké, ficava-se a saber que o navio ia em breve recolher o agente Marcel a Kadigne. Calvão já afundara o “Patrice Lumumba” e aprisionara alguns dos seus elementos. Virá a descobrir-se que o barco que recolherá o agente Marcel era o “Bandim”, capturado pelo PAIGC em maio de 1963 na região de Cacine. Calvão é transportado pelo patrulha “Lira”, vai em direção à foz do rio Cacine. São arreados dois zebros, os botes com oito homens mergulham na noite, aproximam-se do canal e pelas 5h30 da manhã os botes anicham-se no tarrafo onde ficam emboscados. Já fora assim na Operação Nebulosa, em que se afundara o navio-motor Patrice Lumumba. Ali ficam, enquanto a Força Aérea informa que Bandim já partira de Kadigne.

Para movimentar a história, o autor, durante a longa espera, põe os militares a conversar sobre proezas anteriores e figuras de porte excecional. São lembrados os Furriéis Miranda e Artur Pires, o Cabo Marcelino da Mata e o Alferes Leonel Saraiva e os episódios vividos na Ilha do Como. Miranda dera provas de ser destemido e dotado de um impressionante sangue frio, como também se comprovou na “passagem do inferno”, que era uma passagem que ligava Cavane, na Ilha do Como, à floresta através de um arrozal. Miranda, aproveitando os intensos bombardeamentos da Força Aérea lança um ataque sobre as linhas inimigas, não desfaleceram mesmo quando um T6 foi atingido.

Entretanto, passam dois guerrilheiros numa canoa, os emboscados deixaram-nos seguir. O Tenente Barbieri insiste com Galvão para que conte mais façanhas da Operação Tridente que ele vai descrever e BD ilustra. A “Tridente” fora a maior escola de guerrilha que houvera até então. Para Calvão, não se soubera tirar partido dos resultados. Tudo começara depois do PAIGC ter anunciado que havia a República Independente do Como. O comandante Paulo Costa Santos propusera a Tridente, e assim tivera origem a operação mais longa, mais dura e a que mais efetivos envolveu e que fora para o narrador a melhor escola prática que nos graduara na arte da guerra. Calvão descreve o desembarque dos fuzileiros em Caiar de colaboração com a CCAÇ 557 e com os Comandos. O PAIGC tentou desalojá-los, em vão. A artilharia, formada por dois canhões 8,8, sediada na base da praia de Caiar, foi batendo com uma precisão admirável as zonas pré-estabelecidas; e a força aérea deu constantemente o seu apoio. Fuzileiros, Paraquedistas e Comandos e Exército, foram devassando o reduto defensivo do PAIGC. Calvão continua a sua narrativa relatando casos de heroísmo e desprezo pela morte, e de novo refere o Sargento Miranda, os 1ºs Cabos Marcelino da Mata e Jamanca que tinham ido ao socorro do Sargento Perry. No final da operação, o PIAGC retirou para o continente. O Tenente-Coronel Fernando Cavaleiro passeou-se no interior da ilha acompanhado de meia dúzia de homens. Deixou-se uma pequena guarnição em Cachil Pequeno. É nisto que alguém visa que se está a ouvir um barco, de facto era o navio-motor Bandim a aproximar-se. Inicia-se a caçada, um dos zebros, onde vai Barbieri, ataca por estibordo, Calvão e os seus homens por bombordo.

A BD torna-se um documentário poderoso, avassalador, o Bandim cercado, as tropas da Guiné Conacri a ripostar da margem esquerda, sem qualquer efeito. Uma granada de bazuca entra pelo albói da popa e vai explodir no interior da embarcação, o barco perde velocidade, e depois encalha. Trava-se a última batalha, assalta-se o Bandim, todos estão mortos. É impossível tirar dali o Bandim, ele vai ser destruído com petardos de trotil. Assim terminara a operação Gata Brava, os botes afastam-se e noite alta os fuzileiros são recolhidos pelo navio-patrulha Lira. A BD termina com António Spínola a felicitar Alpoim Calvão.

Este é, em síntese, o conteúdo de uma BD muito expressiva produzida por alguém que tem um traço magnífico.


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Nota do editor

Último poste da série de 4 de abril de 2015 > Guiné 63/74 - P14432: Notas de leitura (699): “Elefante Dundum – Missão, testemunho e reconhecimento”, por João Luíz Mendes Paulo, edição de autor, 2006 (2) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Guiné 63/74 - P12944: Brochura, "Deveres Militares", SPEME, 2ª ed, 1969 (Fernando Hipólito): Parte VII: Deveres do Cabo da Guarda e Apresentação aos Superiores - ("Consciente de que entre os soldados se verificava ainda a existência de um grande número de elementos com iliteracia e baixa escolaridade, o Exército, entre 1961 e 1974, utilizou o humor dos cartunistas, de forma pedagógica, para alertar e instruir sobre questões de segurança e sobrevivência ou sobre a regulamentação da disciplina militar.")

1. Finalização da publicação dos Deveres Militares, edição SPEME de 1969, em banda desenhada com muito humor à mistura, enviado ao nosso Blogue pelo camarada Fernando Hipólito, ex-Fur Mil da CCAÇ 2544, Angola, 1969/71.











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Nota do editor

Poste anterior da série de 5 DE ABRIL DE 2014 > Guiné 63/74 - P12937: Brochura, "Deveres Militares", SPEME, 2ª ed, 1969 (Fernando Hipólito): Parte VI: Deveres do Cabo de Dia à Companhia - ("Consciente de que entre os soldados se verificava ainda a existência de um grande número de elementos com iliteracia e baixa escolaridade, o Exército, entre 1961 e 1974, utilizou o humor dos cartunistas, de forma pedagógica, para alertar e instruir sobre questões de segurança e sobrevivência ou sobre a regulamentação da disciplina militar.")

sábado, 5 de abril de 2014

Guiné 63/74 - P12937: Brochura, "Deveres Militares", SPEME, 2ª ed, 1969 (Fernando Hipólito): Parte VI: Deveres do Cabo de Dia à Companhia - ("Consciente de que entre os soldados se verificava ainda a existência de um grande número de elementos com iliteracia e baixa escolaridade, o Exército, entre 1961 e 1974, utilizou o humor dos cartunistas, de forma pedagógica, para alertar e instruir sobre questões de segurança e sobrevivência ou sobre a regulamentação da disciplina militar.")

1. Continuação da publicação dos Deveres Militares, edição  SPEME de 1969, em banda desenhada com muito humor à mistura, enviado ao nosso Blogue pelo camarada Fernando Hipólito, ex-Fur Mil da CCAÇ 2544, Angola, 1969/71.









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Nota do editor

Último poste da série de 30 DE MARÇO DE 2014 > Guiné 63/74 - P12915: Brochura, "Deveres Militares", SPEME, 2ª ed, 1969 (Fernando Hipólito): Parte V: Plantão à caserna e faxinas regimentais... ("Consciente de que entre os soldados se verificava ainda a existência de um grande número de elementos com iliteracia e baixa escolaridade, o Exército, entre 1961 e 1974, utilizou o humor dos cartunistas, de forma pedagógica, para alertar e instruir sobre questões de segurança e sobrevivência ou sobre a regulamentação da disciplina militar.")