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sexta-feira, 31 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28231: Humor de caserna (286): Os frangos do vagomestre: uma BD inspirada num microconto do Alberto Branquinho (2013)


Os Frangos do Vagomestre

Uma BD inspirada num microconto
 do Alberto Branquinho (2013)



... Que o essencial dos reabastectmentos vinha de barco ou em coluna logística, uma ou duas vezes por mês, conforme a estação do ano ou as necessidades!









... Oh!, homem, come e cala, que amanhã podes perder o  apetite!







... E quem disse que não havia já "chefs" de cozinha,  arrojados, criativos, precursores da comida gourmet, capazes de apresentar pratos  exóticos, fazendo das tripas coração e valendo-se dos recursos locais (como o lagarto, o jagudi, o macaco-cão, a píton africana / irã-cego,  ou  o leitão do balanta passado a ferro pelo Unimog, etc.) para fazer um arroz especial... com mafé ?!


... Vida dura, a do mato !...

Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

Texto : Adapt. de Alberto Branquinho  (2013)

Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Eu achei o conto "magistral" (*)... Mas, confesso, esperava mais comentários ao poste... O desmérito é do editor, não do autor... De facto, em vez de "Arroz especial... com mafé" (e não má-fé!) , eu devia ter optado por um título mais provocatório... "Hoje há arroz de jagudi  no forno" ou outro título de fazer crescer a água da boca dos camaradas de Baião e do Marco de Canaveses onde se faz o melhor "arroz de anho no forno" ... Em Portugal & arredores.

Recorde-se, para quem leu, que a história começa com um princípio (ou um ameaço) de "levantamento de rancho"... 

Isto passa-se na Guiné, durante a guerra colonial, por volta de 1968, ao tempo em que o valente  Alberto Branquinho andava lá  com os seus bravos da companhia de caçadores  (de "turras", presume-se, não era de leões nem de elefantes). 

Uma solução à "chico esperto", expedita, do vagomestre e do cozinheiro, para contornar a falta de víveres (e nomeadamente de carne...) e assim enganar toda a gente, a começar pelo capitão, foi recorrer aos pobres dos "abutres-de-capuz" (vulgo, "jagudis") que rondavam o quartel e se alimentavam nas nossas lixeiras... 

Ora, toda a gente sabia que o repugnante e feio jagudi era um "animal sagrado".. E desde 1955, que era proibida a sua caça... Eram os "almeidas" da Guiné, comiam os bichos mortos, limpavam as carcaças e, quando havia festa nas tabancas (nomeadamente, o "tchoro", por morte de alguém importante), abatiam-se vacas, não faltavam vísceras para os "almeidas" se banquetearem...

Não tenho que lisonjear o autor, como faz a menina da IA que é para a gente ficar "agarrados a ela"... De facto, a IA é uma nova adição (=comportamento aditivo, vício, dependência), a par do sexo, da pornografia, da droga, da comida, dos ansiolíticos,  do trabalho, do ginásio, do jogo ("gaming"), do telemóvel, das redes sociais (como o blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné), das viagens da Abreu Lopes,  etc..  

O Alberto Branquinho já tem os seus créditos firmados. É uma grande microcontista, a par do "alfero Cabral", de saudosa memória, e de mais uns  talentos literários que se sentam à sombra do nosso poilão (e que não vamos listar para não criar suscetibilidades). 

A ideia do autor  é excelente e a execução resulta. Tem um daqueles ingredientes que fazem com que as histórias de caserna não morram, como as anedotas, que logo se esquem, na hora seguinte: é plausível, é absurda e, no fim, toda a gente diz "isto podia perfeitamente ter acontecido na Guiné do meu tempo".

Porque é que o texto  não  suscitou  comentários imediatos ? Esta é a questão que me intriga... Se o conto é "magistral", porque é que não houve... comentários, e muito menos "magistrais" ?

Reconheço que o título não provoca "pica", não  tem "sex...apelo" (do inglês, "sexappeal"). "Arroz especial... com mafé" é um daqueles títulos prosaicos, sensaborões, chatos... E depois o leitor, desprevenido, confunde "mafé" com "má-fé"... Ora, quem vai "comer" um "arroz especial... má-fé", desconfiando, de pé-atrás ?!

De facto, com um tal título (da responsabilidade do editor...) o conto do Alberto Branquinho só pode despertar curiosidade  em quem sabe o que é o "mafé" e se interessa pela culinária da Guiné-Bissau. 

Para muitos leitores, o poste terá sido visto apenas como mais uma história gastronómica da Guiné-Bissau,  mais um poste da série do "Comes & bebes: no céu não disto: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande", com que tapamos às vezes alguns buracos, sobretudo nas férias de verão em que o pessoal vai a águas e tem menos tempo para coloborar no blogue...

O verdadeiro motor narrativo está lá, entretanto,  escondido já na última parte do conto: "...afinal os frangos do vagomestre eram... jagudis."

É aí que o conto explode. O leitor percorre duas ou três páginas sem imaginar o desfecho. É uma boa surpresa literária. Mas o título, de facto,  não convida ninguém a entrar. 

Vamos experimentar agora com outro: "Os frangos do vagomestre"... mas em em banda desenhada.(**)

O autor merece uma boa BD. Esta "estória cabraliana" (neste caso,"branquiana" ?!...) merece uma boa BD. Os nossos leitores também o merecem. 

Digam-nos depois da vossa justiça. Leiam e comentam. À vontade. E também podem rir, se for caso disso. E se vos apetecer rir. Claro, também podem dizer que não tem graça nenhuma (a BD, não o conto)...

No final, não deixamos de fazer uma ressalva: não temos nenhum "parti-pris", sentimento ou ressentimento contra os nossos vagomestres e cozinheiros que nos mataram a fome durante os dois anos de Guiné. Este conto é também uma homenagem a eles. (Ao pessoal da Intendência, fica reservada a vez para outra altura.) (**)
_______________

Notas do editor LG:

(*) 28 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28220: Humor de caserna (283): "Arroz especial ... com mafé" (um conto magistral de Alberto Branquinho, "Cambança Final", 2013, pp. 85-89)

terça-feira, 28 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28222: Humor de caserna (284): 1 de junho de 1965, Alcanena: o dia da minha ida às "sortes" (inspeção militar) (Carlos Pinheiro, ex-1.º cabo trms op msg, Centro de Mensagens, STM/QG/CTIG, Bissau, 1968/70)


















Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto e Imagens: Carlos Pinheiro (2010)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


A Inspecção Militar 

por Carlos Pinheiro

A Inspecção Militar era um acontecimento local, regional e nacional pois era aí que eram lidas “as sortes” dos rapazes que nesse ano faziam vinte anos, os “mancebos”, já em linguagem militar. A mesma era feita nos primeiros dias de junho no ano em que os “mancebos” completavam 20 anos. 

Não era preciso fazer-se inscrição. Eles não se esqueciam de convocar a malta através de edital e ninguém faltava porque era perigoso.

De qualquer forma, sempre havia um ou outro que antecipadamente, à socapa, dava à sola e ia até França. Era a época da emigração clandestina, "a salto”,  como se dizia, porque, não nos esqueçamos, o país estava em guerra em três frentes – Angola, Guiné e Moçambique.

Mas o acto da Inspecção em si merece ser recordado. Em Alcanena, a malta comparecia no Salão Nobre do Edifício dos Paços do Concelho. Depois de identificados, passado pouco tempo era distribuído um papel para ser apresentado aos médicos militares que estavam no gabinete ao lado, o gabinete do Presidente da Câmara, mandavam despir o pessoal e ali estavam, os mancebos, todos nus com um papel na mão, até à chamada ao gabinete.

Os mancebos eram medidos, pesados, auscultados e lá vinham todos contentes, “apurados” para todo o serviço militar. Logo ali, havia sempre um soldado ou um cabo que vendia uma fita verde e vermelha a significar o apuramento e que a malta, para ser bem referenciada, colocava logo na lapela do casaco do fato que era estreado nesse dia.

Os raros, raríssimos, que ficavam “livres”,  também tinham direito a uma fita, mas neste caso branca, que também era paga e nesse ano, em Alcanena, falando da freguesia, houve dois que ficaram “livres”,  sabe-se lá porquê.

Havia ainda os “esperados”, que passavam para o ano seguinte, porque não tinham peso, porque tinham peso a mais, ou por outro motivo qualquer. 

Depois o dia era de festa por um lado, mas por outro também de alguma preocupação acerca do futuro que já estava marcado,  com a mobilização para Angola, Guiné ou Moçambique.

 Nesse dia havia almoço em casa com a família, mas o jantar era de convívio entre todos e o baile até às tantas estava garantido e era sempre muito concorrido.


Carlos Pinheiro
Alcanena 01.06.1965-

Anexos:


À direita, acima :  Reprodução do Cartaz do Baile da Inspecção de 1965, devidamente selado e assinado por um companheiro que já nos deixou, o Arlindo Abrantes.

À esquerda, acima: mancebos de 1945 - Fotografia do jantar da véspera da Inspecção no Restaurante do “Primo” Necas que nessa noite esteve por nossa conta.

À direita, ao lado: Fotografia do palco do baile da Inspecção de 1965, com dois Conjuntos, no Pátio do lagar de azeite da Viúva de José Bento, junto à Igreja

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos e itálicos: LG)


2. Nota sobre o autor, Carlos Pinheiro (ex-1.º cabo trms op msg, Centro de Mensagens do STM/QG/CTIG, Bissau, 1968/70: 

(i) de seu nome completo, Carlos Manuel Rodrigues Pinheiro

(ii) natural de Alcanena, reside em Torres Novas; 

(iii) assentou praça na EPC em Santarém em 10 de outubro de 1967: 

(iv) chumbou  no CSM, como tantos outros; 

 (v) tirou a especialidade no RTM no Porto;

 (vi) veio para o  BT em Lisboa; 

(viii)  foi colocado no QG da 2.ª RM em Tomar;  

(ix) foi mobilizado para o CTIG pelo RI 15 de Tomar;

Carlos Pinheiro, natural de Alcanena,
a viver em Torres Novas

 (x) embarcou  em 23 de outubro de 1968 em rendição individual destinado ao BCAÇ 1911 (não no T/T Niassa, como  vem acima na BD,  mas no T/T Uíge)

(xi) passou a sua comissão no Centro de Mensagens do STM no Quartel General de Bissau; 

(xii) também trabalhou, nas horas vagas, num das casas comnercais mais conhecidas de Bissau, que pertencia a um parenhte seu, o Costa Pinheiro;

(xiii) é bancário reformado:

(xiv) integra a nossa Tabanca Grande desde 25/10/2010; 

(xv) tem 92 referências no nosso blogue.


3. Comentário do editor LG:

Este testemunho do Carlos Pinheiro é de grande valor etnográfico e histórico. É um dos melhores textos que já aqui publicámos sobre a inspeção militar ou o dia da ida à sortes (*). Temos um vintena de referências no blogue com este descritor. 

O Carlos Pinheiro  não descreve apenas um procedimento administrativo a que todos nós,  mancebos de 20 anos, estávamos sujeitos, ao tempo do serviço militar obrigatório; retrata um verdadeiro rito de passagem da juventude portuguesa durante o Estado Novo.

O cartaz que ele anexou é, por si só, um documento valioso. A sua linguagem gráfica diz muito sobre a época: feito à mão, com letras de diferentes tamanhos e cores, anunciando "O Tradicional Baile da Inspecção", em Alcanena, a 1 de junho de 1965, com os conjuntos "Os Tártaros" e "Os Isolé". Vê-se ainda o selo fiscal e a assinatura exigidos para a licença do espetáculo, lembrando como até um simples baile estava sujeito ao controlo administrativo.

Há, neste texto do Carlos Pinheiro, vários aspetos que merecem ser sublinhados.

Em primeiro lugar, a universalidade da convocação. Não era preciso o "mancebo" inscrever-se. O Estado, através das conservatórias do registo civil, sabia quem eram os jovens que completavam vinte anos e convocava-os por edital, afixado à porta da Càmara Municipal. A ausência podia ser entendida como fuga ao serviço militar, com consequências graves. (Mesmo assim terá havidos mais de duzentos mil faltosos, entre 1961 e 1974).

Depois, o ambiente da inspeção. A descrição dos rapazes nus, à espera da chamada para o gabinete do presidente da Câmara transformado em consultório médico, é muito expressiva. Misturavam-se o embaraço, o pudor, a curiosidade, a ansiedade e até algum humor. Era um momento que quase todos os homens daquela geração recordam, passadas décadas.(Claro que nem todos, como o Alberto Branquinho, na Covilhã, nesse ano,  tiveram direito a uma presença feminina, nessa altura ainda insólita, como era o caso da enfermeira que  coadjuvava  os médicos, em geral dois, sendo um militar).

Muito interessante é também a referência às fitas, vendidas no fim por um Cabo RD: fita verde e vermelha para os "apurados"; fita branca para os "livres". Eram afixafas na lapela, do lado esquerdo (do coração). É um apontamento etnográfico deveras curioso, do qual muitos de nós já estávamos esquecidos.

Outro aspeto muito importante é o contraste entre a festa do dia das "sortes" e a compreensível apreensão em relação ao futuro.

De manhã fazia-se a inspeção. Ao almoço reunia-se a família. À noite havia jantar entre amigos e, em muitas terras, como Alcanena,  baile.

Mas todos sabiam que, dentro de um ano, dois ou três, no máximo anos, muitos daqueles jovens estariam já em África. Em 1965, a guerra em Angola decorria desde 1961, na Guiné desde 1963 e em Moçambique desde 1964. O baile era, em certo sentido, a última grande festa da juventude antes da incorporação militar. Parece um baile inocente (e até num sítio insólito: o lagar de azeite da viúva do Zé Bento, a par do jantar no restaurante do "primo Necas")... Só no fim se percebe que aquele jantar e aquele baile eram, para muitos, a despedida de uma juventude que nunca mais voltaria a ser a mesma.
 
Este testemunho merece voltar a ser reproduzido no blogue, agora ilustrado com uma pequena BD.  Completa muito bem outros relatos que temos recolhido sobre a inspeção militar, mostrando que ela não era apenas um exame médico: era um ritual cívico, social e masculino, vivido pela comunidade inteira, marcado por símbolos (as fitas), cerimónias (o jantar e o baile), expectativas e receios. 

Era, afinal, a passagem oficial da adolescência para uma idade adulta que, para muitos, começava com uma farda e terminava, um, dois ou três anos depois, numa comissão em África.

Antes da guerra, "ir às sortes" era uma festa para os rapazes em Portugal...Depois de 1961, com o início da guerra em Angola, deixava de ser "brincadeira", toda a gente era apurada, desde que não fosse... "cego, surdo e mudo", e tivesse "o dedo de dar ao gatilho" (havia quem o cortasse)...Toda a gente, salvo seja... Os filhos das elites tinham todas as condições para se safarem,  se não de ir à tropa, pelo menos de ir parar ao mato...

A imagem dos "cegos, surdos e mudos" é uma metáfora, uma hipérbole mas não longe quanto isso,  da realidade social sentida pela nossa  geração. A mobilização aumentou muito com a guerra, e a margem para dispensas diminuiu drasticamente (mesmo os de "pés-chatos" era apurados para os serviços auxiliares). 

Coexistia, entretanto,  uma outra realidade: a desigualdade social. Nem todos partiam nas mesmas condições. O dinheiro, as cunhas, o estatuto social, a escolariodade, etc., podiam fazer a diferença.

Havia jovens das famílias mais influentes que conseguiam adiar incorporações, obter relatórios médicos favoráveis, prolongar estudos, ingressar em cursos de oficiais milicianos com percursos diferentes ou, em alguns casos, emigrar legal ou clandestinamente, emfim,  permanecer no estrangeiro largos anos, etc. 

Isso não significa que as elites escapassem sempre à guerra (muitos oficiais, médicos, engenheiros e estudantes combateram em África e alguns morreram lá), mas as possibilidades de evitar o teatro de operações eram, em média, muito maiores para quem dispunha de recursos, influência ou redes de contactos.

Seria precisa outra BD para apanhar e dar conta dessa realidade complexa,  sem cair na caricatura nem na demagogia.

Há, de facto, uma mudança dramática de significado entre o antes e o depois de 1961. Até aí, "ir às sortes" era quase um ritual iniciático. Os rapazes estreavam o melhor fato, iam ao fotógrafo, almoçavam com a família, jantavam com os amigos e acabavam a noite no baile. Era uma celebração da entrada na idade adulta.

Depois da guerra, o mesmo ritual passou a ficar  carregado  com a sombra ou o fantasma da guerra. Todos sabíamos que ela ia sobrar para todos nós, os nascidos entre o início dos nos anos 40 e os princípios de 50.  O baile continuava, mas já não era inocente. No meio da música havia um pensamento que ninguém verbalizava em voz alta: "Daqui a um, dois ou três anos posso estar em Angola... ou na Guiné... ou em Moçambique."
 
Esta BD é também uma bonita homenagem ao nosso Carlos Pinheiro, que soube preservar fotografias, cartazes e, sobretudo, a memória de um ritual que desapareceu com o fim do serviço militar obrigatório tal como a nossa geração o conheceu.

Escolhi, com a cumplicidade da menina IA do ChatGPT, a linha clara franco-belga, inspirada em grandes mestres da Banda Desenhada como  Hergé, Jacques Ferrandez e Juillard, com cenários rigorosos, expressões contidas e um +aleta de cores ligeiramente sépia, evocando fotografias da época, ou seja, a memória dos anos 60 que não voltam mais. 

É uma BD onde não está apenas o  Carlos Pinheiro e os seus camaradas que foram às sortes em 1 de junho de 1965, em Alcanena; está lá uma geração inteira que foi "às sortes" a pensar que ia a um passeio, uma jantar de conterrâneos e um baile improvisado e acabou por ir parar à  guerra.

De qualquer modo, queremos surpreender o Carlos Pinheiro, agora "herói de banda desenhada". Achamos  que ele vai sorrir ao reconhecer-se naquele rapaz de vinte anos, de fato domingueiro, com uma fita verde e vermelha na lapela... sem imaginar que, vinte e nove meses depois, em 23 de outubro de 1968,  pisaria o chão verde-rubro da Guiné.

________________

Nota do editpor LG:

Último poste da série : 23 de julho de 2026 Guiné 61/74 - P28206: Humor de caserna (282): Todos com eles no sítio, todos aptos para o serviço militar (Jorge Cabral, 1943-2021)

domingo, 26 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28214: No céu não há disto: comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (55): Mafé e Baguitch (Henk Heggens, médico neerlandês, especialista em saúde global, cooperante na Guiné-Bissau, Fulacunda e Bissau, 1980/84)














Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Fotos: Henk Eggens (2025)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Texto enviado para publicação no nosso blogue por Henk Eggens, médico neerlandês, especialista em saúde global (medicina tropical e saúde pública):


Data - sábado, 25/07, 11:19 (há 1 dia)
Assunto - Mafé e baguitch

Olá, Luís,

Gostei da história sobre as riquezas culinárias da Guiné (*). Deixou-me com água na boca e trouxe-me boas recordações. Achei, no entanto, que faltavam dois pratos emblemáticos da gastronomia guineense: a mafé e a baguitch.

Consultei o meu amigo Steven, que viveu muitos anos na Guiné, e recorri também à IA. Com base nisso, escrevi o texto em anexo, para tua apreciação e eventual publicação como comentário ao artigo referido.

Bom fim de semana!

Henk



Foto nº 1 > Guiné-Bissau > Região de Quínara > Fulacunda > 1980 > "Casa do médico, Land Rover do projeto, mota da noiva e carro 404 privado".

Foto: (e legenda) © Henk Eggens (2024). Todos os direitos reservados.[Edição e legendagem complementar: LG/HE]



Foto nº 2 

2.  O meu amigo
Henk Eggens  (ainda não nos conhecemos pessoalmente, ao vivo e a cores...) é:

(i)  neerlandês, médico especialista em saúde global (medicina tropical e saúde pública), cidadão do mundo;

(ii) já percorreu os quatro continentes como cooperante em saúde;

(iii) esteve 4 anos na Guiné-Bissau (incluindo dois anos em Fulacunda) (Fotos nº 1 e 2) (1980/84);

(iv) antes tinha estado em Cabinda, Angola (1976/78); também trabalhou na Indonésia;

(v) fala e escreve o português e o crioul0 guineense;

(vi) está reformado (Foto nº 3);

Foto nº 3

(vii) é um apaixonado por Portugal, a Guiné-Bissau, Angola, a lusofonia...

(vii) vive em Portugal,  em Santa Comba Dão;

(viii) a sua companheira é luso-brasileira; 

(ix)  administrador e editor de Portugal Portal (em neerlandês,  muito virado para a comunidade lusófona nos Países Baixos); e onde tem publicado textos do nosso blogue, com a devida autorização dos autores e editores;

(x) tem 10 referências no nosso blogue;

 Quero reforçar o meu o convite, endereçado já há tempos,  para, de pleno direito, ele  passar a integrar a Tabanca Grande, como amigo da Guiné...  


Não foi combatente, em nenhum conflito armado, felizmente para ele, mas dedicou pelo menos aseis  anos da sua vida a dois povos lusófonos,  guineense e angolano, e numa época particularmente difícil. 

O facto de manter um sítio como  Portugal Portal vem reforçar ainda mais a ideia de que ele é um mediador cultural. Há pessoas que passam por um país, muitas com chorudos vistos Gold; outras criam pontes entre países. O Henk pertence claramente ao segundo grupo. Traduz, divulga, aproxima culturas e ainda leva textos do nosso blogue a leitores neerlandeses e portugueses emigrados na sua terra. É uma forma discreta, mas muito eficaz, de diplomacia cultural.

Naturalmente, que a sua presença, à sombra do nosso poilão,  só pode honrar-nos e enriquecer  o nosso blogue e as nossas memórias da Guiné.

Pedi à minha menina IA do ChatGPT para lhe fazer uma BD: não é uma biografia, mas uma pequena narrativa gastronómica e humana; e o estilo gráfico é o habitual, de que eu mais gosto, e que  temos vindo a apurar, a linha clara franco-belga. Esta BD não será apenas sobre o mafé ou o baguitch, será sobre algo muito mais importante,  a capacidade que um prato de comida tem de criar laços duradouros entre pessoas de países diferentes. Como acontece com o nosso bacalhau ou com as nossas sardinhas assadas...
 
O Henk (não o vou tratar cerimoniodsamente por dr. Eggens), merece esta homenagem. Não apenas por ter sido cooperante, mas porque faz parte daquele grupo discreto de estrangeiros que ajudaram a criar pontes entre Portugal, a Guiné-Bissau e o resto do mundo. A presença dele na Tabanca Grande será inteiramente natural e vem enriquecer a ainda esta comunidade de memória, amizade e afetos. Espero que ele aceite, formalmente,. este meu/nosso convite.


Mafé e baguitch: mais dois sabores da Guiné

por Henk Eggens

Mafé

O mafé é, provavelmente, o prato mais viajado da cozinha da África Ocidental. As suas raízes
mergulham no Mali, onde os povos mandinga e bambara o preparavam sob o nome
de domodah ou tigadegena,  literalmente, "molho de amendoim".

Foi durante o período colonial, quando a produção de amendoim foi fortemente incentivada em toda a região, que o prato se espalhou para o Senegal, a Gâmbia e, mais a sul, para a Guiné e a Guiné-Bissau, ganhando em cada país uma variante própria.

A base do mafé é sempre a mesma: um creme espesso de amendoim moído ou manteiga de
amendoim, engrossado com tomate e cebola refogados, por vezes com um fio de óleo de palma.

A esta base junta-se carne  (vaca, borrego ou frango) ou peixe, deixados a apurar lentamente
até a carne se soltar e o molho ganhar aquela textura aveludada e ligeiramente adocicada que
caracteriza o prato. Legumes como cenoura, couve, batata-doce ou mandioca são frequentemente cozidos no mesmo tacho, absorvendo o sabor amendoado do molho. 

Serve-se, invariavelmente, com arroz branco, que recolhe o molho como só o arroz sabe fazer.

Na Guiné-Bissau, o termo "mafé" tem um sentido mais lato: designa, de forma genérica, os
molhos e caldos que acompanham a bianda (o arroz cozido que é a base da alimentação),
preparados com peixe, marisco, frango ou carne. 

Mas quando um guineense pensa especificamente no primo do mafé senegalês, pensa no Caldo de Mancarra, o caldo de amendoim que é um dos pratos mais típicos e queridos do país: frango ou peixe estufado lentamente num molho cremoso de amendoim, tomate e limão, com a malagueta sempre por perto para dar aquele toque de fogo que a cozinha guineense tanto aprecia.


Baguitch

Se o mafé é conforto num prato, o baguitch é a assinatura verde da mesa guineense. Prepara-se a partir das folhas da hibisco-azedo, Hibiscus sabdariffa, uma planta arbustiva que cresce por quase toda a África Ocidental e que na Guiné-Bissau é conhecida por baguiche ou baguitchi (noutras paragens lusófonas chama-se-lhe vinagreira, e em inglês, roselle; no Senegal vizinho, é a planta do famoso bissap, a bebida de hibisco que ali se bebe gelada.

A preparação do baguitch é simples e ao mesmo tempo trabalhosa. As folhas frescas são primeiro cozidas em água, depois escorridas,. guardando-se muitas vezes essa água, rica em sabor, para usar como base de outros pratos, e batidas à mão com um garfo até se transformarem numa pasta homogénea, quase cremosa. 

É comum juntar-se-lhe um ou dois quiabos já cozidos, que ajudam a engrossar ainda mais a mistura e lhe dão aquela textura ligeiramente viscosa tão característica dos molhos da região. O resultado é um acompanhamento de sabor ácido e terroso, muito distinto do doce do mafé, que se serve tradicionalmente ao lado do arroz branco, do frango grelhado nas brasas e de um pouco de malagueta bem pilada.

(Revisão / frixação de texto: LG)

__________________

Nota do editor LG:

(*) Vd. poste de 25 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28210: No céu não há disto: comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (54): o caldo de chabéu é acompanhado com arroz, que é o rei à mesa; o funge é um prato angolano, lembra-nos o Cherno Baldé