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domingo, 24 de janeiro de 2016

Guiné 63/74 - P15661: Agenda cultural (459): Integrada no 14.º Ciclo das Tertúlias Fim do Império, dia 27 de Janeiro de 2016, pelas 15 horas, apresentação do livro "Adeus até ao meu regresso", da autoria de Mário Beja Santos, no Palácio da Independência, em Lisboa (Manuel Barão da Cunha)

1. Em mensagem enviada ao nosso Blogue, o nosso camarada Manuel Barão da Cunha, Coronel de Cav Ref, que foi CMDT da CCAV 704/BCAV 705, Guiné, 1964/66, dá-nos conta da próxima tertúlia do Fim do Império, a levar a efeito no próximo dia 27 de Janeiro de 2016, pelas 15 horas, no Palácio da Independência, em Lisboa, com a apresentação do livro "Adeus até ao meu regresso", da autoria do nosso camarada Mário Beja Santos:


14.º CICLO DAS TERTÚLIAS FIM DO IMPÉRIO 

LISBOA/SHIP/Palácio da Independência
Largo de São Domingos, 11 - Lisboa


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Nota do editor

Último poste da série de 20 de janeiro de 2016 Guiné 63/74 - P15642: Agenda cultural (458): Conferência, sábado, 23, às 16h, na Universidade Lusófona, Campo Grande, em Lisboa, sob o tema "Quem mandou matar Amílcar Cabral?: Da investigação à atualidade dos factos". Oradores: José Pedro Castanheira, jornalista; Julião de Sousa, historiador; José Luís Hoppfer de Almada, analista político; moderação: Mário Beja Santos; organização: Embaixada da República da Guiné-Bissau; apoio: RDP África

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Guiné 63/74 - P9841: Agenda cultural (199): Intervenção de Mário Beja Santos na Tertúlia sobre o livro de sua autoria "Adeus até ao meu regresso", realizada no passado dia 26 de Abril em Lisboa

Realizou-se no passado dia 26 de Abril, na Bertrand Dolce Vita Monumental, Lisboa, uma sessão integrada no ciclo "Tertúlia, Literaturas da guerra colonial: há memórias que nunca acabam", com coordenação do Cor Carlos Matos Gomes, em que esteve em destaque o livro "Adeus até ao meu regresso" de autoria do nosso camarada Mário Beja Santos que foi um dos intervenientes a par do nosso camarada e Editor/Administrador deste Blogue, Luís Graça.


1. Deixa-se aqui um apontamento da intervenção de Mário Beja Santos:


Adeus, até ao meu regresso:

Algumas questões sobre a literatura da guerra da Guiné

Por Mário Beja Santos

Pode não ter uma elevada qualidade, esta literatura da guerra da Guiné, mas tem uma longevidade assombrosa, basta dizer que surgiu logo aos primeiros tiros, em 1964, e não para de nos surpreender.

Abraça, esta literatura, o romance e o conto, as memórias de vários matizes, o ensaio, a poesia, a reportagem, a investigação histórica e os diários.

Obedece às vicissitudes dos ciclos históricos do Império, da descolonização, do desatar dos constrangimentos, da gradual equidistância que permite aos participantes joeirarem azedumes e centrarem-se no essencial. Foi essa a trajetória que eu escolhi para tratar no livro Adeus, até ao meu regresso as impressões que colhi sobre os títulos que tive oportunidade de conhecer e, tanto quanto sei, até tive a felicidade de ler o essencial.

Começou a guerra, não havia espaço para dúvidas de fé, o regime não permitia sedições nem clamores anticoloniais. O que se escreveu tem a ver com a dinâmica militar, o apoio à guerra, o exame do estudioso da evolução da guerrilha ou a nomeação do verdor do soldado português: Armor Pires Mota, Manuel Barão da Cunha, Hélio Felgas, por exemplo.

No final da década, numa linguagem totalmente codificada, emerge um nome importante das letras portuguesas, Álvaro Guerra, ex-combatente, a quem se ficará a dever alguns parágrafos belíssimos e irrecusáveis sobre esta guerra (desde O Disfarce até já nos anos 70, O Capitão Nemo e Eu).

Estamos nos anos 70, antes do 25 de Abril temos a escrita desalentada de A Flor e a Guerra, de Manuel Barão da Cunha e os textos sempre encriptados (ou quase) de Álvaro Guerra. Vejamos com algum detalhe algumas obras de Álvaro Guerra. Oiçamo-lo em O Disfarce: «Nasci na pátria do ódio gentil, na pátria da paz e do sono, do idílio de uma seringa cheia de medo com uma veia cheia de velho sangue, uma veia sossegada e antiga, sem dores de me parir. Cresci entre as histórias mentirosas e as mezinhas mitológicas de adiar mortes serenas, milhões de tranquilíssimas mortes conformadas, ao som do fado-hino e da saudade-destino».

Falta agora uma apreciação de O Capitão Nemo e Eu (1973), é a última incursão de Álvaro Guerra na guerra da Guiné.

Alguns críticos que saudaram a obra na época interrogaram-se se se estava perante um romance, uma narrativa ou uma memória. Há um homem que está ferido, preso a uma cama de hospital, que entra num processo de convalescença, que divaga quase em estado de delírio, entre o sono e a vigília, nunca é dado estabelecer as fronteiras entre o que é sono e o que é sonho.

Temos um ferido que tateia o corpo e o meio envolvente, que vigia a fisiologia e que repesca os factos acontecidos, a justificação por estar ali, sujeito a remédios e injeções. 



Pequena tertúlia que contou comn a presença de alguns camaradas da Tabanca Grande: além do Beja Santos, o Jorge Cabral, o Luís, a Alice, o Alberto Branquinho, o João Martins, o António Vaz,  o Francisco Henriques da Silva (antigo embaixador na Guiné-Bissau, o Joaquim Carvalho (do BENG)... Fotos de L.G.

É bem possível que tenha regressado ferido na perna, tal como Álvaro Guerra, tão ferido que volta à infância, vê aparecer no seu quarto um anjo, depois regressa ao Geba e amaldiçoa a sua sorte: «Por lá chafurdei na lama das lalas, debati-me no turbilhão dos tornados, derreti-me na fornalha de um sol quase invisível, dissolvi-me na chuva vertical, e amei como um danado aquela terra que me injetou a febre, me secou, me expulsou a tiro. Mas nunca o preço do amor é excessivo nem a presença da morte o pode aniquilar». Bastava este parágrafo de Álvaro Guerra para o colocar obrigatoriamente em qualquer antologia referente à literatura da guerra da Guiné.

E chegamos a 1974, a dinâmica literária dá uma sacudidela veloz, é tempo de niilismo e de irreverência. José Martins Garcia será o arauto e o grão-mestre dessa viragem. E  

Lugar de Massacre a obra incontornável do anúncio desses novos tempos.

Lugar de Massacre é um livro soberbo (3ª edição, 1996). É difícil acreditar que haja prosa mais niilista, corrosiva e grotesca que a que ele utiliza na construção dos personagens, dos ambientes e atmosferas, nos diálogos entre guerreiros, até nas circunstâncias do quotidiano. Martins Garcia usa até à exaustão o nonsense como metáfora, a relação entre chefes e subordinados decorre habitualmente entre o despotismo, a orgia sexual e a bebedeira que culmina no embrutecimento e até mesmo na hospitalização. É um livro autobiográfico, como ele próprio anota: «Este romance foi redigido entre o mês de Dezembro de 1973 e o dia 8 de Setembro de 1974. Qualquer coincidência com a realidade colonial dos anos 1966 – 1968, no que respeita à Guiné-Bissau, não é produto do acaso».

Os anos 80 terão novas características: os autores estão mais disponíveis para os relatos confessionais, a intimidade vem à flor dos relatos, tornam-se crus, pujantes, como numa corrediça os acontecimentos circulam velozmente do presente ao passado ou vice-versa. Três autores (Álamo Oliveira, José Brás e Cristóvão de Aguiar) merecem incontestável destaque.

Álamo Oliveira com o seu Até Hoje (Memória de Cão) vem desafrontadamente falar da homossexualidade e da guerra, entre João e Fernando, as personagens principais. É uma obra rica na descrição de ambientes. Por exemplo, a chegada do correio é um acontecimento avassalador, como Álamo Oliveira descreve: «Estão como cabras espantadas, prisioneiros ridículos, inocentes, amantes de cordel, aos saltos, gritinhos tarzânicos. Doentes de alegria explosiva, rapazes com o coração a viajar para o princípio do ser, primitivos os sentidos expostos. Fixam-se no meio da parada, a mão à testa para tapar o sol, a avioneta de voo raso, dois sacos de correio que se despenham e se amparam nos mil dedos que os agarram... As notícias vinham ali ensacadas, cadeadas, atrasadas quase quatro semanas. Vinham alegrias de tempo contado, saudades moídas pela azenha da distância, tristezas em rebanho... Os olhos estão fixos nas mãos do cabo-escriturário que agora é todo o quartel de Binta e só aquele tamanho, a mão emocionado metendo a chave no cadeado do saco com a mesma untuosa demora da desfloração».

José Brás é um estreante e traz uma grande surpresa com as suas Vindimas no Capim. Vindimas no Capim é uma obra de peso da literatura da guerra colonial guineense. Um Filipe Bento que vem à fala orgulhoso do pai barbeiro e da mãe costureira, orgulhoso das origens, da fossanga das vinhas, íntegro numa raiva desmedida à instituição militar com quem, tudo leva a crer, ficou definitivamente incompatibilizado. Enternece este regresso à juventude e depois saltar para Cutima-Fula, Camba-Jate ou caminhar até Guileje, nos entretantos deixar claro o que o pessoal da 4022 viveu em estafadeira. Há imagens que, de tão bem resumidas, nunca mais se esquecem: «Buba! Ao longe pareceu-nos um bairro de lata. O Prior Velho. O rio era a autoestrada do norte e o barco a carreira dos Claras a caminho de Lisboa. As barracas iam crescendo e já se viam braços no ar à beira do espelho da estrada; um amontoado de troncos a entrar na largura da rota, em forma de cais, e uma mancha a alargar-se, a mexer-se, a gritar».

É uma narrativa que fala de bruxa de vários tipos, das eleições no tempo de Salazar, do obscurantismo de vários matizes, de um mundo que gradualmente foi desaparecendo com o termo daquela guerra. Compreendemos, no fim da narrativa, porquê vindimas no capim: é a voz do chamamento da terra, dentre as tabancas, ao pé do corredor da morte, com os palavrões da guerra. E também se compreende a dedicatória «Àqueles que se estoiravam, eles próprios, por dentro e por fora, para que a terra continuasse a parir e o sol a fecundá-la». Seguramente, estas Vindimas no Capim têm lugar merecido entre o que melhor se escreveu nos já longínquos anos 80.

Temos finalmente Cristóvão de Aguiar, ainda hoje às voltas com o seu livro Braço Tatuado.

Desde que escreveu Ciclone de Setembro (1985), Cristóvão de Aguiar (1940) nunca mais largou o filão da Guiné, onde combateu de 1965 a 1967. Virá a desafetar de Ciclone de Setembro o romance O Braço Tatuado (1990), segue-se Relação de Bordo (1999), Trasfega (2003) e A Tabuada do Tempo (2006).

A expedição de Arquelau de Mendonça em terras da Guiné, publicada em Ciclone de Setembro (1985) deve ter sabido a pouco quer ao escritor quer aos leitores. Arquelau é um ilhéu típico: foi à guerra para não se demorar, andou lá a correr, acompanhado de um casal de rafeiros, comandou o 1.º grupo de combate da CCAÇ 666. As suas correrias, tanto quanto parece, centraram-se no Leste, procurou alhear-se da guerra, era impossível, viu execuções sumárias, dez mortos numa emboscada, entre Piche e Canquelifá. Sofreu as solidões do aquartelamento de Dunane, sentiu a sombra da loucura, depois o Niza, o tal soldado do braço tatuado, resolveu suicidar-se quando a Lena (cujo nome estava tatuado) o preteriu por outro. Não é difícil perceber como o episódio do Niza lhe ficou gravado, obriga Cristóvão de Aguiar a revisitações: «Tento de onde estou parado parlamentar com ele. Faço-lhe ver que aquela loucura o poderá desgraçar para o resto da vida. Não me dá ouvidos. Desgraçado já ele estava, nenhuma outra desgraça o poderia afetar tanto. Dão uns passos a medo e muito devagar. Mal nota que me vou aproximando, dá dois tiros para o ar. Estaco estarrecido. Muito subtil, levo a mão ao bolso e palpo a arma. Ele olha-me com a fixidez de um dementado e entende o meu gesto sorrateiro. Diz ele: Se o meu alferes sonha em tirar a pistola, abato-o de seguida... E despeja, em rajada, quase todo o carregador da G-3 para o ar, mas não tanto para o ar que não sinta o assobio de uma bala rente ao ouvido direito. Não me dou por achado, mas entro em pânico por dentro. A minha cabeça é um carrossel de fogo. Mordo os beiços numa tentativa de autodomínio, se calhar de autodefesa. Verifico que o Niza não traz cinturão nem as cartucheiras. Respiro de alívio».

Dos anos 90 em diante temos toda a gente a escrever: Armor Pires Mota regressa com Cabo Donato Pastor de Raparigas e surpreende-nos com uma obra-prima Estranha Noiva de Guerra. Seja em edições de autor ou com chancela de editora, surgem títulos à volta do romance e conto, de um modo geral coisas insignificantes, mesmo quando há boa vontade. O registo vai para Tempo Africano de Manuel Barão da Cunha, Memória dos Dias sem Fim, de Luís Rosa e As Ausências de Deus, de António Loja. Barão da Cunha remexe nos seus diferentes títulos anteriores, põe alguém em nome das jovens gerações a interpelar um ex-combatente que cirandou por África, o resultado é o de um bom exercício didático. Ficamos a dever a Luís Rosa e a António Loja parágrafos belíssimos, diria mesmo que se acaso se vier a publicar uma antologia de grandes textos eles terão presença obrigatória.

No campo das memórias é onde mais longe se foi, no escol e no rol. Vasco Lourenço, Salgueiro Maia, Gustavo Pimenta, as reportagens de João Paulo Guerra, antigos prisioneiros do PAIGC e essencialmente José Talhadas, Amadú Djaló e Moura Calheiros. A equidistância veio garantir olhares mais serenos sobre a guerra colonial, a investigação revelou-se parte interessada sobretudo com os trabalhos de João de Melo, Rui de Azevedo Teixeira e Margarida Calafate Ribeiro. 

Muita gente começou a vazar recordações, a título exemplificativo: Nuno Mira Vaz escreveu sobre o BCP 12 e a Guiné; Garcia Proença sobre os movimentos independentistas, o Islão e a Guiné; António Duarte Silva deu continuidade ao estudo da história recente da Guiné, é hoje um investigador indispensável; Sanches de Baêna escreveu sobre os fuzileiros da Guiné como Kruz Abecassis sobre a aviação. 

No campo da História Luís Nuno Rodrigues escreveu uma biografia sobre Spínola, recorrendo aos parâmetros da história oral, José Freire Antunes escreveu nos anos 90 (recentemente reeditado) A Guerra de África, 1961-1974. E Carlos de Matos Gomes e Aniceto Afonso deram devido relevo à história da Guiné nos já incontornáveis Os Anos da Guerra Colonial. A súmula sobre a guerra da Guiné de Fernando Policarpo tem poucas rugas e muitos méritos para acicatar a curiosidade dos não-iniciados.

Graça de Abreu colige notas da sua observação, não escondendo o quotidiano entediante, estava atento ao evoluir da guerra e tinha acesso a muita informação, daí a utilidade em ler-se o seu trabalho como uma apreciação do agigantar da guerra, entre 1972 e 1974; Leonel Olhero está num Esquadrão Panhard, sobretudo em Bula, doseia as recordações entre o antes e o durante a guerra e profere declarações altamente polémicas como aquelas que tece ao capitão Salgueiro Maia. Mário Beja Santos pretende reconstituir a sua comissão militar desde que desembarcou em Bissau, em Julho de 1968, até ao seu regresso, em Agosto de 1970. Organiza metodicamente os acontecimentos por semanas, interessa-se em mostrar como descobriu o deslumbramento pelo Cuor, onde viveu 17 meses, com a missão principal de garantir a navegabilidade do Geba.

Urgindo pôr temo a este arrazoado de considerações sobre uma literatura sem fim à vista, tendo mesmo em conta que este arrazoado poderá ter sido injusto em omissões graves ou qualificações menos abonatórias, importa sublinhar que qualquer síntese é espinhosa quando não abre espaço à antologia. Isto para significar que se revela indispensável entregar a um especialista o cotejo de textos representativos de autores representativos. O único mérito que posso conferir a este apanhado é a chamada de atenção para obras e autores até agora omitidos, sabe-se lá por que razões de cariz ideológico ou outras. Afinal, até eu me esqueci de apresentar A Cubana que Dançava Flamenco, de Armor Pires Mota, de dizer que continuam a surgir obras com depoimentos de ex-combatentes, caso de Dias de Coragem e de Amizade, Angola, Guiné Moçambique: 50 histórias da guerra colonial, de Nuno Tiago Pinto, com prefácio de Carlos de Matos Gomes (A Esfera dos Livros, 2011); deixei no olvido inúmeras histórias de companhias, algumas delas de grande significado. Não quero estar na pele do historiador a quem couber tal missão! Todos os dias o investigador é confrontado com surpresas, entra num arquivo ou num alfarrabista e surgem mais novidades. Há depois amigos zelosos que juntam outras peças e, com um sorriso nos lábios, surpreendem-nos. Falou-se na literatura propagandística do regime, o exemplo escolhido foi o de Amândio César. Mas há mais. Horácio Caio escreveu em 1970 Guiné 9 Dias em Março, José Manuel Pintasilgo escreveu em 1972 Manga de Ronco no Chão e Horácio Caio volta às lides do panegírico em 1974 com Guiné 1974, Vigilância e Resposta. Para que conste que o rol é supostamente infindável.

A despeito de uma maioritária falta de qualidade desta literatura, há parágrafos extraordinários assinados por Álvaro Guerra, Martins Garcia, Cristóvão de Aguiar, António Loja ou Luís Rosa. E Estranha Noiva de Guerra, de Armor Pires Mota, o mais persistente dos todos os escritores da guerra da Guiné, é autor de uma obra-prima digna de constar na bibliografia indispensável de todas as literaturas de guerra.

Haverá surpresas? E porque não? As memórias de Amadú Djaló, do sargento Talhadas e do coronel Moura Calheiros não foram publicadas nos últimos anos? Até ao lavar dos cestos, até estar vivo o último militar que combateu na Guiné, há que contar com as surpresas da vindima, não há mês em que não surja um título, um depoimento, um olhar sobre aquela guerra que se travou enquanto se caminhava na farroba de lala, entre cipós e tabás, a patinhar no tarrafo, nas emboscadas montadas em florestas secas densas, militares acoitados atrás do baga-baga, a resistir à fúria das emboscadas, ou dentro dos aquartelamentos, imprecando em noites de flagelação destruidora. Haverá seguramente surpresas, este género literário está muito longe de ter fechado para obras e muito menos para mudança de ramo.
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Notas do editor:

(*) Vd. poste de 24 de Abril de 2012 > Guiné 63/74 - P9797: Agenda cultural (197): "Adeus até ao meu regresso" em foco na "Tertúlia - Literaturas da guerra colonial: há memórias que nunca acabam", dia 26 de Abril de 2012, pelas 18 horas, na Bertrand Dolce Vita Monumental, Lisboa, com a participação de Mário Beja Santos e Luís Graça

Vd. último poste da série de 29 de Abril de 2012 > Guiné 63/74 - P9828: Agenda cultural (198): "O Trilho: um cruzar de épocas em gerações transversais – 1950-2050", novo livro de José Saúde

terça-feira, 24 de abril de 2012

Guiné 63/74 - P9797: Agenda cultural (197): "Adeus até ao meu regresso" em foco na "Tertúlia - Literaturas da guerra colonial: há memórias que nunca acabam", dia 26 de Abril de 2012, pelas 18 horas, na Bertrand Dolce Vita Monumental, Lisboa, com a participação de Mário Beja Santos e Luís Graça

C O N V I T E

No próximo dia 26 de Abril, pelas 18 horas, na Bertrand Dolce Vita Monumental, na Av. Fontes Pereira de Melo, Lisboa, terá lugar uma sessão integrada no ciclo "Tertúlia, Literaturas da guerra colonial: há memórias que nunca acabam", coordenação do Cor Carlos Matos Gomes, estando em destaque o livro "Adeus até ao meu regresso" de autoria do nosso camarada Mário Beja Santos que será um dos intervenientes assim como o nosso camarada e Editor/Administrador deste Blogue, Luís Graça.


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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 19 de Abril de 2012 > Guiné 63/74 - P9773: Agenda cultural (196): Algumas notas sobre o Seminário Guerra de África (José Colaço)

domingo, 15 de abril de 2012

Guiné 63/74 - P9750: Notas de leitura (351): "Adeus até ao meu regresso", de Mário Beja Santos: "um invulgar e dificilmente classificável livro" (Carlos Matos Gomes)


Lisboa > Associação 25 de Abril (A25A) > 29 de março de 2012 > Sessão de lançamento do livro de Mário Beja Santos, "Adeus até ao meu regresso" (Lisboa: Âncora Editora, 2012). Apresentação a cargo do cor cav ref Carlos Matos Gomes (na foto de cima, ladeado à esquerda  pelo editor; e à direita por Vasco Lourenço, presidente da direção da A25A,  e por Beja Santos).


Vídeo (1' 01'') > Alojado em You Tube > Nhabijoes


Fotos e vídeo: © Luís Graça (2012). Todos os direitos reservados


1. Texto da apresentação, da autoria do cor cav ref Carlos Matos Gomes, do livro "Adeus até ao meu regresso", de Mário Beja Santos

“Já participamos nos romances uns dos outros”, escreve o Mário Beja Santos no seu livro a propósito de um pedido feito por uma jornalista, Tânia Ganho, de informações sobre a Guiné e transmitido por esse extraordinário veículo de convívio, de memórias e afetos que é o blogue do Luis Graça e camaradas.

É verdade, uma surpreendente verdade. Os que combateram na Guiné durante a guerra colonial, os que escreveram sobre ela, a propósito dela, os que falam dela, todos participamos nos romances uns dos outros e no invulgar e dificilmente classificável livro do Mário Beja Santos – Adeus até ao meu regresso - que hoje aqui apresentamos.



Reportoriar o essencial

O livro de Mário Beja Santos, concentra o que de mais relevante foi escrito sobre a Guiné. Apresenta-se como uma antologia em que, modestamente, o autor diz ir “reportoriar do lado português o que de essencial está escrito desde 1964 sobre a Guiné”.

Estamos perante uma antologia, formalmente dividida em textos de autores que contemplam o romance e o conto, as memórias, o ensaio, a poesia, a reportagem, a História e os diários, mas uma antologia única, construída articulando o texto do autor – Beja Santos - e as transcrições e citações dos autores que ele refere, fazendo continuar os dois registos numa sequência sem hiatos. Estamos perante uma obra da arte de contar a história da Guiné e da guerra na Guiné com as palavras dos autores, sublinhando o que de melhor eles nos disseram.


A capa

Gostava de realçar desde logo a capa, a fotografia, que é uma homenagem sensível e sofisticada a Amílcar Cabral, pois remete para a fotografia clássica do líder do PAIGC a atravessar um curso de água e que eu interpreto como o querer dizer que todos os que combatemos na Guiné estamos irmanados pelo mesmo amor por aquela terra, porque todos embarcámos nas mesmas canoas, atravessámos os mesmos rios, passámos as mesmas dificuldades.
 
O livro de Mário Beja Santos dá-nos os suculentos nacos de prosa dos autores, não apenas flashes e apresenta-nos a Guiné e a guerra como uma orquestra a tocar uma sinfonia com vários executantes e com o autor no papel de compositor e maestro. Pode parecer quase herético ou blasfemo associar as explosões, os sofrimentos, os extremos da guerra a uma sinfonia, mas é disso que se trata, de um drama em todos os seus andamentos e em todos os seus tons.

Nesta obra polífona cada autor referenciado e cada texto ou citação entra no ponto certo para transmitir uma visão do pormenor que irá contribuir na sua justa medida e tom para a sinfonia.

O paradigma da antologia na literatura portuguesa sobre a guerra é ainda hoje “Os Anos da Guerra”, organizada por João de Melo com excelentes textos de enquadramento de Joaquim Vieira, obra aliás referida e devidamente apreciada por Mário Beja Santos, mas o que nós temos em “Adeus até ao meu regresso” é algo de essencialmente diferente, é uma antologia construída como um romance e um romance construído como uma história da Guiné, dos seus povos e da guerra que ali foi travada de 1963 a 1974. Os autores dos textos são personagens do romance e os seus textos são a narrativa das aventuras das personagens, os seus pensamentos, as suas visões, os seus sentimentos.

O autor, o romancista, o Mário Beja Santos conseguiu através do trabalho, que ele próprio qualifica de demencial, um tal conhecimento dos autores, cujas vidas são apresentadas e integradas na narrativa como as das personagens dos romances, e das suas obras que as articula no tempo e no local a que as ações se referem.

Os textos dos livros escolhidos permitem-nos comparar as nossas experiências com a de outros camaradas, que passaram pelos mesmos locais, noutro tempo, que viveram situações semelhantes. São textos de livros para lermos, mas são principalmente livros para deixarmos aos nossos filhos, aos nossos netos, às gerações que nos vão suceder.


Escritores da guerra

Trata-se de livros de uma geração de escritores da guerra, como os classificou João de Melo. Neste caso, na maioria dos casos, de escritores estigmatizados. Pela guerra enquanto tema, pela guerra que os fez participantes na acção, que afastou da crítica, dos circuitos literários, do reconhecimento dos seus concidadãos. Diríamos hoje, que estes escritores da guerra estão fora do mercado. Como em muitas outras áreas da nossa vida, existem várias realidades que não se reconhecem e não estou a falar apenas de ficção, ou poesia, estou a falar de ensaio, de história, de diarística, de memórias.

Os textos reunidos por Mário Beja Santos reúnem o melhor e o mais importante do que foi publicado e trazem ao nosso conhecimento obras esquecidas que, se lidas, nos permitiriam ter um conhecimento fundamentado das razões, ou da falta dela para aquela guerra. Aperceber-nos-íamos das razões por detrás das coisas, de que tudo tem uma história e permito-me salientar sem nenhum desprimor para os outros autores as obras de António Duarte Silva no capítulo do ensaio, a que o Mário Beja Santos dá o titulo “A Guiné entre o século XIX e a atualidade. Para entender melhor estes mais de dois séculos de esperança adiada” e as referências ao estudo “Invenção e Construção da Guiné-Bissau”, editado em 2010.

Para o que resta de crítica literária, os escritores da guerra escrevem sobre um assunto incómodo e politicamente incorreto. A moda são os urbanos. A moda é a ausência de valores. A moda é a ambiguidade a vários níveis, da ambiguidade sexual à ambiguidade de princípios. A moda é o precário, o imediato, o rápido. O usar e deitar fora. Uma sociedade hedonista, não suporta a dor da guerra, o sofrimento da morte, não suporta as mãos sujas de sangue. Não suporta o dilema de matar e morrer e não suporta, infelizmente o trabalho e o sacrifício do estudo e da compreensão. Portanto deixa de lado, com indiferença, estes testemunhos incómodos da história.

Basta ler os extratos que Beja Santos nos dá no seu livro para termos a certeza de que não é por falta de qualidade literária e científica que alguns destes autores não são e não foram trazidos ao grande público pelos divulgadores culturais, mas porque o Portugal que passa nos textos dos autores iluminados e nalguns casos ressuscitados por Beja Santos não é, de todo, o Portugal que a moda e os que fazem a moda querem e quiseram fazer crer que existia.

O que temos neste livro é o Portugal da guerra colonial, a maior aventura coletiva da história de Portugal a seguir à das viagens, descobertas e conquistas dos séculos XV e XVI (mais de milhão e meio de portugueses envolvidos na guerra e na emigração), também é a participação de Portugal no movimento descolonizador, o fenómeno mais marcante da história mundial após a II guerra.

“Adeus até ao meu regresso”, centrando-se na Guiné, enquadra a história daquele território no âmbito mais vasto do colonialismo iniciado com a Conferencia de Berlim, quando as fronteiras foram definidas (traçadas) – recorda-nos que o Casamança tinha tido uma ocupação portuguesa, que Zinguichor, muito perto de Guidage, foi uma cidade sob domínio português, que as guerras de pacificação duraram até aos anos 30 do século XX.

Tomamos contacto com as linhas de fratura sobre a questão colonial que atravessaram o regime do Estado Novo português, colocando de um lado autonomistas como Sarmento Rodrigues, Marcelo Caetano e Adriano Moreira e do outro os integracionistas, que acabaram por fazer valer a sua posição junto de Salazar e tornaram a opção pela guerra, tornada irreversível a partir de 1963.


Romancistas e contistas da guerra


Entre os autores de romances e contos Mário Beja Santos elege três: Armor Pires Mota, Álvaro Guerra e José Martins Garcia. Sobre Armor Pires Mota diz Beja Santos: “Resta perguntar porquê este silêncio em torno do primeiro repórter combatente, alguém que escreveu a guerra quase em directo, em tom singelo, frugal nas imagens, entregando-nos os seus estados de alma sobre a forma de diário. Porventura houve preconceitos ideológicos, hoje totalmente inexplicáveis, talvez porque o escritor assumisse que fizera esta comissão numa convicção dos destinos da Pátria. Ele foi o primeiro escritor entre nós, devemos-lhe esta guerra quase em directo, no tempo em que se combatia de capacete e se transportavam munições e víveres em burros. Como veremos, a Guiné tem acompanhado a sua obra literária, até ao presente.


Outro valor histórico não tivesse e ficariam parágrafos indesmentíveis, solenes, melancólicos, pensamentos que ocorreram a qualquer um de nós, como se transcreve de “Noiva de guerra”: Na justa medida em que Estranha Noiva de Guerra é um dos livros mais portentosos que se escreveram sobre a Guerra da Guiné, está injustamente esquecido e é um dever cultural de alertar os editores para o imperativo da sua reimpressão. “


É apenas um exemplo para vos estimular a ler o livro. Eu permitia-me referir duas outras obras recenseadas no capítulo de memórias, uma de um diplomata, no início da guerra e outra de Salgueiro Maia, no final.




Ensaio e história - do princípio do que podia não ter sido uma guerra ao fim dantesco em que ela se transformou.


Em primeiro lugar a do livro: “Quadros de Viagem de um diplomata” de Luís Gonzaga Ferreira.


Trata-se da obra de um diplomata que esteve em serviço em Dakar, no Senegal em 1963 e que relata um episódio relativamente pouco conhecido de conversações entre o governo português, por Salazar em pessoa, com dirigentes nacionalistas, da UNPG, que viria a dar elementos para a FLING e para o PAIGC – no caso Benjamim Pinto Bull, uma família originária da zona de Teixeira Pinto. Nestas conversações Salazar aceita num primeiro tempo conversações e dá instruções à embaixada de Dakar, para depois negar e cortar essa possibilidade. Estamos em 63, no início de uma guerra que podia ter sido evitada ou conduzida para um outro fim. Eis o que diz o Mário Beja Santos:


“No dia 11 de Agosto de 1963, um DC5 aterrou em Bissalanca e dele saíram Silva Cunha, então secretário de Estado do Ultramar, diplomatas do MNE e o último cônsul português em Dakar, Luiz Gonzaga Ferreira. Este conjunto de personalidades ia aguardar a comunicação que Salazar faria ao país no dia seguinte, dando conta da sua decisão, tomada depois de se reunir com Benjamim Pinto Bull, Presidente da União dos Naturais da Guiné Portuguesa (UNGP), de aceitar a abertura de negociações para uma autonomia política da Guiné. A seguir a esta declaração de Salazar, o conjunto de personalidades e o governador da Guiné receberiam Benjamim Pinto Bull para iniciar as negociações dessa autodeterminação progressiva.


O que se disse acima não é ficção, está perfeitamente documentado e consta do livro “Quadros de Viagem de Um Diplomata”, por Luiz Gonzaga Ferreira, Vega, 1998. Ao longo de mais de 400 páginas, o diplomata dá-nos conta sobre os bastidores da acção diplomática portuguesa no Senegal e oferece-nos uma importante memória sobre a política de Senghor e o que ele pensava da transição pacífica da Guiné para a independência e, não menos importante, quem eram e como actuavam os diferentes movimentos independentistas que operavam em Dakar, a partir de 1959.


Estamos neste livro perante uma leitura excepcional, pois é possível decepcionar como esta UNGP constituiu a última oportunidade de ter evitado, segundo o autor, a luta armada bem-sucedida que o PAIGC desencadeou a partir de 1963.


Qualquer possibilidade de ter havido uma Guiné independente multipartidária, dirigida por guineenses, desapareceu com o discurso de Salazar de 12 de Agosto de 1963. Num curto parágrafo deitou tudo por terra, ele que apoiara a negociação com a UNGP ao dizer: “Que todos o saibam – em nenhum momento e sob que pretexto, jamais parcela alguma do território nacional e nenhuma parte da soberania nacional serão alienadas”. Igualmente, no terreno das hipóteses, a proibição desta autonomia deitou por terra outras soluções em Angola e Moçambique. O pano caiu nesse dia. Em Adis Abeba nasceu a Organização da Unidade Africana, o nacionalismo africano entrava na rampa de lançamento, todas as soluções moderadas se tornaram questionáveis, indesejáveis.”


Esta é uma memória de como a guerra podia ter sido evitada ou seguido por outro caminho. O texto seguinte é do final da guerra. Do absurdo a que se havia chegado e é relatado pela transcrição de textos do livro “Crónica dos feitos por Guidage”, de Salgueiro Maia, que aqui recordo com emoção e respeito.


Este texto é também elucidativo do modo como Mário Beja Santos encadeia o seu texto com o dos autores para construir um novo texto coerente. Começa com Beja Santos:


“O pior vem depois. No dia 22 de Maio de 1973, Salgueiro Maia e a sua companhia estão prontos para seguir para o Cumeré, parece que a comissão terminou. Mas não, têm que partir de urgência para o Norte. O PAIGC desencadeara uma ofensiva em Guidage, a guarnição estava cercada e, aparentemente, isolada. As flagelações do mês de Maio, na zona de Guidage, eram incontáveis. O PAIGC apostara numa operação de grande envergadura: trouxera mísseis terra-ar para dissuadir os meios aéreos; implantara um campo de minas anti-carro e anti-pessoal na estrada Guidage-Binta. A última coluna de reabastecimento fora atacada durante cerca de 24 horas sem interrupção, as NT retiraram abandonando mortos e viaturas, seguiram para Guidage. O comando-chefe reage com a operação «Ametista Real». Uma companhia de pára-quedistas e um destacamento de fuzileiros tentam abrir o itinerário, chegam a pé a Guidage depois do destacamento de fuzileiros ter caído num campo de minas e os pára-quedistas terem sofrido uma emboscada. Salgueiro Maia recebe ordens para seguir para Binta-Farim e depois, com uma companhia africana e uma companhia de atiradores, abrir o cerco para Guidage. O relato que ele faz é uma peça espantosa.


Em 26 de Maio chega a Binta com uma companhia desfalcada, estão lá três capitães, pouca comida e há que dividir as munições por todos. Não há um só oficial superior para comandar a operação. Começa aqui a sua descrição:


«No dia 29 de Maio, pelas 5 horas, iniciámos a abertura do itinerário Binta-Guidage. Cerca das 10 horas, ao ser picada, foi accionada uma mina anti-carro, de que resultou um morto (ficou somente com um bocado do tronco, pois o resto desapareceu), um furriel cego e dois feridos ligeiros. Foi ordenado ao pelotão a que pertenciam as baixas para, em dois Unimogs, fazer evacuação para Binta, onde a companhia local os evacuaria para Farim e daqui para Bissau, por já não haver evacuações aéreas no local, devido à existências de mísseis terra-ar. O pelotão que fez a evacuação aproveitou a oportunidade e não voltou, como lhe tinha sido ordenado, e assim ficámos com menos duas viaturas e cerca de 30 homens. Talvez para que o mau exemplo não se espalhasse, esta deserção colectiva em frente do IN, apesar de constar do relatório da operação, não originou qualquer procedimento disciplinar».


A progressão faz-se a corta-mato, com algumas viaturas à frente, os cunhetes vão abertos, prontos a utilizar: este regime em self-service ir-se-á revelar providencial. Prova que o PAIGC mudara de táctica e queria levar o cerco de Guidage até às últimas consequências a que cada um dos seus homens armados levada dois a três carregadores para o substituir. Pelas 12 horas, as forças do PAIGC começaram a atacar a coluna, foram repelidos várias vezes. As tropas de Salgueiro Maia estão sem água, há homens desmaiados, felizmente que a coluna de reabastecimento de Bissau ia progredindo. Mais adiante, na região de Ujeque, do corta-mato passou-se para uma antiga picada, tentou-se progredir por aqui, arrebentou uma nova mina debaixo de um Unimog 404, um soldado milícia ficou sem uma perna. Mais adiante conseguiu-se contacto com o destacamento de fuzileiros retido em Guidage. Pelas 19 horas entraram em Guidage que tinha um aspecto irreal. Dá-se de novo a palavra a Salgueiro Maia:


«O chão estava lavrado por granadas, as casas, todas atingidas, pareciam ruínas, os homens viviam em buracos, luz e água não havia... como que para nos cumprimentar, pelas 21 horas somos flagelados por um morteiro de 82, com as granadas a cair em grupos de cinco e, para cúmulo, granadas nossas de 81 mm, das capturadas na coluna de reabastecimentos, agora disparadas contra nós. No dia seguinte, pouco depois do alvorecer, inicia-se a coluna de regresso com o pessoal que, até à data, tinha sobrevivido e que, para além dos sofrimentos de que já padecia, deitado sobre colchões velhos, saltava como pipocas cada vez que a Berliet passava num buraco».


E a descrição que ele faz de Guidage é perfeitamente dantesca:


«A enfermaria e o depósito de géneros tinham sido praticamente destruídos; como assistência sanitária, tínhamos um sargento enfermeiro e alguns maqueiros. O pessoal dormia e vivia em valas abertas ao redor do quartel. Esporadicamente, errava-se por lanços por entre os edifícios ou o que deles restava. Como dormir no chão não é muito agradável, na primeira oportunidade passei revista aos escombros e tive sorte: descobri dentro de um armário que tinha pertencido a um alferes madeirense que ficou sem uma perna uma farda nº 3, o que me permitiu lavar o camuflado e, como prenda máxima, um bolo de mel e uma garrafa de vinho da madeira quase cheia e inteira no meio de tudo partido. Com isto fiz uma pequena festa com três ou quatro homens, porque era perigoso juntar mais gente. Nesta altura pensei em, depois de regressar a Bissau ir ao HM 241 saber quem era o alferes para lhe agradecer tão opíparo banquete, mas tal não foi possível e ainda hoje tenho esse peso na consciência.


"Nas minhas visitas pelos escombros, desci ao abrigo da artilharia, onde houvera quatro mortos e três feridos graves. O abrigo fora atingido em cheio por uma granada de morteiro 82 com retardamento; a granada rebentou a meio de uma placa feita com cibes; o resto do abrigo ficou totalmente destruído; o chão tinha um revestimento insólito – consistia numa poça de sangue seco, cor castanha com 2 a 3 mm de espessura, rachada como barro ressequido. O odor envolvente era um pouco azedo, mas sem referência possível; o sangue empastava os colchões e as paredes. A minha preocupação era encontrar um colchão. Depois dar volta aos oito que lá se encontravam, escolhi o que estava menos sujo. Tirei-lhe a capa, mas o cheiro que emanava de dentro era insuportável; mesmo assim, consegui trazê-lo para a superfície, onde ficou a secar debaixo da minha vigilância, para não ser capturado por outro. Depois de bem seco e com os odores atenuados, levei a minha conquista para a vala, onde, para caber, tive de o cortar ao meio, fazendo bem feliz o meu companheiro do lado que, sem esforço, ganhou um colchão, e sem saber de onde ele tinha vindo».


Assim foram aqueles tempos em Guidage: sem horas para comer, com arroz e salsicha ao jantar, o resto estava desfeito, enquanto se comia caiam à volta morteiradas para ninguém se esquecer que se estava em guerra.


Esta descrição, dura e crua, bem devia ser apresentada nas escolas, para se ter uma imagem da bestialidade da guerra que se desenvolvia na Guiné. Tenho encontrado muitos relatos sobre a violência, a crueldade, o horror das matanças, das perseguições, o caos das populações no meio de tanta destruição. Julgava que “Kaputt”, de Curzio Malaparte, tinha lá tudo o que o demónio da guerra comporta, o inumano, o truculento, os muitos medos desavindos, imprevistos. Salgueiro Maia ensinou-me que há sempre surpresas, basta, como lhe aconteceu, ter saído de Binta para Guidage, aquele inferno inesquecível de Maio de 1973. Um relato para a História, até para se perceber como aquele homem tinha razão fundada em ter chegado ao Largo do Carmo, naquele dia 25 de Abril."


Já vai longa a apresentação, que é também como deve ser um local e uma ocasião de encontro entre amigos e camaradas, queria repetir que em “Adeus até ao meu regresso” estamos perante uma obra única, com uma escrita: límpida, emocionada, num português que nos leva com a naturalidade de uma valsa. Esta é a literatura portuguesa que vai ficar para a história e é porque relata o que de mais importante e marcante ocorreu em Portugal e os portugueses durante a segunda metade do século XX.


É de uma literatura original – o olhar de um povo sobre outros mundos, que Mário Beja Santos nos deixa o melhor. A desmistificação da história que nos era contada: nós não conhecíamos a África nem os africanos. A literatura que nos revelou e revela como povo: pela primeira vez uma geração alfabetizada escreve e relata o modo como viu os outros, como viu os outros portugueses e como viu os africanos. Como reagiu às situações limites: à morte, ao afastamento, ao medo. O que permite sabermos muito sobre a nossa religiosidade para além da afirmação mais ou menos feita de sermos muito católicos. Quais são os nossos deuses, o que queremos deles?


É esta literatura que vai perdurar, porque ela é especifica e reflete os olhares dos portugueses sobre a sua grande aventura, com os autores transformados em personagens numa história geral, como acontece nas grandes obras que relataram as epopeias dos seus povos.


Lisboa, Associação 25 de Abril,

29 de março de 2012


Carlos de Matos Gomes
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Nota do editor:


Último livro da série > 13 de abril de 2012 > Guiné 63/74 - P9742: Notas de leitura (350): A Guiné vista pela Agência-Geral do Ultramar em 1967 (Mário Beja Santos) 

terça-feira, 20 de março de 2012

Guiné 63/74 - P9629: Agenda Cultural (188): Convite para o lançamento do livro Adeus até ao meu regresso, de Mário Beja Santos, dia 29 de Março de 2012, pelas 18h30, na Associação 25 de Abril, em Lisboa (Carlos Vinhal)

C O N V I T E

"Adeus até ao meu regresso" (a literatura dos e sobre os combatentes da guerra da Guiné) é o último livro de Mário Beja Santos, publicado pela Âncora Editora, cujo lançamento vai ser levado a efeito no próximo dia 29 de Março de 2012, pelas 18h30, na Associação 25 de Abril, Rua da Misericórdia, 95 em Lisboa.

A obra será apresentada pelo Coronel Carlos Matos Gomes.


O "Adeus até ao meu regresso" é uma compilação das recensões feitas pelo camarada Mário Beja Santos no nosso Blogue, e agrupadas no livro por: Romance e Conto, Memórias, Ensaio, Poesia, História e Diários.

Entre outros autores podemos encontrar: Armor Pires Mota, Álvaro Guerra, José Martins Garcia, Álamo Oliveira, José Freire Antunes, José Brás, António Graça de Abreu, Hélio Felgas, Rui Alexandrino Ferreira, Cristóvão de Aguiar, Alberto Branquinho, Vasco Lourenço, Salgueiro Maia, Carmo Vicente, Amadú Djaló, Manuel Batista Traquina, Lobato Faria, José de Moura Calheiros, José Pardete Ferreira, Fernando de Sousa Henriques, António Duarte Silva, Aniceto Afonso, Carlos Matos Gomes.

Alberto Branquinho, Amadú Djaló, António Graça de Abreu, Cristóvão de Aguiar, Fernando de Sousa Henriques (1949-2011),  José Brás, José Pardete Ferreira,  Manuel Batista Traquina e Rui Alexandrino Ferreira, fazem parte da nossa Tabanca Grande, cujo número total de membros (entre os vivos e os mortos) ascende já a 543.

Dedicatória de Mário Beja Santos inserta neste livro:

À malta do blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, pela ajuda que me deu na pesquisa de livros esquecidos ou esgotados, um companheirismo espantoso;

ao António Duarte Silva, um amigo que dispõe de uma biblioteca surpreendente em tesouros da história e da literatura guineense, e que tem sido incansável com empréstimos e conselhos, sempre avisados e estimáveis;

à memória de Serifo Candé, de Mamadu Silá e de Ussumane Baldé, meus queridos camaradas do Pel Caç Nat 52, recentemente falecidos;

ao Armor Pires Mota, pela sua obra-prima "Estranha Noiva de Guerra";

à memória de Ruy Cinatti, a quem prometi, logo em 1970, que trataria com carinho este dever de memória, incluindo os testemunhos literários de combatentes e estudiosos.

Um livro a não perder, principalmente pelos interessados em literatura dedicada à guerra colonial, da Guiné particularmente. Para os menos endinheirados, na impossibilidade de comprar todos os títulos recenseados, poderão encontrar uma ajuda na selecção das obras a ler prioritariamente.

CV
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 7 de Março de 2012 > Guiné 63/74 - P9573: Agenda Cultural (187): Inauguração da exposição Guerra Colonial - Tarrafal 50 anos depois - CONVITE

terça-feira, 6 de março de 2012

Guiné 63/74 - P9569: Agenda Cultural (187): Djubi dé... su pui qu'el qui n' contau, na negal tudo! (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 2 de Março de 2012, dirigida a toda a tertúlia a propósito do seu próximo livro "Adeus até ao meu regresso", que vai ser apresentado pelo Cor Carlos Matos Gomes no próximo dia 29 de Março na Associação 25 de Abril:

Queridos amigos,
Seria reconfortante para mim ter a vossa companhia no lançamento desta compilação de olhares sobre as escritas dos combatentes da Guiné. 
Tomo a liberdade de vos mostrar a capa e contracapa e a apresentação. 
Conto convosco em 29 de Março, 5.ª feira, pelas 18.30h, na Associação 25 de Abril. 
O Coronel Carlos de Matos Gomes honra-me com os seus comentários sobre o livro. 

Um abraço do 
Mário


Capa do livro de Mário Beja Santos "ADEUS, até ao meu regresso"

Contracapa


DJUBI DÉ… SU PUI QU’EL QUI N’ CONTAU, NA NEGAL TUDO!*

A literatura da guerra colonial, não é novidade para ninguém, tem tido uma evolução surpreendente. Do virar do século à atualidade tem-se escrito muito mais ao ritmo do romance, das memórias e do ensaio que nas décadas anteriores. Parece que quem combateu em Angola, Guiné e Moçambique, hoje pelo menos sexagenário, se sente mais liberto, mais confidente, para contar o que experimentou, entre a ficção e a realidade.

Adicione-se um facto por vezes descurado, mesmo por alguns investigadores: aqueles três teatros de operações onde centenas de milhares de portugueses e africanos combateram entre 1961 e 1974 tiveram características tão diferenciadas, “inimigos” tão específicos e confrontaram-se com um poderio militar e uma capacidade de guerrilha tão singulares que marcaram indelevelmente os registos da escrita, tornando-os praticamente intransitáveis entre Angola, Guiné e Moçambique. Pode argumentar-se que havia a solidão, a angústia, o fragor da mina ou do fornilho, e que essas perceções têm um cunho universal. É verdade, mas é insuficiente: 10 quilómetros na Guiné não são os mesmos 10 quilómetros em Angola ou Moçambique. Os palcos de guerra tinham identidade, as árvores nomes próprios, havia o crioulo, o tornado, o macaréu, a lepra, os ataques com mísseis. Breve, realidades que o contador captou ou procura captar com cores próprias.

Este livro tem uma modesta ambição: repertoriar o que de essencial está escrito desde 1964 sobre a Guiné, os seus teatros de operações e os seus combatentes, em várias manifestações literárias: romance e conto, memórias, ensaios, história, reportagem, poesia e diário. Não é difícil perceber como é que o romance e as memórias superam as outras manifestações. O romance é sempre um confronto ao espelho, são verdadeiros combates corpo a corpo, há uma margem estreita que define o sulco que demarca o épico como testemunho da narrativa de vaidades disfarçadas de heroísmo vivido ou efabulado. A memória é diretamente proporcional à capacidade pronunciada pelo amadurecimento. Se é facto que em termos psicossociológicos se compreende a evolução do romance dos anos 60 à atualidade é manifestamente mais claro entender porque é que os grandes relatos memoriais são bastante recentes e no que toca à Guiné esses relatos atingem grande dimensão nos depoimentos do Comando Amadú Djaló, no Fuzileiro José Talhadas ou no Pára-quedista Moura Calheiros. O que se escreveu nos anos 60, tanto no ensaio, como na reportagem, como na narrativa, comportava compromissos indeclináveis: Manuel Barão da Cunha exalta a gesta dos seus soldados e mostra-se indignado com a indiferença da retaguarda; Amândio César sente-se imbuído pela defesa dos ideais do Império; Hélio Felgas faz um excelente trabalho de casa sem esquecer de promover a sua imagem.

Perto do 25 de Abril emerge uma figura espantosa, hoje de estudo obrigatório, José Martins Garcia, um açoriano que veio pôr as letras em polvorosa, caricaturando até ao derrube dos grandes ícones em que se constroem as mitologias militares. Os anos 80 anunciam outra viragem, os narradores ganharam distância, sentem-se afoitos a descrever relatos mais crus ou a desvendar tabus: basta pensar em José Brás, Álamo Oliveira ou Cristóvão de Aguiar. Na maturidade continuamos a ter surpresas na ficção: basta pensar em grandes parágrafos de Luís Rosa ou António Loja.

Quando chegamos ao virar do século, sentimos claramente quem escreveu para testemunhar e escreveu de uma vez e quem volta ”ao local do crime”. Por exemplo, Álvaro Guerra, no início da sua carreira literária, irá deixar parágrafos soberbos da sua experiência de combatente, depois parece ter encerrado o livro, não mais voltará à Guiné. Em etapas sucessivas, assistimos ao regresso de Armor Pires Mota; aliás, e na minha humilde opinião, além da singularidade de ter sido o único escritor combatente a ter deixado publicado um diário quase em tempo real, ele é autor da gema literária mais preciosa: “Estranha Noiva de Guerra”, um romance único que a crítica praticamente ignora. Coisas indecifráveis da literatura da guerra colonial…

É sobretudo aos sociólogos da literatura que compete apurar o que se passa nas entrelinhas, neste quase meio século de escrita polvilhada por minas e armadilhas, flagelações, atos de coragem, medos e delírios. Estes cientistas serão obrigados a ler peças da mais variada índole: relatos sem qualquer recorte literário com ressentimentos e azedumes, às vezes autênticos ajustes de contas; há depoimentos indispensáveis como os de Otelo Saraiva de Carvalho, Vasco Lourenço ou Salgueiro Maia, graças a eles percebemos melhor o evoluir da guerra, nomeadamente o que se passou na Guiné em meados de 1973 e as suas consequências, diretas e indiretas, nos acontecimentos do 25 de Abril; há prisioneiros do PAIGC, há estudos obrigatórios como os do João Paulo Guerra, há investigações monográficas como a História dos Fuzileiros, há antologias com depoimentos de combatentes, há relatos descritos como diários, há mesmo alguma poesia, alguma dela da autoria de vates da direita radical. Impunha-se, além disso, um pano de fundo para tão vasta boca de cena: é o caso de estudos incontornáveis como os de António Duarte Silva ou os trabalhos clássicos de João de Melo, Rui de Azevedo Teixeira e Margarida Calafate Ribeiro, investigadores com pergaminhos na análise literária na guerra colonial.

Importa insistir que estas recensões são olhares pessoais, são leituras interpretadas e sintetizadas, não podem ser tomadas como uma proposta antológica ou indicadores de qualidade. Durante mais de dois anos, com o apoio incansável de malta do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, amigos como o António Ernesto Duarte Silva, fui tendo acesso a este acervo, na sua maioria inacessível ao grande público. Procura-se acima de tudo ir ao encontro das interrogações do leitor não iniciado que mantém uma grande curiosidade em conhecer o âmbito desta escrita. Não há, nesta perspetiva, ambição mais legítima do que a de preencher uma lacuna: o que nos motivou ou motiva a escrever sobre a Guiné. O que nos reconduz a um dos mais espantosos parágrafos, escrito por Álvaro Guerra em 1973 no seu romance “O Capitão Nemo e Eu”: “Por lá chafurdei na lama das lalas, debati-me no turbilhão dos tornados, derreti-me na fornalha de um sol quase invisível, dissolvi-me na chuva vertical, e amei como um danado aquela terra que me injetou a febre, me secou, me expulsou a tiro. Mas nunca o preço do amor é excessivo, nem a presença da morte o pode aniquilar”.

Agradeço ao Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, uma reserva inesgotável de surpresas para quem quer conhecer a Guiné e a sua literatura, foi aqui que publiquei aos soluços todas estas notas de recensão.

(*) - Olha... se escreveres o que te disse, negarei tudo!

(Negritos e itálicos da responsabilidade do editor)
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 15 de Fevereiro de 2012 > Guiné 63/74 - P9490: Agenda Cultural (186): Exposição de fotografia do nosso camarada Renato Monteiro: Megastore Colorfoto, Av da Igreja, 30, D/E, Lisboa, até meados de Março de 2012